Sobre mitos trazidos à baila na atual campanha eleitoral (ii): a ideia de que devemos confiar na direita por que ela representa, ao contrário da esquerda, o que já foi testado e deu certo

Hoje, postei no facebook o seguinte:

Conforme anunciado ontem, sigo, até o segundo turno, esmiuçando mitos que sustentam a candidatura mais à direita. Tenho especial apreço pela lógica e, consoante a isto, o que gostaria de sublinhar hoje é a natureza falaciosa de um argumento frequentemente empregado contra ideais igualitários e em prol do liberalismo – a saber, o de que, enquanto a direita representa o que já foi testado e deu certo, a esquerda propõe ideias que, na melhor das hipóteses, jamais foram testadas, ou, na pior, foram historicamente implementadas e rejeitadas.

Ouvi pela primeira vez esta definição furada dos campos de esquerda e direita formulada por Olavo de Carvalho (prefiro a de Gilles Deleuze, mas isto não vem ao caso agora; nos comentário, talvez…)

Percebem a circularidade do argumento ? Segundo o mesmo, só o que já foi posto à prova pode funcionar; mas não devemos por à prova o que pode não funcionar. Ora, pela mesma “lógica”, o homem jamais teria ido à lua, nem tampouco realizado viagens de circum-navegação.

Então, ao menos em nome da razão, descartem a ideia de alguma superioridade da direita sobre a esquerda exclusivamente com base em seus históricos de implementação. Até por que grandes forças escusas (já ouviram falar, por exemplo, na Atlas Foundation ?) contribuíram e continuam contribuindo decididamente para o aparente êxito de alguns regimes de direita, invariavelmente mantidos pela força e cercados por cinturões de miséria. Mas isto já é assunto para outra postagem. Fiquem, então, por hora, nos comentários abaixo, com as definições dos dois campos por Carvalho e Deleuze.

Então, nos comentários logo abaixo da postagem, postei os seguintes videos, que falam por si só:

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Pouco depois, ainda conclamei amigos à não agressão verbal de adversários políticos (tendência que, felizmente, tenho constatado cada vez mais em redes sociais (ao menos no campo da esquerda)):

Peço, encarecidamente, que se abstenham de xingar ou ridicularizar publicamente bolsonaristas, tanto em minha timeline como em qualquer outra, pois isto não levará a nada em termos de conquistar seus votos (muito antes o contrário). Então, se todos morderem a língua quando tiverem vontade de empregar termos pejorativos, por mais engraçados que pareçam, aumentam as chances de trazê-los à razão. Valorizem o intelecto de seus adversários. Abracem um eleitor de Bolsonaro por dia até o segundo turno !

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Completando o dia de campanha, compartilhei, finalmente, uma postagem, altamente didática, do Idelber Avelar sobre o valor, para a conquista de votos, de se infiltrar no campo adversário. Idelber falou, especificamente, de grupos bolsonaristas no Whatsapp. Vale a pena, também aqui, a citação por extenso de sua postagem:

Relato de experiências em grupos bolsonaristas de Whatsapp

Passei as duas últimas semanas da campanha do 1˚ turno infiltrado em grupos bolsonaristas de Whatsapp, tentando roubar-lhe votos, sempre em conversas privadas, fora do grupo, iniciadas com eleitores que me pareciam mais suscetíveis à dúvida. Não sei quanto sucesso tive, mas acredito ter lhe tirado, sim, algumas poucas dezenas de votos. Relatar essa experiência, a quem interessar possa, é o objetivo das linhas que seguem.

1. A primeira convicção que se instalou em mim, cristalina, é que era necessário despir-se um pouco da arrogância de quem acha que já entendeu tudo. O bolsonarismo é uma articulação inédita da extrema-direita, que não se parece com nada que conhecíamos antes. Sabemos que ele é extremista, autoritário e violento o suficiente para ser perigoso, mas ele é também uma série de outras coisas para muita gente. Não tenho nenhum problema em caracterizar Bolso como fascista, mas essa palavra, com um eleitor, não vai lhe ajudar em nada.

2. As conversas em que creio ter tido mais sucesso foram aquelas em que falei menos. Ouvir, ouvir, ouvir foi sempre o melhor caminho. Essa escuta me mostrou que os epítetos com que os eleitores de Bolso são rotulados (racistas, machistas, homofóbicos etc.) cumprem um papel bem pequeno na motivação do voto. As preocupações com segurança pública, sim, aparecem com frequência. O horror ao sistema político também tem destaque. A pauta anti-corrupção é constante. E, em primeiríssimo lugar, disparado, o anti-petismo. Esses me parecem ser os motivadores principais do voto em Bolso. As declarações misóginas, racistas e homofóbicas me parecem funcionar muito mais como uma espécie de “grito de torcida”, que energizam a base e a mantêm acesa. Isso não as torna menos graves, é óbvio. Apenas tornam-as menos relevantes na hora da persuasão.

3. Muitos já notaram uma obviedade: o Brasil não tem 49 milhões de fascistas. Mas o Brasil tem, sim, 49 milhões de anti-petistas. Esse fenômeno para você é odioso, inexplicável, inaceitável, coisa de gente burra? Anti-petismo para você é sinônimo de fascismo? É melhor você parar por aqui e desistir de ganhar voto, porque você não vai persuadir ninguém. O anti-petismo é um fenômeno real, enraizado na sociedade, com razões que se remontam ao próprio petismo. “Ah, mas o PT governou sem ameaçar as instituições democráticas! Os bancos ganharam tanto! Empresa nenhuma foi estatizada!” Sim, concordo, mas você não entenderá o anti-petismo olhando apenas a forma como o PT governou. Você terá que olhar também a forma como o PT falou, tagarelou, rotulou, discursou, fez campanha eleitoral como se fosse um partido bolchevique, etiquetando até Marina Silva como “direita fascista”. Essa dinâmica entre atos de governo e atos de fala é a necessária para se entender o anti-petismo, porque o jogo duplo começou a cobrar seu preço: as pessoas não são burras e sacaram a contradição entre governar como se fosse Sarney e tagarelar como se fosse Lênin. Em suma: ou Haddad será um candidato supra-partidário, de uma frente democrática, ou não há a menor chance.

4. Não se chegará a lugar nenhum contra Bolso sem reconhecer que o discurso do golpe foi amplamente derrotado no debate livre que ocorreu na sociedade brasileira. O exemplo perfeito aqui é a campanha de Dilma Rousseff ao Senado em Minas. Toda a sua campanha foi ancorada no discurso do golpe. Tudo o que ela disse ao longo da campanha foi que “as urnas darão uma resposta ao golpe”. De nada ela falou, a não ser de gópi gópi gópi. Tendo sido Presidente do Brasil por um mandato e um terço, ela concorreu contra Carlos Viana, jornalista com zero experiência política, Rodrigo Pacheco, do DEM, um partido há tempos inexpressivo em Minas, e Dinis Pinheiro, uma nulidade do minúsculo Solidariedade. Ficou atrás dos três, em quarto lugar, com 15% dos votos em uma eleição de duas vagas. Recebeu um dos mais claros e sonoros NÃO que um eleitorado já enfiou nas fuças de um político conhecido. Falar de gópi com o eleitor, a estas alturas, é pedir para perder.

5. O bolsonarismo se articula como um rizoma, uma rede descentralizada, um formigueiro em que indivíduos vão produzindo montagens, memes, notícias falsificadas, paródias. Algumas delas (como a falsa notícia de que Haddad teria distribuído mamadeiras em forma de pênis) viralizam para milhões de pessoas. Nesse terreno, a contra-argumentação é inútil. É preciso falar na mesma linguagem. É inacreditável, por exemplo, que até hoje não se tenha feito nada com o vídeo em que Bolso confessa ter estuprado galinhas e cabras.

6. Bolso é deputado há 28 anos e nunca fez nada que preste, mas passou a expressar a revolta contra o sistema político. Recebeu doações da JBS, está na lista de Furnas e utilizou de forma pouco ética o auxílio moradia, mas passou a simbolizar a luta contra a corrupção. Está no terceiro casamento, traiu a esposa (coisas que a mim, obviamente, não interessam em absoluto) e terminou um divórcio com ameaças de morte, mas passou a representar a postura “cristã”. Foge da briga como um covarde, mas passou a ser o emblema do eleitorado “machão”. Sempre votou em favor de um nacionalismo tosco e em defesa de corporações, mas herdou o eleitorado da centro-direita liberal privatizante. Foi explorando esses furos, essas incoerências, que acredito ter puxado alguns votos dele para Daciolo, Amoêdo, Alckmin ou Ciro, dependendo do interesse de cada eleitor.

