The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Academy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber

The Slow Professor 1

The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Adademy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber (University of Toronto Press, 2016), é um daqueles livros impossíveis de serem lidos a não ser quando já temos em mente resenhá-los. O título atua como um imã sobre quem quer que já tenha experimentado algum tipo de desconforto ou insatisfação com quaisquer aspectos da vida acadêmica de algum modo associados à cultura da velocidade a que aludem.

Não é difícil para qualquer professor e/ou pesquisador experimentado se identificar com tal cultura. Até por isto, optamos por, em vez definir no que consiste esta cultura, deixar ao leitor que intua seu sentido por meio de situações, relatadas no livro e transcritas alguns parágrafos abaixo, que ilustram exemplarmente sua atual banalização em ambientes acadêmicos.

O título, apelativo, me fisgou de pronto. Tanto que, mal soube da existência do livro através de uma postagem de Éder Silveira no facebook, tratei logo de lhe adquirir e ler, sublinhando e anotando furiosamente, despudoradamente anunciando esta resenha muito antes de ter iniciado a leitura. Por que tanta certeza sobre meu entusiasmo acerca do que sequer havia lido ? Ora, por que, no instante em que li o irresistível título, tive a plena convicção de que encontrara, finalmente, minha turma.

As ideias de slow teaching e slow research, desdobramentos no campo acadêmico de princípios observados por adeptos ao movimento conhecido por Slow Food, são solenemente explicitadas, logo no prefácio da obra, por meio de um partisaníssimo The Slow Professor Manifesto. Para se referir à cultura de velocidade acadêmica a que aludem no título, as autoras recorrem a dois conceitos fundamentais, intraduzíveis, a saber, o de

corporatization (corporatização ?) da academia e o de

collegiality (colegialidade ?).

Em sua argumentação, observam que, no âmbito acadêmico e numa linha de tempo recente, um crescimento do primeiro parâmetro correspondeu a um declínio do segundo.

* * *

Para leitores mais velozes, poderia encerrar a resenha por aqui. Vale a pena, no entanto, esmiuçar um pouco o pequeno volume, de menos de cem páginas. Pois, para estimularem a leitura do livro, suas autoras acordaram desde cedo manter o texto sucinto.

Os nomes dos capítulos de The Slow Professor dão uma ótima ideia de seu conteúdo. São eles “Gestão Temporal e Falta de Tempo”, “Pedagogia e Prazer”, “Pesquisa e Compreensão” e “Colegialidade e Comunidade”. Alguns deles foram escritos individualmente por uma das autoras. Outros, bem como a introdução e a conclusão, são frutos de um processo de escrita colaborativa entre as duas. Há, em todo o livro, fartas referências à colaboração híbrida que lhe deu origem.

Numa primeira leitura (pois se trata, sem dúvida, de uma obra de referência), The Slow Professor pode parecer uma imensa revisão bibliográfica. Pois tudo o que já foi dito sobre o assunto está lá. Cabe aqui, no entanto, um parêntesis. Sempre reputei revisões bibliográficas como as partes mais enfadonhas dos (poucos) documentos acadêmicos que li. Mas aqui não ! Não sei se pelo critério de corte, pela qualidade das citações e menções ou por ambos, The Slow Professor é, de longe, a melhor revisão bibliográfica que conheço. Pretendo voltar a ela muitas vezes em busca de inspiração e orientação para leituras a empreender.

Para equilibrar a aridez enciclopédica e burocrática inerente às revisões bibliográficas, as autoras pontuam o texto, aqui e ali, com relatos, por vezes anedóticos, que bem ilustram o absurdo a que não raro chegamos. Como os seguintes.

Tendo perguntado a uma aluna se lera a uma bibliografia exigida, uma das autoras obteve como resposta: “ – Parte dela. “

Tratando da fragmentação exacerbada do tempo acadêmico, da descontinuidade do ritmo produtivo e criativo – e de como ambos estes fenômenos podem interagir perniciosamente, falam de relatórios exageradamente detalhados, como os já exigidos por muitos órgãos de fomento, que, numa situação extrema, poderiam conter relatos como “ às 9:00, escrevi uma frase; às 9:30, a deletei… ”.

Mencionam uma colega docente que, tendo recém publicado DOIS livros, se preocupava com o fato de que, no ano vindouro, teria a agregar a seu currículo APENAS participações em congressos.

Outros trechos que sublinhei, transcritos abaixo, dão perfeitamente conta, se considerados em seu conjunto, de caracterizar o que seria a cultura de velocidade na academia.

