Carta de Recomendação (ii): Perfil de Pedro Dom; ou Por que decidi apoiar o projeto de crowdfunding para o novo disco da Orquestra Livre

Quando Pedro Dom (prefiro, para uso repetitivo, este nome, mais compacto, do que o que lhe foi dado ao nascer, a saber, Pedro Schneider) apareceu pela primeira vez, como aluno de extensão, em minha classe de clarineta no Instituto de Artes da UFRGS, não levei muita fé. Por várias razões, dentre as quais:

por que ele vinha de uma sólida experiência em música popular, pela qual presumi, erroneamente, que seu interesse na clarineta como instrumento de concerto seria não mais do que passageiro;

por que sua experiência mais marcante era com um gênero musical – a saber, o rap – pelo qual eu não tinha o menor apreço (o(s) motivo(s) não vem ao caso agora), mas cujas possibilidades passei, ironicamente, a reconhecer depois de tomar pé de seu trabalho; e, last but no least,

ele não possuía qualquer experiência prévia com a clarineta.

Ainda assim, resisti a meus preconceitos, principalmente por que

em sua família, a arte esteve presente desde o berço, já que seu pai é escritor (já resenhei um livro dele aqui). Não canso de dizer que o contato precoce com a música é, para quem quer que a abrace como uma carreira, uma inegável vantagem. Ora, o mesmo deve valer para a arte em geral;

ele estudara piano desde cedo (uma competência cuja falta na maioria dos alunos costumo lastimar) e, o que é melhor, com um grande professor – a saber, Michel Dorfman, considerado por Paulo Moreira como “o nosso Bill Evans”; e

ele possuía referências musicais excelentes, tanto no jazz como na MPB, absolutamente raras em músicos de sua geração – para os quais, na maioria das vezes, só existe o passado mais recente.  Com Pedro Dom, era bem diferente. Ele tinha a devida reverência por Tom Jobim, o Kind of Blue e seus contemporâneos. Era como se ele fosse, de algum modo, imune à rasura predominante em objetos musicais de seu próprio tempo.

Com este equipamento na mochila, começamos a trabalhar. Não costumo alimentar expectativas quanto ao progresso de cada aluno, nem tampouco fazer previsões sobre suas perspectivas (até por que a vida faz cada curva…) Pedro foi surpreendente em todos os sentidos. Tratei de não o desestimular, ocultando meu ceticismo, quando quis se submeter à prova específica para admissão ao curso de graduação. Eu achava que os poucos meses que o separavam da prova eram muito pouco tempo para alguém que recém dava os primeiros passos no instrumento. Felizmente, eu estava errado. Cinco anos depois, Pedro se graduou com um ótimo recital e foi aceito para prosseguir seus estudos com Michele Zukovsky, uma lenda viva da clarineta, na Universidade da California em Azusa.

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Não há como (felizmente !) se adivinhar o que Pedro Dom estará fazendo num futuro próximo ou distante.  Principalmente por que seu envolvimento com a música é multifacetado. Além de ser proficiente em mais de um instrumento (o piano, a clarineta, o violão e a voz, pelo menos), ele nutre grandes ambições como compositor – sendo, além disto, um excelente arranjador (para que se tenha uma ideia, basta ouvir os sopros (remontando a Oliver Nelson ?) em alguns dos vídeos residentes no site de crowdfunding). Um de seus melhores trabalhos que já ouvi, infelizmente ainda inédito, é um primoroso vídeo musical, em estilo de making of e produzido por um importante estúdio, no qual alterna sua música com a de Moacir Santos (!).