De resto, a tarefa é inglória mesmo. Haddad é boa pessoa, mas péssimo candidato. O partido ao qual ele é filiado é detestado por metade do eleitorado. Ele tem se comportado como representante de um líder que é amado por 30% da população, mas está preso e é odiado por outros 50%. O tsunami Bolso parece uma daquelas desgraças cuja hora chegou, mas não nos está dada a possibilidade de não lutar. E o terreno é lá mesmo, no Whatsapp. Todo mundo aqui tem um parente bolsonarista. Todo bolsonarista conhece algum outro bolsonarista em um grupo de Whatsapp, que pode te pôr lá dentro em contato com eleitores volúveis. Os grupos se proliferam como coelhos, e é possível que você seja expulso de algum, mas haverá outros. É a única chance que vejo.

Como disse uma amiga, chegamos a uma inacreditável situação: o futuro de nossa democracia e dos direitos humanos no Brasil pode estar dependendo de o PT aprender a usar o Whatsapp. É o que tenho a contribuir.

Sobre mitos trazidos à baila na atual campanha eleitoral (i): uma introdução

Não deve ser novidade para ninguém que o facebook não tem memória. Nele, tudo o que dizemos hoje será facilmente esquecido amanhã. Face a isto, não é de hoje que defendo a utilização de blogs como backup do facebook, para conferir alguma permanência ao que por vezes dizemos, no calor das discussões, em redes sociais

Como agora. Nesta época de paixões políticas exacerbadas, tenho deixado meu querido blog meio abandonado. Então, copiarei aqui os “textões” que, desde hoje, me comprometi a publicar no face diariamente até o segundo turno destas eleições. Se o Haddad for o próximo presidente, me regozijarei secretamente pela campanha que empreendi; caso contrário, a inutilidade de minhas postagens na rede permanecerá como uma lição a ser por mim apreendida.

Eventualmente, compilarei, abaixo das postagens originais, os threads de comentários sob as mesmas – pois, em redes sociais, discussões ensejadas são, por definição, mais interessantes ou, pelo menos, mais didáticas do que as postagens que lhes dão origem.

Então, sem mais delongas, após as três estrelinhas, a postagem original da série prometida.

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Até aqui me abstive de usar o facebook para fazer política. Agora é diferente. Para impedir uma catástrofe iminente, Haddad precisa conquistar um ponto percentual por dia. Não é pouco. Por isto, mais do que nunca, prezo a existência, que sempre defendi, de membros do espectro ideológico oposto em minha timeline. Até o segundo turno, metade das minhas falas serão a eles dirigidas no intuito de derrubar mitos que dão sustentação às teses de que 1) o #elenão poderá redimir a nação e 2) o PT é intrinsecamente maligno e, como tal, responsável por tudo o que de ruim aconteceu por aqui nos últimos anos.

A tarefa, para quem quer que se identifique minimamente com a justiça social e as liberdades democráticas (principalmente as das minorias que estão na mira), não é nada fácil. Então, dedicarei a outra metade de minhas intervenções a conversar com likeminded people sobre como “converter” aqueles seduzidos pelo discurso de direita.

Estas eleições, mais do que quaisquer anteriores, estão se definindo a partir da campanha na internet. O que não deixa de ser um avanço, i.e., com as falas distribuídas (narrowcasting) influenciando muito mais do que qualquer propaganda – incluindo debates ! – veiculada nos grandes meios (broadcasting). E, nessa guerra, vale tudo. Fake news e memes rasos, inclusive. Se quisermos um país melhor daqui prá frente, temos que ocupar este espaço. Então, abracem eleitores do #elenão todos os dias (pois xingá-los só os encherá de razão…) – e, embora eu não seja nem petista nem tampouco religioso, jamais acreditei tanto na máxima ” – Eles não sabem o que dizem ! ”

Bullshit Jobs: a Theory, de David Graeber (2018)

Raros livros me impactaram tanto, nos últimos anos, como Bullshit Jobs: a Theory (2018), do antropólogo anarquista David Graeber, atualmente lotado na London School of Economics. O tema que dá nome ao volume – a saber, aqueles trabalhos percebidos como inúteis ou até mesmo nocivos à sociedade por quem os exerce – já é, por si só, fascinante. Como se não bastasse, o livro mais recente de Graeber (autor, entre outros, de Dívida: os primeiros 5000 anos (já traduzido) e The Utopia of Rules (também inédito em português)) ostenta uma densidade lógica (conceito que formulo aqui e ao qual também me refiro aqui) excepcional. Nele, não há sequer um único parágrafo que possa ser tomado por acessório ou colateral à argumentação – o que rende, de saída, qualquer resenha, enquanto recorte, como supérflua. Bem melhor, neste caso, é ler a coisa inteira. Ainda assim, teimoso que sou e impactado que estou, prossigo.

Outra boa razão para se evitar (escrever e ler) esta resenha é que o livro ainda não foi traduzido para o português. Com isto, estas linhas servirão, no máximo, para que alguns entusiasmados se submetam à trabalhosa e demorada importação de um exemplar. Trabalho, portanto, inútil ? Não acho. Quem decidir me acompanhar além deste preâmbulo haverá de concordar.

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Bullshit Jobs: a Theory se originou a partir do ensaio On The Phenomenon of Bullshit Jobs (traduzido por mim aqui) publicado por Graeber em 2013 e reproduzido no prefácio de seu livro de 2018.  Entre uma coisa e outra, o autor realizou uma pesquisa a partir de uma ampla base de dados formada por depoimentos (anônimos por razões óbvias) em resposta a seu ensaio original e ensejados por provocações por ele lançadas através do Twitter (!) – o que, por si só, o situa como, no mínimo, um pesquisador original. Tais depoimentos, citados textualmente e costurados pela voz do autor, constituem a  base da estrutura narrativa da obra de tal forma que, nela, qualquer monotonia potencial da voz onipresente do último é temperada pela variedade e, em certos casos, até humor (pois não há nada mais divertido e verdadeiro do que a auto-ironia) das vozes emprestadas por seus muitos informantes.

É a partir desta rica casuística que Graeber deixa claro, ao longo do primeiro capítulo e por meio de sucessivas definições provisórias aproximativas, o que vem a ser um bullshit job – a saber, todo trabalho percebido com socialmente inútil ou mesmo pernicioso por quem o executa.

A expressão bullshit job traz em si um problema para o tradutor. Num primeiro impulso, somos tentados a traduzi-la simplesmente como “trabalho de merda”. Só que, já no início do livro, a coisa se complica quando o autor faz uma distinção entre um bullshit job e um shit job, demonstrando por que nem todo trabalho que pertence a uma das categorias pertence, necessariamente, também à outra. Com isto, “trabalho de merda” e “merda de trabalho” estão longe de se constituir em traduções satisfatórias por não explicitarem suficientemente a distinção entre as duas categorias.

Nos capítulos subsequentes, estabelece uma tipologia de tais trabalhos (capítulo 2); trata da violência psicológica sofrida por quem neles se vê encurralado (capítulos 3 e 4); explica por que tais trabalhos proliferam (capítulo 5) e por que não objetamos, como sociedade, à proliferação dos mesmos (capítulo 6) e, finalmente, no último capítulo, analisa os efeitos políticos dos bullshit jobs e propõe uma possível solução (no spoilers yet) para tal estado de coisas.

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Mesmo reconhecendo a natureza redutora de toda resenha, é impossível resistir a mencionar em detalhe certas passagens de Bullshit Jobs: a Theory. Como, por exemplo, quando nos é explicado, já nas definições aproximativas iniciais, por que não se pode dizer que um assassino da máfia tenha um bullshit job – uma vez que o mesmo, ainda que admitindo o óbvio prejuízo social inerente a seu trabalho, acredita fazer parte de uma honrada e antiga tradição com finalidades claras.

Outra parte memorável, capaz de dirimir qualquer dúvida sobre o que venha a ser um bullshit job, é a supracitada tipologia do segundo capítulo. Nele, Graeber divide tais trabalhos em cinco categorias:

Lacaios (flunkies). São aqueles postos de trabalho que existem exclusivamente para que alguém (o chefe) se sinta importante. Como exemplo mais emblemático, temos as comitivas que precedem a entrada de autoridades em qualquer recinto. Também não é nenhuma novidade que o poder de quem quer que exerça alguma atividade gerencial é medido pelo número de subordinados ao seu comando. Qualquer semelhança entre a alta incidência de lacaios em ambientes de trabalho contemporâneos e no mundo medieval não é mera coincidência, sendo tratada em profundidade nas partes dedicadas ao “feudalismo gerencial” (managerial feudalism).

