Sobre telas, gente que não vê televisão e, ainda, o Admirável Mundo Novo

train window 1Uma das maiores virtudes de um bom livro é permanecer vivo na mente por mais tempo do que o ordinário do restante que se lê. Assim é comigo. Enquanto ainda não posso devorar Amusing ourselves do death, sigo matutando sob o impacto do futurismo distópico de Huxley. Aqui, especulando sobre o que seria, em nossa civilização, análogo ao soma.

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Frequentemente topo, em conversas que tenho no facebook, com gente que não assiste TV. Fosse eu um antropólogo, entrevistaria tantos destes espécimes quanto conseguisse.  Pois se tratam, praticamente, de selvagens, heroicamente sobrevivendo numa era de (ainda) hegemonia televisiva.

Televisão não quer dizer hoje a mesma coisa que significava quando foi inventada. No início e por um bom tempo, a TV só dava acesso à visualização de conteúdos de pouquíssimas redes e emissoras. Então vieram os canais a cabo e por satélite, bem mais diversos. Hoje, telas adquiridas como aparelhos de TV são amplamente utilizadas para a visualização, bem mais customizável, de séries no Netflix ou vídeos no Youtube. Diante de tais possibilidades, millennials se interessam cada vez menos por conteúdos da TV aberta – preferindo, antes, garimpar conteúdos melhores na internet. Tenho que concordar que não é nada difícil.

Se por um lado a qualidade das grandes telas, propícias à sinestesia, melhorou tremendamente, é preciso também que consideremos outro aspecto importantíssimo de sua evolução, a saber, a miniaturização. Cujo “estado da arte” é hoje o telefone celular.

Tendo surgido despretensiosamente como mera extensão móvel do telefone fixo, o celular logo se revelou um Gargantua de funções ao incorporar, pouco a pouco, recursos de internet. Mais: em memórias cada vez mais generosas, tem hoje residentes, em boa resolução, toda a música que alguém gosta de ouvir, suas imagens favoritas e acesso imediato, por vários meios, a qualquer de seus amigos, colaboradores ou conhecidos. O que mais alguém pode querer para ser feliz ?

Desde que o celular se tornou demasiado interessante para só ficar guardado no bolso, sua onipresença se tornou facilmente constatável em quaisquer ambientes.. Cada nova geração do iPhone é aguardada e celebrada como um título mundial. Já foi até noticiado o caso de um “empresário” que aluga aparelhos caros (e vistosos !), sem linha, a usuários que fingem usá-los em festas. Youtubers são campeões de audiência, e há mesmo quem prefere adormecer olhando para uma tela. A primeira coisa que a maioria dos jovens trata de descobrir ao adentrar um novo ambiente é a senha do wi-fi.

Em nossa civilização, passamos uma parte considerável de nossos dias em deslocamento de um lugar a outro. Estejamos atravessando bairros, cidades, países ou continentes, é predominantemente nestes momentos que vemos o mundo ao redor. Antes, era comum se espreitar o mar sobre decks de navios, ver a paisagem através de janelas de trens, ônibus ou carros, de bicicleta ou a pé, ou até por escotilhas de aviões. Hoje, quase sempre em lugares públicos estamos cercados por pessoas com a atenção drenada pelas pequenas telas de seus dispositivos móveis. É o mesmo em meios de transporte, salas de espera, mesas de bares e restaurantes e, se deixarem, até em salas de aula.

Face a tudo isto, gosto de pensar que o soma, idealizado por Huxley como uma substância capaz de anular toda possível frustração (que garantia, portanto, em seu livro, uma civilização sem tédio), é, em muitos aspectos, análogo ao que temos hoje no telefone celular. Poderia explicar em miúdos, mas seria um insulto à inteligência dos leitores.

