Por que a publicidade é inútil e nociva

Quando o assunto é publicidade, dois consensos quase absolutos vem à tona. O primeiro, compartilhado por anunciantes, profissionais e empresas envolvidos na pujante indústria da publicidade, é o de que ela é absolutamente necessária ao sucesso comercial de qualquer produto ou serviço.  O segundo, verificado entre leitores de jornais, espectadores de rádio e TV e, mais recentemente, usuários de internet, é que ela é totalmente inútil. Um estorvo. Uma interrupção tão irritante quanto frequente no fluxo de conteúdo de qualquer meio de comunicação hegemônico. Tanto é assim que é prática comum à mídia disponibilizar a usuários modalidades mais caras de assinatura de seus serviços diferenciadas pela ausência de anúncios.

Ainda assim, todo usuário de mídia comercial, mesmo detestando ser bombardeado por anúncios, reconhece a publicidade como um mal necessário. Que, sem ela, não teríamos jornais, revistas, rádio, TV e tantas facilidades viabilizadas pela internet. De onde vem tal naturalização ? Como chegamos a isto ?

A história da publicidade (em países lusófonos confundida com a propaganda) se perde na antiguidade. A modalidade na qual estamos interessados – a saber, a comercial, realizada por meio de anúncios pagos colados ao conteúdo de meios impressos, de broadcasting (rádio e TV) ou internet – surgiu menos de 200 anos depois que Gutenberg inventou a prensa mecânica. Mais exatamente, com o anúncio de um livro publicado num jornal inglês de 1625. Desde então, a coisa só cresceu. Em 1841, surgiu em Filadélfia (EUA) uma das primeiras agências relevantes de publicidade do mundo. A publicidade 2.0, aquela nos meios de broadcasting, surgiu pouco depois da invenção do rádio por Marconi. A grande transformação seguinte – que, por conveniência, designaremos por publicidade 3.0 – surgiu com a internet, obrigando, várias gerações depois, publicitários a reinventarem novamente seu ofício. Temos, então, que, enquanto a publicidade 1.0 vende espaço, a 2.0 vende tempo e a 3.0, acessos.

Com raízes tão antigas e aprofundadas no tecido social, é compreensível que a ideia de publicidade comercial como mal necessário à existência de toda mídia desejável esteja tão naturalizada entre a maioria. Quando nascemos, os anúncios já estão ali, por todos os lados. Como as cidades em que vivemos, as escolas que frequentamos ou o ar que respiramos. Assim quer acreditar o espírito acrítico.

Só que não é ser obrigatoriamente assim. Ora, tudo o que é conhecido e experimentado por um certo tempo constitui terreno fértil para o pragmatismo, limitando o pensamento utópico. Desta forma, a história humana é repleta de casos em que práticas e sistemas que deixam muito a desejar se perpetuam tão somente por já terem funcionado, ainda que precariamente, por um tempo prolongado. O exemplo mais ridículo que já vi desta deficiência de raciocínio é a distinção que Olavo de Carvalho faz entre os pensamentos de direita e de esquerda. Vale a pena conferir (entre 1m30s e 2m30s).

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Uma das teclas mais marteladas por David Graeber no estupendo Bulllshit Jobs: a Theory, do qual não me canso de falar, é que o capitalismo cria empregos desnecessários. Dentre as ocupações que considera, mais do que inúteis, nocivas à sociedade, se destacam as carreiras financeiras, jurídicas, imobiliárias e, como não poderia deixar de ser, publicitárias. É claro que há um critério para uma categorização tão bombástica: Graeber considera úteis ocupações que produzem riqueza e inúteis aquelas que só transferem riqueza de um dono para outro, ressaltando que as últimas são, via de regra, melhor remuneradas.

A publicidade é socialmente nociva (exceto, é claro, para anunciantes e publicitários) por dois motivos: é supérflua e inflacionária. Supérflua por que, numa era de buscas, não mais precisamos dela para, como apregoa desesperadamente a indústria do anúncio, ter informações sobre o que queremos adquirir. Mais: dados comparativos sobre quaisquer produtos tendem a ser muito mais confiáveis em sites neutros, dedicados à orientação de consumidores, e engenhos de busca do que em peças publicitárias cuja índole é, por definição, enaltecer vantagens e ocultar ou minimizar deficiências (isto não é uma verdade oculta mas, ao contrário, um fator de competência descaradamente ostentado pelos publicitários mais agressivos).

