A intérprete de Libras, musa do governo Bolsonaro

Meses atrás, quando se gritava “fora Temer”, dificilmente se ouvia alguém defender o vampiro. Hoje, é bem diferente. Basta aludirmos a qualquer coisa percebida como negativa em relação a Bolsonaro, fato novo ou não,  para que as portas do inferno se abram e soltem no espaço virtual uma leal tropa de choque a chamar os críticos do governo recém empossado de petralhas, comunistas, derrotados, desesperados, ridículos, patéticos… enfim, a lista é imensa. Foi exatamente o que aconteceu dias atrás sob uma de minhas três postagens em sequência sobre a posse presidencial que dominou a mídia durante todo o dia.

Não pretendo, aqui, defender alguma deselegância ou comportamento politicamente incorreto de quem, como eu, pensa mais à esquerda do que aqueles que assumiram o poder. É que, diante de tanta asneira, é difícil permanecer impassível. Até eu, por vezes, tenho que morder a língua para não troçar de simpatizantes do idiota do ano (mais do mesmo aqui). Por isto, não condeno (ao contrário, até acho divertido) quem se utiliza das caixas de comentários sob minhas postagens para lascar um “otário” ou coisa que o valha diante da verborragia chapa branca.

Mas não vim aqui para falar disto. De início, fiquei intrigado sobre por que, de minhas três postagens, a que mais suscitou comentários de ambos os lados, numa verdadeira batalha campal, foi justamente a mais gratuita – a saber, aquela sobre a intérprete de Libras (língua brasileira de sinais) que, na aurora do novo governo, já ocupa a posição de sua musa absoluta. Mais, até, do que a primeira dama (não riam: já há quem ache que, com aquele carisma, será a próxima presidente. Uma espécie de Evita 2.0). Em meio ao bate-boca, poucas frases sobre as duas postagens que considerei mais reflexivas – a saber, que ironizavam, respectivamente, o clima de caça a dissidentes reeditado dos tempos da ditadura e a hábil manobra da prisão do candidato com maiores chances na corrida presidencial.

Dizem que piada explicada perde a graça. Ainda assim, sou forçado a recorrer ao expediente devido à reprimenda moral que recebi por, ao atentar para o lado cômico da já célebre intérprete, estar supostamente menosprezando uma ferramenta de comunicação tão importante para uma minoria (estranhamente, uma das poucas, senão a única, vista com bons olhos pelo novo governo).

Não devo ter sido o único a sublinhar a franca evidência dela em relação a qualquer autoridade ao lado da qual se apresente. Na presente situação, o fato mais relevante é que os monótonos discursos lidos por Bolsonaro em ocasiões importantes (mais sobre a autoria dos mesmos adiante) são inquestionavelmente valorizados pela atuação dramática e, sobretudo, cômica daquela intérprete – o que nos leva, de pronto, a indagar: por que os discursos do presidente precisam necessariamente sair de sua boca ? Ora, não seriam muito mais convincentes se proferidos originalmente pela intérprete, enquadrada no centro do campo visual, e traduzidos para os não fluentes em Libras por meio de legendas ou de uma voz em off ?

Indo mais fundo na leitura do fenômeno. Talvez o que torne a fala daquela intérprete tão cômica sejam os dois níveis em que o discurso é percebido. Num plano mais neutro, está a linguagem de sinais. Noutro, que a distingue tanto de outros colegas de profissão, está sua expressão facial ou, noutras palavras, as engraçadíssimas caras e bocas que faz concomitantemente à tradução.

* * *

Eu já havia escrito este post até aqui quando, tomado por intensa curiosidade, fui “pesquisar” (eufemismo para digitar no google ” quem é a intérprete de libras dos discursos de Bolsonaro ? “) quem seria, afinal, a carismática figura que, no imaginário popular, já está indissoluvelmente colada à imagem do presidente. Depois de ler o texto de apresentação de uma entrevista (que ainda não vi, pois sou, como sabem, avesso a videos) e  uma matéria arrolando comentários politicamente corretos de desaprovação em relação a tiradas engraçadas sobre a intérprete, fiquei sabendo se tratar de Elisângela Castelo Branco, professora da UFRJ, coordenadora do ministério Incluir da Igreja Batista Atitude (RJ) e, aparentemente, uma das maiores autoridades nacionais em Libras. Ao ler tudo aquilo, me senti meio culpado, constrangido até, por achar que zoar de sua atuação e, pior, tentar instigar o mesmo sentimento em terceiros se constituiria numa ofensa a toda a minoria que se beneficia daquela linguagem. Naquela matéria, também fiquei sabendo que justo a expressão facial de Elisângela, que eu achara tão engraçada, era parte indispensável da gramática de Libras (mais do mesmo).

Consoante a isto, estive a ponto de me desculpar publicamente pela suposta piada de mau gosto. Pensei mais, porém, e não encontrei qualquer explicação satisfatória para o fato da expressão facial de Elisângela ser, positivamente, MUITO mais engraçada do que, por exemplo (não é preciso ir longe), as de outros “falantes” de Libras que atuaram na cerimônia. A começar pela primeira dama. Continuo sem resposta mas, ao menos, aliviei minha culpa.

Pensando mais (este velho mau hábito), lembrei do poder destronante do riso que, segundo Bakhtin, serviria, desde tempos medievais, para que os comuns pudessem, por meio da ridicularização, desafiar todo poder absoluto – e, na presente situação, se não seria precisamente isto que está em jogo quando rimos da tradução em gestos dos discursos de Bolsonaro. Pois, neste caso, não estaríamos rindo das caras e bocas de Elisângela e sim dos discursos lidos pelo presidente com sua monotonia habitual. Monotonia, entenda-se, do presidente e não dos discursos – posto que os últimos são prá la de engraçados. Eloquentemente engraçados.

Forçado ? Talvez. Uma contraprova seria submeter os discursos de Bolsonaro a outros intérpretes para verificar se a componente cômica permanece ou não. Há que se considerar, todavia, que Elisângela deve ter sido escolhida justamente por traduzir aqueles discursos convincentemente, i.e., ela definitivamente ACREDITA (como uma Velhinha de Taubaté, lembram ?) no que o presidente diz. E a comicidade é, no caso, mera consequência daquelas asneiras devidamente interpretadas. Pois, convenhamos, Bolsonaro não serve para ler nem boletins meteorológicos,  o que dirá discursos políticos (não é preciso muita sensibilidade para perceber o quão dramaticamente lhe falta o dom da oratória típico dos grandes estadistas).

O que desemboca diretamente na questão acima aludida sobre a autoria de seus discursos.  É claro que, nem em seu caso nem tampouco em qualquer outro, é possível comprovar cabalmente a redação de própria lavra ou de outrem de um pronunciamento político. Fica tudo, então, no campo da conjectura. Ghost writers não deixam vestígios. São segredos guardados a sete chaves e suponho que a revelação dos mesmos seja passível de punição, em alguns regimes, até com execução. Ainda assim, grandes discrepâncias entre a linguagem oral de alguns dignitários e seus discursos escritos engendram dúvidas sobre a autoria dos últimos. Ninguém duvidaria, por exemplo, da autoria do bilhete de suicídio de Getúlio. Ou da de um discurso lido por Churchill ou Fidel. No caso de Bolsonaro, no entanto, a coisa é bem diferente. Basta comparar a coerência (não falo, é claro, do conteúdo ridículo, mas da forma bem trabalhada) dos discursos que lê com a de suas (poucas) falas improvisadas, sejam elas intempestivas ou mais controladas, em entrevistas.  E, a partir disto, também é fácil entender por que não lhe deixaram comparecer a qualquer debate.