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Noutra época, a única possibilidade de um artista registrar sua obra em então dispendiosos discos era tendo, por meio de festivais, programas de calouros ou por força e obra de algum produtor que também atuasse como head hunter, o acesso franqueado ao elenco de alguma grande gravadora. Hoje, gravadoras minguam, apenas distribuindo obras com cujos custos de produção arcaram os próprios artistas – que, no entanto, na maioria das vezes, dificilmente conseguem reunir os volumosos recursos necessários para pagar, entre outras coisas, horas de estúdio e a fabricação de CDs. Neste contexto, surgiu o crowdfunding, espécie de “ação entre amigos” (Pedro não concorda com esta definição, mas desconheço outra melhor), na qual um grande número de apoiadores viabiliza, por meio de pequenas doações prévias, a confecção de produtos culturais por parte de artistas nos quais acreditam.

Mais. O crowdfunding, ao contrário do patrocínio corporativo incentivado por renúncia fiscal (o qual visa, antes de tudo, o ganho de imagem da empresa apoiadora por meio da publicidade que “cola” marcas comerciais a objetos apoiados), é uma iniciativa distribuída, na qual qualquer apoio individual se dilui entre o apoio de muitos outros simpatizantes.

Mais ou menos como na ideia de Lawrence Lessig para “consertar” o congresso norte-americano, que consiste em banir o lobby por meio da limitação das contribuições de campanha a pequenos valores (algo como 100 dólares), aportados por cidadãos em vez de empresas.

Uma e outra iniciativas (i.e., tanto o crowdfunding como o Fix Congress Now (nome da proposição de Lessig (professor de Direito de Harvard e criador da licença Creative Commons))) tendem a produzir resultados em melhor sintonia com o tecido social.

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Pelas razões acima, participarei da campanha de crowdfunding para custeio do próximo disco de Pedro Dom. Por que apostar numa coisa assim no escuro ? Ora, por que ela será, por definição, muito melhor do que quaisquer similares existentes para pronta entrega. Pois bens produzidos para comercialização são desenhados para atender expectativas de mercado, sempre niveladas por baixo, enquanto que artistas com liberdade (e recursos !) para criar produzirão, necessariamente, algo muito acima de qualquer expectativa. Ou, noutras palavras, o velho conflito entre os desígnios de produtores, de um lado, e autores, de outro. Duvidam ? Paguem para ver.

Bill Evans por Paulo Moreira e Michel Dorfman ontem à noite no Instituto Ling

Eu era jovem ou ignorante demais (provavelmente os dois) quando Bill Evans se apresentou, por mais de uma vez, em Porto Alegre. Por isto, acabei perdendo shows que estariam certamente entre os mais memoráveis de minha vida.

Hoje, saio pouco de casa para ouvir música, apenas em situações bem específicas. Ou seja, somente quando tenho razões suficientes para acreditar que ouvirei música sublime executada por músicos excepcionais. Não, como diz um amigo, banalizo a experiência de ouvir música ao vivo. Até por que me acomodei à facilidade de descobrir coisas novas pela internet. Então, quando saio para ouvir algo, é por que espero desempenhos excepcionais. Ontem foi uma noite assim.

Anunciei enfaticamente no facebook, na véspera e no dia, uma audição comentada sobre Bill Evans por Paulo Moreira coroada por uma performance de Michel Dorfman nas luxuosas instalações do Instituto Ling. Noutras palavras, o melhor do  melhor. O tema, o palestrante e a música (repertório e executante).  Chamei a coisa de alinhamento de planetas e, numa segunda e derradeira postagem, doei um ingresso que comprara e não utilizaria, praticamente convocando gente para o evento. Para minha surpresa, ninguém quis o ingresso. Chegando lá e tampouco encontrando algum amigo a quem doá-lo, o deixei na bilheteria para qualquer sortudo que chegasse para adquiri-lo na última hora. Acho, no entanto, que ninguém chegou depois de mim. Na plateia, ao todo menos de 40 pessoas. Muito pouco, a meu ver, para algo de tal magnitude.

Logo ao entrar, obtive confirmação de que a coisa prometia ao avistar, no palco, sobre uma mesinha, 20 ou 30 CD organizados em duas pilhas.

