On conducting (v): da aquisição da competência da regência

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Sempre que me deparo com absurdos programas acadêmicos, de curto (festivais) e longo (graduações e pós-graduações) prazo, para didática da regência orquestral, torno a insistir que a regência não pode ser ensinada. Sim, sei que virão com a importância do gesto – ao que, de pronto, respondo: de nada importa o melhor gesto para as câmeras (pois o maestro está, via de regra, de costas para o público), se o cara não souber pedir, educadamente e de um modo inteligível e interessante a todo músico, do mais refinado ao mais grosso, como espera que a música soe.

Nesta cena caótica, em que, muitas vezes, músicos limitados são içados ao pódio por algum tipo de poder político ou econômico, despontam invariavelmente, como melhores maestros independentes (uma categoria que deveria ser bem mais populosa – i.e., a de regentes com vinculação temporária e não exclusiva com as orquestras que regem) despontam, invariavelmente, virtuosi de todos os instrumentos, com predominância absoluta de tecladistas sobre os demais. Ashkenazy, Barenboim, Harnoncourt, Levine … (a lista é interminável) estão aí para comprovar. Suponho, assim, que tampouco um Bernstein ou Boulez faça feio ao teclado.

Há, com efeito, entre músicos um certo consenso, apoiado sobre fortes evidências, de que, dentre os melhores músicos, os mais afeitos a regência sejam os que dominem instrumentos harmônicos (isto é, capazes de emitir vários sons simultaneamente) em geral e de teclado por excelência. Tendo pensado, por algum tempo, na interessante questão de por que há, no volátil universo dos regentes competentes, bem mais tecladistas do que instrumentistas de cordas (tanto dedilhadas como friccionadas), concluí que deve ser por que, enquanto um teclado disponibiliza, a qualquer instante, quaisquer sons de uma escala, as cordas oferecem um número mais limitado de sons simultâneos. Posto que separados, obrigatoriamente, por intervalos mínimos.

Meio técnico, né ? Digamos, então, simplesmente que um tecladista consegue realizar, por definição, harmonias mais densas (com sons mais próximos) do que, por exemplo, violonistas (conheço exímios guitarristas que preferem compor ao teclado). O que torna, por sua vez, mais natural ao tecladista, enquanto regente, realizar sonoramente quaisquer texturas contidas numa partitura. Ou, dito ainda de outro modo, tecladistas podem, melhor do que quaisquer outros músicos, ouvir (e estudar !) uma música ao instrumento antes de se aventurarem a dirigir uma orquestra na execução da mesma. Isto faz uma diferença enorme. Acreditem.

(querem pensar sobre a relativização da densidade harmônica ? É só comparar, por exemplo, numa linha de tempo, a polifonia primitiva com a harmonia dos clássicos e barrocos (praticamente a mesma, pois a grande novidade que distingue, em música, o barroco do clássico é muito mais de ordem formal do que harmônica) e a dos românticos. Ou, se preferirem, em jazz, a do dixie com a do swing e a de Monk…)

Devo confessar, no entanto, que, para além do restrito círculo de celebridades maduras e lendárias da batuta, nada sei sobre os dotes pianísticos de jovens como, por exemplo, Alondra ou Dudamel. Que não devem, evidentemente, ser poucos. Pois já vi um video da primeira tocando, ao piano a quatro mãos, música popular mexicana (outra hora explico a superioridade de certos fazeres musicais populares sobre os eruditos). E acho que não deixariam o último reger óperas se não soubesse, ao menos, reduzir partituras ao piano.

Céticos ou simplesmente desavisados hão de citar, ainda assim, notáveis exceções à regra. Como Simon Rattle, sucessor de Claudio Abbado há mais de dez anos à frente da lendária Filarmônica de Berlim que está em posição de exigir ao poder público londrino a construção de um novo teatro como condição para seu retorno ao reino. A estes é, no entanto, suficiente lembrar que Sir Rattle anunciou recentemente sua estréia (!) como pianista, dividindo o palco do Wigmore Hall (!!) com Lady Rattle – que é, segundo o Milton, uma verdadeira uma glória tcheca.

No video, Lady Rattle ou, como também é conhecida, Magdalena Kožená.

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Next: on conducting (vi): da obtenção da licença para reger

O Pontal do Estaleiro, assim como o Cais Mauá, é de todos

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De tempos em tempos, empreendedores imobiliários tentam em vão erguer na área outrora ocupada pelo Estaleiro Só, em Porto Alegre, às margens do Guaíba, prédios residenciais e comerciais. Recentemente, ambientalistas se opuseram outra vez à exploração comercial e imobiliária daquela área.

Lendo notícias sobre os argumentos levantados em duas recentes audiências públicas  sobre o último projeto apresentado, se têm a impressão de que seus opositores erram cronicamente o alvo. Segundo o que foi relatado na imprensa, ambientalistas questionam a viabilidade técnica do projeto no que se refere, por exemplo, à segurança da fixação de altos prédios  sobre terreno arenoso. Ora, com a tecnologia já existente (vide a construção de plataformas marítimas para exploração de petróleo) poderiam, se quisessem, erguer construções sólidas até sobre o leito do rio. Por isto, entendemos a retórica adotada por opositores ao projeto como totalmente equivocada.

A discussão deveria ser mais profunda. O pontal do estaleiro, assim como toda a orla do Guaíba, é ou deveria ser considerada como área de marinha. E, como tal, deve ter seu uso estritamente vinculado ao interesse público – estando, portanto, vedada sua exploração imobiliária pela iniciativa privada. É claro que os atuais proprietários, tendo adquirido a área (não sei em que circunstâncias) à massa falida do estaleiro, gozam de pleno direito sobre a mesma. Tal direito não deve, no entanto, se sobrepor ao entendimento de que toda a orla deve permanecer de utilização pública.

Retrocedendo no tempo, há em Porto Alegre tanto bons quanto maus exemplos de gestão de áreas de marinha. Como, respectivamente, a Usina do Gasômetro, transformada em um centro cultural, e o Cais Mauá, prometido pelo poder público a empreendedores privados. Há, também, o caso dos inúmeros clubes náuticos sediados à margem do lago, desde a ponte até a zona sul, e, vá lá, um clube de futebol. Mas clubes são, ao menos e até certo ponto, abertos a quem quer que a eles queira se associar. O que não é, evidentemente, o caso de lojas e apartamentos que venham a ser comercializados no atual projeto para o pontal.

Conquanto de natureza inquestionavelmente privada, o Estaleiro Só teve, enquanto existiu, sua localização plenamente justificada junto ao lago. Pois seria, senão impossível, ao menos improvável construir navios longe de um canal com calado profundo e fácil acesso a águas marítimas. Então, podemos afirmar que o Estaleiro Só cumpria uma missão econômica enquanto esteve instalado numa área privilegiada de marinha.

Tal não é o caso, evidentemente, dos condomínios hoje propostos para a mesma área, os quais podem muito bem ser construídos em outras regiões – nas quais não teriam, evidentemente, o mesmo valor imobiliário. Com isto, podemos afirmar que qualquer projeto envolvendo unidades residenciais e comerciais naquela área é francamente especulativo e, portanto, contrário ao interesse público.

Qual, então, neste caso, a única solução decente para o impasse ? Ora, a desapropriação imediata da área, com o devido ressarcimento pela cidade de valores pagos por especuladores pela massa falida do estaleiro. É claro que a arbitragem judicial do valor a ser ressarcido pelo município seria complexa, envolvendo diversas questões de mérito e se prolongando provavelmente por muitos anos. Mas pelo menos a vocação pública da orla estaria, com isto, garantida. Caso contrário, caminharemos irreversivelmente em direção a um modelo, já praticado em Dubai ou Puerto Madero, de entrega sistemática à exploração privada da melhor parte da paisagem urbana.

Por isto, esperamos que o salutar movimento Ocupa Cais Mauá cresça, e rápido, a ponto de açambarcar iniciativas análogas como um Ocupa Pontal do Estaleiro.

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Não existem atalhos para proteger crianças de jogos violentos

O texto abaixo é uma tradução do que foi escrito por Nathan Ditum e publicado originalmente em The Guardian em 31 de março de 2015.

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Eis mais uma razão para que todos se interessem por videogames. Obrigado, diretores de escola de Cheshire, por enviarem uma carta, sutil como um tijolo, ameaçando pais de envolvimento com a polícia e serviços sociais se seus filhos tiverem acesso a videogames violentos ! Trata-se de um enorme desserviço.

A mensagem é, na verdade, totalmente equivocada – especialmente se considerando que quase todas as escolas que integram a Nantwich Education Partnership são primárias, abrangendo uma faixa etária particularmente vulnerável, e que a carta também aborda redes sociais. Ora, que a carta trata dos perigos de jogos e da internet como se descrevesse um lugar distante de monstros digitais e predadores sexuais. “Call of Duty, Great Theft Auto, Dogs of War e outros jogos similares são todos inapropriados para crianças”, diz, mais preocupada em defender crianças desses títulos tóxicos sem, aparentemente, perceber que um deles não é real (ao menos, é claro, que os diretores de Cheshire estejam se referindo ao clone de Rambo chamado Dogs of War lançado em 1989 para os consoles Amiga e Atari SX – o que, provavelmente, não é o caso).

A parte sobre social media não é mais racional (o acesso “estimula comportamentos sexuais precoces” e “os torna vulneráveis ao aliciamento para a exploração sexual e à violência extrema”). A verdadeira falha da carta é, no entanto, ser indicativa da ignorância generalizada e indiferença que, ao nosso ver, constituem o cerne do problema.