O discurso artístico e o discurso sobre a arte

É razoável se supor que, para cada quantum de discurso artístico criado, seja em forma de livro, música, filme, quadro ou escultura, haverá uma quantidade bem maior de discurso sobre a obra, tanto maior quanto mais antiga e/ou consagrada ela for.  Isto por que a resenha sobre objetos artísticos, antes confinada a um seleto círculo de especialistas, acabou por se tornar o café da manhã, o almoço e o jantar de toda uma comunidade acadêmica voltada para a produção de textos analíticos sobre obras de arte em teses de pós-graduação e artigos para periódicos.

Não que todo discurso sobre a arte seja totalmente irrelevante ou supérfluo. Longe disto. Afinal, há textos secundários excelentes, geralmente de fôlego e em linguagem atraente, que iluminam a compreensão sobre um autor, grupo de autores ou mesmo todo um contexto ou uma época. Tais são os tratados de teoria literária de Mikhail Bakhtin (1895-1975) sobre Dostoiévski e Rabelais, ou ainda os livros de Charles Rosen (1927-2012) sobre o estilo clássico e a forma sonata. São também respeitáveis as contribuições de schollars como Alan Tyson ou Robert Winter para periódicos como Beethoven Studies ou ainda as obras de Walter Frisch sobre a música de Brahms. Assim como estes, há muitos outros. Quase sempre, nestes casos, os textos analíticos secundários sobre a obra de epígonos artísticos são de interesse tão universal que acabam fatalmente publicados como livros.

Fora deste círculo de brilhantismo, no entanto, o que há – e em muito maior quantidade – é uma miríade de papers, de diferentes extensões (artigos, os mais curtos; teses, os mais longos), produzidos primordialmente para a promoção de seus autores na carreira acadêmica, que serão lidos não mais do que por aspirantes a posições mais ambiciosas no intuito de melhor rechearem seus próprios textos com citações.

Aqui se faz necessário um disclaimer (antes que comecem as inevitáveis pedradas): é claro que há teses e artigos interessantes e necessários; estes se constituem, no entanto, muito mais em exceções do que na regra.

É sobre tais textos secundários, bem escritos no máximo, ainda que de pouca relevância para a apreciação das obras examinadas, que trato nesta diatribe.

* * *

Não conheço a origem das teses e artigos científicos, nem tampouco tenho paciência para buscar tal erudição. Quer me parecer, no entanto, que a disseminação  generalizada do texto acadêmico que temos hoje seja como uma praga que fugiu ao controle.  Escrever (e publicar) já foi um privilégio exclusivo de quem (1) soubesse escrever bem e/ou  (2) tivesse algo original ou, ao menos, interessante a dizer. Só que, nalgum momento, pareceu às elites universitárias que talvez fosse uma boa ideia exigir de aspirantes a melhores posições acadêmicas que escrevessem intensamente, quase compulsivamente.

Aqui nos deparamos com um desequilíbrio fundamental, a saber, o de que existem muito mais pesquisadores (assim são chamados) do que, propriamente, objetos de estudo carentes de textos elucidativos. Isto foi suficiente para instaurar uma corrida, entre orientandos e orientadores, pela identificação de temas passíveis de uma boa tese ou de um bom artigo. E nesta busca, um lugar óbvio para o qual olharam (especialmente pesquisadores em arte) foi o imenso manancial de discurso artístico produzido em todas as épocas.

Só que tal expediente não se afigurou, na prática, tão simples, posto que campos de estudo sobre epígonos como Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Brahms ou Schoenberg (para citar uns poucos) já estavam saturados com textos consagrados do eminente círculo de schollars supracitado. A solução foi se voltar, então, para obras de artistas novos ou novíssimos menos conhecidos. E se garantiu, com isto, a perpetuação do exercício acadêmico da escrita. Para desespero dos bibliotecários – que são, em última instância, aqueles que devem lidar com o excesso textual.

* * *

Sei. A visão acima será certamente descartada como o delírio de um outsider pela academia, a qual se perpetua sem a necessária autocrítica, ignorando por vezes mesmo contribuições valiosas de insiders argutos – como, por exemplo,  Maggie Berg e Barbara Seeber no sensacional The Slow Professor – challenging the culture of speed in the academy.

Vejamos, então, a coisa sob outro prisma: o do artista que tem a obra dissecada em textos secundários sobre a mesma. Antes, porém, algumas palavras sobre os limites da análise.

Torno a dizer que, é claro, não falo aqui dos impressionantes insights de um Rosen, Tyson ou Frisch (que, é preciso dizer, não caberiam na extensão de um artigo ou mesmo de uma tese de dimensões normais – sendo, na maioria das vezes, a investigação de uma vida inteira). Falo, sim, do tipo de achado normalmente resultante da aplicação de alguma técnica consolidada de análise musical. Pois há muitas: Schenker, Meyer, Reti, semiótica e por aí afora.

Ministrando, décadas atrás, disciplinas de análise musical a alunos de graduação, passei pelo constrangimento de ter que lhes revelar, ao fim do curso, que nenhuma técnica conhecida de análise pode nos dizer sobre uma música qualquer coisa que já não saibamos depois de ouvi-la.

Os mais céticos hão de dizer que há um certo exagero nisto, visando o efeito fácil – com o que, admito, tenho que concordar. Tomemos, então, um caso extremo: o da análise semiótica, formulada por Jean-Jacques Nattiez. Na década de 90 do século passado, Nattiez falou num congresso da Associação de Pesquisa e Pós-Graduação em Música na UFRGS. Sua concorrida conferência foi sobre uma análise em andamento da Catedral Submersa, de Claude Debussy. Disse que tinha submetido seus dados a uma especialista em computação para o processamento numérico. Desconfiado, achei aquilo tudo muito estranho. Como se quisessem descobrir algo novo sobre a célebre música através de um equipamento, sei lá, como um espectógrafo de massa (utilizado para identificar átomos de elementos constituintes da matéria). Ao final, a cereja do bolo: Nattiez informou à reverente plateia que a especialista ainda não havia lhe retornado os resultados. O que não o impediu, no entanto (pensei com meus botões), de cruzar o Atlântico, provavelmente não de graça, para nos falar daquilo. Curiosamente, não nutro hoje, mais de 20 anos depois, a menor curiosidade para saber o que descobriu sobre a maravilhosa peça de Debussy.

Fecho parênteses, voltando à questão de especular sobre a preferência de um autor entre ter sua obra minuciosamente analisada por e para um reduzido número de especialistas ou, ao contrário, ter a mesma amplamente vista, lida ou escutada por um grande público atento, ainda que leigo.

A “licença para prescindir do público” foi talvez pela primeira vez formulada e concedida, ao menos em música, no manifesto Who cares if you listen ?, de Milton Babbit (1916-2011), compositor e professor da Universidade de Princeton, publicado em 1958 pela revista High Fidelity. No célebre ensaio, Babbitt defende a tese de que a universidade se constitui no lugar ideal para o compositor criativo, uma vez que somente nela fica o mesmo livre de qualquer compromisso com a aceitação pública de sua obra.

Lasco, no entanto, o palpite de que a grande maioria dos pintores, escultores, escritores, compositores e cineastas deva preferir, inquestionavelmente, a segunda opção.

Fazendo, ainda, as vezes de advogado do diabo, caberia perguntar se a profusão de textos secundários disponíveis em teses e periódicos sobre o discurso artístico não contribuiriam de forma decisiva para o entendimento e, quando fosse o caso, realização (como na música), do mesmo. Não tenho resposta. Por isto mesmo, quero conhecer o contraditório – a saber, o valor de textos analíticos secundários para uma melhor realização e/ou compreensão de discursos artísticos.

* * *

P.S.: comecei a ler, meses atrás, o grande livro de Michael Benson sobre 2001: Uma Odisséia no Espaço. Ainda que nem todo filme mereça um livro a seu respeito, com certeza qualquer obra de Kubrick justificaria o volume. Por isto, será interessante rever mais uma vez o épico espacial do cineasta após concluída a leitura (que interrompi para ler outras coisas mas, oportunamente, devo retomar) para saber de que modo a obra secundária afetou minha apreciação da primária.

