Por que a publicidade do Uber é, mais do que enganosa, perversa

Ontem, me surpreendi ao me deparar no facebook com uma imagem de um anúncio do Uber, seguida de um comentário, em tom de desabafo, cuja essência se resumia à popular piada:

”  – O que você faz ?

– Sou músico.

– Sim. Mas o que você faz para viver ? “

O anúncio era este:

A anedota, autoexplicativa, tem a ver com a noção, cada vez mais propagada, de que a música é, antes de uma profissão, uma ocupação, não obrigatoriamente remunerada. Faz sentido. Ao externar, mais tarde, minha indignação, ouvi até de músicos profissionais que o anúncio do Uber traduzia perfeitamente uma realidade há muito vigente.

Mesmo sob risco de ser taxado de paranoico ou afeito a teorias conspiracionistas, não consigo aceitar o anúncio supracitado como algo simplesmente natural. Até por que, por força do ofício, acabo conhecendo muita gente que, apesar do espírito dos tempos, ainda estuda música no intuito de fazer dela sua ocupação principal. Acho, portanto, a noção implícita no anúncio bem perversa e insidiosa.

Já defendi, noutros posts, a ideia de que as profissões, como hoje as conhecemos, estão fadadas à obsolescência, na impossibilidade de se determinar quais das ocupações remuneradas hoje existentes sobreviverão num futuro próximo ou distante. Consoante a isto, a retórica, adotada pelo  Uber, de justificar seus serviços pela possibilidade de sustento, por parte de seus afiliados, de outras ocupações preferenciais, ainda que mais dificilmente remuneradas, não deveria me causar nenhuma surpresa. Só que não. Uma coisa são profissões surgirem e desaparecerem ao sabor das tecnologias de cada época. Outra, bem diferente, é um sistema ideológico (o capitalismo, no caso) tomar a si o privilégio de ditar quais ocupações devam se perpetuar ou, ao contrário, serem decretadas obsoletas ante novas tecnologias e, portanto, extintas.

Tentando enxergar um pouco mais além do próprio umbigo, se pode dizer que o maior problema do anúncio da Uber não é tanto o preconceito em relação a uma atividade profissional, a do músico, mas a ideia de que o mercado pode, por meio de uma empresa, deliberar sobre quais ocupações devam ser remuneradas e quais outras devam, ao contrário, ser relegadas exclusivamente a províncias de diletantes.

Como disse pouco acima, o conjunto de profissões existentes em cada momento da história é peculiar a cada época. Deste modo, profissões como as de músico, fotógrafo ou (por que não ?) até mesmo as de médico ou advogado venham a se tornar, numa era de algoritmos, obsoletas (vide Harari). Não cabe, no entanto, à publicidade, enquanto braço privilegiado do capitalismo, tentar moldar ou simplesmente interferir nestes desígnios. A mensagem implícita no outdoor do Uber é, portanto, no mínimo, mistificadora e, francamente, mal intencionada. Como tal, deveria ser denunciada e proscrita pelos órgãos responsáveis pela regulamentação da ética publicitária.

Duvido, no entanto, que isto aconteça. Não por que não existam tais órgãos reguladores mas, tão somente, por que a mentira continua sendo a principal matéria-prima de toda propaganda. Uma das melhores e mais hilárias que conheço é um spot da BandNews no qual é dito que “propaganda é cultura e entretenimento”. Me dobro de rir cada vez que ouço. Mas deve ter quem acredite.

Além disto, há outro aspecto envolvido, mais sutil. Quando o Uber justifica que alguém dirija para sustentar outra atividade preferencial, fica implícito que dirigir não seja, necessariamente, o que o motorista gostaria de estar fazendo em primeiro lugar. Mesmo que isto seja verdade na maioria das vezes, e até mesmo que seja impossível determinar se alguém que declare gostar de algum trabalho efetivamente goste do mesmo (o que deve acontecer com bastante frequência), prefiro pensar que estou sendo transportado por alguém que goste de dirigir para terceiros.

Mais. É do credo capitalista o princípio de que quem empreende gosta, necessariamente, do que faz – ou seria incapaz de fazer direito. Ora, a retórica de todos os aplicativos de serviços autônomos enfatiza que todo prestador de serviços (que, como todo empresário, assume riscos mas, ao contrário da maioria dos mesmos, não explora a força de trabalho alheia) é, em última análise, também um empreendedor (já falei disto aqui).

O furo deste argumento é que, enquanto qualquer empresário pode crescer e se esforça para isto (o mito do crescimento constante é, com efeito, a grande mola propulsora do capitalismo (vide, outra vez, Harari)), o progresso de um motorista de Uber é limitado pelo esgotamento de seu tempo disponível. Desenhando, não há para ele, atingido o limite de sua força produtiva, qualquer possibilidade de crescimento.

Ao mesmo tempo, é o único responsável pela amortização, manutenção e reposição de seu meio de produção, a saber, seu próprio veículo. Um contrato, a nosso ver, nada glamoroso – fato compreensivelmente omitido da publicidade do aplicativo.

