A Mula (2019), de e com Clint Eastwood, e uma reflexão sobre a moralidade dos tempos

A Mula (2019) é um daqueles filmes de resistência em que um Clint Eastwood em idade extremamente avançada (está com 88 anos) teima em mostrar um virtuosismo maior do que muitos atores e diretores bem mais jovens do que ele. A personagem até que ajuda: um idoso decadente que, ao longo dos 115 minutos de projeção, vai recuperando sua autoestima tão prejudicada por meio de uma atividade pouco ortodoxa, tão lucrativa quanto perigosa, a saber, a de mula no tráfico de drogas.

Antes de ver o filme, é quase impossível não se especular sobre como Eastwood, costumeiramente um herói com o qual todos gostamos de nos identificar, acaba enredado com uma organização criminosa execrada, ao menos abertamente, por qualquer persona pública nos dias que correm. Ficamos intrigados pelo tipo de malabarismo moral que seria capaz de levar um cara de princípios, veterano da Guerra da Coreia, a se envolver com aquela corja de frios psicopatas. A resposta vem logo nas primeiras cenas: Earl, o simpático plantador de lírios falido vivido por Eastwood, entra no negócio meio na inocência, sem se dar conta, inicialmente, daquilo com o que estava se envolvendo.

Dados os ostensivos indícios (como, por exemplo, a arma portada por um dos traficantes na garagem em que vai buscar a primeira encomenda), pode parecer meio forçado para o espectador que Earl não perceba prontamente a roubada em que estava prestes a se meter. Exatamente nisto reside um dos grandes méritos da interpretação de Eastwood que, tendo já vivido nas telas tantos heróis sagazes e oniscientes, faz magistralmente o papel do velho que, contra tudo o que as evidências sugerem, embarca naquilo com uma credulidade e boa fé que só um grande ator poderia aparentar. A inocência quase simplória da personagem é também responsável por momentos hilários nos quais Earl desafia para embates psicopatas que poderiam liquidá-lo num piscar de olhos, mas que só não o fazem por que parceiros mais frios, calculistas, que melhor percebem a vantagem do refinado disfarce daquela mula, os impedem.

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Outro aspecto, mais sutil, da trama de A Mula é o olhar, senão benevolente ao menos complacente, para com uma atividade específica da cadeia produtiva da indústria das drogas, a saber, o transporte de um lugar a outro de grandes quantidades de substâncias ilícitas, outrossim execrada como socialmente nociva na atual política hegemônica de war on drugs. O fora-da-lei retratado com simpatia não é nenhuma novidade na filmografia de Eastwood. Ao contrário, a figura do justiceiro implacável, que age às margens das regras do jogo, é a base de personagens como Dirty Harry, do herói da trilogia de Sérgio Leone ou de tantos outros com licença para matar, sempre em luta contra a corrupção policial (tema recorrente em filmes de ação), a lei dos mais fortes (praticamente um leitmotiv em westerns) ou ameaças comunistas e totalitárias ao “mundo livre”.

O fato novo, ao menos em filmes de Eastwood, é a relativização da maldade inerente a tudo o que diga respeito ao tráfico de drogas. Longe de mim, aqui, querer fazer apologia de práticas inquestionavelmente associadas a grande parte da violência social em que estamos imersos. Vale, no entanto, lembrar que

1) a supervalorização da habilidade de mulas competentes, capazes de transportar quantidades significativas de substâncias ilícitas de um lugar a outro sem maiores percalços, decorre da criminalização de seu consumo, comércio e distribuição; numa economia em que estas atividades fossem legalizadas e regulamentadas, não só o tratamento de danos colaterais ao uso abusivo seria facilitado mas também a atividade das mulas tenderia a patamares de risco (e, consequentemente, preço) equivalentes aos do transporte de drogas lícitas como, por exemplo, cigarros e medicamentos que, ainda que constituam cargas visadas pela alta relação entre valor e peso, representam riscos bem menores e, portanto, mais manejáveis; e

2) segundo David Graeber, em seu monumental Dívida: os primeiros 5000 anos, frequentemente citado por aqui (O quê ? Uma citação econômico-histórica de um antropólogo numa suposta resenha cinematográfica ? Altamente pertinente, em nossa opinião), ” […] o sistema de mercado mundial iniciado pelos impérios espanhol e português surgiu por causa da busca de especiarias. Logo ele se estabeleceu em três ramos mais amplos, que podem ser classificados como o comércio de armas, o comércio de escravos e o comércio de drogas. Este último se refere principalmente a drogas leves, é claro, como café, chá e açúcar para adoçar essas bebidas, além do tabaco, mas os destilados também surgiram nesse estágio da história humana, e, como sabemos, os europeus não tiveram escrúpulo nenhum em relação ao agressivo comércio de ópio na China como forma de eliminar a necessidade de exportar lingotes. O comércio de tecidos veio só mais tarde […] “

Dá o que pensar, não ? No entanto, em nome da concisão, ficamos por aqui, com a noção de Clint Eastwood não só como um velhinho dono de uma vitalidade invejável mas, também, plenamente ciente de que a moral de cada época é condicionada, acima de tudo, por imperativos econômicos.