Inflacionária por que tudo o que é anunciado tem seu preço significativamente majorado pelo acréscimo ao preço final do custo da publicidade, que não costuma ser pouco, principalmente em meios de broadcasting (isto está mudando um pouco na internet, onde entradas publicitárias se tornaram acessíveis a anunciantes de qualquer porte).

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Deixando rapidamente de lado nosso foco principal, que é a publicidade comercial, cabe a ressalva de que a propaganda política é tão ou mais nociva do que a anterior, já que seu êxito (i.e., a persuasão de um maior número de eleitores), que afeta, para o bem ou para o mal, a totalidade das unidades políticas governadas, é fortemente determinado pelo poder econômico. Então, não se trata de discutir, como hoje é feito, se a propaganda eleitoral deve ser custeada por políticos ou contribuintes, mas de abolir totalmente a mesma, com a justiça eleitoral dedicando seu colossal potencial computacional à informar eleitores sobre candidatos por meio de sites abrangentes e isonômicos. Com programas ao invés de slogans. Dados verificáveis ao invés de fake news. E sem, é claro, os escandalosos fundos eleitoral e partidário.

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Tão natural como a publicidade acoplada aos meios de comunicação é a ideia de que estados sejam responsáveis pela garantia de bens que, por sua natureza essencial à condição humana, não devem ser deixados ao sabor da concorrência entre provedores privados. Há um consenso praticamente universal de que saúde, educação e segurança pertençam a esta categoria. Diferentes estados de bem estar social abordam de modos distintos a inclusão também de alimentação, moradia e cultura nesta relação de direitos. Além disto, a extensão da responsabilidade do estado sobre os mesmos é objeto de conflito entre a direita e a esquerda.

Sempre que a esquerda quer abarcar sobre o manto protetor do estado segmentos ou partes de segmentos explorados pelo capital empreendedor, a direita chia. Como toda indústria, a publicidade também desfruta da proteção dos guardiões do liberalismo. De modo que meras  insinuações, como as acima, quanto ao caráter anti-ecológico ou inflacionário da publicidade, são imediatamente refutadas com argumentos do tipo ” pensem em todas as comodidades informacionais que perderíamos não fosse a mídia facultada pela propaganda “.  Ora, tal sorte de argumento esbarra na falácia do pressuposto de Carvalho, supracitado, segundo o qual só aquilo que já foi experimentado é possível e confiável. Sob tal premissa, não haveria raciocínio hipotético nem tampouco ciência.

Fazendo, então, pouco caso do coro indignado com este exercício hipotético, necessário ao pensamento utópico, suponhamos, apenas por um instante, que jornais, revistas, emissoras de rádio e TV e serviços disponibilizados pela internet (não gosto do termo aplicativos, que outrora já foram chamados de programas), fossem reconhecidos como de real utilidade pública e, como tais, garantidos a todo cidadão pelo estado, como a saúde, a educação e a segurança supostamente já são.

Aqui, posso ouvir, em meio a acusações de ingenuidade, as invectivas de sempre sobre a precariedade da televisão pública. É preciso, então, colocar os devidos pingos nos is. É claro e perfeitamente esperado que, no Brasil, onde a teledifusão pública é sistematicamente sucateada, emissoras estatais não consigam competir com as comerciais pela geração de conteúdo atraente. Pois a TV Cultura seria, sem dúvida, diferente se dispusesse do mesmo orçamento da Globo. Muito se fala mal da gestão estatal como principal responsável pela eventual falta de qualidade de emissoras públicas quando, na verdade, não se pode comparar resultados da gestão da escassez com aqueles da gestão da abundância. Logo, para se falar da qualidade da radiodifusão pública é preciso, antes, se falar dos excelentes conteúdos gerados e veiculados pela televisão pública europeia. Ou pela BBC. Ou pela PBS nos EUA.

Então, da mesma forma que meios de broadcasting públicos de qualidade já são, há muito tempo, uma realidade em países do hemisfério norte, é razoável se esperar que a internet, ainda em sua infância, venha um dia a ser reconhecida (pois já é de fato) como patrimônio inalienável da condição humana e, como tal, disponibilizada gratuitamente, com suas funcionalidades mais fundamentais (aí incluídos os aplicativos hegemônicos, consagrados pelo uso), a todo cidadão

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Mas sejamos, por hora, práticos. Com o que está aí, seria muito mais fácil reformar a propaganda eleitoral do que a publicidade comercial. Não podemos, no entanto, ser ingênuos a ponto de esperar que tal reforma parta de políticos. Os meios ? Discussão e organização civil. Só então, talvez, o imaginário popular consiga romper a barreira da naturalização e finalmente se dar conta de que a publicidade, mais do que inútil, é nociva.