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Por que não ouço rádio (ii)

as-25-musicas-mais-tocadas-em-radios-brasileiras-3Nos últimos dias, esta lista pipocou em meu timeline, guarnecida por cabeçalhos que variavam do conformismo à indignação. De pronto chamou minha atenção que ela era compartilhada praticamente como um meme por pessoas que reputo como musicalmente esclarecidas. Bem esclarecidas. Especialistas, até, na maioria dos casos. Talvez por isto, não me dei ao trabalho de verificar a fonte da informação, nem de conhecer o universo amostral. Pois, dependendo da região de abrangência geográfica, da estação pesquisada ou mesmo do fato dela ser de AM ou FM, é claro que a lista seria sempre bem diferente.

Supondo, então, pela credibilidade dos compartilhadores e pelo senso comum de quem já zapeou por um dial de rádio, que os dados da lista estejam corretos, chegamos inevitavelmente ao problema de explicar por que músicas tão ruins sejam também, senão as mais escutadas, pelo menos as mais tocadas por estações de rádio. E, indiretamente, à imponderabilidade semântica da palavra popular.

Pois o “gosto popular”, no sentido daquilo que as pessoas escolhem ouvir, é largamente condicionado por aquilo que as mesmas conhecem. Ao mesmo tempo, hoje as pessoas conhecem muito mais a música que toca em meios de comunicação de massa (broadcasting) e, em contextos mais conectados, nas redes sociais; do que aquela que (quando há) é produzida ou praticada em cada lugar. Então, o rádio ainda é, principalmente entre os segmentos menos conectados, o maior vetor de conhecimento de praticamente tudo o que alguém pode querer ouvir. Pois, como disse Adorno (em defesa da música de Schoenberg), “só se gosta daquilo que se conhece.”

(lembro sempre de Bruno Kiefer dizendo, numa aula de música brasileira, se se enganavam os que tomavam por música popular aquilo que ouviam no rádio)

Percebem o ciclo vicioso ? Enquanto produtores e gravadoras dominarem, mais comumente pelo expediente do jabá, a programação do que é tocado em estações de rádio comerciais, a audiência não será mais do que massa de manobra, doutrinada para o consumo de bens que anunciantes queiram vender, aí incluídos e principalmente os produtos sonoros.

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Do pouquíssimo que sei de economia, consta como um dos princípios pétreos do estado liberal o de permitir (leia-se ao capital empreendedor) a exploração dos segmentos mais rentáveis da economia e assumir aqueles que, conquanto deficitários, são essenciais à preservação do tecido social. Como saúde, educação e segurança. Entusiastas de um estado mínimo já falam abertamente de um certo caráter supérfluo da cultura e até mesmo da extinção de disciplinas e redução de investimentos em educação pública. E a direita, hora empoderada, vê na cultura e mesmo em disciplinas como história, filosofia, sociologia, artes e afins pólos de geração e irradiação de pensamento de esquerda. Mas isto já é outro assunto.

O que nos interessa, neste momento, é que muitos grupos demográficos, ainda sem acesso à internet, ainda estão exclusivamente conectados (e de modo apenas unidirecional, ao contrário do que se dá na web !) ao mundo por meios de broadcasting. Então, mesmo que as frequências de rádio e os canais de televisão aberta sempre tenham sido sustentados por receitas próprias, oriundas da cessão de tempo de broadcasting a anunciantes, isto não significa que a exploração do que é veiculado (em ondas que, afinal, existem de fato num espaço público !…) no rádio e na TV deva ser concedida “naturalmente” (i.e., tendo por base exclusivamente históricos exitosos de investimentos privados no setor) à iniciativa privada. Qual o ganho público ? Quem lucra mais: produtores ou espectadores ? Se forem estes os critérios, então, o atual sistema de concessão de frequências de rádio e TV claramente não satisfazem.

Em emissoras públicas, ao contrário, a atribuição de relevância a cada conteúdo jornalístico ou artístico concorrente à grade de programação é orientada sempre pelo interesse público – que não é, como vimos acima, o gosto do público (pois o que cada um gosta de ver não é, na maioria das vezes, o que cada um gostaria de ver, fosse maior o leque de opções). Nelas também se dá o predomínio de músicas e outros conteúdos produzidos localmente e/ou por pequenos produtores e tendo em foco personalidades locais ao invés de celebridades.

