Dois livros para se entender a indústria fonográfica

Nos últimos 25 anos tenho me mantido, mais por força do hábito do que por determinação, um leitor de catálogos e manuais. Isto quer dizer que li, nas últimas décadas, muito pouca ficção, invariavelmente a pedido de amigos. Fora isto, os poucos volumes dos quais cheguei às última páginas tiveram a ver com algum interesse bem específico. Quase técnico. Como, por exemplo, a história da indústria fonográfica, desde sua expansão a partir de meados do século 20 até seu colapso frente ao avanço da internet.

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Já faz tempo que li a indispensável tese de Marcia Tosta Dias, publicada pela Boitempo em 2000, Os donos da voz; indústria fonográfica no Brasil e mundialização da cultura, abrangendo a história das gravadoras no Brail desde os tempos dos festivais e da bossa nova. Fundado sobre extensos de depoimentos primários de alguns de seus principais atores, como o executivo André Midani ou o produtor Pena Schmidt. O livro é um rico compêndio de dados sobre a indústria do disco no Brasil e no mundo. Fartos quadros de fusões e curvas de faturamento dão uma boa ideia de como este importante setor da economia (já repararam como os negócios mais lucrativos são justo aqueles ligados à beleza, ao entretenimento ou ao lazer, tidos por vezes como supérfluos ?) se comportou por mais de meio século.

André Midani

André Midani

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Pena Schmidt

Lendo Os Donos da Voz, fiquei meio incomodado com a predominância, sei lá se por hábito acadêmico ou o que, de muitas páginas dedicadas à explicitação de um referencial teórico/ideológico (Adorno, se não me falha a memória) que, conquanto importante de algum modo para a autora, é perfeitamente dispensável para o leitor em busca do que é prometido no título. Impaciente, queria chegar logo à parte que tratava da indústria da música no Brasil. Pois, ora, se quisesse ler sobre o frankfurtiano, comprava um livro sobre ele.

Também senti falta de um índice onomástico no lugar de uma bibliografia (outro vestígio inequívoco da origem acadêmica do texto), além de um certo sabor de história inacabada devido ao fato do volume não contemplar a então novíssima cena virtual e as reações da indústria frente à nova ameaça da pirataria. Não devemos, no entanto, culpar a autora por esta omissão – já que tudo aquilo era, então, ainda muito novo. Em que pesem estas arestas a serem aparadas da transposição da tese acadêmica para um relato destinado ao leitor comum, o trabalho permanece, no entanto, essencial para se entender como a economia afetou a história da música brasileira num período áureo.

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Ano passado, recomendações pelo facebook de Maria Estrella e Zeca Azevedo me levaram até Como a música ficou grátis (Intrínseca, 2015), do jornalista Stephen Witt. Como o livro de Dias, este também ostenta um subtítulo (como se editores no fundo duvidem que títulos destinados a públicos mais específicos chamem, de algum modo, a atenção de seus leitores em potencial…): O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria.

Em favor do livro de Witt (ah, maldito estigma da comparação…) está o ritmo da narrativa. Ao contrário de Dias, intercala, com a maestria de um bom roteirista, fragmentos de narrativas de vários atores, todos eles centrais na história da indústria fonográfica, mas cujas trajetórias pessoais, todavia, jamais se tocaram. Como resultado, dá um sentido (ou, como talvez prefiram alguns, provê um contexto) para fatos que, de outro modo, pareceriam desconexos.

A base de consulta de Witt é ampla: dezenas de entrevistas e milhares de páginas de documentos examinados. Os quais, no entanto, não nos são mostrados sequencialmente, tal qual armazenados em arquivos. Ao invés, o texto salta dinamicamente de uma narrativa para outra a cada capítulo, começando com a história de Karlheinz Brandenburg e seu círculo, responsáveis por desenvolverem, no Instituto Fraunhofer (Erlangen, Alemanha), o algoritmo de compactação utilizado até hoje no formato mp3.

