Sobre debates eleitorais em particular e propaganda política em geral

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Quando FHC derrotou Lula em eleições presidenciais (bem antes, portanto, da universalização da internet !), foi naturalmente aceita, como um fato banal, a tese do primeiro de que, na campanha que antecedesse o pleito, os candidatos não precisassem debater ao vivo em redes de rádio e TV – sendo, portanto, suficiente para orientar a escolha dos eleitores a propaganda veiculada por meio de carros de som. Foi nesta época que a extinta Gazeta Mercantil publicou, entre seus editoriais, o primeiro e único texto político que rabisquei décadas antes de cometer um blog, panfletariamente intitulado “Debate Já !”.

De lá para cá, as coisas mudaram bastante, a ponto dos embates entre candidatos em cadeia nacional de TV se tornarem os pontos culminantes de qualquer campanha eleitoral. Sustento, no entanto, que ainda é muito pouco. Nestes debates, a escassez de tempo e o engessamento do formato em perguntas, respostas, réplicas e tréplicas cronometradas impedem ou dificultam tremendamente a argumentação em torno de ideias e princípios que realmente importam em se tratando de escolher governantes e (oxalá não por muito tempo !) representantes parlamentares.

Provavelmente devido a minha baixa expectativa em relação a estes embates, me mantenho sistematicamente alheio aos mesmos – me beneficiando, com isto, da enorme vantagem de deles só ter notícia por meio de comentários sobre os mesmos bem mais qualificados (posto que por membros cuidadosamente selecionados de minha PLN !) do que os próprios debates em si. É como fico sabendo, por exemplo, das excrescências verbais do pastor ou da rinha entre os três favoritos na noite de ontem.

É, pois, pela caduquice dos formatos de peças de campanhas como hoje conhecemos (debates, horário eleitoral gratuito e publicidade paga (midiática, cartazes & santinhos)) que reivindiquei aqui, dias atrás, em tom apenas aparentemente jocoso, a realização obrigatória de reality shows, senão como todos os candidatos (enquanto custos ainda forem proibitivos), então pelo menos com os presidenciáveis.

Por que isto ainda não acontece ? Ora, por que viriam inevitavelmente à tona verdades que implicariam na ruína dos partidos políticos e dos monopólios midiáticos.

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Do anonimato, do público e do privado, com um recado ao TSE

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Fatos recente me fizeram pensar um bocado sobre a importância do anonimato para a democracia. Ora, o anonimato é tão importante quanto a atribuição de autoria pois, sem ele, saberíamos muitíssimo menos. Não é à toa que compartilhadores icônicos sejam tão ou mais perseguidos do que terroristas. As biografias de Assange e Snowden são exemplares.

Deve ser por isso que recomendo a todo sujeito virtual postar e comentar, em seu perfil e nos de outros e, portanto, visivelmente  a mais pessoas, bem mais do que trocar mensagens bilaterais. Aposto que algum linguista  já se debruçou, nalgum momento, sobre o que distingue as falas públicas das privadas. Que nuances distinguem a linguagem com que são confiados segredos daquela com que se fala diante de todos ?

Como aprenderíamos se pudéssemos, por exemplo, comparar o discurso dos palanques com o dos gabinetes, já que homens públicos falam e se comportam de modos totalmente distintos quando diante de câmeras e microfones e longe dos mesmos.

Não seria tão melhor do que o que vemos hoje no horário eleitoral gratuito se candidatos a quaisquer cargos eletivos participassem obrigatoriamente de um big brother meses antes de cada pleito ? Sem confinamento. A universalização da ideia do político rastreável. No mínimo, mais informativo e, muito provavelmente, bem mais divertido. Acorda, TSE !

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on conducting (ii): o método Ricci; on writing: sobre os benefícios da irregularidade

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Tivemos, nos últimos dias, a oportunidade de ensaiar e tocar quatro récitas de uma ópera de Puccini em forma de concerto sob a batuta de Enrique Ricci. Não é a primeira vez que a OSPA se apresenta dirigida pelo maestro argentino, naturalizado espanhol. Antes, Ricci já esteve à frente da orquestra numa Cavalleria Rusticana, também em forma de concerto, e, anteriormente, em Turandot, encenada no Teatro Solis de Montevideo.