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A Outra Mulher (França, 2018)

No último domingo assistimos, Astrid e eu, a um forte candidato ao título de pior filme de 2018 – a saber, Amoreux de ma femme, de Daniel Auteuil, lastimavelmente traduzido como A Outra Mulher.

Dirigido pelo próprio protagonista, a comédia começa bem, num hilário jantar com dois casais, organizado por dois amigos e realizado à revelia da esposa de um deles, amiga daquela de quem o outro recém se divorciara, no qual o anfitrião tenta em vão disfarçar seu avassalador encantamento pela nova namorada do outro. Enquanto entretenimento, até aí tudo bem. Boas risadas garantidas.

A coisa se complica ao se iniciar um previsível (logo entenderão por que) vai-vém entre fantasia (o improvável idílio de um dos amigos com a namorada do outro) e a realidade de seu amor por sua esposa. Já vi vários filmes assim, nos quais uma situação retratada com cores realistas, como só o cinema é capaz (vá lá, a literatura também), acaba por se revelar totalmente fantasiosa.

Dramaticamente, isto funciona uma única vez em cada obra. Se, no entanto, a alternância entre as duas situações, fantasia e realidade, se repete, é como querer que se ria de uma mesma piada várias vezes, mais ou menos como se alguém dissesse: ” Não entendeu ? Peraí que vou contar de novo de outro jeito que é prá ver se você entende. “ Ora, nenhum contador de piadas alcançaria qualquer êxito procedendo desta forma. Ainda assim, é o que o ator/diretor faz insistentemente em seu patético filme. Neste contexto, de nada adiantam os exuberantes cenários em Paris, Veneza e Ibiza (sim, a produção deve ter sido bem cara) para sustentar o interesse de espectadores mais exigentes.

Soube de outras críticas desfavoráveis ao filme, tendo a ver mais com a rasura das personagens (feministas ficaram, com razão, irritadíssimas) – pelas quais não tive, no entanto, a menor curiosidade. Para quem quiser, o Google está aí.

Saí do cinema pensando no que faz um ator consagrado como Auteuil manchar sua biografia assinando a direção de uma coisa assim.

 

Moonrise Kingdom (2012), de Wes Anderson

Por mais óbvio que soe, não custa repercutir a ideia de que o cinema, assim como a música e a literatura, consiste num manancial praticamente inesgotável de tesouros – os quais, todavia, precisam ser pacientemente garimpados num imenso limbo de conteúdos irrelevantes cujo mérito não passa de distrair nossa atenção (daí a denominação do abominável segmento do entretenimento) tão somente até os relegarmos ao esquecimento e/ou indiferença. É por esta razão que se, ao acordar, sigo marcado por algum filme que vi no dia anterior, considero o mesmo digno de uma recomendação. Deste modo, o presente post poderia bem ser chamado de Razões para se assistir a Moonrise Kingdom (2012), de Wes Anderson.

Quando, depois de um final de semana preguiçoso, em que os lançamentos  em cartaz não ofereciam estímulo suficiente para que abandonássemos o conforto do sofá para nos dirigirmos a alguma sala de projeção, e à meia-noite de domingo, quando tudo já parecia perdido (nessas horas sempre lembro a máxima de Les Luthiers “cultura para todos, en su horario habitual de las tres de la mañana”), foi absolutamente por acaso que topei com esta obra-prima que me fez vencer o sono e a disposição de dormir cedo para melhor encarar a semana que inicia.

O filme me agarrou do primeiro ao último minuto, para o que contribuíram fatores tais como a fotografia exuberante, evocando os matizes saturados do já obsoleto Technicolor; a fascinante temática do amor juvenil; o super elenco, com, entre outros, Bruce Willis, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton (a anciã em Doutor Estranho) e Harvey Keitel – isto sem falar dos jovens e, portanto, ainda desconhecidos protagonistas Jared Gilman e Kara Hayward; e, last but not least, a música de Benjamin Britten (The Young Person’s Guide to the Orchestra, Op. 34, por Leonard Bernstein).

