Caixinhas (i) ou para ouvir Bill Evans (ii)

jazz audience 26Caixinhas é como chamamos aquelas embalagens contendo vários CDs abarcando ciclos composicionais maiores do que a música que cabe em apenas um disco. Em música clássica (na ausência de um termo melhor, prefiro clássico a erudito simplesmente por ter 25% menos sílabas), caixinhas contém geralmente ciclos integrais de sinfonias, quartetos, trios, sonatas e afins de um mesmo compositor, capturados em gravações realizadas ao longo de largos períodos de tempo.

Em música popular, não vi muitas caixinhas a não ser de jazzistas importantes, contendo na maioria das vezes vários takes alternativos de cada música, na maioria versões descartadas à época dos lançamentos originais em LPs e, depois, CDs. Caixinhas de discos de jazz contém, então, sempre versões improvisadas diferentes de umas poucas músicas gravadas durante curtos períodos de tempo. Mais. Grandes jazzistas retornam, em diferentes momentos de suas carreiras, a uns mesmos poucos temas. Há muito mais o que falar sobre isto. Mais tarde, talvez.

Caixinhas decorrem de certo modo da não existência, na indústria fonográfica, de objetos de diferentes valores distribuídos através de um mesmo meio. Explico. A indústria automotiva oferece carros dos mais diversos valores. O mesmo sucede no setor imobiliário. No fonográfico, no entanto, há pouca ou nenhuma diferença entre os valores de comercialização de discos de variadíssimo valor artístico. É, pois, tão somente por meio do agrupamento em coleções de CDs com várias horas de música que esta indústria que luta contra sua própria extinção logra oferecer objetos mais caros a  fãs e colecionadores ávidos.

Também não esperem topar com muitas caixinhas que não sejam de obras terminadas. Pois Investidores apostam mais em coisas de artistas mortos. Sejam sinfonias de Beethoven ou canções da Legião Urbana. Do mesmo modo, coleções monumentais como, por exemplo, dos Beatles devem ser bem mais populares do que dos Rolling Stones e outros que ainda estejam na estrada. Mas é só uma suposição. Não conheço este mercado.

* * *

Foi tomado por esta atração irresistível que todo fã sente por bocados colecionáveis da obra de uns poucos ídolos que topei dia desses, ao mesmo tempo (!) com duas coleções de improvisadores pelos quais nutro especial apreço, a saber, a integral dos sets gravados em um dia pelo trio de Bill Evans com Scott LaFaro no Village Vanguard em 1961 (3 CDs) e todas as 49 faixas deixadas por Clifford Brown com o quinteto de Max Roach (4 CDs).

Acabo de ouvir na íntegra os sets gravados pelo trio de Evans no Vanguard em 25 de junho de 1961, apenas dez dias antes da trágica morte de LaFaro com apenas 25 anos num acidente automobilístico.

Clifford Brown também morreu num acidente automobilístico com 25 anos.

Designers de caixinhas de CDs costumam caprichar no visual. Pois deve ser, por vezes, bem difícil persuadir audiófilos a replicar em CDs itens já existentes em suas coleções de LPs. Nesta hora, embalagens luxuosas, incluindo amplas referências, rico material gráfico e até latas personalizadas, fazem toda a diferença.

Já conhecia de longa data os highlights, editados num único CD, dos sets do trio de Evans no Vanguard em 61. Uma das tantas vantagens de se descobrir, décadas depois, em raras e quase inaudíveis (pois os microfones estavam posicionados para captar o som dos instrumentos e não a voz dos músicos) falas de Evans, preservadas nestas integrais, uma fina ironia acerca da franca indiferença do público de então à sua música. Situação bem diferente, como já apontamos anos atrás, daquela quando do retorno de seu trio ao mesmo santuário em 1980.

Da breve e fértil colaboração de Clifford Brown falarei outra hora.

Clifford 1

 

minding audiences (ii) ou da indiferença contemporânea ao sublime ou para ouvir Bill Evans (i)

Gosto de garimpar fotos tiradas em clubes de jazz de Nova Iorque nos anos 50 e 60. Em muitas, há membros da audiência desatentos ou indiferentes à excelência da música que ouviam. Notem que não falo de nenhum piano bar, nos quais a música apensas serve de pano de fundo à conversação, mas de casas de espetáculos icônicas, como o Birdland, o Five Spot, o Minton’s ou o Village Vanguard, cujos minúsculos palcos eram frequentados pelos maiores improvisadores de seus tempos. Falamos, portanto, de música sublime, ricamente documentada por fabulosos registros sonoros.