A situação é frustrante por que, embora destrutivamente pesada e parecendo, por vezes, um cão latindo para fogos de artifício, a carta carece de foco. Pais devem, sim, assumir a responsabilidade final sobre aquilo com o que seus filhos se envolvem, e é correto afirmar que a indiferença generalizada é pior para todos. Como pai de alguém com 12 anos de idade, estou em meio ao processo de tomar essas decisões duras, em parte por que muitos outros pais parecem satisfeitos em deixar seus filhos jogarem o que quiserem. Este senso de injustiça pode tornar a resistência aos pleitos de seus filhos particularmente difícil.

Reconheço que o argumento “mas todos os meus amigos…” é tão velho quanto a humanidade (o pai de Freddy deixa ele usar o machado o tempo todo). É, no entanto, um problema real, i.e., um sintoma de pais não sabendo e/ou pouco se importando com o que seus filhos jogam. E a má notícia, aqui, para a Nantucky Education Partnership e demais fãs da moral prescritiva licenciosa, é que classificações etárias não são suficientes.

Em sua parte mais centrada na agressividade passiva, a carta diz: “se seus filhos obtiverem permissão para ter acesso inapropriado a qualquer jogo ou conteúdo associado indicado para maiores de 18 anos, somos orientados a procurar a polícia e os serviços sociais, pois isto é considerado negligência”. A referência é, aqui, presumivelmente a classificação etária PEGI, fornecida pela Pan European Gaming Information que, desde 2012, é o órgão responsável pela classificação de jogos em todo o Reino Unido.

Ainda que tornem ilegal a venda de jogos a crianças abaixo da idade apropriada, as classificações PEGI apenas propiciam aos pais diretrizes não-obrigatórias sobre o que seus filhos devem ou não jogar – razão pela qual as ameaças contidas na carta soam tão exageradas. Por isso, temos que reconhecer que este tipo de aconselhamento – como, de resto, qualquer outro oferecido por sistemas de classificação – tem sua utilidade apenas como uma forma de orientação demasiado genérica.

Uma mesma classificação 18 foi conferida, por exemplo, a todos os jogos mencionados na carta. Tenho, no entanto, sérias dúvidas sobre se meus filhos devem ou não jogar alguns deles. Call of Duty é uma série que retrata violência militar e oferece aos jogadores um conhecimento enciclopédico sobre armas reais de fabricantes licenciados. Grand Theft Auto V é um jogo no qual é possível contratar uma prostituta. Mas a mesma classificação 18 foi dada a The Last of Us, um terror apocalíptico que, sim, inclui horror violento que muitos pais julgariam inapropriado que seus filhos vissem – mas também elementos de ambiguidade moral com os quais fico, pessoalmente, satisfeito que meu filho de 12 anos se envolva. “Não sei se devo atirar !” gritou ele ao se deparar pela primeira vez no jogo com outro humano desesperado – um senso de ambivalência e consequência que jamais teria jogando Call of Duty.

Finalmente, contrastemos estes jogos para maiores de 18 anos com outro, popular e amigável, classificado para maiores de 3 anos, a saber, Fifa 15. Trata-se de um jogo sobre futebol sem conteúdo sexual, mas que inclui um compulsivo jogo de trocas chamado Ultimate Team o qual, afirmo, teve uma influência muito mais sinistra sobre o senso de valor e espírito esportivo de meu filho do que qualquer outra coisa mais obviamente inapropriada.

Onde quero chegar ? Pais precisam, sim, assumir responsabilidade. Mas, para tanto, não há atalhos. Precisamos mais do que cartas histéricas e classificações etárias. Precisamos compreender a complexidade dos jogos como existem hoje, e tomar decisões sobre o que queremos que nossos filhos experimentem com base no que são capazes de absorver e – algo até agora ausente em toda esta polêmica – as pessoas que queremos que se tornem.

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Celebrem o Dynamic Range Day !

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É bem pouco provável que qualquer de meus leitores (exceto, talvez, o Bruno e o Marcos) saiba do que se trata o Dynamic Range Day (DRD), comemorado por uns poucos entusiastas, não sei desde quando (seria interessante averiguar !), a cada 27 de março. Isso mesmo. Hoje. Então, tenham paciência se sou, aqui, meio didático.

O Dynamic Range Day (numa tradução tosca, dia da gama dinâmica) é uma iniciativa utópica, compartilhada por engenheiros, técnicos e, supostamente, músicos e audiófilos, que defende a preservação, em gravações e difusão de áudio, da gama dinâmica (i.e., a diferença de volume entre sons fracos e fortes). A ideia por trás do movimento está em combater a alta compressão, na gravação, broadcasting – e, deste dias atrás, também o narrowcasting, representado por nada menos do que a maior rede de compartilhamento de videos existentes na web. Isso mesmo: o YouTube, que passou da comprimir, de uma hora para outra, por default, o som de tudo o que nele é postado. O anúncio do novo protocolo chegou a ser considerado uma batalha perdida na Loudness War.

Ok. Compressão talvez também seja um conceito ainda meio estranho para alguns leitores. Vamos lá.

Tomemos o “espaço” máximo de som que pode ser ouvido num dado sistema. Se o som é comprimido, significa que sua parte mais fraca (dita de baixa dinâmica) é eletronicamente amplificada a fim de se aproximar, em volume ou, se quiserem, barulho, de sua parte mais forte (as altas dinâmicas). Só que o processo agrega ao som resultante um fenômeno conhecido como distorção. Que é percebida, por sua vez, como certa perda de detalhe nos sons mais tênues e harmônicos mais agudos.

In short, compressão é indesejável em toda gravação que se pretenda de certa forma fiel à realidade acústica do que é gravado. Só que pouca gente sabe disto. Na contramão, conspiram as agonizantes (sim, sei que há controvérsias sobre isto !) indústrias fonográfica e da mídia hegemônica (i.e., emissoras e canais de rádio e televisão). E, é bom lembrar, desde a semana passada, também o YouTube.

Particularmente, entendemos a Loudness War é um fenômeno essencialmente decorrente dos modos como se ouve música em cada época. Antes, a música era descoberta em salas de concerto (a clássica), clubes, bares e cafés (a popular) ou rádios ou vitrolas ouvidos em ambientes relativamente silenciosos. Hoje, a música é projetada para ser ouvida em dispositivos móveis usados em ambientes ruidosos por definição. Então, é natural que emissoras e canais comerciais comprimam conteúdo a fim de disputar a atenção de ouvintes em ambientes em que loudness (não sei traduzir) é primordial. Natural, também, então, que o pouco que resta da indústria da música se esforce para oferecer música cada vez mais comprimida.

Quando se reuniram para promover uma consciência mais pública, não restrita aos círculos técnicos, sobre esta tendência tão nociva à música, engenheiros e técnicos de áudio, suponho que ingleses, idealizaram um concurso no qual premiam, anualmente, gravações nas quais são utilizados os menores índices mensuráveis de compressão. Não sei muito bem como fazem isto. Perguntem pro Marcos.

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On education (ii): sobre cartas de recomendação

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De tantos em tantos anos, invariavelmente algum aluno me pede uma carta de recomendação para algum programa acadêmico (o que costumo considerar um ato de coragem). Desta vez, fiquei curioso com o fato de que levei praticamente o mesmo tempo (i.e., ca. duas semanas) para redigir a carta do que costumo levar, em média, para publicar cada novo post em meu blog. Mesmo que cartas de recomendação sejam bem mais sucintas do que a maioria de meus posts. Interessante.

Enquanto não me sentava ao computador para deitar, de uma sentada só, a carta que me foi solicitada, devo ter ruminado algo sobre cartas de recomendação diante de meu filho Pedro (14), posto que o mesmo de pronto indagou

  • se professores mentiam ou exageravam ao recomendar alunos (!); e
  • com que frequência um professor era solicitado a emitir cartas de recomendação.

Tais questões dizem respeito à própria existência e natureza desta forma de documento.

* * *

É bem comum – principalmente, suponho, entre universidades norte-americanas – a existência de formulários padronizados para cartas de recomendação nos quais o recomendante é solicitado a plotar o recomendado em faixas específicas de curvas de distribuição, preenchendo lacunas em frases como “o candidato está entre os n % mais isso ou aquilo”. Devo dizer que sou acometido de tremenda má vontade sempre que tenho que preencher um destes. Como se a classificação de cada aluno entre os 5, 10, 25 ou 50 % mais aptos nesta ou naquela categoria pudesse dizer muito sobre o mesmo. Ou se sequer fosse possível enquadrar cada aluno desta forma. Por isto, prefiro muito mais as formas livres de carta de recomendação à suas versões mais formatadas.

A própria existência da carta de recomendação como um formato recorrente entre instituições acadêmicas atesta, acima de tudo, que a academia não confia em seus amplos e complexos instrumentos de aferição que ela mesma desenvolve. De um simples histórico escolar a bases complexas como o LATTES. De sorte que, quanto mais elevado o nível de ensino avaliado, mais sofisticadas as ferramentas academicométricas empregadas. Ora, então por que raios qualquer corpo docente precisaria de cartas de recomendação (subjetivas e, portanto, “exageráveis” por definição) diante da quantidade de informações disponíveis para traçar perfis de quaisquer candidatos em bases como, por exemplo, a do CNPq, acima citada ? É evidente, então, que a própria academia não confia (em situações cruciais como, por exemplo, seleções de candidatos a programas de pós-graduação) naquilo que criou.