Apelos por menos informação surgem onde ela é tudo o que importa

The article as it originally appeared.

À medida em que a população de livros e periódicos continua a explodir, bibliotecários reclamam que o espaço nas prateleiras está acabando e que os custos estão fora de controle. Ao mesmo tempo, autores e estudiosos dizem que a multiplicidade de publicações medíocres torna impossível peneirar as que contém ideias novas.  A proliferação de livros e periódicos parece ter reduzido o acesso à informação ao invés de aumentá-lo, e algumas universidades estão pensando em maneiras de encorajar seus corpos docentes a publicar menos, não mais.

” Há gente que publicou 400 manuscritos durante sua vida, e alguns muito mais do que isto “, disse Marcia Angel, editora do New England Journal of Medicine. ” É difícil acreditar que alguém possa realizar trabalho realmente importante nesta escala. “

O excesso de informação é mais grave nos campos científicos, onde o número de periódicos publicados mundialmente excede hoje 40.000. Em razão dos periódicos se destinarem a públicos tão pequenos, os preços podem ser astronômicos. Para citar um exemplo extremo, uma assinatura anual de um periódico de física nuclear publicado na Holanda custa 3.885 dólares e inclui mais de 11.000 páginas.

Por sua vez, alguns jovens pesquisadores de Harvard, da Universidade da California em Berkeley e de outras universidades renovaram esforços para que escolas fundamentassem decisões sobre carreiras mais no desempenho em aulas e na quantidade de fundos de pesquisa que membros de seus corpos docentes tenham colhido do que no número de livros e artigos que publicaram. Um relatório divulgado pela Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching em 1986 também recomendou que professores sejam avaliados mais por seu ensino do que por sua habilidade em publicar.

Limites à Publicação

Em fevereiro de 1988, a Harvard Medical School editou novas diretrizes para progressões docentes, recomendando que fossem requeridos não mais do que 5 trabalhos publicados para candidatos a professor assistente, 7 para professores associados e 10 para titulares. Candidatos anteriores, na tentativa de impressionar julgadores, submetiam o máximo que podiam.

O crescente número de periódicos ocorre numa época em que cientistas confiam cada vez menos neles. As últimas ideias em ciência são tipicamente trocadas muito antes de sua publicação formal, em conferências e através de cópias  de papers distribuídos antecipadamente por máquinas de fax e redes de computadores.

Richard M. Dougherty, diretor da biblioteca da Universidade de Michigan e presidente da American Library Association, disse que bibliotecários tem sido forçados a cancelar assinaturas montando às centenas de milhares de dólares de periódicos científicos raramente usados. Mas o cancelamento de assinaturas parece causar apenas uma espiral mortal, na qual editores precisam cobrar mais para compensar listas de envio menores.

Henry H. Barschall, professor aposentado de física na Universidade de Wisconsin, estudou o custo/benefício de 200 periódicos de física e descobriu que, em geral, os mais caros são menos propensos a serem citados em outros periódicos e presumivelmente menos passíveis de serem lidos. ” Quando me tornei ativo como pesquisador em física 40 anos atrás, costumava ler tudo o que saía “, disse. ” Hoje, isto é impossível. Ninguém pode ler tudo o que é publicado em seu campo. “

Armazenamento de Livros

Conquanto periódicos possam ser relegados ao microfilme, bibliotecas ainda precisam criar espaço para o fluxo contínuo de livros. E apesar de que a informação seja crescentemente disponível através de redes de computadores, bibliotecários dizem que o acesso a estas redes é caro e mantenedores de bibliotecas frequentemente preferem trabalhar com material impresso. A maioria das bibliotecas de pesquisa teve recentemente que construir instalações de armazenamento remotas onde materiais mais antigos e menos usados repousassem até serem convocados para uso. A Universidade da California em Berkeley possui mais de três milhões de volumes no acervo; a Universidade de Michigan, mais do 900.000 e a Columbia, 400.000. Em Harvard, bibliotecários tiveram recentemente que tomar a difícil decisão de começar a transferir livros de suas prateleiras na Widener Library para um local de armazenamento a 45 minutos do campus para dar espaço a novos livros.

Apesar de que materiais armazenados sejam geralmente recuperáveis em horas, pesquisadores reclamam que remover livros de estantes nas quais possam ser manuseados ou neles se possa tropeçar acidentalmente impede a pesquisa. A Association of Research Libraries, em Washington, previu que todas as suas 119 bibliotecas associadas terão locais de armazenamento remotos nos próximos cinco anos.

Surpreendentemente, a única biblioteca que ainda não sofreu com a elevação do custo de periódicos e o encurtamento do espaço em estantes é a Biblioteca do Congresso, que acumula mais de 88 milhões de itens em três prédios. A biblioteca recebe 31.000 novos livros a periódicos por dia e guarda 7.000 deles. Por meio do armazenamento de muitos textos em microfilmes e discos óticos, bibliotecários esperam alargar o espaço em estantes até o final do século, de acordo com a porta-voz Nancy Bush. ” Temos tudo o que o New York Times publicou numa única gaveta “, diz.

A Biblioteca do Congresso é também a única que não paga pela maior parte de suas publicações seriais. Muitos dos periódicos estrangeiros vem de intercâmbios internacionais, e editores domésticos precisam enviar cópias gratuitas à biblioteca ao reivindicar direitos autorais.

Um resultado do excesso de livros e periódicos é que bibliotecários se tornaram mais discriminatórios, microfilmando materiais essenciais e cancelando assinaturas dos que não são. ” Acho que, pela primeira vez, estamos nos tornando bons consumidores “, diz Michael A. Keller, bibliotecário universitário associado em Yale. ” Estamos tentando indicar aos criadores de toda essa informação que temos a responsabilidade de escolher. “

Mais sobre a burrice ostentação

Há pouco tempo, comentei, sob o deceptivo título Por uma web semântica, sobre a atual tendência, no imaginário brasileiro, de sustentação de opiniões como se fossem verdades auto-evidentes sem qualquer esforço de comprovação das mesmas, até como se isto não fosse necessário, em flagrante violação de qualquer lógica ou método científico. Com isto, o que antes pertencia (ou ao menos pretendia pertencer) ao domínio da razão, repentinamente se transfere ao âmbito da fé. Quando esta guinada, típica do fundamentalismo religioso, se dá no campo do debate político, se prenuncia uma ditadura.

Felizmente, o fenômeno já não passa despercebido, para além dos memes, ocupando algumas das mentes mais argutas da inteligência nacional. Primeiro foi o cineasta Jorge Furtado, o qual, ao fim de uma entrevista a ZH, se referiu, ainda que de passagem, à nova moda de se sentir orgulho da própria ignorância. Vá lá que a peça jornalística era dedicada à promoção de seu novo filme, passando por seus últimos trabalhos para a televisão.  Só que Furtado é um irremediável ativista, bem atento e claramente posicionado em relação aos acontecimentos políticos e, como tal, se declarou, respondendo à última pergunta, como pessimista em relação ao futuro da arte e da cultura frente à onda fascista e anti-intelectual que já se faz sentir. Textualmente, eis o que disse:

Sobre o futuro, estou bem pessimista, porque vem um governo de inclinação fascista. As pessoas têm medo dessa palavra, mas na verdade é o que é. O fascismo é contra o saber, a ciência, sabedoria, cultura. Em princípio ele é contra, sempre foi. Então, é muito provável que, nessa nova ordem que está chegando aí, a escola e a cultura e a arte sejam as primeiras vítimas. A escola já está sendo, e a cultura deve ser também, porque é um certo elogio da burrice. É um certo orgulho da ignorância: as pessoas não apenas são ignorantes, elas têm orgulho de ser ignorantes. A minha expectativa é muito ruim. É claro que espero, do fundo do coração, estar errado.

