Carta aberta a Luiz Antonio Assis Brasil

Transcrevo, abaixo, minha carta aberta a Luiz Antonio de Assis Brasil enquanto secretário estadual de cultura, publicada originalmente no caderno Cultura ZH em 27 de novembro de 2010 e, três dias depois, sob o título Where the Hell is Dudamel ? (iii), em meu antigo blog homônimo no saudoso portal O Pensador Selvagem. No texto, endereço a complexa e delicada questão da gestão artística da Fundação OSPA.

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“Sempre defenderei o regime estatutário de contratação pública por ser o único sob o qual se pode dizer o que se pensa.”
Luis Osvaldo Leite, então presidente da FOSPA

Caro secretário,

 
não é preciso muita imaginação para se adivinhar que, desde que sua participação no próximo governo do Estado foi anunciada, o senhor tenha se tornado alvo de intenso assédio por parte de uma variada gama de aspirantes a cargos de confiança vinculados a sua pasta. É, assim, igualmente fácil adivinhar que a corrida aos cargos com lotação na administração da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre também já esteja a pleno vapor, ainda que, compreensível e estrategicamente, distante dos olhares da mídia.

 
No delicado momento de transição governamental, em que mazelas e vícios administrativos facilmente se perpetuam ao mesmo tempo que virtuosos e legítimos anseios se postergam por, na melhor das hipóteses, ao menos mais quatro anos, tomo a liberdade de lhe falar franca e abertamente sobre a natureza e particularidades da gestão artística de corpos sinfônicos.

 
Pelas razões e circunstâncias abaixo, penso que as últimas coisas das quais a Ospa precisa, em nome da qualidade de sua programação e de seu progresso artístico, sejam mais um regente titular e outro maestro de carreira como seu diretor artístico.
Instituições públicas, dentre elas as culturais, são corpos volumosos cuja evolução é tremendamente limitada pela forte inércia de tradições caducas, por vezes blindadas à crítica e à atualização. É sabido, também, que em nosso sistema político a participação na esfera pública é muitas vezes não mais do que uma figura de linguagem exclusivamente presente na retórica eleitoral – já que, quando se trata de ocupar os cobiçados assentos de um governo, políticos eleitos costumam se voltar não à sociedade mas, invariavelmente, a quadros ociosos de sua base partidária de apoio – as honrosas exceções, neste caso, apenas confirmando a regra.

 
Ocorre, então, que, na pirâmide descendente de confiança decrescente das administrações direta e indireta, acabamos governados por afiliados e/ou afilhados políticos que jamais obteriam o consentimento social para o exercício das funções que desempenham. Não quero aqui, no entanto, falar de política, mas de suas nefastas implicações na gestão da coisa pública cultural, musical em geral e sinfônica em particular.

 
Qualquer músico que tenha tocado por algum tempo em orquestras sinfônicas públicas e, gosto de acreditar, ao menos a parte mais atenta de seus ouvintes percebe que uma orquestra qualificada toca melhor e mais motivada sob variadas batutas igualmente qualificadas do que quando submetida ao pulso tirânico, imutável e entediante de uma única. É claro que essa regra não vale para a escassa categoria dos regentes exponenciais, sonhos de consumo de qualquer orquestra – cujos honorários artísticos, no entanto, são comumente cotados muito além do cacife da grande maioria das orquestras, na qual a Ospa está incluída. Quando, todavia, uma orquestra de média magnitude logra, contrariando quaisquer expectativas, contratar para uma longa residência um desses salvadores, o resultado é, quase sempre, o seguinte.

 
O ás da batuta contratado como salvador logo se entedia da lida corriqueira com os mesmos músicos (a menos, é claro, que estivéssemos falando da Filarmônica de Viena ou similares). Como corolário, não tarda a descobrir (se já não sabia) que o melhor caminho para a superação deste quadro depressivo é o portão de embarque do aeroporto. Com efeito, regentes exponenciais são cidadãos do mundo, vivendo em hotéis e flertando com os melhores conjuntos do planeta a lhe disputar a agenda. Daí se tem que mesmo orquestras respeitáveis, como, por exemplo, a Filarmônica de Los Angeles sob Gustavo Dudamel, tendem a cair em abandono quando confiadas a salvadores notáveis.

 
Descartados, deste modo, os gênios, os prognósticos são ainda menos auspiciosos quando batutas públicas são delegadas apenas às mãos de um único regente suficientemente bom. Por uns poucos meses, o jovem, ambicioso, aplicado e talvez inocente maestro cativará orquestra e audiência até que, inevitavelmente, seu repertório se esgote – quando, então, também tomará, por pânico ou ambição, o caminho do aeroporto. Só que, não pertencendo ao concorrido jet set dos astros da batuta, terá sua arena de atuação limitada a orquestras geridas por pares pertencentes a sua rede de contatos, às quais se fará convidar mediante convites recíprocos para reger a orquestra que lhe foi confiada. Tal prática pode ser facilmente comprovada mediante o simples cruzamento entre a agenda do regente titular e as dos convidados de uma orquestra. Um exame mais cuidadoso das mesmas também revela que titulares itinerantes se valem amiúde de orquestras às quais atribuem menor prestígio (provincianas, como alguns as designam) como plataforma de treinamento para enfrentar repertórios mais exigentes diante de audiências mais cosmopolitas.

 
Nesse cenário pessimista, muitos já anteviram, como uma luz no fim do túnel, a possibilidade, jamais posta em prática no âmbito da OSPA, do não preenchimento, pela Secretaria de Cultura e pela Presidência da Fundação, de seu cargo de regente titular – ficando, neste caso, a qualidade da programação e o entusiasmo do conjunto assegurados mediante realização de uma temporada de concertos a cargo de regentes convidados para residências de curta duração – contratados, por sua vez, com os próprios recursos, geralmente volumosos, outrossim alocados à manutenção de titulares onerosos e de curta validade. Neste modelo, que já me resignei a considerar como utópico, repertórios, solistas e regentes convidados seriam fruto de um consenso viabilizado pela existência e atuação, de fato e de direito, de uma entidade colegiada com força deliberativa composta paritariamente pelo poder público, a orquestra e sua audiência. Gosto de pensar nisso como uma instância ideal do tão alardeado e nem sempre aplicado controle social.

