Comentários mais relevantes aos textos academicométricos

teses 6Quem lê este blog sabe que gosto de resgatar da efemeridade do facebook comentários que ampliem o horizonte das conversa que cultivo. Consoante a isto, transcrevo aqui, antes de me mover para outras esferas temáticas (pois, como diletante, gozo do privilégio do interesse errático), algumas reflexões mais demoradas, em meu entender bem relevantes, muitas delas testemunhos em primeira pessoa.

Ao contrário, no entanto, de como fiz em compilações de comentários anteriores, optei por, no interesse do realce de alguns deles mais… logicamente densos (vide primeiro post academicométrico), excluir toda aquela deliciosa conversa casual que se instala, razão de eu estar no facebook, na qual amigos riem e brincam como crianças. No meio da algazarra, algumas ideias, mais reflexivas, se destacam. É a elas que este post é dedicado.

Antes, porém, de, finalmente, transcrever os comentários já há muitas linhas prometidos, agradeço aos generosos comentaristas, com os quais tanto apreendi e ri. Fiquei sabendo do que já deveria há muito saber, a saber, que todas as teses defendidas e aprovadas já são universalmente acessíveis online (obrigado, Francisco Marshall !); que boas teses podem atingir, por vezes, centenas ou mesmo milhares de acessos (obrigado, Milton Ribeiro !) ou até mesmo serem traduzidas para idiomas exóticos (obrigado, Ricardo Branco !).

Ainda que aclamada por muitos como modo ideal de compartilhamento de novos conhecimentos produzidos, as teses e, de um modo mais geral, a literatura científica ostentam índices de popularidade alarmantes. Há, por exemplo, quem sustente, como aqui, que cada artigo publicado em um periódico científico é lido por, em média, dez pessoas e que 82% dos cerca de um milhão e meio de artigos revisados por pares publicados anualmente não são citados sequer uma vez. Isto deve querer dizer alguma coisa.

Quando Miltton Ribeiro divulgou, em seu perfil no facebook, meu primeiro texto sobre academicometria (o segundo está aqui), disse o seguinte:

Cada vez que vejo fotos sorridentes e orgulhosas de quem se “mestrou” ou doutorou, fico pensando em quantos lerão aquele trabalho. Hoje soube que, se 4 pessoas abrirem o trabalho numa biblioteca, a coisa será uma espécie de best seller. Ou seja, a universidade não fala com ninguém. Bem, sei lá. Texto do provocador Augusto Maurer.

sob sua postagem se desenrolou, então, o seguinte thread (posso traduzir como penca ?) de comentários.

Fernanda Melo Uma vez, numa aula de metodologia, um dos alunos falou exatamente isso “por que vocês estão tão preocupados, ninguém lê o que a gente escreve!”. Quase apanhou. Não se pode atacar as ilusões das pessoas com tanta crueza.

Francisco Marshall Engraçadinho, mas não é verdade. Teses são a base da produção de conhecimento, muitas viram livros, outros tantos são, sim, lidas e citadas. Tese ruim é que não vai longe.

Milton Ribeiro A da Elena foi baixada 600 vezes, […]

Fernanda Melo Eu acho que o problema nem é tanto (ou apenas) qualidade, e sim a restrição dos temas.

Laura Backes Olha, tenho minhas implicâncias com o academicês, só que mais no nível do medalha medalha medalha que rola pra incrementar os lattes e afins. O processo mesmo da feitura de teses e dissertações levam adiante o pensamento além dos achismos do livre pensar, mesmo que esse processo ajude só o próprio aluno. No livre pensar (o delicioso vagabundear pelas ideias que existe alheio à academia) tem que ser muito bom prá produzir de forma continuada e potente.
Eu que sou módica preciso da mão da academia pra me disciplinar e me colocar em conexão com o que está além de mim.
Ah! Curiosa fui olhar no lume – site que compartilha a produção acadêmica da Ufrgs – e minha dissertação tem lá mais de mil visualizações e mais de quinhentos downloads. E nem é tão relevante assim.

Augusto Maurer Obrigado pelo comentário tão extenso e profundo ! Concordo com quase tudo, principalmente com o fato da digitalização ter facilitado em muito a visualização (meu mestrado foi no tempo do microfilme). Só não acho que o achismo seja um privilégio exclusivo dos meios menos controlados de auto-publicação, como blogs e redes sociais, estando a comunidade científico-acadêmica, por meio de seus protocolos, totalmente isenta deles (os achismos). É preciso se falar mais, sim, e muito, de peer-reviewing !