Costumo relacionar a qualidade de qualquer fala ao tempo médio de tolerância dos ouvintes à linha de argumentação (podem, se quiser, chamar de discurso ou narrativa) do palestrante. Segundo tal medida, terá com certeza algum magnetismo todo e somente o palestrante que tiver ouvintes atentos ao menos pelo tempo de, digamos, um bom filme ou competições esportivas como jogos de tênis ou futebol.

Paulo Moreira pontua com louvor neste quesito. Com duas horas para falar e a prerrogativa de interromper uma única música que usava, no máximo, para ilustrar cada álbum, conseguia falar mais. Bem mais, pelo menos, do que em seu programa de rádio. Isto representa per se um incremento qualitativo – posto que, afinal, as pessoas que ouviam a palestra presumivelmente já ouviram (ao menos em parte) os álbuns citados na íntegra em suas casas – tendo afluído, portanto, ao evento primordialmente para ouvir o comentarista. Ao falar mais (por vezes sobre a música comentada, habilmente mixada à sua voz por um operador de áudio), melhor conseguiu transmitir uma visão ampla e detalhada sobre o assunto. Pensem numa perspectiva clara, ricamente detalhada. No formato de audição comentada, o anfitrião goza de muito mais autonomia autoral do que no escasso tempo entre uma música e outra em seu excelente programa de rádio.

Rádio. Um par de parênteses se faz necessário. Desenvolvi uma espécie de intolerância ao rádio dedicado à transmissão de música (tanto que só ouço rádios de notícias). Em razão da baixa qualidade musical da maioria e, principalmente, por seu grau de redundância ou previsibilidade. Já perceberam como certas rádios tocam umas mesmas poucas músicas, por vezes à mesma hora ?

Minha escassa experiência ouvindo rádio me ensinou, assim, que a qualidade de qualquer programa radiofônico é inversamente proporcional ao grau de redundância da música que nele é tocada. De tal modo que os melhores programas são sempre os mais variados. Os que tocam mais músicas diferentes. Os que levam mais tempo para repetir as mesmas músicas. Segundo este critério, Sessão Jazz, apresentado por Moreira há quase 19 anos na FM Cultura (107.7MHz) de Porto Alegre, é um programa muito melhor do que praticamente tudo o que é transmitido em qualquer horário por emissoras comerciais.

Desde cedo um fã fervoroso de Evans, me considerava uma espécie de expert amador em sua discografia e, como tal, fui ao Ling mais para desfrutar da prosa de Moreira sobre meu ídolo e da música deste por Michel. Saí no lucro. Ouvi pela primeira vez muitos discos do início da carreira de Evans, além de descobrir fatos cruciais de sua biografia. A infância difícil. A baixa autoestima. O vício em heroína e, ao final, em cocaína. As homenagens criptografadas nos títulos das composições. Em suma, um manancial de informações das quais eu jamais suspeitara.

Jamais ouvira, por exemplo, tão claramente explicado como e por que o bebop revolucionou o jazz. De como a música que se começou a tocar às segundas-feiras no Minton’s Playhouse nos anos 50 não mais se destinava a ser dançada, porém ouvida. De quebra com detalhes pitorescos sobre o por que daquilo não acontecer em outro lugar senão no Minton’s.

Além disto, muito do que ouvimos era constituído por informação de primeira mão, obtida por Paulo em conversas com músicos que testemunharam a história. Como, por exemplo, a que teve com Miúcha sobre o atrito entre João Gilberto e Stan Getz ou, ainda, uma com Joe La Barbera (último baterista de Evans) sobre como era tocar com o gênio.

