Por que a farinata de Doria é tão ultrajante

De todas as iniciativas filantrópicas aventadas nos últimos tempos, não me lembro de nenhuma que tenha ensejado tantas reações de repúdio e indignação quanto a farinata – composto reciclado de resíduos alimentares destinado à distribuição, pelo prefeito João Doria de São Paulo, a seus habitantes em condição de miséria.

A um primeiro olhar, o gesto se afigura como uma afronta principalmente pela institucionalização da prática de dar aos mais pobres, como caridade, o que sobra aos mais ricos. Mas será que a repulsa à iniciativa é só de índole política, a saber, pelo reconhecimento e perpetuação da ideia, por meio de seu endosso pelo estado, de um modelo de sociedade composta, em suas extremidades, por vencedores (os que compram em supermercados e frequentam restaurantes) e perdedores (os que catam restos de alimentos jogados no lixo) ?

Ora, a caridade burguesa sempre foi exercida como redistribuição daquilo que já não serve mais às classes dominantes. Desde roupas que saíram de moda até equipamentos tecnológicos que se tornaram obsoletos, tudo que já não serve aos incluídos é repassado, tanto por indivíduos como por governos (por meio de campanhas de agasalho ou recolhimento de sucata informática), a quem não se encontra em posição de comprar aquilo de que precisa. O próprio lixo reciclável de vidros, papéis e garrafas pet entra nessa conta, que oportunamente traveste a responsabilidade pelo meio ambiente em projetos de geração de renda.

Por que, então, o reaproveitamento de resíduos alimentares proposto pelo prefeito de São Paulo desencadeou tanta contrariedade ? Claro está que o buraco deve ser um pouco mais embaixo. O clamor generalizado contra a farinata serve, entre outras coisas, para nos darmos conta de que o ser humano, independentemente de sua situação econômica, preza enormemente sua capacidade de sempre saber (ou pretender saber) o que ingere como alimento.

Se ninguém informasse que a farinata é composta de resíduos, a mesma seria consumida sem maiores restrições. Pois a coisa tem o aspecto de flocos de cereais – pelos quais os mais abastados pagam, aliás, um valor super inflacionado, supostamente por sua praticidade e alto valor nutricional, com a inestimável ajuda da publicidade. Só que, ao contrário dos produtos comercializados a peso de ouro por Kellog’s, Nestlé e afins, a farinata não vem numa embalagem com sua composição de nutrientes, rigorosamente padronizada,  estampada na embalagem. O que, por si só, gera desconfiança. Ou seja: quem a consumir jamais terá meios de saber o que está ingerindo, já que sua composição é variável, de acordo com a oferta de resíduos aportados a seu processo de fabricação.

Em situações extremas, pessoas com restrições alimentares a glúten, lactose, glicose ou coisa que o valha estariam impedidas de consumir a gororoba de Doria. Tampouco é possível vislumbrar vegetarianos aderindo à farinata. Mas estou só tergiversando. Afinal, vegetarianismo e dietas controladas são para quem pode; não para quem quer. Assim pensam políticos demagogos.

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Sei que este ponto de vista – i.e., o de que é inerente à dignidade humana poder discriminar todo alimento ingerido – é um tanto controverso. Em sua defesa, vale citar que são raros os casos em que indivíduos abrem mão da prerrogativa de selecionar, ainda que minimamente, aquilo que comem. Isto acontece, por exemplo, em presídios ou na luta pela sobrevivência após naufrágios e outros desastres com resgate demorado – nas quais há relatos, inclusive, de canibalismo.

Então, proponho, ainda em favor da premissa da necessária discriminação alimentar, uma hipótese alternativa, a título de demonstração por redução ao absurdo. Suponham que, ao invés da farinata reciclada de resíduos indiscerníveis, a prefeitura de São Paulo montasse uma rede para distribuir a seus habitantes mais pobres marmitas com alimentos que restaram em buffets, preparados por cheffs sob a supervisão de nutricionistas, com a identidade e o sabor de seus ingredientes preservados. Quero acreditar que tais quentinhas passariam longe de sofrer a mesma rejeição que a famigerada farinata. É fácil, também, supor que os custos (inclusive de energia) de uma rede assim de reencaminhamento de excedentes alimentares (descentralizada, envolvendo praticamente só embalagens) ficariam muito aquém daqueles de recolhimento, processamento e distribuição de resíduos em forma de farinata.

