Sobre a invenção da crítica musical; ou Uma introdução ao Corno di Bassetto

Corno di Bassetto foi o pseudônimo adotado pelo grande dramaturgo irlandês George Bernard Shaw para, quando jovem, ainda desconhecido e dedicado ao colunismo diário, resenhar brilhantemente a cena musical vitoriana, não só em toda Londres metropolitana mas pela Europa de então. Pois são notáveis, por exemplo, seus registros sobre performances em Bayreuth e Amsterdã.

Nesta crônica exponencial e diária, que se estendeu por anos e abarca vários volumes, não poupou de seus comentários ácidos e, na maioria das vezes, hilários, desde músicos, cantores e maestros até professores, empresários, políticos, arquitetos, ouvintes e os próprios críticos.

A revelação mais contundente de sua leitura é que, não obstante passados já mais de cem anos desde a época em que foram escritas, permanecem, quase todas, atuais, i.e., se aplicam a situações vigentes ainda hoje.

Espantosamente, tamanha coletânea de seus textos curtos, precisos e mordazes jamais foi traduzida para a língua portuguesa. O volume que ocupa na obra completa de Shaw, publicada pelos anos 30 e existente na Biblioteca Central da UFRGS, nunca havia saído de lá até que, anos atrás, o tomei emprestado. Pois meu próprio exemplar, adquirido usado num sebo que afirma ser o maior do mundo, esteve emprestado por mais de uma década.

Strand 3

No fim dos anos 80, a Strand Book Store, que fica na Broaway no coração do Greenwih Village, próximo ao campus da New York University, tinha um perfil bem interessante. Pois, além de alegar ter mais de 8 milhões de livros a preços irrisórios, tinha grandes estoques de exemplares de revisão (review books), que era como chamavam a enorme quantidade de cópias promocionais, luxuosamente encadernadas, presenteado pelas editoras aos muitos críticos locais e vendidos pelos mesmos à Strand por frações ainda menores de seus preços em livrarias.

Meu exemplar de London Music in 1888-89 as heard by Corno di Bassetto, lá garimpado, não foi, no entanto, um review book. A julgar pelo papel envelhecido e encadernação surrada, minha cópia, impressa em 1950, foi mais provavelmente arrematada com parte de alguma coleção particular.

DSC_3576

Quem me conhece um pouco mais de perto sabe que li do início ao fim (abandonei muitos !), pouquíssimos livros. London Music foi um deles. Muitas vezes. Há marcações a lápis em praticamente cada página, além de muitos marcadores. O único artigo acadêmico que já redigi sozinho, postado em meu primeiro blog, foi sobre ele. Desisti de republicá-lo para, antes, o atualizar. De sorte que esperem, então, em posts vindouros, mais sobre a crítica musical segundo seu inventor.

A crítica musical em meios jornalísticos é um gênero literário tão interessante quanto negligenciado, desprezado (por vezes com justas razões…) ou mesmo ignorado por artistas, intelectuais, acadêmicos, políticos, jornalistas e formadores de opinião em geral. Praticamente inexistente antes dos tablóides diários das primeiras metrópoles industriais (daí minha atribuição de sua invenção ao Corno di Bassetto), sucumbiu sob o peso da própria obsolescência com a chegada da internet. Não que tenha deixado de existir. Só que, ao invés de ser exercida por um punhado de escritores bem treinados e musicalmente educados, instrumentados por fabricantes de discos e bancados por empresas jornalísticas, foi pulverizada entre uma multidão de opinantes qualificados, dispersos em blogs, perfis, grupos de discussão e fóruns de comparações ou avaliações por usuários. Hoje, toda inteligência é líquida. Queiram ou não certificadores e autoridades investidas.

A delicada questão da independência necessária ao bom exercício de toda crítica foi magistralmente levantada por Bassetto, nalgum de seus textos (acho profundamente irritante não localizar uma referência exata…), por meio de um espirituoso aforismo, a saber, o de que ” um crítico (ou seu jornal) deve sempre adquirir os ingressos para quaisquer espetáculos que venha a resenhar ” – cujo descumprimento, aliás, explica grande parte das más práticas hoje perpetradas em meios de broadcasting.

DSC_3578

In praise of vinyl

Republico, abaixo, texto que escrevi em meu blog antigo, a propósito da aparentemente bizarra moda inglesa de anos atrás de reunir pessoas para ouvir, em casa, LPs inteiros. Acho que, de algum modo, aquela iniciativa pode estar relacionada à nova tendência, relatada pela BBC, de jazzistas ingleses (sempre os bretões !) se apresentarem em suas próprias residências. Tirem suas próprias conclusões.

