Homo Deus – Uma breve história do amanhã, de Yuval Noah Harari

Homo Deus, o segundo livro de Yuval Noah Harari, é uma recompilação de ideias já expostas, anos antes, em seu primeiro livro, Sapiens (resenhado aqui). O que não deve, no entanto, se constituir em nenhuma surpresa para quem prestar atenção nos subtítulos dos dois volumes, a saber, Uma breve história da humanidade e Uma breve história do amanhã, respectivamente. Assim, o que no primeiro era exaustivamente examinado como resultado de um cuidadoso encadeamento histórico, no segundo se apresenta como um estado de coisas a apontar para um elenco de alternativas futuras – fato suficiente, a nosso ver, para alimentar especulações quanto a sobre o que versará, se e quando vier, seu terceiro livro.

A matéria da qual trata nos dois, a que chama de realidades imaginadas, é a principal razão, ao mesmo tempo, da enorme verossimilhança de tudo o que afirma no primeiro, na maioria das vezes contrariando o senso comum, e do ceticismo despertado em muitos leitores pelo segundo. Talvez por isto seja mais conveniente distinguir as realidades imaginadas enumeradas no primeiro – as quais, por existirem ou terem existido no presente ou no passado, são mais palpáveis à maioria dos leitores – daqueles cenários hipotéticos projetados por Harari para um futuro imediato ou distante – mais insondáveis, portanto, ao senso comum – e que, por isto mesmo, seriam melhor designados pela expressão realidades imaginárias. Teríamos, assim, o termos imaginadas para designar aquelas criadas e compartilhadas por milhões de humanos e imaginárias para se referir a formulações até então inexistentes a não ser na fértil mente de Harari. Esta convenção ajuda a situar ambas as obras nos devidos planos.

Antes, porém, de nos debruçarmos sobre suas antevisões, um tanto quanto distópicas, vale a pena contemplarmos o nó histórico em que nos encontramos. Num passado marcado por fome, pestes e guerras, se pode afirmar que o que a humanidade mais almejou até aqui tenha sido prosperidade, saúde e harmonia. Num argumento que pode parecer a muitos um tanto chocante, Harari considera estes três problemas solucionados – já que, hoje, num contexto global, as pestes estão controladas, a fome é política e as guerras, localizadas – e que, portanto, a humanidade nunca desfrutou de tanta prosperidade, saúde e harmonia como agora.

Sendo assim, ante a necessidade de estabelecer uma agenda para o futuro, o gênero humano se volta hoje para a obtenção de imortalidade, felicidade e divindade. É sobre a conquista destas três qualidades e suas implicações que versam as quase 400 páginas de Homo Deus (mais umas 40 de notas e referências para quem ache o estilo do autor dominado por frases de efeito sem muito fundamento).

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No decorrer de sua fascinante jornada especulativa, Harari alude a algumas ideias perturbadoras, contrárias ao que a maioria das religiões conhecidas (lembrem-se que, para ele, comunismo, capitalismo e humanismo são, enquanto realidades imaginadas, as religiões mais hegemônicas da atualidade) sustenta, dentre as quais destacamos

que, ao contrário do que ocorre com a inteligência, não existe até hoje nada que prove cientificamente a existência de entidades como a mente ou a alma – pilar central de todos nossos sistemas político, jurídico e econômico;

que animais não humanos também são dotados de emoções e necessidades subjetivas e que, portanto, também padecem de sofrimento;

que a espécie humana não é necessariamente o ápice da evolução;

em Homo Deus, Harari retoma e desenvolve a ideia, já formulada em Sapiens, de que a hegemonia da espécie se deve não ao uso de ferramentas e inteligência, como sempre se acreditou, mas à habilidade adquirida de cooperar em larga escala e com flexibilidade a partir da crença em mitos compartilhados por milhões de humanos;

que o espectro mental humano é apenas uma pequena fração de todos os estados mentais possíveis, refletindo, quando muito, na maioria dos estudos em publicações especializadas, os resultados de experimentos realizados sobre populações WEIRD (Western, Educated, Indutrialized, Rich & Democratic) – já que a maior parte da pesquisa psicológica é realizada, por conveniência, tendo alunos dos próprios pesquisadores como sujeitos;