Por que (ainda) não uso WhatsApp

” Ah, havia me esquecido que não usas WhatsApp. Sorte tua ! “

ouvido ao fim de uma consulta médica

Muito me intrigou constatar que o Facebook, num movimento inédito (ao menos no Brasil), passou a anunciar, na TV e em outdoors, seus grupos de conversação, os quais sempre estiveram ali, disponíveis sem qualquer alarde. A propaganda, agressiva, se apropria da canção Day Tripper, dos Beatles ( por cujo uso certamente pagaram bem caro), para apregoar virtudes de grupos do Messenger ao conectar pessoas com interesses comuns. Por que isto acontece justo agora ? A resposta se me afigurou um tanto óbvia, a saber, para concorrer com os grupos do WhatsApp, os quais se capilarizaram muito mais do que os do FB.

Ruminei sobre o tema por algum tempo até realizar uma rápida e necessária pesquisa quanto ao modo de custeio do WA, plataforma gratuita livre de publicidade (!) – fato para o qual há esclarecimentos satisfatórios aqui. Foi quando descobri, acidentalmente, que

o WA é, antes de ser um negócio lucrativo, um serviço deficitário (!); e que

o WA foi comprado pelo FB em 2014 por uma bagatela avaliada entre 19 e 22 bilhões de dólares.

De pronto, então, minhas principais questões norteadoras passaram a ser

por que o FB compraria um serviço do qual já dispunha – ainda por cima numa plataforma francamente reconhecida como deficitária ; e

por que o FB promoveria uma propaganda autofágica, a concorrer, em última análise, consigo próprio.

Sem ser analista econômico, avento a hipótese de que o FB comprou o WA tão somente para aniquilar seu único competidor sério, progressivamente assimilando a seu Messenger as melhores funcionalidades do WA e deixando o último morrer aos poucos. Ao menos a sofisticada propaganda dos grupos do FB com Day Tripper se encaixaria nesta estratégia. Ou não – caso em que esta especulação não passaria de mera teoria conspiratória.

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Ante tal imponderabilidade (pois, afinal, quem sabe dos desígnios de grandes corporações a não ser seus conselhos de acionistas ?), preferi me deter sobre a diferenciação entre as duas plataformas. Para tanto, provoquei usuários e não usuários do WA a externarem prós e contras em relação ao serviço de mensagens hoje praticamente hegemônico. Deste modo, verifiquei que há praticamente um consenso quanto ao WA ser um meio de comunicação portátil, altamente eficiente, com ótima relação custo/benefício (para a qual a gratuidade é decisiva) e, por vezes, insubstituível. Fora isto, muitos detestam seus grupos de conversação e as mensagens de áudio.

Não percamos tempo com as últimas, posto que mensagens de áudio são, assim como as de vídeo, obrigatoriamente seriais, incompatíveis com qualquer processamento paralelo. Comparem-nas, por exemplo, com textos de quaisquer extensões. Textos são recursivos, i.e., podemos facilmente avançar ou retroceder na leitura dos mesmos, seja para interpretação, referência ou  melhor compreensão, saltando por sobre grandes blocos de um mesmo texto ou até entre um texto e outro sem, com isto, comprometer necessariamente nossa percepção sobre o todo. Com áudios e vídeos, não: numa operação de fast forward sobre os mesmos (análoga, se quiserem, à leitura dinâmica), algo essencial pode facilmente nos escapar. Como ocorre, por exemplo, quando perdemos cenas cruciais de uma boa narrativa cinematográfica.

Por esta razão, áudios (e vídeos) são sequestradores de atenção por excelência  e, como tais, deveriam ser banidas pelos códigos de ética, explícitos ou tácitos, de qualquer sistema de mensagens que aspire a alguma eficiência.  Ou ainda, se quiserem outra metáfora, usar mensagens de áudio quando se dispõe das de texto é como usar máquinas de escrever depois do surgimento de editores de texto: o advento dos últimos rendeu as primeiras obsoletas. Entretanto, por diversas razões (tom mais íntimo ou pessoal, rapidez de enunciação, reivindicação de atenção absoluta, etc.), as famigeradas mensagens de áudio teimam em coexistir com as de texto.