Valentões (goons). Usada metaforicamente (i.e., não se referindo apenas a gangsters), a expressão serve para designar pessoas cujo trabalho envolve algum tipo de violência e existe apenas por que alguém as emprega. Exemplos clássicos incluem forças armadas (países só tem exércitos por que outros países os tem), lobistas, especialistas em relações públicas, operadores de telemarketing e advogados corporativos.

Duct tapers. De difícil tradução. Tapa-buracos, talvez. Pertencem a esta categoria todos aqueles que executam remendos ou gambiarras para resolver problemas que simplesmente não deveriam existir mas que, em existindo, emperram o bom funcionamento de um todo maior. Tais trabalhos são particularmente abundantes na indústria da informática.

Box tickers. Igualmente de difícil tradução. O nome se refere àqueles formulários que incluem quadradinhos que devem ser marcados por “tiques” (sinais em forma de “V”). Para Graeber, são todos aqueles empregados que existem exclusiva ou primordialmente para que organizações possam alegar estarem fazendo o que, na verdade, não fazem.

Taskmasters (another category likely to be lost in translation). Se dividem em dois tipos.

Pertencem ao primeiro aqueles que, encarregados de atribuir tarefas a terceiros, acreditam que as mesmas seriam desempenhadas de qualquer maneira, mesmo que não fossem por eles atribuídas. Deste modo, taskmasters do primeiro tipo (supervisores desnecessários) podem ser considerados como o exato oposto de flunkies (subordinados desnecessários).

Taskmasters do segundo tipo são aqueles que inventam tarefas desnecessárias para outros realizarem.

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A distribuição da incidência de bullshit jobs não é homogênea em relação a todos os setores da economia. Tais trabalhos parecem se concentrar mais no setor administrativo intermediário (middle management) e em empresas do setor FIRE (finance, information and real estate (financeiro, informático e imobiliário)).

Tamanha proliferação de cargos inúteis jamais poderia existir sem uma igual abundância de títulos para os mesmos. Numa das passagens mais divertidas, Graeber oferece, em seu site dedicado ao assunto, um Job Title Generator engraçado por si só que dispensa quaisquer comentários.

Um mito bem popular derrubado por Graeber é o de que bullshit jobs seriam peculiares ao setor público. Ao contrário, existem igualmente no privado. Se há uma regra para sua proliferação, parece ter a ver com a maior presença de práticas e conceitos gerenciais em qualquer indústria. São particularmente ilustrativas as análises de sua influência recente na academia e na indústria criativa, particularmente a cinematográfica.

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Forçado, em nome da concisão, a eleger para menção uma única parte dos dois riquíssimos capítulos sobre o sofrimento amargado por detentores de bullshit jobs, minha escolha recai facilmente sobre a exploração de elementos sadomasoquistas inerentes a tais trabalhos. É quando o autor faz uma distinção importantíssima entre as práticas sadomasoquistas recreativas e a ocorrência da mesma sorte de relação em ambientes de trabalho.

Não deve ser nenhuma novidade, mesmo para não adeptos destas práticas, que todo sofrimento físico consentido infligido por dominadores a dominados pode ser interrompido por uma palavra de segurança (como “laranja”). De tal modo que alguém que subitamente não suporte mais a dor de, por exemplo, ter cera quente derramada sobre o corpo pode interromper a “brincadeira” pela simples pronúncia da palavra “laranja”. Só que, em ambientes de trabalho marcados por relações sadomasoquistas, um empregado não pode interromper sem maiores consequências (como o desemprego) qualquer abuso cometido por seu chefe simplesmente dizendo “laranja” (cujo equivalente numa relação de trabalho seria “eu me demito”).

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Quando o ensaio de 2013 no qual Graeber cunhou a expressão bullshit jobs viralizou, uma das reações previsíveis foi um esforço acadêmico-científico para quantificar o fenômeno. Daí emergiram dados alarmantes, ainda que nem um pouco surpreendentes. Na ocasião, se constatou que no Reino Unido nada menos do que 37% dos entrevistados declararam estar aprisionados em bullshit jobs. Replicada na Holanda, a enquete revelou uma realidade ainda mais impressionante: 40% se consideraram na mesma situação. Isto quer dizer quase metade da população – ou, se quiserem, em número suficiente para eleger um presidente ou primeiro ministro numa democracia. Ainda assim, ainda há quem se recuse a ver a coisa como um problema social. A prevalência deste estado de coisas é esmiuçada nos capítulos sobre por que  bullshit jobs proliferam e por que não reagimos, como sociedade, à proliferação dos mesmos.

Aqui, uma dose moderada de spoilers não deverá afugentar potenciais leitores. Suficiente dizer que a manutenção do problema é um pré-requisito para o capitalismo. Como ? Impossível resumir. Até por que os dois capítulos supracitados são uma aula de história, traçando a origem do mito puritano de que “o sofrimento laboral forma o caráter” desde tempos medievais até os dias de hoje, passando por vários filósofos, discutindo a diferença entre “valor” e “valores” e a transição gradual da vigência da teoria do valor-trabalho (labor theory of value) para a aceitação praticamente hegemônica da lei da oferta e da procura, que serve de pilar ao capitalismo.

Tamanha densidade de informações (bibliográficas inclusive) aportadas tornam estes capítulos algo para ser lido e relido – até como mapa para outras leituras.

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Graeber tempera o tom professoral naquilo que mais poderia parecer um tratado (pelo título da obra, de seus capítulos e sub-capítulos) com tiradas engraçadas aqui e ali. Para destacar apenas duas:

Depois de anunciar, nalgum lugar no início do livro, que vê com reservas o fato de ser frequentemente tachado de anarquista (numa compreensível aversão ao aspecto reducionista dos rótulos); se auto-declara, ao fim da obra, um anarquista.

No mesmo último capítulo, depois de deixar claras suas restrições (bem razoáveis) a finalizar uma obra por meio de uma receita ou recomendação para solucionar os problemas nela apontados, preconiza com todas as letras que quaisquer bullshit jobs seriam sumariamente riscados do mapa mediante a implementação de uma renda mínima universal. Ambas as discussões (tanto o disclaimer contra as fórmulas prontas como aquela sobre os possíveis prós e contras de uma renda mínima universal) coroam o volume de uma forma deliciosa, transmitindo ao leitor a plena convicção de que nada do que nele foi lido é supérfluo ou, de algum modo, acessório.

A observação acima, sobre a obrigatoriedade de cada linha, sublinha também o fato das notas sobre o texto serem tão volumosas quanto interessantes. São 40 páginas de notas (fora a bibliografia) para 285 de texto (fora o prefácio), ensejando fatalmente a especulação sobre se o autor

escreveu as notas à guisa de complementação depois de ter o livro pronto (o que é menos provável); ou, antes,

preferiu relegá-las a um apêndice, como num hipertexto, a fim de não comprometer, com elas, seu apurado fluxo argumentativo.

De qualquer modo, quaisquer que sejam as razões que o levaram a destacar, no final da obra, observações tão interessantes – praticamente um outro livro sobre o livro, é altamente recomendável que as mesmas sejam lidas na íntegra concomitantemente ao texto principal.

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Como já deixei claro, é bem difícil eleger uma ou outra passagem do livro para destaque (dignas, digamos, de terminar uma resenha sobre o mesmo). Ainda assim, sou, como disse acima, teimoso e, como tal, arrisco afirmar que, de tudo o que li em Bullshit Jobs: a Theory, talvez o que mais tenha reverberado, no sentido de permitir uma compreensão superior do universo capitalista, é que

o mesmo é alimentado por uma complexa, sutil e insolúvel rede de ressentimentos mútuos entre classes de trabalhadores – não apenas entre aquelas mais óbvias tais como patrões X empregados ou capitalistas X trabalhadores, mas entre as próprias categorias ocupacionais; e que

o que conhecemos usualmente por economia é, antes do que uma ciência, uma doutrina, com raízes históricas claras e, por vezes, profundo cunho teológico.

Bullshit Jobs e o jugo do feudalismo gerencial; entrevista concedida por David Graeber a The Economist

Populismo, trabalho sem sentido e juventude em pânico: uma entrevista com David Graeber, da London School of Economics, publicada pela revista The Economist

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Jamais depois de Dilbert a verdade foi dita sobre o poder em postos de trabalho desumanos. Mas o sucessor do personagem do cartoon pode ser David Graeber. Em 2013, adquiriu fama viral entre zumbis de cubículos de toda parte depois de publicar um ensaio curto sobre a persistência de trabalhos que não tem qualquer razão social ou econômica de existir, aos quais chamou bullshit jobs. A ampla atenção parece confirmar sua tese.