que o livre arbítrio só existe em histórias imaginárias inventadas por humanos;

para explicar a emergência, aqui e ali, de noções românticas como a do livre arbítrio, Harari discorre longamente sobre a coexistência conflitante de duas entidades às quais chama, respectivamente, de eu da experiência e eu da narrativa. Segundo esta dicotomia, o eu da narrativa altera qualquer realidade vivida pelo eu da experiência de modo a melhor acomodá-la à história de vida na qual cada um de nós prefere acreditar. Então, isto é, por si só, suficiente para desqualificar como verdade factual qualquer percepção filtrada pelo eu da narrativa;

a felicidade é bioquímica, tendo pouco ou nada a ver com a satisfação de desejos.

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Talvez a projeção (prefiro evitar, como o autor, a palavra previsão por se tratarem, suas antevisões, muito mais de possibilidades alternativas do que de consequências inevitáveis) mais espetacular de Harari em Homo Deus seja a corrida em busca da imortalidade. Pois a pesquisa genética vem avançando muito no que tange ao retardamento do envelhecimento, permitindo a vários magnatas do Vale do Silício já lidarem com a hipótese da imortalidade. O tema até já inspirou o cinema de ficção científica, numa das sequelas da série X-Men.

A ideia não é tão futurista quanto parece. No livro, Harari lembra que Angelina Jolie extirpou os próprios seios não em razão de um diagnóstico de câncer já existente mas, tão somente, devido a uma alta probabilidade, revelada através de testes genéticos, de vir a desenvolver a doença. Ao mesmo tempo, uma empresa chamada 23andMe, fundada por Anne Wojcicki, ex-mulher de um dos fundadores do Google, e cujo nome alude aos 23 pares de cromossomos que nosso genoma contém, oferece, por módicos 99 dólares, a possibilidade de você cuspir num tubo de ensaio, enviar a amostra de saliva a Mountain View, na California, e receber online uma análise de seu DNA contendo sua predisposição genética para mais de 90 características e condições, incluindo da calvície até a cegueira.

Nesta progressão, é fácil imaginar terapias de aprimoramento genético e facilidades para a instalação de próteses cyborg (inorgânicas) muito mais poderosas e versáteis do que os órgãos que vierem a substituir. É claro que tais aperfeiçoamentos custarão muito caro, atingindo valores inimagináveis para a maioria dos humanos.  Com isto, o cenário imaginado por Harari prevê a coexistência, num futuro não muito distante, de humanos mortais com super-humanos imortais. As implicações éticas de tal coexistência são sombrias, remontando ao desprezo de humanos por outras espécies, sobreviventes ou extintas, com as quais dividem ou já dividiram o ambiente. Parte delas é perfeitamente resumida na seguinte citação:

“O que acontecerá quando se constatar que esses super-humanos tem experiências fundamentalmente diferentes das dos Sapiens ? E se super-humanos se entediarem com romances que contam as experiências de Sapiens ladrões inferiores, enquanto para os humanos ordinários as novelas sobre casos de amor entre super-humanos forem ininteligíveis ?” (p.352)

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Uma das principais ideias examinadas em Sapiens que retornam em Homo Deus é a noção de que o capitalismo é fundado sobre a possibilidade de crescimento ilimitado. No primeiro livro, Harari é mais didático, exemplificando com um ciclo vicioso (mas que se pretende virtuoso) onde um mesmo dinheiro (uma realidade imaginária) é sucessivamente emprestado à dona de uma padaria, que contrata um construtor para expandir suas instalações, que por sua vez deposita o dinheiro cobrado à padeira no mesmo banco ao qual ela o tomou emprestado – o qual passa a contar com um capital só aparentemente crescente (primeiro 1 milhão, depois 2 e assim sucessivamente). É por isto que, se todos os que depositaram alguma coisa em bancos retirassem ao mesmo tempo seus depósitos, os bancos quebrariam. Então, todo o sistema capitalista depende da confiança num crescimento constante (impossível, como veremos a seguir) no qual governos liberais se empenham em nos fazer acreditar.