Tal observação (mais importante, a meu ver, do que todo o restante da entrevista e fugindo totalmente ao foco da mesma) poderia muito bem ter sido suprimida por um jornalista mais “chapa branca”. Só que, ao contrário, acabou enfatizada, por força da mão invisível de algum editor anônimo, na retumbante manchete

“As pessoas não apenas são ignorantes, elas têm orgulho de ser ignorantes”, diz Jorge Furtado

Normalmente, a edição jornalística tem sido responsável por mutilar o pensamento dos que protagonizam os noticiários. Não foi, no entanto, o que ocorreu aqui. Eu mesmo não teria lido uma longa peça promocional das últimas realizações do cineasta não fosse para situar, num contexto maior, suas sábias palavras realçadas no título da matéria. Devemos, então, neste caso, agradecer ao benfeitor anônimo pela edição da entrevista.

* * *

Apenas dois dias depois, o fenômeno da burrice ostentação, ao qual eu já tinha aludido e que foi mencionado de raspão por Furtado em sua entrevista a ZH, foi objeto de análise mais demorada por Eliane Brum em El País. Numa peça de fôlego, está tudo ali. Desde a ascendência “intelectual” de Olavo de Carvalho sobre Bolsonaro até os maiores disparates proferidos por Ricardo Vélez-Rodriguez (futuro ministro da educação) e Ernesto Araújo (futuro ministro das relações exteriores), ambos indicados por Carvalho.

Isto tudo antes que o nome de Damares Alves (sem dúvida a figura mais bizarra do próximo ministério) sequer houvesse sido trazido à baila. Súbito, sou acometido por um inadiável desejo de conhecer o que Elaine Brum disse ou dirá sobre a nova ministra das mulheres, família e direitos humanos.

Por que restaurantes são tão barulhentos: em prol de espaços gastronômicos mais silenciosos

O facebook é uma ótima caixa de ressonância para testar o apelo de um tema. Em razão da grande repercussão, tanto pela quantidade de curtidas como de comentários, de duas tiradas jocosas que lasquei sobre restaurantes barulhentos, tive a gratificante sensação de não estar só no ressentimento que nutro, nem tanto em relação aos ambientes, mas a muitos de seus frequentadores.

Inventariei duas causas mais frequentemente levantadas para o fato de que tantos espaços dedicados à gastronomia ou mesmo à mera alimentação sejam tão insuportavelmente ruidosos. Enquanto uns apontam que o tratamento acústico de restaurantes visando o conforto auditivo é, na maioria das vezes, absolutamente ignorado, outros concordam que falta a muitos frequentadores destes espaços, por definição compartilhados, um mínimo de decoro e respeito para com os demais clientes.

O melhor engenheiro acústico que conheço, meu amigo Marcos Abreu (minha generosidade (jamais exagero) ao elogiar meus amigos não deve ser, a estas alturas, novidade para ninguém), vai mais longe ao sugerir que as duas coisas (frequentadores excessivamente animados e acústica inadequada) estão relacionadas, da seguinte maneira: a reverberação (não amortecimento de ondas sonoras), decorrente de muitas superfícies sem tratamento acústico apropriado, contribui para a substancial elevação do ruído de fundo ao ponto de que mesmo interlocutores próximos tenham que elevar demasiadamente a voz para se fazerem entender. Se instaura, então, a gritaria, numa espécie de competição para ver quem ganha ao falar mais alto mas na qual todos saem perdendo.

Há bastante literatura sobre o assunto. Marcos me enviou um texto (cujo acesso exige um cadastro – largamente compensado, no entanto, pela qualidade da leitura), publicado originalmente em The Atlantic, no qual a jornalista Kate Wagner esmiúça bem a questão, traçando a história da arquitetura de restaurantes e fornecendo, além disto, vários links para muito do que já foi dito sobre o assunto. Nele, uma frase resume perfeitamente o problema: ” Restaurantes barulhentos são mais lucrativos. ” Por muitas razões, dentre as quais 1) superfícies lisas são mais fáceis de limpar; 2) conjuntos de acessórios e utensílios de mesa (que contribuem para reduzir a reverberação) mais sucintos, além se serem mais baratos, envolvem menos gastos com pessoal e, last but not least, 3) o ruído excessivo induz a um maior consumo de álcool – o qual, evidentemente, gera mais lucro.

* * *

Uma das coisas que acho mais fascinantes em redes sociais é que, por mais que queiramos promover esta ou aquela discussão, não temos qualquer controle sobre quais direções as mesmas irão tomar. Assim, quando quis falar sobre comensais estrepitosos, Marcos acabou se apropriando de minhas postagens para falar dos desígnios de arquitetos e donos de restaurantes. Adoro esta imprevisibilidade.

Por isto, recorro, agora, ao espaço mais monológico do blog para concentrar o foco no problema da falta de decoro de alguns frequentadores de cafés e restaurantes. Não que eu repudie a boa conversa nestes espaços – ao contrário, poucos prazeres se comparam ao de trocar ideias com entes queridos ao redor de uma boa mesa. Notem que os verdadeiros apreciadores destas ocasiões quase sussurram uns aos outros, como se contassem segredos que não quisessem compartilhar com mesas vizinhas. Infelizmente, o comportamento contrário é tão ou mais frequente, como se quisessem tornar tudo o que é dito público para quem mais estiver no recinto, além da fronteira das próprias mesas. É a estes frequentadores que dirijo esta diatribe.

Não creio que o façam conscientemente. Antes, por uma questão de educação (não falo, aqui, de etiqueta ou boas maneiras, mas de formação mesmo). Quem grita em locais públicos desconsidera o fato de que muitos dos que ali estão possam ter especial apreço pelo silêncio, seja para conversar, ler um livro ou, quando for o caso, inebriar os sentidos em reverência à arte do cozinheiro.

* * *

Frequentador solitário contumaz de restaurantes em horário de almoço, sou invariavelmente exposto a conversas alheias. Exceto quando tento ler algo, tal sorte de invasão não costuma me incomodar. Com o tempo, passei até a me divertir com a coisa. Primeiro, desenvolvendo uma tipologia. Famílias não almoçam fora – exceto, é claro, em fins de semana, quando povoam as churrascarias. Tampouco casais, que preferem jantar juntos. Com isto, há, predominantemente, 1) almoços de negócios e 2) almoços de confraternização. Nesta última categoria, são bem comuns as “confrarias” que se reúnem, talvez mensalmente, e que, nesta época, trocam presentes de amigos secretos. Jamais falam de trabalho. Os mais jovens falam de namorados. Os mais velhos, de filhos, netos e viagens. Todos parecem se divertir muito.

(meu pai costumava dizer que, pela idade média de um grupo (masculino) de amigos, se pode muito bem adivinhar do que falam: até os 40 anos, falam com certeza de mulheres; dos 40 aos 60, o assunto mais provável é comida; depois dos 60, trocam dicas de medicamentos)

Os almoços de negócio são de longe os mais problemáticos. Mesmo que não saibamos qual o produto ou serviço que está sendo negociado, sempre se pode adivinhar quem é o vendedor: é aquele que mais fala ou, não raro, o único que fala. Dá para imaginar o desejo do comprador de sair correndo dali na primeira oportunidade. Num almoço de negócios, não necessariamente o vendedor fala daquilo que quer vender mas, mais frequentemente, sobre amenidades, enaltecendo sua pessoa de modo a conquistar a confiança do comprador para transações que virão a se concretizar na frieza de um escritório ou numa troca de emails. Pois nunca vi ninguém assinar um contrato num restaurante. Para o observador, o mais gritante é a dissociação entre o que aquilo quer parecer (um encontro informal entre amigos) e o que realmente é (um pavoneamento visando uma transação comercial). Bem disse outro amigo, Jonatha Arruda, que tais reuniões deveriam se restringir aos espaços empresariais.