David Graeber, um antropólogo da London School of Economics, desenvolveu recentemente a ideia num livro. Ele respondeu a cinco perguntas da iniciativa Open Future da revista The Economist, atacando “comitivas feudais de lacaios basicamente inúteis”. Graeber diz que “as pessoas querem sentir que transformam o mundo ao seu redor de modo a fazer alguma diferença positiva”.

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The Economist: O que é um bullshit job ? Poderia dar alguns exemplos ?

David Graeber: Um bullshit job é um trabalho que mesmo a pessoa que o executa secretamente acredita o mesmo é desnecessário e não deveria existir. Que se aquele trabalho, ou mesmo toda a indústria do qual faz parte, desaparecesse, não faria a menor diferença para ninguém ou até mesmo o mundo talvez fosse um lugar ligeiramente melhor.

Algo em torno de 37 a 40% dos trabalhadores, de acordo com pesquisas, dizem que seus trabalhos não fazem diferença alguma. O que há de radical no livro não é a constatação de que muitas pessoas pensem assim, mas o fato de que, na maior parte das vezes, elas estejam largamente certas. Seus trabalhos são realmente tão sem sentido quanto elas realmente pensam.

Apenas acreditando nas palavras das pessoas podemos subestimar o problema, já que, ainda que você ache que o que está fazendo não faz qualquer sentido, deve obviamente haver um quadro mais amplo no qual você realmente está contribuindo para o bem maior ou, ao menos, para o bem maior da organização. Só que ninguém lhe explicou como.

Por outro lado, se você acha que está fazendo alguma coisa para a qual parece haver uma boa razão para ser feita mas, no grande quadro, não há (como, por exemplo, se toda a operação da qual você participa é algum tipo de fraude ou, ainda, se ninguém lê os relatórios que você produz, etc), bem, esta é precisamente a situação na qual menos provavelmente lhe dirão o que está acontecendo.

Se minha pesquisa de algum modo procede, bullshit jobs não se concentram tanto nos serviços mas nas tarefas de escritório, administrativas, gerenciais e de supervisão. Muitos trabalhadores em administração intermediária, relações públicas e recursos humanos, tais como muitos gerentes de marcas, vice presidentes de criação, consultores financeiros e empregados em direito corporativo e marketing, sentem que seu trabalho não faz qualquer sentido.

 

The Economist: O que o fato desses trabalhos sem propósito existirem diz do lugar de trabalho moderno ?

David Graeber: Uma coisa que isto mostra é que todo o ideal “enxuto e eficiente” é aplicado muito mais a trabalhadores produtivos do que a cubículos de escritório. Não é nada raro executivos que se orgulham de enxugar e acelerar no chão da fábrica, na distribuição e por aí afora usarem o dinheiro economizado ao menos em parte para ocupar seus escritórios com comitivas feudais de lacaios basicamente inúteis.

Eles tem equipes completas de pessoas que estão lá apenas para, por exemplo, desenhar gráficos para seus relatórios, escrever elogios para revistas internas que ninguém lê ou, em muitos casos, não fazer absolutamente nada além de memes de gatos e jogar no computador o dia inteiro. Mas eles são mantidos lá por que o prestígio e às vezes até o salário de todo gerente é proporcional ao número de pessoas a ele subordinadas.

Quanto mais o lucro de uma empresa é derivado de finanças ao invés de da fabricação ou venda de alguma coisa, mais isto tende a ser verdade. Chamo a isto “feudalismo gerencial”. Mas não é só o setor de finanças, de seguros e imobiliário: há uma infestação similar nos níveis intermediários das indústrias criativas em geral. Eles continuam adicionando posições gerenciais entre as pessoas produzindo coisas e os caras que pagam por isto cuja única função é frequentemente sentar o dia todo tentando vender coisas uns aos outros.

Saúde e educação são igualmente complicadas: gestores agora acham que cada um deve ter seu esquadrão de assistentes que, frequentemente sem ter nada o que fazer, acabam inventando novas formas exóticas de trabalho burocrático para professores, médicos, enfermeiros e afins – os quais tem, então, ainda menos tempo para realmente ensinar ou cuidar de alguém.

 

The Economist: Você nota que muitos trabalhos interessantes que implicam em criatividade e status estão concentrados em cidades afluentes. Você acredita que bullshit jobs contribuíram para o populismo e a polarização ?

David Graeber: Sim. Penso que muito do frequentemente legítimo rancor dirigido à “elite liberal” se baseia no ressentimento que as classes trabalhadoras sentem em relação ao fato de que a primeira efetivamente se apropriou de todos os trabalhos nos quais se pode realmente ser bem pago para fazer o que é tanto divertido como criativo mas que, obviamente, beneficia a sociedade. Se você não pode mandar seu filho para uma boa escola e depois sustentá-lo 2 ou 3 anos durante residências em lugares como Nova Iorque ou São Francisco, esqueça: você está fora.

Para todos os demais, ao menos que você tenha muita sorte, suas chances são largamente limitadas a duas opções. Você pode obter um trabalho basicamente bullshit, que pagará o aluguel mas lhe deixará estragado, com o sentimento de culpa por estar sendo forçado, contra sua vontade, a ser uma fraude e um parasita. Ou você pode obter um trabalho útil, cuidando de pessoas, fazendo, movendo ou conservando coisas que as pessoas querem ou das quais precisam – só que, provavelmente, lhe pagarão tão pouco que você não será capaz de sustentar sua própria família.

Existe uma relação inversa quase perfeita entre o quanto seu trabalho beneficia os outros e sua remuneração. O resultado é uma cultura política tóxica de ressentimento.

Aqueles em um trabalho largamente sem sentido se ressentem de professores ou mesmo mecânicos de automóveis, os quais realmente fazem algo útil, e acham ultrajante que [mecânicos e professores] demandem bons salários, seguro saúde e férias remuneradas. Pessoas da classe trabalhadora, que fazem predominantemente coisas úteis, se ressentem da elite liberal que abocanhou todo o trabalho útil ou benéfico que realmente paga bem e no qual lhe tratam com respeito e dignidade.

Todos detestam a classe política, a qual vem (em minha opinião, com bastante razão) como um bando de trapaceiros. Mas todos os outros ressentimentos tornam difícil para qualquer um se associar com outros e fazer alguma coisa a respeito. Em grande parte, nossas sociedades se uniram a partir da inveja e do ressentimento: não inveja dos ricos mas, em muitos casos, inveja daqueles que são vistos como de algum modo moralmente superiores ou, ainda, ressentimento daqueles que se proclamam moralmente superiores mas que são vistos como hipócritas.

 

The Economist: As pessoas tendem a se ajustar emocionalmente às circunstâncias. Então, há alguma razão para se acreditar que seríamos dramaticamente mais satisfeitos num mundo sem labuta ?

David Graeber: O que me surpreendeu foi o quão difícil era para tanta gente se ajustar ao que pareciam problemas menores: basicamente, tédio e sensação de falta de propósito na vida. Por que não podiam simplesmente dizer “Ok, então estou ganhando algo por nada. Torçamos para que o chefe não note !”

Mas a grande maioria descreveu a si própria como totalmente miserável. Relataram depressão, ansiedade, doenças psicossomáticas que desapareceriam magicamente no momento em que ganhassem o que consideravam trabalho de verdade e horríveis dinâmicas sadomasoquistas de lugares de trabalho.

Minha conclusão é que psicologicamente, não é exatamente que as pessoas queiram trabalhar mas, antes, que elas querem sentir que estão transformando o mundo ao redor delas de modo a produzir algum tipo de diferença positiva para outras pessoas. De certo modo, é isto que as torna humanas. Tire isto delas e elas começam a se despedaçar. Então, não se trata só de labuta.

Conforme disse Dostoievsky em algum lugar:  se você quiser destruir psicologicamente um prisioneiro por completo, basta fazê-lo cavar um buraco e tornar a tapa-lo, repetidamente, durante todo o dia (em alguns gulags de fato tentaram isto como forma de tortura – o que funcionou, tornado as pessoas completamente loucas). Creio que pessoas suportem até trabalho enfadonho desde que saibam que há uma boa razão para executá-lo.