Se, ainda assim, estiver difícil de entender o que há de tão errado com o anúncio do Uber estampado lá em cima, recorramos a uma redução ao absurdo, da seguinte maneira: se a propaganda do aplicativo estampasse os dizeres “Dirijo para me dedicar à advocacia”, certamente a OAB já teria montado num porco. Não sou, no entanto, tão ingênuo a ponto de esperar que a Ordem dos Músicos do Brasil se manifeste em termos semelhantes.

* * *

P.S.: depois de publicar o texto acima, li, nos comentários sob uma das muitas postagens indignadas do polêmico anúncio do Uber (compreensivelmente por músicos ultrajados) o seguinte:

” […] Para conseguir ganhar algum dinheiro dirigindo para Uber, tem que passar 10 horas dentro do carro, 6 a 7 dias por semana. Vai se dedicar à música quando? “

Bingo ! Em pouquíssimas palavras, estabelece que a dedicação a outra atividade, ao menos como prescreve a famosa teoria das dez mil horas minimamente necessárias à proficiência em qualquer coisa, é impossível a quem transporte passageiros, seja de Uber, taxi ou o escambau – sendo, portanto, o anúncio em questão acintosamente enganoso, como queríamos demonstrar.

Sobre a invenção da crítica musical; ou Uma introdução ao Corno di Bassetto

Corno di Bassetto foi o pseudônimo adotado pelo grande dramaturgo irlandês George Bernard Shaw para, quando jovem, ainda desconhecido e dedicado ao colunismo diário, resenhar brilhantemente a cena musical vitoriana, não só em toda Londres metropolitana mas pela Europa de então. Pois são notáveis, por exemplo, seus registros sobre performances em Bayreuth e Amsterdã.

Nesta crônica exponencial e diária, que se estendeu por anos e abarca vários volumes, não poupou de seus comentários ácidos e, na maioria das vezes, hilários, desde músicos, cantores e maestros até professores, empresários, políticos, arquitetos, ouvintes e os próprios críticos.

A revelação mais contundente de sua leitura é que, não obstante passados já mais de cem anos desde a época em que foram escritas, permanecem, quase todas, atuais, i.e., se aplicam a situações vigentes ainda hoje.

Espantosamente, tamanha coletânea de seus textos curtos, precisos e mordazes jamais foi traduzida para a língua portuguesa. O volume que ocupa na obra completa de Shaw, publicada pelos anos 30 e existente na Biblioteca Central da UFRGS, nunca havia saído de lá até que, anos atrás, o tomei emprestado. Pois meu próprio exemplar, adquirido usado num sebo que afirma ser o maior do mundo, esteve emprestado por mais de uma década.

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No fim dos anos 80, a Strand Book Store, que fica na Broaway no coração do Greenwih Village, próximo ao campus da New York University, tinha um perfil bem interessante. Pois, além de alegar ter mais de 8 milhões de livros a preços irrisórios, tinha grandes estoques de exemplares de revisão (review books), que era como chamavam a enorme quantidade de cópias promocionais, luxuosamente encadernadas, presenteado pelas editoras aos muitos críticos locais e vendidos pelos mesmos à Strand por frações ainda menores de seus preços em livrarias.

Meu exemplar de London Music in 1888-89 as heard by Corno di Bassetto, lá garimpado, não foi, no entanto, um review book. A julgar pelo papel envelhecido e encadernação surrada, minha cópia, impressa em 1950, foi mais provavelmente arrematada com parte de alguma coleção particular.

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Quem me conhece um pouco mais de perto sabe que li do início ao fim (abandonei muitos !), pouquíssimos livros. London Music foi um deles. Muitas vezes. Há marcações a lápis em praticamente cada página, além de muitos marcadores. O único artigo acadêmico que já redigi sozinho, postado em meu primeiro blog, foi sobre ele. Desisti de republicá-lo para, antes, o atualizar. De sorte que esperem, então, em posts vindouros, mais sobre a crítica musical segundo seu inventor.

A crítica musical em meios jornalísticos é um gênero literário tão interessante quanto negligenciado, desprezado (por vezes com justas razões…) ou mesmo ignorado por artistas, intelectuais, acadêmicos, políticos, jornalistas e formadores de opinião em geral. Praticamente inexistente antes dos tablóides diários das primeiras metrópoles industriais (daí minha atribuição de sua invenção ao Corno di Bassetto), sucumbiu sob o peso da própria obsolescência com a chegada da internet. Não que tenha deixado de existir. Só que, ao invés de ser exercida por um punhado de escritores bem treinados e musicalmente educados, instrumentados por fabricantes de discos e bancados por empresas jornalísticas, foi pulverizada entre uma multidão de opinantes qualificados, dispersos em blogs, perfis, grupos de discussão e fóruns de comparações ou avaliações por usuários. Hoje, toda inteligência é líquida. Queiram ou não certificadores e autoridades investidas.

A delicada questão da independência necessária ao bom exercício de toda crítica foi magistralmente levantada por Bassetto, nalgum de seus textos (acho profundamente irritante não localizar uma referência exata…), por meio de um espirituoso aforismo, a saber, o de que ” um crítico (ou seu jornal) deve sempre adquirir os ingressos para quaisquer espetáculos que venha a resenhar ” – cujo descumprimento, aliás, explica grande parte das más práticas hoje perpetradas em meios de broadcasting.

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