A intérprete de Libras, musa do governo Bolsonaro

Meses atrás, quando se gritava “fora Temer”, dificilmente se ouvia alguém defender o vampiro. Hoje, é bem diferente. Basta aludirmos a qualquer coisa percebida como negativa em relação a Bolsonaro, fato novo ou não,  para que as portas do inferno se abram e soltem no espaço virtual uma leal tropa de choque a chamar os críticos do governo recém empossado de petralhas, comunistas, derrotados, desesperados, ridículos, patéticos… enfim, a lista é imensa. Foi exatamente o que aconteceu dias atrás sob uma de minhas três postagens em sequência sobre a posse presidencial que dominou a mídia durante todo o dia.

Não pretendo, aqui, defender alguma deselegância ou comportamento politicamente incorreto de quem, como eu, pensa mais à esquerda do que aqueles que assumiram o poder. É que, diante de tanta asneira, é difícil permanecer impassível. Até eu, por vezes, tenho que morder a língua para não troçar de simpatizantes do idiota do ano (mais do mesmo aqui). Por isto, não condeno (ao contrário, até acho divertido) quem se utiliza das caixas de comentários sob minhas postagens para lascar um “otário” ou coisa que o valha diante da verborragia chapa branca.

Mas não vim aqui para falar disto. De início, fiquei intrigado sobre por que, de minhas três postagens, a que mais suscitou comentários de ambos os lados, numa verdadeira batalha campal, foi justamente a mais gratuita – a saber, aquela sobre a intérprete de Libras (língua brasileira de sinais) que, na aurora do novo governo, já ocupa a posição de sua musa absoluta. Mais, até, do que a primeira dama (não riam: já há quem ache que, com aquele carisma, será a próxima presidente. Uma espécie de Evita 2.0). Em meio ao bate-boca, poucas frases sobre as duas postagens que considerei mais reflexivas – a saber, que ironizavam, respectivamente, o clima de caça a dissidentes reeditado dos tempos da ditadura e a hábil manobra da prisão do candidato com maiores chances na corrida presidencial.

Dizem que piada explicada perde a graça. Ainda assim, sou forçado a recorrer ao expediente devido à reprimenda moral que recebi por, ao atentar para o lado cômico da já célebre intérprete, estar supostamente menosprezando uma ferramenta de comunicação tão importante para uma minoria (estranhamente, uma das poucas, senão a única, vista com bons olhos pelo novo governo).

Não devo ter sido o único a sublinhar a franca evidência dela em relação a qualquer autoridade ao lado da qual se apresente. Na presente situação, o fato mais relevante é que os monótonos discursos lidos por Bolsonaro em ocasiões importantes (mais sobre a autoria dos mesmos adiante) são inquestionavelmente valorizados pela atuação dramática e, sobretudo, cômica daquela intérprete – o que nos leva, de pronto, a indagar: por que os discursos do presidente precisam necessariamente sair de sua boca ? Ora, não seriam muito mais convincentes se proferidos originalmente pela intérprete, enquadrada no centro do campo visual, e traduzidos para os não fluentes em Libras por meio de legendas ou de uma voz em off ?

Indo mais fundo na leitura do fenômeno. Talvez o que torne a fala daquela intérprete tão cômica sejam os dois níveis em que o discurso é percebido. Num plano mais neutro, está a linguagem de sinais. Noutro, que a distingue tanto de outros colegas de profissão, está sua expressão facial ou, noutras palavras, as engraçadíssimas caras e bocas que faz concomitantemente à tradução.

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Eu já havia escrito este post até aqui quando, tomado por intensa curiosidade, fui “pesquisar” (eufemismo para digitar no google ” quem é a intérprete de libras dos discursos de Bolsonaro ? “) quem seria, afinal, a carismática figura que, no imaginário popular, já está indissoluvelmente colada à imagem do presidente. Depois de ler o texto de apresentação de uma entrevista (que ainda não vi, pois sou, como sabem, avesso a videos) e  uma matéria arrolando comentários politicamente corretos de desaprovação em relação a tiradas engraçadas sobre a intérprete, fiquei sabendo se tratar de Elisângela Castelo Branco, professora da UFRJ, coordenadora do ministério Incluir da Igreja Batista Atitude (RJ) e, aparentemente, uma das maiores autoridades nacionais em Libras. Ao ler tudo aquilo, me senti meio culpado, constrangido até, por achar que zoar de sua atuação e, pior, tentar instigar o mesmo sentimento em terceiros se constituiria numa ofensa a toda a minoria que se beneficia daquela linguagem. Naquela matéria, também fiquei sabendo que justo a expressão facial de Elisângela, que eu achara tão engraçada, era parte indispensável da gramática de Libras (mais do mesmo).