Face à atitude quase devocional com que ouvimos, hoje, tais registros, sempre me espantei com essa desatenção tão franca, não sei se por arrogância (vale examinar fatores como tensão racial entre músicos e platéias) ou mera ignorância, ostentada por tantos ouvintes daquela música única (i.e., que jamais poderia ser repetida daquele modo) e de qualidade exponencial.

Daí minha insistência no bordão de que audiências contemporâneas são, na maioria das vezes, indiferentes ou mesmo insensíveis ao que de mais sublime há em cada época. Como se pode ver nas fotos abaixo. Minhas favoritas são as duas primeiras. Pois não há como entender o ostensivo dar de costas do jovem loiro e da Marilyn sem rosto (imortalizada assim, só como penteado, pelo fotógrafo) à música tocada, respectivamente, por Charlie Parker na primeira foto ou Clifford Brown na segunda. Entre outros.

Charlie Parker birdland

Nas seguintes, a maioria dos ouvintes parece estar interessada em qualquer coisa a não ser a música.

jazz audience 11

 jazz audience 28

 jazz audience 16

jazz audience 29

jazz audience 21

jazz audience 30

Na primeira, toca Miles Davis. As quatro últimas foram tiradas no Five Spot; as três últimas com Thelonius Monk as duas últimas com, além dele, Charles Mingus e John Coltrane. Como podem ver, gente pouco relevante no jazz.

* * *

É claro que as imagens acima, que arrolo como testemunho do desinteresse de uma cultura para com a melhor arte de se seu tempo, podem ser descartadas como um recorte muito específico e, portanto, casual. Ou seja, coexistentes com uma quantidade igual ou maior de fotos que retratam ouvintes aparentemente atentos. Felizmente para o historiador, registros sonoros evidenciando nossa hipótese inicial são fartos. E especialmente contundentes, se considerarmos, comparativamente, o ruído produzido pela audiência em integrais dos sets gravados por Bill Evans com seu lendário trio no Village Vanguard em 1961 e 1980. Na coleção de 1961, de um artista ainda a ser descoberto por seus contemporâneos, impressiona o som de conversação e de utensílios como copos, louça ou talheres se fazendo, por vezes, quase mais audíveis do que a música. Já nas sessões de gravação testamentais de 1980, no mesmo lugar, o silêncio absoluto da audiência denota a reverencia pelo gênio consagrado.

Ouçam, então, no primeiro audio abaixo (impressionante como o youtube se tornou uma espécie de plataforma ideal para a postagem de fonogramas !), um take do trio de Evans com Paul Motian (bateria) e Scott LaFaro (contrabaixo) no Village Vanguard em 61 e, no segundo e no terceiro, dois takes da última residência do derradeiro trio, com Marc Johnson e Joe LaBarbera, por lá quase vinte anos depois.

Quero ver alguém dizer, depois de ouvir isto, que o público que foi ao Vanguard ouvir o trio de Evans em 1961 era mais atento do que o de 1980. Se, no entanto, toda evidência acima não for suficiente para corroborar a tese da indiferença contemporânea ao sublime, vejam, então, na foto abaixo, o local de descanso de Evans e seus parceiros na célebre casa de espetáculos em 1961. Duvido que seu camarim por lá, em 1980, fosse minimamente parecido com isto.

jazz audience 26

Mastertracks (iii): Para ouvir Eric Dolphy (ii): Screamin’ the Blues, Straight Ahead e Blues and the Abstract Truth

 Nelson - Screaming the Blues

Screamin’ the Blues (1960), Straight Ahead (1961) e Blues and the Abstract Truth (1961). Guardem bem esses nomes. Pois estes três discos registram na íntegra a breve e fértil colaboração entre Oliver Nelson e Eric Dolphy. Quem já conhece o último pode dispensar a leitura dos próximos três parágrafos.