O texto foi repostado com atualizações da época de sua publicação original.

* * *

turntable 04

Sem lembrar ao certo quando ouvi pela última vez um álbum de forma ininterrupta, posso, no entanto, afirmar, com certa margem de segurança, que foi algum LP, antes de ter adquirido meu primeiro tocador de CDs por volta do final dos anos 80. Não que, depois disto, não tenha desfrutado de audições prolongadas (e repetidas !) de movimentos sinfônicos e camerísticos favoritos ou faixas memoráveis de Bill Evans ou afins, tanto em áudio de alta fidelidade (mais raramente) como em mp3 (diariamente, enquanto caminho). É que, numa era de abundância digital, a audição lenta e concentrada acabou se tornando praticamente um luxo – para o qual precisamos abdicar de apenas classificar, por amostragem, um volume enorme e crescente de gravações facilmente acessíveis recomendadas por fontes confiáveis como capazes de atender às mais altas expectativas.

Por isso, já no início dos 90 eu admirava a obstinada diligência de alunos do Instituto de Artes da UFRGS (uns poucos, admito – não por acaso os melhores) que consagravam parte de seus finais de semana à fruição integral de óperas de Wagner em videocassete. Eu próprio, já então acostumado à repetição insistente, para desespero de alguns, dos primeiros movimentos da primeira sinfonia de Brahms e das terceiras de Beethoven e de Nielsen (bem como da música de câmara do primeiro !), não me furtava de achar aquilo tão elogiável quanto bizarro. Mahler e Bruckner sempre se situaram, confesso, além de meu limite de concentração, quer pelas limitações dinâmicas dos equipamentos reprodutores (até hoje !), quer por suas formas pouco concisas e, em decorrência, seu uso, digamos, pouco ecológico do tempo de audição.

Guardo, no entanto, desde que me tornei um colecionador de música em mp3 (quase toda ela anterior aos anos 80), ótimas recordações de quando ouvia sem pressa LPs que preservo até hoje, à espera da oportunidade de, tendo reinstalado caixas de som com alto-falantes de 12 polegadas de cones rígidos montados sobre carcaças de metal fundido e alimentados por amplificadores robustos (ainda sou do tempo que se escolhia equipamento de áudio de alta fidelidade pelo peso), proporcionar este tipo de experiência a meus filhos – e estremeço de medo só de pensar que eles não venham a perceber qualquer diferença em relação a como se acostumaram a ouvir música.

Neste quadro, exultei com uma possível mudança cultural, notada quase simultaneamente pelo Guardian, pelo The Telegraph, pela BBC e, logo depois, pelo sempre atento a novas tendências musicais Hypebot, indicada por uma iniciativa emergente na Inglaterra conhecida como Classic Album Sundays e reconhecida como parte de um movimento mais amplo muito apropriadamente designado por slow listening.

Seus idealizadores buscam, antes de tudo, resgatar o sentido do álbum. Para tanto, seus participantes mergulham, a cada encontro, na audição coletiva e concentrada de LPs antológicos. Offline, é claro: no texting allowed. Os álbuns são curados pelos próprios participantes e discutidos depois de ouvidos. Dentre os discos citados na matéria da BBC figuram The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, e um de Milton Nascimento com o Clube da Esquina (!).

Então, que a ideia destes valentes bretões possa ao menos servir um dia, quem sabe, de inspiração a iniciativas análogas por aqui – as quais, se já existem, até o momento ignoro.
E enquanto isto não acontece, torno a uma questão complexa que há muito me intriga, a saber, se a tão incensada superioridade da experiência de escuta de discos de vinil em relação à de CDs se deve mais a vantagens tecnológicas de um meio sobre o outro ou, antes, à qualidade da música predominantemente gravada em cada um. Ou, dito de outro modo, o que piorou mais de lá para cá: a tecnologia ou a música ?

Tenho minhas suposições. Quero conhecer as suas.

turntable 03

* * *

Update #1: reproduzo, a seguir, comentário postado no facebook por Marcos Abreu, amigo e eminente autoridade em matéria de áudio.

Meu caro Augusto, a superioridade entre os meios é relativa. Se pensarmos, em termos de informação, um vinil, para ter mais qualidade que um cd, teria que ser produzido integralmente em um sistema analógico de altissima qualidade. Difícil nos nossos dias. Quem sabe em um vinil antigo. Não podemos dizer que um vinil que tenha sido gravado em sistema digital seja superior a um cd. Até porque a informação já foi perdida pelo caminho. Escuto discos de vinil quase diariamente. Sem problemas. Afinal, o que interessa é a música, não o meio.

