Primeira aula

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Hoje reencontrei três alunos depois das férias e conheci dois novos. Depois de ouvir os novos e lhes colocar a par de dois princípios pedagógicos basais à classe de clarineta que me é confiada, a saber,

que todas as aulas são coletivas, abertas a todos os alunos de extensão e graduação (mais sobre a ineficácia da instrução individual em música em post vindouro); e

que aderimos ao princípio da desistência precoce (idem),

lhes dei, finalmente, uma tarefa para a semana, enfatizando, na “preleção final”, que tratassem de ser absolutamente intransigentes em relação a ter, logo de início, um som do qual pudessem se orgulhar. Nada daquela ladainha de ir estudando lição após lição até que, meio que por cansaço, se acaba por adquirir uma sonoridade interessante ao instrumento.

Dispensei-os. Qual não foi minha surpresa e alegria ao constatar que os dois alunos que começaram o curso de extensão no semestre anterior retornaram das férias ostentando um som respeitável ! Independentemente do nível de complexidade do que tocavam. Assim, ouvi desde o cisne de Saint-Säens (um extremo de simplicidade) até um chorinho bem cromático e quebrado (algo bem complexo). Ambos, no entanto, com ótimo som. Para completar meu dia, ouvi de um deles, chileno, que, em recente visita a seu país, ouviu de amigos e familiares por lá francos elogios a seu progresso à clarineta. Ganhei o dia.

(jamais esquecerei de um professor de piano secundário que, durante meu mestrado, dizia, sempre que estava prestes a ouvir meus estudos e citando o inesquecível Dirty Harry (criado e vivido por Clint): ” – Go ahead, Augusto. Make my day ! “

Devo acrescentar que este mesmo professor, de alguns dos melhores concertistas do conservatório que, por alguma estranha razão que sempre fugiu à minha compreensão, aceitava ministrar também classes de piano como segundo instrumento a todos que, como eu, lá chegassem com esta lacuna de formação)

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De tudo o que vi e ouvi em aula hoje, o que mais me chamou a atenção foi que, ao recomendar algumas obras que, apesar de seu alto valor expressivo, podem ser consideradas como uma espécie de “grau zero” de dificuldade técnica (para os curiosos: as peças de fantasia de Niels Gade e as cinco bagatelas de Gerald Finzi), vários alunos anotaram as referências em seus telefones celulares. Nunca tinha pensado em usar o meu como um bloco de notas. Ensinar é apreender.

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Sobre telas, gente que não vê televisão e, ainda, o Admirável Mundo Novo

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Uma das maiores virtudes de um bom livro é permanecer vivo na mente por mais tempo do que o ordinário do restante que se lê. Assim é comigo. Enquanto ainda não posso devorar Amusing ourselves do death, sigo matutando sob o impacto do futurismo distópico de Huxley. Aqui, especulando sobre o que seria, em nossa civilização, análogo ao soma.

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Frequentemente topo, em conversas que tenho no facebook, com gente que não assiste TV. Fosse eu um antropólogo, entrevistaria tantos destes espécimes quanto conseguisse.  Pois se tratam, praticamente, de selvagens, heroicamente sobrevivendo numa era de (ainda) hegemonia televisiva.

Televisão não quer dizer hoje a mesma coisa que significava quando foi inventada. No início e por um bom tempo, a TV só dava acesso à visualização de conteúdos de pouquíssimas redes e emissoras. Então vieram os canais a cabo e por satélite, bem mais diversos. Hoje, telas adquiridas como aparelhos de TV são amplamente utilizadas para a visualização, bem mais customizável, de séries no Netflix ou vídeos no Youtube. Diante de tais possibilidades, millennials se interessam cada vez menos por conteúdos da TV aberta – preferindo, antes, garimpar conteúdos melhores na internet. Tenho que concordar que não é nada difícil.

Se por um lado a qualidade das grandes telas, propícias à sinestesia, melhorou tremendamente, é preciso também que consideremos outro aspecto importantíssimo de sua evolução, a saber, a miniaturização. Cujo “estado da arte” é hoje o telefone celular.

Tendo surgido despretensiosamente como mera extensão móvel do telefone fixo, o celular logo se revelou um Gargantua de funções ao incorporar, pouco a pouco, recursos de internet. Mais: em memórias cada vez mais generosas, tem hoje residentes, em boa resolução, toda a música que alguém gosta de ouvir, suas imagens favoritas e acesso imediato, por vários meios, a qualquer de seus amigos, colaboradores ou conhecidos. O que mais alguém pode querer para ser feliz ?