Gosto de maestros polêmicos que, como Ricci, dividem opiniões de músicos. Dono de um estilo bem pessoal, não há como lhe ser indiferente. Pois os mesmos atributos pelos quais sua regência é aclamada por muitos se constituem, no entender de outros, em suas principais limitações, a saber, os fatos de que, enquanto rege,

  • parece aderir a uma sólida versão imaginária da obra que executa, e
  • raramente ou quase nunca indica com precisão os pontos de entrada de cada instrumento ou naipe.

Tais características, particularmente no gênero da ópera, obrigam a orquestra a uma atenção muito maior do que a habitual à concepção pelo regente no pódio da obra em questão – a qual precisa ser, por vezes, praticamente adivinhada. Deste esforço e concentração adicionais empreendidos, tidos por alguns como extenuantes ou mesmo irritantes, resulta algo intangível que é percebido pelo ouvinte menos avisado como uma intensificação emocional da performance.

Que lição tiramos disso ? Ora, que por vezes só temos a ganhar ao evitar os grandes consensos e unanimidades. Ao menos em áreas tão nebulosas como os fatores que determinam a qualidade na regência orquestral tais como, por exemplo, a importância ou a qualidade do gesto – tão importantes para alguns e, ao mesmo tempo, absolutamente irrelevantes para outros. Viva a diversidade dos egos musicais.

* * *

Tornando a atualizar este blog depois de quase três semanas, é inevitável que me depare com questões frequentemente levantadas por quem quer que já tenha se dedicado, de um modo ou de outro, à escrita, tais como:

  • qual a frequência de publicação ideal, em blogs ou outros meios, sob o ponto de vista da qualidade da escrita ?
  • até que ponto a frequência de publicação ideal no blog de um autor coincide com a expectativa de seus leitores ?
  • até que ponto a regularidade, respectivamente, na escrita e na publicação são benéficas ou, ao contrário, nocivas à qualidade do texto acabado ?
  • até que ponto textos devem ser publicados na ordem cronológica em que são imaginados, ou, ao contrário, aleatoriamente, na medida em que diferentes ideias implicam em tempos diferentes de amadurecimento ?

O problema não é novo. O excelente blog brainpickings, de uma das melhores curadoras da web, Maria Popova, reúne receitas e aforismos de grandes escritores, acostumados à disciplina e às crises da rotina criativa. Preguiçoso, me interesso pouco pelo que dizem. Do alto de meu atrevimento, afirmo que toda regularidade, quer na escrita em si, quer na publicação, conspira contra a qualidade do texto. Ao contrário, não vejo vantagem alguma em se manter qualquer regularidade ou hábito literário a menos que se tenha algo irresistível ou urgente a dizer. O que, na maioria das vezes, só acontece de quando em quando, independentemente da vontade de qualquer autor, quase sempre intercalado entre eventos e experiências significativos vividas por cada um. De tal modo que a crônica cotidiana ou periódica tende, invariavelmente, a um certo marasmo e previsibilidade.

É também notório que grandes formas implicam em maiores tempos de maturação. Senão, por que raramente alguém dirige mais do que alguns punhados de bons filmes, compõe mais do que uma dezena de sinfonias memoráveis ou escreve mais do que três ou quatro grandes romances ?

Então, que se dane todo e qualquer método. E que vivam os editores que aceitem tal estado de coisas.

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Ideias simples para um mundo melhor (i): da propaganda

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Poucas coisas me causam irritação maior do que argumentos exclusivamente fundamentados sobre tradições, do tipo “é assim por que sempre foi”. Desde jovem sempre tive mais simpatia pelas formulações utópicas, jamais experimentadas. Isto vale para instituições sólidas, tidas como dadas, tais como a democracia representativa ou a escola, as quais, bem ou mal, existem já há bastante tempo e cuja legitimidade, talvez por isso, poucos ousam questionar. Como, por exemplo, a ideia do consumo como principal motor da economia, recentemente invocada por Pedro Bial para encerrar precocemente, sem dúvida em nome do interesse da emissora, um auspicioso debate sobre o banimento de toda publicidade direcionada ao público infantil.

