O que é um panóptico

Publicado em 1º de fevereiro de 2013, quando se completam 778 dias de prisão de Julian Assange – sem que qualquer acusação legal tenha sido feita até a presente data – e após 228 anos da idealização do panóptico por Jeremy Bentham, este livro foi composto em Adobe Garamond, 11/13,2, e impresso em papel Pólen Soft 80g/m2 na Yangraf para a Boitempo Editorial, em janeiro de 2013, com tiragem de 10 mil exemplares

Este é o prolixo colofão (texto diminuto, impresso ao pé da última página de um livro, contendo informações sobre o mesmo enquanto objeto físico, independentemente de seu conteúdo) aposto à edição brasileira de Cypherpunks – liberdade e o futuro da internet. Nunca tinha visto nada similar, nem de longe, que agregasse, assim anonimamente, naquele espaço outrossim meramente técnico, tanto significado ao conteúdo de uma obra.

De pronto me pus a imaginar quem, numa cadeia editorial, dispondo de tantos espaços autorais (como orelhas, contracapa, prefácio, apêndices e afins), ousaria perverter tanto aquele lugar normalmente dedicado a informações gráficas neutras, de ordem exclusivamente técnica. Divagação, todavia, inútil. De modo que, em seguida, tratei de descobrir do que se trata, afinal, um panóptico.

Em poucas palavras, panóptico é um modelo arquitetônico prisional, idealizado pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham em 1785, no qual todas as celas podem ser permanentemente observadas a partir de uma torre localizada no eixo central de um prédio cilíndrico, atendendo ao princípio de máxima vigilância com esforço mínimo.

Um detalhe importante do panóptico de Bentham é que, devido a persianas ou venezianas que revestem as janelas da torre de vigilância, não é possível a cada preso, ainda que podendo ser permanentemente vigiado, saber efetivamente quando o está sendo. A autocensura decorrente desta condição é tida como o principal efeito disciplinador do panóptico.

Por razões que não vem ao caso, o modelo não se popularizou. O único panóptico que já foi construído nos EUA está em ruínas – e a ideia estaria definitivamente sepultada não fosse sua apropriação por Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), para descrever a sociedade disciplinar. Desde então, muitos a vem adotando, particularmente teóricos das novas tecnologias, como Pierre Lévy e Howard Rheingold (e, inclusive, o próprio Assange) como metáfora perfeita para a vigilância invisível da internet por seus controladores.

Cypherpunks – Liberdade e o Futuro da Internet (2013); ou O elogio do hacker

Algumas leituras são prazerosas. Outras, necessárias. Como Cypherpunks – Liberdade e o Futuro da Internet (Boitempo, 2013). No caso, o que não ajuda é o formato do texto, a saber, a transcrição de uma conversa mantida por Julian Assange com Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maguhn e Jéremie Zimmermann em 20 de março de 2012 na embaixada equatoriana em Londres, na qual o primeiro tinha exílio político.

Conquanto o leitor possa lamentar a falta de uma voz autoral a garantir a elegância e uma certa unidade ao texto, o estilo caótico de ata de assembleia é largamente compensado pela densidade das ideias expressas e informações trazidas pelos quatro heróis da liberdade online. Numa percepção apressada, poderíamos argumentar que a recusa de Assange em escrever um livro se deva ao fato dele não ser um escritor mas, antes, um programador. Tal ideia, no entanto, rapidamente se dissipa ante a leitura de alguns blocos monológicos do ativista, particularmente o final do livro. Noutras palavras, Assange não escreveu o livro sozinho por que não quis – a presença dos outros ilustres co-autores se justificando, acima de tudo, para conferir ao relato a diversidade que tanto defende, principalmente quando manifesta, aqui e ali, como franca discórdia.

A conversa gira em torno da liberdade e do poder emancipador sem precedentes franqueados pela internet, bem como das ameaças a que estão sujeitos. São discutidas, com farta documentação, a criptografia, a militarização do ciberespaço, a vigilância, a censura, a cultura hacker e outros tantos desdobramentos temáticos. De vez em quando, despontam categorizações importantes, tais como as 3 liberdades fundamentais, a saber,

liberdade de circulação,

liberdade de comunicação e

liberdade de interação econômica;

a distinção entre

vigilância tática, que predominava antes da internet, na qual apenas um grupo de notórios suspeitos tinham suas comunicações interceptadas; e

vigilância estratégica, facultada pela web, na qual todas as comunicações são interceptadas e armazenadas, constituindo imensos bancos de dados para análise e garimpo de informações relevantes por órgãos de inteligência;

