A perversa retórica de que a salvação reside no empreendedorismo

Já disse noutro post que tenho o incurável hábito de assistir ao Jornal Nacional tão somente para auscultar a linha editorial da Rede Globo e, residualmente, para ficar a par do mais recente pacote de maldades do governo federal bem como das últimas peripécias do circo judiciário.

Ouvindo de longe, ontem, apenas o áudio do Jornal Nacional, fui tomado de curiosidade por uma matéria que, supostamente, fomentava o empreendedorismo. Algo sobre abraçar novas carreiras. De um modo tortuoso, a tônica do discurso me pareceu, de imediato, a banalização do desemprego. Achei aquilo muito sintomático,  pois justo quando o alto empresariado obtém o aval do estado, respaldado pelo poder legislativo, para se desonerar de responsabilidades trabalhistas, seu principal arauto (afinal, quem sustenta, por meio de anúncios, a grande mídia ?) toma a si a tarefa de persuadir a população de que sua emancipação e felicidade não dependem da segurança do recebimento de um salário mensal e outros benefícios tidos como supérfluos por defensores das virtudes do mercado – tais como férias remuneradas, décimo-terceiro salário e aposentadoria – mas, tão somente, de arriscadas e improváveis incursões de nanicos no mundo dos negócios. Pois, para o credo liberal, o mundo ideal é povoado não por assalariados mas por pequenos empreendedores. O governo federal estimula essa ideia por meio do Sebrae. Até orquestras, como a OSESP, já contratam músicos como empreendedores individuais.  Ainda assim, quase vomitei ao ver o JN incentivar a audiência a abraçar carreiras autônomas no mesmo dia em que o governo anunciou um novo plano de demissões voluntárias.

Na supra-citada matéria, mostraram um site que já tinha mais de 11 mil seguidores. Ora, curtidas em redes sociais não equivalem de modo algum a intenções de compra. Com efeito, se tivéssemos que pagar por cada coisa que curtimos, seríamos bem mais criteriosos ao pressionar o ícone da mãozinha com o polegar erguido. A dona do mesmo site nos informa sobre alguém que, pelo volume de fotos postadas, já pode ser considerado como o fotógrafo oficial do site. Se a TV fosse interativa, perguntaria de pronto quanto pagou por cada foto. O que mais me irrita nisto tudo é pensar que esta retórica emancipatória possa encontrar, entre a audiência, olhos e ouvidos crédulos. Se fosse na internet, seria automaticamente descartada como algum vírus ou spam. Na tela da TV adquire, no entanto, o benefício da validação.

Indo adiante, é preciso acrescentar que, conquanto muitas iniciativas comercias já tenham se apropriado com êxito de recursos virtuais, a esmagadora maioria dos sites ainda é exclusivamente voltada para a comunicação entre seus mantenedores e visitantes. A web ainda é, portanto, eminentemente um meio de informação. Se, no entanto, os responsáveis por cada site ou blog passassem a tentar vender alguma coisa, arrisco afirmar que, em sua grande maioria, perderiam um volume considerável de leitores.

Sei. Há sites como um prosaico “Viver de blog”, que “ensina” técnicas para potencialização da audiência e monetização do conteúdo. Insisto, ainda assim, que o maior potencial da rede, largamente subaproveitado, reside na comunicação, com especial importância para a educação e a política. Só que ambas precisam mudar radicalmente para desfrutar deste benefício e, ao menos no que se refere à política, tal não é do interesse da classe governante, indiscutivelmente devido à horizontalidade inerente aos protocolos virtuais.

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Como disse acima, o empreendedorismo nanico (na ausência de expressão melhor) já foi banalizado como parte do pensamento liberal, tanto no que tange ao estado mínimo quanto na crença na suprema legitimidade do mercado como mediador de todas as relações humanas.

Uma das coisas que apreendemos, no entanto, lendo Harari, é que nenhuma ideia é naturalizada sem uma poderosa combinação de interesses e esforços, ainda que escusos, a contribuir para sua aceitação. No caso do empreendedorismo individual, é possível identificar, além de campanhas como as da Globo, auto-justificadas com a eloquência de atos falhos, inúmeros interesses em ação.