Cabe, ainda, ressaltar que a escrita se constitui, muito mais do que a fala, no meio por excelência de transmissão de conhecimento. Com alguma licença, se pode até especular sobre com quais limitações a filosofia, a razão e a lógica esbarrariam se tivessem que se restringir ao domínio exclusivo da oralidade.

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Grupos virtuais de conversação são bem diversos e, como tais, podem ser submetidos a uma tipologia. A diferenciação mais evidente é em relação à sua permanência. Segundo este critério, há, de um lado, aqueles grupos mais duradouros, atemporais, e, de outro, os mais efêmeros. Pertencem ao primeiro tipo os grupos de índole “tribal” tais como os de família, alunos ou ex-alunos de instituições, pessoas que compartilham uma mesma ocupação, predileção ou posto de trabalho e por aí afora. Talvez o mais célebre grupo atemporal do WA seja o de procuradores da Lava Jato. A propaganda do FB com Day Tripper se refere nitidamente a grupos atemporais.

Grupos efêmeros são, por outro lado, criados para a instrumentalização de eventos específicos tais como festas e reuniões de trabalho, se extinguindo imediatamente ou algum tempo após a realização dos mesmos.

Ainda que a classificação de um grupo numa ou noutra categoria possa ser nebulosa, sem regras absolutas, em geral grupos atemporais tendem a aglutinar mais participantes do que os efêmeros. Talvez por isto grupos atemporais costumam apresentar uma taxa mais elevada de mensagens potencialmente irrelevantes para alguns participante do que os grupos efêmeros. Se pode dizer, então, que, em geral, grupos efêmeros tendem a ser mais focados que os atemporais.

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O tamanho de um grupo afeta sobremaneira o comportamento de seus participantes,  especialmente no que se refere à sensação de pertencimento. Pois num grupo pequeno se pode facilmente permanecer só “na escuta” (a postura mais eficiente, de respeito à atenção alheia, quando não se tem nada relevante a dizer) na plena convicção de que os mais falantes sintam de que os mais silenciosos estejam presentes e atentos.

O mesmo não se dá em grupos mais numerosos, onde os mais quietos tendem a ser mais facilmente esquecidos. Por isto, abundam nestes grupos as notificações de presença: mensagens de “bom dia” e “boa noite” sem qualquer outro propósito que não o de se afirmar que se está ali. Como teletubies antes de dormir.

É, além disso, razoável supor que a publicidade seja mais eficiente (ou, pelo menos, algoritmicamente mais simples) entre os participantes de grupos mais numerosos e genéricos do que entre os de grupos pequenos e dedicados – daí, muito possivelmente, a estratégia agressiva do FB para fomentar os primeiros (eu e as teorias conspiratórias…)

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De volta à questão inicial de por que o FB teria comprado o WA, é tentador se especular que o primeiro estaria primordialmente interessado nos dados dos usuários do último – hipótese, é claro, veementemente negada pelo FB. Pois, muito embora o WA tenha como ponto de honra permanecer uma plataforma livre de publicidade, os dados de seus usuários são valiosos em se tratando de lhes direcionar anúncios customizados através de outras plataformas.

O que nos leva diretamente a outra questão: podem plataformas distintas estabelecer uma correspondência unívoca entre usuários de uma e de outra ? Segundo a BBC, sim, bastando, para tanto, que o usuário do FB forneça à plataforma o número de seu telefone celular – caso em que passará a receber, no FB, publicidade dirigida e sugestões de amizade com base em suas informações do WA.

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Se o FB vai deixar o WA morrer à míngua ou, contrário, explorar a coexistência das duas plataformas é uma pergunta cuja resposta só o tempo trará. Um forte argumento em favor da última hipótese é a manutenção da identidade das duas plataformas, a qual repousa por sua vez, sobre numa diferença essencial – a saber, a índole mais pública ou privada do que se posta em cada uma delas.