* * *

Numa primeira tirada engraçadinha, lembrei que houve um tempo, antes do banimento do fumo em locais públicos fechados (e que, portanto, millennials sequer conheceram), em que restaurantes mantinham salões distintos para fumantes e não fumantes. A seguir, clamei por uma evolução, dentro da mesma linha de segregação benigna, na qual espaços gastronômicos venham a oferecer a seus clientes salas estrepitosas e silenciosas.

 

 

In memoriam Fernando Mattos (1963-2018)

É tradição não se falar mal dos mortos. Notem que, em obituários, é prática amplamente disseminada omitir ou, quando muito, relativizar os senões das biografias daqueles que já não estão entre nós. Só que, por mais politicamente correto tal expediente seja, é também bastante injusto – pois tende a nivelar os feitos de todos os que já se foram de tal modo que as realizações dos melhores tendem a se equiparar às dos médios ou mesmo às dos piores.

Pensei nisto enquanto imerso na atmosfera de profundo pesar pela morte precoce de um daqueles que foi dos melhores professores que o Instituto de Artes da UFRGS já teve: o compositor Fernando Mattos (1963-2018). Que não se deixe enganar, então, quem acreditar que as inúmeras e importantes homenagens recebidas, desde seu trágico falecimento em 4 de novembro último, tenham sido motivadas exclusiva ou principalmente pelo enorme vácuo afetivo deixado entre aqueles que lhe eram mais próximos. Fernando era, em todos os sentidos, um compositor e um professor excepcionais.

Falemos primeiro do professor, que é, provavelmente, como a maioria o conheceu. Não há aluno ou ex-aluno do IA que não tenha guardado ótimas recordações de sua atividade educacional. Antes do recital de ontem, alusivo à sua obra, vários outros aconteceram, dentre os quais cabe mencionar o de um de seus ex-alunos, o clarinetista Pedro Schneider, em Los Angeles, incluindo uma de suas composições e dedicado à sua memória.

Foi na atividade docente que muitos conheceram sua generosidade, humildade e amplo conhecimento. A ponto do violonista Thiago Colombo (UFPEL) dizer, num dos incontáveis obituários que pipocaram nas redes sociais, que, se soubesse de alguém que, por qualquer motivo, tivesse brigado com o Fernando, saberia, a priori, sem precisar estar a par dos detalhes, que esse alguém não prestava.

* * *

O recital de ontem à noite apresentou um recorte de sua variada e volumosa obra, começando por sua primeira composição (Poemeto, para violão solo) até provavelmente a última (Toda Noite, para coral e contrabaixo), composta entre o primeiro e o segundo turno das últimas eleições – nas quais, aliás, se engajou ativamente em favor do lado mais humano e democrático. Tudo o que foi lá executado, por colegas e alunos, e ouvido corrobora a convicção de que Fernando, além de ter amplo domínio sobre a escrita para os mais diversos instrumentos, foi fluente em muitas linguagens. Com isto, não é possível atribuir a sua música um “estilo privativo” – i.e., aquilo (como, por exemplo, uma linguagem harmônica  específica) que permite que identifiquemos prontamente um compositor ao ouvir uns poucos sons de suas obras. Demérito ? Penso o contrário: antes, total comando sobre o métier.

Deste modo, foi possível ouvir, ao longo da noite de ontem, a melhor escrita violonística contemporânea (Fernando era exímio violonista e alaudista) já em sua primeira obra e traços de madrigais renascentistas (Fernando também cultivava uma intensa relação com a música antiga, pela qual nutria especial apreço) na última. Em meio a tudo isto, penso ter ouvido, lá pelas tantas, ecos de Messiaen (alguém mais ouviu ?) – e há quem reconheça em sua música uma inegável influência de Hindemith. Provavelmente, todos estão certos. Tudo isto me fez lembrar uma alcunha que apús a outro eclético e prolífico compositor do IA, Hubertus Hofmann (1929-2011), a partir de como Millôr Fernandes se auto proclamava: ” – Enfim um compositor sem estilo ! “

Descansa em paz, Fernando !

Por uma web semântica

Hoje, ao abrir o facebook, me deparei com duas postagens independentes, por pessoas que talvez nem se conheçam entre si, mas que propagavam, essencialmente, uma mesma mensagem. Foram elas

e

postadas, respectivamente, por Elena Romanov e Manuelai Camargo. Ambas expressam uma realidade, conquanto sutil, bem importante e atual – o que me levou, de pronto, a ponderar sobre o quão benéfico seria, para a aglutinação e posterior discussão de ideias, um modo automático de detecção de conteúdos relacionados, capaz de aproximar estranhos entre si que partilhem preocupações comuns.

Tal objetivo é perseguido pelo filósofo e cientista da informação (os rótulos são meus) Pierre Lévy, professor da Universidade de Paris 8, nascido na Tunísia. Sem conhecer detalhadamente o estado atual de seu grupo de pesquisa, sei apenas que almeja uma internet inteligente, capaz de operar automaticamente com significados sem intervenção humana. Sem sombra de dúvida um importante passo a ser dado em relação à inteligência artificial.

Os mais céticos e/ou argutos hão de dizer: ” Ora, mas isto já existe ! “, alegando que os hashtags (#) apostos a enunciações – utilizados, primordialmente, para medir trending topics – dão conta desta tarefa. Só que esta constatação apressada não leva em conta que hashtags são atribuídos por humanos pretendendo incluir seus pitacos num todo maior. E mesmo que usuários de redes sociais se abstivessem de rotular suas falas, deixando aos próprios algoritmos a tarefa de caçar palavras comuns capazes de relacionar o que cada um diz a uma “conversa” maior, tal expediente seria ainda muito limitado em relação à utopia vislumbrada por Lévy. Vejam, por exemplo, os dois “memes” acima, obviamente relacionados.

Neles, ainda que se esteja falando da mesma coisa, não há qualquer palavra comum a ambos capaz de relacioná-los automaticamente. Pois notem que, enquanto o primeiro menciona uma expressão calabouço, plenisignificante – a saber, anti-intelectualismo – o segundo a caracteriza perfeitamente por meio de uma série de exemplos sem, no entanto, recorrer a mesma sequer uma vez.

Então, até que uma verdadeira ferramenta algorítmica esteja disponível, preocupações importantes como esta caminharão paralelamente por um longo tempo, sem que seus portadores se conectem, até que, por obra do acaso ou alguém que a priorize, se torne um movimento que venha a realizar alguma ação concreta contra esta tendência tão nefasta.

* * *

Pierre Lévy já esteve no Brasil várias vezes, tendo, inclusive, participado do Fronteiras do Pensamento e sido entrevistado no programa Roda Viva. Há uma miríade de vídeos disponíveis com suas falas – razão pela qual eleger um, para fins ilustrativos, constituiria não mais do que um recorte arbitrário e reducionista. Por isto, deixo o grau de aprofundamento em seu pensamento a critério da vossa curiosidade – sugerindo apenas que pesquisem, além de seu nome, o conceito de web semântica que lhe é tão caro.

Arlequim, de Karlheinz Stockhausen (1928-2007), por Paula Pires, clarinetista

Tive o prazer e o privilégio de assistir, na última quinta-feira, a  uma performance do Arlequim, de Karlheinz Stockhausen (1928-2007), pela clarinetista Paula Pires. Não vou me deter, aqui, em peculiaridades da obra (que são muitas) nem tampouco na contextualização de sua criação e estreia,  até por que o público alvo deste post, tão escasso quanto o que esteve presente naquela apresentação ou, de resto, o de qualquer outra obra do compositor, é presumivelmente familiarizado com sua linguagem, a qual pode ser chamada de tudo menos de convidativa (ao menos aos ouvidos da maioria).

Explico. Stockhausen foi uma das figuras centrais do movimento conhecido com Escola de Darmstadt que, a partir da metade do século 20, desafiou tudo o que era estabelecido em termos de composição musical, por isto mesmo abrindo mão da obrigatoriedade de uma comunicação fácil com o público – fortemente, esta, dependente de uma certa repetitividade que dominou toda a música anteriormente composta. Resumidamente, Stockhausen poderia ser, então, descrito, para desespero de musicólogos e ouvintes mais… “especializados”, como um compositor hermético.