Vou mais longe. Sonho com um futuro não muito distante em que toda mensagem publicitária seja considerada propaganda não solicitada e, como tal, devidamente execrada, a tal ponto que anunciantes abram mão das mesmas sob pena de, caso contrário, estarem ofendendo clientes em potencial. Neste mundo perfeito, toda decisão relativa à aquisição deste ou daquele bem seria, então, orientada exclusivamente por processos de busca e comparação por meio de algoritmos operados por instâncias independentes. Ingenuamente ou não, acredito nesta visão a ponto de olhar com ceticismo e estranheza quem quer que se submeta a programas acadêmicos em propaganda e marketing, como se tais instituições não estivessem com os dias contados.

É claro que a propaganda não será totalmente extirpada de nossa cultura a não ser por meio de estratégias graduais. Dentre as quais haveria que se implementar, inicialmente, duas medidas simples, conquanto possam esbarrar na surrada justificativa das realidades dadas a que me referi pouco acima, a saber, o banimento

  • de toda publicidade governamental e
  • de toda concessão comercial de canais de televisão e rádio.

Como se pode ver, não se trata de tarefas fáceis, em razão dos enormes interesse em jogo. Senão, vejamos.

Que necessidade tem qualquer governo eleito de enaltecer, por meio de mensagens publicitárias, as realizações em nome das quais foi eleito ? Toda propaganda oficial por parte de quem está instalado no poder desequilibra francamente os pleitos seguintes, para os quais todos os concorrentes deveriam, se atendessem exclusivamente aos requisitos do fair play, se restringir às campanhas conforme regulamentadas pela justiça. Além disto, se este ou aquele governo realiza isto ou aquilo, não faz nada mais do que aquilo a que se propôs antes de ser eleito ou, noutras palavra, sua obrigação. Ora bolas, cidadãos bem que mereceriam ser poupados deste tipo de propaganda. Por isso, estranho muito que tão poucos parecem se ofender ou sequer importar com isto. Não consigo atribuir tal estado de coisas a outra coisa que não a supracitada naturalização acrítica de realidades dadas.

Do mesmo modo, não posso aceitar que recursos de tamanho alcance como a transmissão de sons e imagens por meio de ondas eletromagnéticas sejam concedidos pelo poder público a permissionários proprietários de emissoras de rádio e televisão. Se assino ou compro exemplares avulsos de jornais ou revistas impressos, estou perfeitamente ciente e tacitamente de acordo que os mesmos sejam parcialmente custeados por anúncios de terceiros estampados em suas páginas. Não é, todavia, aceitável que, ao sintonizar receptores de sons e imagens a determinadas frequências coexistentes no éter, tenhamos que ser constantemente bombardeados por propaganda não solicitada. Curiosamente, parece haver uma quantidade bem menor de publicidade em canais de TV por assinatura. Novamente aqui, se naturalizou a ideia perversa de que as poucas transmissões de TV aberta, disponíveis gratuitamente, devam ser bancadas por patrocinadores anunciantes enquanto as disponíveis exclusivamente mediante contrato sejam justamente aquelas mais livres de publicidade. Ora, as transmissões de rádio e televisão são um recurso por demais importante para serem concedidas à exploração comercial por uns poucos. Por isto, deveriam ser tratadas como de interesse público e, como tal, assumidas pelo estado, o qual também teria a incumbência de garantir seu controle social.

Bizarro ? Naïve ? Acho que não. Insisto que nenhuma tradição é totalmente inocente ou gratuita e que, mais uma vez nestes casos, a naturalização das coisas estabelecidas é governada por poderosíssimos interesses arraigados nos códigos que regem nossa sociedade. Interesses pelos quais textos como este jamais serão difundidos em qualquer veículo pertencente a conglomerados midiáticos mas, tão somente, num ou noutro blog improvável de audiência dispersa. Ao menos até que a idealização por Pierre Lévy de uma web semântica produza os primeiros resultados concretos.

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Minding orchestras (vi): de como regentes titulares e maestros como diretores artísticos são nocivos à música

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Me alegro só de saber que músicos de uma orquestra espanhola puseram a correr um diretor artístico, por 70 votos contra 4, apoiados pelo governo. Sonho com um tempo em que coisas assim possam acontecer aqui também. Deve haver quem ache que eu exagere a importância de que membros de orquestras possam deliberar sobre quem os rege e dirige. Na iminência de novos governos, então, a questão me assombra sobremaneira.