Em Homo Deus, Harari avança neste tema ao comparar as noções medieval de riquezas limitadas e contemporânea de crescimento constante, alertando para seus limites. Antes da Revolução Científica, um proprietário de terras sabia o máximo que seus campos poderiam produzir e só concebia a ideia de acumular mais se subtraísse a outros. Capitalistas modernos, no entanto, já não reconhecem o esgotamento da capacidade produtiva. O que facilita esta ilusão é que, enquanto fontes de matérias-primas e energia são limitadas e esgotáveis, o conhecimento não está sujeito aos mesmos limites.

Assim, a história insiste em nos provar que, aos esgotarmos os recursos naturais necessários à produção de um bem, inauguramos um novo ciclo de prosperidade mediante a simples descoberta de novas tecnologias. Um bom exemplo disto é o domínio dos meios para a exploração de petróleo no pré-sal. Outro, já realizado, é a produção de energia por fissão nuclear, que ampliou enormemente o potencial de energia que poderia ser gerada uma vez esgotados todos recursos hídricos e as reservas de carvão e petróleo conhecidos.  Outro, apenas projetado e por isto mesmo objeto de intensa pesquisa, é a produção de energia por meio da fusão nuclear.

A naturalização da ideia de um crescimento ilimitado é bem representada pelos jogos. Se em velhos jogos de tabuleiro havia uma noção implícita de degradação do patrimônio (numa partida de xadrez, por exemplo, sempre terminamos com menos peças do que começamos – e mesmo que uns raros peões sejam promovidos a damas, há um número limitado de peões a serem promovidos ou, mais provavelmente, sacrificados); já em jogos recentes de computador como Minecraft ou Civilização os participantes são incentivados a construir, a partir do nada, casas, aldeias, cidades e impérios. Deste modo, os jogos que jogamos refletem perfeitamente aquilo em que acreditamos.

Por isto, logo no início do livro Harari pergunta, retoricamente, quem vai pisar no freio. É claro que ninguém. Pois o mito do crescimento ilimitado é crucial não só para o capitalismo como também para a cruzada em busca da felicidade na qual a humanidade está hoje empenhada. A despeito dos índices alarmantes de aquecimento global, há décadas os EUA vem se recusando a assinar os protocolos de limitação de emissão de gases causadores do efeito estufa, primeiro no Rio, depois em Kyoto e recentemente em Paris, tão somente para não interromper o ciclo de prosperidade e felicidade crescente de seus cidadãos. Além disto, os pobres (sempre os mais atingidos) teriam uma enorme dificuldade em aceitar uma desaceleração do crescimento, por ficar mais difícil acreditar na história do bolo que precisa crescer antes de ser repartido.

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Uma das mais instigantes formulações presentes em Homo Deus é a ideia de que a felicidade seja, antes de uma percepção subjetiva, tão somente resultante de reações químicas que variam no metabolismo de cada indivíduo. Segundo esta crença, indivíduos felizes o são tão somente em razão de um estado de equilíbrio bioquímico e independentemente de quaisquer estímulos externos, ao passo que os deprimidos o serão apesar de quaisquer gratificações que a vida lhes trouxer. Sendo assim, a felicidade é apenas uma questão de manutenção, em cada organismo, de níveis de substâncias estimulantes ou depressoras.

Soma-se a esta questão o fato de que o apetite humano por obter sempre mais felicidade e acumular mais riquezas materiais é, até onde se pode perceber, insaciável.

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De todas as projeções contidas em Homo Deus, aquela da qual Harari mais se ocupa é a de que, cedo ou tarde, todas as profissões humanas hoje conhecidas serão substituídas com vantagem por algoritmos inorgânicos.