Então, conquanto deva haver vários outros motivos, só as razões elencadas acima já são, por si só, suficientes para que se queira abolir, por norma constitucional, a concessão de licença para operação de prefixos de rádio e TV a entidades cuja existência não seja dedicada, por força estatutária, ao interesse público, garantido por meio de dispositivos de controle social. Como universidades, fundações culturais, museus, teatros e afins. Com programações orientadas por diversidade cultural e mérito artístico, por exemplo (algo que, por definição, não há no rádio nem tampouco na TV privados). Notem, também, que deixei igrejas fora desta lista (pois religião e interesse público não tem nada a ver um com o outro). Imaginem passear por um dial povoado por estações geridas por instituições assim.

Se esta miragem não lhes parecer por demais utópica, defendam a imediata revisão dos critérios para concessão de frequências de rádio e canais de televisão, em nome da inclusão de dispositivos que garantam o controle social sobre seu interesse público. Obrigado.

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Paneladas, telechefs e uma introdução aos reality shows culinários

Se isto fosse um texto semiótico, teria mais provavelmente como título algo como, por exemplo, Breve ensaio exploratório, praticamente um mapeamento de campo (mapa conceitual também é legal !), sobre as múltiplas interfaces entre a comida e sua imagem em mídias eletrônicas e anteriores. […] (Só não sei se, na web, alcançaria algum leitor com um nome desses…). […] Então, pelo sim, pelo não, em nome de qualquer possibilidade de interlocução com um leitor aleatório (por isso amo tanto a web !), é bom começarmos por algumas definições.

Panelada é todo aquele tipo de comida cujos ingredientes, após longo tempo de cozimento, se amalgamam de tal modo que quase não podemos distinguir uns dos outros. Pertence a esta categoria todo molho à base de carne, cebolas ou tomates, condimentado das mais diversas formas e servido acompanhado de amidos neutros como massas, polenta, arroz, batatas e afins. Talvez as paneladas mais populares sejam os ragús, tanto de nacos de carne de panela como porpetas (almôndegas) ou braciolas (bifes enrolados, mais comumente recheados de bacon, cenouras e pimentões).

Numa acepção mais ampla, incluiríamos, ainda, entre as paneladas, toda variação de ensopados e cozidos populares locais tais como, entre outros, a feijoada, o mocotó, risotos, guisados (ensopado com legumes ou como recheio (de abóboras, pimentões, escondidinhos e congêneres)), moquecas, rabadas, cassoulet, paella, puchero, kapuzta ou borscht.

Me afeiçoei ao termo panelada ao me deparar com ele numa coluna gastronômica que havia anos atrás na última página da Carta Capital. Nela, o crítico falava de uma confraria que explorava os mais obscuros recantos da cozinha paulista em busca da panelada ideal – que consistia, para alguns, num ragú servido sobre uma manta de polenta despejada numa superfície de mármore.

A comida de panelada pertence ao domínio da cozinha cotidiana familiar. Quando muito, do livro de receita. Com o advento de mídias visuais como o cinema e, especialmente, a televisão, a panelada mergulhou no ostracismo, ao nosso ver em razão de não ser, de modo algum, fotogênica. Senão, avaliem com seus próprios olhos.

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comida de chef ou designer

comida de panelada

comida de panelada

Já a expressão telechef, autoexplicativa, é aqui utilizada para designar todo cozinheiro a protagonizar programas de TV. Peguntei no facebook quais os principais. Me falaram de gente como Julia Childs (grande pioneira, vivida nas telas pela não menor Meryl Streep), brasileiros como Ofélia, Palmirinha e Chef Álvaro e gaúchos como Dona Mimi Moro, Aninha Comas e Rosaura Fraga. Adicionem à lista celebridades internacionais como Jeff Smith (1938-2004), apresentador do Frugal Gourmet na PBS (rede de TV pública norte-americana, mais ou menos nos moldes da BBC) de 1983 a 1997; nacionais como Olivier Anquier ou ainda locais como José Antônio Pinheiro Machado, mais conhecido como Anonymus Gourmet.