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Já tratei, em mais de uma ocasião, dos enormes benefícios derivados

  • da não outorga da palavra final sobre a programação artística de um organismo sinfônico a seu regente principal, se houver um; e
  • da não designação, para um organismo sinfônico, de qualquer regente principal, ficando seu pódio ocupado por uma alternância de regentes convidados escolhidos pela orquestra.

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Hoje, quero me deter um pouco sobre a conveniência da não designação, para cargos de direção artística de orquestras, de indivíduos exclusiva ou predominantemente treinados como maestros – a menos, é claro, que sua ascensão ao pódio tenha sido consequência direta de sua proficiência instrumental – pois todo virtuose será também, se quiser, um maestro suficientemente bom. Equivale a dizer: aos melhores músicos, os mais elevados pódios. Teremos um belo caso deste estado de coisas dentro de alguns dias, quando o excepcional clarinetista François Benda, além de tocar o concerto de Mozart, também terá a oportunidade de dirigir a OSPA na sétima sinfonia de Beethoven.

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Sempre que me deparo, em programas impressos ou qualquer lugar, com carteiraços de maestro (este ou aquele currículo de regência de tal universidade ou conservatório), me lembro de outro célebre clarinetista, o saudoso Walter Boeykens, que acreditava que a arte da regência só podia emanar do pódio para as principais estantes orquestrais, não podendo, portanto, ser transmitida ou revelada através de quaisquer currículos acadêmicos, os quais não passariam, portanto, de bullshit. A título de ilustração, dizia que a recebera, como uma dádiva, diretamente das mãos de um Bernstein ou Boulez. A sound argument, indeed.

É hoje, no entanto, também muito difundida a ideia de que a excelência em regência orquestral possa ser adquirida em programas acadêmicos – sendo reconhecida, até, a supremacia de uma escola nacional, a finlandesa, articulada em torno na figura mítica e polêmica de Jorma Panula. Ponto para o outro lado.

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Então, resumidamente, temos, de um lado,músicos e ouvintes

  • que esperam a emergência da figura messiânica de um grande regente como panaceia para toda a plêiade de problemas que constituem o cotidiano orquestral (não discutiremos, por hora, a existência ou não, hoje, deste tipo de figura, muito mais um resíduo de uma era de celebridades e domínio corporativo); adeptos desta tendência acreditam que a submissão de um conjunto a uma única batuta é capaz de conferir uma melhor unidade sonora ao mesmo; e de outro,
  • aqueles que defendem a alternância no pódio de maestros por eles escolhidos como melhor meio de obtenção da excelência.

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Quanto aos cargos de direção artística, continuo favorável à sua outorga não a maestros (que tendem a usar instituições como plataformas de auto-promoção) mas, preferencialmente, a indivíduos de notório saber musical e, sobretudo, patente desinteresse pessoal. Só que, como bem disse André Egg, mesmo em setores universitários, onde a autogestão já fez algum avanços, há, infelizmente, muito mais alpinistas e oportunistas de plantão dispostos ao exercício do poder do que seres suficientemente desprendidos para o mesmo. Difícil equação. Mas há quem se enquadre perfeitamente no perfil. Como Arthur Nestrovsky, da OSESP. Ou Celso Loureiro Chaves, que mencionei anos atrás – quando houve até quem julgasse que eu estivesse sugerindo seu nome (sic !). Como vêm, não há limite para a rasura de uma leitura. Então, que fique bem claro se tratar não mais do que EXEMPLOS. Pois deve haver por aí, afinal, mais gente com o brilho e o desinteresse, digamos, de uma Lúcia Carpena. Só na universidade conheço muitos. Eis uma questão interessante: por que os fluxos de poder na universidade são tão mais avançados do que em outras instâncias sociais ? A pergunta é, evidentemente, retórica, pois as organizações universitárias são aquelas que provavelmente melhor abraçaram, até agora, a autogestão.

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Por isto, espero que as linhas acima cheguem, de qualquer maneira, ainda que tortuosa, a serem lidas pelos próximos secretário estadual de cultura e presidente da fundação OSPA.