Como eu já disse, o público que afluiu à raríssima execução do Arlequim, na semana passada, no Instituto Goethe de Porto Alegre, foi, pela razão acima sumariada, minúsculo. Estimo que entre 10 e 20 pessoas, na maioria participantes do Primeiro Festival Internacional de Clarinetistas de Porto Alegre, de cuja programação a performance de Paula fazia parte. Por que insisto tanto nisto – a saber, na atribuição do rótulo “música para poucos” ao Arlequim ?

Contrariamente ao que parece, não vai aí qualquer reprovação ao hábito do público médio frequentador de concertos, que teima em privilegiar a mesmice em detrimento de tudo o que lhe é estranho – deixando, com isto, numa sinuca programadores de espetáculos que precisam se justificar perante apoiadores com casas lotadas. Se enfatizo o pouco apelo da obra ao ouvinte médio é, pois, tão somente para não deixar qualquer dúvida sobre o fato de que o caráter sublime de um gesto artístico independe de seu apelo popular – estando, não raro, em franca oposição ao mesmo.

* * *

Toco em concertos sinfônicos várias vezes ao mês. Com frequência um pouco menor (hoje bem menos do que antes), assisto a outras apresentações musicais. Mas se me perguntarem o que toquei ou ouvi ao longo dos últimos anos ou décadas, é bem provável que já tenha me esquecido de grande parte deste oceano musical (afortunadamente, muitas vezes).

Este certamente não foi o caso do que vi, ouvi e senti naquela noite no Instituto Goethe. Pois o Arlequim de Stockhausen é muito mais do que uma música  no sentido restrito, isto é, existente apenas enquanto uma partitura que, para ganhar vida, deve ser tocada por um músico ou conjunto de músicos. Sim, a partitura existe. Mas termina aí qualquer semelhança com tudo o que eu já ouvira antes.

Primeiro, é claro, por que a música do Arlequim deve ser executada em perfeita coordenação com movimentos coreográficos executados pelo clarinetista segundo especificações minuciosas do compositor. Ora, isto não é pouca coisa, uma vez que músicos são normalmente treinados para executar seus instrumentos em configurações estáticas, sentados ou em pé, ocupando um espaço limitado, como num cockpit. Depois, por que, em decorrência deste acúmulo atípico de funções (no ballet, por exemplo, músicos tocam enquanto bailarinos dançam), a complexa partitura deve ser totalmente memorizada pelo músico.

Céticos hão de dizer, aqui, que solistas de concertos estão habituados a tocar “de memória”. Me atrevo, no entanto, a supor ser muito mais fácil memorizar, de um lado, uma obra em formas tradicionais, com seções claramente delimitadas e um “texto” previamente fixado e exaustivamente ouvido, ao vivo e em gravações, do que, de outro, uma peça com espaço para improvisação controlada e sem a profusão de “ganchos” métricos e tonais peculiares ao repertório de concerto mainstream, nos quais tanto intérpretes como ouvintes invariavelmente se apoiam.

Tudo isto faz do Arlequim de Stockhausen nem música pura nem tampouco incidental. Sua concepção, por assim dizer, holística do intérprete é algo, senão único, ao menos sem precedentes (pois provavelmente já deve ter sido imitada) na história da música ocidental.

* * *

Bom. Vim aqui para falar de uma performance e me pego traindo meu propósito inicial ao me deter em tantos pormenores da obra. É que não tive como fugir disto. Pois não há como se ter sequer uma pálida ideia da magnitude do feito de Paula ao dar vida ao Arlequim a não ser por meio da consciência de tudo o que a tarefa implica. Mas não tentarei, nesta anti-resenha, descrever a experiência em detalhes para quem não esteve lá. Principalmente por que seria inútil. Suficiente, então, sublinhar que a performance de Paula foi marcante em todos os aspectos.

Quando entrei no teatro, era cético (devo confessar) quanto ao sentido de alguém se especializar com tamanha intensidade na realização de uma obra musical a ponto de, entre tantas coisas, viajar a outro continente para estudar com quem a estreara sob a supervisão do próprio compositor; dedicar tempo e esforço enormes à memorização da mesma (tempo e esforço, estes, suficientes para se apreender um vasto repertório mais… tradicional); ou, ainda, enfrentar a árdua disciplina física necessária à sua execução.

Então, ao longo dos cerca de 40 minutos de duração da performance, sofri uma transformação. Não há como descrever o encantamento a que todos os que estavam ali foram submetidos (a julgar pela ovação ao final). Fui lá desconfiando que testemunharia algo único e, consoante a isto, portando uma câmera fotográfica para melhor ilustrar este post que, também desconfiava, acabaria escrevendo. Só que, imerso na escuridão e no silêncio tão cruciais àquilo tudo, desisti de conspurcar a atmosfera com os disparos da máquina. Felizmente, encontrei um registro em vídeo de uma performance anterior de Paula, o qual, infelizmente, pouco revela do que foi ter a atenção exclusivamente capturada pela magia daquele momento. Quando fui embora, todas as minhas dúvidas haviam se dissipado.

Hoje, passados alguns dias, sigo impactado por aqueles minutos, tendo renovado meu entendimento, ainda que intangível, impossível de ser vertido em palavras, da necessidade da arte. Acho que esta sensação não é só minha. Muito obrigado, Paula !

 

 

Por uma verdadeira reforma política: o problema dos CCs e dos representantes parlamentares

Não é de hoje que sustento que toda a tragédia da política resulta primordialmente de um fato, tido como espécie de cláusula pétrea de todo sistema democrático parlamentar e de governo – a saber (no caso dos governos; o problema da representação parlamentar será tratado mais adiante), a nomeação de cima para baixo dos ocupantes dos cargos ditos de confiança, mais conhecidos como CCs, tais como ministros, secretários de estado e detentores de cargos em escalões inferiores que sejam nomeados por governantes eleitos ou seus prepostos imediatamente subordinados.

Imaginem, assim, toda a pirâmide administrativa com um presidente (na esfera federal), governador (na estadual) ou prefeito (na municipal) no topo e um círculo ligeiramente mais numeroso de ministros e secretários nomeados pelos primeiros sem a obrigatoriedade de consulta a qualquer setor afetado pelas nomeações. Abaixo disto, há um plano mais numeroso ainda de diretores nomeados, sob as mesmas condições, por estes ministros e secretários – os quais, por sua vez, possuem a prerrogativa de nomear para as organizações sob sua direção, também sem qualquer obrigatoriedade de consulta às comunidades afetadas, legiões ainda maiores de ocupantes de “cargos de confiança”.

A pergunta que deve ser feita é: da confiança de quem ? Pois, ainda que um presidente da república, governador ou prefeito possa legitimamente confiar em sua equipe mais próxima de ministros ou secretários, é humanamente impossível a qualquer governante eleito confiar, por delegação de responsabilidade, na competência e na integridade de cada ocupante de cargos designados por seus subalternos imediatos e, menos ainda, por subalternos destes subalternos e assim por diante – de tal modo que é razoável se supor (e isto é, de fato, o que geralmente acontece) que, em algum escalão de nível inferior, longe da vista do governante no topo de cada pirâmide, fatalmente se instalarão oportunistas de plantão, quase sempre políticos filiados a algum partido que não lograram eleição para cargos de maior evidência e melhor remunerados.

Temos, então, que, em pirâmides administrativas, a confiança se degrada descendentemente, do topo em direção à base. Políticos eleitos sabem disto e, por esta razão, invariavelmente prometem, em suas campanhas, que suas equipes administrativas serão compostas por critérios exclusivamente técnicos – promessa que é, no entanto, deixada de lado, nas fuças dos eleitores, tão logo os eleitos começam a montar suas equipes para o primeiro escalão.