 
Feito isso, restaria ainda ao secretário de Cultura e ao presidente da Fundação a complexa atribuição de designar para a Ospa um diretor artístico. Como amante e artífice das letras, talvez não lhe seja estranha uma passagem da formidável novela Árvores Abatidas – Uma Provocação (trad. Lya Luft, 1985), do grande Thomas Bernhard, em que o herói e alter-ego do autor cinicamente prevê, num banquete cultural em Viena, o inexorável declínio do prestígio de um incensado diretor artístico recém designado para um importante teatro em razão direta do desgaste inerente ao exercício do próprio cargo. Tivéssemos aqui mais tempo, traçaríamos sem dúvida deliciosos paralelos entre O Homem Amoroso e a novela de Bernhard.

 
Devo, no entanto, me ater, por hora, ao futuro da Ospa e, indo direto ao ponto, chamar a atenção para o fato de que a escolha de seu diretor artístico não deve de modo algum se restringir àqueles que sejam também maestros por ofício (empíricos) e/ou formação (diplomados). A tradição de que diretores artísticos de orquestras sejam, quase sempre, profissionais da batuta se deve exclusivamente ao fato de que, para atrair salvadores, tidos por muitos gestores como escassos, organizações sinfônicas recorram com freqüência ao duplo expediente de lhes permitir o acúmulo de vencimentos por ambos os cargos (de regente titular e de diretor artístico) – lhes garantindo, ao mesmo tempo, a centralização das decisões que lhe afetam a programação (uma moeda valiosíssima, como vimos acima).

 
Onde e como procurar, então, dentre os não maestros, aqueles com o perfil mais recomendável para exercer a direção artística de organizações sinfônicas? Evidentemente, entre os que mais conhecem música, isto é, músicos, compositores, musicólogos, críticos e, last but not least, ouvintes – desde que, é claro, comprometidos com a premissa anterior de gestão social da coisa artística pública. Pois, é bom lembrar, assim como a Osesp recorreu a Arthur Nestrovski para (espero) varrer o ranço autoritário de Neschling, penso que aqui Celso Loureiro Chaves (oxalá aceitasse!) ou Ney Fialkow, para citar uns poucos e apenas à guisa de exemplo, poderiam realizar, dada a magnitude de sua autoridade musical, um trabalho excelente e sem precedentes entre maestros diplomados ou empíricos à frente da gestão artística da OSPA.

 
Por isso, apelo para sua sensibilidade sem ser ingênuo em relação a forças políticas que se sobreponham eventualmente a seu cargo. Lembro, no entanto, que não raro esferas artísticas sirvam de contextos propícios ou mesmo ideais para movimentos em direção ao progresso social – como, por exemplo, na célebre instância em que o grande Kurt Masur chegou a ser cogitado para exercer o cargo de chanceler da Alemanha recém unificada.

 
Deste modo, se tiver a oportunidade e o apoio necessários para inovar em relação à gestão social e participativa da Ospa, dará um grande passo tanto no âmbito da cultura como no da política em nosso estado. Senão, terá sido para mim ainda assim um prazer debater e amadurecer ideias progressistas com alguém de sua estatura humanística.

 

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Por que há quem prefira o twitter ao facebook e vice-e-versa ?

Disclaimer: aviso a possíveis leitores que as ideias a seguir, ainda um tanto confusas (eu preferiria usar a palavra fuzzy, mas optei pelo idioma de Pessoa…), porquanto em estado ainda bastante embrionário. Noutras palavras, são tão novas quanto o fator que as desencadeou – a saber, uma queixa postada num blog, da qual falarei adiante. Rogo-lhes, então, paciência com as formas toscas do discurso – como, por exemplo, no final abrupto e incerto, como em tantas boas histórias.

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Quem ainda não parou para pensar por que escolhemos certas plataformas sociais em detrimento de outras ? Por que há quem prefira o twitter ao facebook e vice-e-versa ? Ou sobre o que faz alguém migrar de um plataforma para outra ? Como, por exemplo, jovens a se esquivar do “campo visual” de seus pais.

Ora, é claro que essa escolha passa necessariamente pelos principais diferenciais entre eles (o twitter e o face), a saber a reciprocidade (que tem tudo a ver com privacidade !) e a rastreabilidade.

Antes, no entanto, de prosseguir, precisamos deixar claro que twitter e facebook são plataformas (ambientes) – e não redes ! – nas quais se instauram, aí sim, as redes sociais. Assim, um ou outro “hospedam”, a seu modo particular, muitas redes, de tipologia bem definida.

A incompreensão, total ou parcial, de peculiaridades morfológicas e/ou funcionais destas redes levam facilmente a imbroglios como o da retrospectiva anual desenvolvida pelo facebook e apresentada by default a todos os seus usuários. O episódio repercutiu, num curto período de tempo, em sites de informação como o Guardian, a NPR ou o Huffington Post. Antes disso, eu e Luis Afonso (um ótimo cozinheiro e blogueiro que só conheço da esfera virtual (on the immense benefits of food porn !), já havíamos destilado algum ranço contra a “folhinha” do face (ou só eu acho a peça criada pelo facebook parecida com aqueles calendários que eram distribuídos (não sei se ainda são em tempos de imãs de gelade eira) por padarias & e afins.

Se preferir, no entanto, um relato menos filtrado, na primeira pessoa, confira o estopim da polêmica no blog do web designer Eric Meyer. Numa postagem intitulada Inadvertent Algorithmic Cruelty (algo como Crueldade Algorítmica Colateral), Eric se declara vítima involuntária do algoritmo do facebook ao ser confrontado com uma foto, na capa de um álbum, da filha que perdera meses atrás. Seu ponto é bem interessante, para muito além do impacto inerente ao tamanho da gafe. Em seu post, Meyer sustenta que o facebook deveria perguntar, antes de mostrar, se cada usuário gostaria de ver qualquer foto ou conteúdo relativo a seu último ano. Na onda de indignação que a mídia passou, então, a acompanhar, vieram à tona casos como, por exemplo, de alguém confrontado com a imagem de sua casa pegando fogo (sic !).