* * *

Tendo terminado de escrever isto, saí à cata de imagens que pudessem ilustrar o post – como sempre faço desde que Milton me disse que é melhor divulgar um post com figurinhas do que plain text. Como não quisesse particularizar nenhuma orquestra em detrimento de todas as outras, limitei, então, a busca a representações artísticas das mesmas. Não foi com nenhuma surpresa que constatei, então, que TODAS as imagens retornadas pela busca evidenciavam, em franco destaque, a figura de um maestro. Só por isso utilizei todas elas. Também por isso aceito com resignação o fato de que, para mudar tal estado de coisas, será preciso, antes, uma revolução cultural. A serviço da qual coloco, desde já, este texto.

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on conducting (i): da escolha dos andamentos de execução de uma música

Nenhuma variável afeta tanto o caráter emocional de uma peça musical quanto o andamento em que ela é executada. Muito mais, por exemplo, do que sua tonalidade ou instrumentação. Senão, basta efetuarmos o experimento de, tendo variado deliberadamente a tonalidade, a instrumentação ou o andamento de uma mesma música, determinar quais versões melhor preservam a identidade da composição original.

Gosto de pensar que o tempo (andamento) ideal de uma música é perfeitamente análogo ao ponto exato de cozimento de uma massa, também conhecido como al dente. Se for cozida um pouco menos do que o necessário, parecerá crua. Já se cozida demais, ficará irremediavelmente mole. Qualquer cozinheiro sabe disto. Infelizmente, muitos músicos não.

Tanto isto é verdade que muitos compositores, de Beethoven em diante, tomaram o cuidado de indicar, para além de vagas expressões italianas como largo, adagio, andante, allegro ou presto, com bastante exatidão a velocidade em que suas obras deveriam ser executadas, expressa, a cada novo andamento, em pulsos por minuto. Já me referi, tempos atrás, ao descaso para com indicações metronômicas de Beethoven.

Infelizmente, muitos compositores não tiveram a mesma preocupação, deixando, na maioria das vezes, a escolha dos tempos de execução de sua música orquestral ao sabor da vontade de cada maestro no pódio.(surpreende como, ainda hoje, há quem acredite e defenda o monopólio interpretativo de regentes – mas deixemos de lado, por hora, o problema do carteiraço acadêmico, digno de atenção mais extensa)

Felizmente, toda regra tem suas exceções, e vez que outra (bem raramente, é verdade) regentes experientes dialogarão com orquestras sobre andamentos de obras seminais. Com sorte, tais discussões se nortearão exclusivamente pela busca da melhor expressão musical. Como no caso do último movimento da Bachianas Brasileiras nº 2, de Villa-Lobos, o célebre Trenzinho do Caipira, executado recentemente pela OSPA sob  direção de Nicolás Rauss. Convicto de que muitos registros fonográficos da obra iniciavam lento demais, experimentou, ao longo dos ensaios, tempos bem mais rápidos. Até ser alertado por alguns de que, embora seu pulso básico estivesse perfeito a partir de certo ponto, talvez estivesse iniciando rápido demais. Fosse outro, teria provavelmente desconsiderado a experiência da orquestra e deixado o trem desgovernado até o concerto. Mas não. Temperou sua concepção da obra com o que provavelmente lhe pareceu um consenso entre outros intérpretes. Tão rara quanto a atitude foi seu resultado, digno de nota.

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Há, no entanto, que se ressalvar um tipo de interferência da orquestra, nociva à qualidade musical, a saber, certos pactos de mediocridade que se estabelecem, por vezes na privacidade dos camarins, para que a música seja executada em tempos mais lentos por força de limitações técnicas de executantes. Cabe, pois, ao maestro, nestes casos, discernir se tempos sugeridos diferentes dos seus visam, antes, a melhor expressão musical do que à mera acomodação a limitações técnicas.

De resto, é sempre preferível uma versão no tempo certo com erros ocasionais do que outra perfeitamente correta num andamento mais… contido. Há, no entanto, quem pense diferente. Felizmente. Pois só a controvérsia justifica a coexistência de execuções repetidas dos mesmos clássicos.

Da música que se toca de graça ou por dinheiro algum; in praise of serendipity

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Há só dois tipos de música: a que não se toca por cachê algum e a que se toca até de graça. Como, por exemplo, o quarteto de Villa-Lobos, que tocamos hoje pela manhã na conferência mundial da International Society for Music Education na PUCRS. Ao anunciarmos, depois de tocar uma congada do Villani-Côrtes (que foi o primeiro pianista do programa do Jô…), o encurtamento do programa devido ao início iminente da fala de um eminente pesquisador, principal conferencista do evento, o público permaneceu, para nossa surpresa, sentado. Foi quando alguém exigiu a execução anunciada de um arranjo do Adolfo (our composer in residence, costumo chamá-lo) para o Trenzinho do Caipira. Ao que pronta e alegremente atendemos.