Como antropólogo, sei que o lazer não é um problema por si só. Há muitas sociedades onde pessoas trabalham no máximo de duas a três horas por dia e encontram todo tipo de coisas interessantes para fazer com seu tempo. Pessoas podem ser infinitamente criativas se lhes derem tempo para pensar.

 

The Economist: Pessoas no Ocidente tem mais liberdade de escolher suas carreiras do que em qualquer época da história humana. O liberalismo merece algum crédito por isto e, neste caso, não seriam as próprias pessoas responsáveis por seus bullshit jobs ?

David Graeber: Bem, se você falar com jovens recém saídos da faculdade, não ouvirá muitos deles dizendo: “Ah, o mundo se descortina diante de mim… então o que seria melhor eu fazer ?”

Você certamente ouviu muito nos anos 70, 80 e 90: “O que eu realmente quero ?” Já hoje, nem tanto. A maioria dos formados está em pânico sobre como irá pagar seus empréstimos estudantis e o verdadeiro dilema que você ouve é: “Posso obter um emprego que vá realmente me pagar o suficiente para viver (que dirá ter uma família algum dia) e pelo qual não me sinta totalmente envergonhado ?”

É a mesma armadilha que descrevi acima: como se pode viver uma vida que beneficie os outros ou, ao menos, não prejudique ninguém de um modo óbvio e, ainda assim, conseguir cuidar de uma família ou de quem se ama. E durante todo o tempo há este mantra a que chamo “repreensão de direitos”, que vem igualmente da esquerda e da direita. É uma injúria moral dirigida aos jovens como sendo presunçosos e estragados por se acharem meritórios de todas as coisas que a geração de seus pais (que são os que geralmente censuram) tinha como asseguradas.

Então eu não culparia ninguém por fazer o melhor possível nesta situação. A questão para mim é: por que esta situação não é vista como um problema social maior ? Quero dizer que, se você contar todas as pessoas que estão num emprego real em suporte a bullshit jobs, tais como faxineiros, recepcionistas e motoristas que não sabem que a empresa para a qual trabalham serve basicamente pare se esquivar de impostos ou coisa parecida, bem como a bullshitização do trabalho verdadeiro; então talvez metade do trabalho que é realizado é totalmente desnecessário.

Pensem em que tipo de cultura, música, ciência e ideias resultariam se todas essas pessoas fossem liberadas para fazer coisas que realmente achem importantes. Então se o problema é um de responsabilidade pessoal, eu diria: que se dê a todos o suficiente para viver, como algum tipo de renda básica universal, e que se diga “Ok, agora vocês estão totalmente livres para decidir por si mesmos como podem contribuir para o mundo.”

Então poderíamos dizer com certeza que pessoas seriam responsáveis por aquilo que fazem. É claro que muito do que é feito não faria qualquer sentido. Mas é difícil se imaginar que 40 ou 50% da força de trabalho seja composta por inúteis, conquanto seja esta precisamente a situação que temos hoje. E se, com tudo isto, ainda assim tivermos como resultado apenas um ou dois novos Miles Davises, Einsteins, Freuds ou Shakespeares, eu diria que teríamos recuperado bem mais do que nosso investimento.

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Carta de Recomendação (ii): Perfil de Pedro Dom; ou Por que decidi apoiar o projeto de crowdfunding para o novo disco da Orquestra Livre

Quando Pedro Dom (prefiro, para uso repetitivo, este nome, mais compacto, do que o que lhe foi dado ao nascer, a saber, Pedro Schneider) apareceu pela primeira vez, como aluno de extensão, em minha classe de clarineta no Instituto de Artes da UFRGS, não levei muita fé. Por várias razões, dentre as quais:

por que ele vinha de uma sólida experiência em música popular, pela qual presumi, erroneamente, que seu interesse na clarineta como instrumento de concerto seria não mais do que passageiro;

por que sua experiência mais marcante era com um gênero musical – a saber, o rap – pelo qual eu não tinha o menor apreço (o(s) motivo(s) não vem ao caso agora), mas cujas possibilidades passei, ironicamente, a reconhecer depois de tomar pé de seu trabalho; e, last but no least,

ele não possuía qualquer experiência prévia com a clarineta.

Ainda assim, resisti a meus preconceitos, principalmente por que

em sua família, a arte esteve presente desde o berço, já que seu pai é escritor (já resenhei um livro dele aqui). Não canso de dizer que o contato precoce com a música é, para quem quer que a abrace como uma carreira, uma inegável vantagem. Ora, o mesmo deve valer para a arte em geral;

ele estudara piano desde cedo (uma competência cuja falta na maioria dos alunos costumo lastimar) e, o que é melhor, com um grande professor – a saber, Michel Dorfman, considerado por Paulo Moreira como “o nosso Bill Evans”; e

ele possuía referências musicais excelentes, tanto no jazz como na MPB, absolutamente raras em músicos de sua geração – para os quais, na maioria das vezes, só existe o passado mais recente.  Com Pedro Dom, era bem diferente. Ele tinha a devida reverência por Tom Jobim, o Kind of Blue e seus contemporâneos. Era como se ele fosse, de algum modo, imune à rasura predominante em objetos musicais de seu próprio tempo.

Com este equipamento na mochila, começamos a trabalhar. Não costumo alimentar expectativas quanto ao progresso de cada aluno, nem tampouco fazer previsões sobre suas perspectivas (até por que a vida faz cada curva…) Pedro foi surpreendente em todos os sentidos. Tratei de não o desestimular, ocultando meu ceticismo, quando quis se submeter à prova específica para admissão ao curso de graduação. Eu achava que os poucos meses que o separavam da prova eram muito pouco tempo para alguém que recém dava os primeiros passos no instrumento. Felizmente, eu estava errado. Cinco anos depois, Pedro se graduou com um ótimo recital e foi aceito para prosseguir seus estudos com Michele Zukovsky, uma lenda viva da clarineta, na Universidade da California em Azusa.

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Não há como (felizmente !) se adivinhar o que Pedro Dom estará fazendo num futuro próximo ou distante.  Principalmente por que seu envolvimento com a música é multifacetado. Além de ser proficiente em mais de um instrumento (o piano, a clarineta, o violão e a voz, pelo menos), ele nutre grandes ambições como compositor – sendo, além disto, um excelente arranjador (para que se tenha uma ideia, basta ouvir os sopros (remontando a Oliver Nelson ?) em alguns dos vídeos residentes no site de crowdfunding). Um de seus melhores trabalhos que já ouvi, infelizmente ainda inédito, é um primoroso vídeo musical, em estilo de making of e produzido por um importante estúdio, no qual alterna sua música com a de Moacir Santos (!).

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Noutra época, a única possibilidade de um artista registrar sua obra em então dispendiosos discos era tendo, por meio de festivais, programas de calouros ou por força e obra de algum produtor que também atuasse como head hunter, o acesso franqueado ao elenco de alguma grande gravadora. Hoje, gravadoras minguam, apenas distribuindo obras com cujos custos de produção arcaram os próprios artistas – que, no entanto, na maioria das vezes, dificilmente conseguem reunir os volumosos recursos necessários para pagar, entre outras coisas, horas de estúdio e a fabricação de CDs. Neste contexto, surgiu o crowdfunding, espécie de “ação entre amigos” (Pedro não concorda com esta definição, mas desconheço outra melhor), na qual um grande número de apoiadores viabiliza, por meio de pequenas doações prévias, a confecção de produtos culturais por parte de artistas nos quais acreditam.

Mais. O crowdfunding, ao contrário do patrocínio corporativo incentivado por renúncia fiscal (o qual visa, antes de tudo, o ganho de imagem da empresa apoiadora por meio da publicidade que “cola” marcas comerciais a objetos apoiados), é uma iniciativa distribuída, na qual qualquer apoio individual se dilui entre o apoio de muitos outros simpatizantes.

Mais ou menos como na ideia de Lawrence Lessig para “consertar” o congresso norte-americano, que consiste em banir o lobby por meio da limitação das contribuições de campanha a pequenos valores (algo como 100 dólares), aportados por cidadãos em vez de empresas.

Uma e outra iniciativas (i.e., tanto o crowdfunding como o Fix Congress Now (nome da proposição de Lessig (professor de Direito de Harvard e criador da licença Creative Commons))) tendem a produzir resultados em melhor sintonia com o tecido social.