Assumamos, então, que uma grande parte da academia – a saber, aquelas artes e ciências cujos produtos sejam dados ao conhecimento de forma predominantemente escrita; falamos aqui da complexa rede de papers e teses que regulam, via de regra, o prestígio e o acesso acadêmicos – não possa confiar, efetivamente, em indicadores de estatura e desempenho derivados predominantemente de documentação escrita.

Sob tal premissa, é bem mais fácil, então, do que se aferir desempenho nestas áreas, verificar qualquer alegação de excelência em artes de performance unicamente por força de sua reprodutibilidade. Como no drama ou na música. Pois nenhum carteiraço resiste ao exame atento de um vídeo (pois, com as atuais facilidades de edição, mixagem ou mesmo afinação, gravações de som não mais são confiáveis como registros fidedignos em tempo real de execuções ao vivo.

Talvez por isso me pareça tão mais fácil para um professor de instrumento musical (ou canto) auscultar a proficiência de qualquer aluno. Pois nada me tira a convicção de que ouvir alguém tocar ou cantar diz muito mais do músico ou cantor do que a leitura de um texto pode dizer com certeza de seu autor. É claro que não falo, aqui, de dúvidas que possam eventualmente pairar sobre a autenticidade da autoria de um texto qualquer. O que quero dar a entender tem mais a ver a instantaneidade do processo da execução musical em relação ao processo mais atemporal, não linear, da gestação de um texto. Ou, ao menos, como imagino a julgar pelos meus.

É, pois, feliz por

  • conhecer o desempenho de meus alunos predominantemente através da escuta ao invés de, como é mais comum, por meio da leitura,
  • não precisar me ater, ao menos desta vez, a um ridículo formulário padronizado conforme acima descrito e, last but not least,
  • não ter que emitir cartas de recomendação com muita frequência,

que escrevi, a respeito de meu aluno Pedro (28), o seguinte:

Pedro Schneider is an outstanding student from the music program at Instituto de Artes of Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, RS, Brasil), where I’ve been his clarinet teacher for the last two years, and, previously, at the extension program from the same university.

Highly creative and focused, Pedro has a solid background in keyboard, acquired previously to his engagement as a clarinet major. Currently, he successfully manages to combine an academic path in classical music training with an already ongoing career in popular music.

Had I ever listened to my musical genre prejudices, I would never had accepted Pedro as a student, for he came from a music world which a reputed as very limited, namely, hip-hop culture and rap music. I was, nevertheless, fortunately frustrated on my low expectation about his achievements as a classical major, for, even having joined the class at a much lower level of proficiency than other students (at the clarinet, I mean, for he was already an accomplished pianist by that time), his progress in the newly chosen instrument became, very soon, much faster than the average of the class.

As a musician, Pedro seems to be very mature, taking decisions and making choices mostly based on his artistic convictions rather than on mainstream trends. He has the advantage point of being, besides to an accomplished player and composer, also a curious and attentive listener, even of music beyond the limits of his favorite listening zone.

For all above, I strongly recommend him to attend the One Beat trainning program to which he is currently applying.

On education (i), in praise of PLNs (i) ou, ainda, eu sigo (i) Jay Rosen

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Jay Rosen (jornalismo, NYU) é um professor blogueiro (Pressthink) que não fala muito frequentemente mas que, quando fala, se estende com extrema minúcia sobre cada pormenor do que aborda. Como é típico de grandes pensadores. Resulta, então, que seus longos posts são, na maioria das vezes, capitais para quem quer que pretenda entender o fluxos e hierarquias da informação jornalística hoje. É dele, por exemplo a distinção entre lifecasting e mindcasting, ou então entre jornalistas graduados antes e depois dos atentados de 11 de setembro. But so much for the guy. Só falei dele de passagem por que, dia desses, comentou no facebook (ele sempre dialoga em redes sociais sobre temas que o intrigam antes de postar seus textos super estruturados) ter abordado a escola de sua filha em razão de um professor de ciências ter se referido ao aquecimento global como apenas uma hipótese entre muitas plausíveis ao invés de, como deveria, como um fato comprovável. Na carta, pergunta se a escola tinha ciência de que tal visão era ensinada por um de seus professores.

Algum tempo antes disso, Rosen já questionara o sistema educacional de modo mais amplo numa brilhantemente conduzida entrevista com sua própria filha, na qual tenta descobrir por que não eram normalmente oferecidas às meninas as mesmas oportunidades de aprendizagem de programação para as quais meninos são fortemente incentivados. Oxalá a maioria dos pais estivesse tão preocupada com a educação de seus filhos. Pois há farta documentação aqui, aqui, ou aqui sobre como pais costumam não estar nem aí para o que ensinam a seus filhos em escolas. Suponho e temo que a situação em escolas particulares e públicas não seja muito diferente. Que fique bem que claro que me refiro, aqui, não a conteúdos (seriais) pertencentes a grades curriculares e sim àquilo em que acredita, efetivamente, cada professor (pois, numa contexto ideal, eu adoraria poder adicionar a minhas redes sociais todos os professores de meus filhos…)

Complicado ? Por partes, então. Quando Rosen se preocupa com como é ensinada a ideia do aquecimento global (i.e., se como apenas uma possibilidade entre muitas ou, ao contrário, como um fato consumado), o que está implícito é a preocupação com uma ideia abstrata, descolada da vida cotidiana, porquanto afetará somente humanos de um futuro impalpável, ainda que não muito distante, a saber, o planeta que será deixado aos humanos descendentes dos atuais. Na melhor das hipóteses. Científica. Ou, nas piores (religiosas), o céu, o inferno ou, ainda, 72 virgens que cada um teria após a própria morte.

Adiante em sua linha indagatória, Rosen se pergunta, então, como se comportaria, na mesma escola e sob as mesmas condições de vigilância pedagógica, um professor hipotético de ciências em relação às teorias antagônicas evolucionista e criacionista. Muito apropriadamente. Pois, neste caso, a crença professada por cada docente tem tudo a ver com outra ideia abstrata (projetada, desta vez, não num futuro próximo mas num passado remotíssimo), a saber, as hipóteses inconciliáveis de que o ser humano seja obra do ato de um criador ou, ao contrário, resultante da evolução das espécies através de mutações.

Ambos os casos (o aquecimento global e o binômio criacionismo/evolucionismo), torno a sublinhar, expressam preocupações para bem além (bem antes e bem depois) do âmbito da vida de qualquer habitante atual do planeta. São, no entanto, distintas ideias sobre de onde viemos e para onde vamos que norteiam escolhas religiosas e determinam, portanto, como cada um conduz sua própria vida. Ou seja, importam. Apesar do aparente descaso da maioria dos pais.

Se crenças professadas não fossem importantes, não haveria tantas escolas confessionais – as quais parecem, ao menos no Brasil, dominantes entre as privadas. Senão, terroristas fundamentalistas, geralmente paupérrimos em relação a seus principais adversários nacionais, também não investiriam, talvez tanto como em equipamentos e campos de treinamento militares, igualmente em escolas onde jovens amadurecem a vontade de sacrificar a própria vida pela causa.

* * *

Então, temos que a maioria dos pais não se preocupa com o que seus filhos efetivamente aprendem (isto é, passam a acreditar) na escola. Curiosamente, são não raro mais preocupados do que os próprios filhos com aquilo que os mesmos virão a cursar no ensino superior. É bem fácil explicar isto. É que, quanto mais avançamos do jardim de infância em direção ao maior grau acadêmico almejável, mais se acentua a desgraçada e promíscua relação da educação com as ocupações profissionais conhecidas na contemporaneidade. Senão, como explicar o declínio histórico, nos currículos escolares, de disciplinas filosóficas ou artísticas (mais afeitas à ideologia) em favor de outras mais técnicas (i.e., mais voltadas para a aquisição de habilidades profissionais) ?

Este cenário é problemático por que, face à enorme velocidade do progresso tecnológico em nossa civilização, chega a ser leviano se pressupor a existência, num futuro próximo, de qualquer profissão atualmente conhecida (porquanto totalmente dependente de tecnologias existentes). Por exemplo. Tenho enorme curiosidade sobre o que se passa na cabeça de alunos de uma escola particular de propaganda e marketing que há em frente à minha casa. O fato de cursarem (e de seus pais pagarem !) uma faculdade assim implica numa crença de que, num futuro próximo (ou seja, ao longo da vida profissional de cada estudante atual), competências para anunciar qualquer produto ainda sejam necessárias à economia. Só que, cada vez mais, usuários tenderão a procurar, através de algoritmos de busca, aqueles produtos e serviços que melhor contemplem suas necessidades ao invés de se deixar bombardear, como hoje, por mensagens publicitárias. Arrisco, até, afirmar que, num futuro não muito distante, toda mensagem publicitária, como hoje a conhecemos, tenderá a ser tomada por usuários/consumidores esclarecidos como indesejável – depondo, portanto, muito mais contra do que a favor do objeto apregoado.

Então, não faz qualquer sentido se ensinar, hoje, a arte e a ciência da persuasão, como se tornou conhecida na era de vigência dos meios de broadcasting, ao invés das maneiras por meio das quais um sujeito pode efetuar melhores escolhas. Tal problema não se restringe, no entanto, apenas às escolas superiores de publicidade, mas à educação como um todo. Noutras palavras, toda escola, do alto de sua obsolescência, persiste na transmissão de conteúdos curriculares serializados quando deveria se ocupar de ensinar um novo conjunto de competências, agrupadas por Howard Rheingold sob a conveniente categoria 21st Century Literacies, que inclui attention, participation, collaboration, network awareness, global consciousness, design, narrative (storytelling), procedural (game) literacy e critical consumption of information, entre outras.