Mas vamos ainda mais fundo. A gafe dos executivos de Mark denota, primeiramente,  ignorância ou incompreensão acerca de um fato básico, namely, o de que nenhuma plataforma tem como predeterminar com exatidão a natureza específica de cada rede que nela se instala. Pois são totalmente distintas as conexões que se estabelecem em redes de vocação distinta tais como PLNs, de auto-estima, de agregação política ou de usos profissionais (publicidade, em alvos mais… focalizados !), entre outras, impossíveis de serem enumeradas, já que muitos tipos de redes ainda não foram descobertos.

Fascinante, não ? Mas retornemos, por hora, àquilo do que falávamos no início. De por que alguém prefere o twitter ao facebook e vice-e-versa. Dizíamos que uma das principais diferenças entre um e outro é a reciprocidade, i.e., enquanto no twitter qualquer pessoa pode “seguir” qualquer outra, no facebook todos precisam ser aceitos por amigos cuja “privacidade” passa ser, só então, auscultável. Disto decorre que o facebook favorece, por definição, muito mais do que o twitter, a instauração de bolhas discursivas, i.e., daquelas redes povoadas por likeminded people. Pela razão oposta, o twitter vem se estabelecendo como uma plataforma favorita entre jornalistas – pois só sua não-reciprocidade permite a verificação imediata de todo contraditório. É aquilo a que nos referimos como rastreabilidade e tem a ver com a validação da informação.

  • (talvez a leitura de um feed bruto do twitter até se assemelhe, para observadores mais distantes, à de um jornal, no qual precisamos buscar (filtrar) a informação que procuramos; enquanto o facebook mais se parece com uma revista que exibe, com predominância de imagens a texto, só o que queremos ver. É, grosso modo, como a diferença existente entre, de um lado, linguagens “de máquina”, ditas “de baixo nível”, altamente codificadas e dominadas quase que exclusivamente por programadores e, de outro lado, interfaces mais amigáveis)

A raiz do problema de algoritmos desastrosos como o da retrospectiva do facebook é, a nosso ver, a incerteza semântica sobre o que venha a ser uma “curtida” (ou, em inglês, um like). Ora, toda postagem se constitui, ao mesmo tempo, num enunciado e numa enunciação. Explico. O que é dito é diferente do ato de dizê-lo – podendo ter, portanto, sentidos distintos. Então, o ato de curtir qualquer postagem é ambíguo em relação a estarmos, com ele, manifestando apoio, simpatia ou solidariedade em relação ao que que curtimos ou, ao contrário, ao próprio ato do compartilhamento. A situação mais comum é quando não sabemos se curtimos ou não postagem referentes a fatos ou valores negativos. Ou alguém ainda não viu em seu timeline comentários do tipo “não sei se é ou não para curtir” ?

Desastres assim como o algoritmo acima só acontecem em razão de uma corrida comercial em busca da humanização, i.e., representada por uma maior amigabilidade (friendlyness), de cada meio.

Faz tempo que plataformas de compartilhamento maciças precisam, pela própria dimensão de seus bancos de dados, lidar com filtros automáticos para conteúdos indesejáveis. Enquanto reconhecimento de pessoas em fotos ou filtros para conteúdos pornográficos já são há muito disponíveis automaticamente (i.e., realizados por algoritmos), se espera que, dentro de poucos anos, seja possível a um algoritmo identificar, por exemplo, fotos de sujeitos bêbados. Não sei, no entanto, em que extensão conteúdos indesejáveis são hoje excluídos de plataformas já por meio algoritmos inteligentes ou ainda por meio de análise e interferência humana, tais como em casos de violação de direitos autorais.Só sei que quando algoritmos conseguirem detectar com precisão os últimos, veremos uma crise nos setores jurídicos da indústria editoral. Thus, the earlier it embraces the commons principle, the better.

  • (no filme The Social Network, aprendemos que a teia de Zuckerberg começou com um jogo de classificação de julgamentos humanos elementares como escolher mulheres mais bonitas em séries de escolhas binárias. Hoje, seus desenvolvedores são diariamente desafiados a criar mais coisas que queiramos ver. Tais como o pacote “O Ano de…”)

Mas falávamos, antes, de diferença em como diferentes sujeitos usam diferentes plataformas sociais. Falávamos, entre outras coisa, na variedade de critérios que podem ser usados para decidir o que compartilhamos ou não. Basicamente, podemos

  • compartilhar tudo ou a maioria daquilo que queremos ou com o que concordamos ou, ao contrário,
  • somente aquilo a que consigamos agregar significância.

No segundo caso, se trata mais da profundidade do que da extensão do que dizemos ao compartilhar algo. Já que não há, aqui, qualquer correlação obrigatória entre uma (profundidade) e outra (extensão), i.e., a qualidade de qualquer enunciado não depende de seu tamanho. Pois assim como há preâmbulos que são quase ensaios, há igualmente introduções lacônicas que ensejam mergulhos. Então, o que mais (me) Interessa é a reação que cada compartilhamento provoca.

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Um ótimo 2015 para todos os meus estimados (e diligentes – pois, na maioria das vezes, não facilito…) leitores !

* * *

P.S.: menos de 24 horas depois desta postagem, o Guardian publicou mais uma matéria sobre o Year in Review – importante, a nosso ver, por se tratar de uma (primeira ?) voz dissonante, a defender que o facebook não deveria ter pedido desculpas. As razões pelas quais, mesmo discordando, julgamos desnecessário contestá-la já foram suficientemente esmiuçadas no texto acima.

 

 

 

Da curadoria em gravadoras e na internet e do emprobrecimento das audiências

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Nos últimos dias, duas coisas que li na web, de índoles diametralmente opostas, me chamaram a atenção. Numa matéria que saiu no New York Times, um ex-proprietário de loja de discos reclamava da falta da atuação de executivos de gravadoras a dizer qual música, de toda a que se faz, deve ser produzido para consumo em massa. Já numa resenha publicada na Gazeta do Povo (Curitiba), o maestro Osvaldo Colarusso aponta justamente para a falta de critério artístico de alguns selos fonográficos.