No intervalo, se falava no café sobre a recente inclinação ao jazz de músicos jovens que antes só conheciam e praticavam o rock (ou rap, ou pop, ou sertanejo universitário, etc.). Aproveitei para perguntar se a qualidade superior da música de outrora não se devia à ausência de qualquer associação com imagens (como nas mais recentes linguagens da TV, das telas, do videoclip). Pois enquanto antes se OUVIA música gravada – diante, com sorte, de boas caixas acústicas propelidas por sólidos amplificadores ou mesmo com bons fones de ouvido, hoje tudo que se ouve é praticamente indissociável de um complemento visual.

A maior ruptura se deu, acho, por volta dos anos 80, quando se passou a VER música em videoclipes (inicialmente na TV e, hoje, em minúsculas telas de celulares) muito mais do que, propriamente, ouvi-las.

Já segundo Moreira, o que arruinou a MPB foi o rock. Em defesa do argumento, citou Paralamas, Legião, Titãs, Barão e afins como cópias mal feitas de bandas indie (ou nem nem tanto) que eu jamais ouvira ou sobre as quais sequer tinha ouvido falar. Na opinião de Paulo (e da minha também !), tudo o que nos trouxe o passado mais recente é muito inferior à música de Chico, Gil, Caetano, Milton e cia. Alguém muito arguto (a quem fui apresentado mas – desculpe ! – cujo nome esqueci) bem lembrou que imitações baratas já eram marcas do mainstream da música brasileira desde o tempo da Jovem Guarda, quando todos queriam ser os Beatles. ( * )

Tão interessante quanto a música apresentada foi sem dúvida o perfil psicológico de Evans traçado. As grandes perdas (La Faro, o irmão…). A infância traumática e a  baixa autoestima já mencionadas. Um dos melhores momentos, que supre perfeitamente a lacuna de documentação histórica sobre o conhecidíssimo atrito entre Evans e Miles por conta da apropriação pelo último da peça Blue in Green, composta pelo primeiro e central ao mítico álbum Kind of Blue. O incidente poderia ter facilmente se tornado um dos mais célebres casos judiciais sobre direitos autorais não fosse a atitude resignada de Evans, que declinou de processar Miles pela apropriação indevida, se contentando, em troca, com uma mera atribuição de coautoria nos créditos da segunda prensagem do álbum. Descrevendo uma possível cena de Evans externando a Miles sua indignação, Paulo angaria risos da plateia ao dizer que tudo teria se resumido a um ” – Pô, Miles ! Blue in Green é meu…

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Talvez o mais impactante que eu tenha ouvido ontem à noite tenha sido uma fala sobre o fim da genialidade (questão que me intriga e da qual já me ocupei aqui e aqui). Quando, próximo ao final da apresentação, perguntado sobre o futuro do jazz e da música em geral, Moreira afirma que todas as possibilidades já se haviam esgotado e que, portanto, nunca mais haveria gênios como Miles, Monk, Bird, Trane, Evans e outros. Uma espécie de saturação, onde tudo parece já ter sido experimentado, comparável ao que se tem hoje na música de concerto. Impossível discordar.

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Muitas coisas passam rapidamente pela mente de ouvintes atentos a uma palestra. Compartilho, pois, aqui, dois fatos possivelmente relevantes que me ocorreram enquanto ouvia a cativante explanação de Moreira.

Fato # 1: É consistente e audível a progressividade da evidência do piano de Evans na mixagem de seus primeiros discos. Da seguinte maneira. Quase não se ouvia o piano em sua primeira gravação a se tornar célebre. Nela, acompanhava uma cantora, que parecia cantar “na cara” do ouvinte – o qual, por sua vez, percebe o piano apenas ao longe, como se estivesse em outra sala. Mais ou menos como no som daquelas gravações primitivas em que a mixagem era obtida por meio da proximidade de cada fonte sonora a um único microfone ou coifa de captação (já viram estas divertidas imagens ?)

Já em seus primeiros registros em trio e como líder, seu piano se torna bem mais audível. Ainda sufocado, no entanto, pela indevida ênfase, na mixagem, do contrabaixo e, principalmente, da bateria. É tão somente a partir de seus discos dos anos 70 que a devida proeminência é dada ao piano.

