Arlequim, de Karlheinz Stockhausen (1928-2007), por Paula Pires, clarinetista

Tive o prazer e o privilégio de assistir, na última quinta-feira, a  uma performance do Arlequim, de Karlheinz Stockhausen (1928-2007), pela clarinetista Paula Pires. Não vou me deter, aqui, em peculiaridades da obra (que são muitas) nem tampouco na contextualização de sua criação e estreia,  até por que o público alvo deste post, tão escasso quanto o que esteve presente naquela apresentação ou, de resto, o de qualquer outra obra do compositor, é presumivelmente familiarizado com sua linguagem, a qual pode ser chamada de tudo menos de convidativa (ao menos aos ouvidos da maioria).

Explico. Stockhausen foi uma das figuras centrais do movimento conhecido com Escola de Darmstadt que, a partir da metade do século 20, desafiou tudo o que era estabelecido em termos de composição musical, por isto mesmo abrindo mão da obrigatoriedade de uma comunicação fácil com o público – fortemente, esta, dependente de uma certa repetitividade que dominou toda a música anteriormente composta. Resumidamente, Stockhausen poderia ser, então, descrito, para desespero de musicólogos e ouvintes mais… “especializados”, como um compositor hermético.

Como eu já disse, o público que afluiu à raríssima execução do Arlequim, na semana passada, no Instituto Goethe de Porto Alegre, foi, pela razão acima sumariada, minúsculo. Estimo que entre 10 e 20 pessoas, na maioria participantes do Primeiro Festival Internacional de Clarinetistas de Porto Alegre, de cuja programação a performance de Paula fazia parte. Por que insisto tanto nisto – a saber, na atribuição do rótulo “música para poucos” ao Arlequim ?

Contrariamente ao que parece, não vai aí qualquer reprovação ao hábito do público médio frequentador de concertos, que teima em privilegiar a mesmice em detrimento de tudo o que lhe é estranho – deixando, com isto, numa sinuca programadores de espetáculos que precisam se justificar perante apoiadores com casas lotadas. Se enfatizo o pouco apelo da obra ao ouvinte médio é, pois, tão somente para não deixar qualquer dúvida sobre o fato de que o caráter sublime de um gesto artístico independe de seu apelo popular – estando, não raro, em franca oposição ao mesmo.

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Toco em concertos sinfônicos várias vezes ao mês. Com frequência um pouco menor (hoje bem menos do que antes), assisto a outras apresentações musicais. Mas se me perguntarem o que toquei ou ouvi ao longo dos últimos anos ou décadas, é bem provável que já tenha me esquecido de grande parte deste oceano musical (afortunadamente, muitas vezes).

Este certamente não foi o caso do que vi, ouvi e senti naquela noite no Instituto Goethe. Pois o Arlequim de Stockhausen é muito mais do que uma música  no sentido restrito, isto é, existente apenas enquanto uma partitura que, para ganhar vida, deve ser tocada por um músico ou conjunto de músicos. Sim, a partitura existe. Mas termina aí qualquer semelhança com tudo o que eu já ouvira antes.

Primeiro, é claro, por que a música do Arlequim deve ser executada em perfeita coordenação com movimentos coreográficos executados pelo clarinetista segundo especificações minuciosas do compositor. Ora, isto não é pouca coisa, uma vez que músicos são normalmente treinados para executar seus instrumentos em configurações estáticas, sentados ou em pé, ocupando um espaço limitado, como num cockpit. Depois, por que, em decorrência deste acúmulo atípico de funções (no ballet, por exemplo, músicos tocam enquanto bailarinos dançam), a complexa partitura deve ser totalmente memorizada pelo músico.

Céticos hão de dizer, aqui, que solistas de concertos estão habituados a tocar “de memória”. Me atrevo, no entanto, a supor ser muito mais fácil memorizar, de um lado, uma obra em formas tradicionais, com seções claramente delimitadas e um “texto” previamente fixado e exaustivamente ouvido, ao vivo e em gravações, do que, de outro, uma peça com espaço para improvisação controlada e sem a profusão de “ganchos” métricos e tonais peculiares ao repertório de concerto mainstream, nos quais tanto intérpretes como ouvintes invariavelmente se apoiam.

Tudo isto faz do Arlequim de Stockhausen nem música pura nem tampouco incidental. Sua concepção, por assim dizer, holística do intérprete é algo, senão único, ao menos sem precedentes (pois provavelmente já deve ter sido imitada) na história da música ocidental.

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Bom. Vim aqui para falar de uma performance e me pego traindo meu propósito inicial ao me deter em tantos pormenores da obra. É que não tive como fugir disto. Pois não há como se ter sequer uma pálida ideia da magnitude do feito de Paula ao dar vida ao Arlequim a não ser por meio da consciência de tudo o que a tarefa implica. Mas não tentarei, nesta anti-resenha, descrever a experiência em detalhes para quem não esteve lá. Principalmente por que seria inútil. Suficiente, então, sublinhar que a performance de Paula foi marcante em todos os aspectos.

