Esquerdopatas, petralhas e bolsominions; ou De como não inviabilizar um debate antes mesmo de começá-lo

Sempre que me deparo com expressões como “esquerdopata” ou “petralha” tenho imediatamente a vontade de me retirar do embate (pois este tipo de confronto não é digno do nome debate), deixando o(s) interlocutor(es) falando sozinho(s). Não preciso explicar outra vez por que considero ataques ad hominem – ou, como também são conhecidos, falácias de envenenamento do poço – um dos recursos mais mais pobres, rasantes, a serem utilizados numa contenda verbal, e por isto mesmo só empregado pelos piores argumentadores.

Não que este tipo de desqualificação sumária do(s) adversário(s) seja um expediente de uso exclusivo dos que se situam no campo ideológico da direita, como os exemplos por mim inicialmente citados podem dar a entender. A expressão “bolsominion”, porquanto divertida, talvez pela alusão aos simpáticos vilõezinhos à procura de um líder, é tão repulsiva quanto aquela que dá nome a este post. O recurso a umas ou outras mina, pelo escárnio que encerram, qualquer possibilidade de êxito num debate político – que é, a saber, a conversão à própria causa, pelo esclarecimento, de alguém anteriormente situado num campo adversário.

Devo confessar que eu mesmo já me vali, em mais de uma ocasião, movido pelo calor da discussão e seduzido por seu potencial cômico, de termos plenissignificantes como “bolsominion” – fato pelo qual me arrependo enormemente e doravante me policio para não repetir.

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Numa primeira análise, todos estes neologismos amplamente usados em pseudo campanhas políticas na internet visam a desqualificação prévia de adversários antes mesmo que seus argumentos sejam levados em consideração. É o que define a falácia do envenenamento do poço. Digo pseudo campanhas por que, sempre nestes casos, um lado trola o outro, sem sequer confrontar as bases de cada ideologia em questão – tudo se reduzindo, ao fim e ao cabo, a uma extravasão de ódio ao diferente. Em sua especificidade, tais termos assumem, no entanto, nuances bem distintas, as quais devemos examinar.

É difícil estabelecer a etimologia exata de uma expressão que viralizou como “esquerdopata”. Se o termo se originou num contexto raso, podemos inferir que denota um psicopata ou sociopata de esquerda. Numa versão repaginada, digamos, do clássico comunista comedor de criancinhas. Alegações recentes de apologia à pedofilia em exposições artísticas corroboram esta hipótese. Outra, mais insidiosa, sugere que o termo qualifique a priori o pensamento de esquerda como uma patologia, i.e., uma doença a ser combatida e/ou curada. Particularmente, acho a segunda hipótese muito pior do que a primeira, já que desmentir a alegação de que todo esquerdista é um assassino em potencial é muito mais fácil do que demonstrar que ele não é portador de nenhuma doença infecto-contagiosa, disseminada através de suas palavras, e que deve ser, portanto, evitado.

Já o termo “petralha” é mais francamente jocoso, por tentar mascarar o fato de existirem ladrões e oportunistas em qualquer partido político com a associação gratuita e leviana de que todo petista é ladrão. “Bolsominion” vai mais ou menos nessa mesma linha, identificando simpatizantes de Bolsonaro com um bando de malvadinhos acéfalos.

Inventariadas estas reduções pejorativas, temos que, enquanto a direita tenta desqualificar a esquerda mais com imputações de desvios de caráter, esta rebate com alegações de que militantes de direita não passam de inocentes úteis, desprovidos de inteligência e pobres de espírito. Se considerássemos apenas estes qualificativos, todo o conflito entre esquerda e direita não passaria, então, de uma disputa entre burros e malvados.

Com acusações assim de um lado e de outro, que variam do escárnio ao ódio, não é difícil entender por que o debate sobre o progresso da nação parece não evoluir nas redes sociais, mesmo quando nos dispomos a incluir entre nossos “amigos”, em prol do rompimento das bolhas discursivas, representantes fervorosos de ideais que abominamos.

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Jamais me esquecerei de um amigo dizendo, ao contemplar a passagem de um ônibus repleto de jovens ruidosos gritando bobagens pelas janelas, que “o ser humano em grupo é sempre mais idiota”. Isto já faz muitos anos. Mas lembrei ao pensar em por que nos regozijamos em trolar, por meio de memes ou tiradas engraçadinhas, adversários ideológicos no conforto da bolha dos que simpatizam com nossas ideias e atitudes.

Até que, hoje, em meio a uma daquelas longas discussões que não quis causar, depois de acusações de toda sorte e ácidas ironias, me assustei quando um dos contendores proferiu, ao se despedir, algo como “esperem para ver o que pensa o Brasil em 2018”.

Senti um calafrio. Pois, por mais que eu acredite estar do lado da razão e da justiça, tenho medo do próximo resultado das urnas. Principalmente por que, enquanto a esquerda se esfacela em busca de uma liderança que melhor a represente (qualquer escolar percebe isto), a direita tem se revelado enormemente pragmática e, o que é muito mais grave, proselitista.