O problema da indústria da música antes e depois da web é fascinante. Envolve, necessariamente, as ideias de broadcasting (tão cara à indústria cultural) e narrowcasting (inerente à web). Da curadoria por autoridade ou, ao contrário, por reconhecimento social; de conselhos ou comitês julgadores X processos de crowdsourcing. Ou casos emblemáticos como o de Valentina Lisitsa, a pianista que foi contratada pela Deutsche Gramophon não por ter vencido qualquer competição internacional mas, tão somente, por ser campeã absoluta, entre congêneres, de visualizações no YouTube. Por fim, não devemos esquecer que a atribuição de qualidade em música popular e erudita se dá, na maioria das vezes, por meios totalmente distintos (vale a pena estudar comparativamente a história de celebridades pop e “clássicas”; o próprio Lebrecht tem um excelente texto sobre os mitos de Elvis e Callas…).

Nutro alguma reserva em insistir neste tema em razão de certo bias que tenho em favor do imenso benefício do livre acesso aos meios de publicação moderados espontaneamente por mecanismos de curadoria social e, ao mesmo tempo, contra a ação excludente, praticamente predatória, de uma noção de produção fonográfica que seleciona, mediante critérios questionáveis, fatos artísticos para, depois de moldá-los a padrões adotados a partir de cuidadosas análises de mercado, promovê-los acima de quaisquer outros. Ao mesmo tempo, espero ter deixado claro que me refiro, aqui, a degêneros para consumo segmentado tais como o axé, o tchê, o pagode, o sertanejo universitário ou mesmo o new age – cuja hegemonia é predatória em relação à toda cultura popular. Pois, como dizia Bruno Kieffer, chamar o que gravadoras de seu tempo produziam de música popular era um caso escandaloso de estelionato semântico.

Além disso, é impossível analisar qualquer fenômeno artístico, notadamente a música, sem se levar em conta sua audiência (ou, em alguns casos, a ausência da mesma). Mas não estou interessado em observar a transição das audiências físicas, reunidas em platéias e balcões, para as dispersas, alcançáveis por meio de ondas de rádio. Até por que o processo, tão importante, já deve ter sido bem esmiuçada por estudiosos mais dedicados. O que mais me interessa, aqui, é a constatação de como se espera cada vez menos qualidade musical dos fatos artísticos desde que os meios de divulgação se universalizaram. O que quero dizer é que, desde que se tornou acessível a qualquer um publicar qualquer coisa, audiências vem se tornando cada vez menos exigentes (ou mais complacentes ou tolerantes) em relação ao limiar de competência musical que deve ser demonstrada para que alguém seja reconhecido como músico.

Explico. Dificilmente rappers (que detém, hoje, as maiores audiências) seriam reconhecidos como músicos segundo padrões do tempo, talvez, da invenção do pop (fato diretamente decorrente do surgimento das gravadoras (vide a história de George Martin, o “descobridor” dos Beatles…)). Pois a improvisação rítmica sobre versos rimados é, indiscutivelmente, musicalmente bem menos complexa do que qualquer composição envolvendo alturas (frequências) definidas expressando melodias e harmonias. Tenho que explicar melhor ? É bem mais fácil a qualquer indivíduo não treinado musicalmente (vulgo leigo) batucar um ritmo e proferir rimas do que entoar sons afinados. Melhor não consigo explicar.

Mas não escrevi tudo isto só para dizer que não gosto de rap (me submetendo, com isto, à sanha de uma comunidade cultural inteligente e bem articulada !) e sim para  deixar claro que objetos sonoros pertencentes a esta categoria não devem em hipótese alguma ser confundidos com música. Pertencem, isto sim, ao mundo das letras, sendo de maior ou menor valor de acordo com a estatura artística de seus autores. Então por que todo este ranço ? Tão somente para evidenciar uma desmusicalização, observável e quantificável, de audiências pulverizadas que, conquanto fruam de um universo de escolha bem maior do que o que tinham na era do rádio, ouvem, em redes sociais, majoritariamente, objetos cada vez mais rasos musicalmente.

Tal empobrecimento da expectativa das audiências em relação à proficiência autoral é, no entanto, ainda mais chocante se levarmos em conta que, dentre os vídeos mais acessados no YouTube, há muitas partidas de videogames jogadas por ditos gamers profissionais que, supostamente, vivem da publicidade vinculada a videos tutoriais em que jogam partidas revelando a seus seguidores (fandom é outro conceito importante, intraduzível, quando se fala de audiências…) dicas e estratégias. Seus canais em plataformas sociais são frequentados por adolescentes de todo o mundo, muitos dos quais cogitam até abandonar os estudos a fim de se tornarem jogadores profissionais. Para melhor vislumbrar o tamanho (e o caráter assustador !) da cultura de games entre jovens, basta conferir este impressionante (por que desvela uma cena real e atual bem pior do que as piores distopias já imaginadas na ficção) artigo da Mashable.

Por tudo isto, seria uma ótima ideia estudar a correlação entre a fragmentação e a desqualificação da atenção. Tão boa, aliás, que alguém já deve ter tido. Então, me notifiquem (links welcome !), por favor, se tiverem notícia de algo bom sobre o assunto.

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In praise of sharing

Escrever algo com mais do que dois ou três parágrafos – incompatível, portanto, com o discurso fragmentado das redes sociais – é uma das melhores coisas para se fazer num com computador sem conexão com a internet. E dentre as coisas que venho há algum tempo prometendo a mim mesmo esmiuçar está o compartilhamento. Ou, mais exatamente, de como ainda utilizamos mal recursos nem tão novos assim dos quais dispomos para compartilhar conhecimento. Só a escola e a academia, com seus critérios e métodos paleolíticos, merecem capítulos à parte. Mas não hoje.