Quando entrei no teatro, era cético (devo confessar) quanto ao sentido de alguém se especializar com tamanha intensidade na realização de uma obra musical a ponto de, entre tantas coisas, viajar a outro continente para estudar com quem a estreara sob a supervisão do próprio compositor; dedicar tempo e esforço enormes à memorização da mesma (tempo e esforço, estes, suficientes para se apreender um vasto repertório mais… tradicional); ou, ainda, enfrentar a árdua disciplina física necessária à sua execução.

Então, ao longo dos cerca de 40 minutos de duração da performance, sofri uma transformação. Não há como descrever o encantamento a que todos os que estavam ali foram submetidos (a julgar pela ovação ao final). Fui lá desconfiando que testemunharia algo único e, consoante a isto, portando uma câmera fotográfica para melhor ilustrar este post que, também desconfiava, acabaria escrevendo. Só que, imerso na escuridão e no silêncio tão cruciais àquilo tudo, desisti de conspurcar a atmosfera com os disparos da máquina. Felizmente, encontrei um registro em vídeo de uma performance anterior de Paula, o qual, infelizmente, pouco revela do que foi ter a atenção exclusivamente capturada pela magia daquele momento. Quando fui embora, todas as minhas dúvidas haviam se dissipado.

Hoje, passados alguns dias, sigo impactado por aqueles minutos, tendo renovado meu entendimento, ainda que intangível, impossível de ser vertido em palavras, da necessidade da arte. Acho que esta sensação não é só minha. Muito obrigado, Paula !

 

 

Bullshit Jobs: a Theory, de David Graeber (2018)

Raros livros me impactaram tanto, nos últimos anos, como Bullshit Jobs: a Theory (2018), do antropólogo anarquista David Graeber, atualmente lotado na London School of Economics. O tema que dá nome ao volume – a saber, aqueles trabalhos percebidos como inúteis ou até mesmo nocivos à sociedade por quem os exerce – já é, por si só, fascinante. Como se não bastasse, o livro mais recente de Graeber (autor, entre outros, de Dívida: os primeiros 5000 anos (já traduzido) e The Utopia of Rules (também inédito em português)) ostenta uma densidade lógica (conceito que formulo aqui e ao qual também me refiro aqui) excepcional. Nele, não há sequer um único parágrafo que possa ser tomado por acessório ou colateral à argumentação – o que rende, de saída, qualquer resenha, enquanto recorte, como supérflua. Bem melhor, neste caso, é ler a coisa inteira. Ainda assim, teimoso que sou e impactado que estou, prossigo.

Outra boa razão para se evitar (escrever e ler) esta resenha é que o livro ainda não foi traduzido para o português. Com isto, estas linhas servirão, no máximo, para que alguns entusiasmados se submetam à trabalhosa e demorada importação de um exemplar. Trabalho, portanto, inútil ? Não acho. Quem decidir me acompanhar além deste preâmbulo haverá de concordar.

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Bullshit Jobs: a Theory se originou a partir do ensaio On The Phenomenon of Bullshit Jobs (traduzido por mim aqui) publicado por Graeber em 2013 e reproduzido no prefácio de seu livro de 2018.  Entre uma coisa e outra, o autor realizou uma pesquisa a partir de uma ampla base de dados formada por depoimentos (anônimos por razões óbvias) em resposta a seu ensaio original e ensejados por provocações por ele lançadas através do Twitter (!) – o que, por si só, o situa como, no mínimo, um pesquisador original. Tais depoimentos, citados textualmente e costurados pela voz do autor, constituem a  base da estrutura narrativa da obra de tal forma que, nela, qualquer monotonia potencial da voz onipresente do último é temperada pela variedade e, em certos casos, até humor (pois não há nada mais divertido e verdadeiro do que a auto-ironia) das vozes emprestadas por seus muitos informantes.

É a partir desta rica casuística que Graeber deixa claro, ao longo do primeiro capítulo e por meio de sucessivas definições provisórias aproximativas, o que vem a ser um bullshit job – a saber, todo trabalho percebido com socialmente inútil ou mesmo pernicioso por quem o executa.

A expressão bullshit job traz em si um problema para o tradutor. Num primeiro impulso, somos tentados a traduzi-la simplesmente como “trabalho de merda”. Só que, já no início do livro, a coisa se complica quando o autor faz uma distinção entre um bullshit job e um shit job, demonstrando por que nem todo trabalho que pertence a uma das categorias pertence, necessariamente, também à outra. Com isto, “trabalho de merda” e “merda de trabalho” estão longe de se constituir em traduções satisfatórias por não explicitarem suficientemente a distinção entre as duas categorias.