Então, simplesmente não acho seguro ficar sentado sobre minhas convicções, à espera de que, no próximo pleito, a maioria ouça a voz da razão e varra de uma vez por todas os males que afligem a nação, hoje melhor traduzidos no programa da direita – do qual não tratarei aqui por fugir demasiado ao foco deste texto.

Outrossim, conclamo os que me acompanharam até aqui nesta linha de raciocínio a, ao invés de, nas próximas oportunidades em que se virem diante de adversários políticos, odiarem os mesmos ou deles escarnecerem – argumentarem, isto sim, de modo a convertê-los, ainda que parcialmente, a posições mais razoáveis e socialmente justas. Não deve ser tão difícil, dada a fragilidade intelectual da agenda da direita. Despersonalizem a discussão, os incentivando a, em vez de dar tanta atenção a palavras de quem identificam como adversários (às quais, automaticamente, pensarão em refutar), procurar se informar em fontes independentes (devidamente curadas, já que ninguém é bobo). Pois que prazer intelectual maior há do que o de seduzir, pela qualidade dos argumentos, um adversário ?

Anotem aí. A revolução não vai se dar pelar armas, muito menos pelo bate-boca pré-eleitoral. Quando vier (espero que já em 2018), será, antes de tudo, uma revolução cognitiva.

Pare de reclamar de tudo no facebook !

Desde que, anos atrás, comecei a interagir no facebook, tenho a plataforma como uma fonte privilegiada de informações. Pois, no excesso digital, é bom poder contar com recomendações estratégicas de pessoas confiáveis para filtrar o que lemos, vemos e ouvimos. Só que nem tudo nele é necessariamente instrutivo ou edificante. Há, é claro, os trolls, cuja personificação mais atual e emblemática são o MBL e os bolsominions, os quais são profilaticamente excluídos por muitos amigos, mas que mantenho só para ser lembrado que há vida discursiva (não me atrevo a dizer inteligente) fora das bolhas nas quais se constituem nossas redes.

Preocupantemente, vem se tornando cada vez mais populares as postagens breves e avulsas (i.e., não vinculadas a nenhum link) nas quais o vivente se limita a soltar o verbo para desabafar em relação a, digamos, pequenos reveses e frustrações do cotidiano. Eu mesmo devo confessar que já fiz isto em mais de uma ocasião – como, por exemplo, quando reclamei da música que tinha que ouvir compulsoriamente na academia de ginástica. Ao me dar conta de que, com este tipo de comentário, não mais do que poluía timelines alheias, comecei a tentar reprimir este impulso. Ainda que o mesmo seja, por vezes, mais forte do que eu.

Não falo aqui, é claro, de expressões de descontentamento de cunho político, com uma clara finalidade ativista, destinadas primariamente a provocar uma reação de contrariedade que possa vir a se refletir em instâncias concretas tais como as urnas em pleitos vindouros. Falo, antes, do pequeno desabafo, sobre o sapo que tivemos que engolir ou algo que tenha ficado atravessado na garganta mas que, uma vez repartido (e para isto as redes são ótimas !), podemos simplesmente esquecer e partir prá outra.

Mais: é preciso admitir que há um certo gozo em blasfemar no facebook, pouco ou nada importando contra o que.  É como se, desfiando nossas pequenas frustrações diante dos olhos de amigos, as exorcizássemos – já que, sem as redes, na maioria das vezes ficaríamos com aquilo remoendo, a prejudicar nossa preciosa concentração, até encontrarmos alguém disposto a escutar nossas lamúrias. O que, na solidão inerente à vida offline contemporânea, pode levar muitas horas ou, em alguns casos, vários dias.

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Dito isto, não me tomem muito a sério. Ou nada a sério. Pois, dentre as coisas mais divertidas que aparecem no feed, figuram com certeza as incontáveis manifestações de solidariedade ou repúdio às queixas postadas. Consoante a isto, não vou excluir (nem quero reprimir) aqueles mais reclamões – entre os quais prontamente me incluo.

Longe de mim, além disto, pregar a higiene virtual com base numa moral prescritiva. Afinal, as redes estão aí para cada um usar do jeito que quiser. E, convenhamos, nelas já vi diatribes divertidíssimas – bem melhores, sem dúvida, do que a maior parte da comédia televisiva. Tomem, então, este breve post como uma exortação ao xingamento.

Por que manter perfis fechados em redes sociais e um absurdo elogio ao pensamento único

Até a semana passada, nunca havia me preocupado com as implicações de ter no facebook um perfil aberto, que pode ser lido por todos, ao invés de fechado, que pode ser visto só por amigos. O velho dilema entre manter, em redes sociais, um discurso público ou privado. Para ter um maior controle sobre o conjunto daqueles com que me disponho a conversar, ou mesmo por puro conservadorismo, optei, ao entrar no facebook anos atrás, por um perfil fechado por default. Em que pese, em tal ato, a flagrante contradição entre manter um perfil mais reservado e defender, ao mesmo tempo e em nome da eficácia argumentativa, a ruptura das bolhas discursivas.

