Direito de resposta concedido pelo que foi publicado neste blog dois dias atrás

O texto abaixo, uma réplica ao que foi postado neste blog em 20 de dezembro último, foi encaminhado ao Sul21 juntamente com uma solicitação de direito de resposta.

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Falta amor, interpretação de texto e humildade no mundo acadêmico

Sou leitora assídua do Sul21 e admiro as discussões propostas pelo veículo, especialmente pertinentes nesses tempos tão conturbados que temos testemunhado. No entanto, fui surpreendida com uma postagem do músico Augusto Maurer, meu colega no Departamento de Música do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicada dia 20/12 sob o título: “Por que irei, logo mais, numa assembléia no Instituto de Artes ocupado da UFRGS”. Ele se diz motivado por uma suposta “peça difamatória” anônima que recebeu, que na realidade se trata da “Carta de Repúdio e Esclarecimento” do movimento OcupaTudoIA[1], publicada na página do coletivo no Facebook e encaminhada por mim ao grupo de professores(as) do Instituto de Artes a pedido de uma colega. Esse encaminhamento apenas aconteceu por nossas mãos porque aquele grupo de e-mails também havia sido o canal elencado para difundir relatos depreciativos sobre os quais os estudantes gostariam de responder, no que, aparentemente, não foram atendidos. Augusto ataca o texto dos estudantes, porém sequer indica o link onde o documento original poderia ser lido, apesar de divulgar sua posição não só no blog, mas em seu perfil na rede social. Também divulgou seu artigo a todo corpo docente do Instituto de Artes, contudo retirou o nome da professora que ele dá a entender estar por trás do texto do movimento estudantil e da influência manipuladora a que ele se refere: a mesma que encaminhou a mensagem, ou seja, eu. Por este motivo, esta resposta por mim concebida representa somente a minha opinião.

O autor nos choca já na abertura, dizendo que não frequenta reuniões departamentais “há uns 20 anos”, registro público de atitude displicente em relação ao seu comprometimento profissional, e ainda justifica-se com o argumento de que julga como “obsoleto protocolo” a maneira em que se dão os diálogos nos referidos encontros. Somado ao fato do colega ter um a dois alunos de clarinete por ano, é possível supor quão significativo é seu envolvimento na Universidade onde é servidor docente concursado.

Na sequência, o autor desencadeia seu raciocínio baseado na incompetência em interpretar corretamente o texto dos estudantes, atribuindo a eles falas que, na verdade, teriam sido ditas pela diretora da nossa unidade, afirmando que estariam pedindo a cabeça da professora “numa bandeja”, e que ela seria uma aliada do governo golpista. No entanto, a Carta evoca episódio de reunião do Conselho Universitário da UFRGS, na qual a diretora teria finalizado o seu discurso com “[…] parece que o governo golpista de Michel Temer encontrou aliados dentro da Universidade” – numa tentativa de associar as Ocupações a ações danosas à Universidade.

Seu artigo está repleto de inverdades, mas o que mais estarrece é a maneira arrogante como despreza a capacidade cognitiva do corpo discente e duvida da autoria colaborativa do documento publicado por eles. Embora critique a habilidade verbal dos estudantes, é ele quem subverte radicalmente o sentido do conteúdo lido, vindo a assumir em sua página pessoal que: “De fato, atribuí equivocadamente palavras da profª Lucia aos ocupantes (as letras do email difamatório eram incrivelmente miúdas…)”. Portanto, num segundo momento, atribui seu equívoco às letras miúdas do e-mail, cujo teor segue classificando como difamatório e de autoria duvidosa.