Não sou ingênuo, no entanto, ao ponto de supor que qualquer de nossos governantes idealizasse ou promovesse uma política social assim. Até por que jamais conseguiriam explicar a seus patrões do andar de cima por que raios os inúteis e incompetentes do de baixo deveriam comer a mesma comida pela qual pagam valores tão altos. As quentinhas gourmet minariam, assim, um dos maiores pressupostos neoliberais, que é a presunção à meritocracia, mãe de toda desigualdade.

Então, a farinata, mais do que uma solução infeliz e canhestra para um problema que aflige as metrópoles, traz em sua concepção, também e principalmente, a missão de lembrar, sempre que for servida, a noção doentia de que, em última instância, cada um faz por merecer aquilo que lhe é servido à mesa.

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As primeiras notícias que surgiram, semanas atrás, sobre a ração humana de Doria me trouxeram de pronto à memória o filme de ficção científica Soylent Green (no Brasil, No mundo de 2020), de 1973. Nele, uma superpopulação urbana disputava furiosamente uma ração, tal como a farinata, de distribuição governamental e composição obscura. Chamada soylent green, a coisa tinha o aspecto de um biscoito cracker verde. Ao fim da distopia, se descobre que soylent green era, na verdade, feito com restos mortais humanos reprocessados. 2020 é logo ali.

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Para saber mais sobre a farinata, seus idealizadores e promotores, leia isto e veja isto.

 

Por que se evita tanto falar em democracia direta ?

Quem mais ouviu ontem, na Band News FM, o Ricardo Boechat defender a democracia direta, ainda que sem se referir a ela pelo nome ? Pois, ao pleitear que, a exemplo do que já é feito em alguns países, as cédulas eleitorais permitam aos cidadãos, além de escolher representantes, deliberar sobre decisões a serem tomadas em relação a matérias importantes, se referiu inequivocamente àquilo em que se constitui, em essência e em última análise, uma democracia direta – a saber, a voz do eleitor se fazendo valer em todas as matérias de interesse público. Isto é o contrário do que temos hoje, com representantes eleitos a quem outorgamos o direito e o poder de decidir em nosso nome.

No mesmo editorial, o âncora da Band caçoou da única e improvável possibilidade que a população tem hoje de fazer sua vontade adquirir força de lei. Pois, mesmo que alguma causa consiga angariar os milhões de assinaturas requeridas para o encaminhamento de uma emenda popular à constituição, a mesma ainda dependerá, para sua implementação, do endosso de casas legislativas numericamente muito inferiores aos signatários de cada emenda proposta – a vontade de milhões ficando, portanto, sujeita à aprovação de umas poucas centenas.

Esta questão deveria estar, portanto,  juntamente com outras tais como o fim do foro privilegiado e das aposentadorias especiais, rituais mais sumários para cassação de mandatos e criminalização de políticos corruptos ou flagrados em estelionato eleitoral (o não cumprimento do que foi prometido), redução dos salários de políticos, enxugamento de custos legislativos e tantas outras, no âmago de qualquer reforma política. Mas não. Em vez disto, políticos eleitos tentam incutir em eleitores perplexos a impressão de que estão de fato fazendo alguma coisa simplesmente tergiversando sobre a composição de distritos eleitorais. Sob esta cortina de fumaça, tratam de amealhar para suas próximas campanhas eleitorais mais um bocado colossal do orçamento nacional. Tenho, então, que concordar com Boechat quando diz que a reforma política, tal como vem sendo encaminhada, será totalmente inócua, a não ser pela concessão de mais vantagens aos políticos e aos partidos.