Fato #2: é também de grande interesse para fãs de Bill Evans que sua relação com a cantora sueca Monica Zetterlund é retratada no filme Monica Z (Waltz for Monica), de 2013, dirigido por um certo Per Fly, que conta a história de como Monica atraiu a atenção do pianista (que reputava, com razão, como sendo o melhor do mundo) por meio de uma gravação sua cantando versos (seus ?) para o clássico de Evans Waltz for Debbie – o qual veio a dar nome ao álbum resultante da colaboração entre os dois. Felizmente, o encontro foi amplamente documentado, provavelmente pela televisão sueca, com destaque também para o contrabaixista Eddie Gomez, central à trajetória de Evans.

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Não menos brilhante do que a fala de Moreira foi o pequeno recital proporcionado por Michel Dorfman.

A começar pela escolha do repertório. Movido pela complexa tarefa de dar a melhor ideia possível da obra de Evans num curto espaço de tempo. Michel acertou ao organizar 3 medleys (seleções) de composições do pianista que compartilhavam tonalidades comuns. Fechando os olhos, se ouvia Bill Evans, só que em linhas improvisadas totalmente novas, jamais ouvidas antes.

Ao anunciar o que tocaria nos medleys,  Michel confessa que, depois de saber, na palestra que recém ouvira, que era a jovem namorada Laurie quem levava cocaína a Evans em seus últimos dias, não estar mais tão convicto do acerto de sua opção por tocar a música que lhe rende homenagem. Felizmente, Michel tocou a belíssima balada Laurie. Até por que deixar de tocá-la por tal razão seria mais ou menos como deixar de escutar Gesualdo por causa de sua singular biografia. Acho eu.

Foi atendendo à solicitação unânime de um bis, no entanto, que Michel empreendeu sua maior aventura naquela noite. Aquela na qual aceitou correr os maiores riscos,  ao improvisar sobre um tema que considerava particularmente difícil e desafiador – a saber, My Bells, tocado por Evans ao final do da entrevista/documentário concedida a seu irmão.

Ao final, fiz questão de dizer ao pianista do prazer e do privilégio de ouvi-lo tocar um repertório tão exponencial num bom instrumento para uma audiência atenta e silenciosa – fato raro no âmbito do jazz e da música popular em geral.

E como costuma dizer o Milton ao fim das crônicas de tantos concertos, voltei para casa faceiro.

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*) Quem bem lembrou que a Jovem Guarda já era, muito antes do rock brasileiro, uma imitação barata de um um modelo estrangeiro, foi Karlos Kulpa.

Por que o capitalismo cria empregos sem sentido (Why capitalism creates pointless jobs), por David Graeber

Em 1930, John Maynard Keynes previu que, pelo final do século, a tecnologia teria avançado tanto que países como  a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos teriam uma semana de trabalho de 15 horas. Há muitas razões para se acreditar que ele estivesse certo. Em termos tecnológicos, somos quase capazes disto. Ainda assim, não aconteceu. Ao invés, a tecnologia se organizou, quando muito, para encontrar meios de fazer todos nós trabalharmos mais. Para tanto, tiveram que ser criados empregos sem qualquer propósito. Enormes quantidades de pessoas, na Europa e na América do Norte em particular, passam suas vidas inteiras de trabalho executando tarefas que secretamente acreditam que realmente não precisam ser realizadas. O dano moral e espiritual decorrente desta situação é profundo. É uma cicatriz que atravessa nossa alma coletiva. Ainda assim virtualmente ninguém fala disto.