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Pelas razões acima, participarei da campanha de crowdfunding para custeio do próximo disco de Pedro Dom. Por que apostar numa coisa assim no escuro ? Ora, por que ela será, por definição, muito melhor do que quaisquer similares existentes para pronta entrega. Pois bens produzidos para comercialização são desenhados para atender expectativas de mercado, sempre niveladas por baixo, enquanto que artistas com liberdade (e recursos !) para criar produzirão, necessariamente, algo muito acima de qualquer expectativa. Ou, noutras palavras, o velho conflito entre os desígnios de produtores, de um lado, e autores, de outro. Duvidam ? Paguem para ver.

A Outra Mulher (França, 2018)

No último domingo assistimos, Astrid e eu, a um forte candidato ao título de pior filme de 2018 – a saber, Amoreux de ma femme, de Daniel Auteuil, lastimavelmente traduzido como A Outra Mulher.

Dirigido pelo próprio protagonista, a comédia começa bem, num hilário jantar com dois casais, organizado por dois amigos e realizado à revelia da esposa de um deles, amiga daquela de quem o outro recém se divorciara, no qual o anfitrião tenta em vão disfarçar seu avassalador encantamento pela nova namorada do outro. Enquanto entretenimento, até aí tudo bem. Boas risadas garantidas.

A coisa se complica ao se iniciar um previsível (logo entenderão por que) vai-vém entre fantasia (o improvável idílio de um dos amigos com a namorada do outro) e a realidade de seu amor por sua esposa. Já vi vários filmes assim, nos quais uma situação retratada com cores realistas, como só o cinema é capaz (vá lá, a literatura também), acaba por se revelar totalmente fantasiosa.

Dramaticamente, isto funciona uma única vez em cada obra. Se, no entanto, a alternância entre as duas situações, fantasia e realidade, se repete, é como querer que se ria de uma mesma piada várias vezes, mais ou menos como se alguém dissesse: ” Não entendeu ? Peraí que vou contar de novo de outro jeito que é prá ver se você entende. “ Ora, nenhum contador de piadas alcançaria qualquer êxito procedendo desta forma. Ainda assim, é o que o ator/diretor faz insistentemente em seu patético filme. Neste contexto, de nada adiantam os exuberantes cenários em Paris, Veneza e Ibiza (sim, a produção deve ter sido bem cara) para sustentar o interesse de espectadores mais exigentes.

Soube de outras críticas desfavoráveis ao filme, tendo a ver mais com a rasura das personagens (feministas ficaram, com razão, irritadíssimas) – pelas quais não tive, no entanto, a menor curiosidade. Para quem quiser, o Google está aí.

Saí do cinema pensando no que faz um ator consagrado como Auteuil manchar sua biografia assinando a direção de uma coisa assim.

 

Viajar é superestimado ?

Este blog tem especial predileção por pautas polêmicas. Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, é um dos atuais campeões mundiais da polêmica. Uma de suas ideias mais controversas é a de que o hábito de viajar a passeio é superestimado. Abracemos, então, mais esta.

Antes de proceder à defesa desta ideia, aparentemente tão na contramão do que a maioria parece acreditar e praticar, é importante que se faça uma distinção entre viagens turísticas e aquelas empreendidas por motivos acadêmicos ou de trabalho.

Quando alguém viaja a estudo ou a trabalho, tem o propósito de expandir seu horizonte de atuação. Como ganho colateral, acaba por conhecer outros lugares e, com sorte, experimentar situações às quais dificilmente teria acesso de outro modo.

Não é, todavia, o que costuma ocorrer em viagens turísticas. Nesses casos, o viajante quase sempre busca, por meio de deslocamentos temporários a sítios distantes durante suas férias, um descolamento de seu dia-a-dia, por vezes (por que não dizer ?) da mesmice de um bullshit job à espera de uma sonhada aposentadoria. Se sobreviver ao emprego e a aposentadoria for mais do que uma miragem, poderá afirmar, em idade madura, ser um sujeito viajado – e as fotos destas viagens estarão, por certo, entre suas melhores memórias. Também é quase um clichê, citado por Harari, a situação do casal em crise que busca revitalizar a relação por meio de uma viagem a algum lugar exótico, quanto mais diferente melhor, como se isto fosse por si só suficiente para superar as dificuldades enfrentadas pelos cônjuges no cotidiano laboral.

Suponho que Harari também faça esta distinção – até por ser, ele mesmo, um scholar provavelmente requisitado para conferências ao redor de todo o planeta.

Assim, temos, de um lado,

viagens de estudo ou trabalho, que guardam alguma relação com o saber e/ou fazer habitual do viajante. Incluem-se nestes casos todos os programas de graduação e pós-graduação (atualmente sob a mira do governo brasileiro), bem como apresentações artísticas – não se realizando, necessariamente, durante férias laborais ou acadêmicas; e, de outro,

viagens com finalidades exclusivamente turísticas, empreendidas em períodos de férias, nas quais o viajante investe, na maior parte das vezes, recursos poupados durante um ou mais anos de trabalho.

Um e outro dos viajantes hipotéticos acima descritos poder ser acolhidos em diferentes lugares de modo totalmente distinto. Pois, ao mesmo tempo em que turistas são usualmente bem-vindos em quase toda parte, restrições mais duras são impostas a cada potencial imigrante.  Duvidam ? Anos atrás, um casal de amigos viajou à Europa. Ao chegar, foram enviados a filas separadas. Ele, então jornalista, passou sumariamente pela imigração,  enquanto ela, violinista, foi, como potencial trabalhadora, submetida a um rigoroso interrogatório. A única diferença aparente entre ambos é que ela portava, a tiracolo, um estojo com seu instrumento.

É preciso desenhar ? Como cidadão estrangeiro visitante, cada um é tratado em razão do que puder gastar ou ganhar. That simple.

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Quem viaja pode buscar diferentes coisas. Há quem preze mais um clima diferente. Outros hão de preferir parques, museus, festas, restaurantes ou hotéis. Em qualquer caso, se tratam de experiências nas quais se gasta dinheiro. O único modo de se viajar ganhando dinheiro é a trabalho ou, ao menos para despesas, a estudo. Então, penso que, quando Harari deplora viagens, fala, obviamente, das turísticas, i.e., daquelas nas quais se gasta mais dinheiro do que se ganha.

Ok, aceito os merecidos protestos de quem tem em alta estima grandes orquestras, suas salas de concerto ou museus. Sobre esta ressalva, só tenho duas coisas a dizer:

1) mesmo que outrora tenha havido um abismo cognitivo entre ouvir uma orquestra numa sala ou ver um quadro num museu e, ao contrário, “conhecê-los” só por meio de reproduções sonoras ou visuais (impressas,  projetadas ou, mais recentemente, digitalizadas), há de se convir que este hiato vem encurtando dramaticamente com novas tecnologias; e

2) mesmo sem ser, eu próprio, um viajante contumaz, ouso supor que a frequência a museus e salas de concerto seja restrita a poucos viajantes e, mesmo nestes casos, nem sempre ocupando uma parte (tempo turístico) substancial de cada viagem de lazer. Estou enganado ? Algum cientista social (além, é claro, de Harari) já pensou nisto ? Quem sabe, até, em termos quantitativos ?

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Para que tanto excesso ?; ou Da ignorância voluntária

Certa vez um cunhado meu, renomado economista acadêmico da UFRJ, em vias de se aventurar no mundo empresarial, no segmento de alimentos, me perguntou qual eu escolheria dentre uma pizzaria de menu sucinto, com uns poucos sabores, e outra que oferecesse uma grande variedade de opções. Para sua decepção, escolhi recorrentemente aquela que oferecia menos pizzas diferentes, alegando que o excesso de opções não servia mais do que para distrair os clientes – o que representava, para mim, uma sobrecarga desnecessária no processo de escolha, o qual, num estabelecimento decente, não precisa ir além de alguns clássicos como napolitana, margarita, calabresa ou anchovas. Vá lá, tomates secos com rúcula. Mas gourmetizações de toda sorte, com salmão, bacalhau, mel, queijo brie  e afins, além das famigeradas pizzas de coração de galinha e estrogonofe (eca !), são, para mim, um engodo.

Meu cunhado professor de economia acabou abrindo uma pastelaria, com não sei quantos tipos de pastel e que existiu no Leblon por não sei quanto tempo. Do episódio de sua indagação filosófica sobre a variedade do cardápio e sua frustração ante minha preferência, testada de vário modos, por um menu mais sucinto, permaneço até hoje com a impressão de que, para a economia tradicional (aquela que adota o mercado como régua ideal para tudo), mais opções de consumo é sempre desejável. Este texto tem por finalidade afirmar o contrário.

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E já que começamos falando em comida, olhemos mais de perto como se comporta a gastronomia em relação à variedade.