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Karlheinz Brandenburg

A seguir, passa a narrar a história da pirataria musical, constituída principalmente por anônimos, a partir da biografia de um de seus principais atores, Dell Glover, funcionário de uma fábrica de CDs da Polygram em Kings Mountain (Carolina do Norte, EUA) que, tendo progredido por anos a fio de empacotador e gerente, conseguiu vazar mais de dois mil CDs antes de seus lançamentos até ser pego por autoridades. Peça importantíssima para grandes redes piratas como a Scene ou seu subgrupo RNS, Dell foi um dos principais informantes de Witt, revelando, entre outras coisas, não conhecer pessoalmente, a não ser por conversas telefônicas mediante pseudônimos, o “dono” da rede a quem se reportava.

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Dell Glover

A perseguição por agentes policiais e braços jurídicos das gravadoras aos compartilhadores piratas mais eficientes foi sempre desastrada. Conseguindo chegar não mais do que a usuários finais, resultou principalmente em perseguições a estudantes e donas de casa enquanto responsáveis por redes ou servidores permaneciam, via de regra, impunes. Na maioria das vezes, incógnitos. Quando logravam prender alguém, como aquele australiano doido, dono do Megaupload, em sua casamata, se tratava de uma exceção, altamente celebrada e publicizada. Como, por exemplo, no insólito caso de Alan Ellis, dono do exitosíssimo site Oink (de compartilhamento via torrent), encarcerado pelo governo britânico.

Alan Ellis

Alan Ellis

Um dos raros piratas que efetivamente chegaram a cumpriram pena, Ellis se tornou notório por jamais ter utilizado, em benefício próprio ou para seu sustento, qualquer centavo das volumosas doações que seu site recebia, as quais mantinha – talvez por achar que, assim, melhor as protegeria contra qualquer confisco ou congelamento judicial – distribuídas em dez contas bancárias distintas.

Do lado da indústria, acompanhamos a trajetória de grandes executivos. Como Doug Morris, que esteve à frente, entre outras, da Warner, da Universal e da Sony.

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Doug Morris

Lendo o livro de Witt, sucumbimos à evidência de que o gênero que moveu a indústria nos últimos dez ou vinte anos foi, sem sombra de dúvida, o rap. Mais que a irreverência, acionistas de grandes gravadoras reconheciam em letras de muitos rappers o incitamento a sentimentos indesejáveis, como a violência ou o sexismo. Os mesmos eram, no entanto, tolerados em virtude de serem, entre todos os artistas dos elencos das gravadoras, os que mais rentabilidade apresentavam nas últimas décadas..

A certa altura, Witt dedica alguns parágrafos a esmiuçar o tipo de contrato tradicionalmente oferecido pela indústria fonográfica. Funcionava mais ou menos assim. Tendo escolhido um artista, a gravadora investia antecipadamente os elevados montantes requeridos para a produção, gravação e fabricação dos discos, descontando, depois, dos artistas, tais valores dos royalties que deveriam receber sobre as vendas. Por vezes, dados os custos extravagantes de algumas produções, músicos não recebiam praticamente nada pelas vendas de álbuns bem populares. Cabe, aqui, comparar este tipo de contrato – a saber, do acesso aos meios de produção por seus proprietários mediante o comprometimento de parte substancial da produção futura – com o tipo de acordo tacitamente outrora celebrado entre, de um lado, senhores feudais e, de outro, os servos que aravam suas terras.

Não é, pois, de se estranhar que, ao ensejo do impacto de novas tecnologias, tal tipo de contrato tenha sido abandonado. Com efeito, é bem mais provável que este tipo de contrato – muito mais do que, como muitos ainda acreditam, a pirataria – tenha “matado” a indústria fonográfica. De uns tempos prá cá, as poucas gravadoras corporativas (i.e., não indie) que sobrevivem, além de não mais investir na produção de qualquer artista (um investimento, como mostra Witt, de alto risco – já que, dos muitos nomes do elenco de qualquer gravadora, somente uns poucos podem ser considerados, efetivamente, como lucrativos), passaram, ao invés de pagar royalties por vendas de álbuns a artistas, a cobrar (sic !) dos mesmos parte de valores obtidos com a venda de ingressos para seus shows.