Consoante a isto, estive a ponto de me desculpar publicamente pela suposta piada de mau gosto. Pensei mais, porém, e não encontrei qualquer explicação satisfatória para o fato da expressão facial de Elisângela ser, positivamente, MUITO mais engraçada do que, por exemplo (não é preciso ir longe), as de outros “falantes” de Libras que atuaram na cerimônia. A começar pela primeira dama. Continuo sem resposta mas, ao menos, aliviei minha culpa.

Pensando mais (este velho mau hábito), lembrei do poder destronante do riso que, segundo Bakhtin, serviria, desde tempos medievais, para que os comuns pudessem, por meio da ridicularização, desafiar todo poder absoluto – e, na presente situação, se não seria precisamente isto que está em jogo quando rimos da tradução em gestos dos discursos de Bolsonaro. Pois, neste caso, não estaríamos rindo das caras e bocas de Elisângela e sim dos discursos lidos pelo presidente com sua monotonia habitual. Monotonia, entenda-se, do presidente e não dos discursos – posto que os últimos são prá la de engraçados. Eloquentemente engraçados.

Forçado ? Talvez. Uma contraprova seria submeter os discursos de Bolsonaro a outros intérpretes para verificar se a componente cômica permanece ou não. Há que se considerar, todavia, que Elisângela deve ter sido escolhida justamente por traduzir aqueles discursos convincentemente, i.e., ela definitivamente ACREDITA (como uma Velhinha de Taubaté, lembram ?) no que o presidente diz. E a comicidade é, no caso, mera consequência daquelas asneiras devidamente interpretadas. Pois, convenhamos, Bolsonaro não serve para ler nem boletins meteorológicos,  o que dirá discursos políticos (não é preciso muita sensibilidade para perceber o quão dramaticamente lhe falta o dom da oratória típico dos grandes estadistas).

O que desemboca diretamente na questão acima aludida sobre a autoria de seus discursos.  É claro que, nem em seu caso nem tampouco em qualquer outro, é possível comprovar cabalmente a redação de própria lavra ou de outrem de um pronunciamento político. Fica tudo, então, no campo da conjectura. Ghost writers não deixam vestígios. São segredos guardados a sete chaves e suponho que a revelação dos mesmos seja passível de punição, em alguns regimes, até com execução. Ainda assim, grandes discrepâncias entre a linguagem oral de alguns dignitários e seus discursos escritos engendram dúvidas sobre a autoria dos últimos. Ninguém duvidaria, por exemplo, da autoria do bilhete de suicídio de Getúlio. Ou da de um discurso lido por Churchill ou Fidel. No caso de Bolsonaro, no entanto, a coisa é bem diferente. Basta comparar a coerência (não falo, é claro, do conteúdo ridículo, mas da forma bem trabalhada) dos discursos que lê com a de suas (poucas) falas improvisadas, sejam elas intempestivas ou mais controladas, em entrevistas.  E, a partir disto, também é fácil entender por que não lhe deixaram comparecer a qualquer debate.

Carta aberta a um conselheiro da Comissão Nacional de Incentivo à Cultura

luan santana 1

Uma das melhores coisas das redes sociais é que, ao tornarem públicos os discursos individuais, desencadeiam reações tão imprevisíveis quanto maior for o tamanho de cada rede. E se as mesmas reunirem, como eu meu caso, pessoas de diferentes matizes de pensamento (detesto o adjetivo ideológico quase tanto quanto as bolhas discursivas), se torna mais provável que, a cada posição forte proferida, se colham contraditórios que, com sorte, serão, como aqui, altamente qualificados.

Embora não fosse nenhuma novidade, compartilhei em meu perfil no facebook uma compilação das mais bizarras licenças para captação de incentivos fiscais federais por meio da Lei Rouanet – cujos termos, confesso, ignoro solenemente. O que, no entanto, não desqualifica o que penso sobre sua aplicação desastrosa. Ocorre que, como uma metralhadora giratória, acabei atingindo um amigo – o músico, compositor e maestro Arthur Barbosa, por quem nutro grande estima e que (havia me esquecido !) participa, como conselheiro, da comissão do Ministério da Cultura que avalia projetos que pleiteiam os benefícios da referida lei.