Completo desconhecedor da essência da Ocupação dos estudantes da sua própria unidade de trabalho, aliás, com a qual parece ter pouca familiaridade, expressa, de forma sarcástica, profundo desrespeito e preconceito pela genuína mobilização estudantil. Confunde a característica colaborativa e coletiva dos posicionamentos dos Ocupantes com a covardia do anonimato; faz uso de artifício sórdido ao citar uma letra faltante em palavra rabiscada numa lousa qualquer para depreciar a habilidade de comunicação verbal do coletivo, afirmando que a Carta dos Ocupantes possui uma “redação impecável”, correspondente às “melhores bancas jurídicas ou agências publicitárias” e que, portanto, fica difícil “acreditar que tenha vindo lá de dentro”.  Sabendo agora que ele pensava em mim quando se referia a um ghost-writer, registro aqui que dispenso veementemente os elogios. E os repasso, por direito natural, aos estudantes Ocupantes responsáveis pela redação do documento. Pensando bem… deixo esses predicados junto à verborragia de seu autor, visto que elogios vindos de um professor universitário que se refere dessa maneira debochada e preconceituosa àqueles que dão sentido de existência a uma instituição de ensino, não merecem qualquer crédito. Pudera eu ter sido mais presente nas mobilizações estudantis, mas meu apoio se limitou à divulgação dos eventos coletivos, idas a protestos e manifestações, bem como realização de uma oficina sobre cultura de paz e contribuições de Paulo Freire. Por estar envolvida com a defesa de minha tese de doutorado realizada na etapa final das Ocupações, acabei apenas levando frutas e doces (por mais paradoxal que seja esta combinação, mas, afinal, a luta não tem que ser amarga!) aos jovens Ocupantes.

Mais deprimente ainda é o fato de o músico ter presenciado a assembleia sobre o balanço da Ocupação, e mesmo depois de ter testemunhado mais de duas horas o encontro de vozes em sua diversidade de pensamentos, num ambiente de solidariedade, de congregação de diferentes segmentos do meio acadêmico, de respeito ao outro e de reflexões ricamente fundamentadas, em nada mudou sua postura pedante. Reunião esta, a propósito, que não contou com qualquer contribuição crítica de sua parte, pois permaneceu calado durante todo o tempo, indo embora antes do final. Parafraseando o jornalista Leonardo Sakamoto, falta amor, interpretação de texto e humildade no mundo acadêmico. Já entre Ocupantes e participantes ativos da assembleia, os sentimentos de empatia e de esperança inundaram a todas e todos.

Por fim, resta-me dizer que foi uma honra e uma satisfação ter participado das Ocupações como docente mobilizada, num verdadeiro turbilhão de acontecimentos, tendo presenciado e vivenciado convergências e divergências naturais a um movimento inédito, pulsante e apaixonado em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, mas, acima de tudo, em defesa de um Brasil mais justo. Nossos coletivos seguirão mobilizados, envolvendo todos os segmentos da comunidade acadêmica – estudantes, servidores(as) docentes e técnico-administrativos e terceirizados(as), pois como foi dito no balanço final da assembleia da Ocupação do IA, somos todxs sementes.

Luciane Cuervo

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[1] Disponível em: https://www.facebook.com/ocupatudo.ia.1/posts/161660160977767

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Foto tirada no início da ocupação, em 3 de novembro, por Caroline Lütckmeier.

 


Por que irei, logo mais, numa assembléia no Instituto de Artes ocupado da UFRGS

Não gosto de reuniões, nem tampouco de assembleias. Principalmente por causa do obsoleto protocolo de uso da palavra nas mesmas, absurdamente serial para o tempo em que vivemos. Tanto que não vou às plenárias departamentais há uns 20 anos. Até por que a universidade pública brasileira é um paraíso autogestionário onde, felizmente, estou cercado de pares bem mais aptos do que eu.

Hoje, no entanto, irei numa no Instituto de Artes da UFRGS. Entre seus professores, servidores e alunos. Os últimos ocupam o prédio do IA há várias semanas. Durante a ocupação, atividades essenciais para graduandos, como bancas e recitais, foram mantidas por algum tempo e, num dado momento, suspensas por completo. Obrigando, inclusive, alguns alunos a obterem, para o cumprimento de exigências para suas formaturas, salas de concerto fora do IA.

A última, soube agora, é que ocupantes pedem a renúncia à direção do IA da Profª Lucia Becker Carpena, sob alegações, entre outras, de que

Lucia seria golpista, favorável ao governo Temer. O que só pode ser coisa de gente desconectada, que não vê o intenso engajamento de Lucia com as grandes causas, em especial as que tenham a ver com educação; ou, ainda, de que se posicionaria como

defensora da lei da mordaça.