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Depois que tocamos, vi Adolfo conversar entusiasticamente com um australiano, membro de um quarteto de flautas doces há mais de 20 anos, que se interessou por transcrição de seu arranjo. Eu mesmo terminei conversando com uma violista filipina, responsável por um departamento de cordas em South Carolina, sobre a tão negligenciada importância da música de câmera em cenários onde a maioria aspira, unicamente, à condição de solista. Tinha números sobre o assunto. Riu da referência da aspiração ao solo como doença e gostou de saber que o problema parecia universal.

Tenho certeza que as conversas mantidas por Gualda e Leonardo não foram menos interessantes. É por essas e outras coisas que, como eu dizia, às vezes vale tanto a pena se tocar de graça

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Políticos demais (vi): das múltiplas faces do político profissional

O político profissional é um camaleão que assume aparências distintas quando em campanha eleitoral e uma vez no exercício de mandatos parlamentares. Além destas identidades públicas, possui outras – reveladas, às vezes, apenas no âmbito da privacidade de seus pares. Explicarei por partes.

Ao sair a campo em busca de votos, o político veste, na maioria das vezes, camisas claras com colarinhos desabotoados – tentando, talvez, parecer alguém que efetivamente “arregace as mangas” e almejando, com isto, uma melhor identificação com massas trabalhadoras que são, afinal, uma das poucas (senão a única) classes suficientemente numerosas para garantir o acesso, mediante pleitos eleitorais, ao andar de cima dos governos e casas legislativas. É, pois, assim, como legítimo “homem do povo”, que o político é mais frequentemente visto em convenções e encontros partidários ou peças de publicidade eleitoral.

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Se, no entanto, vencer nas urnas, invariavelmente vestirá, no exercício do mandato, ternos e gravatas semelhantes aos usados por todos com quem passará, então, a disputar visibilidade midiática nos plenários e tribunas de casas legislativas.

plenário 2Muito ganharíamos em entender o fenômeno da transição do político com identificação popular das campanhas para aquele dos plenários, protegido pelo apartheid das galerias, do qual a indumentária é mão mais do que um signo (pois não existem tradições gratuitas !). Até por que o discurso político é um prato cheio para estudiosos de semiótica e ciências da linguagem.

O que nos interessa é que os dois comportamentos acima dão conta, no entanto, tão somente de faces mais públicas do político, já que é grande o contraste entre estas imagens do homem público e outras, furtivas e improváveis, de sua vida privada. Pois não vemos em imagens de campanha candidatos vestidos como se fossem, por exemplo, a cassinos, iates, clubes de golfe ou restaurantes de luxo.

Paradoxalmente, é assim que me habituei a vê-los quando frequentemente almoço, por força de outros compromissos, num ótimo restaurante, relativamente discreto, onde líderes de um importante partido costumam se reunir. Como almoço sozinho, sou amiúde forçado a deglutir não somente a comida como o que ouço de mesas vizinhas. Em tais ocasiões, reputava como o pior gênero de conversa que poderia ter que suportar aquela entabulada por homens de negócios (quando, por um estranho senso de diversão, gosto de tentar adivinhar quem são, respectivamente, vendedor e comprador em potencial). Até que me vi forçado a ouvir o que aqueles políticos diziam.

Querem aqueles senhores que pensemos que se dedicam, quando em interlocução, predominantemente a questões de algum interesse público. Mas não. Falam, quase sempre, de marketing eleitoral. Entre outras coisas, escolhem retóricas. E publicitários. Num encontro mais ameno, com apenas três participantes, já ouvi falarem da biografia da Yeda pelo Políbio.

Por essas e outras, toda propaganda eleitoral deveria ser sumariamente abolida e substituída por um sistema de rastreamento em tempo real, acessível a todo eleitor, de tudo o que faz – e, principalmente, fala & ouve – cada candidato. Como num reality show. Um big brother com todos os candidatos começando meses antes de cada eleição. Cada conversa, seja com aliados, apoiadores, militantes ou simpatizantes, devidamente documentada. Os resultados dos pleitos seriam bem outros.