Tanto o FB como o WA permitem controle absoluto sobre a visibilidade de cada postagem. Tanto num como noutro, podemos nos dirigir desde apenas a uma pessoa até a totalidade de nossos contatos, passando por grupos de tamanho variável. Feita esta ressalva, cabe notar que cada plataforma, ainda que abrangendo exceções, possui uma vocação bem definida. Pensamos no FB quando queremos publicar algo visível a todos, sem discriminar este ou aquele destinatário. Ao contrário, recorremos ao WA para enviar mensagens a indivíduos ou grupos específicos de pessoa. Assim, temos que, enquanto no FB (salvo no Messenger) exercemos um discurso predominantemente público, o WA é bem mais afeito à comunicação privada, ainda que com grupos.

(Para sermos rigorosos, temos que reconhecer que só o Twitter e os blogs são meios absolutamente públicos, posto que, para se ter acesso às postagens de uma pessoa, é preciso, antes, ter sido aceito como “amigo” pela mesma. Ainda que este requisito seja facilmente comutável mediante ajuste nas Configurações de Privacidade do FB, é notório que a maioria de seus usuários deixam seus perfis visíveis somente a amigos. Com isto, devemos, então, ressalvar que o FB, mesmo sem ser obrigatoriamente público, é de índole muito menos privada que o WA)

A diferença entre a forma de discurso predominantemente pública ou, ao contrário, privada constitui, a nosso ver, a distinção essencial entre o FB e o WA, a justificar sua coexistência apesar da similaridade funcional das duas plataformas no que tange a compartilhar postagens por meio de redes sociais.

O discurso público favorece a transparência: nele, todas as falas de cada um são igualmente visíveis a todos – ainda que, com isto, tal franqueza exacerbada venha necessariamente a desagradar alguns, ensejando entre os mesmos, por vezes, enunciações contraditórias. Já o discurso privado, ao permitir a seleção de ouvintes específicos, faculta a todo falante a possibilidade de sustentar simultaneamente posições diferentes, por vezes incompatíveis entre si, para audiências distintas. Com isto, constitui o ambiente por excelência (ainda que não necessariamente), para segredos, intrigas, calúnias  e manipulações. Não por acaso, grupos de WA, particularmente os de família, já foram correlacionados ao fenômeno das fake news – disseminação de informações falsas que vem assumindo cada vez mais relevância e é utilizada, principalmente por meios de broadcasting, para denegrir a internet.

A tensão entre o discurso público e o privado, determinante para definir o modo como se configura a conectividade de cada perfil, coletivo ou individual, no mundo virtual, é o tema central de Public Parts (2011), obra seminal em que o netopian Jeff Jarvis, por meio de entrevistas inclusive com os fundadores do Twitter e do FB, reconhece vantagens da substituição de um status private by default (como era mais comum antes da web) por outro, public by default (viabilizado pelo advento da rede); e como formas públicas de presença virtual ensejadas pela internet vem transformando nossas vidas. A crescente hegemonia do uso de grupos no WA em relação ao de plataformas mais públicas como o Twitter e o WA sugerem enfaticamente que esta transformação ainda está longe de se tornar irreversível.

A arte da discórdia

As redes sociais vem se tornando cada vez mais o lugar por excelência para o ódio. Fraturas maniqueístas entre bons e maus, mocinhos e bandidos e tantas outras, que podem ser resumidas como os que concordam comigo e aqueles que de mim discordam, cada vez mais determinam a adição e a exclusão de amigos e seguidores – resultando, na maioria das vezes, em bolhas nas quais likeminded people chovem no molhado reforçando convicções próprias e ridicularizando membros de campos ideológicos opostos. Como ação persuasiva e/ou transformadora, tal sorte de interação não passa de uma colossal perda de tempo.

Justamente no duplo intuito de refinar minhas posições e, ao mesmo tempo, tentar influenciar aqueles que pensam de modo diferente, mantenho, entre meus interlocutores virtuais, muitos que assumem posições diversas ou mesmo diametralmente opostas às minhas, por vezes até se comportando como trolls, em questões tanto políticas como estéticas. Mas só isto não é suficiente. Pois, para se lograr estabelecer um diálogo minimamente proveitoso com campos adversários, é preciso aderir a um conjunto bem específico de práticas e princípios, do qual trato neste texto.

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Nativos digitais começam a bater boca (devo dizer bater teclas ?) na web muito antes de terem experimentado a dinâmica de uma discussão presencial. Entendemos, no entanto, que debates cara a cara possuem uma inegável função formativa no que tange a duas regras pétreas que deveriam nortear qualquer embate verbal, a saber,

jamais falar mais alto do que o outro; e

jamais interromper uma fala de outrem antes que o mesmo lhe tenha passado a palavra.