Em seu longo e pertinente desabafo, disse, entre outras coisas, que

Existem dispositivos na lei que protegem as formas de cultura mais “debilitadas” e “carentes de público”

(o que é ótimo); e que

a grande maioria destes projetos caem sobre o artigo que não possibilita a captação de 100 % do valor do projeto pela lei Rouanet, mas uma porcentagem bem menor…ou seja , estar aprovado pela lei não significa que a empresa ou pessoa terá 100 % do valor do projeto incentivado pela lei...

(o que também é ótimo).

A parte de seu comentário, no entanto, da qual discordo veementemente e que serve de inspiração a este texto, é aquela onde diz que

O que nós não podemos como conselheiros é fazer juizo de valor…não podemos avaliar um projeto com base na nossa opinião se esta arte é “mais arte” ou “menos arte” que aquela outra, pois perante a lei todos têm o direito de participar de um edital.

É claro que todos podem participar de uma concorrência lançada em um edital público. Só que a isonomia deve terminar aí. Ora , comitês avaliadores de projetos culturais que se pretendam financiados, ainda que parcialmente, por recursos oriundos de renúncia fiscal são, essencialmente, conselhos de curadores e, como tais, possuem, sim, talvez como uma de suas principais atribuições, o dever de questionar o mérito artístico de cada proposta que lhes for apresentada. É neste sentido que defendo que produtos como Cláudia Leite ou Luan Santana não deveriam, em hipótese alguma, ter permissão para obter sequer um centavo de recursos oriundos de renúncia fiscal – que são, afinal, dinheiro público que deixará de ser investido em melhores causas.

Além disto, ao conceder licenças de captação, ainda que de valores parciais, a projetos  milionários, o governo federal vira as costas à necessária descentralização das iniciativas culturais. Mesmo que a lei proteja, conforme foi dito, as manifestações mais debilitadas e carentes de público, ao incentivar o patrocínio de espetáculos questionáveis como os supra-citados, de celebridades midiáticas e com retorno de bilheteria garantido (os quais não dependem, portanto, de nenhum incentivo governamental para sua realização), acaba estendendo a cada patrocinador em potencial uma carta branca que lhe permite escolher o que apoiar. Este, por sua vez, sempre optará, por razões econômicas, por apoiar o que lhe trouxer mais retorno em termos de público atingido – funcionando, assim, como uma espécie de publicidade subsidiada a beneficiar exclusivamente celebridades abastadas e seus patrocinadores em prejuízo de formas de cultura, como foi dito, mais debilitadas. Ora, permitir a todo mecenas interessado na publicidade subsidiada em que se constitui, em última análise, todo patrocínio contemplado com algum tipo de renúncia fiscal implica em se desistir de proteger manifestações culturais menores e mais importantes, se relegando, com isto, a economia da arte inteiramente às leis do mercado. Um desastre, a nosso ver, já em andamento.

Concordo que a discussão do mérito de qualquer iniciativa que deve ou não ser apoiada com dinheiro público é complexa, envolvendo nuances estéticas que se esquivam ao consenso. É, então, senão mais prudente e socialmente mais justo, ao menos necessário que decisões sejam tomadas com base em critérios econômicos. E assim chegamos ao dilema entre a concentração e a distribuição de recursos. Não pretendo (nem teria como num espaço tão exíguo) discutir os prós e os contras do apoio a isto ou aquilo. Prefiro, ao invés, deixar ao leitor a incumbência de intuir sobre o mérito do apoio estatal a categorias mais ou menos centralizadas por meio da menção a alguns binômios que falam por si só. Consoante a isto, pergunto: que categorias, em cada par abaixo, devem ser beneficiadas por políticas públicas de incentivo: o latifúndio ou a agricultura familiar ? Grupos industriais consolidados (como, por exemplo, Gerdau ou Tramontina) ou vitivinicultores e produtores de cervejas artesanais ? Montadoras automotivas ou luthiers ? Redes de supermercado ou fruteiras e padarias ? Orquestras e grupos de teatro e música de câmera ou celebridades midiáticas ? Tirem suas próprias conclusões. E me poupem, por favor, de argumentos em prol de grandes empregadores – amolando com isto, se quiserem, os economistas.