Políticos demais (v): Bem-vindos ao retorno da farsa dos debates eleitorais

Como assim “A democracia representativa e a democracia participativa não são excludentes” ? Deixaram por isso mesmo ? O cara confunde duas categorias semânticas mutuamente excludentes por definição e se dá por encerrada a conversa ? Que idiota escolheria um candidato vendo ou ouvindo esse tipo de coisa ? Temo, que, infelizmente, muitos.

Se isto já aconteceu no primeiro embate midiático encenado entre candidatos ao próximo governo do estado, devemos ter, na TV, nos próximos meses, mais manipulações semelhantes – a não ser que candidatos sejam obrigados a responder perguntas formuladas por qualquer cidadão ao invés de exclusivamente por adversários políticos. Meios para isto são abundantes e há muito conhecidos. Do domínio de qualquer nativo digital, no mínimo. Então, se tribunais eleitorais parecem ignorá-los, é só por que é assim que o andar de cima ainda espera. Até quando ?

Minhas anotações anteriores, invariavelmente de períodos pré-eleitorais, em prol da democracia direta e contra a representativa estão em meu blog anterior, em Para uma verdadeira reforma política, Pelo fim do político profissional e da propaganda eleitoral e A propósito de mais um ano eleitoral.

 

Duas coisas das quais não falarei ainda e um CD providencial

“Tens movimentado teu blog ?”

Com estas palavras Milton gentilmente me cutucou acerca do compromisso por mim assumido e dificilmente cumprido de atualizar o impromptu, agora hospedado no Sul 21, ao menos uma vez por semana.

Há muito quero falar da fragilidade do discurso acadêmico, mas devo ter melhores referências antes de mexer nesse vespeiro. Também não é de hoje que acompanho a Loudness War e, mais especificamente, o Dynamic Range Day – cujas implicações na economia da música, seriam, no entanto, demasiado complexas para as dimensões convencionais de um post.

Foi, assim, neste brete que tive a felicidade de receber nesta semana, das mãos de Fábio Mentz, Sonhos de Nascimento, o novo CD de Bianca Gismonti com seu parceiro e marido Julio “Gopala” Falavigna para o selo Biscoito Fino. Abro parêntesis. Quando da extinção de minha pequena utopia fonográfica, a Antares Música, Fábio pontificou, em tom de consolo: “ao menos reuniste uma discoteca invejável !”. Com justa razão. Pois muito embora o malfadado empreendimento só me tenha trazido despesas sem qualquer lucro financeiro, acabei amealhando uma coleção de discos excepcionais, a maioria deles gravado e/ou produzido por amigos, os quais jamais teria conseguido adquirir simplesmente indo ao mercado. De sorte que, tendo comprado CDs sistematicamente pela última vez lá pelos idos dos anos 90, acabei sendo presenteado com quase tudo o que ouço desde então. Ao ponto de (fecho parêntesis) ter um certo receio de ouvir todo disco novo que me cai nas mãos tão somente pelo medo de não gostar.

Abordei, assim, o novo disco de Bianca com a maior das cautelas – totalmente, no entanto, desnecessária, posto que Sonhos de Nascimentos é um daqueles raros discos que se deixa ouvir do início ao fim sem que se sinta a menor coceira de pular certas faixas. Pois Bianca ostensivamente desconhece aquilo que é comumente designado pela mídia e pela indústria como “faixas de trabalho”.

Mas avancemos por partes.

A mixagem do disco é assinada por Renato Alsher que é, por si, um capítulo a parte. Filho de Egon (outro técnico excepcional, fundador do lendário estúdio TecAudio, originalmente Egér, em Porto Alegre), Renato logo se estabeleceu como referência no Rio de Janeiro, onde acabou angariando a confiança de Marisa Monte e outros figurões. Não bastasse isto, o disco foi gravado por Alscher, meu amigo Fábio Mentz e outros e masterizado por meu outro amigo Marcos Abreu. Entendem agora meu receio de conhecer discos assim ? Sem a menor necessidade neste caso, devo acrescentar. But so much for the sound.