Neste contexto, o que temos, então, invariavelmente (exceto, talvez, em universidades federais, cujos reitores e diretores já são escolhidos pela comunidade acadêmica), gestores diretos (diretores) e indiretos (secretários) de escolas, hospitais e outros equipamentos públicos que foram escolhidos sem que jamais as comunidades afetadas (usuários e servidores) fossem consultadas.

* * *

Imaginemos, agora, um paradigma inverso, no qual governantes não pudessem mais escolher subordinados (eliminando-se, com isto, toda indicação política) mas, ao contrário, os mesmos fossem escolhidos ascendentemente pela maioria da população afetada sob cada esfera administrativa. Assim, pais, professores e alunos escolheriam diretores de escolas; pacientes, médicos e servidores escolheriam diretores de hospitais; juízes e a sociedade organizada escolheriam os membros do STF e até o ministro da justiça; e assim por diante.

* * *

Feito este exercício hipotético, é fácil antever possíveis objeções levantadas – as mais óbvias dentre elas sendo a ingovernabilidade resultante e a complexidade de implementação. Vejamos cada uma delas separadamente.

* * *

Desde as primeiras vezes em que, décadas atrás, formulei esta utopia, sempre ouvi dos mais cínicos que ninguém conseguiria governar sem exercer a prerrogativa de nomear seus subalternos imediatos. Como resolver conflitos de interesse como, por exemplo, a partilha de orçamentos entre setores concorrentes ?

Ora, é claro que o exercício do poder, num sistema em que governantes não mais pudessem impor sua vontade pessoal mas, ao invés, tivessem que mediar tais interesses conflitantes, seria inegavelmente muito mais difícil, requerendo um talento como negociador muito maior do que aquele a que estamos acostumados a reconhecer entre nossos políticos. Mais: para que serviria um presidente, governador ou prefeito que não pudesse nomear equipes de governo ? Ótima pergunta, pois, face ao que a política, independentemente de partido, tem nos proporcionado recorrentemente, chega até a ser desejável um sistema no qual detentores de cargos majoritários tenham cada vez menos autoridade, se tornando figuras cada vez mais simbólicas. Noutras palavras, uma redefinição radical daquilo que normalmente entendemos como um estadista.

Não posso afirmar com segurança se um sistema como o aqui proposto deve ou não ser considerado como anárquico. Por isso mesmo, deixo a rotulagem para os cientistas políticos. O que posso, sim, afirmar é que tal configuração seria um passo importantíssimo em direção à tão necessária (acho difícil alguém não concordar com isto) descentralização dos governos e que, portanto, valeria a pena ser experimentada.

* * *

A outra objeção facilmente levantada em relação a um sistema de nomeação de confiança ascendente (i.e., pela maioria) reside em sua complexidade de implementação. A própria definição de “comunidade afetada”, essencial ao modelo, é escorregadia, variando enormemente em cada caso. Por exemplo: como determinar em que proporção (peso) os pacientes, servidores e corpo clínico de um hospital devem ser considerados quando da escolha da direção do mesmo ? Mais: ainda que médicos e servidores constituam um conjunto relativamente estável, como delimitar a esfera dos pacientes atendidos, que variam constantemente em cada comunidade ?

Claro está que, em suas peculiaridades, cada caso é um caso. Exatamente por isto, a implementação de tal modelo só poderá se dar de modo progressivo, umas poucas instâncias de cada vez, até que se chegue, empiricamente, a algum tipo de fórmula consensual.

A tarefa também seria enormemente difícil para a justiça eleitoral, acostumada que é a conduzir pleitos para uns poucos cargos a cada dois anos. Numa sociedade como a antevista acima, as consultas seriam muito mais numerosas e praticamente contínuas. Já existe, todavia, tecnologia para tanto. A solução passa, necessariamente, pela universalização do voto eletrônico e facultativo, desonerando a justiça da complexa logística das seções eleitorais e das apurações centralizadas. Com isto, o maior empecilho não está tanto na viabilidade técnica mas na vontade política – o que nos leva diretamente à próxima discussão.

* * *

Se uma ideia como esta fosse assim tão boa, por que políticos a ignoram sempre que falam, com ares de importância, numa necessária reforma política ? Ora, por que não interessa a governantes eleitos nem tampouco a partidos políticos perder a prerrogativa de nomear CCs. A simples supressão do expediente debilitaria, talvez irreversivelmente, a estrutura partidária, pela simples abolição de sua moeda de troca mais corrente. Pois, ainda que só uns poucos se filiem a partidos nutrindo reais ambições de se elegerem, muitos de afiliados certamente lá estão na esperança de serem lembrados na hora em que, depois de cada eleição, forem preenchidos os numerosos cargos dos escalões inferiores.

Mais ou menos a mesma lógica de obsolescência em relação aos governos centralizadores se aplica, também, à representação parlamentar. Sejamos honestos: para que precisamos de representantes hoje, quando já podemos votar diretamente sobre quaisquer questões que nos digam respeito ? Numa era de facilidades digitais, por que precisamos sustentar onerosas casas legislativas tão somente para permitirmos que políticos, detentores de procurações em branco, decidam em nosso lugar ? Estou aqui, é claro, a falar de uma política plebiscitária, sem intermediários, de complexa implementação, mas para a qual as condições tecnológicas já existem. O que falta, novamente, é só vontade política.

O que leva, fatalmente, à questão: como esperar de atuais legisladores qualquer reforma política de fundo que, ao mesmo tempo, suprima parlamentares e limite o poder de governantes ? A resposta, óbvia, é que não podemos esperar de uma classe política acostumada a mamar nas tetas do que é público que corte a própria carne. O tema, então, se prosperar, deve ser obrigatoriamente objeto de deliberações à revelia do parlamento tais como emendas populares e/ou uma constituinte exclusiva. Ou seja, não será fácil.

Primeiro, é preciso plantar a ideia nas mentes das pessoas. Depois, lembrar que configurações democráticas não possuem um status de irrevogabilidade; tendo já sido diferentes ao longo da história (ainda que o timing das mudanças de concepções políticas seja bem lento, com cada modelo valendo por vários séculos ou gerações). É neste esforço que este post se insere. Obrigado pela atenção dispensada a sua leitura !

Sobre mitos trazidos à baila na atual campanha eleitoral (ii): a ideia de que devemos confiar na direita por que ela representa, ao contrário da esquerda, o que já foi testado e deu certo

Hoje, postei no facebook o seguinte:

Conforme anunciado ontem, sigo, até o segundo turno, esmiuçando mitos que sustentam a candidatura mais à direita. Tenho especial apreço pela lógica e, consoante a isto, o que gostaria de sublinhar hoje é a natureza falaciosa de um argumento frequentemente empregado contra ideais igualitários e em prol do liberalismo – a saber, o de que, enquanto a direita representa o que já foi testado e deu certo, a esquerda propõe ideias que, na melhor das hipóteses, jamais foram testadas, ou, na pior, foram historicamente implementadas e rejeitadas.

Ouvi pela primeira vez esta definição furada dos campos de esquerda e direita formulada por Olavo de Carvalho (prefiro a de Gilles Deleuze, mas isto não vem ao caso agora; nos comentário, talvez…)

Percebem a circularidade do argumento ? Segundo o mesmo, só o que já foi posto à prova pode funcionar; mas não devemos por à prova o que pode não funcionar. Ora, pela mesma “lógica”, o homem jamais teria ido à lua, nem tampouco realizado viagens de circum-navegação.

Então, ao menos em nome da razão, descartem a ideia de alguma superioridade da direita sobre a esquerda exclusivamente com base em seus históricos de implementação. Até por que grandes forças escusas (já ouviram falar, por exemplo, na Atlas Foundation ?) contribuíram e continuam contribuindo decididamente para o aparente êxito de alguns regimes de direita, invariavelmente mantidos pela força e cercados por cinturões de miséria. Mas isto já é assunto para outra postagem. Fiquem, então, por hora, nos comentários abaixo, com as definições dos dois campos por Carvalho e Deleuze.

