Por que o ataque à exposição Queermuseu foi um tiro que saiu pela culatra

Belo afresco de Pompeia, garimpado pelo Milton Ribeiro

Nem as malas e caixas com dinheiro do Geddel tiveram tanta permanência. Pois, passados já quase três dias, só o que se fala na timeline é sobre o fechamento da exposição Queermuseu: Cartografia da Direrença na Arte Brasileira pelo Santander Cultural de Porto Alegre. Não que o ultraje seja exagerado: o fato gerador criou um precedente perigosíssimo e, portanto, nunca será demais alardeá-lo. Mas começo a sentir uma certa falta nostálgica da não predominância de um único tema sobre os demais. Mesmo com a alegre profusão de imagens de arte erótica socialmente curada que tomou conta de nossas telas nos últimos dias, em saudável e justa reação ao gesto desastrado do banco que primeiro promoveu e depois interrompeu a exposição.

Inclusive por que tanto já foi dito, não só aqui mas em outros estados e até países, relutei muito antes de vir aqui dar meus pitacos. Consoante a isto, não esperem encontrar, nos próximos parágrafos, mais indignação dirigida ao Santander e/ou ao MBL em razão do ocorrido. Até por que, coitados, o Santander é apenas um banco (com interesses de um banco, portanto) e o MBL é só… o MBL. Me interessam, ao contrário, muito mais duas coisas, a saber,

por que o MBL, podendo escolher como alvo inúmeras manifestações artísticas ou culturais “degeneradas”, optou justamente por uma exibição de arte em um museu; e

os efeitos indesejáveis imprevistos (ou mal calculados, se preferirem) de sua ação estapafúrdia (não sei por que, lembrei aqui daquela cena do esquadrão suicida num filme do Monty Python, que se auto imola antes de “salvar” Cristo da cruz…).

* * *

Tentei em vão localizar, no mar de matérias jornalísticas produzidas sobre o imbroglio, os primeiros relatos que li dando conta de constrangimentos tête-à-tête a que militantes do MBL submeteram visitantes casuais da exposição. Isto por que tal possibilidade – a de provocar abertamente o público – está, a meu ver, no cerne da escolha, pelo movimento, do alvo para sua cruzada moralista.

Ora, obras de “arte degenerada” (insisto na expressão arcabouço, por condensar convenientemente um rol de significados a que temos que, aqui e ali, aludir) são hoje corriqueiras em todas as artes, seja no cinema, no teatro, na música ou nas artes visuais. Ao eleger a exposição Queermuseu, no Santander, como palco de sua ação desastrada (explico por que adiante), o MBL conferiu singularidade a um evento que, por si só, em nada difere, em seu potencial ultrajante, a, por exemplo, peças teatrais como Macaquinhos, muitas das letras de funk mais populares ou, ainda, dúzias de filmes com temática homossexual lançados anualmente.

Pois tenho para mim que a escolha da exposição no Santander como palco de sua ação teve como uma de suas principais razões, senão a única, o fato de que o espaço de exibição em uma galeria moderna confere tanto destaque ao espectador quanto às obras nele expostas. Tem a ver, em parte, com a iluminação e a claridade do ambiente. Reparem como o espaço do Santander Cultural é claro, sem a menor possibilidade de ocultação ou anonimato do espectador (já falei disto aqui). De tal modo que, em tais espaços, qualquer manifestação do público competirá, com vantagem (pois quadros e esculturas são silenciosos), com as obras expostas pela atenção de outros espectadores. É precisamente nisto que o MBL, ao direcionar seus militantes para o centro cultural, estava mais interessado. Ali, sua intervenção seria, necessariamente, mais notada do que, por exemplo, como contraponto a qualquer parada gay, na qual se diluiria entre outros grupos ruidosos e estaria, provavelmente, esquecida ao cabo de alguns dias.

Mais. Já lhes ocorreu por que o MBL jamais se preocupou em protestar em meio à audiência de tantos filmes potencialmente tão ou mais ultrajantes aos conservadores do que o acervo da exposição Queermuseu ? Ora, é elementar: simplesmente por que plateias são escuras e, portanto, qualquer vaia delas proveniente, anônima. Vai daí que tal tipo de manifestação não interessa ao movimento – para o qual é inútil proferir um discurso que não possa assinar.

Poderíamos prosseguir trilhando esta senda, analisando por que é tão importante ao MBL, mais ou menos como aos movimentos terroristas, assumir a autoria do que fazem, já que estão a serviço de interesses escusos cujos grandes donos não podem ser nominados (embora, paradoxalmente, todos os conheçam). Mas isto já escapa ao foco deste texto, que se pretende breve.

* * *

Dos muitos efeitos inusitados do ataque sofrido pela mostra, instrução e entretenimento estão entre os principais. Foi muito instrutivo, por exemplo, conhecer a célebre mostra de arte degenerada curada por Goebbels e execrada pelo regime nazista, invocada, não sem razão, como perigoso precedente à censura aplicada, primeiro pelo MBL e depois pelo próprio Santander, à exposição Queermuseu.

Então, vieram, de uma infinidade de perfis, belas amostras de arte erótica, recente e antiga, de muitas culturas, socialmente curadas com a finalidade de sublinhar o desatino dos promotores arrependidos da mostra por meio de uma engenhosa redução ao absurdo. Esta descentralização da crítica, face a uma censura que só existe por que concentrada num agente único (a saber, o MBL que, não obstante, reivindica a si agir no interesse de muitos que, todavia, não mostram a cara), é um tópico fascinante – a ser abordado, no entanto, num próximo texto, sobre o mito do alegado esfacelamento da esquerda ante a unidade aparente da direita.