Ou seja: praticamente o diabo em pessoa.

Chama a atenção, também, que Lucia seja a pessoa mais citada na peça difamatória que recebi: seu nome aparece em vários parágrafos. Ou seja: ela (ou se preferirem, sua cabeça numa bandeja) é inegavelmente a pauta do encontro.

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Também não gosto de quem tente se esconder por trás de coletivos anônimos. Assim, preciso descobrir quem de fato redigiu o email (não conto nem sob tortura de quem o recebi – mas aposto que foi enviado à maioria pela mesma pessoa). Enfim, instruído por seja qual for ghost writer, custo a acreditar que o email que me foi “repassado” tenha sido redigido por qualquer dos ocupantes do IA. Que, nos primeiros dias da ocupação, escreveram “tercerização” (ou “tercerizados”, não lembro ao certo) numa lousa – assim mesmo, sem o i depois do segundo e. Já o longo email onde um coletivo anônimo pede a cabeça de Lucia, ao contrário, é de uma redação impecável. Digna, no mínimo, das melhores bancas jurídicas ou agências publicitárias. Difícil, portanto, acreditar que tenha vindo de lá de dentro.

Não entrarei, por hora, no mérito do constrangimento a que outros professores foram (ou não, como dizem os ocupantes anônimos) submetidos.

Só acho que, ao pedir a cabeça de Lucia como diretora do IA, seus ocupantes, conquanto cobertos de razão em sua pauta mais genérica de reivindicações, estão mirando no alvo errado. O golpe está francamente em curso em várias frentes e, enquanto muitos protestam no Congresso Nacional ou na Praça da Matriz, os ocupantes do IA, encastelados no prédio da Senhor dos Passos, serão logo esquecidos e, portanto, mais facilmente subjugados. A menos que, antes disto, ajustem a mira para alvos mais realistas.

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Conheço Lucia há uns 30 anos, desde que fomos colegas também como alunos do IA. É inegável que, naquele tempo, universitários tivessem muito mais perspectiva de um futuro auspicioso do que agora. De modo que não é nenhum exagero se afirmar que se vive hoje no Brasil um cenário educacional distópico, tanto ou mais sombrio do que conforme imaginado em The Wall, do Pink Floyd, ou, ainda, em O Inimigo da Classe, de Peter Stein (Klassenfeind, Alemanha, 1983).

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Cena de Klasenfeind, de Petet Stein (Alemanha, 1983)

De qualquer modo, penso que o IA tenha sorte de ter à frente, como diretora, alguém como Lucia. Pois, mesmo na utópica autonomia da universidade, conheço poucos tão capazes, idôneos e dedicados. Ela ainda quer ser diretora do IA ? (pois não tem a menor obrigação disto) Então, agradeçam aos deuses do saber por terem mais sorte do que juízo e a deixem trabalhar em paz !

E, é claro, me poupem de mais emails difamatórios.

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Foto: Guilherme Santos (Sul21)

(ontem, enquanto ouvíamos, numa prova, a brilhante classe de alunos de Lucia junto a um cravo (pois o do IA está… indisponível) que há na excelente sala de música existente no complexo do multipalco do Theatro São Pedro, ouvíamos, de vez em quando, as detonações dos rojões de gás do choque da BM  na praça em frente. Nunca imaginei que veria a BM dispersar com gás manifestantes da Susepe. Que tempos !)

Estreia da Big Band do Instituto de Artes da UFRGS

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Foto: Eduardo Gutterres

Dias atrás, assistimos, Astrid e eu, à apresentação de estreia da big band do Instituto de Artes da UFRGS. Antes de comentar o que ouvimos na ocasião, cabe uma pequena nota de esclarecimento. Todo músico experiente sabe que a principal dificuldade enfrentada por qualquer coletivo musical é se encontrar periodicamente para ensaiar. A tal ponto de se poder afirmar com segurança que, portanto, a probabilidade de permanência de qualquer grupo é inversa e exponencialmente proporcional ao número de seus integrantes.