Dentre tudo o que rapidamente inventariei, o destaque absoluto vai para Zeloni Forno e Fogão. Sim, com ele mesmo, o ator da Família Trapo, que foi o primeiro homem a protagonizar um programa de TV culinário. No qual fazia comerciais ao vivo. Sério.

(pensando nisso, não há como não reconhecer que a qualidade da programação televisiva despencou muito com o passar do tempo…)

Talvez vários desses programas sejam para muitos de vocês, assim como para mim, absolutamente desconhecidos. Isto por que a popularidade de todo programa de TV é indissociável do grau de abrangência do meio no qual é veiculado. De modo que programas em rede nacional devem ser mais populares do que programas locais e programas de TV aberta devem ser mais vistos do que os que vão ao ar em canais por assinatura (seja ela a cabo ou por satélite). Será ? Não sei. Em tempos de canais globais e, sobretudo, de internet, não é seguro assumir qualquer premissa sobre a popularidade relativa entre quaisquer meios.

Suficiente, então, ante tais incertezas, termos em mente estarmos diante de telechefs de diferentes grandezas, em razão de por quantas pessoas são vistos ou pelas quais são conhecidos. Também é razoável supor que, dada a presença hegemônica de programas culinários em todos os meios televisivos, hoje qualquer pessoa conhece ou já ouviu falar de algum telechef. Ao ponto de podermos assumir também a premissa de que, se antes da televisão o conhecimento culinário era transmitido quase sempre na família ou por livros de receita, hoje a aquisição da habilidade com as panelas se dá predominantemente por imagens de cozinheiros em ação. E de comidas. Então, se no livro de receitas a comida aparece descrita sob a forma de uma relação de ingredientes e instruções de preparo – restando, portanto, ser imaginada pelo leitor (daí as infinitas leituras de uma mesma receita !), na tela da TV ela é plenamente materializada, nada restando para a imaginação além do que já é facultado pelos sentidos.

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Dentre os deliciosos filmes arrolados por meus interlocutores virtuais se destacam O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante; A festa de Babete; Tampopo; Os sabores do palácio; A 100 passos de um sonho; Vatel; Simplesmente Martha; Ratatouille; Volver; Julie & Julia; Lunchbox; Estômago; A comilança; Como água para chocolate; Comer, rezar, amar; Chef; Toast; Comer, beber, viver; Sem reservas; Como um chef; Pegando fogo; O sabor de uma paixão; Simplesmente Irresistível e Dieta Mediterrânea. Um talentoso chef, especializado em cine-banquetes (gênero de evento que merece tratamento à parte), diz já ter contabilizado 120 filmes sobre comida. Dentre eles, apenas um brasileiro: Estômago. Em cujo cine-banquete o dito chef ousou servir, como acepipe, coxinhas. O mesmo cozinheiro já dedicou um evento a Hannibal. No qual serviu miolos. Bovinos, é claro.

(quando relatei a um amigo espirituoso que um chef já realizara um cine-banquete sobre Hannibal, não logrei suscitar o espanto desejado. Ao contrário. Meu amigo disse que um banquete sobre o canibal era “fichinha”; queria ver é alguém conseguir realizar um sobre A Comilança…)

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kitchen 1Em filmes, cozinhas são, na maioria das vezes, ambientes assépticos, com muito aço e ladrilhos brancos, por vezes com alguns tijolos à vista utilizados por cenógrafos para evocar construções mais antigas ou tradicionais. A contrastar com a economia visual  espartana da cozinha, há sempre, ao lado da mesma, o aconchego de um salão  cuidadosamente decorado.

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Enquanto cozinhas são velozes, salões são lentos. É como se cada prato, depois de percorrer velozmente uma série de bancadas de aço inox onde é preparado, montado e decorado por vários cozinheiros, passasse, a partir do instante em que atravessa a porta dupla automática (com janelas redondas, em forma de escotilha, a impedir que garçons eventualmente se choquem correndo entre a cozinha e o salão), a se movimentar lentamente. Salões também costumam ser retratados como mais silenciosos do que cozinhas.