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Nomes importam. Muitos ainda se incomodam com a designação de “golpe” à articulação que afastou Dilma do poder por delitos bem menores do que malfeitorias perpetradas pela quadrilha hoje instalada. Pois o que são, afinal, pedaladas fiscais perto da abolição de direitos e flexibilização dos contratos trabalhistas ? Sem falar em propinas milionárias e na compra de votos de parlamentares.  Querem nos fazer acreditar, no entanto, que nos livraremos de tudo isto simplesmente com a “reforma política” que aí está. Ao mesmo tempo, se evita a qualquer custo a popularização da noção de “democracia direta” tão somente por que ela rende óbvia a obsolescência dos representantes eleitos tais como hoje os conhecemos. Esta é uma verdade inconveniente (para os políticos profissionais) protegida a sete chaves.

Daí a necessidade de uma assembleia constituinte soberana e exclusiva (i.e., sem a participação dos atuais congressistas) para a redação, após ampla discussão (que tarefa para os tribunais eleitorais !), de uma nova carta magna da qual sejam expurgadas as mazelas da representação.

Não sou tão ingênuo a ponto de acreditar que isto venha a acontecer num futuro próximo nem tampouco sem alguma comoção popular, pois a blindagem contra esta ideia é fortemente sustentada pelo congresso e pela mídia, ambos controlados pelo poder econômico. Mas sonhos só possuem alguma chance de se tornar realidade se falarmos sobre eles.

De como Lula abdicou de qualquer pretensão eleitoral para 2018

Ontem acirrei os ânimos em meu perfil no facebook (oba !) ao mencionar, só de raspão, a absurda necessidade que certos petistas de carteirinha têm de blindar o Lula. Como se, para ser convincente, só ter carisma bastasse – e ele fosse, sei lá, uma espécie de Fidel. Deve haver por aí quem pense assim, ou sua figura já teria sido há muito esquecida pelo PT.

Lula deve ter recebido enfáticas recomendações para que, ao teimar em se defender perante a nação de acusações vazias recebidas na véspera, não falasse de improviso em hipótese alguma. Inutilmente, no entanto. Pois improvisou. E no meio de todas as asneiras que provavelmente disse (me poupei do discurso completo), proferiu o monumental disparate de comparar, favoravelmente aos primeiros, políticos com funcionários públicos concursados.

Ou seja, de um lado,

oportunistas que recebem até 14 polpudos salários anuais para prestarem expedientes reduzidíssimos, se aposentando com o teto dos vencimentos depois de apenas 8 anos de trabalho em ambientes confortáveis e privilegiados;

e, de outro,

profissionais capacitados que tiveram sua proficiência averiguada em certames isonômicos para trabalharem jornadas extensas em condições frequentemente adversas e receberem aposentadorias proporcionais só depois de 30 ou 35 anos.

Foi bastante fácil encontrar no youtube (não precisei perguntar no facebook !) a fala desastrosa do Lula. Vejam:

https://www.youtube.com/watch?v=JimiFiHyWzM

Não preciso dizer que estas poucas palavras, que nenhum marketeiro ou assessor aprovaria (daí minha insistência para que, no horário de propaganda eleitoral gratuita, fossem transmitidos obrigatoriamente, em vez das ridículas peças publicitárias com que somos bombardeados, reality shows com os candidatos) – ganharam imediatamente toda a mídia e as redes sociais. Ainda não tivemos tempo de conhecer os melhores memes. Com elas, Lula conseguiu, por puro erro de avaliação, irritar profundamente tanto seus adversários políticos (representados como categoria em sua fala ultrajante) quanto sua imensa base de apoio – constituída, vale lembrar, por uma enorme quantidade de funcionários públicos.

Então, se Lula tinha qualquer pretensão eleitoral para 2018, dela abdicou ontem à noite, diante de uma nação divertida (adversários e detratores) e estupefata (aliados e admiradores). O que me restou disto tudo foi a profunda convicção de que, embora não possa provar, quem ainda ficou a seu lado o faz por razões estritamente econômicas. Ou, talvez, ingenuidade. Pois todo ser humano merece o benefício da dúvida. Até o Lula.

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PS: fui alertado pelo José Neves que o vídeo que ilustra a postagem acima foi removido pelo usuário. Então, quem quiser conferir o polêmico trecho do discurso de desagravo de Lula encontrará várias postagens do mesmo nesta pesquisa.