os “Quatro Cavaleiros do Info-Apocalipse”, em nome dos quais são impostas todas as legislações de exceção que envolvem quebra de privacidade individual, que são

lavagem de dinheiro,

drogas,

terrorismo e

pornografia infantil;

ou, ainda, as várias camadas da pirâmide da censura, da qual somente é visível

a ponta, pública, constituída por calúnias, assassinato de jornalistas, câmeras apreendidas por militares e assim por diante; sob a mesma, existem, invisíveis,

a autocensura;

o aliciamento econômico ou clientelista para que pessoas escrevam sobre isto ou aquilo;

a economia pura, que determina sobre o que vale a pena ou não escrever;

o preconceito dos leitores, ocasionado pelo nível de instrução limitado e que resulta numa massa fácil de manipular, tanto pela disseminação de informações falsas como pela falta de condições de entender verdades sofisticadas;

a distribuição, que consiste na falta de acesso a informações – como, por exemplo, no caso de línguas desconhecidas.

* * *

Na discussão sobre criptografia, nos inteiramos de que é precisamente aí (e não na colossal capacidade de armazenamento) que reside o grande trunfo do WikiLeaks, i.e., na garantia do anonimato conferido a cada whistleblower (denunciante). Com efeito, nem Assange conhece a identidade de quem envia documentos à organização que criou. E sobre a segurança do anonimato, deve ser dito que a identidade de Bradley Manning, responsável pelo maior vazamento de documentos militares da história, só foi revelada depois que o mesmo se referiu a seu feito num chat.

A criptografia também se provou um valioso recurso em se tratando de se esquivar à vigilância estratégica, já que, sem o software necessário, é impossível decodificar quaisquer mensagens criptografadas interceptadas.

É nos capítulos dedicados à vigilância que ficamos sabendo que, enquanto com os recursos anteriores à internet, órgãos de inteligência precisavam se limitar a interceptar as comunicações apenas entre indivíduos suspeitos, hoje é possível a qualquer estado comprar, pela bagatela de dez milhões de dólares (sem ironia: comparem este valor com a maioria dos orçamentos governamentais), sistemas capazes de interceptar e armazenar indefinidamente TODAS as comunicações, por voz ou texto, de uma cidade ou mesmo de um país.

A vigilância, inclusive sobre interações econômicas, é enormemente facilitada pela centralização de informações num pequeno número de empresas, quase todas norte-americanas. Pensem no Google, no Twitter, no Facebook ou nas poucas bandeiras dos cartões de crédito mais usados. Por exemplo. Se você comprar uma passagem aérea por meio de qualquer transação bancária, inclusive com cartão de crédito, dados sobre seu deslocamento pretendido estarão imediatamente disponíveis a órgãos de inteligência interessados antes mesmo que você saia do lugar. Tente, ao contrário, comprar uma passagem internacional em dinheiro vivo.  Neste caso, se você estiver tentando cruzar fronteiras de um país com fortes restrições migratórias, provavelmente será submetido a revistas e interrogatórios rigorosos. Paranoia ? Não creio. Isto ocorreu a um dos autores, cidadão norte-americano, ao tentar ingressar em seu país pelo Canadá.

Na visão dos autores, que defendem uma internet livre e anônima para todos, um dos maiores problemas consiste na assimetria de tratamento dado às informações, de um lado, dos mais ricos e poderosos e, de outro, dos usuários comuns – perfeitamente sintetizada no título do penúltimo capítulo: Privacidade para os fracos, transparência para os poderosos.  A ética hacker  distingue claramente informações privadas daquelas que são ou deveriam ser públicas – sendo, inclusive, tal discernimento a principal razão para a lentidão na divulgação do enorme volume de mensagens comprometedoras interceptadas entre o então juiz Sérgio Moro e procuradores da operação Lava Jato.

Como contramedidas possíveis face à presente distopia de governos e atores privados cada vez mais vigilantes, os autores propõem, entre outras coisas, o domínio, por parte de usuários comuns, de recursos criptográficos; a disseminação de software livre, que pode ser compreendido e alterado por qualquer indivíduo; o uso de navegadores não rastreáveis, como o Tor; e uma arquitetura mais descentralizada para a internet.

* * *

Talvez a maior importância da leitura desta conversa não seja a fartura de dados objetivos sobre (me desculpem a expressão) a merda em que estamos imersos. E, o que é pior, sem saber ! Pois, ao usarmos a internet, seduzidos por conveniências sem precedentes, sequer temos ideia do volume de informações que voluntariamente confiamos a quem, em última análise, quer nos controlar ou nos vender algo.