Como dizia, me intriguei ao ver dois amigos, desconhecidos entre si, anunciarem, praticamente ao mesmo tempo, sua intenção de deixar a plataforma devido ao mal estar sentido em razão de ataques (presumo que contraditórios desqualificados) sofridos no facebook. A princípio estranhei um pouco, pois jamais me importei com vitupérios deixados aqui ou ali por pessoas de viés ideológico diametralmente oposto ao meu – os quais alguns preferem chamar de trolls – que insisto, no entanto, em manter na timeline tão somente pela diversão e instrução que me propiciam. No mínimo, ajudam a sentir a temperatura do mundo lá fora.

Ao anunciar, todavia, uma possível intenção de abrir meu perfil, fui alertado por outro amigo que deveria, antes, estar preparado, pois visões contrárias viriam com tudo, da pior forma possível. Demovido, assim, do propósito de “dar a cara ao tapa” mais do que já dou, tratei de entender um pouco melhor a diferença entre interações (curtidas e, principalmente, comentários) que se produzem sob perfis fechados e abertos. Felizmente, há um contexto experimental privilegiado para isto – a saber, as postagens de divulgação do que escrevo neste blog, de um lado em meu perfil fechado e, de outro, no perfil aberto do Sul 21.

O contraste entre o teor e o tom predominantes nos dois ambientes é gritante. Há, de fato, em meu perfil fechado, entre uma grande maioria de manifestações de apoio e concordância ao que digo, um ou outro comentário de cordial discórdia, quase sempre no intuito de contribuir com o aprimoramento do argumento. Costumo agradecer. Pois, na economia da atenção, o maior prêmio possível é o contraditório qualificado. E há, claro, vez que outra, algum troll vociferando, para meu deleite e dos demais leitores. Também agradeço. Pois o que seria do circo sem palhaços ?

Já uma comunidade bem diferente se amontoa nos comentários sob as postagens de divulgação de meus textos, quase sempre provocações com endereço certo, no perfil aberto do Sul 21. Lá coexistem tanto manifestações de solidariedade como francos ataques às ideias defendidas no blog. Dentre os últimos o que mais chama atenção é a pobreza de linguagem, por vezes apelando ao baixo calão, e os ataques ad hominem (a falácia do envenenamento do poço, que me é tão cara). Não sofro, no entanto, com isto. Antes, me divirto. Além disto, tais bravatas ajudam, na maioria das vezes, a perceber quando consegui mexer num vespeiro.

Pensando bem, talvez meus amigos tenham razão ao aconselhar a manutenção de um perfil fechado. Pois ver desaforos, num perfil aberto mais impessoal, só quando estamos dispostos a isto é uma coisa. Outra, bem desagradável, deve ser ter que se deparar com a legião de trolls sempre que entramos na rede para, ao fim e ao cabo, nos pormos a par do que acontece no mundo. Nestas horas, olhares amigáveis não tem preço.

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Ainda que este post possa ser rapidamente classificado como de netiqueta, tratando antes de tudo da higiene virtual, não há como não tergiversarmos sobre um tema que, sutilmente, o perpassa (sempre quis usar esta palavra !) – a saber, a tolerância e, mais do que ela, o apreço ao contraditório. Com isto em mente, devo confessar meu choque ao me deparar, na timeline, com a reprodução de uma coluna de David Coimbra em ZH (perguntado, me apressei em dizer que não assino o tabloide) que se constituía num dos mais flagrantes elogios ao pensamento único que eu jamais vira. Não vou conspurcar este espaço com uma transcrição integral, mas alguns trechos da peça do moço, pelo qual ZH optou ao demitir Verissimo, realmente valem a pena. A começar pelo título:

Chega de provocar o debate. Por que ofender as pessoas ?

É claro que estas frases funcionaram como um imã para a leitura do texto que seguia, cujas passagens mais obscurantistas são:

” … as pessoas se tornaram sensíveis demais, hoje em dia. É muito difícil não ferir suscetibilidades. Mas me rendo. Não escrevo para fazer mal às outras pessoas. Então, se percebo que alguns ficarão tristes se escrever algo, não escrevo algo. *

Não é a reação furiosa, a crítica feroz ou a movimentação de algum grupo que me faz parar. Ao contrário: quando me atacam, a minha tendência é revidar com mais força. O que me deixa chateado é deixar alguém chateado. ”

” … no suscetível mundo do século 21, tudo é, exatamente, contra ou a favor, sim ou não, branco ou preto. Assim, o cristão que hoje se sente ofendido amanhã vai ofender e a resposta virá e a tréplica se dará também e isso nunca mais vai acabar.

Estamos muito perto das hélices. O mundo está ficando perigoso. Você, que tem a cabeça arejada, que é libertário, que é culto, que luta contra os preconceitos, pare de lutar. Pare de protestar. Pare de “provocar o saudável debate”, porque o saudável debate não é mais saudável. Nós não estamos avançando. As pessoas só avançam quando seguem juntas.

Sei que fascismo é um termo bem desgastado no atual debate político. Mas se a conclamação imediatamente acima não for fascista, então não sei mais o que é.

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* Será que se eu disser que seus textos me entristecem e chateiam, David Coimbra deixa de escrever ?