Update #2: meus amigos definitivamente elegeram o facebook para comentar este post; por isso, reproduzo também o que disse por lá Milton Ribeiro, talvez o mais dedicado ouvinte qualificado que eu conheça.

Ouvi hoje, ontem e anteontem álbuns inteiros…

 

A propósito do Dia das Bruxas, certas áreas onde mulheres ainda encontram mais dificuldades do que homens

"BRAVE"   (Pictured) THE WITCH ©2012 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Quem vai ao Google hoje vê uma bruxa tirando feitiços de um caldeirão. Para celebrar o Dia das Bruxas, não há nada melhor do inventariar situações em que o desfavorecimento feminino seja mais evidente. Como em ambientes tecnológicos e artísticos, por exemplo.

(curioso como, muito antes de escolhermos certos temas, são eles que nos escolhem, por meio de um bombardeio, nas PLNs, de referências convergentes, como as abaixo)

Não tinha ideia de como se dá o aprendizado da programação (de computadores) até ler a entrevista que Jay Rosen (jornalismo, NYU) fez com sua filha de 17 anos que vem tendo aulas de programação. De imediato, relacionei ao caso da filha de Howard Rheingold, que apresenta num filme para o Google o ambiente da empresa em que trabalha. Mesmo que não se trate, exatamente, nestes casos, de meninas comuns, não podemos deixar de pensar em que oportunidades de aprendizado de programação são oferecidas a meninas em nossas escolas.

Ainda esses dias a Folha traduziu do New York Times e republicou uma matéria sobre o apagamento histórico de biografias de mulheres pioneiras em áreas tecnológicas. Muito bem pesquisada e ilustrada. Ali, descobrimos o inexplicável sumiço, da história da tecnologia, de Ada Lovelace, matemática e escritora inglesa que viveu entre 1815 e 1852 e, entre outras coisas, escreveu o primeiro algoritmo computacional. O mesmo bias sexista se faz presente hoje em áreas tão distantes entre si como, por exemplo, o esporte ou os brinquedos.

Já no campo das artes, é notória predominância masculina em pódios orquestrais. Mais. Embora rigorosos processos seletivos já tenham equilibrado a presença dos gêneros em orquestras de todo o mundo, há, ainda, lamentavelmente, casos de orquestras totalmente masculinas. Como as filarmônicas de Berlim ou Viena, as quais, respectivamente, rejeitaram, no fim dos anos 80, o ingresso de uma clarinetista, protegida de Herbert von Karajan; e, no ano passado, de uma flautista. Cabe ressaltar que, em ambos os casos, as orquestras reprovaram, por maioria, o ingresso de virtuoses notórias como suas primeiras integrantes mulheres. Coincidência ? Acho que não.

E há mesmo, pasmem, quem trate de justificar, como o eminente finlandês Jorma Panula, para espanto das próprias alunas, que mulheres são biologicamente inaptas à regência orquestral. Sério. Pior. Ouvi testemunhos incríveis sobre isto, longe de qualquer consenso, de músicos e maestros acima de qualquer suspeita. Dentre os mais engraçados (posto que mais preconceituosos) argumentos que normalmente ouço em resposta à pergunta (que tenho mesmo por questão de pesquisa ou linha indagatória) de por que são tão raras as mulheres no pódio, se destacam:

” Então por que não há, afinal, mais mulheres regendo ? “

Esse, ao mesmo tempo tautológico e fenomenológico, simplesmente devolve a pergunta sem respondê-la, .  ao mesmo tempoessa é simples – ótima, no entanto para uma aula de história. Basta lembrar, para começar, que a atividade de regência nasceu ao mesmo tempo do que a militarização industrial das nações…)

” São incapazes de certos gestos mais enérgicos, até violentos, usualmente atribuídos ao gênero masculino. “

Questionável. Tanto no que se refere à capacidade do gesto quanto à necessidade do mesmo.

” Umas poucas que sucedem o fazem sob o preço de se masculinizarem. “

Esse, prefiro nem comentar. Quando o ouço, basta pensar em Alondra.

Alondra 3

* * *

P.S.: uma variante bem interessante para a questão norteadora ” Por que mulheres são tão raras no pódio orquestral ? “ seria ” Por que mulheres, diante de orquestras, são bem mais frequentes como solistas do que como regentes ? “. Um verdadeiro portal para estudos sobre celebridades.