Por que manter perfis fechados em redes sociais e um absurdo elogio ao pensamento único

Até a semana passada, nunca havia me preocupado com as implicações de ter no facebook um perfil aberto, que pode ser lido por todos, ao invés de fechado, que pode ser visto só por amigos. O velho dilema entre manter, em redes sociais, um discurso público ou privado. Para ter um maior controle sobre o conjunto daqueles com que me disponho a conversar, ou mesmo por puro conservadorismo, optei, ao entrar no facebook anos atrás, por um perfil fechado por default. Em que pese, em tal ato, a flagrante contradição entre manter um perfil mais reservado e defender, ao mesmo tempo e em nome da eficácia argumentativa, a ruptura das bolhas discursivas.

Como dizia, me intriguei ao ver dois amigos, desconhecidos entre si, anunciarem, praticamente ao mesmo tempo, sua intenção de deixar a plataforma devido ao mal estar sentido em razão de ataques (presumo que contraditórios desqualificados) sofridos no facebook. A princípio estranhei um pouco, pois jamais me importei com vitupérios deixados aqui ou ali por pessoas de viés ideológico diametralmente oposto ao meu – os quais alguns preferem chamar de trolls – que insisto, no entanto, em manter na timeline tão somente pela diversão e instrução que me propiciam. No mínimo, ajudam a sentir a temperatura do mundo lá fora.

Ao anunciar, todavia, uma possível intenção de abrir meu perfil, fui alertado por outro amigo que deveria, antes, estar preparado, pois visões contrárias viriam com tudo, da pior forma possível. Demovido, assim, do propósito de “dar a cara ao tapa” mais do que já dou, tratei de entender um pouco melhor a diferença entre interações (curtidas e, principalmente, comentários) que se produzem sob perfis fechados e abertos. Felizmente, há um contexto experimental privilegiado para isto – a saber, as postagens de divulgação do que escrevo neste blog, de um lado em meu perfil fechado e, de outro, no perfil aberto do Sul 21.

O contraste entre o teor e o tom predominantes nos dois ambientes é gritante. Há, de fato, em meu perfil fechado, entre uma grande maioria de manifestações de apoio e concordância ao que digo, um ou outro comentário de cordial discórdia, quase sempre no intuito de contribuir com o aprimoramento do argumento. Costumo agradecer. Pois, na economia da atenção, o maior prêmio possível é o contraditório qualificado. E há, claro, vez que outra, algum troll vociferando, para meu deleite e dos demais leitores. Também agradeço. Pois o que seria do circo sem palhaços ?

Já uma comunidade bem diferente se amontoa nos comentários sob as postagens de divulgação de meus textos, quase sempre provocações com endereço certo, no perfil aberto do Sul 21. Lá coexistem tanto manifestações de solidariedade como francos ataques às ideias defendidas no blog. Dentre os últimos o que mais chama atenção é a pobreza de linguagem, por vezes apelando ao baixo calão, e os ataques ad hominem (a falácia do envenenamento do poço, que me é tão cara). Não sofro, no entanto, com isto. Antes, me divirto. Além disto, tais bravatas ajudam, na maioria das vezes, a perceber quando consegui mexer num vespeiro.

Pensando bem, talvez meus amigos tenham razão ao aconselhar a manutenção de um perfil fechado. Pois ver desaforos, num perfil aberto mais impessoal, só quando estamos dispostos a isto é uma coisa. Outra, bem desagradável, deve ser ter que se deparar com a legião de trolls sempre que entramos na rede para, ao fim e ao cabo, nos pormos a par do que acontece no mundo. Nestas horas, olhares amigáveis não tem preço.

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Ainda que este post possa ser rapidamente classificado como de netiqueta, tratando antes de tudo da higiene virtual, não há como não tergiversarmos sobre um tema que, sutilmente, o perpassa (sempre quis usar esta palavra !) – a saber, a tolerância e, mais do que ela, o apreço ao contraditório. Com isto em mente, devo confessar meu choque ao me deparar, na timeline, com a reprodução de uma coluna de David Coimbra em ZH (perguntado, me apressei em dizer que não assino o tabloide) que se constituía num dos mais flagrantes elogios ao pensamento único que eu jamais vira. Não vou conspurcar este espaço com uma transcrição integral, mas alguns trechos da peça do moço, pelo qual ZH optou ao demitir Verissimo, realmente valem a pena. A começar pelo título:

Chega de provocar o debate. Por que ofender as pessoas ?

É claro que estas frases funcionaram como um imã para a leitura do texto que seguia, cujas passagens mais obscurantistas são:

” … as pessoas se tornaram sensíveis demais, hoje em dia. É muito difícil não ferir suscetibilidades. Mas me rendo. Não escrevo para fazer mal às outras pessoas. Então, se percebo que alguns ficarão tristes se escrever algo, não escrevo algo. *

Não é a reação furiosa, a crítica feroz ou a movimentação de algum grupo que me faz parar. Ao contrário: quando me atacam, a minha tendência é revidar com mais força. O que me deixa chateado é deixar alguém chateado. ”

” … no suscetível mundo do século 21, tudo é, exatamente, contra ou a favor, sim ou não, branco ou preto. Assim, o cristão que hoje se sente ofendido amanhã vai ofender e a resposta virá e a tréplica se dará também e isso nunca mais vai acabar.

Estamos muito perto das hélices. O mundo está ficando perigoso. Você, que tem a cabeça arejada, que é libertário, que é culto, que luta contra os preconceitos, pare de lutar. Pare de protestar. Pare de “provocar o saudável debate”, porque o saudável debate não é mais saudável. Nós não estamos avançando. As pessoas só avançam quando seguem juntas.

Sei que fascismo é um termo bem desgastado no atual debate político. Mas se a conclamação imediatamente acima não for fascista, então não sei mais o que é.

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* Será que se eu disser que seus textos me entristecem e chateiam, David Coimbra deixa de escrever ?