” … a persistente percepção de professores como uma classe “folgada”, dada ao prazer, produziu uma cultura de culpa e sobrecarga de trabalho. “

” Flexibilidade de horário pode se traduzir em trabalhar o tempo todo, particularmente por que o trabalho acadêmico, por sua própria natureza, jamais se dá por concluído. Nossas respostas aos trabalhos dos alunos sempre podem ser mais detalhadas; nossa leitura de literatura especializada sempre pode ser mais atual; nossos livros sempre podem ser mais exaustivos. “

” … explica a um estudante de pós-graduação que reclama que seu supervisor nunca está disponível que provavelmente lhe falta tempo; que ele provavelmente está demasiado ocupado atendendo a reuniões, preparando orçamentos, gerenciando e avaliando pessoal e fazendo todas essas coisas que professores fazem hoje ao invés de pensar. “

” A falácia da accountability (outro termo intraduzível), definida como a crença de que o processo de relatar uma atividade na forma apropriada de algum modo garante que algo de real valor foi adequadamente feito. “

” … a corporatização levou à padronização do aprendizado e a um senso de urgência […] “ ou, como diz um dos autores citados, ” à passagem da ignorância ao esclarecimento em um espaço determinado de tempo (um que seja o mais curto e padronizado possível). ” “

” a danosa concepção, no atual ethos acadêmico, de excelência como um estado de ‘ não ficar parado ‘. “

” Dividir nosso tempo em intervalos cada vez menores e mais precisos não é uma solução a longo prazo. “

” […] o número de páginas que lemos em uma hora varia amplamente, dependendo do que se está lendo e com que propósito. “

” […] pesquisa (a criação de conhecimento) e aprendizado (a criação de conhecimento dentro de alguém) precisa ser medida de um modo totalmente diferente do modo como medimos o trabalho industrial […] o que precisamos é de thinkology em vez de technology. “

” O prazer é, como o movimento Slow Food deixou claro, inimigo do mundo corporativo. “

” Ensino e aprendizado são cada vez mais vistos como aspectos meramente colaterais da descoberta e da pesquisa aplicada. “

” Ser ético pode verdadeiramente significar ser, por vezes, ineficiente. “

” Pensar pertence mais a uma economia de desperdício do que, propriamente, a uma economia restrita de cálculo […] “

” Horácio recomenda que se espere nove anos entre escrever e publicar. ” (!)

” Alunos de pós-graduação, dada a escassez de financiamento e falta de perspectivas de trabalho futuro, são particularmente vulneráveis à cultura da velocidade […] “, passando a sofrer de um mal que um dos autores citados define, apropriada e divertidamente, como publicatio praecox.

A prevalência atual, em ambientes acadêmicos, de uma publish or perish culture também é mencionada.

A certa altura, citam um texto no qual alguém chega mesmo a sugerir que alunos de pós-graduação assumam parte das tarefas do trabalho docente no que tange, por exemplo, ao peer review de artigos (!). Sabemos a utilização de alunos como força-tarefa para desonerar docentes de suas atribuições está longe de ser uma ideia remota.

E assim, por meio de exemplos frequentes no dia a dia de qualquer professor, tecem um claro panorama daquilo em que consiste a cultura de velocidade na academia – tida como decorrente, acima de tudo, de um posicionamento cada vez mais empresarial das instituições de ensino superior, o qual se traduz, no cotidiano acadêmico, na crescente pressão por resultados regulares e a curto prazo.

O estudo não se limita, no entanto, a apontar, em tom de denúncia, a condição doente em que a universidade se encontra. Em uma de suas partes, as autoras adotam um caráter mais prescritivo, declaradamente de auto-ajuda, sob a forma de comportamentos a serem adotados por quem quer que queira combater ativamente a cultura de velocidade que se enraizou tão profundamente no mundo acadêmico. Só que, a pretexto de não oferecer um spoiler (pois quero que leiam o livro !), não vou me referir à receita nesta resenha.

* * *

Gostei muito de achar, entre os autores citados, pensadores recentes da cena digital como Sherry Turkle (Alone Together, 2011) e o guru dos netskeptics Nicholas Carr (The Shallows: what the internet is doing to our brains, 2010). Exatamente por isto, estranhei não encontrar, no excelente “inventário de campo” produzido por Berg & Seeber, um texto que considero fundamental à cultura colaborativa, a saber, Where good ideas come from, de Steven Johnson (2010).

Mas isto é o de menos. Com ou sem menção à hipótese de Johnson, The Slow Professor é um livro que não pode faltar à cabeceira de qualquer professor e/ou pesquisador universitário que leve seu métier minimamente à sério. Quem se anima a traduzir ?

