Carta aberta ao futuro governador do Rio Grande do Sul

No início deste ano, membros da OSPA estiveram reunidos para, se antecipando à instalação de um novo governo estadual em 2015, elaborar e oferecer a cada candidato um documento abrangente esclarecendo o que é e para que serve uma orquestra, bem como nossas ideias sobre como melhor geri-la. Desde o início, tivemos duas convicções:

a de que tal documento seria necessariamente extenso e abrangente; e

a de que o mesmo teria um tratamento totalmente distinto por cada destinatário enquanto candidato ou governador eleito.

Por isso que, sem deixar de apoiar a redação e divulgação de nossa carta aos candidatos, decidi endereçar a coisa de modo mais pessoal – até por que não sei se a argumentação abaixo representa o pensamento da maioria de meus colegas. Além disso, não vejo como abordar a problemática de nossa orquestra fora de um contexto político maior no qual ela se insere. É por isso que, abaixo, falarei muito pouco de música. Ainda assim, acreditem: meu foco é a OSPA. Para que ela possa, talvez um dia, vir a servir de exemplo para a autogestão de organizações públicas maiores e/ou mais complexas.

* * *

Sejamos francos. Uma eleição é, antes de tudo, um problema orçamentário. Ainda (isto é, antes do advento da democracia direta). De tal modo que ganham os pleitos aqueles que melhores acordos alinhavarem para amealhar receitas, contabilizáveis ou não, para financiar suas campanhas. Tais contratos são firmados entre partidos políticos, constituindo, não raro, suas próprias razões de existência.

Antes de uma eleição, a principal matéria da qual se ocupam os políticos é a construção de um discurso convincente, a ser amplamente veiculado em meios hegemônicos (briadcasting media), até que um (no caso de eleições majoritárias) ou mais (nas eleições para as câmaras legislativas) candidato(s) saia(m) vencedor(es).

Depois disso, o processo político muda radicalmente de figura, toda argumentação encenada para uma massa de eleitores cada vez mais céticos cedendo lugar, então, à fria negociação pela alocação e ocupação de postos de governo por uma legião de aliados políticos, não raro medíocres, que não lograram obter nas urnas nenhum mandato eletivo. É nesse ponto que toda ideologia sucumbe, invariavelmente, à nefasta dança dos CCs – personagens políticos de alguma ambição e pouco brilho que constituem, coletiva e anonimamente, a base de toda agremiação partidária. É por isso (e nem poderia ser diferente) que, depois de cada eleição, todo partido tem sede de cargos. Muita sede. Que cada presidente, governador ou prefeito recém-eleitos têm, então, que saciar.

Na melhor das hipóteses (acreditemos, por um momento, na figura mítica do bom político), o governante se fará cercar de secretários ou ministros que efetivamente julgue competentes para tocar as respectivas pastas. É aí que a coisa desanda. Primeiro, por que é humanamente impossível, mesmo ao mais ilustrado dos políticos (lembrem que lidamos, aqui, com figuras meramente hipotéticas), ter no restrito círculo de suas relações confiáveis pessoas capacitadas a tomar a frente de todas as áreas de atuação do governo. Depois, mesmo que isto fosse possível, esbarramos no problema da confiança descendente, assim formulado.

Ora, uma estrutura de governo piramidal é constituída pelo empilhamento de camadas em que cada nível mais subalterno é mais populoso, de modo que é impossível a quem quer que seja numa posição mais alta da pirâmide confiar em todo e qualquer membro da grande estrutura administrativa sob sua responsabilidade do mesmo modo em que pretende confiar naqueles que estão diretamente sob suas ordens e seu olhar no patamar logo abaixo daquele em que se encontra. Está claro ? Talvez ainda não. Exemplifiquemos. Pode um governador confiar plenamente em cada servidor designado por cada diretor indicado por cada um dos secretários de estado de sua confiança direta ? Seguramente não. Fica, portanto, demonstrada a impossibilidade de êxito de qualquer estrutura administrativa fundada sobre a nomeação de CCs.