Muitos grupos acadêmicos contrariam esta lógica existindo por muito tempo tão somente por força da obrigatoriedade curricular de participação de alunos nos mesmos. Tal não é o caso da big band do IA – que, apesar de ostentar o nome da instituição sob a qual se abriga, não possui qualquer vinculação com os cursos de música lá oferecidos, tendo surgido de modo espontâneo exclusivamente em razão da vontade de seus membros. Então, só pelo fato de ter ensaiado e realizado com êxito uma apresentação de estreia, esses jovens músicos já mostraram claramente a que vieram, nos restando torcer para que tornem a se apresentar regularmente e com frequência. Posto isto, falemos do recital.

Confesso ter saído de casa preparado para ouvir algo meio verde, como na maior parte dos espetáculos de estreia. Como se, por este motivo, a apresentação devesse ser guarnecida por uma tarja de advertência. Minha (baixa) expectativa foi frustrada logo de início, pois a rapaziada ganhou o (numeroso !) público abrindo o concerto com Superstition, de Stevie Wonder. A partir dali, ficou claro que a noite seria de festa.

A big band do IA possui uma formação inusual, com duas guitarras elétricas encorpando a seção rítmica (constituída quase sempre apenas por um trio de piano, contrabaixo e bateria, além de percussão). Tal distinção lhe confere uma “pegada” mais sólida, bem distinta daquela ouvida em precursoras da era do swing, que é percebida pelo ouvinte casual como um som mais “moderno”. Sem falar nas portas que tal formação abre para o repertório. Senão, como imaginar hits como o tema de Hawai 5.0 ou o já mencionado Superstition com um conjunto de instrumentação mais “clássica” ?

Todo o concerto foi empolgante, transcorrendo num clima que variava do solene ao festivo, com apenas duas ressalvas. Primeiro, o arranjo de Over de Rainbow (música do filme O Mágico de OZ), escolhido (soube depois) burocraticamente, apenas para aumentar a duração do espetáculo. De uma rasura constrangedora, o mesmo destoava flagrantemente do altíssimo nível dos demais arranjos, notadamente aqueles assinados por Nikolas Gomes (baixista da banda e aluno do IA) e Julio “Chumbinho” Herrlein (professor do IA).

Depois, senti uma tremenda falta de amplificação, sobretudo dos instrumentos de sopro e do piano, os quais, sem um gás que seria facilmente suprido por uma combinação adequada de microfones, console de mixagem, amplificadores de potência e caixas acústicas, soavam, por vezes, irremediavelmente abafados pelo contrabaixo. Como soube depois, os próprios músicos da banda tinham consciência desta deficiência, decorrente da falta de recursos dos mesmos para arcar com o alto custo deste tipo tão necessário de parafernália. Espero que, no futuro, consigam atrair a atenção de algum apoiador para este fim.

O que me surpreendeu mais positivamente foi a grande coesão do grupo recém-formado. Mais do que tocarem juntos (toco numa orquestra sinfônica e, portanto, sei como isto é difícil), tinham uma perfeita noção de equilíbrio, apesar da falta de amplificação, respeitando o espaço alocado a cada momento para naipes e solistas. Mérito compartilhado, sem dúvida, pelo regente Guilherme Rodrigues (aluno do IA), sempre claro e seguro.

Por fim, não poderia deixar de mencionar o que pareceu a ouvintes mais experimentados que lá estavam uma das maiores atrações da noite: o trompetista Gabriel Ugamba (aluno do IA), praticamente um autodidata, com suas improvisações eletrizantes, nas quais não hesitava em assumir riscos – e sair muito bem deles ! Não é pouca coisa. Mais: é ótimo saber que há entre nós outros grandes improvisadores ao trompete além do Jorginho.