Cinéfilo casual, fui dormir ainda sem saber nada sobre o diretor. Foi só hoje, ao acordar e graças ao valioso auxílio da wikipedia (não entendo o desprestígio do qual ainda desfruta, junto a alguns, o gigantesco repositório colaborativo de conhecimento), que soube se tratar do mesmo realizador de Os Excêntricos Tenenbaums (2001) e O Grande Hotel Budapeste (2014). Voilá. Estava assim a obra recém vista devidamente inserida numa filmografia – definida, entre outros, pelas imagens exuberantes, narrativa esquemática (com tudo explicado nos mínimos detalhes (vale conferir, na supracitada wikipedia, os livros e mapas fictícios criados para dar verossimilhança à história) ) e personagens tão caricatos quanto adoráveis. Trata-se de um cinema anti-realista, sem sombras nem lacunas narrativas a serem preenchidas pelo espectador. É como se, ao invés de estarmos assistindo a um filme, lêssemos um livro no qual cada detalhe é minuciosamente explícito. Noutras palavras, um deleite para aqueles com pouca paciência para com obras abertas (como, por exemplo, apreciadores de boas narrativas policiais, nas quais tudo deve ser univocamente explicado no último instante e jamais antes disto).

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É bem interessante se especular sobre a influência deste ou daquele artista sobre os demais. Ainda é cedo para se ponderar até que ponto o cinema de Anderson, relativamente jovem (nascido em 1969 e tendo estreado com um curta-metragem em 1994) afetará os filmes de outros. O que já é, no entanto, patente, é a enorme influência exercida pelos irmãos Joel e Ethan Coen sobre o cinema norte-americano. Mais. Vários filmes inequivocamente influenciados pelos irmãos Coen tem como marca a participação destacada de quem, de um modo ou de outro, é central à sua filmografia ou mesmo a suas biografias. Assim, o estilo dos Coen (que pode ser grosseiramente sintetizado como comédia do absurdo) é facilmente identificável, por exemplo, em duas obras alternativas (i.e., ao contrário da maioria das produções do cinemão de Hollywood, de baixo orçamento e sem grandes efeitos especiais) que ganharam as telas no ano passado – a saber, Suburbicon e Três Anúncios para um Crime, as quais permaneceram, infelizmente, pouquíssimo tempo em cartaz. Não deve ser por acaso que o primeiro foi dirigido por George Clooney – protagonista de Queime depois de ler (2008), dos irmãos Coen – e o segundo estrelado por Frances McDormand, musa dos filmes de Coen e esposa de um deles, Joel, oscarizada em 2018..

Como nos filmes dos Coen, tanto o enquadramento como a voz narrativa em Moonrise Kingdom conspiram para que o espectador deixe de viver cada cena para, ao invés, espreitá-las. Se isto, na história recente da arte cinematográfica, não se tratar de um fato novo, é, pelo menos, inegavelmente um atributo ausente de todo mainstream.

Wes Anderson

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Dito isto, se você ainda não viu Moonrise Kingdom e, depois de ler este texto, tiver vontade de vê-lo, o mesmo terá cumprido seu objetivo.

 

Rachel Weisz e Madalina Diana Ghenea em A Juventude (Itália, 2015)

Ontem, quando foi divulgada minha resenha do filme A Juventude, estranhei muito o recorde histórico de visitação a meu blog até as 12 horas e a duplicação do mesmo até o fim do dia. Considerei, inicialmente, a possibilidade de alguma reconfiguração de rede ou então, como raramente falo sobre cinema, que talvez houvesse um surto de interesse pelo o tema. Meu amigo e, de uns anos para cá, também editor Milton preferiu atribuir, no entanto, o pico de visitação a fatores como (1) uma rejeição generalizada a tudo o que tenha a ver com impeachment, citando, em favor de sua tese, a grande e atípica audiência de seu post sobre Cervantes; (2) o aumento na frequência de atualização de meu blog ou ainda, muito provavelmente, (3) a imagem de Madalina Diana Ghenea nua que foi usada em sua divulgação.

Foi como um balde de água fria. Tive que reconhecer, de pronto, que parte considerável dos que pensava terem lido minha crítica talvez só tenham aberto a página a procura de mais imagens como a usada em sua divulgação. Face a isto, decidi fazer um experimento, a saber, anunciar, junto com mais fotos da bela romena e outras da não menos espetacular Rachel Weisz, um video (isso mesmo !), facilmente encontrado, da antológica cena da piscina.