Eric Dolphy foi, durante toda sua curtíssima carreira (procurem a história de sua morte precoce e desnecessária em Berlim em 1964 no blog do Milton), o maior improvisador de jazz de seu tempo. Para se entender sua dimensão é preciso, no entanto, que se entenda, antes, o que significa, em jazz, a figura do sideman. Em duplas como Dizzy & Bird ou tantas da era do bop e hardbop, em que predominavam os quintetos com dois sopros. Dolphy foi o maior sideman de sua época. De gigantes inovadores como Mingus ou Nelson. Lembro de já ter falado, em meu antigo blog, do genial sideman de Dolphy: o igualmente excepcional trompetista Booker Little (morto aos 23 anos num acidente de carro (alguém ainda há de narrar a trágica história de músicos – notadamente trompetistas da era beat !) em road gigs)).

Um pequeno selo japonês já disponibilizou em CD os maravilhosos sets do quinteto de ambos no Five Spot de Nova Iorque.

Além de ter sido o maior expoente em improvisação em seu instrumento (a clarineta baixo ou, como é mais conhecida, o clarone) que já existiu, Dolphy também improvisava com igual bravura no saxofone alto e na flauta.

É claro que a magnitude de seu feito (i.e., sua herança gravada) não reside só no fato de que tenha tocado, num tempo curtíssimo, mais notas do que a maioria de seus pares em todas suas vidas. Me impressiona mais, outrossim, a facilidade com que se adapta às diferentes formas (e graus de liberdade !) de improvisar. Pois deve ser bem diferente tocar num combo, por exemplo, de um Mingus, Nelson ou, como em Out to Lunch, dele próprio.

Notem, por fim, que os três discos foram gravados pelo lendário Rudy Van Gelder. E que, no último deles, havia ninguém menos do que Evans e, além deste, também Hubbard, Chambers e Haynes. Ou, se quiserem, como em Kind of Blue, um conclave de gênios.

* * *

Na última vez em que perguntei no facebook de onde poderia baixar certa gravação, fui gentilmente censurado, tanto por comentário em aberto como através de mensagem privada, por amigos que muito prezo, por fazer apologia ao download gratuito de alguma música produzida, no máximo, lá pelos anos 70. Ok, 80. Até a morte de Evans. Que, até, onde sei, assim com Dolphy ou Miles, não deixou herdeiros. Sim, Corea ainda está ativo. Tanto que não deve precisar, para viver, duns caraminguás advindos de direitos de cópia sobre seus álbuns produzidos há mais de 30 anos (que considero um prazo prá lá de justo para a queda em domínio público de fonogramas (mas isto já é outra conversa, prá quem entenda mais disso do que eu)).

Não há, no entanto, como se fugir da questão moral maior sobre piratear ou não. Ora, eu jamais teria acesso ao conhecimento de qualquer música recém-produzida sem as virtuosas redes de acesso gratuito a gravações de baixa resolução existentes na internet. Ao mesmo tempo, dificilmente me furtaria à oportunidade, sempre que com ela me deparasse, de deitar mãos, mediante aquisição de direitos, sobre quaisquer mídias que me propiciassem a escuta de gravações de boa música com boa qualidade de som. Para bem além, ao menos, da maioria dos arquivos em mp3 disponíveis na rede.

Então, por conta do necessário posicionamento ético não só quanto ao download gratuito de música mas em relação à tudo o que diga respeito à propriedade intelectual, deixo, por hora, à guisa de provocação, no link sob o primeiro disco citado acima, a página para download do mesmo de um site pirata ao qual até já ouvi se referirem como sendo de utilidade pública. E se alguém me disser de onde posso baixar os outros dois, anoto aqui. Muito grato, desde já !

Nelson - Blues and the Abstract Truth

 

 

 

In praise of sharing

Escrever algo com mais do que dois ou três parágrafos – incompatível, portanto, com o discurso fragmentado das redes sociais – é uma das melhores coisas para se fazer num com computador sem conexão com a internet. E dentre as coisas que venho há algum tempo prometendo a mim mesmo esmiuçar está o compartilhamento. Ou, mais exatamente, de como ainda utilizamos mal recursos nem tão novos assim dos quais dispomos para compartilhar conhecimento. Só a escola e a academia, com seus critérios e métodos paleolíticos, merecem capítulos à parte. Mas não hoje.