* * *

Faz pouco tempo que perguntei numa rede social, à guisa de provocação (pois muitos dos amigos que tenho por lá são professores), quem ainda precisaria de escola depois de aprender a “sintonizar” sua própria PLN. Aprender a configurar e usar uma PLN costuma ser um dos primeiros resultados do reconhecimento de sua importância. Isto passa obrigatoriamente por se ter uma noção clara da transformação que se deu no instante os meios de publicação migraram, predominantemente, do papel impresso para a nuvem. A principal distinção entre o que está impresso num livro e o que é imediata e universalmente recuperável de servidores por meio de cada vez mais poderosos engenhos de busca é que, enquanto a informação residente em livros era validada única ou principalmente pela reputação de seus autores e editores, aquela que pode ser recuperada na nuvem se encontra mesclada com outras tantas, muitas vezes imprecisas ou simplesmente falsas – precisando, portanto, ser garimpada e validada por cada usuário. A migração da informação das mídias  impressas para as virtuais também implicou em enormes mudanças, ainda inestimáveis, em seu controle e propriedade. Exemplos disso são a atualíssima discussão sobre novas modalidades de direito autoral e a dificuldade que mesmo os estados mais poderosos do mundo vem encontrando em manter certos fatos, por quaisquer motivos, sob sigilo. Biografias como as de Assange ou Snowden são exemplares neste sentido.

Estudiosos da educação insistem cada vez mais no fato de que jovens de hoje são refratários à escola tão somente por que conseguem achar o que procuram ou aquilo de que julgam precisar (aí incluídos conhecimentos que seus pais até há bem pouco tempo obtinham em bancos escolares) muito mais facilmente na internet do que na escola. A qual, por sua vez, como qualquer instituição, demora a reagir à nova realidade – insistindo em transmitir conteúdos ao invés de ensinar como buscá-los e validá-los.

Pois as PLNs de que tanto falo são nada mais, nada menos do que coleções de perfis que seguimos em redes sociais com o intuito de nos mantermos bem informados –  funcionando, muitas vezes, como sentinelas a nos alertar sobre fatos ou eventos dos jamais saberíamos – ou, quando muito, demoraríamos para descobrir – exclusivamente por por canais de mídia convencionais, também conhecidos como meios de broadcasting.

Mas como podemos, afinal, configura uma boa PLN ? Por conveniência, podemos designar vários tipos de perfis como pertencentes a distintas categorias.

O cerne ideológico, por assim dizer, de qualquer PLN é composto, principalmente, por pensadores importantes de áreas específicas do pensamento, tais como Jay Rosen (jornalismo, NYU), Howard Rheingold (cibercultura, Berklee e Stanford), Howard Jenkyns (cibercultura, MIT), Lawrence Lessig (direito autoral e transparência política, Harvard) ou Pierre Lévy (filosofia do virtual, linguística e inteligência artificial, Otawa e Paris 8).

Ora, é óbvio que estar conectado em rede com as publicações de constelações de didatas eminentes como os acima é muito mais vantajoso, em termos acadêmicos, do que se submeter ao conjunto das aulas de qualquer programa acadêmico em particular. Isto por que é típico de todo corpo docente, virtual ou presencial, ter tanto suas estrelas como seu, por assim dizer, peso morto. Ao eleger qualquer programa, todo aluno escolhe, então, as estrelas (muitas vezes seus orientadores) e, em contrapartida, simplesmente atura o contrapeso.

Na categoria dos agregadores de notícia se encontram perfis como The Guardian, Huffington Post, Gramophone, Classic FM, BBC ou NPR. O que torna qualquer agregador mais ou menos afeito à timeline de cada um é a frequência como que contemplem cada elenco de interesses individuais. Dentre os citados acima, os dois primeiros são noticiários genéricos especialmente dedicados à política e à cultura (a digital em particular); o 3º e o 4º são voltados à música clássica e os dois últimos pertencem a importantes redes públicas de broadcasting. Todos são notáveis pela excelente qualidade de sua curadoria (que, em sites jornalísticos, é exercida por por seus editores).

E assim chegamos à classe dos grandes curadores da web, dos quais sigo atentamente os excelentes brainpickings (da grande curadora individual Maria Popova, dona de um olhar privilegiado sobre tópicos culturais em geral e a literatura em particular), big think (de índole filosófica), Mashable (sobre tecnologias e suas implicações a amenidades como culinária) e o curiosíssimo Longreads (voltado à cada vez mais restrita categoria das formas (escritas) mais longas).

Trato da categoria dos blogs por último por vários motivos.

Primeiro, por que ela pode abranger todas as categorias acima. Posto que, hoje, todo filósofo, professor, curador ou afim que se preze é, também, antes de tudo um blogueiro. Quanto mais especializados forem os interesses de cada leitor, mais ele dependerá de uma rede de blogueiros com os quais compartilhá-los.

Segundo, por que blogueiros, mais do que agregadores ou curadores, são provedores de contexto. Adoram polêmicas. Metendo-se, amiúde, com gosto em escaramuças que resultam não raro em hilárias ações judiciais. Alguns parecem até se divertir com isto.

Terceiro, por que blogs são, essencialmente, dialógicos. Ao contrário de outros tipos de jornalistas (como gostam ver a si próprios, embora os meios de broadcasting não gostem de vê-los como tais), blogueiros se leem uns aos outros mutuamente. Imagino, até, que a maioria dos leitores de blogs sejam, eles próprios, blogueiros. Inclusive, sempre que me deparo com alguém enunciando competentemente algo interessante (que reputo, portanto, como um formador de opinião em potencial), imediatamente indago se tem ou já cogitou ter um blog. O potencial da universalização dos blogs é inestimável. Na educação, por exemplo, blogs facilitam a aprendizagem colaborativa, descentralizada. Com sua universalização entre alunos, professores não precisariam, por exemplo, aplicar nem tampouco corrigir provas ou exames.

Notem que, de todas as categorias acima, a dos blogueiros é a, por definição, mais numerosa. O que torna bem mais difícil a escolha de quem seguir. Por isso, o melhor procedimento a ser adotado é sempre o de acompanhar um elenco dinâmico de blogueiros, adicionando e excluindo perfis a qualquer momento em razão do maior ou menor interesse de suas postagens.

Suponhamos, agora, que determinado sujeito leia as postagens de uma PLN como a descrita acima. Ora, como poderia o mesmo tanto efetivamente ler como sequer querer ler qualquer outra coisa além de tudo isto ? Entendem, então, por que considero toda escola curricular caduca ?

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On conducting (iv): Carta aberta ao novo Superintendente Artístico da OSPA

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Minha caixa de correio eletrônico pipocou, nas últimas semanas, com uma série de depoimentos agradecidos, por parte de músicos da OSPA, ao diretor artístico que hora encerra sua gestão à frente da orquestra. Louvável iniciativa. Tanto que proponho e inauguro, aqui, uma outra, a saber, que seus músicos cultivem o saudável costume de se dirigir, em nome da clareza de expectativa, também a seus gestores recém empossados.

A natureza do tema e a responsabilidade da tarefa liquidam, de saída, com qualquer possibilidade de um texto conciso. Bem que tentei facilitar, mas não consegui cortar, ao todo, mais do que uma ou duas páginas. E para cada ideia que eu cortava, surgiam mais duas. Tenham, então, um pouco de paciência. E não tentem, por favor, ler tudo de uma vez só !

No texto abaixo, utilizo as expressões diretor artístico e superintendente artístico como absolutamente equivalentes – bem como as locuções regente titular e regente convidado principal.

* * *

Caro Superintendente Artístico,

Antes de tudo, quero te agradecer pela deferência que demonstraste no ato de me convidar para conversar sobre tua aceitação do cargo de diretor artístico da Fundação OSPA. Agradeço, também, por teres afirmado, antes de dizer qualquer outra coisa, que não pretendias me convencer de nada, denotando, com isto, pleno respeito por minhas convicções, mesmo sabedor de que, em muito, provavelmente divergiríamos. Naquele momento, me declarei feliz por teres claro que, ao me posicionar, defendo ou condeno sempre ideias e jamais pessoas – sendo, portanto, avesso a todo tipo de ataque ou apoio meramente pessoal. Espero que isto se mantenha sempre bem claro ao longo da leitura (difícil !) destas linhas.

Em seguida, falaste da cronologia e do modo como foste convidado para o cargo que aceitaste, de tua trajetória como regente e, finalmente, de como pretendes gerir a fundação. Ao todo, foram quase duas horas nas quais, na maior parte do tempo, ouvi, pontuando, aqui e ali, tua fala com manifestações de concordância (a maioria em relação a teu plano de gestão para a OSPA) e umas poucas dúvidas que eu tinha. Foste muito correto ao respondê-las – até por que, quando me procuraste, não precisavas de minha concordância ou aprovação para nada, já que tua nomeação já era, segundo afirmavas, um fato consumado. Durante tua longa fala, muitas coisas me passaram pela cabeça. Muito mais do que as poucas das quais te falei ali mesmo. A maioria, no entanto, ficou repercutindo até que decidi, não sem alguma hesitação, te relatar por meio desta carta, que promete ser longa (levei, obviamente, dias a escrever) e cuja leitura implicará uma certa dose de paciência, pela qual desde já também te agradeço.