Primeiro, há que se reconhecer que organizações colaboram para isto. Vejam, por exemplo, o caso da campanha publicitária In doers we trust, lançada pelo provedor de serviços free lance Fiverr, que chegou à minha atenção por meio de uma matéria publicada no New Yorker, crítica em relação à atual onda de empreendedorismo individual, que narra a história de uma mulher, em busca de alguns dólares a mais, que entrou em trabalho de parto enquanto dirigia uma espécie de Über. A esta matéria deve ser creditada a expressão gig economy, traduzível como “economia de bicos”, que bem define a situação à qual governos liberais e empresários mancomunados presentemente querem relegar a sociedade.

Outras organizações, mais antigas, que promovem a desregulamentação trabalhista e a supremacia do mercado, são mencionadas num interessantíssimo artigo publicado pelo The Guardian. Sintomaticamente, magnatas que dirigem estas organizações insistem em permanecer no anonimato, como se a mera publicização de sua relação com tais organizações fosse por si só suficiente para minar seu propósito de promoção da livre iniciativa.

Por aqui, se popularizou, anos atrás, a denominação jocosa de PDV (plano de demissão voluntária) para as acessíveis vans asiáticas adquiridas por ex-funcionários públicos para a venda de cachorros-quentes com os recursos oferecidos pelo governo estadual em troca da auto-exoneração precoce.

Além disso, há hoje um aquecido mercado para palestras de autoajuda, por coachs a afins (que, em sua maioria, jamais abriram um CNPJ), destinadas a indivíduos em busca de estímulo para se lançarem a empreendimentos individuais. Nestes rituais, se promove a ideia de que há um mercado ávido pela iniciativa a ser empreendida por cada um,  dependendo apenas de sua vontade, se vendendo a ideia de que abrir uma empresa é tão fácil quanto montar uma banda de garagem e deliberadamente omitindo o fato de que poucas dentre as empresas abertas efetivamente prosperam.

Sobre museus: Francis Alÿs no MALBA e o Future Symphony Institute

Alÿs 27Definitivamente, tenho problemas com as artes visuais moderna e contemporânea. Mais ou menos da mesma ordem da dificuldade com que ouço, por força do ofício ou curiosidade, muita música produzida a partir do século vinte. E o mais curioso é que não sou (ou, ao menos, não me considero) um sujeito mentalmente preguiçoso ou, de algum modo, limitado – já que defensores de vanguardas herméticas assim costumam taxar quem quer que, por qualquer razão, não perceba o alcance e/ou a genialidade de suas manifestações.

Pelas razões acima, adquiri simpatia imediata pelas ideias defendidas por um grupo de intelectuais ostensivamente conservadores sob o manto do Future Symphony Institute, sediado em Baltimore. Foi num artigo lá publicado, The Myth of Progress in The Arts, pelo compositor holandês John Borstlap, que me deparei com a questão de por que a arte moderna é a primeira a clamar por museus exclusivamente dedicados a ela, onde possa ser exibida sem a (inconveniente ?) vizinhança de obras de épocas nas quais os critérios de excelência eram outros. A resposta de Borstlap é tão fascinante e bem fundamentada quanto partisana – razões pelas quais não a submeteremos à redução imposta por qualquer transcrição parcial. Recomendamos, outrossim, que leiam todo o artigo no site do Future Symphony Institute, bem como tudo o que, de resto, encontrarem por lá. O lugar é um vasto manancial de ótimos argumentos conservadores – tais como, por exemplo, os instigantes Why musicians need philosophy e Teaching Judgement, do eminente e polêmico esteta Roger Scruton, ou os três brilhantes ensaios de Andrew Balio sobre onde se perdeu a grande tradição conservatorial norte-americana – a saber, na exacerbação, acima de quaisquer outras virtudes, da criatividade, do ativismo e do empreendedorismo. Ainda não tive oportunidade de explorar melhor a coleção de textos mantida no ar pela organização, mas isto é um prazer que quero prolongar.

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Antes de questionar, como Borstlap, por que a arte moderna é geralmente exibida apartada daquela produzida em épocas anteriores, prefiro me debruçar sobre outra distinção observável entre os espaços físicos, de um lado, dos museus “tradicionais” e, de outro, dos de arte moderna. Vale, no entanto, ressalvar que a observação a seguir se refere exclusivamente ao par contrastante formado pelo Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) e o Museu de Arte Latina (MALBA), recentemente visitados, ambos em Buenos Aires.