Então, nos comentários logo abaixo da postagem, postei os seguintes videos, que falam por si só:

* * *

Pouco depois, ainda conclamei amigos à não agressão verbal de adversários políticos (tendência que, felizmente, tenho constatado cada vez mais em redes sociais (ao menos no campo da esquerda)):

Peço, encarecidamente, que se abstenham de xingar ou ridicularizar publicamente bolsonaristas, tanto em minha timeline como em qualquer outra, pois isto não levará a nada em termos de conquistar seus votos (muito antes o contrário). Então, se todos morderem a língua quando tiverem vontade de empregar termos pejorativos, por mais engraçados que pareçam, aumentam as chances de trazê-los à razão. Valorizem o intelecto de seus adversários. Abracem um eleitor de Bolsonaro por dia até o segundo turno !

* * *

Completando o dia de campanha, compartilhei, finalmente, uma postagem, altamente didática, do Idelber Avelar sobre o valor, para a conquista de votos, de se infiltrar no campo adversário. Idelber falou, especificamente, de grupos bolsonaristas no Whatsapp. Vale a pena, também aqui, a citação por extenso de sua postagem:

Relato de experiências em grupos bolsonaristas de Whatsapp

Passei as duas últimas semanas da campanha do 1˚ turno infiltrado em grupos bolsonaristas de Whatsapp, tentando roubar-lhe votos, sempre em conversas privadas, fora do grupo, iniciadas com eleitores que me pareciam mais suscetíveis à dúvida. Não sei quanto sucesso tive, mas acredito ter lhe tirado, sim, algumas poucas dezenas de votos. Relatar essa experiência, a quem interessar possa, é o objetivo das linhas que seguem.

1. A primeira convicção que se instalou em mim, cristalina, é que era necessário despir-se um pouco da arrogância de quem acha que já entendeu tudo. O bolsonarismo é uma articulação inédita da extrema-direita, que não se parece com nada que conhecíamos antes. Sabemos que ele é extremista, autoritário e violento o suficiente para ser perigoso, mas ele é também uma série de outras coisas para muita gente. Não tenho nenhum problema em caracterizar Bolso como fascista, mas essa palavra, com um eleitor, não vai lhe ajudar em nada.

2. As conversas em que creio ter tido mais sucesso foram aquelas em que falei menos. Ouvir, ouvir, ouvir foi sempre o melhor caminho. Essa escuta me mostrou que os epítetos com que os eleitores de Bolso são rotulados (racistas, machistas, homofóbicos etc.) cumprem um papel bem pequeno na motivação do voto. As preocupações com segurança pública, sim, aparecem com frequência. O horror ao sistema político também tem destaque. A pauta anti-corrupção é constante. E, em primeiríssimo lugar, disparado, o anti-petismo. Esses me parecem ser os motivadores principais do voto em Bolso. As declarações misóginas, racistas e homofóbicas me parecem funcionar muito mais como uma espécie de “grito de torcida”, que energizam a base e a mantêm acesa. Isso não as torna menos graves, é óbvio. Apenas tornam-as menos relevantes na hora da persuasão.

3. Muitos já notaram uma obviedade: o Brasil não tem 49 milhões de fascistas. Mas o Brasil tem, sim, 49 milhões de anti-petistas. Esse fenômeno para você é odioso, inexplicável, inaceitável, coisa de gente burra? Anti-petismo para você é sinônimo de fascismo? É melhor você parar por aqui e desistir de ganhar voto, porque você não vai persuadir ninguém. O anti-petismo é um fenômeno real, enraizado na sociedade, com razões que se remontam ao próprio petismo. “Ah, mas o PT governou sem ameaçar as instituições democráticas! Os bancos ganharam tanto! Empresa nenhuma foi estatizada!” Sim, concordo, mas você não entenderá o anti-petismo olhando apenas a forma como o PT governou. Você terá que olhar também a forma como o PT falou, tagarelou, rotulou, discursou, fez campanha eleitoral como se fosse um partido bolchevique, etiquetando até Marina Silva como “direita fascista”. Essa dinâmica entre atos de governo e atos de fala é a necessária para se entender o anti-petismo, porque o jogo duplo começou a cobrar seu preço: as pessoas não são burras e sacaram a contradição entre governar como se fosse Sarney e tagarelar como se fosse Lênin. Em suma: ou Haddad será um candidato supra-partidário, de uma frente democrática, ou não há a menor chance.

4. Não se chegará a lugar nenhum contra Bolso sem reconhecer que o discurso do golpe foi amplamente derrotado no debate livre que ocorreu na sociedade brasileira. O exemplo perfeito aqui é a campanha de Dilma Rousseff ao Senado em Minas. Toda a sua campanha foi ancorada no discurso do golpe. Tudo o que ela disse ao longo da campanha foi que “as urnas darão uma resposta ao golpe”. De nada ela falou, a não ser de gópi gópi gópi. Tendo sido Presidente do Brasil por um mandato e um terço, ela concorreu contra Carlos Viana, jornalista com zero experiência política, Rodrigo Pacheco, do DEM, um partido há tempos inexpressivo em Minas, e Dinis Pinheiro, uma nulidade do minúsculo Solidariedade. Ficou atrás dos três, em quarto lugar, com 15% dos votos em uma eleição de duas vagas. Recebeu um dos mais claros e sonoros NÃO que um eleitorado já enfiou nas fuças de um político conhecido. Falar de gópi com o eleitor, a estas alturas, é pedir para perder.

5. O bolsonarismo se articula como um rizoma, uma rede descentralizada, um formigueiro em que indivíduos vão produzindo montagens, memes, notícias falsificadas, paródias. Algumas delas (como a falsa notícia de que Haddad teria distribuído mamadeiras em forma de pênis) viralizam para milhões de pessoas. Nesse terreno, a contra-argumentação é inútil. É preciso falar na mesma linguagem. É inacreditável, por exemplo, que até hoje não se tenha feito nada com o vídeo em que Bolso confessa ter estuprado galinhas e cabras.

6. Bolso é deputado há 28 anos e nunca fez nada que preste, mas passou a expressar a revolta contra o sistema político. Recebeu doações da JBS, está na lista de Furnas e utilizou de forma pouco ética o auxílio moradia, mas passou a simbolizar a luta contra a corrupção. Está no terceiro casamento, traiu a esposa (coisas que a mim, obviamente, não interessam em absoluto) e terminou um divórcio com ameaças de morte, mas passou a representar a postura “cristã”. Foge da briga como um covarde, mas passou a ser o emblema do eleitorado “machão”. Sempre votou em favor de um nacionalismo tosco e em defesa de corporações, mas herdou o eleitorado da centro-direita liberal privatizante. Foi explorando esses furos, essas incoerências, que acredito ter puxado alguns votos dele para Daciolo, Amoêdo, Alckmin ou Ciro, dependendo do interesse de cada eleitor.

De resto, a tarefa é inglória mesmo. Haddad é boa pessoa, mas péssimo candidato. O partido ao qual ele é filiado é detestado por metade do eleitorado. Ele tem se comportado como representante de um líder que é amado por 30% da população, mas está preso e é odiado por outros 50%. O tsunami Bolso parece uma daquelas desgraças cuja hora chegou, mas não nos está dada a possibilidade de não lutar. E o terreno é lá mesmo, no Whatsapp. Todo mundo aqui tem um parente bolsonarista. Todo bolsonarista conhece algum outro bolsonarista em um grupo de Whatsapp, que pode te pôr lá dentro em contato com eleitores volúveis. Os grupos se proliferam como coelhos, e é possível que você seja expulso de algum, mas haverá outros. É a única chance que vejo.

Como disse uma amiga, chegamos a uma inacreditável situação: o futuro de nossa democracia e dos direitos humanos no Brasil pode estar dependendo de o PT aprender a usar o Whatsapp. É o que tenho a contribuir.