Quanto mais navego na rede, mais formas e iniciativas de compartilhamento descubro.
Alguém já deve ter se dedicado a descrever o instigante campo das coleções – tendo chegado, portanto, à fácil constatação de que as mesmas se distinguem umas das outras por sua densidade, isto é, pela capacidade de que colecionadores, individuais ou institucionais, possam ou venham a amealhar, senão a totalidade, então ao menos a maioria dos itens pertencentes à classe colecionada. Deste modo, coleções integrais (como, por exemplo, as de obras de um autor ou dos selos de um país) tendem a ser mais densas do que aquelas constituídas por exemplares de objetos representativos de uma mesma categoria industrial tais como relógios, canetas ou automóveis.
A ideia de completude, absoluta ou relativa, de uma coleção é recorrente tanto no plano real como no da fantasia, como atestam, respectivamente, a Wikipedia ou a Biblioteca do Congresso norte-americano de um lado e lugares imaginados por Jorge Luis Borges de outro. Mas devo deixar, por hora, o tom ensaístico em favor do confessional. Até por que a enorme evolução de entendimentos sobre a propriedade intelectual face à nova concepção conectada do conhecimento vem merecendo bastante atenção por parte de algumas das mentes mais agudas de nosso tempo (Lessig, Shirky, you name it…) e, por isto, uma “visão de campo” minimamente abrangente seria por demais extensa. No mínimo bem maior do que o tamanho deste preguiçoso preguiçoso. Me perdoem, então, por hoje, a escassez de ilustrações e referências.

* * *

Por décadas venho me dedicando a manter uma coleção densa dos impressionantes registros sonoros deixados pelo trio de Bill Evans em sua curta mas tremendamente fértil carreira. Garimpando inicialmente LPs e CDs, praticamente completei minha coleção com arquivos baixados de blogs piratas que passei a frequentar tão logo descobri a web e nos quais costumo encontrar quase tudo o que procuro. Cabe acrescentar que esta cruzada é orientada pelas monumentais discografias disponíveis no Jazz Discography Project. Cabe, ainda, dizer que acabei entrando em algo chamado Torrent (que jamais tornei a usar !) exclusivamente para conseguir baixar a integral da última residência do trio de Bill Evans no Village Vanguard em junho 1980 (sim, lá mesmo onde o lendário trio fora fundado ca. vinte anos antes !). Depois disso, Evans, antes de morrer e já bastante debilitado, só voltou a se apresentar com seu trio por oito noites em um clube da Califórnia. Posto isto, dou por estabelecido o grande valor icônico das duas últimas coleções de apresentações do trio de Bill Evans.

Eis que, dia desses, fazendo hora não lembro para quê, transbordo de alegria ao me deparar, nas estantes da Livraria Cultura, justamente com a caixa de 8 CDs com tudo o que foi tocado na residência terminal do trio de Evans na California, i.e., as últimas apresentações públicas do pianista. Sucumbi de pronto.

Acontece que a conversa em redes sociais com outros colecionadores é uma das melhores coisas do colecionismo. Tanto isto é verdade que, chegando em casa, cutuquei amigos compartilhadores (o radialista responsável pelo melhor programa de jazz que conheço e o blogueiro mantenedor de um dos mais completos blogs piratas de música erudita (e algum jazz) em língua portuguesa) sobre a extravagância cometida. Foi quando outro amigo, músico, postou, no thread de comentários sobre minha nova aquisição, uma foto da caixa de seis discos com tudo o que fora tocado na última temporada de Evans no Vangua Vanguard em 1980 (que foi, por anos a fio, um de meus sonhos absolutos de consumo) com a sugestiva pergunta “ – Serve esta ? ”. Imediatamente, acordamos a pirataria cruzada dos discos e do material gráfico das duas caixas. Na entrega da segunda, recebemos, dele e de sua esposa, uma prazerosa visita na qual falamos, entre outras amenidades, de jazz e clarineta.

Por que esta história me comove ? Ora, certamente que não pela (substancial !) ecoonomia financeira que a transação pirata representou para cada um de seus participantes. Nem tampouco pelo fato de ter obtido, como mero fruto da interação em redes que designo, carinhosamente, como minhas PLNs (personal learning networks), algo que há muito procurava sem êxito no varejo (a abundância e a qualidade do virtual não são mais nenhuma novidade).

Se esta pequena história, da qual gosto de me gabar, tem algum valor, é principalmente por demonstrar, eloquentemente, a qualidade e os frutos de relações estabelecidas a partir do virtual que seriam simplesmente impensáveis em círculos e ações presenciais cotidianos. Com isto, me refiro à totalidade ou grande maioria dos ambientes de trabalho, educativos ou domésticos – que são, via de regra, dominados pela rasura intelectual inerente a todo broadcasting. Deu para entender ? Senão, outra hora eu desenho.

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A propósito do Dia das Bruxas, certas áreas onde mulheres ainda encontram mais dificuldades do que homens

"BRAVE"   (Pictured) THE WITCH ©2012 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Quem vai ao Google hoje vê uma bruxa tirando feitiços de um caldeirão. Para celebrar o Dia das Bruxas, não há nada melhor do inventariar situações em que o desfavorecimento feminino seja mais evidente. Como em ambientes tecnológicos e artísticos, por exemplo.

(curioso como, muito antes de escolhermos certos temas, são eles que nos escolhem, por meio de um bombardeio, nas PLNs, de referências convergentes, como as abaixo)

Não tinha ideia de como se dá o aprendizado da programação (de computadores) até ler a entrevista que Jay Rosen (jornalismo, NYU) fez com sua filha de 17 anos que vem tendo aulas de programação. De imediato, relacionei ao caso da filha de Howard Rheingold, que apresenta num filme para o Google o ambiente da empresa em que trabalha. Mesmo que não se trate, exatamente, nestes casos, de meninas comuns, não podemos deixar de pensar em que oportunidades de aprendizado de programação são oferecidas a meninas em nossas escolas.

Ainda esses dias a Folha traduziu do New York Times e republicou uma matéria sobre o apagamento histórico de biografias de mulheres pioneiras em áreas tecnológicas. Muito bem pesquisada e ilustrada. Ali, descobrimos o inexplicável sumiço, da história da tecnologia, de Ada Lovelace, matemática e escritora inglesa que viveu entre 1815 e 1852 e, entre outras coisas, escreveu o primeiro algoritmo computacional. O mesmo bias sexista se faz presente hoje em áreas tão distantes entre si como, por exemplo, o esporte ou os brinquedos.