O aspecto mais marcante experimentado por todo visitante nos dois museus é a luz ou a ausência dela. Pois, se no MNBA todos os espaços são deliberadamente escuros, com uma iluminação cuidadosamente planejada de modo a realçar, aos olhos dos visitantes, tão somente as obras lá expostas, já o MALBA é inteiramente constituído por enormes espaços claros, com uma luz neutra (não polarizada) a se derramar isonomicamente sobre tudo. Para fazer melhor justiça ao que vi, devo dizer que, no próprio MNBA, as paredes que fazem parte do entorno dos quadros e suas molduras se tornam mais claras na medida em que expõem obras mais recentes.

Aliás, as próprias molduras são, com o passar do tempo, cada vez mais raras. Não sem razão. Pois, afinal, que moldura serviria a um Rothko, Pollock ou Mondrian ?

Ao que me recordo, o mesmo padrão de luz e sombra se verifica se comparamos a iluminação entre, por exemplo, as galerias do Metropolitan Museum e do Museum of Modern Art, em Nova Iorque. Deve haver, então, em algum lugar, uma ótima explicação para isto.

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O MALBA não é um museu rico. Com isto, quero dizer que, ao contrário de instituições como o Museu Picasso de Barcelona ou o D’Orsay de Paris, nos quais é possível se contemplar obras de grandes mestres em perspectivas cronológicas amplas, há no MALBA um pouco de tudo. Um Picasso, um Di Cavalcanti, uma Tarsila, uma Kahlo… you name it: está tudo lá. Talvez por cansaço dessa perspectiva amostral, bem ao estilo dos livros de arte, busquei refúgio nas exposições temporárias. E assim me deparei com Francis Alÿs, um artista nascido em Antuérpia (Bélgica) no mesmo ano que eu e radicado no México.

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Alÿs é um artista de seu tempo, sintonizado com os conflitos e desigualdades gerados pela globalização da economia sem a correspondente distribuição da riqueza entre os povos. Seu tema favorito: a justaposição de realidades encontradas dos dois lados de algumas fronteiras emblemáticas, como o Golfo do México, entre Cuba e os EUA, ou o Estreito de Gibraltar, entre Espanha e Marrocos. Como provocação, sua obra funciona bem, levando o espectador a refletir sobre a natureza arbitrária e manutenção pela força destas fronteiras. Seus dois videos, exibidos continuamente em telas dispostas lado a lado, obtidos com câmeras fixas em ambos os lados do Estreito de Gibraltar e mostrando, respectivamente, representantes de incluídos europeus e excluídos africanos em cada um deles equivale a um soco no estômago. Seu filme sobre brincadeiras de rua de meninos afegãos parece inusitado em relação à noção contemporânea, ocidental e urbana de infância. Dignos, portanto, de um grande documentarista.

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Mas e o conjunto de suas obras concebidas para exposição em museus, galerias ou coleções particulares ? Aí começa o problema. Sem sombra de dúvida, Alÿs é um artista com uma temática contundente, exercitada ao nível da obsessão. Só que preso a uma determinação, bem anterior, de que artistas devam, por definição, produzir objetos, planos ou tri-dimensionais, para serem dispostos em lugares privilegiados para exibição pública. E assim chegamos a suas telas e esculturas. É onde desisto das palavras em favor de imagens que (espero !) digam melhor de meu espanto ao ver imensos planos e espaços de um museu de referência continental ocupados por coisas assim:

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Quanto mais me aproximo da obra, mais curioso fico pela vida do artista. Leio em alguns painéis explicativos que Alÿs recebera uma espécie de bolsa como artista de guerra (seja lá isto o que for) para registrar artisticamente in loco suas impressões sobre a guerra no Afeganistão. O filme, sem palavras, da brincadeira de crianças afegãs com carretéis de filmes pelos caminhos de uma aldeia, ao qual aludi acima, é genial. Já não entendi, no entanto, a ascensão à condição de arte da filmagem “caseira” da perseguição de um ciclone numa lavoura. E o que dizer, então, das esculturas ? Das armas de brinquedo com carretéis de filmes, dos barquinhos a vela feitos com chinelos ou dos garfos entrelaçados sobre uma representação cartográfica do canal de Gibraltar ?

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Achando que já tinha visto tudo, me aventurei por um grande salão com as paredes salpicadas por telas minúsculas, de ca. 20 X 30 cm cada uma delas, preenchidas com amostras de cores pintadas à óleo (who knows why ?) semelhantes às barras de cores de referência para gravações e transmissões de televisão. Aquilo foi demais para mim. Saí de lá mais confuso do que entrei. Ao menos nisto o museu cumpriu sua missão.

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