Começarei pelo fim de nossa conversa, dada a importância da última coisa que disseste antes de nos despedirmos. Foi quando pediste que te procurasse imediatamente para manifestar qualquer discórdia ou divergência que eu tivesse em relação a teus atos como nosso novo gestor. Também lembro que foi uma de tuas poucas colocações para a qual apresentei, no mesmo momento, uma reação imediata, a saber, a de que com certeza te encaminharia qualquer crítica, não da forma privada como me encorajaste, mas de modo público, aberto à toda a orquestra. Por que insisto neste ponto? Ora, por ter a plena convicção (e nisto penso que divergimos frontalmente) de que a comunicação privada bilateral entre gestores e cada um de seus subordinados tende a fragmentar e diluir um discurso coletivo, horizontal e aberto do qual toda organização só tem a se beneficiar.

Noutras palavras, penso que, enquanto a conversação pública agrega, a privada divide. A tal ponto que a transparência é um dos traços principais de todo grande líder. Como ocorre com grandes maestros.

Por isto, peço enfaticamente que, na gestão que terás à frente da OSPA (que seja, tomara, a melhor que já tivemos !), tenhas total transparência em relação a tuas decisões artísticas, utilizando, para tanto, todos os meios virtuais a teu alcance. Só assim viabilizarias tua ideia de ter uma comissão artística que só se reúna presencialmente uma vez por mês. Sempre pedi isto. Jamais fui atendido. Sonho, no entanto, com gestões mais transparentes. Daí minha teimosia.

Se começo minha manifestação por esta fala final, é por que percebo (com algum risco de estar enganado) que teu manejo das forças individuais que percebes na orquestra se dá, predominantemente, através de um fluxo de comunicações bilaterais privadas, tais como conversas, telefonemas, emails ou mensagens instantâneas. Ora, é evidente que, se alguém fala com cada um em particular ao invés de com todos ao mesmo tempo, é muito mais fácil dizer o que cada um espera ouvir e colher, com isto, muito mais aprovação do que dizendo tudo a todos doa a quem doer.

Complicado ? Vejamos, então, um exemplo. O que é mais desejável, institucionalmente falando:

  • uma gestão que afirme, perante uns, que o grupo trabalha demais e, diante de outros, muito pouco (por que alguém faria isto ? Ora, para angariar mais apoio, é claro); ou
  • uma direção que interaja transparentemente, sempre diante de todos (isto já é há muito possível por meio de grupos e fóruns virtuais, de grande flexibilidade de configuração de privacidade, em qualquer plataforma social) ?

Assim, não pude deixar de notar que esta questão esteve presente em distintos momentos de tua fala. Na mais irônica delas, reclamaste de colegas que, depois de saber de tua nomeação iminente, procuraram o presidente da fundação em particular unicamente no intuito te caluniar e difamar. Onde está a ironia ? No fato de, num momento anterior, também o teres procurado, de modo igualmente privado, em busca de apoio para o cargo que pleiteavas. Ora, por que, então, os mesmos meios empregados legitimamente por alguém seriam condenáveis enquanto utilizados por outrem ?

Uma parte essencial de teu discurso é que, antes de maestro (tornarei à questão da regência mais tarde) ou gestor, és, foste e serás, antes de tudo, um músico. Esta afirmação precisa ser analisada em conjunto com outra, categórica, a saber, a de que a OSPA precisaria muito mais de ti do que tu da OSPA. Noutras palavras, consideras o exercício de um cargo administrativo na fundação um ato de abnegação, implicando praticamente num desvio de foco de tua carreira como maestro – para a qual, afirmas, um período à frente da OSPA pouco ou nada agregaria à tua já consolidada carreira. Discordo de uma e de outra.

Pois não é verdade que qualquer regente, independentemente de idade ou experiência, que só tenha estado à frente de orquestras de tempo parcial, como as universitárias ou, como são às vezes, designadas, de cachê, possa considerar qualquer período à frente de uma orquestra da importância e estatura da OSPA como irrelevante ou colateral para sua carreira. Pois, afinal, um cargo à frente da mesma é sempre ostentado como uma medalha ou troféu no currículo de quem quer que já a tenha dirigido.

A parte mais insidiosa, no entanto, das duas premissas acima é aquela na qual te reconheces como, antes de tudo, um músico. Pois, como músico, não deverias jamais ter te atrevido a representar, perante quaisquer instâncias individuais (tais como presidentes ou secretários de cultura), o interesse coletivo sem a aceitação explícita e majoritária do todo que pretendes gerir.

As razões pelas quais, mesmo tendo tornado desde cedo pública tua vontade de gerir artisticamente a OSPA (indiscutivelmente um ponto a teu favor), jamais a submeteste à aprovação ou não da orquestra são meramente especulativas. Certo é que, sem ter submetido tua indicação à direção artística da mesma a um referendo por parte de seus músicos, será bem difícil, salvo por meio da hábil manipulação retórica inerente à fragmentação da comunicação a fluxos privados bilaterais, associar, perante quem quer que seja, tua pessoa ou imagem aos anseios legítimos ou à própria voz da orquestra.

* * *

E chegamos, finalmente, à questão da regência. Se a orquestra sinfônica existe há não muito mais do que uns duzentos anos, a história da profissão de regente é ainda mais curta. Tanto que todo entendimento sobre como se dá tanto a formação de um maestro como seu acesso ao pódio de organizações sinfônicas não passa, até o presente momento, de especulações fundadas unicamente em tradições segundo as quais maestros são, na maioria das vezes ou em casos mais evidentes, reconhecidos como tais e investidos no comando de organizações sinfônicas. Por isto, entendo que muitos modelos – talvez até mesmo os melhores – ainda estejam por ser experimentados. Mas deixemos de lado, por hora, tais teorias para que nos atenhamos apenas aos fatos..

Afirmas ter descoberto um interesse especial pela regência desde muito cedo, durante ou mesmo antes de tua formação como instrumentista, ainda nos tempos do maestro Davi Machado à frente da OSPA. E nem deveria ser diferente, pois é bem pouco provável que qualquer músico que já tenha tocado em alguma banda ou orquestra ainda não tenha cogitado ou fantasiado, em algum momento, empunhar uma batuta diante de seus pares. As razões (dentre as quais ambição, vaidade ou imprudência são apenas algumas) que explicam por que, no entanto, só uns poucos se atrevem, efetivamente, a fazê-lo também fogem do âmbito deste texto. Por hora, é suficiente dizer que

  • reger, a um nível mais elementar, é indiscutivelmente mais fácil do que tocar proficientemente qualquer instrumento; e que
  • a atribuição a alguém da condição de maestro depende, com muito mais frequência, muito mais de competências relacionadas ao manejo de poder e influência do que, propriamente, de quaisquer habilidades musicais.

Numa das melhores partes da conversa, chegaste a reconhecer a existência de apenas dois modos de alguém chegar a se tornar regente, a saber,

  • sendo indicado ou nomeado por algum superior para o exercício da função; ou
  •  possuindo a própria orquestra.

Se esta enumeração me parece incompleta, é por que, além das duas classes acima, que pertencem à categoria dos maestros auto-investidos, há outra, menos populosa, a saber, a dos regentes aclamados por seus pares (músicos) exclusivamente em razão de seus méritos musicais.

Em seguida, afirmaste

  • ter participado, como aluno de regência, de vários cursos e festivais (outro ponto a teu favor – por se tratar, nestes casos, de instâncias competitivas, meritocráticas e de amplo acesso, i.e., abertas a quaisquer participantes);
  • ter tomado lições privadas com os melhores regentes convidados que nos visitaram ultimamente; e
  • ter angariado alguma simpatia por parte de Sir Simon Rattle, o qual, além de ter te dado acesso a ensaios seus com a Filarmônica de Berlim, disse ter até assistido a um DVD de tua regência.

Ora, excluída a primeira das três classes de eventos acima, não há como se mensurar em qualquer das restantes, de cunho eminentemente privado, o desempenho de portadores de tais credenciais em relação a um conjunto maior de sujeitos alijados do acesso às mesmas oportunidades.

Parte da enorme complexidade da tarefa de se escolher maestros e gestores para corpos sinfônicos decorre diretamente de problemas frequentes em como é outorgada a licença para reger, a saber,

  • A proteção. A concessão do privilégio de reger uma orquestra se dá, muitas vezes, por meio da proteção conferida por regentes eminentes a aprendizes dedicados que se submetam à sua influência. Talvez um dos casos próximos e recentes mais emblemáticos de que as coisas assim podem não dar muito certo seja a ascensão meteórica da carreira de Roberto Minczuk, cujas malfeitorias são bem conhecidas da comunidade musical, após ter caído nas graças de Kurt Masur.
  • Os concursos. É bastante duvidosa a reputação de alguns dos principais concursos internacionais que regulam o acesso aos maiores pódios orquestrais. Nestes certames, há casos escandalosos de membros do júri que favorecem alunos, bem como taxas de inscrição exorbitantes e não ressarcíveis que se configuram como legítimas cláusulas de barreira para candidatos menos afluentes ou, ainda, que não contem com o apoio de patrocinadores.
  • As lições privadas. Ao contrário do que ocorre em cursos, oficinas, festivais e programas acadêmicos, nos quais o acesso é universal, não há qualquer critério meritocrático envolvido quando um professor decide ministrar lições de regência a este ou àquele aluno em particular – predominando muitas vezes, nestes casos, o manejo apurado, por parte de alunos, de fatores tais como proximidade, oportunidade ou influência.
  • A reserva de mercado. Eis aqui um ítem bem complexo, para além do âmbito deste documento. Por hora, é suficiente lembrar que o curso de Bacharelado em Regência, existente na UFRGS até meados dos anos 70, foi extinto sob a justificativa de que não seria nada recomendável formar mais maestros do que as orquestras existentes conseguissem absorver. É preciso falar mais ?