Já na pior das hipóteses a alocação de cargos fica por conta da fria negociação entre as partes de coligações eleitorais vencedoras, independentemente de qualquer ideologia. Cidadãos ainda crédulos na democracia representativa talvez prefiram pensar que, ao menos entre seus políticos prediletos, isto não aconteça. Torço por isto.Tenho, no entanto, pouca esperança.

É, pois, ciente deste estado de coisas que rogo a cada candidato ao futuro governo do Rio Grande do Sul que, uma vez eleito, se abstenha de indicar ocupantes para os cargos de gestão lotados na Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (ou, simplesmente, OSPA). Não somos idiotas. Sabemos o quanto esta posição é ingênua, na contramão de toda tradição política. Sabemos perfeitamente que, uma vez eleito, o novo governador será assediado por uma horda de salvadores com soluções fáceis e até mágicas (nas quais, curiosamente, ninguém havia pensado antes !) para extrair o melhor do estado em prol do povo. Então, de toda publicidade do novo governo será varrida qualquer memória de práticas acertadas e legados benignos de seus antecessores. E assim as áreas sujeitas a interferência do estado vivem, a cada 4 anos, um ciclo de terra arrasada – palco perfeito para ególatras e salvadores de toda espécie.

Sejamos francos. Não há como prever futuro político a qualquer governante que ouse romper este ciclo vicioso delegando a gestão da coisa pública diretamente aos que lhe dizem respeito, i.e., aos agentes responsáveis por cada serviço e às comunidades por eles afetadas. As escolas aos alunos e professores. Os hospitais aos pacientes e médicos. E as orquestras, é claro, a seus ouvintes e músicos. Que não chegaram agora e, portanto, conhecem os problemas e as possíveis soluções, no mínimo, bem melhor do que qualquer homo politicus a aterrisar na capitania no loteamento de cargos que inevitavelmente virá depois do pleito eleitoral.

A reinvenção da política tal qual vislumbramos não é simples nem fácil. O avanço da democracia direta é, no entanto, inexorável. Então, a escolha da atual classe política é entre abraçá-la (com todos os reveses dos pioneiros) ou ser sepultada junto com a democracia representativa.

* * * *

Sempre costumo falar, em perídos pré-eleitorais, da obsolescência tanto da democracia representativa como de sistemas de governo fundados sobre a nomeação descendente de cargos em comissão, vulgarmente designados por CCs. Falei disto aqui, aqui e aqui. O mesmo tipo de insatisfação com o sistema atual também é evidente num ótimo texto de Luiz Afonso Alencastre Escosteguy. Além disso, gosto de pensar que minha carta aberta ao atual secretário de cultura, quando de sua posse, tenha colaborado em algum grau para que não tenhamos tido, na atual gestão da OSPA, nenhum regente titular.

FAQ

Por que retomei este blog ?

Desde que iniciei o impromptu, em 2010, minha necessidade de atualizá-lo variou bastante, de postagens bem frequentes a muito eventuais até o completo silêncio a partir de 2012, agora interrompido. Tais oscilações de devem, muito mais do que a qualquer alteração de humor ou impulso expressivo, à evolução de minha compreensão das redes sociais.

Nunca frequentei o orkut e me deslumbrei com o twitter logo que o conheci. Não tardei, no entanto, a me dar conta de que precisava de um ambiente mais espaçoso para desenvolver certas ideias com a extensão que mereciam. Criei, então, o impromptu, me dedicando a alimentá-lo vagarosamente.

Ao descobrir o facebook, me espantei com o enorme contraste entre a repercussão ampla e rápida de ideias ali postadas e aquelas postadas em blog independentes de visitação discreta. Ora, blogs são totalmente supérfluos face à alta responsividade inerente à plataforma de Zuckerberg – a qual passei a ter, então, como espécie de ambiente ideal tanto para o aglutinamento quanto para a colisão de ideias, em que pese sua falta de espaço para argumentações mais demoradas.