A cozinha clássica é fundada sobre um repertório bem delimitado, tendendo ao finito, de combinações de ingredientes. Assim, podemos pensar em muitas sopas, cujas bases se constituem em batatas (o caldo verde), ervilhas, aspargos, abóbora, repolho (kapuzta) ou beterrabas  (bortsh), entre outras. É claro que as carnes e os temperos podem variar em cada versão familiar, mas ai do cozinheiro que, inadvertidamente, ousar misturar quaisquer dos ingredientes acima, mascarando suas identidades.

O mesmo ocorre com o sushi, cuja versão original exclui inovações ocidentais como o acréscimo de cream cheese, morangos ou coisa que o valha. Então, não é por acaso que reality shows culinários, tais como o Mastercheff, repousam sobre a criação, pelos aspirantes, de combinações inusitadas de velhos ingredientes. Nestes programas, os processos culinários são quase sempre ofuscados pela originalidade da mistura.

O segmento onde a multiplicação capitalista da oferta se manifesta com mais veemência é o da moda – que, além de induzir alguns a possuir uma grande variedade de peças de vestuário, os leva a trocar de guarda-roupa de tempos em tempos, sob o preço de, caso contrário, parecerem de algum modo ultrapassados. O caso mais emblemático deste estado de coisas é o de mulheres que precisam ostentar um vestido novo a cada festa. O fato de que homens não estejam, geralmente, submetidos ao mesmo “código” de vestuário permanece um dos grandes mistérios dos estereótipos de gênero.

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Desgraçadamente, a música, o cinema e a literatura foram as modalidades artísticas melhor absorvidas pela praga da indústria do entretenimento – principal responsável, ainda que de modo espúrio, alheio à própria vontade, pelo surgimento, entre as obras de arte, da noção do supérfluo, irrelevante ou descartável.

Não sendo um leitor “profissional”, como um crítico, nem sequer compulsivo, interessado pela maioria das novidades editoriais, divido minhas leituras em dois grandes grupos. De um lado, títulos consagrados, de ficção ou não, contemporâneos ou datados, “históricos”; noutras palavras, o que se convencionou chamar de grande literatura. De outro, livros escritos por amigos.

Muitas vezes abandono leituras antes de chegar ao fim. Em favor de meus amigos literatos, posso dizer que não lembro de, em tempos recentes, ter abandonado a leitura de alguma de suas obras, e que isto tem mais a ver com a qualidade de seus livros do que com nossa amizade. Por extensão, concluo que exista, para além de meu círculo de amizade, uma vastidão de novos autores interessantes cuja obra jamais chegarei a conhecer. Isto pode ser tido como um dos grandes males do excesso de autoria em que somos imersos. Ou não. Não sei ao certo.

Toda a literatura restante é por mim relegada a um imenso limbo com o qual não travarei, no restante de meus dias, qualquer contato – sem me sentir, com isto, de modo algum irremediavelmente ignorante por isto nem tampouco culpado por tal atitude. Tal ignorância é  ruim ou indesejável ? Também não sei. Torno a isto ainda neste post

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O tempo disponível durante uma existência humana para a fruição de livros, filmes e música é limitado, variando de acordo com cada indivíduo e sua etapa  de vida. É, no entanto, evidente que, mesmo no caso de bibliófilos, cinéfilos e melômanos vorazes, ninguém tem tempo para conhecer tudo o que já foi produzido. Daí a pergunta:

qual a importância de alguém, mesmo um “especialista”, conhecer, de fato, tudo o que está a seu alcance ?

Tudo bem que redes de recomendação dependam, para seu bom funcionamento, de curadores oniscientes. Mas e se nossa biblioteca, playlist ou coleção de filmes vistos mais de uma vez se estendesse a um conjunto dramaticamente menor de opções do que a totalidade de tudo o que se filma, compõe ou escreve, seríamos, necessariamente, mais estúpidos e/ou menos felizes ?

Eis, outra vez, a pergunta que não quer calar. Retórica, é claro, apenas à guisa de provocação.

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Duas “novidades” da indústria do entretenimento são as séries televisivas e as plataformas de streamming de música e filmes.

Dizem que até há séries boas. O que, todavia, não é suficiente para eu me interessar por elas. O problema é o tipo de contrato que se estabelece entre uma série e seu espectador. Para melhor entendê-lo, tomemos, por contraste, a experiência de se assistir a um filme comum. Nele, podemos, ao cabo de umas poucas horas, impregnar no imaginário uma história com começo, meio e fim. Mesmo naqueles com finais abertos, antíteses dos whodunits policiais. Já em séries somos convidados a reencontrar, ciclicamente, as mesmas personagens a postergar indefinidamente um gran finale que jamais acontece. Pois séries apresentam, invariavelmente, dois tipos de desfecho, a saber,

enquanto a série em questão tiver bons índices de audiência, se pode apostar com segurança numa nova temporada, com os mesmos heróis e situações requentados;

se, ao contrário, a série não der muito Ibope, é abortada ao fim da temporada corrente, ainda que, para alguns aficionados, com um amargo gosto de quero mais.

Nas duas hipóteses, séries se constituem, no máximo, em esforços bem sucedidos para preencher com estímulos externos o tempo disponível para entretenimento de cada um. O preenchimento de todo o tempo e de todos os espaços disponíveis, ainda que com coisas e conteúdos descartáveis, é um dos pilares do consumismo.

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Quanto às plataformas de streamming, o maior problema é sua notória hostilidade a conteúdos perenes mais antigos. A revista Newsweek já se ocupou da escassez de títulos clássicos no Netflix. Em meio à profusão de lançamentos que em poucos meses serão esquecidos, é impossível encontrar, por exemplo, um único Hitchcock. A exclusão é a mesma até se considerarmos cinematografias mais recentes. Quando quis mostrar a um de meus filhos Fargo, uma Comédia de Erros, dos irmãos Cohen, não encontrei o filme no Now nem tampouco no Netfix.

Ao mesmo tempo, já não dispomos de uma rede decente de videolocadoras. É, pois, possível se afirmar que, dados os atuais meios de exibição, a memória cinematográfica está morrendo. Ou, quando muito, foi relegada a círculos especializados.

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E chegamos, por fim, à música. A esmagadora maioria do que se produz hoje pertence a um segmento, o pop, para o qual careço de conhecimento e, portanto, competência para apreciar. Por isto, tenho que me debruçar sobre coisas mais antigas tais como o jazz ou a música sinfônica.

A sinfonia é um território pouco populoso, evitado por compositores casuais, dada a grande complexidade tanto da escrita para o conjunto de instrumentos (a orquestra sinfônica) para o qual é composta como das formas nas quais se realiza.

O marco do primeiro movimento da Eroica (terceira das nove sinfonias de Beethoven), com seus 15 minutos de duração. Ora, são raros os compositores, de agora ou de qualquer época, capazes de sustentar por tanto tempo o interesse em torno de um todo inteligível (i.e., que permita ao ouvinte reconhecer, a cada instante da audição, em que parte do “percurso” se encontra).

Mesmo neste campo rarefeitamente  povoado, que inclui não mais do que umas poucas centenas de obras, é bem questionável até que ponto vale a pena conhecer tudo “em extensão” ao invés de, ao contrário, se ouvir repetidamente algumas poucas obras seminais.

No jazz não é diferente. De que vale se ouvir tantos pianistas, por melhores que sejam, depois de ouvir tudo o que se conhece de Bill Evans ? É claro que toda curiosidade é por si só virtuosa, nada invalidando a nem sempre prazerosa tarefa de se conhecer algo novo, já que a taxa de gratificação da escuta exploratória é sempre muito baixa. Coisa para especialistas, que precisam ter uma visão “plana” de campo para poder oferecer recomendações confiáveis.

Assim, frequentemente me pego reouvindo aqueles três álbuns de Oliver Nelson com Eric Dolphy, contemporâneos menos célebres do Kind of Blue, que nunca foram superados por qualquer coisa que tenha vindo antes ou depois.

Essas coisas me remetem sempre a uma asserção de Paulo Moreira, numa audição comentada sobre Bill Evans no Instituto Ling, segundo a qual todas as possibilidades parecem já terem sido experimentadas – não havendo, portanto, qualquer espaço para o surgimento de novos gênios e restando aos criadores atuais não mais do que exercitar, em releituras e interpretações, as descobertas de um punhado de inovadores históricos. Pessimismo ? Acho que não. Realismo, talvez.