De resto, cabe, aqui, ecoar as palavras emocionadas proferidas antes do espetáculo pela chefe do Departamento de Música e idealizadora do curso de graduação em música popular da UFRGS Luciana Prass, a saber, ” – Vida longa à Big Band do IA ! “

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Foto: Eduardo Gutterres

Sobre curadoria (i): AM 1080 KHz, Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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Não lembro bem por que nem quando deixei de ouvir a Rádio da Universidade (outra hora conto como deixei de ouvir estações de rádio comerciais). Talvez por isto tenha tentado reproduzir, nos últimos dias, a deliciosa brincadeira que Milton Ribeiro tinha com seu pai que consistia em tentar adivinhar o mais rápido possível que música a rádio da universidade estivesse tocando num momento qualquer.

Foi preciso muita paciência e algum método para repetir o experimento hoje pois, só no primeiro dia, me prestei a ouvir uma avalanche sem precedentes de música irrelevante, constituída por coisas como finales de danças sinfônicas da Noiva Vendida de Smetana ou da abertura Ruy Blas de Mendelssohn e, claro, pedaços de Carmina Burana – depois dois quais, confesso, desliguei o rádio.

Não satisfeito, insisti. No dia seguinte, ouvi trechos de uma rapsódia espanhola de Lizst para piano e, se não me engano, do mais famoso dos 14 (!) ballets de Adolphe Adam (já ouviram falar dele ? Nem eu. Mas certamente já ouviram falar de seu ballet Giselle. Espero que nunca tenham que ouvi-lo). De sorte que, lá pelo terceiro dia, ouço, enfim, algo conhecido, a saber, um dos 4 concertos de trompa de Mozart. Enfim um grande compositor. Ainda que não em um de seus momentos mais memoráveis. Pois os concertos de trompa são, antes de tudo, uma piada musical.

De sorte que, exceto, talvez, pelo concerto de trompa de Mozart, posso afirmar com toda a segurança que todas as outras obras mencionadas até aqui pertencem à grande lixeira da história musical.

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A pausa foi para que os ofendidos se retirassem da leitura. Aos que ficaram, explico. A história da música é uma narrativa cujos personagens são gênios ou sub-gênios, em cuja órbita gravitam vários compositores colaterais, não mais do que habilidosos imitadores, tais como, por exemplo, muitos franceses do século 19 que teimavam em compor música alemã. Ocorre que, por vezes, em circunstâncias que pouco ou nada tem a ver com critérios estritamente musicais, alguns oportunistas (cujos nomes declino de mencionar para não perder mais leitores) triunfam. Melhor voltar, então, e logo, a ideia de gênios e sub-gênios.

Entendemos por gênio todo artista original do qual se diz “ter nascido pronto”. O que, em música, significa produzir obras-primas consistentemente deste a juventude ou, como também é frequentemente referido, períodos de primeira maturidade. Como no caso de um Bach, Beethoven, Brahms ou Bartók. E Mahler, Nielsen e Shostakovich, é claro. Há outros. Mas não muitos. Em torno destes, orbitam uns tantos que somente a partir de determinado momento em suas carreiras criativas logram tamanhos patamares de excelência artística. Falamos, aqui, de sub-gênios como Mozart, Schubert & Schumann, Mendelssohn ou, vá lá, Tchaikovsky. Quem discordar, que comece por enumerar as primeiras sinfonias arrebatadoras de qualquer um destes.

Entendido até aqui ? Ótimo. Acontece que, sob o amplo manto semântico do gênero da música mais comumente conhecida como clássica, as mesmas prateleiras dos institutos públicos dedicados à preservação da diversidade histórica abrigam tanto as grandes obras de gênios ou sub-gênios como as mais baratas imitações. Às quais o estatuto da diversidade dá, indevidamente, uma relevância exacerbada.

Os principais fatores que determinam a qualidade de toda composição musical são o contraponto e a harmonia. Um e outro denotam com exatidão o grau de ambição de qualquer música. Ocidental, ao menos. Enquanto o contraponto informa a ambição musical ao nível textural, é a harmonia que define sua própria pretensão formal. Conjugados, explicam facilmente a pobreza da música pop, homofônica e harmonicamente rasa por definição.

Com a música clássica não é diferente. Pois as mesmas prateleiras que abrigam os monumentos de um Bach, Beethoven, Brahms ou Bartók também tem lugar para discos ou partituras de uma horda de obras de compositores colaterais ou mesmo da juventude de outros que só depois de certo tempo vieram a dominar suas artes.