Relações de poder são muito claras em dramas de cozinha, cujo organização, em grandes hotéis ou restaurantes, obedece invariavelmente a uma hierarquia muito clara, com muitos cozinheiros sob as ordens absolutas de um poderosíssimo chef, incensado por críticos (os deuses da gastronomia, segundo a elegante restauranteur em A 100 passos de um sonho), mantido por clientes e secundado por um leal e dedicado sous chef que deve ser, antes de tudo, também um admirador submisso do chef. Filmes como Pegando fogo, A 100 passos de um sonho e Ratatouille, entre outros, exploram a possibilidade um tanto óbvia de um par romântico entre chef e sous chef.

Além do crítico, do chef e do sous chef, outra figura essencial à toda trama culinária é a do cozinheiro invejoso, que tenha saído perdedor em algum conflito anterior com o chef em ascenção (em muitos filmes em busca de uma cobiçada nova estrela no guia Michelin) ou, por vezes, até um sabotador. Nestes casos, ratos e comida estragada plantados no restaurante são clichês.

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Muito embora os telechefs tenham se popularizado desde os primórdios da televisão, é com a expansão dos sistemas de TV por assinatura que vivem seus dias de maior glória. A ponto de haver canais exclusivamente a eles dedicados, como, por exemplo, um que existe na Argentina transmitindo programas culinários 24 horas por dia.  Aqui mesmo já há programas de fôlego. Como o especializado Que seja doce, levado ao ar diariamente (o que não é pouco !) pelo canal GNT.

Ao contrário dos chefs vividos no cinema, que cozinham em frios e assépticos ambientes profissionais, telechefs pilotam aconchegantes cozinhas decoradas de modo a conotar espaços domésticos, do tipo que qualquer cozinheiro gostaria de ter em casa.

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Cozinheiros e comilões, estariam perfeitamente bem servidos por filmes, telechefs e livros de receitas sem que precisassem ser violentamente bombardeados pela mais ignóbil e perversa mídia culinária jamais inventada, a saber, os reality shows de cozinha. Já foi dito que, neles, a comida é mero acessório. Nestes programas, narcisismo, competição predatória, autoritarismo exacerbado e bullying são moeda corrente. Os que envolvem crianças (que aparecem com o consentimento dos pais face à absoluta omissão do poder público) são particularmente indecentes. Face ao que se vê nestes programas, é perfeitamente compreensível (conquanto jamais justificável) que aconteçam coisas como, por exemplo, uma de suas protagonistas sendo alvo de ofensas pedófilas em redes sociais.

Como, no entanto, todo texto sobre comida deve permanecer, idealmente, leve (ou, com a licença da palavra, digesto…), devemos deixar os reality shows culinários provisoriamente de lado. Até por que os mesmos não podem ser vistos sem ser a luz do formato genérico a que pertencem e da patologia social a que estão associados.

 

 

Sobre lutas, rinhas e a relatividade moral

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Ontem, compartilhei no facebook uma excelente matéria do Guardian na qual se afirma, entre outras coisas, que o box é violento por definição, explora pessoas da classe trabalhadora, é perigoso e celebra a violência e a competitividade individual. Concordei de pronto, estendendo o argumento, para além do box, a todas as lutas de arena – dentre as quais as mais violentas atraem mais atenção midiática e, portanto, patrocínio. Pensei até em traduzir. O Milton disse que é fácil e rápido. Discordo.

Hoje, me acordei intrigado com o fato de que, enquanto rinhas entre animais, como galos ou pitbulls, são proibidas por lei, lutas entre humanos, inclusive as mais violentas, são não apenas permitidas mas largamente promovidas pela indústria do entretenimento. Ou não teríamos em Anderson Silva uma espécie de herói.