Desde que o celular se tornou demasiado interessante para só ficar guardado no bolso, sua onipresença se tornou facilmente constatável em quaisquer ambientes.. Cada nova geração do iPhone é aguardada e celebrada como um título mundial. Já foi até noticiado o caso de um “empresário” que aluga aparelhos caros (e vistosos !), sem linha, a usuários que fingem usá-los em festas. Youtubers são campeões de audiência, e há mesmo quem prefere adormecer olhando para uma tela. A primeira coisa que a maioria dos jovens trata de descobrir ao adentrar um novo ambiente é a senha do wi-fi.

Em nossa civilização, passamos uma parte considerável de nossos dias em deslocamento de um lugar a outro. Estejamos atravessando bairros, cidades, países ou continentes, é predominantemente nestes momentos que vemos o mundo ao redor. Antes, era comum se espreitar o mar sobre decks de navios, ver a paisagem através de janelas de trens, ônibus ou carros, de bicicleta ou a pé, ou até por escotilhas de aviões. Hoje, quase sempre em lugares públicos estamos cercados por pessoas com a atenção drenada pelas pequenas telas de seus dispositivos móveis. É o mesmo em meios de transporte, salas de espera, mesas de bares e restaurantes e, se deixarem, até em salas de aula.

Face a tudo isto, gosto de pensar que o soma, idealizado por Huxley como uma substância capaz de anular toda possível frustração (que garantia, portanto, em seu livro, uma civilização sem tédio), é, em muitos aspectos, análogo ao que temos hoje no telefone celular. Poderia explicar em miúdos, mas seria um insulto à inteligência dos leitores.

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Para um manual de privacidade

cartas-1Sou de há muito um procrastinador e adepto fervoroso do ócio descomprometido – isto é, aquela preguiça que não está diretamente relacionada a qualquer incremento da criatividade ou coisa que o valha, como vêm defendendo recentemente alguns estudiosos do comportamento. Este próprio blog depõe neste sentido. Desnecessário dizer que, na iniciativa privada, eu estaria f… deixa prá lá.

Consoante a isto, considero altamente invasivas – uma selvageria, até – aquelas ligações telefônicas para meu celular a partir de números que não conheço, demandando atenção instantânea e, na maioria das vezes, respostas que não quero dar naquele momento e/ou que exigem uma maior reflexão. Que raios quem faz isto tem contra os meios assíncronos ? Como torpedos (mensagens SMS), emails ou mensagens privadas em redes sociais ?

Não importa. Hoje, acordei com uma ligação do Rio de Janeiro que, como de costume, não atendi. Provavelmente de algum banco ou operadora querendo me vender um pacote de serviços mais caro do que aqueles que já tenho. Pouco depois, na segunda chamada não identificada, respondi, por SMS, que ” Não conheço este número. Então, envie SMS ou email para… Grato ! “ Fui o mais educado que pude. Se for importante, seguirão minhas instruções. Senão, terei me livrado de mais um telechato.

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Não pude evitar pensar no custo/benefício do procedimento. Afinal, digitar torpedos me é bem cansativo (sou eternamente grato a minha mãe por ter me forçado, aos 14 anos, a frequentar um curso de datilografia). Mesmo assim, faria tudo igual outra vez, até salvando o texto (se soubesse como) para utilização futura como mensagem padrão. A satisfação de não precisar atender o telefone na hora em que toca não tem preço.

A perda progressiva da privacidade em razão de novas tecnologias de comunicação é galopante. É só lembrar que, até poucas décadas atrás, o ritmo de toda comunicação comercial mais dirigida era postal. O telefone móvel, que deveria facilitar a vida de seus usuários, se tornou uma praga. Principalmente se o número cai em mãos de corretores imobiliários. Sei de uma amiga que comprou uma linha só para vender um imóvel escolhendo os momentos em que queria atender vendedores sem temer estar desprezando alguma ligação importante, isto é, de pessoas que a conheciam (e que, portanto, não ligariam desnecessariamente) e em quem confiava. Depois que vendeu o imóvel, se livrou da linha.

Então, mais do que um desabafo, este post se insere na categoria de subsídios para um mundo melhor. Sem políticos, publicidade, televisão aberta, telemarketing e, a partir de agora, também a possibilidade de ser acessado a qualquer hora por qualquer pessoa. Que prazer indescritível ! Até por que sonhar não custa nada.

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