Os dois expedientes acima, que podem ser agrupados sob o pobre expediente de tentar ganhar uma  discussão “no grito”, são, lamentavelmente, bastante comuns. Examinemos, pois, um pouco melhor cada um deles.

O erguimento de uma das vozes num debate é uma clara tentativa de fazer prevalecer um argumento por meio do silenciamento, relativo ou absoluto, da outra. Em ambientes virtuais ou editoriais, equivale à utilização, por uma das partes, de canais aos quais tenha acesso privativo ou preferencial, tais como blogs, colunas de opinião ou páginas editoriais. Até mesmo no contexto mais horizontal de perfis em redes sociais, a exclusão de comentários indesejáveis ou o bloqueio de interlocutores configura o mesmo tipo de silenciamento de adversários, por permitir que a voz do dono de cada perfil reine absoluta.

Felizmente, há um antídoto contra estas práticas supressoras, conhecido como direito de resposta, segundo o qual deve ser assegurado a quem quer que se sinta atingido ou ofendido por algo que tenha sido publicado em qualquer canal com alguma audiência a oportunidade de se manifestar livremente no mesmo espaço em sua própria defesa. Grande parte do prestígio e credibilidade de um meio advém de sua política de franquear o próprio espaço à difusão de contraditórios.

Já os nodos de alternância de vozes em um discurso são essenciais para a compreensão do mesmo, independentemente da extensão de cada fala. Isto por que, tipicamente, argumentos defendidos por bons debatedores são compostos por vários silogismos encadeados. Logo, interromper uma fala sob qualquer pretexto é, portanto, um violento atentado à ética do bom debate.

É bem verdade que, diante de oradores mais prolixos, um oponente arguto tende a se impacientar a cada falsa premissa proferida. É nessas ocasiões que muitos irrompem intempestivamente em meio a falas não concluídas, deixando quem estava com a palavra perplexo, quando não ultrajado. Em sua versão jurídica, amplamente difundida pelo cinema, tais interrupções assumem invariavelmente a forma da interjeição “Eu protesto, meritíssimo !”

Para prevenir tais incidentes lógicos, recomendamos aos mais afoitos o uso sistemático de blocos de notas, onde todas as objeções podem ser cuidadosamente anotadas para utilização em falas futuras, bem mais estruturadas e, portanto, eficazes.

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Outra regra de ouro do bom debate é

jamais rebaixar um adversário diante de uma audiência, desviando a atenção da mesma de seus argumentos por meio de acusações pessoais conhecidas como ataques ad hominem.

É quando se tenta desqualificar as ideias de outrem por meio de afirmações tais como “fulano é um mentiroso” ou “beltrano só diz merda”. Ataques ad hominem também são conhecidos como a falácia do envenenamento do poço.

A falácia do envenenamento do poço é tão ineficaz quanto inócua. Inócua por que, mesmo que desacreditemos o enunciador de uma ideia, a mesma pode ser facilmente defendida por outrem logo em seguida – seu efeito, neste caso, tão fugaz como a tomada de um peão oferecido em sacrifício numa partida de xadrez.

Ineficaz, também, por que bons adversários são essenciais à valorização de qualquer embate. Gregos antigos já sabiam disto ao manifestarem especial apreço pelo diálogo como instrumento de aquisição de conhecimento. Além disto, é principalmente pela oposição, seja de uma ideia, habilidade ou força, que percebemos alguma qualidade maior ou melhor. Afinal, o que seria de Senna sem Prost, de Ali sem Frazier, de Borg sem McEnroe, de Lula sem Bolsonaro ou do Grêmio sem o Inter ?

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Sobre brigas nas quais nos metemos na internet, passei a respeitar, desde que o ouvi de um amigo, o seguinte princípio:

jamais responder a qualquer provocação, por mais ultrajante que pareça, no ato.

Meu amigo pratica, como método, o hábito de, sempre que incomodado por qualquer coisa com a qual tenha tomado contato por meio de redes sociais, não reagir de imediato. Pois não há nada que uma boa noite de sono não resolva. Na maioria das vezes, nem lembramos, ao acordar, de supostas ofensas recebidas no dia anterior – prova maior de que aquilo não era, de modo algum, importante. Se, no entanto, aquilo continua a nos incomodar mesmo depois do sono restaurador, partimose, aí sim, para a elaboração de uma resposta à altura, bem pensada e, como tal, fulminante na maioria das vezes.