Já no campo das artes, é notória predominância masculina em pódios orquestrais. Mais. Embora rigorosos processos seletivos já tenham equilibrado a presença dos gêneros em orquestras de todo o mundo, há, ainda, lamentavelmente, casos de orquestras totalmente masculinas. Como as filarmônicas de Berlim ou Viena, as quais, respectivamente, rejeitaram, no fim dos anos 80, o ingresso de uma clarinetista, protegida de Herbert von Karajan; e, no ano passado, de uma flautista. Cabe ressaltar que, em ambos os casos, as orquestras reprovaram, por maioria, o ingresso de virtuoses notórias como suas primeiras integrantes mulheres. Coincidência ? Acho que não.

E há mesmo, pasmem, quem trate de justificar, como o eminente finlandês Jorma Panula, para espanto das próprias alunas, que mulheres são biologicamente inaptas à regência orquestral. Sério. Pior. Ouvi testemunhos incríveis sobre isto, longe de qualquer consenso, de músicos e maestros acima de qualquer suspeita. Dentre os mais engraçados (posto que mais preconceituosos) argumentos que normalmente ouço em resposta à pergunta (que tenho mesmo por questão de pesquisa ou linha indagatória) de por que são tão raras as mulheres no pódio, se destacam:

” Então por que não há, afinal, mais mulheres regendo ? “

Esse, ao mesmo tempo tautológico e fenomenológico, simplesmente devolve a pergunta sem respondê-la, .  ao mesmo tempoessa é simples – ótima, no entanto para uma aula de história. Basta lembrar, para começar, que a atividade de regência nasceu ao mesmo tempo do que a militarização industrial das nações…)

” São incapazes de certos gestos mais enérgicos, até violentos, usualmente atribuídos ao gênero masculino. “

Questionável. Tanto no que se refere à capacidade do gesto quanto à necessidade do mesmo.

” Umas poucas que sucedem o fazem sob o preço de se masculinizarem. “

Esse, prefiro nem comentar. Quando o ouço, basta pensar em Alondra.

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P.S.: uma variante bem interessante para a questão norteadora ” Por que mulheres são tão raras no pódio orquestral ? “ seria ” Por que mulheres, diante de orquestras, são bem mais frequentes como solistas do que como regentes ? “. Um verdadeiro portal para estudos sobre celebridades.

In praise of serendipity (ii): dos inestimáveis benefícios do acaso quando da tomada de decisões

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Coisas como a teoria das probabilidades sempre me fascinaram. Como se eu tivesse antenas sintonizadas a tudo o que digam sobre como o acaso dificulta ou favorece tudo o que queremos ser ou fazer. Por isso, compartilhei, assim que recebi, dias atrás, uma curiosa matéria que saiu no Guardian apontando os benefícios de tomadas de decisão mais aleatórias no dia a dia. Contrariamente, portanto, ao senso comum.

Em se tratando de escolhas e decisões, o tamanho e a variedade do universo de opções é sem dúvida o que mais importa. Por isso crianças em idade escolar preferem invariavelmente os períodos de recreio e atividades esportivas em relação aos de aula – não por acaso aqueles em que trocam mais interações com parceiros mais selecionados, por atributos ou habilidades específicos, dentre um universo bem mais amplo (i.e., da mesma série escolar ou, por vezes, até de outras) do que aquele delimitado pela lista de chamada de sua própria sala de aula. Assim, não é de espantar que a maioria prefira os contatos presenciais mais esporádicos do pátio ou das escolinhas esportivas até mesmo àqueles das outrossim muito mais capilarizadas redes sociais.

Ao mesmo tempo, é raro que tenhamos conhecido na infância ou na adolescência aqueles que acabamos, em idades mais maduras, elegendo como nossos melhores amigos. Mais: por vezes, chegamos a conhecer alguns destes (como, por exemplo, nossos hóspedes favoritos) para muito além de nossa esfera presencial, exclusivamente por força e graça de conexões virtuais. De tal modo que é perfeitamente razoável se afirmar que estamos fadados a conhecer pessoas bem menos interessantes enquanto restritos às esferas presenciais.

Também é altamente temerário tentar predizer o sucesso futuro de qualquer sujeito em razão de seus êxitos mais precoces. Pois é familiar a todo professor experiente o caso do melhor aluno de uma classe cujas realizações são facilmente suplantadas pela de colegas só percebidos, em suas vidas escolares, apenas como medianos ou esforçados.

As chances de descoberta casual também são intimamente relacionadas às noções antagônicas de broadcasting e narrowcasting. Entendemos por broadcasting todo discurso difundido por mídias hegemônicas, sejam elas eletrônicas ou impressas. Então, quando falamos em broacasting, estamos nos referindo ao que vemos ou ouvimos em rádio, TV (na aberta mais do que na fechada), jornais e revistas. Por oposição, definimos como narrowcasting todo discurso difundido predominante ou exclusivamente por meios dispersos (i.e., diluído em meio a uma enorme quantidade de outras falas a ocupar o espaço discursivo). Com isto, concluímos facilmente que narrowcasting é, por excelência, todo discurso residente na web. Também não é difícil perceber por que a maioria dos governos vê com mais simpatia e, em muitos casos, favorece descaradamente mídias que suportam o broadcasting. Mas meu humor está bom demais para que eu enverede a falar de política.

Postas as definições acima, afirmamos que, ao interagirmos em busca de informação, as chances de descobertas qualificadas se ampliam à medida em que privilegiamos o narrowcasting em prejuízo do broadcasting. Como, por exemplo, ao escolher que música ouvir – quando caímos, na maioria das vezes, numa das seguintes categorias.