Temos, com isto, uma mudança radical do foco de atuação de uma indústria minguante procurando se reinventar para sobreviver. Pois quem antes vendia mídias físicas gravadas agora vende experiência presencial. Isto, aliás, ajuda a entender todos aqueles smartphones que se erguem hoje sobre as cabeças do público em muitos espetáculos.

O livro de Witt tem um epílogo desconcertante. Conta o autor que, tendo sucumbido definitivamente ao streamming, resolveu se livrar de vários HDs que guardara ao se desfazer de sucessivos computadores, alguns já ilegíveis, contendo milhares de álbuns baixados ao longo de várias décadas. Procurando uma empresa especializada neste tipo de serviço, foi conduzido pelo proprietário de uma delas até um recinto onde havia uma máquina de pregar. O sujeito, então, após se recusar a receber qualquer valor devido ao ínfimo porte do trabalho a ser realizado, efetuou com a pistola alguns disparos contra os HDs para, em seguida, os abandonar numa caixa ao lado que já continha a sucata de muitos outros.

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A tragédia da indústria fonográfica é seu fracasso sistemático em repetidas tentativas de abranger a qualidade e a diversidade. Pois a índole do capital é a devora do menor pelo maior, tendendo à existência de um número cada vez menor de conglomerados cada vez maiores, no que poderíamos chamar de um efeito espuma – na qual, com o tempo, há um número cada vez menor de bolhas maiores. Com negócios lucrativos – como foram, por muito tempo, as grandes gravadoras – não é diferente.

Alguns selos indie –  clássicos, inclusive – até perduram por algum tempo. Mas nenhum catálogo físico (como os HDs pregados de Witt) é ou será capaz de resistir ao apelo avassalador da internet e do streamming. Há coisas que, como a fotografia digital, vieram para sepultar outras. Ao menos quando competitividade comercial estiver em questão.

Como praticamente toda história, esta começou a ser contada a partir de seu final – com o qual temos, obrigatoriamente, maior familiaridade. Resta, então, para completar a narrativa do parêntesis da indústria fonográfica, esperar que alguém escreva o grande livro sobre o recém falecido George Martin, inventor da coisa. Quando poderemos ter, finalmente, uma perspectiva mais completa de como a economia afetou a música durante os últimos cinquenta anos.

George Martin

George Martin

In praise of sharing

Escrever algo com mais do que dois ou três parágrafos – incompatível, portanto, com o discurso fragmentado das redes sociais – é uma das melhores coisas para se fazer num com computador sem conexão com a internet. E dentre as coisas que venho há algum tempo prometendo a mim mesmo esmiuçar está o compartilhamento. Ou, mais exatamente, de como ainda utilizamos mal recursos nem tão novos assim dos quais dispomos para compartilhar conhecimento. Só a escola e a academia, com seus critérios e métodos paleolíticos, merecem capítulos à parte. Mas não hoje.

Quanto mais navego na rede, mais formas e iniciativas de compartilhamento descubro.
Alguém já deve ter se dedicado a descrever o instigante campo das coleções – tendo chegado, portanto, à fácil constatação de que as mesmas se distinguem umas das outras por sua densidade, isto é, pela capacidade de que colecionadores, individuais ou institucionais, possam ou venham a amealhar, senão a totalidade, então ao menos a maioria dos itens pertencentes à classe colecionada. Deste modo, coleções integrais (como, por exemplo, as de obras de um autor ou dos selos de um país) tendem a ser mais densas do que aquelas constituídas por exemplares de objetos representativos de uma mesma categoria industrial tais como relógios, canetas ou automóveis.
A ideia de completude, absoluta ou relativa, de uma coleção é recorrente tanto no plano real como no da fantasia, como atestam, respectivamente, a Wikipedia ou a Biblioteca do Congresso norte-americano de um lado e lugares imaginados por Jorge Luis Borges de outro. Mas devo deixar, por hora, o tom ensaístico em favor do confessional. Até por que a enorme evolução de entendimentos sobre a propriedade intelectual face à nova concepção conectada do conhecimento vem merecendo bastante atenção por parte de algumas das mentes mais agudas de nosso tempo (Lessig, Shirky, you name it…) e, por isto, uma “visão de campo” minimamente abrangente seria por demais extensa. No mínimo bem maior do que o tamanho deste preguiçoso preguiçoso. Me perdoem, então, por hoje, a escassez de ilustrações e referências.