Qualquer um percebe que toda moral é relativa, não se precisando, na maioria das vezes, ir muito fundo para descobrir a que interesses servem. Imaginem, por exemplo, se alguém publicasse hoje as fotos de meninas de um David Hamilton ou mesmo Lewis Carroll. Não há, por outro lado, nenhuma diferença essencial entre uma luta de MMA e a rinha, suponho que clandestina, de mandingos mostrada por Tarantino em Django. Houve, então, claramente, um acirramento e uma flexibilização, respectivamente, num caso e noutro, de um entendimento sobre o que é ou não socialmente tolerável.

Ou, dito de outro jeito: no primeiro caso, o que já foi visto como arte é hoje tido como pedofilia, ao mesmo tempo em que, no segundo, a mesma violência que repugna na mansão de um antigo escravagista é divertida para quem assiste, ao vivo ou pela TV, ao que se passa entre as cordas de um ringue em Las Vegas.

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(cheguei a salvar umas imagens de lutas de MMA para ilustrar o post mas, francamente, não quis submeter amigos a que as vissem em suas timelines – pois deve haver, afinal, outros que, além de mim, fechem os olhos diante da cena dos mandingos de Tarantino. Melhor, pensando bem, uma ninfeta de Hamilton)

Da propaganda (ii): o parêntesis da TV

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Quando falei da obsolescência da propaganda em meios de comunicação de massa, previ certas reações, mas não obtive uma das respostas que mais esperava, a saber, a de que a propaganda já está migrando dos broadcasting media para a web, interativa por definição. Pois a possibilidade de publicar todo e qualquer comentário, em que pesem diferentes graus de moderação por proprietários de postagens iniciais, é, sem sombra de dúvida, a principal diferença entre qualquer rede social e todo meio de broadcasting.

Ferramentas de busca vendendo anúncios não são nenhuma novidade. Só que até canais de TV por assinatura, sejam a cabo o mediados pela web – e que antes eram add free ! – começaram recentemente a exibir anúncios. Como bem notou, esses dias, Luiz Afonso Alencastre Escosteguy.

Enquanto isto, José Agustoni me perguntou que alternativas de custeio poderiam ter os atuais meios de comunicação de massa uma vez abolida toda publicidade. Na hora, só lembrei de mencionar sua absorção pelo estado, tendo que reconhecer, no entanto, que o mesmo talvez não tivesse a capacidade para administrar tantas emissoras. Ao menos, não o estado como conhecemos até aqui.

Mas quem, afinal, precisará da TV aberta (i.e., gratuita e minimamente custumizável) dentro de um futuro não muito distante ? Poderíamos, então, muito bem estar vivendo nos últimos anos de algo que poderia ser formulado como um parêntesis da TV, sob os mesmos moldes do parêntesis de Gutenberg, segundo o qual a televisão (inicialmente a aberta e, logo, também as por assinatura) estaria com os dias contados, tendo, portanto, um período de existência se estendendo desde seu advento comercial até meados do século 21. Ou seja, provavelmente, bem menos do que uns 100 anos.

A mídia impressa não se encontra menos terminal. Tanto que especuladores profissionais do setor já proclamam slogans como “impresso, digital ou o que vier” enquanto migram ativos para commodities mais seguras. Comprando vinhedos em parceria com grandes enólogos, por exemplo. Mas isto já é outra conversa.

Como vimos, a razão da perda progressiva de interesse pela TV e pelo rádio é sua falta de interatividade. Ou seja, nativos digitais preferem, por definição, interagir sobre coisas bem menos interessantes, como jogos, imagens (selfies, foodporn, etc.) ou meras redes de fofoca do que, por exemplo, visualizar conteúdo não interativo bem mais interessante e facilmente customizável em muitos canais de broadcasting ou, se preferirem, “mão-única” (como por exemplo, Discovery ou National Geographic, para citar só um tipo de programação qualificada). O fato de que isto tem a ver com a presença e ausência, respectivamente, num (broadcasting media) e noutro (redes sociais) de interatividade pode ser confirmado numa conversa com qualquer nativo digital.

Por tudo isso, acho que teremos cada vez mais fluxo publicitário em canais de entretenimento. Tanto na TV como na web. Queiramos ou não, Luiz Afonso. Feliz aniversário !

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