Por que a utopia prometida por Keynes – ansiosamente aguardada até meados dos anos 60 – não se materializou ? A resposta padrão de hoje é que ele não previu o crescimento maciço do consumismo. Dada a opção entre, de um lado, menos horas trabalhadas ou, de outro, mais brinquedos e prazeres, coletivamente escolhemos a última. Isto constitui um belo conto moral, mas mesmo uma ligeira reflexão mostra que o mesmo não pode ser verdade. Sim, testemunhamos a criação de uma variedade infinita de novos trabalhos e indústrias desde os anos 20, mas pouquíssimos tem qualquer coisa a ver com a produção e a distribuição de sushi, iPhones ou tênis estilosos.

O que são, então, precisamente estes novos trabalhos ? Um estudo recente comparando o emprego nos EUA entre 1910 e 2000 esboça um quadro claro (e, cabe notar, um precisamente detectado também no Reino Unido). Ao longo do último século, o número de trabalhadores empregados como serviçais domésticos, na indústria e no setor agrícola caiu dramaticamente. Ao mesmo tempo, ” trabalhadores profissionais, administrativos, de escritório, de vendas e serviços “ triplicaram, crescendo de um quarto para três quartos do total de empregados. Noutras palavras, trabalhos produtivos foram, como previsto, automatizados em grande parte (mesmo se contarmos trabalhadores industriais mundo afora, incluindo as massas trabalhadoras na Índia e na China, tais trabalhadores não chegam perto da grande percentagem da população mundial que costumavam ser).

Mas ao invés de permitir uma redução maciça de horas de trabalho para liberar a população mundial para perseguir seus próprios projetos, visões e ideias, vimos a ascensão não somente do setor de “serviços” como também do administrativo, incluindo a criação de indústrias totalmente novas como a de serviços financeiros, o telemarketing ou a expansão sem precedentes de setores como o direito corporativo, administração acadêmica e de saúde, recursos humanos e relações públicas. E estes números nem ao menos refletem todas as pessoas cujo trabalho é prover suporte administrativo, técnico ou de segurança para estas indústrias, ou o grande hospedeiro de indústrias acessórias (como cuidadores de cães ou entrega de pizza 24 horas) que existem só por que todos os demais gastam tanto de seu tempo de trabalho com outras ocupações.

É a isto que proponho chamar de bullshit jobs. [numa tradução licensiosa, “trabalhos de merda”]

É como se alguém estivesse lá desempenhando trabalhos sem sentido tão somente para que todos permaneçam trabalhando. E aqui, precisamente, está o mistério. No capitalismo, isto é precisamente o que não deve acontecer. Certamente, nos velhos estados socialistas ineficientes como a União Soviética, onde o emprego era considerado tanto um direito como um dever sagrado, o sistema criou tantos empregos quanto foi preciso (é por isto que numa loja soviética são necessários três vendedores para vender um pedaço de carne). Só que, é claro, este é exatamente o tipo de problema que a competição de mercado pretende resolver. De acordo com a teoria econômica, ao menos, a última coisa que uma empresa lucrativa fará é queimar dinheiro contratando empregados dos quais não precisa. Ainda assim, de algum modo isto acontece.

Quando empresas promovem reduções cruéis, as demissões e realocações invariavelmente recaem sobre a classe de pessoas que realmente produzem, movimentam, consertam ou conservam coisas; através de uma estranha alquimia que ninguém pode explicar, o número de “circuladores de papéis” assalariados em última análise parece se expandir, e mais e mais empregados, na verdade como na União Soviética, se vem trabalhando em jornadas semanais de 40 ou mesmo 50 horas – ainda que, efetivamente, trabalhando apenas 15 horas, exatamente como Keynes previu, já que o restante de seu tempo é passado organizando ou frequentando seminários motivacionais, atualizando seus perfis no facebook ou baixando séries de TV.

A resposta claramente não é econômica: é moral e política. A classe dominante descobriu que uma população feliz e produtiva com tempo livre em suas mãos é um perigo mortal (pensem no que começou a acontecer quando mal nos aproximamos disto nos anos 60). E, de outro lado, o sentimento de que o trabalho é um valor moral em si, e que qualquer um que não deseje se submeter a algum tipo de disciplina intensa de trabalho durante a maior parte de seu tempo acordado não merece nada, é extraordinariamente conveniente a ela.