Penso, outrossim, que o maior valor do livro seja reabilitar, perante o leitor, a figura do hacker – tão vilipendiada, recentemente, pelos atores centrais ao Morogate, seus protetores e, de resto, parte significativa da mídia. De fato, para a maioria das pessoas, um hacker não passa de um criminoso, dedicado a capturar senhas e subtrair saldos de contas bancárias alheias ou, no máximo, desestabilizar governos por meio de táticas terroristas. É nisto que o discurso oficial quer que acreditemos.

Não sou ingênuo a ponto de afirmar que hackers assim, movidos primordialmente por interesses pecuniários, não existam. São, no entanto, uma minoria absolutamente irrelevante. Até por que há fraudes bem mais rentáveis ou, ainda, as populares malas de dinheiro. E não consta, até hoje, que nenhum hacker tenha sido flagrado com 51 milhões em espécie num apartamento. E quanto àquele vilão que desvia quantias milionárias para contas múltiplas em paraísos fiscais apenas conectando um pen drive a um servidor ? Se você acredita nisto, deve estar vendo muita televisão.

O hacker, tão invocado quando se trata de explicar o inexplicável, é, em sua ocorrência mais comum, um sujeito de inteligência superior e índole utópica que age altruisticamente, de modo anônimo e colaborativo, na tentativa de prover a seus semelhantes um mundo melhor. É o cara que frequenta a campus party, defende o software livre e milita contra a propriedade intelectual, quebrando sistemas fechados e se apropriando de códigos-fonte, sempre em nome do interesse da parte mais numerosa e vulnerável do mundo digital. Noutras palavras, um herói da democracia. Ainda que tantos poderosos, quando pegos de cuecas, se ponham a gritar tratar-se do bandido.

 

Memes

Pessoas inteligentes não usam seu intelecto para obter a resposta correta; usam-no para obter o que elas querem que seja a resposta.

Rutger Bregman em Utopia para Realistas (2016), citando Ezra Klein, que disse, em How politics makes us stupid,

People weren’t reasoning to get the right answer; they were reasoning to get the answer that they wanted to be right

Conteúdo. As formas longas. O grande romance, a tese, o filme de longa metragem ou mesmo o artigo ou ensaio. Provavelmente como a maioria daqueles de minha geração, me acostumei a pensar que as grandes verdades e discussões, as abordagens mais completas e os argumentos melhor articulados estivessem confinados aos discursos mais prolixos.

Mas aí veio a internet e, com ela, a hipótese do Parêntesis de Gutenberg e sua mais popular realização, o meme, para virar minhas convicções de cabeça para baixo.

Não sou tão dogmático a ponto de deixar de testá-las, como um advogado do diabo, perante novos e estranhos modos de cognição trazidos pela web. Assim, me apressei em saber, anos atrás, por que meus filhos preferiam tão incondicionalmente navegar na rede em seus celulares a se fixarem em qualquer programação exibida na TV, aberta ou a cabo. O mito do multitasking: a TV e o celular ligados ao mesmo tempo. Obtive a resposta que já esperava: a rede lhes permitia mais escolha sobre uma quantidade muito maior, praticamente infinita, de conteúdo. Concordei de pronto. Ressalvando, é claro, que os conteúdos mais frequentemente acessados eram, então, de baixíssima qualidade. Foi na época em que youtubers estavam no auge.

Há poucos dias, intrigado por risos intermitentes, tratei de averiguar sua origem no ambiente privado da tela do celular de um deles. Foi quando tomei contato com a vasta comunidade de sites dedicados a produzir e acumular memes. Foi também quando me inteirei do fato de que professores já os usam, pasmem, como recurso pedagógico. Interessado, como sempre, em transformações linguísticas e midiáticas (as primeiras são sempre produto das últimas), esbocei um mergulho neste universo. Começando por buscar uma definição.

Por assumir diversas formas, muitas delas ainda não descobertas, um meme se esquiva a uma definição abrangente – melhor podendo, antes, ser descrito por um conjunto aberto de exemplos que realcem suas características comuns. Tentemos, então, uma abordagem aproximativa.

Morfologicamente, memes são constituídos pelo acoplamento de duas partes presentes em todos, a saber:

uma ou mais imagens, que podem ser

genéricas e recorrentes (i.e., presentes em vários memes), de significado aberto, aplicável a muitos contextos específicos ou

específicas de um meme em particular; e

textos curtos,

de não mais do que uma frase ou, muitas vezes,

sem frases completas, como legendas a identificar partes das imagens.