Em The Future of Employment (Oxford, 2013), Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne investigam a probabilidade de diferentes profissões serem assumidas por algoritmos de computador nos próximos 20 anos. Segundo eles, 47% dos empregos hoje existentes nos EUA correm alto risco. Em seguida, enumeram, em ordem decrescente, a probabilidade que cada profissão tem de ser totalmente substituída por algoritmos:

operadores de telemarketing e corretores de seguro – 99%; árbitros de modalidades esportivas – 98%; caixas – 97%; chefs – 96%; garçons e assistentes jurídicos – 94%; guias de turismo – 91%; padeiros e motoristas de ônibus – 89%; operários na construção civil – 88%; assistentes de veterinária – 86%; seguranças – 84%; marinheiros – 83%; bartenders – 77%; arquivistas – 76%; carpinteiros – 72%; salva-vidas – 67%; e assim sucessivamente.

É claro que, segundo Frey e Osborne, em 2033 ainda haverá empregos seguros. Por exemplo: a probabilidade de que, até lá, se desempreguem arqueólogos é de apenas 0,7%.

O fato de humanos estarem cada vez mais se profissionalizando (especializando) em muito contribui para a absorção de suas profissões por algoritmos. Os caçadores-coletores que viviam na savana durante a Revolução Cognitiva há 12 mil anos atrás possuíam um complexo de competências muito mais difícil de ser substituído por algoritmos do que, digamos, um motorista, advogado ou médico dos dias que correm.

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Deixei para me ocupar ao final desta já longa resenha com duas das formulações mais caras a Harari que são, no entanto, facilmente objetáveis. Na primeira delas, afirma que o triunfo histórico do capitalismo sobre o comunismo se deve, mais do que a quaisquer méritos do primeiro quando comparado ao segundo, tão somente ao fato de que,

enquanto no comunismo todo processo decisório (isto é, a precedência disto sobre aquilo) se baseia num processamento centralizado de dados por uma autoridade única;

já no capitalismo tal processamento de informações é realizado de modo distribuído por uma multiplicidade de agentes que competem entre si em bolsas de valores, numa homeostase dinâmica e auto-regulável que atribui a cada coisa seu devido valor sem depender, para tanto, da intervenção de nenhuma autoridade central.

Talvez esta visão funcione em conexão com a economia de mercado. Não é suficiente, no entanto, para explicar por que o poder nas ditaduras comunistas é essencialmente distinto do poder em democracias liberais. Isto por que, tanto em regimes totalitários como nos democráticos, toda autoridade é central, se propagando descendentemente nas pirâmides administrativas sempre a partir da confiança de cada superior em seus subordinados, pela nomeação de detentores de cargos em comissão, ao invés de na confiança de cada conjunto de subordinados em seus superiores.

Admito que isto deva ser melhor explicado. De qualquer modo, não aqui. Que fique, então, apenas registrado que o processamento de dados distribuído, tido por Harari como principal vantagem histórica da religião capitalista sobre a comunista, não vale tanto para a política como parece valer para a economia.

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A outra formulação na qual pode parecer a muitos leitores que Harari esteja forçando um tanto a barra em prol de sua antevisão é aquela na qual, para negar a existência do livre arbítrio, reduz toda decisão tomada por humanos apenas ao resultado de algoritmos bioquímicos. Segundo esta ótica, tudo o que somos, pensamos e fazemos não passa de um produto de uma predisposição genética, contida em nosso DNA, com uma infinidade de fatores condicionantes ao qual respondemos de modo totalmente determinístico. Harari exemplifica isto, inclusive, com o controle de movimentos de ratos de laboratório por meio de estímulos transmitidos a seus cérebros por eletrodos neles implantados.

Mais. Ao considerar toda existência humana como algoritmos orgânicos, Harari antecipa que algoritmos inorgânicos (i.e., residentes em máquinas) e, portanto, desprovidos de consciência, sejam mais confiáveis e venham, efetivamente, a substituir os humanos num futuro não muito distante, dando origem a uma população de inempregáveis. Para ele, tais algoritmos, equiparáveis aos piores pesadelos imaginados em distopias de ficção científica, já estão entre nós. Basta nos atermos, por exemplo, aos algoritmos do Google ou do Facebook, oniscientes, que sabem mais sobre mim do que eu próprio, e que são criados por uma miríade de desenvolvedores sem que qualquer um deles tenha uma compreensão privilegiada do funcionamento do algoritmo como um todo.