  • Pessoas só ouvem rádio por que não suportam ter que escolher o que ouvir. Rádios convencionais são fundadas sobre a atividade de DJs que escolhem previamente músicas que supostamente agradam ao perfil que atribuem a seus ouvintes.
  • Num contexto de menor broadcasting e maior narrowcasting, sistemas de distribuição a cabo (como os de TV) permitem maior segmentação de ouvintes por meio de canais dedicados a gêneros específicos; tais sistemas ainda dependem, no entanto, da interferência de DJs para programar sequências de músicas por gênero, que passam a ser repetidas (como em rádios convencionais) pelas empresas operadoras.
  • Em webradios algorítmicas (i.e., controladas por engenhos de gosto), parâmetros alimentados pelo próprio ouvinte orientam a sequência randômica do que é ouvido. Curiosamente, acho as mais insuportáveis. Por isso, penso que deve ser bem difícil a qualquer um definir, estritamente em termos técnico-musicais, o que mais gosta de ouvir.
  • Por meio de PLNs (personal learning networks) cuidadosamente ajustadas a nossos interesses e curiosidades. Ou se preferirem, sistemas de recomendação. Idealmente customizáveis – sem qualquer resquício, portanto, de broadcasting. Ainda não conheci nada melhor para orientar minha leitura e minha escuta.

Por tudo isso, é natural que eu venha colecionando já há algum tempo um lexus de ótimos artigos e conferências sobre a imponderabilidade. Os melhores de que me lembro são os seguintes:

Where good ideas come from ? é uma palestra de Steven Johnson sobre ambientes favoráveis à colisão de ideias.

Conformity, recomendado pela Maria Popova (grande curadora do excelente blog brainpickings) é um filme de animação que plota em ordem cronológica os avanços da psicologia em relação a como o pensamento da maioria afeta as decisões de cada um.

This column will change your life: random decisions é o artigo do Guardian em prol de tomadas de decisões mais aleatórias ao qual me referi no início deste post. Nele, o autor elenca uma série de decisões cotidianas que podem ser otimizadas com o aporte deliberado de alguma imprevisibilidade. Em suas passagens mais impressionantes, afirma que “When we’re faced with the unfamiliar, experience can mislead humans” e que “Randomness disinfects a process that might be dirtied by corruption”. Convincente, não ?

Tanto que, dias depois de sua leitura, ainda me surpreendo procurando identificar situações práticas nas quais um pouco de incerteza consentida tende inquestionavelmente a favorecer o processo. Assim de pronto, posso citar duas delas. Uma individual e outra coletiva. Quando, por exemplo, viajamos ao volante, pode e, efetivamente, costuma ser muito mais gratificante tomar caminhos nunca antes percorridos do que aquele imediatamente reconhecido como o mais eficiente. Qualquer um que já foi de Porto Alegre a Gramado ou Canela por Nova Petrópolis sabe disto.

Há, também, o caso de orquestras que preferem trabalhar com um rodízio permanente de regentes convidados do que com um único titular. Ora, é claro que, num rodízio de convidados, podemos ir do paraíso ao inferno e vice-e-versa entre um concerto e outro. Sabe-se, no entanto, que, diante de maestros muito ruins, orquestras alternam, tacita e silenciosamente, para um modo operacional no qual cada músico orienta seus sentidos muito mais para como seus colegas estão tocando do que para qualquer instrução ou gesto vindo do pódio. Chamamos a este modo de take over e todo músico experiente sabe perfeitamente, sem qualquer comando externo, em que momentos deve ativá-lo. Em seu próprio benefício e no da música. Mas também não queria falar de orquestras e maestros. Pelo menos, não hoje. Por isso, vou ficando por aqui.

Abracem o acaso !

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on conducting (iii): maestros are sometimes required because light is much faster than sound

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(tem dias que acordamos mais afeitos a silogismos simples)

Uma das questões que a maioria dos músicos (e possivelmente alguns ouvintes sensíveis) mais frequentemente se perguntam é por que raios maestros são, às vezes, sim, tão necessários. Pois, afinal, é raro virtuoses tocarem música de câmera guiados por uma batuta.

Por outro lado, se nota que, a partir de um certo tamanho de conjunto (ou complexidade textural), se torna tremendamente conveniente a participação de um regente durante performances. Intrigante, não ?

Pensem, agora, que a luz viaja no espaço em velocidade tremendamente maior do que a do som. Mais exatamente, 882.352,94 vezes maior. Ou seja, quase um milhão de vezes maior. Já é alguma diferença. Significa que, em performances musicais, pode ser considerada instantânea. Então, num contexto onde a percepção do som não é mais confiável (por que há uma diferença perceptível de tempo entre o que é tocado, simultaneamente, perto e longe de quem ouve), a informação visual se torna indispensável à sincronização do todo.

Então, em circunstâncias em que a projeção dos conjuntos no palco ultrapassa  dimensões necessária para o perfeito entendimento auditivo do que todos estão tocando (a qual varia não somente de acordo com o “tamanho da banda” mas, também e principalmente, com o grau de resolução acústica de cada textura musical (tem a ver com a percepção do “grão” rítmico); por isso em música popular, onde músicos tocam bem afastados uns dos outros, a amplificação de retorno é primordial), é praticamente um consenso que regentes sejam necessários e até benéficos à execução musical.

* * *

Por vezes me pergunto por que músicos orquestrais perdem tanto tempo pensando em maestros. Ora, só pode ser por que passam (não raro à revelia, por força do ofício) olhando para eles. Imaginem o espectro de sentimentos entre o amor e o ódio que esse tipo de relação é capaz de engendrar. Então, conquanto ainda seja bem difícil qualquer consenso quanto à conveniência ou mesmo a necessidade de regentes titulares à frente de organizações sinfônicas, é certo que maestros só existirão enquanto houverem orquestras – as quais, já há, no entanto, quem acredite, serão extintas nos próximo trinta anos. Logo, só o que posso dizer a quaisquer aspirantes a estes (cada vez mais raros) postos é que se divirtam. Enquanto puderem.

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minding orchestras (v): ineditismo e redundância em repertórios sinfônicos

Um dos cernes do debate entre, de um lado, os mais conservadores e, de outro, os mais progressistas dentre os gestores artísticos de orquestras é a proporção ideal de ineditismo e redundância na música ouvida em concertos.

Do ponto de vista da audiência, o problema geralmente assim se resolvia: em concertos “oficiais”, i.e., para ouvintes mais frequentes, se ouvia, quase invariavelmente, uma grande sinfonia precedida por um grande concerto e uma grande abertura; enquanto em concertos “populares” – ou seja, aqueles tocados para um públicos ocasionais, talvez sem familiaridade alguma com a música sinfônica – o que se tinha, quase sempre, era uma série de valsas, polcas e aberturas (com sorte algumas árias) desmembradas de obras maiores. Costumávamos dizer que almejavam uma audiência burra, e tínhamos bastante vergonha de tocá-los.