Deve ser grande, para qualquer governo, a tentação de privilegiar, sempre que possível, os grandes arrecadadores. Senão, imaginem a complexidade adicional da burocracia para se lidar com, ao invés do capital concentrado, toda uma diversidade de pequenos contribuintes. É, portanto, bem mais fácil para qualquer órgão de fomento trabalhar com um número reduzido de projetos mais caros do que com uma infinidade de iniciativas menores e dispersas.

A insistência governamental em facilitar a vida de quem já é grande não se dá, no entanto, meramente em razão da simplificação burocrática. Pois grandes empreendimentos também favorecem mais a corrupção. Não vemos, por exemplo, na Lava-Jato, indiciamentos de pequenos negócios na mesma proporção do que os de gigantes como a Petrobrás ou as grandes empreiteiras. Por uma razão muito simples: grandes empreendedores pagam propinas maiores. O político corrupto não está, então, interessado no cheque da pequena empresa familiar, do mesmo modo que produtores de grandes eventos não estão dispostos a captar uma miríade de pequenos apoios. É fácil, então, se intuir que a abolição, em qualquer esfera pública, do dinheiro graúdo se constituiria num tremendo baque na rapinagem dos aproveitadores de plantão. Até por que é, também, muito mais fácil comprar o silêncio de poucos do que o de muitos.

Mais. Entre os casos citados como bizarros na postagem que deu origem a este texto figuram ainda os de filmes (inevitavelmente dispendiosos) sobre biografias de políticos, vivos (como José Dirceu) ou mortos (como Leonel Brizola), que interessam a forças que hora disputam o poder e que podem ser, portanto, qualificados, direta ou indiretamente, como propaganda eleitoral. Ao que alguém poderá rapidamente objetar que o longa-metragem sobre Getúlio Vargas (que provavelmente também recebeu recursos oriundos de renúncia fiscal) se enquadre na mesma situação. Ora, Getúlio, ao contrário de Brizola ou Dirceu, já pode ser visto com algum distanciamento histórico – sendo, portanto, bem mais difícil a vinculação de sua imagem a esta ou aquela corrente partidária hora a disputar o poder.

Atualização: horas depois que publiquei este texto, fomos brindados com a notícia hilária de que alguém recém afirmara, numa reunião do diretório nacional do PDT, que, até hoje, uma “bancada estelar” (sic !) composta por Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola cuidava do partido e de suas decisões país afora. Ante tal evidência de uma conexão, por assim dizer, espiritual talvez eu devesse suprimir o parágrafo anterior – o qual, por vaidade ou pura teimosia, insisto em manter.

Se o problema da curadoria já é bem complexo, o da descentralização o é muito mais. Por isto, uma das muitas possíveis saídas para o aperfeiçoamento de leis de incentivo seria a vedação da concessão de benefícios a megaespetáculos, que só servem a celebridades e seus patrocinadores, com o estabelecimento de limites máximos de captação para cada categoria de manifestação artística. Teríamos, assim, tetos diferentes para exposições, publicações, espetáculos musicais, montagens teatrais ou filmes (notoriamente mais caros) de curta e longa metragem. E, mais importante, o banimento de iniciativas concentradoras de recursos – obrigando, com isto, todo empresário disposto ao mecenato a investir, senão na qualidade (tão intangível, esquiva ao consenso, mesmo entre os curadores mais aptos), então ao menos na diversidade cultural.

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Depois que comecei a escrever este post, meu amigo Vagner Cunha, a quem também devo menção, se juntou à conversa sobre o discernimento e a ponderação necessários a toda discussão sobre leis de incentivo que, não obstante, já avançaram muito. Ao lhes agradecer pelas posições contrastantes inteligentemente defendidas, concluo rogando a Arthur Barbosa que, em sua próxima reunião de trabalho em Brasília, leve este texto à atenção dos demais conselheiros responsáveis pelo destino dos recursos oriundos da Lei Rouanet, no intuito de que os argumentos acima se tornem, de algum modo, relevantes para o aprimoramento da mesma e/ou de sua aplicação. Pois tão ou mais importante que a redação de qualquer lei é o espírito que a norteia.