De todos os efeitos imponderáveis da ação desastrada, há um, no entanto, que assume mais importância do que todos os demais. Um tsunami que tomou de surpresa a cúpula do MBL, que até agora não deve ter entendido o que houve, e que jamais teria orquestrado a ação se pudesse, de algum modo, prever o que ocorreria. Falo, é claro, da imensa promoção que o boicote e posterior fechamento da mostra representaram para o acervo exposto.  Ontem, comentei com um amigo que, quando Queermuseu voltar, se formarão longas filas às portas da exibição. Meu amigo acha, no entanto, que não vai voltar. Pouco importa. Assim como pouco importa o recuo do Santander. O que importa é que muito mais pessoas estão vendo, na mídia e em redes sociais, as obras que foram retiradas de exposição do que as pessoas que lá estiveram. Mais: estão não apenas vendo como também discutindo e se posicionando em relação ao que é visto. Ora, isto é muito maior do que o mais ambicioso sonho de qualquer curador.

Parabéns, então, MBL, por mais este fragoroso tiro que saiu pela culatra ! Vocês estão prestando um enorme serviço àqueles que tanto odeiam. Ou esquerda devassa, se assim quiserem chamar.

* * *

Cumprindo a promessa de um texto leve e divertido, deixo, para vosso deleite, um vídeo que chegou até mim graças a um daqueles perfis que teimo em não excluir em nome do benefício ao contraditório e do rompimento das bolhas discursivas. A moça, autora de uma biografia de Sérgio Moro, é uma comédia ambulante. Reparem em sua linguagem corporal. Como ela ajeita repetidamente o decote como a temer que ele mostre mais do que deve.

* * *

Atualização 1, em 12/9: acabo de saber que o facebook bloqueou novamente o Milton, e com ele provavelmente mais uns quantos, devido às generosas e instrutivas postagens de arte erótica. O que estava bom durou pouco.

Atualização 2, em 13/9: hoje, sabemos que ao menos Belo Horizonte já se interessou em reeditar a exposição.

Por que se derrubam estátuas

Yuval Noah Harari muito apropriadamente afirma, em Homo Deus, que estudamos história não para prever o futuro – algo que considera impossível – mas para não repetir erros cometidos no passado. Esta questão assumiu súbita relevância nos últimos dias por ocasião dos acontecimentos de Charlottesville (Virginia, EUA), protagonizados por supremacistas brancos de extrema direita e seus opositores e desencadeados pelo propósito anunciado de remoção de uma estátua em homenagem a um herói confederado e, portanto, escravagista.

Profilaticamente, outras cidades norte-americanas trataram, então, de remover seus monumentos a heróis confederados,  em alguns casos (como em Baltimore) na calada da noite, em antecipação a novos possíveis protestos violentos.

Por aqui, a revisão histórica por meio de intervenções na paisagem e na nomenclatura urbana não são nenhuma novidade. A antiga Avenida Castelo Branco, por exemplo, foi recentemente renomeada como Avenida da Legalidade. Como este caso, deve haver muitos outros. Críticos alegam a confusão sentida em decorrência de expedientes assim pela população em geral e categorias profissionais como as de taxistas e carteiros.

Já cidades como Nova Iorque, talvez cientes dos riscos de nomear espaços públicos em homenagem a figuras eminentes diante da volatilidade histórica, preferem designar suas ruas e avenidas numericamente. Ou até por meio de termos politicamente mais neutros – como, por exemplo, o Central Park, cuja denominação é bem mais imune à flutuação de humores ideológicos e, portanto, mais perene do que, digamos, a de um Parque Farroupilha. Este tipo de coisa deveria preocupar muito mais as câmaras de vereadores ao nomear logradouros.

Mas tornemos ao caso da derrubada de estátuas, situação revestida de alto valor simbólico desde, pelo menos, as icônicas fotos da derrubada de monumentos à Lênin e outros próceres comunistas. Conseguem imaginar a paisagem urbana de cidades gaúchas sem os monumentos equestres erigidos a Bento Gonçalves, David Canabarro, Giuseppe Garibaldi e tantos outros ?

Desconheço o que levou Lutero a banir dos templos toda a estatuária erigida em honra de santos. Talvez pressentisse, conscientemente ou não, que toda biografia pode sofrer revisões à luz de novos fatos descobertos. Tomem, por exemplo, o caso de Madre Tereza de Calcutá, recentemente canonizada. Os serviços de comunicação do Vaticano devem se ocupar bastante com contramedidas em relação às abundantes matérias jornalísticas que dão conta do lado B da piedosa freira.

Tornemos, novamente e pela última vez neste post, aos heróis farroupilhas. Não, porém, sem antes sublinhar que não raro golpes e tomadas de poder por parte de elites se travestem de movimentos de índole popular simplesmente pela justaposição do termo “revolução”. Como eu disse dias atrás, palavras são importantes. De sorte que “revolução” implica, quase sempre, para o leitor mais desavisado, uma ideia de progresso, seja lá qual for. Foi assim em 1964 e, bem antes, na Guerra dos Farrapos. Em ambos os casos, o destino dos habitantes de amplas áreas geográficas foi tomado pelas mãos de oligarcas, sem qualquer consulta ou consentimento democráticos, em nome de supostas melhoras para a maioria. Por sorte, temas como a índole escravagista dos latifundiários responsáveis pela assim chamada Revolução Farroupilha vem sendo examinada com alguma profundidade por historiadores mais recentes.

Sobre a Revolução Farroupilha, vale registrar que, como bem disse um amigo, se trata de uma guerra que notoriamente perdemos mas até hoje insistimos ter resultou num empate. O que de pronto me remete àquela cena memorável do Monty Python, em Em busca do cálice sagrado, na qual um cavaleiro medieval esquartejado propõe a seu adversário um termo favorável a ambas as partes.