Os parceiros de Bianca em seu trio também merecem destaque. Começando pelo genial baterista e percussionista Julio Falavigna, mestre de yoga que adotou a designação de Gopala. Que depois de anos de vida monástica na Índia descobriu que sua missão era mais ao ocidente. Tendo seu próprio centro de yoga, foi também responsável pela fundação de ashrams em Montreal e Montevideo, inclusive. Ao longo de suas peregrinações, acumulou ampla experiência em música indiana clássica e popular, traduzida em parcerias que mantém com Sachdev e Hanuman, entre outros. É, dentre os músicos que conheço, o único capaz de estar sempre em plena forma sem qualquer necessidade de prática diária. Sério. Só não me perguntem como. Gosto de pensar que isto se deva a seu profundo domínio sobre a arte da meditação.

O contrabaixista Yuri Popoff é a outra peça fundamental do trio de Bianca Gismonti. Intenso e econômico, seu baixo fretless empresta ao conjunto as cores e a plasticidade de um Pastorius. Há quem diga que exagero. Não acho.

A matriz referencial. Como qualquer vulto da música brasileira instrumental, Bianca bebeu de Villa-Lobos. Por intermédio de seu pai Egberto, no caso. E ainda que muitos vejam talvez aqui um problema, é preciso reconhecer que Bianca não parece sentir sobre seus ombros qualquer peso desta herança colossal. Noutras palavras: se em Maria Rita ouvimos perfeitamente Elis, em Sonhos de Nascimento não estamos de modo algum a ouvir meramente a filha do Gismonti. Que lhe rende, aliás, belíssima e explícita homenagem logo na faixa abre-alas, Festa no Carmo (além de uma extensa citação do Nó Caipira aos 4’02” de Entre Amigos), para, depois disso, desfilar mais dez composições altamente contrastantes entre si em caráter, métrica e textura. Só entre as quatro primeiras músicas já ouvimos instigantes compassos de 5 e 7 tempos (!). De brasileiríssimos xaxados e baiões a uma improvável salsa, passando mesmo por uma passacaglia (como sempre em Villa). Há também canções incantáveis (a não ser por ela mesma; I must return to odd voices some day) e, ao apagar das luzes, uma parceria com ninguém menos do que Nana Vasconcellos.

Com tudo isso, o que mais me encanta no disco é sua identidade composicional, expressão que uso para designar certa sofisticação de ofício presente em todos os detalhes mas que acaba se traduzindo principalmente em clareza formal e intensidade dramática. Coisas como, por exemplo, a brincadeira com repetições assimétricas e comprimentos de frase em Festa no Carmo ou, ainda, a extensa seção de “musica desenvolvimental” (vide o segundo post anterior a este) que inicia aos 1’48” da mesma música. Outro toque de mestre é a longa citação, villa-lobiana, que há de Nó Caipira aos 4’02” de Entre Amigos. E por aí vai.

Não há novidade alguma no fato de que muitos protagonistas da indústria musical dependem de um ou mais compositores de retaguarda para trilhar carreiras na indústria do disco e do espetáculo. Há, no entanto, poucos capazes de gravar álbuns inteiros interessantes apenas com repertório próprio. Se, além disto, este autor for uma mulher, estaremos diante de algo genuinamente raro. Notável, até. Mas não pensem, com isto, que Bianca precise, como compositora, do abrigo ou proteção de qualquer minoria na qual circunstancialmente se enquadre.

Sonhos de Nascimento

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A documentação sobre o trabalho ainda é escassa no youtube – problema que Gopala promete sanar em breve por meio de seu canal Sonhos de Nascimento. Enquanto isto não acontece, fiquem com uma versão de sua faixa de abertura registrada ao vivo no show de lançamento.

* * *

Frustrado, quase desisti de publicar este post depois de tentar em vão, por vários dias, subir a música que lhe serve de ilustração ao soundcloud. Só hoje descobri que a plataforma bloqueia automaticamente faixas de CDs de selos não nanicos. Recorri, então, ao youtube para finalmente disponibilizar os links necessários para que o texto acima faça algum sentido. Aproveitem, então, enquanto não me bloqueiam por lá também. Francamente, não entendo esse tipo de proteção ao direito autoral. Ora bolas, se tenho que tocar música para recomendar um disco, é mais do que óbvio que espero que o leitor queira ouvi-lo com toda a qualidade de áudio que mídias sólidas como o CD ainda têm a oferecer de vantagem sobre arquivos em mp3 ou videos no youtube.