on conducting (viii): em resposta a Daniel Barenboim

O eminente pianista e maestro (ou maestro e pianista, são sei bem a ordem) Daniel Barenboim se posicionou, em recente entrevista, claramente contra a prática, já bem comum, de que virtuoses instrumentais, sejam eles solistas ou membros de destaque de orquestras importantes, também façam carreira como maestros. Sim, vocês entenderam direito: ele mesmo, Barenboim – que, como Ashkenazy, Rostropovich, Harnoncourt, Levine e tantos outros – teve, muito antes de subir ao pódio, uma importante carreira como solista.

A questão é bem mais relevante do que, inicialmente, parece. Pois a regência orquestral enquanto disciplina acadêmica é um fato tão novo quanto questionável. Até por que a própria regência é, em si, uma invenção bastante recente. Então, é preciso um olhar atento, até desconfiado, sobre quaisquer instâncias que reivindiquem saber ensinar um modo de aquisição de uma competência ainda pouco entendida.

Tomemos o caso da OSPA. Uma orquestra estatal de uma metrópole cultural secundária. Por insistência de seus músicos mais do que por qualquer outra coisa, vem tendo à frente, nos últimos anos e com excelentes resultados, músicos eminentes que passaram a se dedicar também à regência. Quase como uma segunda ocupação (ao menos no sentido cronológico). Notem que não falo, aqui, de qualquer músico – pois jamais me passou pela cabeça afirmar que todo músico daria um maestro minimamente satisfatório. Longe disto. Falo de gente da estatura de um Leon Spierer (ex-spalla da Filarmônica de Berlim), Per Brevig (ex-primeiro trombonista do Metropolitan Opera), Jacob Slagter (ex-primeiro trompista do Concertgebouw) ou Emmanuele Baldini (spalla da OSESP). Ou ainda de solistas como Maxim Fedotov, François Benda ou Lavard Larsen. Sei que Rauss e Ricci também foram, nalgum tempo, ótimos instrumentistas. E ouvi dizer que Teraoka já tocou contrabaixo. Aposto que tocava muito bem. A ponto de, ao menos, ter dado recitais ou liderado algum naipe antes de se deixar seduzir pelos encantos da batuta.

Walter Boeykens, já no fim de sua carreira como um dos mais importantes clarinetistas de sua época e se dedicando (acho que por esporte (Boeykens era cavaleiro da coroa belga; uma espécie de barão, dizia)), afirmou que cursos de regência não passavam de bullshit, já que nada se comparava a recebê-la, como uma dádiva, de mitos como um Bernstein ou Boulez enquanto solista ou, no mínimo, ocupando uma cadeira importante numa orquestra de ponta. Como Slagter sob Haitink no Concertgebouw. Ou Spierer sob Karajan ou Abbado em Berlim. Faz sentido, não ?

É claro que não desdenho bons regentes que tenham passado, mais por força dos tempos em que vivem do que por qualquer outra razão, por programas acadêmicos de regência. Pois Valentina Peleggi conduziu, afinal, um dos mais memoráveis concertos de que participei. O que sempre sustentarei é que, antes de qualquer instrução específica para atuar como regente, todo bom maestro deve ter tido, obrigatoriamente, suficiente experiência como instrumentista. Valentina é pianista e também toca clarineta e violino. Ora, nenhum maestro consegue apreender a tocar qualquer instrumento uma vez que já tenha adentrado a movimentadíssima ciranda dos pódios.

Chegamos, assim, a um aforismo, empiricamente dedutível, a ser observado por bons gestores culturais e ouvintes mais curiosos, que pode ser formulado como

jamais confiar em qualquer maestro que não seja, pelo menos, um bom pianista (pois pianistas sempre levam, afinal, alguma vantagem sobre os demais músicos quando se trata de ler partituras) – ou, se tocar outro instrumento que não o piano – um músico excepcional.

Falamos, portanto, de, pelo menos, um solista. Menos do que isto, deve ser considerado imperícia ou mesmo oportunismo.

Dito isto, voltemos à diatribe de Barenboim contra os músicos-regentes para lhe sondar a índole. Ora, tenho para mim que, ao desaconselhar o pódio a instrumentistas que considera (não sei segundo qual critério) não-regentes, o eminente pianista/maestro (ou maestro/pianista) deve ter em mente, senão exclusivamente ao menos principalmente, a reserva de mercado. Pois é sabido e comprovado que aprender a tocar uma música exige, na maioria das vezes, muito mais dedicação do que aprender a regê-la. Se duvidarem, é só observar, durante um mesmo concerto, o que faz o solista e o regente.