Por tudo isto, entendo que a outorga a alguém, por quem quer que seja, da licença para reger uma orquestra é um processo tão complexo quanto incerto e que, portanto, não se deve deixar à mera confiança de políticos – que são via de regra assediados, após cada pleito eleitoral, por aspirantes aos mais diversos cargos – o destino de organizações sinfônicas como a OSPA. Mas não quero me estender sobre isto. Ao menos, não aqui. Quem quiser saber mais sobre modelos de governo independentes da nomeação de CCs deve ler o excelente texto Não Existe CC Competente, de Luiz Afonso Alencastre Escosteguy, publicado originalmente em 2011 em seu antigo blog e republicado dias atrás a meu pedido. Além disto, há mais sobre o assunto em meu próprio blog, classificado sob a categoria Política. Também insisti bastante neste ponto em cartas abertas que escrevi, respectivamente, a um novo secretário de cultura (ZH, 2010) e a um futuro governador, então ainda desconhecido (blog Impromptu, 2013).

* * *

Por fim, tenho só elogios a tecer em relação a teu plano de gestão artística para a OSPA, fundado, alegadamente, sobre dois pontos, a saber,

  • a manutenção de uma comissão artística a quem o diretor artístico deva, obrigatoriamente, prestar contas em relação à escolha de repertório, solistas e maestros convidados, bem como a quaisquer decisões que afetem a esfera artística da OSPA; e
  •  a manutenção de um rodízio de regentes convidados sem a nomeação de um regente titular ou convidado principal.

Ainda que tua ideia de reunir a comissão apenas uma vez ao mês possa se afigurar a alguns como uma tentativa de esvaziamento de sua importância, entendo que o fluxo de trabalho da mesma possa ser em muito otimizado, em relação ao atual modelo de reuniões semanais, desde que seja implementado um mecanismo de reunião permanente, através de meios virtuais, fundamental para o bom funcionamento da comissão.

Sobre tua ideia de que a comissão venha a ser composta por um dos spallas e por representantes individuais das famílias de cordas (além de um dos spallas), madeiras, metais, percussão, e pelo diretor artístico, considero aceitável, ainda que não obrigatória. Pois a representatividade da orquestra em sua comissão artística não depende da paridade, em seus assentos, entre as famílias de instrumentos que integram a orquestra. Ou, dito de outro modo, pode muito bem haver mais representantes desejáveis numa seção do que noutra.

De um jeito ou de outro, um dos pilares do funcionamento de qualquer comissão é a obrigação que o gestor tem de prestar contas de seus atos a um órgão colegiado democraticamente eleito. Mais ou menos como já acontece em departamentos universitários nos quais todo chefe executa os desígnios de um colegiado. Sobre a importância deste requisito, é sempre bom lembrar que algumas das melhores cabeças que já participaram de comissões artísticas na OSPA renunciaram justamente em razão da falta deste tipo de comprometimento por parte de seus gestores.

* * *

Sei que sou, muitas vezes, imputável por muito discurso e pouca participação. Por isto, me voluntario, desde já, para integrar a próxima comissão artística a ser formada para a OSPA. Se, e somente se, for honrado com a escolha da orquestra para representá-la na elaboração de sua programação, defenderei a ideia de que não se deve pensar em concertos ditos “populares” antes que se tenha tocado, a cada dois ou três anos, tudo de Brahms e Beethoven, algo de Mahler e Stravinsky, sempre que possível algum Bartók, Shostakovich, Nielsen ou Debussy e, é claro, o melhor de Schumann, Sibelius, Dvorak, Mozart ou Prokofiev (you name them). Somente quando estivermos nos ocupado de tudo isto, poderíamos distribuir não mais do que uns 15 ou 20% de nossa capacidade de trabalho igualmente entre concertos de música popular (familiar) e nova (estranha). O que deve ser entendido por nova e popular fica aberto ao debate. Sob quaisquer outras premissas, eu não saberia o que fazer numa comissão artística.

* * *

Por todo o trabalho que deu e tempo que consumiu, tenho vontade de postar este texto às vistas de todos em meu blog. Se opto, no entanto, por fazê-lo circular inicialmente apenas no âmbito da orquestra, é por que

  • quero publicar, junto com o texto original, toda reação que o mesmo venha a provocar; e também para que
  • possa atualizá-lo à luz de qualquer debate que o mesmo venha a suscitar no seio da orquestra.

Por isto, leiam com calma. Pausadamente. Refletindo sobre cada parágrafo. E, por favor, se manifestem !

Muito obrigado pela atenção. Uma ótima gestão para o próximo diretor artístico da OSPA – até por que jamais antes alguém esteve tanto com a faca e o queijo na mão ! – e um grande futuro para a OSPA !

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Carta aberta a Luiz Antonio Assis Brasil

Transcrevo, abaixo, minha carta aberta a Luiz Antonio de Assis Brasil enquanto secretário estadual de cultura, publicada originalmente no caderno Cultura ZH em 27 de novembro de 2010 e, três dias depois, sob o título Where the Hell is Dudamel ? (iii), em meu antigo blog homônimo no saudoso portal O Pensador Selvagem. No texto, endereço a complexa e delicada questão da gestão artística da Fundação OSPA.

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“Sempre defenderei o regime estatutário de contratação pública por ser o único sob o qual se pode dizer o que se pensa.”
Luis Osvaldo Leite, então presidente da FOSPA

Caro secretário,

 
não é preciso muita imaginação para se adivinhar que, desde que sua participação no próximo governo do Estado foi anunciada, o senhor tenha se tornado alvo de intenso assédio por parte de uma variada gama de aspirantes a cargos de confiança vinculados a sua pasta. É, assim, igualmente fácil adivinhar que a corrida aos cargos com lotação na administração da Fundação Orquestra Sinfônica de Porto Alegre também já esteja a pleno vapor, ainda que, compreensível e estrategicamente, distante dos olhares da mídia.

 
No delicado momento de transição governamental, em que mazelas e vícios administrativos facilmente se perpetuam ao mesmo tempo que virtuosos e legítimos anseios se postergam por, na melhor das hipóteses, ao menos mais quatro anos, tomo a liberdade de lhe falar franca e abertamente sobre a natureza e particularidades da gestão artística de corpos sinfônicos.

 
Pelas razões e circunstâncias abaixo, penso que as últimas coisas das quais a Ospa precisa, em nome da qualidade de sua programação e de seu progresso artístico, sejam mais um regente titular e outro maestro de carreira como seu diretor artístico.
Instituições públicas, dentre elas as culturais, são corpos volumosos cuja evolução é tremendamente limitada pela forte inércia de tradições caducas, por vezes blindadas à crítica e à atualização. É sabido, também, que em nosso sistema político a participação na esfera pública é muitas vezes não mais do que uma figura de linguagem exclusivamente presente na retórica eleitoral – já que, quando se trata de ocupar os cobiçados assentos de um governo, políticos eleitos costumam se voltar não à sociedade mas, invariavelmente, a quadros ociosos de sua base partidária de apoio – as honrosas exceções, neste caso, apenas confirmando a regra.

 
Ocorre, então, que, na pirâmide descendente de confiança decrescente das administrações direta e indireta, acabamos governados por afiliados e/ou afilhados políticos que jamais obteriam o consentimento social para o exercício das funções que desempenham. Não quero aqui, no entanto, falar de política, mas de suas nefastas implicações na gestão da coisa pública cultural, musical em geral e sinfônica em particular.

 
Qualquer músico que tenha tocado por algum tempo em orquestras sinfônicas públicas e, gosto de acreditar, ao menos a parte mais atenta de seus ouvintes percebe que uma orquestra qualificada toca melhor e mais motivada sob variadas batutas igualmente qualificadas do que quando submetida ao pulso tirânico, imutável e entediante de uma única. É claro que essa regra não vale para a escassa categoria dos regentes exponenciais, sonhos de consumo de qualquer orquestra – cujos honorários artísticos, no entanto, são comumente cotados muito além do cacife da grande maioria das orquestras, na qual a Ospa está incluída. Quando, todavia, uma orquestra de média magnitude logra, contrariando quaisquer expectativas, contratar para uma longa residência um desses salvadores, o resultado é, quase sempre, o seguinte.

 
O ás da batuta contratado como salvador logo se entedia da lida corriqueira com os mesmos músicos (a menos, é claro, que estivéssemos falando da Filarmônica de Viena ou similares). Como corolário, não tarda a descobrir (se já não sabia) que o melhor caminho para a superação deste quadro depressivo é o portão de embarque do aeroporto. Com efeito, regentes exponenciais são cidadãos do mundo, vivendo em hotéis e flertando com os melhores conjuntos do planeta a lhe disputar a agenda. Daí se tem que mesmo orquestras respeitáveis, como, por exemplo, a Filarmônica de Los Angeles sob Gustavo Dudamel, tendem a cair em abandono quando confiadas a salvadores notáveis.