É aí que reside, a nosso ver, uma das principais vulnerabilidades da antevisão distópica de Harari – já que, por mais desenvolvidos que se encontrem os algoritmos auto replicantes, que apreendem sozinhos por meio de redes neurais, sua arquitetura ainda está longe de ser determinada sem intervenção humana. Mesmo que macro projetistas ignorem detalhes das partes (isto deve ser bem comum em equipes de desenvolvimento de software).

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Ainda é muito cedo para se saber se Homo Deus, escrito há apenas dois anos, nos contempla com uma visão verossímil ou, ao contrário, fantasiosa e conspiratória sobre o futuro. Com sorte, em 50 ou 100 anos seus leitores se divertirão com os temores ali expressos, mais ou menos ao modo como nos divertimos hoje com as antecipações não realizadas de Orwell em 1984 – ou, na pior das hipóteses, se tenha que recorrer ao livro em busca de pistas sobre como se chegou até ali e o que fazer para escapar de um destino tão tenebroso.

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PS: Antes desta resenha, já havia me referido aqui a dois curiosos experimentos relatados em Homo Deus, devidamente contextualizados para o atual cenário político brasileiro.

 

 

Anotações religiosas (i): o dia (ou melhor, a noite) em que me tornei ateu

Devia ter por volta de uns quatorze anos, não lembro bem ao certo. Muito provavelmente devido à minha educação católica (toda ela em um colégio de padres – pois, por sorte, jamais tivemos qualquer cobrança religiosa em nossa família), costumava rezar todas as noites, antes de dormir.

Cabe aqui um breve desvio narrativo para acrescentar que meu pai, um comerciante estabelecido e convicto, se considerava quites com deus depois de assistir missas diárias (e cantar nas mesmas !) durante seus vários anos de internato e, com isto, não fez nenhuma questão de que tivéssemos qualquer tipo de vida religiosa.

Dizem que, em educação, o exemplo arrasta. Comigo, então, não poderia ter sido diferente. Tendo há muito abandonado a mera recitação de preces como Pai Nosso, Ave Maria e afins, minhas orações, tão fervorosas quanto burocráticas, consistiam, invariavelmente, no agradecimento por um rol de graças alcançadas, materiais e emocionais, seguido por uma sucessão de pedidos pela manutenção do bem-estar de todos os que me eram mais queridos, i.e., amigos, parentes e familiares. A coisa tinha, portanto, mais ou menos o formato de um balanço contábil, com palavras de gratidão numa coluna e demandas na outra.  Por alguma razão, sempre achei de bom tom agradecer antes de pedir.

Até o dia em que ouvi de um dos padres mais ortodoxos da escola onde estudava que de modo algum deveríamos praticar a religião segundo nossos modos particulares, individuais de entendê-la – mas, exclusivamente, segundo os preceitos da santa igreja católica, que incluíam ir à missa frequentemente e receber os demais sacramentos nos momentos apropriados. Uma espécie de tudo ou nada na qual só poderíamos adquirir o pacote completo. Aquilo calou fundo em minha mente de modo que, com a autoexaltação das faculdades racionais e do livre arbítrio peculiar à juventude, decidi naquela mesma noite que não precisava mais daquilo e, consoante a isto, doravante não mais rezaria antes de dormir.

Devo confessar que tive medo. Muito medo. De que, ao acordar, o mundo tivesse acabado ou, mais provavelmente, algum tipo de desgraça houvesse se abatido sobre todos os que me eram mais queridos (até por que, até então, minhas preces jamais foram tão altruístas a ponto de incluir o bem de toda a humanidade). Nesse estado de profunda dúvida filosófica que jamais houvera experimentado antes, peguei no sono. Infelizmente, não me lembro do que sonhei naquela noite.