A elevada taxa imagens/texto típica dos memes é o principal fator deles terem assumido um lugar privilegiado entre as formas de discurso mais populares na era digital. Muito mais do que sua faculdade de comunicação instantânea (em oposição a textos, cuja leitura implica em maior disponibilidade de tempo, tanto maior quanto for a extensão do texto), seus armazenamento e circulação seriam impensáveis em épocas anteriores, nas quais as memórias eletrônicas necessárias eram muito maiores e mais onerosas. Para compreender o fenômeno, basta pensar em quantos bytes são necessários para armazenar uma imagem, mesmo de baixa resolução, em relação ao suficiente para conter o texto sucinto usualmente associado a um meme. Tais miniaturização e barateamento das memórias eletrônicas são cruciais para corroborar a hipótese do Parêntesis de Gutenberg, segundo a qual estaríamos no final de um período histórico dominado pela escrita, iniciado com a invenção da imprensa, e no limiar de uma “segunda oralidade”, na qual a comunicação repousará muito mais sobre sons e imagens do que sobre textos. Mesmo sem saber se tal profecia é correta, não há como não reconhecê-la como fascinante.

Já foi dito que memes podem assumir diferentes formas. Dois dos tipos mais populares são:

os de imagem única recorrente, significando uma proposição lógica aplicável a diversas circunstâncias, especificadas nas legendas. Por exemplo, a bofefetada desferida por Batman em Robin; e

pares de imagens denotando diferenças entre situações análogas cujo tratamento deveria (ao menos no entender do enunciador do meme (pois todo meme é um discurso)) semelhante. Como exemplo, o popular “igualdade X justiça” com pessoas de diferentes estaturas espiando por sobre uma cerca de altura uniforme, com (justiça) ou sem (igualdade) caixotes para erguê-las.

Memes funcionam como silogismos complexos, pelo encadeamento das premissas representadas pelas imagens e pelas partículas de texto, quase sempre visando um “riso ontológico” em razão da evidenciação súbita, como uma “sacada” ou insight, de uma realidade secreta superposta à aparente.

Gostemos ou não deles, os memes vieram para ficar, principalmente em razão de sua compatibilidade tecnológica. Primeiro por se valerem de imagens – muitas vezes recorrentes e, portanto, reconhecíveis mesmo em baixa resolução – e de textos extremamente compactos. Tais atributos guardam estreita afinidade com as minúsculas telas em que são, na maioria das vezes, visualizados.

Segundo por que, ao evocar ao invés de explicar, transmitem ideias instantaneamente, sem a necessidade de leituras mais demoradas. Isto não deve ser subestimado. Façam uma experiência. Corram os olhos pelos memes de uma timeline até chegar ao ponto em que checaram atualizações pela última vez. Provavelmente, poucos minutos terão sido suficientes para a tarefa.

Em seguida, tentem ler o conteúdo de todos os links postados na mesma timeline desde a última checagem. É quase certo (salvo, é claro, em razão da taxa meme/link específica de cada timeline) que jamais chegarão ao ponto da última checagem. Concluímos, então, que memes são muito mais afeitos do que links externos à velocidade – ou, se quiserem, algaravia – das redes sociais.

* * *

Minha bronca com memes. Entendam a epígrafe deste post neste contexto, i.e., mesmo reconhecendo a irreversibilidade dos memes como modo de discurso, me reservo o direito de ruminar sobre suas limitações.

Conquanto minhas preferências estéticas contribuam para tanto, não gosto de ser tachado como conservador. Me interessam as evoluções culturais (ainda que, inicialmente, possa não compreendê-las). Estou longe de ser um saudosista, daqueles que lamentam o fim da fotografia analógica ou do disco de vinil – até por que as vantagens destes meios extintos não tem nada a ver com sua tecnologia arcaica, mas, pura e simplesmente, com o excesso que define a era digital. Mas isto é outro assunto.

Então, me dispus (e, por tabela, também vocês que me seguem por estas linhas) a esmiuçar por que memes causam a alguns tanto mal estar, impaciência e irritação. Concluí que tem a ver com seu significado fechado, pois não há como interpretar um meme de outra maneira que não aquela explicitada. O meme é a piada explicada, desenhada para quem não a entender. Isto elimina, de certa forma, o prazer e a vantagem da construção pelo apreciador de uma percepção individual de discursos mais prolixos, como um filme ou um romance. Assim, um meme pode ser entendido como antítese da arte, por implicar, ao contrário de obras abertas, num entendimento único.