Só que, para realizar o supracitado teste, precisava falar mais sobre o filme cuja resenha já publicara. Mas, ora, é muito mais fácil tornar a falar de alguns filmes (ou livros, ou músicas…) do que escrever sequer um parágrafo sobre outros. Então, complementando o que já havia dito, decidi falar sobre algumas mulheres notáveis do elenco de A Juventude que ostensivamente ignorara quando de minha abordagem inicial sobre o filme

A propósito de tão gritante omissão, cabe lembrar que amigos se divertem até hoje com o fato de eu ter uma vez revelado não saber que Nara Leão estava morta. Com o tempo, passaram a dizer que eu também achava que Derci Gonçalves estivesse viva. Brincadeiras a parte, tenho real dificuldade em lembrar de notáveis que já se foram ou que ainda estão entre nós. Não que não leia obituários. Ao contrário.

Tendo, pois , passado batido, ao longo de minhas primeiras impressões sobre o filme, sobre atuações e aparições monumentais que eu sequer houvera notado, venho, com este post, procurar reparar a omissão. Lembro de ter falado aqui que só depois de postar a primeira resenha vim a saber quem é Madalina Ghenea. Pois bem. Além de também não ter notado que a filha de Caine era interpretada por Rachel Weisz e a violinista da cena final era ninguém menos do que Viktoria Mullova, sequer sabia da existência de um soprano chamado Sumi Jo. Mais por fora, portanto, do que Glória Pires comentando a entrega do Oscar.

Curiosamente, a única das mulheres notáveis acima cujas imagens no filme de Sorrentino não encontrei na web foi Mullova. Suponho, pois, que tenham sido restritas por alguma cláusula contratual. Dentre as fotos que encontrei, as que mais chamam a atenção são as seguintes:

youth 24youth 7youth 11youth 9youth 2youth 6youth 8youth 4youth 5youth 20Rachel Weisz as “Lena” in YOUTH. Photo courtesy of Fox Searchlight Pictures. © 2015 Twentieth Century Fox Film Corporation All Rights Reservedyouth 15youth 19youth 13youth 18* * *

Quando da primeira parte desta resenha em aberto, estranharam que eu não houvesse falado no maestro (perfeitamente !) vivido por Michael Caine. Sobre isto, sigo sem saber o que dizer. Ah: já ia me esquecendo do video que prometi. Ei-lo:

 

A Juventude (Itália, 2015)

youth 1Como fazemos, Astrid e eu, a cada quinze dias, vimos, neste final de semana, três bons filmes. Para ser mais exato, um bom (Asterix e o Domínio dos Deuses), um ótimo (A Senhora da Van) e um extraordinário (A Juventude). Impossível, pois, não falar do terceiro.

Confesso que só depois de pesquisar sobre o até então desconhecido para mim diretor italiano Paolo Sorrentino descobri se tratar de ninguém mais ninguém menos do que o realizador do também excepcional A Grande Beleza (2013). Meus sentidos não me enganaram. A belíssima fotografia ombreia com a dos mais oníricos filmes de Peter Greenaway. Num roteiro de tirar o fôlego, diálogos memoráveis. Mínimos. Essenciais. Reflexões sobre a arte, a memória, percursos criativos individuais, a primazia atual da televisão sobre o cinema e afins.

Todos esses diálogos são mantidos entre personagens fascinantes recolhidos, como hóspedes, num luxuoso spa nos alpes suíços, longe de toda civilização. Um diretor de cinema e um compositor e maestro aposentados. Um jovem ator compondo seu próximo papel. Uma Miss Universo. Um casal de hóspedes misterioso porquanto lacônico. Uma menina mais perspicaz do que os adultos ao seu redor. A filha do maestro e o filho do cineasta, ambos em processo de separação. Uma celebridade pop, nova namorada do filho do cineasta. Os próprio staff do spa, incluindo um alpinista, uma massagista, um médico e uma prostituta.

youth 2Notem que A Juventude, juntamente com 45 Anos (2015) e A Senhora da Van (2015), pertence a uma tendência recente de propiciar a atores veteranos grandes solos como protagonistas. Pois os três títulos supracitados perderiam parte substancial de seu brilho não fossem as atuações memoráveis de Michael Caine, Maggie Smith e Charlotte Rampling, respectivamente. O mesmo se pode dizer de Peter O’Toole em Vênus (2006). Sem falar em atuações magistrais nesses filmes, como coadjuvantes ou em breves aparições, de monstros como Harvey Keitel, Jane Fonda ou Vanessa Redgrave. Que bom que o cinema não vira as costas para velhos astros. Pois sinto pena de caras como, por exemplo, Donald Sutherland em episódios da série Jogos Vorazes. Do mesmo modo, seria imensamente triste se Caine se aposentasse apenas como o patético mordomo Alfred, do Batman.