Se fosse para dar um nome a esta prática, talvez o mais indicado seria regra da cabeça quente – segundo a qual nossas respostas tendem a ser melhores quanto maior for o tempo decorrido desde o fato ultrajante gerador.

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Finalmente, vale citar quatro regras, deitadas pelo filósofo Daniel Dennett (nascido em 1942) e compiladas por Maria Popova em seu brilhante site brainpickings, dando conta de uma ética e estratégia a ser adotada em debates com oponentes qualificados. Segundo Popova, Dennett faz uma pergunta muito apropriada que testa algumas das tendências e dinâmicas básicas da cultura atual onde todo mundo é um crítico, a saber,

Quão generoso você deve ser ao criticar visões de um oponente ?

Ao que responde:

Como compor um comentário crítico satisfatório:

Você deve tentar re-expressar a posição de seu alvo tão clara, vívida e justamente a ponto de ele dizer “Obrigado, eu gostaria de ter dito isto desta maneira.”

Você deve listar qualquer ponto de acordo (especialmente se não forem objeto de consenso geral ou amplo).

Você deve mencionar qualquer coisa que tenha apreendido com seu alvo.

Só então lhe será permitido dizer qualquer palavra de refutação ou crítica.

Para Popova, tal código de ética seria por si só suficiente para transformar o ambiente infernal dos comentários online. Dennett vai adiante, notando que esta estratégia psicológica logra transformar o oponente numa audiência mais receptiva à crítica ou dissenso, tendo como resultado o avanço da discussão.

Daniel Dennett foi descrito por Marvin Minsky, pioneiro da inteligência artificial, como o maior filósofo vivo e o próximo Bertrand Russell.

 

 

Inclusão digital: verdade ou mito ?

plenário 1

Dia desses, lamentei a progressiva e inexorável transferência para máquinas automáticas de tarefas antes confiadas a humanos, em particular a cobrança pelo estacionamento em alguns shoppings. De tal modo essa tendência vem ganhando força que, suponho, em breve estaremos escaneando códigos de barra no check out de supermercados ao invés de, simplesmente, largar coisas sobre esteiras deslizantes. Empacotadores ? Esqueçam-nos. Ou paguem pelo serviço. Já deve ser assim em muitos lugares.

Voltando ao shopping onde senti pela primeira vez o desconforto que gerou aquele post, constatei que, lá, o único ponto de cobrança de estacionamento com operação humana remanescente estava estrategicamente situado num canto que não dava acesso a parte alguma. Um dead end encrustado no início de um corredor bloqueado, longe de todos os elevadores e a escadaria que levavam aos pavimentos de estacionamento. Encafifei-me com aquilo.

Tornando ao mesmo shopping dias depois, anotei num guardanapo de papel, enquanto tomava um café, o nome de meu blog, pensando em oferecê-lo ao operador de caixa cujo posto de trabalho eu defendera em meu último post. Lá chegando, indaguei: “O Sr. costuma acessar a internet ?” – ao que o operador prontamente respondeu: “Eu ? Nem tenho isso !”.

Ouvindo isto, imediatamente joguei fora o guardanapo com o nome do blog. Foi como se, naquele exato instante, me visse forçado a aceitar a grande verdade inconveniente que até então, apesar de todos os argumentos e evidências em seu favor, teimasse em não encarar – a saber, a de que toda a aglutinação de pessoas em torno de ideias virtuosas a respeito do poder emancipador da internet que desfilavam em minha timeline não passasse, ao fim e ao cabo, de uma enorme bolha discursiva. Subitamente, me senti, como se fulminado por um raio, transformado de fervoroso netopian em ácido netskeptic.

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Por anos acreditei – tentando, ao mesmo tempo, fazer com que outros acreditassem – que o advento da web, com seus protocolos horizontais de conexão, diametralmente opostos aos verticais do paradigma até então hegemônico do broadcasting, implicaria finalmente no triunfo da verdade, da justiça e, sobretudo, da pluralidade em todas as relações humanas, em particular as políticas e educacionais.