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Já quando postei, dias atrás no facebook, o seguinte:

Tecnologias mudam mas rápido do que ritos institucionais.

Quando eu estava na faculdade, se quisesse conhecer o teor de um artigo, era preciso, após identificá-lo, aguardar semanas para tê-lo em mãos depois de solicitá-lo no glorioso serviço de comutação bibliográfica da biblioteca central da UFRGS. Tudo isto para vir a constatar, tempos depois, que muitos deles eram totalmente irrelevantes para minha curiosidade naquele momento (dava vontade de citar só de teimosia, para justificar a trabalheira passada !)

A coisa ficou relativamente mais fácil (e rápida !) ao tempo de meu mestrado, quando podia ler teses e artigos microfilmados na biblioteca do Lincoln Center.

Hoje, a maior parte do que pesquisadores produzem já se encontra disponível online.

Enquanto isto, os formatos acadêmicos (artigos e dissertações) permaneceram, salvo se eu estiver enganado, praticamente intactos. Alguém mais percebe este descompasso ?

fique mais impactado com os seguintes comentários:

Marcos Abreu Bah, nem me lembra disso. Eu precisava revirar bibliografias, mandar por fax ou carta para a biblioteca da UFSC, que, ou tinha lá os artigos, ou fazia pedidos para o Comut, depois de receber as cópias em xerox lá em Florianópolis, todos os textos eram remetidos para Porto Alegre. Isso demorava um bom tempo. Meses as vezes. O bom é que guardei e uso ainda todo esse material. Pilhas e pilhas de papes selecionados. Preciso digitalizar isso tudo.

Marcos Abreu Ah, e acrescentando. A maioria desses textos, ainda não está digitalizada e alguns são bem difíceis de encontrar.

Dorcas Weber Certamente!!!!! Questionei o formato de tese, ao entregar a minha. Me foi solicitado que seguisse as normas de formatação (editoração)da universidade e que fossem entregues 7 exemplares, sendo UM deles impresso e o restante em CD. Confesso que não sei para onde foi a versão impressa, contudo os exemplares em CD foram entregues à biblioteca, à banca e uma versão em PDF foi também disponibilizada virtualmente. Bem, neste contexto questionei se a editoração não deveria estar adequada às midias nas quais minha tese poderia ser lida. Afinal, para que servem as margens direita e esquerda distintas em um PDF lido em um tablet ou notebook? Porque usar tamanho A4 quando o material não é impresso e usar a barra de rolagem é algo aborrecedor? Porque usar notas de fim ou rodapé se podemos coloca Popups? Enfim, meu questionamento manteve-se apenas no questionamento. Penso que este seria um bom tema ser discutido em uma tese, que tal?

Augusto Maurer Seria uma tese tremendamente útil à comunidade acadêmica ! Resta saber a que comitê de pós-graduação submetê-la.

Alexandre Eisenberg Exato! E no Brasil ainda por cima se exige os subtítulos “introdução”, “metodologia”, “justificativa”, etc., para facilitar a vida do orientador. Imagine um compositor tendo que dizer a cada momento de sua obra, introdução, exposição, etc…

Augusto Maurer Isto me lembra de um tipo de relatório, incentivado por certos órgãos de fomento e mencionado em The Slow Professor, em que cada instante de cada pesquisa deve ser detalhadamente documentado. As autoras ironizam, falando de um relatório que diz: “às 9;00, escrevi uma frase; às 9:30, a deletei”. Accountability elevada ao grau máximo. E assim, graças à fragmentação exacerbada do tempo, dá-se a impressão de ter feito alguma coisa sem ter feito nada.

Augusto Maurer A formatação padronizada conspira contra a fluidez de qualquer discurso.

Alexandre Eisenberg Augusto Maurer , c’est ça!

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Vale muito, também, ler os comentários deixados neste blog sob os posts referidos acima. Só não os transcrevi por que, além já gozarem, no blog, de permanência bem maior do que os deixados no facebook, “limpar” e editar comentários dá um trabalho enorme (tanto maior por se tratar de um discurso mais fragmentado, i.e., com grande alternância entre falantes).

Sinto que esta conversa será longa. Pois muito ainda há que ser dito por tantas partes. Melhor, então, que seja espaçada. Enquanto isto, preciso fazer estas provocações chegarem ao maior número possível de pessoas que, como orientadores ou orientados, já estiveram envolvidas com sua feitura. Any help welcome.