Felizmente, os tempos são outros, e já ouvimos orquestras tocarem, em cidades menores do que suas sedes, sinfonias e concertos inteiros. Sem microfones. Em respeito ao público e aos executantes.

Infelizmente, ainda temos, vez que outra, concertos “oficiais” integralmente dedicados a música mais estranha a muitos dos ouvintes e dos próprios músicos. Coisas como, por exemplo, obras de Lutoslavski e Penderecki junto com duas de Guarnieri. Uma mistura que, para qualquer músico sensato, jamais poderia ser devidamente preparada em apenas uma semana de ensaios. O que mais espanta é que não é a primeira vez que acontece.

Entendam, por outro lado, a importância da redundância de execução de recortes bem específicas de todo o repertório conhecido. Ora, nenhum melômano deve negar que todas as sinfonias Brahms e Mahler são sublimes, bem como todas as de Beethoven a partir da Eroica; que menos da metade das sinfonias de Mendelssohn e Tchaikovsky se salvam; que Bartok, Nielsen, Shostakovich e Stravinsky são superiores a quase tudo sinfônico produzido no século 20; que só 3 ou 4 das 40 sinfonias e quase 30 concertos de piano de Mozart merecem audições repetida; que concertos de piano são mais arrebatadores do que os para quaisquer outros instrumentos; que, dentre estes, o concerto de clarineta de Mozart é, disparado, o melhor; e assim por diante. Qualquer um que já tenha, deliberada ou inadvertidamente, adquirido coleções de discos com obras integrais de quaisquer compositores sabe disso.

O que quero dizer com isto ? Simples. Há, sim, uma parte bem limitada de todo o repertório conhecido que deve ser promovida preferencialmente, em prejuízo de outras. Mais. Que aceitem que, em música em particular e arte em geral, a isonomia nem sempre é uma boa ideia, já que o julgamento histórico importa e que, portanto, segmentos iniciais de obras de gênios precoces devem permanecer convenientemente esquecidos.

Já devo ter contado a história da Schubertíade na qual pretendiam executar, durante dez anos em Nova Iorque a partir de um aniversário do compositor, a totalidade de seus lieder em ordem cronológica. O projeto naufragou, como era de se esperar, pois não conseguiram vender ingressos para os primeiros recitais (custo a entender como não previram isso…)

batman e robin proko x shosta

 

 

Sobre debates eleitorais em particular e propaganda política em geral

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Quando FHC derrotou Lula em eleições presidenciais (bem antes, portanto, da universalização da internet !), foi naturalmente aceita, como um fato banal, a tese do primeiro de que, na campanha que antecedesse o pleito, os candidatos não precisassem debater ao vivo em redes de rádio e TV – sendo, portanto, suficiente para orientar a escolha dos eleitores a propaganda veiculada por meio de carros de som. Foi nesta época que a extinta Gazeta Mercantil publicou, entre seus editoriais, o primeiro e único texto político que rabisquei décadas antes de cometer um blog, panfletariamente intitulado “Debate Já !”.

De lá para cá, as coisas mudaram bastante, a ponto dos embates entre candidatos em cadeia nacional de TV se tornarem os pontos culminantes de qualquer campanha eleitoral. Sustento, no entanto, que ainda é muito pouco. Nestes debates, a escassez de tempo e o engessamento do formato em perguntas, respostas, réplicas e tréplicas cronometradas impedem ou dificultam tremendamente a argumentação em torno de ideias e princípios que realmente importam em se tratando de escolher governantes e (oxalá não por muito tempo !) representantes parlamentares.

Provavelmente devido a minha baixa expectativa em relação a estes embates, me mantenho sistematicamente alheio aos mesmos – me beneficiando, com isto, da enorme vantagem de deles só ter notícia por meio de comentários sobre os mesmos bem mais qualificados (posto que por membros cuidadosamente selecionados de minha PLN !) do que os próprios debates em si. É como fico sabendo, por exemplo, das excrescências verbais do pastor ou da rinha entre os três favoritos na noite de ontem.

É, pois, pela caduquice dos formatos de peças de campanhas como hoje conhecemos (debates, horário eleitoral gratuito e publicidade paga (midiática, cartazes & santinhos)) que reivindiquei aqui, dias atrás, em tom apenas aparentemente jocoso, a realização obrigatória de reality shows, senão como todos os candidatos (enquanto custos ainda forem proibitivos), então pelo menos com os presidenciáveis.

Por que isto ainda não acontece ? Ora, por que viriam inevitavelmente à tona verdades que implicariam na ruína dos partidos políticos e dos monopólios midiáticos.

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Do anonimato, do público e do privado, com um recado ao TSE

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Fatos recente me fizeram pensar um bocado sobre a importância do anonimato para a democracia. Ora, o anonimato é tão importante quanto a atribuição de autoria pois, sem ele, saberíamos muitíssimo menos. Não é à toa que compartilhadores icônicos sejam tão ou mais perseguidos do que terroristas. As biografias de Assange e Snowden são exemplares.

Deve ser por isso que recomendo a todo sujeito virtual postar e comentar, em seu perfil e nos de outros e, portanto, visivelmente  a mais pessoas, bem mais do que trocar mensagens bilaterais. Aposto que algum linguista  já se debruçou, nalgum momento, sobre o que distingue as falas públicas das privadas. Que nuances distinguem a linguagem com que são confiados segredos daquela com que se fala diante de todos ?

Como aprenderíamos se pudéssemos, por exemplo, comparar o discurso dos palanques com o dos gabinetes, já que homens públicos falam e se comportam de modos totalmente distintos quando diante de câmeras e microfones e longe dos mesmos.

Não seria tão melhor do que o que vemos hoje no horário eleitoral gratuito se candidatos a quaisquer cargos eletivos participassem obrigatoriamente de um big brother meses antes de cada pleito ? Sem confinamento. A universalização da ideia do político rastreável. No mínimo, mais informativo e, muito provavelmente, bem mais divertido. Acorda, TSE !

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