Tenho, pois, o blog perfeito (i.e., um que tenha como principais atributos a criação e preservação de uma identidade virtual (função primordial de um blog) e, ao mesmo tempo, a maior conectividade possível entre seu autor e outros sujeitos) como um backup do perfil de seu autor no facebook. Ao menos em teoria. Na prática, ouço muito falar, em associação à suposta efemeridade da plataforma, de um descarte sistemático pela mesma de postagens menos atuais. Curioso, fiz o seguinte experimento: tentei descobrir até que ponto do passado conseguiria recuperar o que já postara em meu perfil. Desisti depois de buscar, com êxito, tudo o que ali publiquei por mais de dois anos. Dado por satisfeito, permaneci confortavelmente blogless por mais um bocado de tempo.

So what ? Penso que a opção por manter um blog tenha a ver, sobretudo, com a teoria do discurso segundo Bakhtin. Mais especificamente, com o tamanho de cada enunciado enquanto unidade de discursiva.

Na era da palavra impressa, o mundo se dividia claramente entre leitores e autores, os maiores dentre os últimos invariavelmente aqueles que se dedicaram com maior êxito às grandes formas monológicas. Falo aqui dos grandes romances, das peças teatrais ou, na música, da sinfonia e da ópera. Fora desse círculo restrito, nada restava a autores menores senão cair nas graças de editores que lhes facultassem uma coluna ou páginas de alguma antologia. Do outro lado da barreira editorial, meros leitores que, por força do desuso, cultivavam a linguagem escrita, quando muito, a um nível funcional. Senão, quem, dentre os não nativos digitais, escreveu ou escreve habitualmente, depois de ter redigido sua última redação escolar ou texto acadêmico, algo de dimensão maior do que a de um parágrafo ?

Um dos principais efeitos já conhecidos da revolução digital é a expansão da autoria. Hoje, é facultado a todo autor que jamais escreveu, fora de ambientes educacionais, nada maior do que um bilhete a emissão de enunciados em frequência e intensidade sem precedentes na era da palavra impressa e em contextos que variam dos mais fechados (como mensagens a indivíduos ou grupos) aos mais abertos (como postagens em redes sociais). Paralelamente ao crescimento do número de autores, houve uma redução sistemática da extensão das unidades discursivas. Do blog à postagem média no facebook (a plataforma oculta enunciados com mais de quatro ou cinco linhas) aos 140 caracteres do twitter às linguagens de nicho altamente compactas das mensagens SMS. De tal modo que deve ser inevitável a quem quer que ainda cultive grandes formas uma sensação de habitar outro planeta. Como se, durante o tempo de gênese de um romance, seu autor perdesse, necessariamente, algo do que acontece a seu redor. Também não há muitos compositores se dedicando, atualmente, a sinfonias, concertos, suítes ou outros gêneros em vários movimentos.

Não sei se isto responde à sua pergunta. À minha, não. Talvez mais adiante neste blog.

Por que vim para o Sul21 ?

Esta é bem fácil: primeiro, pela qualidade dos vizinhos de condomínio: ótimos escritores, vários deles meus amigos, e outros tantos que apreendi a admirar de longe; segundo, em busca de uma audiência maior, é claro.

Do que falarei aqui ?

Outra fácil: música, política, cibercultura e afins. Ou, se preferirem, de tudo menos futebol.

Moderarei comentários ?

Não. O que mais detesto, em qualquer comunidade discursiva, é a ausência de contraditórios. Por isso, não gosto de pertencer a bolhas discursivas, povoadas por likeminded people a pensar de modo semelhante. Ao contrário, penso que nada valorize mais qualquer enunciado do que reações violentas ao mesmo, independentemente de inteligência ou calão. Por isso, entrei aqui para ser espancado, na esperança de que toda ira suscitada sirva para melhor propagar o debate em torno de ideias que eu julgue por bem ventilar.

Com que frequência atualizarei este blog ?

Quando pedi ao Milton que hospedasse meu blog adormecido, a única coisa que me perguntou foi se conseguiria atualizá-lo ao menos uma vez por semana. Tenho tentado me acostumar com a ideia desde então.

Quem sou ?

Músico por formação e professor por ofício, metido a fotógrafo, cozinheiro, filósofo e escritor.