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E como tudo tende à repetição, com novas elaborações sobre velhos temas, recorrentes, admito já ter me ocupado neste blog, ainda que como temas colaterais, com o excesso autoral, a importância da curadoria (aqui e aqui), a falta de memória do streamming, reality shows (aqui e aqui), o fim da genialidade (aqui e aqui) e os três álbuns de Oliver Nelson com Eric Dolphy, dos quais devo tornar a falar em breve.

 

Beethoven tempi, outra vez

Nestes dias de ópera-rock farroupilha, nem vale a pena falar do assunto. Não que o tema, tão repugnante, não mereça. Ao contrário. É que tantos amigos vem se manifestando com tanta propriedade, tanto na mídia como em redes sociais (vejam, por exemplo, as ótimas peças de Claudia Laitano, Celso Loureiro Chaves, Milton Ribeiro e Francisco Marshall, para citar uns poucos), que, diante do brilho do que já foi dito, é melhor ficar calado.

É nestas horas, em que mais nos esforçamos para afastar nossa atenção do absurdo cotidiano, que certas preocupações recorrentes, tidas por artistas como leitmotiv ou acadêmicos como linhas de pesquisa ou indagação, mais nos ocupam a mente. Em meu caso, torno ciclicamente a ruminar sobre a fidelidade ou não aos tempos de execução diligentemente prescritos por Beethoven para cada trecho de suas monumentais sinfonias. Tanto que já me ocupei disto, ao menos, aqui e aqui.

Sei. Até há músicos bons e honestos capazes de sustentar firmemente que os  andamentos de quaisquer movimentos de sinfonias de Beethoven sejam prerrogativa exclusiva de cada regente no pódio. Há controvérsias. Talvez poucos saibam que Beethoven foi, dentre os compositores mais importantes, o primeiro a deixar instruções específicas quanto a isto aos chefes de orquestra futuros por meio de anotações metronômicas em suas partituras.

Vergonhosamente, é prática corriqueira desrespeitá-las. Se pode ter uma visão, ao mesmo tempo ampla e sucinta, de como pode variar o tempo de execução do primeiro movimento da Eroica (terceira sinfonia de Beethoven, composta em 1803 e 1804), neste fabuloso audiográfico, autoexplicativo, dentre os melhores que já vi.

Notem a lentidão das primeiras gravações, em especial as de Toscanini (1938 e 1945) e Furtwängler (1944 e 1952); em oposição à vivacidade das da última década da amostra, com Abbado (2000), Rattle (2002) e Chailly (2011). Notem também o baixo diapasão das orquestras de instrumentos de época de Hogwood (1985), Norrington (1987), Harnoncourt (1991), Gardiner (1993) e Savall (1994). Interessantemente, o pessoal dos instrumentos de época está entre os que mais aderiram às prescrições de andamento de Beethoven. Muito mais, pelo menos, do que seus contemporâneos.

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Sempre que o tema dos andamentos de Beethoven vem à tona, não há como não nos referirmos à primeira gravação integral de suas sinfonias segundo a vontade do autor, a saber, a coleção gravada entre 1987 e 1989 pelos London Classical Players, liderados por Roger Norrington. A edição, encaixotada pela EMI, é primorosa. O encarte, trilíngue (inglês, alemão e francês), de 94 páginas, tem o requinte de especificar a duração da unidade de tempo (notação metronômica, tipo “semi-colcheia igual a 92”) para cada nova seção, com a devida minutagem na faixa do CD, de cada movimento de cada uma das nove sinfonias. Chamem, se quiserem, de referência.

O parênteses do filme (ii): a fotografia antes e depois das câmeras digitais

Meus parcos leitores devem ter estranhado quando chamei meu texto saudosista sobre o Technicolor de O parênteses do filme. Então, explico. A denominação foi copiada da instigante formulação, por intelectuais escandinavos e da qual sempre torno a me ocupar neste blog, do Parênteses de Gutenberg, segundo o qual nossa cultura que repousa sobre a palavra impressa se trata não mais do que de uma interrupção, de uns poucos séculos, na história da comunicação humana. De acordo com esta teoria, a era da textualidade seria não mais do que uma interpolação, a partir de Gutenberg e até mais ou menos nossos dias, entre uma oralidade primária, anterior, e outra secundária, a partir de agora.

Do mesmo modo, o registro de imagens, estáticas (fotografia) ou em movimento (cinema) sobre superfícies transparentes tratadas quimicamente (inicialmente placas de vidro; depois, filmes flexíveis de acetato) já pode ser considerado um processo rigorosamente datado, com ascensão e declínio confinados aos séculos 19 e 20, ao fim do qual a tecnologia foi rendida obsoleta pela captura e armazenamento de imagens em meios digitais transitórios (discos magnéticos (HDs) e memórias sólidas).

A substituição dos filmes fotográficos pelas imagens digitalizadas já é uma realidade irreversível. Mesmo que ainda existam filmes fotográficos à venda (num número reduzidíssimo de estabelecimentos, se comparado à imensa oferta de outrora), facilidades para seu processamento são ainda mais raras. Para tanto, contribuiu decisivamente a enorme diferença de custo entre os dois processos.

Há, no entanto, outra diferença, um pouco mais sutil, entre a fotografia analógica (como passou a ser chamada aquela que utilizava filmes com emulsões químicas) e a digital.  Trata-se da nova facilidade do ato de fotografar e filmar. Pois se anteriormente um fotógrafo, antes de registrar uma imagem, tinha que antecipar imaginariamente o resultado, lhe sendo permitido, na melhor das hipóteses, capturar no máximo 36 exposições (com os outrora populares filmes de 35 milímetros), hoje qualquer um com uma câmera digital pode tomar centenas ou mesmo milhares de imagens sem qualquer interrupção para troca de filme. Mais. Se antes um fotógrafo precisava esperar o trabalho do laboratório para conhecer o resultado obtido (oscilando entre algumas horas, no caso de ambientes profissionais como redações jornalísticas e estúdios publicitários, e vários dias, nos laboratórios comercias então à disposição de amadores), os novos equipamentos permitem ao usuário a visualização imediata de cada foto tirada e até seu descarte sem ônus algum. Com efeito, é hoje bem comum vermos fotógrafos profissionais verificarem e até descartarem, durante a própria sessão fotográfica, fotos recém obtidas.

A tentativa e erro, antes um processo proibitivo (tanto pelo custo como pela dificuldade ou mesmo impossibilidade de se recompor a cena uma vez auditados os resultados), se tornou, assim, a regra entre usuários de câmeras digitais.

Esta combinação de custo irrisório (só do equipamento, já que a mídia se tornou reutilizável) com a facilidade de aprendizado (pela redução extrema da duração do ciclo entre tirar uma foto e poder ver a mesma) alterou irreversivelmente o contexto da fotografia, que deixou de ser um campo altamente especializado para se tornar uma atividade ao alcance, em última análise, de todo proprietário de um telefone celular.

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Ainda que goste de exercitar, vez que outra e sem saber muito bem por que, a fotografia em filmes, não sou saudosista ao ponto de lamentar o fim da complexidade técnica que já foi marca registrada do ato de fotografar. Pois não acho que isto fizesse, necessariamente, melhores fotógrafos. Se a exposição (não mais do filme, mas da superfície de sensores) é bem mais simples, fotógrafos ainda precisam ter um senso apurado de enquadramento e compreensão privilegiada da luz. Noutras palavras, câmeras digitais não garantem, por si só, boas fotos. Notem que, ainda que a química tenha dado lugar à eletrônica no registro de imagens, nada mudou na parte ótica do processo – i.e., as lentes ainda são as mesmas, bem como os fatores que determinam sua qualidade.

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É preciso ver com bons olhos a democratização das artes de sons e imagens sob as novas tecnologias digitais. Se hoje é enormemente mais fácil e barato fotografar, filmar e gravar sons, tal realidade derrubou barreiras de acesso anteriormente impostas ao exercício de tais artes. Então, se hoje qualquer um pode ser um músico, fotógrafo ou cineasta – ou, em última análise, um autor, temos que esta universalização da autoria oferece a quem quiser um inegável incremento na qualidade de vida. Noutras palavras, acabou a distinção que houve outrora entre autores e espectadores. E, ao longo desta evolução, muitas profissões já caíram por terra ou tendem, inexoravelmente, à extinção. Se algumas delas ainda subsistem, tal se deve exclusivamente à prevalência de uma economia (que, oxalá, seja substituída por outra melhor para a espécie humana) fundada sobre a comercialização de bens e serviços, da qual a publicidade e o entretenimento são meros subprodutos. Mas isto já é outro assunto.