Certa vez, ao contemplar o aparentemente infinito crescimento de responsabilidades administrativas em departamentos acadêmicos britânicos, me ocorreu uma possível visão do inferno. O inferno é uma coleção de indivíduos que passam a maior parte de seu tempo de trabalho em tarefas das quais não gostam e nas quais não são particularmente bons. Suponhamos que eles tenham sido contratados por serem excelente marceneiros, e estão descobrem que terão que passar a maior parte de seu tempo fritando peixes. Tampouco a tarefa precisa ser realizada – pois há um número bastante limitado de peixes que precisam ser fritos. Ainda assim se tornam, de algum modo, tão obcecados com ressentimento ante a ideia de que alguns colegas possam estar passando mais tempo trabalhando em madeira ao invés de desempenharem sua cota justa de responsabilidade pela fritura dos peixes, que logo haverá pilhas imensas de peixe mas cozido inútil por toda a oficina e isto é tudo o que alguém fez. Acho que isto é realmente um descrição bem exata da dinâmica moral de nossa economia.

Percebo, no entanto, que tal argumento enfrentará objeções imediatas: ” – Quem é você para dizer quais trabalhos são realmente ‘necessários’ ? O que é, afinal, necessário ? Você é um professor de antropologia, qual a necessidade disto ? “ (com efeito, muitos leitores de tabloides tomarão a existência de meu trabalho como a própria definição de gasto social inútil). Em certo sentido, isto é obviamente verdade. Pois não pode haver qualquer medida objetiva de valor social.

Não pretendo dizer a alguém que está convencido de estar dando uma contribuição significativa ao mundo que, na verdade, não está. Mas e aquelas pessoas que estão elas próprias convencidas de que seu trabalho não tem qualquer sentido ? Há pouco tempo retomei contato com um amigo de escola que eu não via desde quando tinha 12 anos. Me surpreendi ao descobrir que, no ínterim, ele se tornou primeiro um poeta, depois o líder de uma banda de rock indie. Ouvi algumas de suas canções no rádio não tendo qualquer ideia de que o cantor fosse alguém que eu conhecia. Ele era obviamente brilhante, inovador, e seu trabalho inquestionavelmente iluminou e aprimorou as vidas de pessoas em todo o mundo. Entretanto, depois de um par de álbuns sem sucesso, perdeu seu contrato, e acossado por dívidas e uma filha recém-nascida, terminou, como disse, ” abraçando a escolha default de tantos caras sem direção: a escola de direito. “ Agora ele é um advogado corporativo trabalhando numa firma importante de Nova Iorque. Ele foi o primeiro a admitir que seu trabalho era completamente sem sentido, em nada contribuindo para o mundo e, em sua avaliação, sequer deveria existir.

Há muitas questões que alguém pode perguntar aqui – a começar por ” – O que diz sobre nossa sociedade o fato de que ela parece gerar uma demanda extremamente limitada por músicos-poetas talentosos, mas um demanda aparentemente infinita por especialistas em direito corporativo ? “ (resposta: se 1% da população controla a maior parte da riqueza existente, o que chamamos “mercado” reflete o que eles, e ninguém mais, pensam que é útil). Também mostra que a maioria das pessoas nesses trabalhos está consciente disto. Na verdade, não sei se alguma vez encontrei um advogado corporativo que não pensasse que seu trabalho fosse bullshit. O mesmo vale para a maioria das indústrias esboçadas acima. Há toda uma classe de profissionais assalariados que, se você os encontrar em festas e admitir que faz algo que possa ser considerado interessante (como no caso de um antropólogo, por exemplo), tentará evitar completamente discutir sua linha de trabalho. Depois, todavia, de alguns drinques, virá com tiradas sobre o quão sem sentido e estúpido seus trabalho realmente é.