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Por décadas venho me dedicando a manter uma coleção densa dos impressionantes registros sonoros deixados pelo trio de Bill Evans em sua curta mas tremendamente fértil carreira. Garimpando inicialmente LPs e CDs, praticamente completei minha coleção com arquivos baixados de blogs piratas que passei a frequentar tão logo descobri a web e nos quais costumo encontrar quase tudo o que procuro. Cabe acrescentar que esta cruzada é orientada pelas monumentais discografias disponíveis no Jazz Discography Project. Cabe, ainda, dizer que acabei entrando em algo chamado Torrent (que jamais tornei a usar !) exclusivamente para conseguir baixar a integral da última residência do trio de Bill Evans no Village Vanguard em junho 1980 (sim, lá mesmo onde o lendário trio fora fundado ca. vinte anos antes !). Depois disso, Evans, antes de morrer e já bastante debilitado, só voltou a se apresentar com seu trio por oito noites em um clube da Califórnia. Posto isto, dou por estabelecido o grande valor icônico das duas últimas coleções de apresentações do trio de Bill Evans.

Eis que, dia desses, fazendo hora não lembro para quê, transbordo de alegria ao me deparar, nas estantes da Livraria Cultura, justamente com a caixa de 8 CDs com tudo o que foi tocado na residência terminal do trio de Evans na California, i.e., as últimas apresentações públicas do pianista. Sucumbi de pronto.

Acontece que a conversa em redes sociais com outros colecionadores é uma das melhores coisas do colecionismo. Tanto isto é verdade que, chegando em casa, cutuquei amigos compartilhadores (o radialista responsável pelo melhor programa de jazz que conheço e o blogueiro mantenedor de um dos mais completos blogs piratas de música erudita (e algum jazz) em língua portuguesa) sobre a extravagância cometida. Foi quando outro amigo, músico, postou, no thread de comentários sobre minha nova aquisição, uma foto da caixa de seis discos com tudo o que fora tocado na última temporada de Evans no Vangua Vanguard em 1980 (que foi, por anos a fio, um de meus sonhos absolutos de consumo) com a sugestiva pergunta “ – Serve esta ? ”. Imediatamente, acordamos a pirataria cruzada dos discos e do material gráfico das duas caixas. Na entrega da segunda, recebemos, dele e de sua esposa, uma prazerosa visita na qual falamos, entre outras amenidades, de jazz e clarineta.

Por que esta história me comove ? Ora, certamente que não pela (substancial !) ecoonomia financeira que a transação pirata representou para cada um de seus participantes. Nem tampouco pelo fato de ter obtido, como mero fruto da interação em redes que designo, carinhosamente, como minhas PLNs (personal learning networks), algo que há muito procurava sem êxito no varejo (a abundância e a qualidade do virtual não são mais nenhuma novidade).

Se esta pequena história, da qual gosto de me gabar, tem algum valor, é principalmente por demonstrar, eloquentemente, a qualidade e os frutos de relações estabelecidas a partir do virtual que seriam simplesmente impensáveis em círculos e ações presenciais cotidianos. Com isto, me refiro à totalidade ou grande maioria dos ambientes de trabalho, educativos ou domésticos – que são, via de regra, dominados pela rasura intelectual inerente a todo broadcasting. Deu para entender ? Senão, outra hora eu desenho.

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