 
Descartados, deste modo, os gênios, os prognósticos são ainda menos auspiciosos quando batutas públicas são delegadas apenas às mãos de um único regente suficientemente bom. Por uns poucos meses, o jovem, ambicioso, aplicado e talvez inocente maestro cativará orquestra e audiência até que, inevitavelmente, seu repertório se esgote – quando, então, também tomará, por pânico ou ambição, o caminho do aeroporto. Só que, não pertencendo ao concorrido jet set dos astros da batuta, terá sua arena de atuação limitada a orquestras geridas por pares pertencentes a sua rede de contatos, às quais se fará convidar mediante convites recíprocos para reger a orquestra que lhe foi confiada. Tal prática pode ser facilmente comprovada mediante o simples cruzamento entre a agenda do regente titular e as dos convidados de uma orquestra. Um exame mais cuidadoso das mesmas também revela que titulares itinerantes se valem amiúde de orquestras às quais atribuem menor prestígio (provincianas, como alguns as designam) como plataforma de treinamento para enfrentar repertórios mais exigentes diante de audiências mais cosmopolitas.

 
Nesse cenário pessimista, muitos já anteviram, como uma luz no fim do túnel, a possibilidade, jamais posta em prática no âmbito da OSPA, do não preenchimento, pela Secretaria de Cultura e pela Presidência da Fundação, de seu cargo de regente titular – ficando, neste caso, a qualidade da programação e o entusiasmo do conjunto assegurados mediante realização de uma temporada de concertos a cargo de regentes convidados para residências de curta duração – contratados, por sua vez, com os próprios recursos, geralmente volumosos, outrossim alocados à manutenção de titulares onerosos e de curta validade. Neste modelo, que já me resignei a considerar como utópico, repertórios, solistas e regentes convidados seriam fruto de um consenso viabilizado pela existência e atuação, de fato e de direito, de uma entidade colegiada com força deliberativa composta paritariamente pelo poder público, a orquestra e sua audiência. Gosto de pensar nisso como uma instância ideal do tão alardeado e nem sempre aplicado controle social.

 
Feito isso, restaria ainda ao secretário de Cultura e ao presidente da Fundação a complexa atribuição de designar para a Ospa um diretor artístico. Como amante e artífice das letras, talvez não lhe seja estranha uma passagem da formidável novela Árvores Abatidas – Uma Provocação (trad. Lya Luft, 1985), do grande Thomas Bernhard, em que o herói e alter-ego do autor cinicamente prevê, num banquete cultural em Viena, o inexorável declínio do prestígio de um incensado diretor artístico recém designado para um importante teatro em razão direta do desgaste inerente ao exercício do próprio cargo. Tivéssemos aqui mais tempo, traçaríamos sem dúvida deliciosos paralelos entre O Homem Amoroso e a novela de Bernhard.

 
Devo, no entanto, me ater, por hora, ao futuro da Ospa e, indo direto ao ponto, chamar a atenção para o fato de que a escolha de seu diretor artístico não deve de modo algum se restringir àqueles que sejam também maestros por ofício (empíricos) e/ou formação (diplomados). A tradição de que diretores artísticos de orquestras sejam, quase sempre, profissionais da batuta se deve exclusivamente ao fato de que, para atrair salvadores, tidos por muitos gestores como escassos, organizações sinfônicas recorram com freqüência ao duplo expediente de lhes permitir o acúmulo de vencimentos por ambos os cargos (de regente titular e de diretor artístico) – lhes garantindo, ao mesmo tempo, a centralização das decisões que lhe afetam a programação (uma moeda valiosíssima, como vimos acima).

 
Onde e como procurar, então, dentre os não maestros, aqueles com o perfil mais recomendável para exercer a direção artística de organizações sinfônicas? Evidentemente, entre os que mais conhecem música, isto é, músicos, compositores, musicólogos, críticos e, last but not least, ouvintes – desde que, é claro, comprometidos com a premissa anterior de gestão social da coisa artística pública. Pois, é bom lembrar, assim como a Osesp recorreu a Arthur Nestrovski para (espero) varrer o ranço autoritário de Neschling, penso que aqui Celso Loureiro Chaves (oxalá aceitasse!) ou Ney Fialkow, para citar uns poucos e apenas à guisa de exemplo, poderiam realizar, dada a magnitude de sua autoridade musical, um trabalho excelente e sem precedentes entre maestros diplomados ou empíricos à frente da gestão artística da OSPA.

 
Por isso, apelo para sua sensibilidade sem ser ingênuo em relação a forças políticas que se sobreponham eventualmente a seu cargo. Lembro, no entanto, que não raro esferas artísticas sirvam de contextos propícios ou mesmo ideais para movimentos em direção ao progresso social – como, por exemplo, na célebre instância em que o grande Kurt Masur chegou a ser cogitado para exercer o cargo de chanceler da Alemanha recém unificada.

 
Deste modo, se tiver a oportunidade e o apoio necessários para inovar em relação à gestão social e participativa da Ospa, dará um grande passo tanto no âmbito da cultura como no da política em nosso estado. Senão, terá sido para mim ainda assim um prazer debater e amadurecer ideias progressistas com alguém de sua estatura humanística.

 

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Por que há quem prefira o twitter ao facebook e vice-e-versa ?

Disclaimer: aviso a possíveis leitores que as ideias a seguir, ainda um tanto confusas (eu preferiria usar a palavra fuzzy, mas optei pelo idioma de Pessoa…), porquanto em estado ainda bastante embrionário. Noutras palavras, são tão novas quanto o fator que as desencadeou – a saber, uma queixa postada num blog, da qual falarei adiante. Rogo-lhes, então, paciência com as formas toscas do discurso – como, por exemplo, no final abrupto e incerto, como em tantas boas histórias.

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Quem ainda não parou para pensar por que escolhemos certas plataformas sociais em detrimento de outras ? Por que há quem prefira o twitter ao facebook e vice-e-versa ? Ou sobre o que faz alguém migrar de um plataforma para outra ? Como, por exemplo, jovens a se esquivar do “campo visual” de seus pais.

Ora, é claro que essa escolha passa necessariamente pelos principais diferenciais entre eles (o twitter e o face), a saber a reciprocidade (que tem tudo a ver com privacidade !) e a rastreabilidade.

Antes, no entanto, de prosseguir, precisamos deixar claro que twitter e facebook são plataformas (ambientes) – e não redes ! – nas quais se instauram, aí sim, as redes sociais. Assim, um ou outro “hospedam”, a seu modo particular, muitas redes, de tipologia bem definida.

A incompreensão, total ou parcial, de peculiaridades morfológicas e/ou funcionais destas redes levam facilmente a imbroglios como o da retrospectiva anual desenvolvida pelo facebook e apresentada by default a todos os seus usuários. O episódio repercutiu, num curto período de tempo, em sites de informação como o Guardian, a NPR ou o Huffington Post. Antes disso, eu e Luis Afonso (um ótimo cozinheiro e blogueiro que só conheço da esfera virtual (on the immense benefits of food porn !), já havíamos destilado algum ranço contra a “folhinha” do face (ou só eu acho a peça criada pelo facebook parecida com aqueles calendários que eram distribuídos (não sei se ainda são em tempos de imãs de gelade eira) por padarias & e afins.

Se preferir, no entanto, um relato menos filtrado, na primeira pessoa, confira o estopim da polêmica no blog do web designer Eric Meyer. Numa postagem intitulada Inadvertent Algorithmic Cruelty (algo como Crueldade Algorítmica Colateral), Eric se declara vítima involuntária do algoritmo do facebook ao ser confrontado com uma foto, na capa de um álbum, da filha que perdera meses atrás. Seu ponto é bem interessante, para muito além do impacto inerente ao tamanho da gafe. Em seu post, Meyer sustenta que o facebook deveria perguntar, antes de mostrar, se cada usuário gostaria de ver qualquer foto ou conteúdo relativo a seu último ano. Na onda de indignação que a mídia passou, então, a acompanhar, vieram à tona casos como, por exemplo, de alguém confrontado com a imagem de sua casa pegando fogo (sic !).

Mas vamos ainda mais fundo. A gafe dos executivos de Mark denota, primeiramente,  ignorância ou incompreensão acerca de um fato básico, namely, o de que nenhuma plataforma tem como predeterminar com exatidão a natureza específica de cada rede que nela se instala. Pois são totalmente distintas as conexões que se estabelecem em redes de vocação distinta tais como PLNs, de auto-estima, de agregação política ou de usos profissionais (publicidade, em alvos mais… focalizados !), entre outras, impossíveis de serem enumeradas, já que muitos tipos de redes ainda não foram descobertos.

Fascinante, não ? Mas retornemos, por hora, àquilo do que falávamos no início. De por que alguém prefere o twitter ao facebook e vice-e-versa. Dizíamos que uma das principais diferenças entre um e outro é a reciprocidade, i.e., enquanto no twitter qualquer pessoa pode “seguir” qualquer outra, no facebook todos precisam ser aceitos por amigos cuja “privacidade” passa ser, só então, auscultável. Disto decorre que o facebook favorece, por definição, muito mais do que o twitter, a instauração de bolhas discursivas, i.e., daquelas redes povoadas por likeminded people. Pela razão oposta, o twitter vem se estabelecendo como uma plataforma favorita entre jornalistas – pois só sua não-reciprocidade permite a verificação imediata de todo contraditório. É aquilo a que nos referimos como rastreabilidade e tem a ver com a validação da informação.

