Por que a intolerância é inerente a todas as religiões

Um dos aspectos mais fascinantes das redes sociais é a absoluta falta de controle, por parte de quem posta algo, sobre as múltiplas inclinações que podem assumir os comentários sob cada postagem. De pouco adianta que seus autores tentem exercer uma espécie de curadoria perversa, excluindo este ou aquele comentário a fim de manter minimamente a correlação entre o que foi postado e o que é comentado e, com isto, alguma coerência discursiva entre a postagem original e os comentários sob a mesma – já que, ao frequentarmos as redes, almejamos, antes de tudo, alguma interação com a audiência.

Foi assim que, dias atrás, ao procurar reverberar no facebook o conhecidíssimo bias da mídia corporativa em relação à importância atribuída a cada atentado terrorista em função dos territórios onde ocorrem, me deparei com um thread de comentários cuja índole denotava, antes de mais nada, a intolerância religiosa. A saber, o velho conflito entre os mundos judaico e muçulmano.

Não pretendo (nem poderia), aqui, identificar de que etnia partiu a agressão inicial em nome da qual todas as guerras e atrocidades subsequentes foram cometidas. Até por que a justificativa mais usada para qualquer ataque é sempre a defesa. Em nome dela, se invadem países, bombardeiam populações inocentes e ditam leis de exceção. Nem tampouco me proponho a condenar ou justificar a existência de Israel ou a inexistência, até o momento, de um estado palestino. Pois tais questões envolvem conhecimentos geopolíticos melhor dominados por economistas e historiadores. Vale a pena, no entanto, se debruçar um pouco sobre a indagação de por que, desde tempos pré-bíblicos até muitos estados modernos, fronteiras geográficas sempre foram determinadas pelas crenças religiosas de quem vive entre elas e, portanto, pela intolerância em relação a crenças divergentes.

Tanto no mundo antigo como no medieval ou atual, guerras foram e são travadas e fronteiras estabelecidas, fundamentalmente, em razão dos deuses em que grupos humanos distintos acreditam. Enquanto o extremo oriente é dividido entre budistas e hinduístas, temos no oriente médio o clássico conflito entre judeus e muçulmanos, atual centro de atenção jornalística principalmente em razão de riquezas do subsolo, e, no mundo europeu e suas ex-colônias, a fratura do mundo cristão entre católicos, protestantes e, mais recentemente, as denominações neopentecostais. Desde os tempos medievais, estados vem sendo estabelecidos, na melhor das hipóteses, por alianças cuidadosamente arquitetadas sob a forma de casamentos entre casas monárquicas ou, na pior (por que a mais sangrenta), por guerras devastadoras. Mesmo na de resto civilizadíssima Europa, temos ou tivemos até pouco tempo atrás (não sei ao certo) conflitos como aquele entre católicos e protestantes irlandeses. Neste contexto, o estado laico é uma invenção humanista bem recente e ainda precariamente implementada. A julgar, por exemplo, pelas orações promovidas pela bancada evangélica no congresso brasileiro.

Posto isto, cabe se especular por que a intolerância é inerente não a uma mas a todas as religiões. Pois mesmo que algumas delas preguem a tolerância aos que acreditam em divindades e valores diferentes, para todos os seus adeptos a simples aceitação de uma condição de igualdade com alguém com uma matriz diferente de crenças implica na insuportável premissa de que, por tolerarmos que outros pensem de modo diferente, eles possam estar certos e nós, errados. O que pode variar, de uma religião para outra, é só uma atitude que vai de superioridade e soberba travestida em tolerância até a retaliação fundamentalista de infiéis. Seja como for, a incerteza implícita na coexistência com o que é diverso é estranha a todo pensamento religioso. Pois religiões são, afinal, dedicadas primariamente à sustentação de fantasias criadas pelo homem como verdades incontestáveis muitas vezes incompatíveis entre si. Mais: já foram descritas como enormes jogos de realidade virtual compartilhados e jogados por milhões de pessoas. Tal é a concepção do pensamento religioso segundo Yuval Noah Harari, da Universidade Hebraica de Jerusalém, cujas ideias merecem ser melhor conhecidas.

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Yuval Noah Harari

Para uma introdução ao pensamento do israelense Harari, tão instigante quanto original, confiram o artigo recentemente publicado pelo historiador em The Guardian. E para uma visão crítica e divertida da intolerância insana inerente a todas as denominações religiosas vejam o filme de curta metragem This Land is Mine, sobre a música tema do filme Exodus, realizada pela excelente cartunista, ativista e artista de animação norte-americana Nina Paley.

 

 

Por que deixei de ser escoteiro

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Sempre amei as atividades das tardes de sábado e noites de quarta do Grupo Escoteiro George Black. Mais ainda os acampamentos e acantonamentos. Se hoje consigo me virar bem na maioria das coisas práticas, devo isto, indubitavelmente, a minha vida escoteira. De modo que eu estaria disposto a recomendar o movimento para qualquer jovem em idade escolar, não fossem dois senões, esmiuçados a seguir.

Eu havia me saído bem em todas as provas para me tornar de escoteiro noviço e de segunda classe, colecionando as respectivas insígnias, quando, prestes encarar os últimos ritos para me tornar um escoteiro de primeira classe, meus chefes abandonaram repentinamente sua disposição, demonstrada em ocasiões anteriores (i.e., nas provas de noviço e segunda classe), de fazer, na prova de religião, vista grossa a minhas convicções ateias. E, posto que a prova deveria ser “assinada” pelo líder religioso que eu seguisse (no caso, o pároco da igreja onde eu fora batizado, o qual sequer me conhecia), jamais logrei passar naquela prova. Aí começou meu desinteresse pelo movimento.

Paralelamente, a curiosidade me levou, alertado por boatos, a pesquisar (naquele tempo não havia a wikipedia nem a web !) em outras fontes a polêmica biografia de Lord Baden-Powell, o grande mentor do movimento. Nessas leituras, fiquei sabendo que o fundador, reverenciado por milhares, talvez milhões, de escoteiros, escotistas (chefes de escoteiros) e simpatizantes ao redor do planeta como um educador visionário foi também o principal responsável pela dizimação de tribos inteiras em campanhas militares colonialistas britânicas no continente africano. Para não entrar em muitos detalhes, basta pesquisar sobre a Guerra dos Boers.

Aquilo foi demais para mim.

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Update: copio abaixo, pela relevância, uma contribuição deixada por André Serrano sob a divulgação deste post no facebook (por natureza, muito mais interativo do que este blog). Se tiverem tempo, não deixem de abrir o link ao fim do comentário.

” chamei a atenção de alguns chefes sobre as verdades que estão vindo à tona… parecem fazer pouco caso dos fatos… acho que preferem a negação a terem de dar o braço a torcer de que continuam a ajudar a glorificar um homem que não tem nenhum merecimento.
a falta destas informações era total, na nossa época.
por isso os chefes estão, por mim pelo menos, perdoados.
mas não perdoo os chefes de hoje, pela recusa de pesquisar sobre as verdades… chega a ser contra o próprio movimento essa negação, esse pacto com a mentira, esse faltar com a palavra pra sí próprio.
“sempre alerta”?!!! sei……
aqui vai UM dos vários links:
http://www.theatlantic.com/…/christopher…/272683/