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Ao acordar na manhã seguinte, sorrateiramente espreitei o quarto de meus pais, que ainda dormiam o sono dos justos. Minhas irmãs também estavam bem. Concluí, com isto, que ao menos minha família não tinha sido fulminada pela ira divina. Não me dando, ainda assim, por satisfeito, fui para a escola imerso num estado de apreensão, para só então verificar que meus amigos mais próximos gozavam da saúde e da alegria de sempre. Bingo ! O experimento funcionara. Dali em diante, jamais tornei a rezar antes de dormir.

Para a decepção de meus muitos amigos ateus, não descarto a hipótese de que, se chegar à velhice e pressentindo o fim de meus dias, torne a acreditar, por conforto e conveniência diante de uma condição mais frágil, em algum tipo de salvação e/ou vida pós morte. Pois o que são, afinal, as religiões senão realidades virtuais imaginadas compartilhadas por milhões de humanos com a finalidade de lograr a colaboração em grande escala por estranhos entre si em torno de objetivos comuns ?

Por que a intolerância é inerente a todas as religiões

Um dos aspectos mais fascinantes das redes sociais é a absoluta falta de controle, por parte de quem posta algo, sobre as múltiplas inclinações que podem assumir os comentários sob cada postagem. De pouco adianta que seus autores tentem exercer uma espécie de curadoria perversa, excluindo este ou aquele comentário a fim de manter minimamente a correlação entre o que foi postado e o que é comentado e, com isto, alguma coerência discursiva entre a postagem original e os comentários sob a mesma – já que, ao frequentarmos as redes, almejamos, antes de tudo, alguma interação com a audiência.

Foi assim que, dias atrás, ao procurar reverberar no facebook o conhecidíssimo bias da mídia corporativa em relação à importância atribuída a cada atentado terrorista em função dos territórios onde ocorrem, me deparei com um thread de comentários cuja índole denotava, antes de mais nada, a intolerância religiosa. A saber, o velho conflito entre os mundos judaico e muçulmano.

Não pretendo (nem poderia), aqui, identificar de que etnia partiu a agressão inicial em nome da qual todas as guerras e atrocidades subsequentes foram cometidas. Até por que a justificativa mais usada para qualquer ataque é sempre a defesa. Em nome dela, se invadem países, bombardeiam populações inocentes e ditam leis de exceção. Nem tampouco me proponho a condenar ou justificar a existência de Israel ou a inexistência, até o momento, de um estado palestino. Pois tais questões envolvem conhecimentos geopolíticos melhor dominados por economistas e historiadores. Vale a pena, no entanto, se debruçar um pouco sobre a indagação de por que, desde tempos pré-bíblicos até muitos estados modernos, fronteiras geográficas sempre foram determinadas pelas crenças religiosas de quem vive entre elas e, portanto, pela intolerância em relação a crenças divergentes.

Tanto no mundo antigo como no medieval ou atual, guerras foram e são travadas e fronteiras estabelecidas, fundamentalmente, em razão dos deuses em que grupos humanos distintos acreditam. Enquanto o extremo oriente é dividido entre budistas e hinduístas, temos no oriente médio o clássico conflito entre judeus e muçulmanos, atual centro de atenção jornalística principalmente em razão de riquezas do subsolo, e, no mundo europeu e suas ex-colônias, a fratura do mundo cristão entre católicos, protestantes e, mais recentemente, as denominações neopentecostais. Desde os tempos medievais, estados vem sendo estabelecidos, na melhor das hipóteses, por alianças cuidadosamente arquitetadas sob a forma de casamentos entre casas monárquicas ou, na pior (por que a mais sangrenta), por guerras devastadoras. Mesmo na de resto civilizadíssima Europa, temos ou tivemos até pouco tempo atrás (não sei ao certo) conflitos como aquele entre católicos e protestantes irlandeses. Neste contexto, o estado laico é uma invenção humanista bem recente e ainda precariamente implementada. A julgar, por exemplo, pelas orações promovidas pela bancada evangélica no congresso brasileiro.