É também de amplo conhecimento que honorários (além de transporte aéreo, alimentação e hospedagem) de regentes costumam custar mais do que os de solistas de igual projeção. Então, mesmo discordando veementemente de Barenboim nesta questão, entendo perfeitamente suas palavras. Até por que talvez ele não tenha outra saída. A não ser, é claro, se abdicasse de sua condição de celebridade, da qual advém seus ganhos. Por isto mesmo, não deve estar disposto a deixá-la para abraçar uma nova economia.

Muito ainda se há de falar, enfim, nas mudanças paradigmáticas entre os contextos de Barenboim e Lisitsa. Pano para muita manga. Para bem mais do que um post.

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Não gosto de terminar textos com uma frase. Pois jamais parecem ter a importância que uma última frase deveria ter. Então, nada melhor do que terminar este – que é, antes de tudo, uma pergunta – com imagens de alguns músicos-regentes que tivemos o prazer e a honra de ter à frente recentemente. Por que jamais vejo tamanha intensidade emocional em qualquer maestro não-músico (os quais, acreditem, não são poucos…) ?

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on conducting (ii): o método Ricci; on writing: sobre os benefícios da irregularidade

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Tivemos, nos últimos dias, a oportunidade de ensaiar e tocar quatro récitas de uma ópera de Puccini em forma de concerto sob a batuta de Enrique Ricci. Não é a primeira vez que a OSPA se apresenta dirigida pelo maestro argentino, naturalizado espanhol. Antes, Ricci já esteve à frente da orquestra numa Cavalleria Rusticana, também em forma de concerto, e, anteriormente, em Turandot, encenada no Teatro Solis de Montevideo.

Gosto de maestros polêmicos que, como Ricci, dividem opiniões de músicos. Dono de um estilo bem pessoal, não há como lhe ser indiferente. Pois os mesmos atributos pelos quais sua regência é aclamada por muitos se constituem, no entender de outros, em suas principais limitações, a saber, os fatos de que, enquanto rege,

  • parece aderir a uma sólida versão imaginária da obra que executa, e
  • raramente ou quase nunca indica com precisão os pontos de entrada de cada instrumento ou naipe.

Tais características, particularmente no gênero da ópera, obrigam a orquestra a uma atenção muito maior do que a habitual à concepção pelo regente no pódio da obra em questão – a qual precisa ser, por vezes, praticamente adivinhada. Deste esforço e concentração adicionais empreendidos, tidos por alguns como extenuantes ou mesmo irritantes, resulta algo intangível que é percebido pelo ouvinte menos avisado como uma intensificação emocional da performance.

Que lição tiramos disso ? Ora, que por vezes só temos a ganhar ao evitar os grandes consensos e unanimidades. Ao menos em áreas tão nebulosas como os fatores que determinam a qualidade na regência orquestral tais como, por exemplo, a importância ou a qualidade do gesto – tão importantes para alguns e, ao mesmo tempo, absolutamente irrelevantes para outros. Viva a diversidade dos egos musicais.

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Tornando a atualizar este blog depois de quase três semanas, é inevitável que me depare com questões frequentemente levantadas por quem quer que já tenha se dedicado, de um modo ou de outro, à escrita, tais como:

  • qual a frequência de publicação ideal, em blogs ou outros meios, sob o ponto de vista da qualidade da escrita ?
  • até que ponto a frequência de publicação ideal no blog de um autor coincide com a expectativa de seus leitores ?
  • até que ponto a regularidade, respectivamente, na escrita e na publicação são benéficas ou, ao contrário, nocivas à qualidade do texto acabado ?
  • até que ponto textos devem ser publicados na ordem cronológica em que são imaginados, ou, ao contrário, aleatoriamente, na medida em que diferentes ideias implicam em tempos diferentes de amadurecimento ?

O problema não é novo. O excelente blog brainpickings, de uma das melhores curadoras da web, Maria Popova, reúne receitas e aforismos de grandes escritores, acostumados à disciplina e às crises da rotina criativa. Preguiçoso, me interesso pouco pelo que dizem. Do alto de meu atrevimento, afirmo que toda regularidade, quer na escrita em si, quer na publicação, conspira contra a qualidade do texto. Ao contrário, não vejo vantagem alguma em se manter qualquer regularidade ou hábito literário a menos que se tenha algo irresistível ou urgente a dizer. O que, na maioria das vezes, só acontece de quando em quando, independentemente da vontade de qualquer autor, quase sempre intercalado entre eventos e experiências significativos vividas por cada um. De tal modo que a crônica cotidiana ou periódica tende, invariavelmente, a um certo marasmo e previsibilidade.

É também notório que grandes formas implicam em maiores tempos de maturação. Senão, por que raramente alguém dirige mais do que alguns punhados de bons filmes, compõe mais do que uma dezena de sinfonias memoráveis ou escreve mais do que três ou quatro grandes romances ?

Então, que se dane todo e qualquer método. E que vivam os editores que aceitem tal estado de coisas.

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