A participação em redes sociais povoadas por semelhantes (amigos presenciais e virtuais que partilham interesses, hábitos e, last but not least, opiniões) também ajudou a alimentar, numa minúscula classe de incluídos que leem mais, comparam mais, pensam mais, ouvem melhor, escolhem melhor… (you name it), a esperança que a internet estaria fadada à nobre missão de sepultar, em pleitos vindouros, todo poder oligárquico.

Eis que, de repente, sem que ninguém entendesse bem o por que, algo saiu errado. Primeiro veio o Sartori. Depois, Temer e o Brexit. Então, quase ao mesmo tempo, Trump e Marchezan (o Jr.). De um modo difuso, pipocando em toda parte, se radicalizaram o ódio ao diferente (leia-se imigrante) e o desmonte de instituições educativas e culturais. Nesta cena, absolutamente distópica, toda crítica se anula ante o fato de que todos os governantes responsáveis por tais políticas foram alçados a posições de liderança tão somente pelo sufrágio universal – representando, portanto, legitimamente a vontade da maioria e nos restando a triste constatação de que tão somente a democracia, pela qual tanto lutamos, nos levou a este estado de coisas.

Agregue-se a isto dois dados, divulgados ao início de cada novo ano, que apontam para o fato de estarmos indiscutivelmente pior do que antes – a saber, aqueles sobre a crescente concentração de riqueza e o relógio do fim do mundo.

relógio do apocalipse 1
Relógio do Apocalipse, de 1947 a 2011

Criado em 1947, quando a ameaça de aniquilação nuclear parecia mais presente (ela ainda está aí, só que, de algum modo, banalizada), o relógio do fim do mundo estima o tempo que nos afasta de uma possível destruição em massa de toda a civilização humana por meio de ogivas atômicas. Nele, o risco de que isto possa vir a efetivamente acontecer é expresso pelo tempo que nos separa da meia-noite. O relógio do fim do mundo tem a peculiaridade de poder tanto avançar como retroceder. Quando foi criado, no auge da guerra fria, marcava sete minutos para a meia-noite. O mais alto grau de “segurança atômica” que chegou a indicar se situava na marca dos dezessete minutos, no início dos anos 90. Depois da ascensão de Trump, ostenta a preocupante marca de dois minutos e meio para a meia-noite. Paranoia ? Talvez. Ainda assim, prefiro tê-lo como um signo altamente emblemático dos tempos tenebrosos em que vivemos.

O outro dado alarmante, divulgado anualmente por ocasião do perverso encontro de Davos (i.e., onde os mais ricos discutem como podem se tornar ainda mais ricos sem romper o frágil equilíbrio da manutenção de parte da população (aquela que vive dentro dos muros de inclusão) acima de uma linha de pobreza sem a qual nenhum enriquecimento seria possível), dá conta de que um número cada vez menor de indivíduos detém a metade da riqueza mundial – já sendo possível, inclusive, se projetar a emergência, nos próximos anos, do primeiro trilionário.

A parcela da população que se situa acima deste limiar de pobreza também é reconhecida como aquela beneficiada pelo “estado de bem estar social”. Fora dela, i.e., do outro lado do muro do México, da cerca de Cádis ou, ainda, dentro dos muros de presídios brasileiros, continuarão morrendo de fome, vítimas de terrorismo e por outras formas de violência. Como, aliás, vem sendo desde os tempos das guerras coloniais. A equação é simples: quem não puder ser incluído, que seja segregado. Não fosse assim, fatalidades por tragédias ou atos terroristas teriam a mesma relevância jornalística independentemente de ocorrerem no terceiro mundo ou no hemisfério norte. Assim, até que se encontre uma solução melhor, limpezas étnicas continuarão sendo toleradas, em nome da assepsia das estatísticas. Num mundo de resto totalmente globalizado, tal permanece sendo uma das principais funções das fronteiras nacionais. O Boko Haram riscou do mapa mais um povoado ? E daí ?.

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Frente a estes fatos que teimam em permanecer perante nossas vistas, verdadeiro balde de água fria a arrefecer as mentes mais sonhadoras, o que, afinal, saiu errado ? Por que ralo escoou todo o potencial redentor que tantos netopians insistiam em reconhecer na web e nas redes sociais ? Penso que, acima de tudo, por termos feito vista grossa à grande verdade inconveniente de que a inclusão digital, tão saudada como uma tendência inexorável e redentora, ainda não é mais do que uma promessa não realizada.

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