Há aqui uma profunda violência psicológica. Como pode alguém sequer começar a falar sobre dignidade no trabalho quando, secretamente, sente que seu trabalho não deveria existir ? Como pode isto não criar uma sensação profunda de raiva e ressentimento ? Ainda assim, é da natureza peculiar de nossa sociedade que seus líderes tenham descoberto uma forma, como no caso dor fritadores de peixe, de garantir que a raiva seja direcionada precisamente contra aqueles que realmente consigam realizar trabalho com algum sentido. Por exemplo: em nossa sociedade, parece uma regra geral que, quanto mais obviamente o trabalho de alguém beneficie a outros, menos é provável que esse alguém receba algum pagamento por ele. Novamente, uma medida objetiva é difícil de encontrar, mas um modo fácil de se ter uma ideia é perguntar o que aconteceria se esta classe de pessoas simplesmente desaparecesse. Digam o que quiser sobre enfermeiras, lixeiros ou mecânicos, é óbvio que se desaparecessem num piscar de olhos os resultados seriam imediatos e catastróficos. Um mundo sem professores ou estivadores logo teria problemas, e mesmo um sem escritores de ficção científica ou músicos de ska seria claramente um lugar inferior. Não está inteiramente claro, no entanto, como a humanidade sofreria se todos os executivos financeiros, corretores, lobistas, pesquisadores de mercado, atuários, operadores de telemarketing, oficiais de justiça e consultores legais deixassem de existir (com efeito, muitos suspeitam que o mundo melhoraria muito). Salvo por um punhado de bem conhecidas exceções (como médicos), a regra se confirma surpreendentemente bem.

Ainda mais perverso, parece haver um consenso amplo de que este é o modo como as coisas devem ser. Este é um dos segredos do populismo de direita. Que pode ser constatado quando tablóides promovem ressentimento contra trabalhadores de metrô por paralisarem Londres durante conflitos trabalhistas. Ora, o simples fato de que metroviários podem paralisar Londres mostra que seu trabalho é realmente necessário. Mas isto é precisamente o que perturba as pessoas. Isto é ainda mais claro nos EUA, onde republicanos tiveram notável sucesso ao mobilizar ressentimento contra professores de escolas ou trabalhadores automotivos (e não, significativamente, contra administradores de escolas ou executivos da indústria automobilística que realmente causam os problemas) por seus salários supostamente inchados e benefícios. É como se dissessem ” – Mas vocês ensinam crianças ! Ou fazem carros ! Vocês precisam ter empregos de verdade ! E com tudo isto vocês ainda tem o desplante de esperar pensões de classe média e seguro saúde ? “

Se alguém tivesse concebido um regime de trabalho perfeitamente apropriado para manter o poder do capital financeiro, é difícil imaginar como poderiam ter feito um trabalho melhor. Trabalhadores reais, produtivos, são implacavelmente espremidos e explorados. O restante é dividido entre uma camada aterrorizada, universalmente insultada, de desempregados e uma camada maior que é basicamente paga para não fazer nada, em posições projetadas para que se sintam identificadas com as perspectivas e as sensibilidades da classe dominante (gerentes, administradores, etc.) – e particulamente seus avatares financeiros – mas, ao mesmo tempo, adota um ressentimento requentado contra qualquer um cujo trabalho tenha claro e inegável valor social.  É claro que este sistema nunca foi deliberadamente projetado, tendo emergido de quase um século de tentativas e erros. Mas é a única explicação de por que, apesar de nossas capacidades tecnológicas, não estamos todos trabalhando entre 3 e 4 horas por dia.

Publicado originalmente em Strike (8/2013) e Evonomics (9/2016)

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David Graeber é professor de antropologia na London School of Economics. É o autor de The Utopia of Rules, and Debt: The First 5,000 Years. No Twitter, é @davidgraeber