Quanto mais navego na rede, mais formas e iniciativas de compartilhamento descubro.
Alguém já deve ter se dedicado a descrever o instigante campo das coleções – tendo chegado, portanto, à fácil constatação de que as mesmas se distinguem umas das outras por sua densidade, isto é, pela capacidade de que colecionadores, individuais ou institucionais, possam ou venham a amealhar, senão a totalidade, então ao menos a maioria dos itens pertencentes à classe colecionada. Deste modo, coleções integrais (como, por exemplo, as de obras de um autor ou dos selos de um país) tendem a ser mais densas do que aquelas constituídas por exemplares de objetos representativos de uma mesma categoria industrial tais como relógios, canetas ou automóveis.
A ideia de completude, absoluta ou relativa, de uma coleção é recorrente tanto no plano real como no da fantasia, como atestam, respectivamente, a Wikipedia ou a Biblioteca do Congresso norte-americano de um lado e lugares imaginados por Jorge Luis Borges de outro. Mas devo deixar, por hora, o tom ensaístico em favor do confessional. Até por que a enorme evolução de entendimentos sobre a propriedade intelectual face à nova concepção conectada do conhecimento vem merecendo bastante atenção por parte de algumas das mentes mais agudas de nosso tempo (Lessig, Shirky, you name it…) e, por isto, uma “visão de campo” minimamente abrangente seria por demais extensa. No mínimo bem maior do que o tamanho deste preguiçoso preguiçoso. Me perdoem, então, por hoje, a escassez de ilustrações e referências.

* * *

Por décadas venho me dedicando a manter uma coleção densa dos impressionantes registros sonoros deixados pelo trio de Bill Evans em sua curta mas tremendamente fértil carreira. Garimpando inicialmente LPs e CDs, praticamente completei minha coleção com arquivos baixados de blogs piratas que passei a frequentar tão logo descobri a web e nos quais costumo encontrar quase tudo o que procuro. Cabe acrescentar que esta cruzada é orientada pelas monumentais discografias disponíveis no Jazz Discography Project. Cabe, ainda, dizer que acabei entrando em algo chamado Torrent (que jamais tornei a usar !) exclusivamente para conseguir baixar a integral da última residência do trio de Bill Evans no Village Vanguard em junho 1980 (sim, lá mesmo onde o lendário trio fora fundado ca. vinte anos antes !). Depois disso, Evans, antes de morrer e já bastante debilitado, só voltou a se apresentar com seu trio por oito noites em um clube da Califórnia. Posto isto, dou por estabelecido o grande valor icônico das duas últimas coleções de apresentações do trio de Bill Evans.

Eis que, dia desses, fazendo hora não lembro para quê, transbordo de alegria ao me deparar, nas estantes da Livraria Cultura, justamente com a caixa de 8 CDs com tudo o que foi tocado na residência terminal do trio de Evans na California, i.e., as últimas apresentações públicas do pianista. Sucumbi de pronto.

Acontece que a conversa em redes sociais com outros colecionadores é uma das melhores coisas do colecionismo. Tanto isto é verdade que, chegando em casa, cutuquei amigos compartilhadores (o radialista responsável pelo melhor programa de jazz que conheço e o blogueiro mantenedor de um dos mais completos blogs piratas de música erudita (e algum jazz) em língua portuguesa) sobre a extravagância cometida. Foi quando outro amigo, músico, postou, no thread de comentários sobre minha nova aquisição, uma foto da caixa de seis discos com tudo o que fora tocado na última temporada de Evans no Vangua Vanguard em 1980 (que foi, por anos a fio, um de meus sonhos absolutos de consumo) com a sugestiva pergunta “ – Serve esta ? ”. Imediatamente, acordamos a pirataria cruzada dos discos e do material gráfico das duas caixas. Na entrega da segunda, recebemos, dele e de sua esposa, uma prazerosa visita na qual falamos, entre outras amenidades, de jazz e clarineta.

Por que esta história me comove ? Ora, certamente que não pela (substancial !) ecoonomia financeira que a transação pirata representou para cada um de seus participantes. Nem tampouco pelo fato de ter obtido, como mero fruto da interação em redes que designo, carinhosamente, como minhas PLNs (personal learning networks), algo que há muito procurava sem êxito no varejo (a abundância e a qualidade do virtual não são mais nenhuma novidade).

Se esta pequena história, da qual gosto de me gabar, tem algum valor, é principalmente por demonstrar, eloquentemente, a qualidade e os frutos de relações estabelecidas a partir do virtual que seriam simplesmente impensáveis em círculos e ações presenciais cotidianos. Com isto, me refiro à totalidade ou grande maioria dos ambientes de trabalho, educativos ou domésticos – que são, via de regra, dominados pela rasura intelectual inerente a todo broadcasting. Deu para entender ? Senão, outra hora eu desenho.

sharing 1