Dito isto, voltemos à nossa querida Rádio da Universidade (sim, por que todos os que já a ouviram, em seus áureos tempos, aos quais devo em seguida me referir, devem a ela algo de suas formações musicais). Sua formidável discoteca é como um grande labirinto que abriga praticamente tudo o que de clássico (além de muito jazz) já foi prensado em vinil. Desconheço a extensão de sua coleção de CDs.

Por razões que fogem ao foco deste texto, muita dessa música colateral logra a imortalidade em gravações de tantos selos nanicos, por assim, dizer, enciclopédicos. Como Bis. Ou Naxos. De produtores que acham que toda música obscura merece ser dada ao conhecimento público, seja por meio de concertos (muito raramente) ou, na maioria das vezes, gravações.

Imaginem, agora, uma imensa discoteca que contenha toda a música que o espírito humano já criou em determinado gênero, da mais sublime à mais rasa. Como a biblioteca de Borges contendo os livros com todas as primeiras páginas possíveis com as letras do alfabeto. Inclusive a s ininteligíveis, sua grande maioria. Mais ou menos assim é uma coleção como a discoteca da Rádio da Universidade. Que possui, talvez, mais música do que se poderia ouvir em uma vida toda.

É claro, então, que, para nela bem se navegar, é preciso um enorme discernimento sobre tudo o que diga respeito à qualidade de toda composição, execução ou gravação (são raros os discos que excedem nestes três quesitos !) a ser levada ao ar. Daí a complexidade da tarefa de se decidir a que segmento de tamanho (e tão desigual !) universo gravado deve ser dado o privilégio do acesso facilitado a uma audiência por meio de broadcasting.

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Mas, afinal, o que isto tem a ver com a reprodutibilidade do experimento de se adivinhar o que toca na rádio ? Não sei. Pois sou um observador [ouvinte] distante. Mas desconfio que, desde os tempos da brincadeira do Milton com seu pai até minha frustração ao tentar reproduzi-la dias atrás, algo degringolou na curadoria do que toca na AM 1080.

Quando eu gostava de ouvir a rádio, ela era programada por gente como o compositor Flávio Oliveira, Rubem Prates (head hunted pela Livraria Cultura quando ao se aposentar na UFRGS) ou Sérgio Stosch. Gente que, evidentemente, conhecia música. E muito bem. A ponto, ao menos, de saber claramente quais discos deveriam ou não permanecer, por bem, indefinidamente arquivados. Na Rádio da Universidade de hoje, parece que se perdeu um pouco esta noção. Espero que a reencontrem. Talvez, sei lá, por meio de alguma parceria com o Instituto de Artes da mesma universidade. Pois nossos alunos podem programar uma sequência bem melhor do que tocar daquela discoteca. Ou assim prefiro supor.

Falando nisto, lembrei que, quando aluno do IA, conheci muita música à qual só tive acesso por meio de cópias em fitas K7 feitas, sob demanda, pela rádio. Nesta mesma época, a rádio transmitia ao vivo, com som captado por Marcelo Sfoggia, os concertos da OSPA de cada terça-feira. Antes disto, eu já ouvia assiduamente A Hora do Jazz produzida e levada ao ar todos os sábados pelo Stosch bem antes do heroico programa, diário e congênere, tocado por Paulo Moreira na outra emissora pública de Porto Alegre.

Além da rádio, tínhamos também as excelentes coleções de música contemporânea dos Institutos Goethe (de onde tomei emprestada praticamente toda a série Avantgarde da Deutsche Grammophon) e Cultural Norte-americano. Depois, durante o mestrado, levava para ouvir em casa pilhas de discos de uma biblioteca do Lincoln Center especializada em performing arts. Deve ser por isto que não entendo por que alunos do IA devam limitar sua escuta à pobre biblioteca da escola que frequentam (posso estar enganado) tendo, a poucas centenas de metros dali, a maior e melhor discoteca do sul do país. Mas isto foi bem antes do youtube. Mais precisamente, lá pelo início dos anos 80.

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