  • (talvez a leitura de um feed bruto do twitter até se assemelhe, para observadores mais distantes, à de um jornal, no qual precisamos buscar (filtrar) a informação que procuramos; enquanto o facebook mais se parece com uma revista que exibe, com predominância de imagens a texto, só o que queremos ver. É, grosso modo, como a diferença existente entre, de um lado, linguagens “de máquina”, ditas “de baixo nível”, altamente codificadas e dominadas quase que exclusivamente por programadores e, de outro lado, interfaces mais amigáveis)

A raiz do problema de algoritmos desastrosos como o da retrospectiva do facebook é, a nosso ver, a incerteza semântica sobre o que venha a ser uma “curtida” (ou, em inglês, um like). Ora, toda postagem se constitui, ao mesmo tempo, num enunciado e numa enunciação. Explico. O que é dito é diferente do ato de dizê-lo – podendo ter, portanto, sentidos distintos. Então, o ato de curtir qualquer postagem é ambíguo em relação a estarmos, com ele, manifestando apoio, simpatia ou solidariedade em relação ao que que curtimos ou, ao contrário, ao próprio ato do compartilhamento. A situação mais comum é quando não sabemos se curtimos ou não postagem referentes a fatos ou valores negativos. Ou alguém ainda não viu em seu timeline comentários do tipo “não sei se é ou não para curtir” ?

Desastres assim como o algoritmo acima só acontecem em razão de uma corrida comercial em busca da humanização, i.e., representada por uma maior amigabilidade (friendlyness), de cada meio.

Faz tempo que plataformas de compartilhamento maciças precisam, pela própria dimensão de seus bancos de dados, lidar com filtros automáticos para conteúdos indesejáveis. Enquanto reconhecimento de pessoas em fotos ou filtros para conteúdos pornográficos já são há muito disponíveis automaticamente (i.e., realizados por algoritmos), se espera que, dentro de poucos anos, seja possível a um algoritmo identificar, por exemplo, fotos de sujeitos bêbados. Não sei, no entanto, em que extensão conteúdos indesejáveis são hoje excluídos de plataformas já por meio algoritmos inteligentes ou ainda por meio de análise e interferência humana, tais como em casos de violação de direitos autorais.Só sei que quando algoritmos conseguirem detectar com precisão os últimos, veremos uma crise nos setores jurídicos da indústria editoral. Thus, the earlier it embraces the commons principle, the better.

  • (no filme The Social Network, aprendemos que a teia de Zuckerberg começou com um jogo de classificação de julgamentos humanos elementares como escolher mulheres mais bonitas em séries de escolhas binárias. Hoje, seus desenvolvedores são diariamente desafiados a criar mais coisas que queiramos ver. Tais como o pacote “O Ano de…”)

Mas falávamos, antes, de diferença em como diferentes sujeitos usam diferentes plataformas sociais. Falávamos, entre outras coisa, na variedade de critérios que podem ser usados para decidir o que compartilhamos ou não. Basicamente, podemos

  • compartilhar tudo ou a maioria daquilo que queremos ou com o que concordamos ou, ao contrário,
  • somente aquilo a que consigamos agregar significância.

No segundo caso, se trata mais da profundidade do que da extensão do que dizemos ao compartilhar algo. Já que não há, aqui, qualquer correlação obrigatória entre uma (profundidade) e outra (extensão), i.e., a qualidade de qualquer enunciado não depende de seu tamanho. Pois assim como há preâmbulos que são quase ensaios, há igualmente introduções lacônicas que ensejam mergulhos. Então, o que mais (me) Interessa é a reação que cada compartilhamento provoca.

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Um ótimo 2015 para todos os meus estimados (e diligentes – pois, na maioria das vezes, não facilito…) leitores !

* * *

P.S.: menos de 24 horas depois desta postagem, o Guardian publicou mais uma matéria sobre o Year in Review – importante, a nosso ver, por se tratar de uma (primeira ?) voz dissonante, a defender que o facebook não deveria ter pedido desculpas. As razões pelas quais, mesmo discordando, julgamos desnecessário contestá-la já foram suficientemente esmiuçadas no texto acima.

 

 

 

Da curadoria em gravadoras e na internet e do emprobrecimento das audiências

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Nos últimos dias, duas coisas que li na web, de índoles diametralmente opostas, me chamaram a atenção. Numa matéria que saiu no New York Times, um ex-proprietário de loja de discos reclamava da falta da atuação de executivos de gravadoras a dizer qual música, de toda a que se faz, deve ser produzido para consumo em massa. Já numa resenha publicada na Gazeta do Povo (Curitiba), o maestro Osvaldo Colarusso aponta justamente para a falta de critério artístico de alguns selos fonográficos.

O problema da indústria da música antes e depois da web é fascinante. Envolve, necessariamente, as ideias de broadcasting (tão cara à indústria cultural) e narrowcasting (inerente à web). Da curadoria por autoridade ou, ao contrário, por reconhecimento social; de conselhos ou comitês julgadores X processos de crowdsourcing. Ou casos emblemáticos como o de Valentina Lisitsa, a pianista que foi contratada pela Deutsche Gramophon não por ter vencido qualquer competição internacional mas, tão somente, por ser campeã absoluta, entre congêneres, de visualizações no YouTube. Por fim, não devemos esquecer que a atribuição de qualidade em música popular e erudita se dá, na maioria das vezes, por meios totalmente distintos (vale a pena estudar comparativamente a história de celebridades pop e “clássicas”; o próprio Lebrecht tem um excelente texto sobre os mitos de Elvis e Callas…).

Nutro alguma reserva em insistir neste tema em razão de certo bias que tenho em favor do imenso benefício do livre acesso aos meios de publicação moderados espontaneamente por mecanismos de curadoria social e, ao mesmo tempo, contra a ação excludente, praticamente predatória, de uma noção de produção fonográfica que seleciona, mediante critérios questionáveis, fatos artísticos para, depois de moldá-los a padrões adotados a partir de cuidadosas análises de mercado, promovê-los acima de quaisquer outros. Ao mesmo tempo, espero ter deixado claro que me refiro, aqui, a degêneros para consumo segmentado tais como o axé, o tchê, o pagode, o sertanejo universitário ou mesmo o new age – cuja hegemonia é predatória em relação à toda cultura popular. Pois, como dizia Bruno Kieffer, chamar o que gravadoras de seu tempo produziam de música popular era um caso escandaloso de estelionato semântico.

Além disso, é impossível analisar qualquer fenômeno artístico, notadamente a música, sem se levar em conta sua audiência (ou, em alguns casos, a ausência da mesma). Mas não estou interessado em observar a transição das audiências físicas, reunidas em platéias e balcões, para as dispersas, alcançáveis por meio de ondas de rádio. Até por que o processo, tão importante, já deve ter sido bem esmiuçada por estudiosos mais dedicados. O que mais me interessa, aqui, é a constatação de como se espera cada vez menos qualidade musical dos fatos artísticos desde que os meios de divulgação se universalizaram. O que quero dizer é que, desde que se tornou acessível a qualquer um publicar qualquer coisa, audiências vem se tornando cada vez menos exigentes (ou mais complacentes ou tolerantes) em relação ao limiar de competência musical que deve ser demonstrada para que alguém seja reconhecido como músico.

Explico. Dificilmente rappers (que detém, hoje, as maiores audiências) seriam reconhecidos como músicos segundo padrões do tempo, talvez, da invenção do pop (fato diretamente decorrente do surgimento das gravadoras (vide a história de George Martin, o “descobridor” dos Beatles…)). Pois a improvisação rítmica sobre versos rimados é, indiscutivelmente, musicalmente bem menos complexa do que qualquer composição envolvendo alturas (frequências) definidas expressando melodias e harmonias. Tenho que explicar melhor ? É bem mais fácil a qualquer indivíduo não treinado musicalmente (vulgo leigo) batucar um ritmo e proferir rimas do que entoar sons afinados. Melhor não consigo explicar.

Mas não escrevi tudo isto só para dizer que não gosto de rap (me submetendo, com isto, à sanha de uma comunidade cultural inteligente e bem articulada !) e sim para  deixar claro que objetos sonoros pertencentes a esta categoria não devem em hipótese alguma ser confundidos com música. Pertencem, isto sim, ao mundo das letras, sendo de maior ou menor valor de acordo com a estatura artística de seus autores. Então por que todo este ranço ? Tão somente para evidenciar uma desmusicalização, observável e quantificável, de audiências pulverizadas que, conquanto fruam de um universo de escolha bem maior do que o que tinham na era do rádio, ouvem, em redes sociais, majoritariamente, objetos cada vez mais rasos musicalmente.

Tal empobrecimento da expectativa das audiências em relação à proficiência autoral é, no entanto, ainda mais chocante se levarmos em conta que, dentre os vídeos mais acessados no YouTube, há muitas partidas de videogames jogadas por ditos gamers profissionais que, supostamente, vivem da publicidade vinculada a videos tutoriais em que jogam partidas revelando a seus seguidores (fandom é outro conceito importante, intraduzível, quando se fala de audiências…) dicas e estratégias. Seus canais em plataformas sociais são frequentados por adolescentes de todo o mundo, muitos dos quais cogitam até abandonar os estudos a fim de se tornarem jogadores profissionais. Para melhor vislumbrar o tamanho (e o caráter assustador !) da cultura de games entre jovens, basta conferir este impressionante (por que desvela uma cena real e atual bem pior do que as piores distopias já imaginadas na ficção) artigo da Mashable.

Por tudo isto, seria uma ótima ideia estudar a correlação entre a fragmentação e a desqualificação da atenção. Tão boa, aliás, que alguém já deve ter tido. Então, me notifiquem (links welcome !), por favor, se tiverem notícia de algo bom sobre o assunto.

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