Junto com a primorosa fotografia, outro elemento importante em A Juventude é sua trilha sonora. A começar pelo silêncio, reinante na atmosfera alpina, que chega a evocar (me permitam a licença) a clínica em que se desenrola a história das mais de 700 páginas de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. A música composta por David Lang para o filme é uma das melhores ouvidas no cinema nos últimos anos – assumindo, na cena final, um protagonismo equivalente, a nosso ver, ao da partitura de Bernard Herrmann para O Terceiro Tiro, de Hitchcock. Outro grande momento é quando Caine, num cenário bucólico, “rege” uma memorável pastoral. Me esforço, aqui, para evitar o spoiler.

Se fosse, no entanto, para resumir a genialidade do diretor numa única cena ou situação, eu escolheria de pronto o modo como é mostrada, por meios exclusivamente visuais, a condição, vaticinada pelo apático personagem de Caine, de mediocridade da celebridade pop de quem seu ex-genro se enamora – a saber, por meio de um plástico e gritante videoclip, misturando sugestão erótica, explosões e carros velozes, que interrompe abruptamente, depois de um fade-out e no que posteriormente se revela ser um pesadelo, a poética visual já estabelecida do filme. É a TV invadindo o cinema. Toque de mestre absoluto.

Aguardamos avidamente, então, a próxima aventura de um diretor cujo nome dificilmente esqueceremos: Paolo Sorrentino. O nome de massa deve ajudar a memória.

A propósito do Homem Formiga

Homem Formiga 4

Dentre as melhores coisas das férias escolares está certamente cada nova safra de filmes voltados aos pequenos. Tem para todos os gostos. De sagas como as de Harry Potter ou do Senhor dos Anéis a clássicos de animação da Pixar ou da Dream Works. Conforme crescem, começam a desenvolver (os pequenos) preferências bem específicas. Arthur se encontra nesta fase. De sorte que sou entusiasticamente convidado para estreias de cada distopia (um de seus sub-gêneros favoritos, que inclui blockbusters como Maze Runner e a série Jogos Vorazes) ou novo filme da Marvel ou da DC comics.

Neste contexto, fui conhecer, anteontem, o novo herói da Marvel. Novo ? Isto mesmo – pois, como me informou Arthur, o Homem Formiga, ao contrário de predecessores como o Homem Aranha, os Vingadores ou o Quarteto Fantástico, só foi lançado pela marca de Stan Lee há poucos anos atrás. O que faz dele, senão o primeiro, ao menos o mais proeminente protagonista criado pelo mago dos comic books depois do advento da internet. Poderia ficar só nisso. Mas não. O homem que veste a fabulosa armadura miniaturizante (notem que a ideia, longe de ser original, já costurava a narrativa em seriados como Viagem Fantástica ou Terra de Gigantes) não é, como Peter Parker, Tony Stark ou o Homem Elástico (isto é novo!), um “homem de bem”, seja ele estudante ou cientista brilhante ou, simplesmente, um milionário.

O escolhido pelo criador do poderoso traje (a personagem vivida por Michael Douglas) é, ao contrário de todo herói da Marvel anterior a ele, um fora da lei. Um hacker que, assim como seus simpáticos ex-colegas presidiários, jamais infligiu maus tratos a qualquer ser humano, tendo sido recluso exclusivamente por roubar dos mais ricos (o grande capital corporativo, neste caso) para distribuir aos mais pobres. Relativizando e banalizando, portanto, um ataque, até então condenável, à propriedade, numa perfeita reedição do mito de Robin Hood – que, respeitadas as nuances de cada época, fazia rigorosamente o mesmo.

Isto importa ? Acho que sim. De que maneira ? Ainda não sei muito bem. Nem estou, aliás, preocupado com isto – já que a história do homem que encolhia ainda será muito comentada – a começar por prometer, na sequência (e não sei com que grau de ineditismo), um verdadeiro filé psicanalítico, a saber, a heroína convocada pelo próprio pai a assumir o lugar da mãe. Duvido que qualquer lacaniano que se preze resista a isto.

Evangeline Lilly 3