Mas alto lá: o que apreendemos num meme que já são sabíamos anteriormente ? Enquanto o texto é capaz de explicar, o meme tão somente evoca. Talvez por isto tenha sido absorvido pela pedagogia. Soube por meu filho mais moço que professores utilizam memes em provas escolares, como perguntas plenisignificantes, pedindo a alunos que descrevam o que está representado nos mesmos como forma de testar suas capacidades cognitivas, lógicas e discursivas. Talvez não seja, então, uma má ideia.

Last but no least, todo meme é uma potente enunciação de opinião. Por meio dele, é sempre possível identificar onde se situa seu enunciante num espectro ideológico. Ao mesmo tempo, o meme é, por seu significado unívoco, avesso à nuance.  Um atalho para um entendimento que suprime a possibilidade de qualquer contraditório. E suas premissas subentendidas inibem (para não dizer que dispensam completamente) qualquer verificação ou discussão. É por isto que são tão afeitos ao proselitismo, às fake news e, em última instância, ao discurso político da pior espécie, a saber, o dos slogans e palavras de ordem.

O parênteses do filme: a era Technicolor (dos anos 30 aos 50)

Hoje, imagens capturadas por sensores eletrônicos e digitalizadas são armazenadas em discos magnéticos rígidos e mesmo memórias sólidas transitórias. Terminou, portanto, a era das imagens quimicamente gravadas em filmes translúcidos, tanto na fotografia como no cinema. Uma das mais interessantes histórias da tecnologia da cor em filmes,  antes da existência da TV, foi o processo Technicolor – que, em poucas palavras, consistiu, em seu auge, na utilização de uma pesada câmera, na qual três filmes negativos em branco e preto rodavam ao mesmo tempo, cada um registrando uma parte do espectro da luz que vinha da lente.

Imaginem o  tamanho da máquinas, das quais poucas unidades chegaram a ser produzidas entre 1933 e 1950: 35 nos Estados Unidos (das quais 29 para ação cinematográfica, 3 para animação e 3 para filmagem rápida e slow motion) e apenas 4 no Reino Unido.

Câmera Technicolor

Não eram vendidas, mas só alugadas, e seu uso pressupunha a contratação obrigatória do processo de revelação dos negativos e de uma equipe composta por vários técnicos de operação e um consultor de cores.

Equipe técnica para a operação de uma câmera Technicolor

O processo Technicolor foi hegemônico na indústria cinematográfica dos anos 30 aos 50 (mais precisamente, de 1932 a 1954), tendo sido suplantado apenas pelo Eastmancolor – cujas câmeras, mais portáteis, ofereciam a cineastas, por utilizarem apenas um rolo de filme, uma portabilidade até então inédita.

Carrinho (travelling) usado para movimentar em filmagens uma câmera Technicolor

A história da cor no cinema é, como a de tantos pioneiros norte-americanos, uma história de sagas familiares. Pois não há como se falar de um vasto período de cor no cinema sem falar nos impérios de Natalie e Herbert Kalmus e de George Eastman.

Dentre os primeiros a utilizarem o processo Technicolor destacam-se os estúdios Disney, em produções como, por exemplo, as Silly Syphonies e os desenhos do Mickey Mouse.  Abaixo, a Silly Simphony Flowers an Trees , de 1932,

e um desenho do Mickey de 1936.

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Numa rápida olhada no youtube, encontrei ótimos documentários sobre o Technicolor, tais como

,

e

(de, respectivamente, três minutos e três quartos; quatro minutos e dois terços e uma hora – dependendo de sua tolerância a vídeos didáticos…). O primeiro explica o funcionamento de uma câmera Technicolor; o segundo, o processo de dye-transfer, usado para a fabricação de um único filme positivo colorido, a partir dos três negativos em branco e preto; e o último, mais prolixo, toda a história da empresa e dos empreendedores que criaram e exploraram o processo.

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Hoje, sabemos que as cores capturadas em Technicolor, em três negativos convencionais em branco e preto com sais de prata, resistem muito melhor à ação do tempo do que aquelas registradas em gelatinas coloridas por meio do processo Eastmancolor.

À esquerda, imagem em Eastmancolor; à direita, a mesma imagem em Technicolor

Não se trata do único caso em que uma tecnologia mais antiga, rendida obsoleta por outra mais nova, se revela, em retrospecto, mais durável. O mesmo acontece com discos de vinil, intactos até hoje, se comparados aos primeiros CDs, fabricados na década de 80, que, dependendo das condições de armazenamento, já podem apresentar sinais de desgaste pela ação do tempo, com perda irrecuperável da informação neles contida, devido à corrosão da película metálica na qual foi gravada digitalmente.