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Maggie Berg e Barbara K. Seeber

Procedimentos; ou Trial, error and statistics: that’s what medicine is all about

Aos meus amigos médicos

tomógrafo 1Com deve fazer todo diabético de tempos em tempos, fui ontem a uma clínica me submeter a exames oftálmicos periódicos. Já ao chegar, notei que as coisas andavam meio confusas por lá. Pois uma paciente que já havia retornado a sua casa precisou ser chamada às pressas de volta à clínica para realizar um exame restante sobre o qual, aparentemente, ninguém lhe dissera nada. Tendo inferido daí que, naquele dia, a bruxa devia andar à solta por ali, respirei fundo e ri sem que notassem. Tornaremos a isto.

Durante uma angiografia de retina com contraste, não pude deixar de notar – e comentar ! – que, pela primeira vez, não sentira, durante a injeção do contraste, o forte enjôo, acompanhado de ânsia de vômito iminente, experimentado em todas as vezes anteriores em que me submeti ao incômodo procedimento. Foi quando a técnica responsável pela realização do mesmo inadvertidamente confessou (ah, as armadilhas da vaidade…) que eu não sentira nenhum desconforto em razão dela ter injetado o contraste mais vagarosamente do que em vezes anteriores (!). Disfarcei meu espanto em surpresa positiva. Em seguida, comentei que em todas as outras vezes o exame fora realizado por duas técnicas – uma para fotografar as retinas e a outra para injetar o contraste – e não por apenas uma como ontem. Foi quando ela sorriu sem graça e confessou estarem enfrentando problemas transitórios de pessoal – ao que prontamente retruquei que, neste caso, o exame deveria ser realizado sempre por somente uma técnica. Por algum argumento de ordem corporativo/trabalhista, tendo a ver com direitos adquiridos, ela não deve ter gostado de minha constatação.

Já disse, um pouco acima, que, ontem, naquela clínica, a bruxa parecia estar à solta. Talvez por isto, não pude deixar de notar que, após a triagem habitual (chamada por ordem de ficha, questionário sobre alergias e carga medicamentosa, assinatura de termo de desresponsabilização da clínica por eventuais efeitos colaterais e pagamento da taxa adicional ao convênio (sim, o IPERGS anda assim), fui conduzido a uma nova sala de espera para dilatar as pupilas, onde estaria esperando até agora não fosse o fato de eu ter observado e assinalado, depois de quase uma hora, que ninguém havia dilatado, até então, minhas pupilas. Sem perder a pose o o rebolado, a técnica a quem me dirigi disfarçou, então, seu espanto para prontamente pingar em meus olhos aquele colírio ardente.

Por que não me surpreendo ? Com certeza por acreditar, faz já algum tempo, que a medicina é feita, acima de tudo, de tentativas, erros e estatísticas. Com efeito, boa parte de toda pesquisa acadêmica na área se trata de estabelecer se correlações entre sintomas e comportamentos são ou não, afinal, espúrias. Todo médico e alguns pacientes mais esclarecidos sabem disto. Só que a maioria dos últimos prefere atribuir aos primeiros, provavelmente pela fragilidade da condição da própria doença, um poder e uma onisciência equivalentes aos observados na prática de religiões. O que é perfeitamente compreensível.

A sequência de episódios caóticos acima relatados me fez lembrar de quando consultei um otorrinolaringologista de minha inteira confiança, amigo pessoal, que, ao testar meu limiar auditivo e espantado com a persistência de minha surdez mesmo quando já havia aumentado drasticamente o volume do sinal de teste, ergueu finalmente os olhos de seu painel de controle para, olhando em minha direção pela primeira vez, dizer, com a maior naturalidade e sem denotar qualquer surpresa: ” – Agora, vamos repetir o teste com os fones ! ”

* * *

Lembro que, durante minha infância, era comum bons médicos diagnosticarem quadros exclusivamente a partir de entrevistas com pacientes, aparelhos “primitivos” como estetoscópios e otoscópios (é assim que chamam aquelas canetas com lupas e luzes que nos enfiam nos ouvidos ?) ou, no máximo, um hemograma. Ano passado, fui submetido a uma ressonância magnética (com todos os medos daí decorrentes) tão somente para investigar a origem de uma queixa de dor nas costas. Sem ser contra a tecnologia (muito antes o contrário !), noto que algo na medicina inquestionavelmente mudou. Se para melhor ou pior, me abstenho de opinar.

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