Posto isto, cabe se especular por que a intolerância é inerente não a uma mas a todas as religiões. Pois mesmo que algumas delas preguem a tolerância aos que acreditam em divindades e valores diferentes, para todos os seus adeptos a simples aceitação de uma condição de igualdade com alguém com uma matriz diferente de crenças implica na insuportável premissa de que, por tolerarmos que outros pensem de modo diferente, eles possam estar certos e nós, errados. O que pode variar, de uma religião para outra, é só uma atitude que vai de superioridade e soberba travestida em tolerância até a retaliação fundamentalista de infiéis. Seja como for, a incerteza implícita na coexistência com o que é diverso é estranha a todo pensamento religioso. Pois religiões são, afinal, dedicadas primariamente à sustentação de fantasias criadas pelo homem como verdades incontestáveis muitas vezes incompatíveis entre si. Mais: já foram descritas como enormes jogos de realidade virtual compartilhados e jogados por milhões de pessoas. Tal é a concepção do pensamento religioso segundo Yuval Noah Harari, da Universidade Hebraica de Jerusalém, cujas ideias merecem ser melhor conhecidas.

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Yuval Noah Harari

Para uma introdução ao pensamento do israelense Harari, tão instigante quanto original, confiram o artigo recentemente publicado pelo historiador em The Guardian. E para uma visão crítica e divertida da intolerância insana inerente a todas as denominações religiosas vejam o filme de curta metragem This Land is Mine, sobre a música tema do filme Exodus, realizada pela excelente cartunista, ativista e artista de animação norte-americana Nina Paley.

 

 

Por que deixei de ser escoteiro

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Sempre amei as atividades das tardes de sábado e noites de quarta do Grupo Escoteiro George Black. Mais ainda os acampamentos e acantonamentos. Se hoje consigo me virar bem na maioria das coisas práticas, devo isto, indubitavelmente, a minha vida escoteira. De modo que eu estaria disposto a recomendar o movimento para qualquer jovem em idade escolar, não fossem dois senões, esmiuçados a seguir.

Eu havia me saído bem em todas as provas para me tornar de escoteiro noviço e de segunda classe, colecionando as respectivas insígnias, quando, prestes encarar os últimos ritos para me tornar um escoteiro de primeira classe, meus chefes abandonaram repentinamente sua disposição, demonstrada em ocasiões anteriores (i.e., nas provas de noviço e segunda classe), de fazer, na prova de religião, vista grossa a minhas convicções ateias. E, posto que a prova deveria ser “assinada” pelo líder religioso que eu seguisse (no caso, o pároco da igreja onde eu fora batizado, o qual sequer me conhecia), jamais logrei passar naquela prova. Aí começou meu desinteresse pelo movimento.

Paralelamente, a curiosidade me levou, alertado por boatos, a pesquisar (naquele tempo não havia a wikipedia nem a web !) em outras fontes a polêmica biografia de Lord Baden-Powell, o grande mentor do movimento. Nessas leituras, fiquei sabendo que o fundador, reverenciado por milhares, talvez milhões, de escoteiros, escotistas (chefes de escoteiros) e simpatizantes ao redor do planeta como um educador visionário foi também o principal responsável pela dizimação de tribos inteiras em campanhas militares colonialistas britânicas no continente africano. Para não entrar em muitos detalhes, basta pesquisar sobre a Guerra dos Boers.

Aquilo foi demais para mim.

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Update: copio abaixo, pela relevância, uma contribuição deixada por André Serrano sob a divulgação deste post no facebook (por natureza, muito mais interativo do que este blog). Se tiverem tempo, não deixem de abrir o link ao fim do comentário.

” chamei a atenção de alguns chefes sobre as verdades que estão vindo à tona… parecem fazer pouco caso dos fatos… acho que preferem a negação a terem de dar o braço a torcer de que continuam a ajudar a glorificar um homem que não tem nenhum merecimento.
a falta destas informações era total, na nossa época.
por isso os chefes estão, por mim pelo menos, perdoados.
mas não perdoo os chefes de hoje, pela recusa de pesquisar sobre as verdades… chega a ser contra o próprio movimento essa negação, esse pacto com a mentira, esse faltar com a palavra pra sí próprio.
“sempre alerta”?!!! sei……
aqui vai UM dos vários links:
http://www.theatlantic.com/…/christopher…/272683/