Nos capítulos subsequentes, estabelece uma tipologia de tais trabalhos (capítulo 2); trata da violência psicológica sofrida por quem neles se vê encurralado (capítulos 3 e 4); explica por que tais trabalhos proliferam (capítulo 5) e por que não objetamos, como sociedade, à proliferação dos mesmos (capítulo 6) e, finalmente, no último capítulo, analisa os efeitos políticos dos bullshit jobs e propõe uma possível solução (no spoilers yet) para tal estado de coisas.

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Mesmo reconhecendo a natureza redutora de toda resenha, é impossível resistir a mencionar em detalhe certas passagens de Bullshit Jobs: a Theory. Como, por exemplo, quando nos é explicado, já nas definições aproximativas iniciais, por que não se pode dizer que um assassino da máfia tenha um bullshit job – uma vez que o mesmo, ainda que admitindo o óbvio prejuízo social inerente a seu trabalho, acredita fazer parte de uma honrada e antiga tradição com finalidades claras.

Outra parte memorável, capaz de dirimir qualquer dúvida sobre o que venha a ser um bullshit job, é a supracitada tipologia do segundo capítulo. Nele, Graeber divide tais trabalhos em cinco categorias:

Lacaios (flunkies). São aqueles postos de trabalho que existem exclusivamente para que alguém (o chefe) se sinta importante. Como exemplo mais emblemático, temos as comitivas que precedem a entrada de autoridades em qualquer recinto. Também não é nenhuma novidade que o poder de quem quer que exerça alguma atividade gerencial é medido pelo número de subordinados ao seu comando. Qualquer semelhança entre a alta incidência de lacaios em ambientes de trabalho contemporâneos e no mundo medieval não é mera coincidência, sendo tratada em profundidade nas partes dedicadas ao “feudalismo gerencial” (managerial feudalism).

Valentões (goons). Usada metaforicamente (i.e., não se referindo apenas a gangsters), a expressão serve para designar pessoas cujo trabalho envolve algum tipo de violência e existe apenas por que alguém as emprega. Exemplos clássicos incluem forças armadas (países só tem exércitos por que outros países os tem), lobistas, especialistas em relações públicas, operadores de telemarketing e advogados corporativos.

Duct tapers. De difícil tradução. Tapa-buracos, talvez. Pertencem a esta categoria todos aqueles que executam remendos ou gambiarras para resolver problemas que simplesmente não deveriam existir mas que, em existindo, emperram o bom funcionamento de um todo maior. Tais trabalhos são particularmente abundantes na indústria da informática.

Box tickers. Igualmente de difícil tradução. O nome se refere àqueles formulários que incluem quadradinhos que devem ser marcados por “tiques” (sinais em forma de “V”). Para Graeber, são todos aqueles empregados que existem exclusiva ou primordialmente para que organizações possam alegar estarem fazendo o que, na verdade, não fazem.

Taskmasters (another category likely to be lost in translation). Se dividem em dois tipos.

Pertencem ao primeiro aqueles que, encarregados de atribuir tarefas a terceiros, acreditam que as mesmas seriam desempenhadas de qualquer maneira, mesmo que não fossem por eles atribuídas. Deste modo, taskmasters do primeiro tipo (supervisores desnecessários) podem ser considerados como o exato oposto de flunkies (subordinados desnecessários).

Taskmasters do segundo tipo são aqueles que inventam tarefas desnecessárias para outros realizarem.

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A distribuição da incidência de bullshit jobs não é homogênea em relação a todos os setores da economia. Tais trabalhos parecem se concentrar mais no setor administrativo intermediário (middle management) e em empresas do setor FIRE (finance, information and real estate (financeiro, informático e imobiliário)).

Tamanha proliferação de cargos inúteis jamais poderia existir sem uma igual abundância de títulos para os mesmos. Numa das passagens mais divertidas, Graeber oferece, em seu site dedicado ao assunto, um Job Title Generator engraçado por si só que dispensa quaisquer comentários.

Um mito bem popular derrubado por Graeber é o de que bullshit jobs seriam peculiares ao setor público. Ao contrário, existem igualmente no privado. Se há uma regra para sua proliferação, parece ter a ver com a maior presença de práticas e conceitos gerenciais em qualquer indústria. São particularmente ilustrativas as análises de sua influência recente na academia e na indústria criativa, particularmente a cinematográfica.

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Forçado, em nome da concisão, a eleger para menção uma única parte dos dois riquíssimos capítulos sobre o sofrimento amargado por detentores de bullshit jobs, minha escolha recai facilmente sobre a exploração de elementos sadomasoquistas inerentes a tais trabalhos. É quando o autor faz uma distinção importantíssima entre as práticas sadomasoquistas recreativas e a ocorrência da mesma sorte de relação em ambientes de trabalho.

Não deve ser nenhuma novidade, mesmo para não adeptos destas práticas, que todo sofrimento físico consentido infligido por dominadores a dominados pode ser interrompido por uma palavra de segurança (como “laranja”). De tal modo que alguém que subitamente não suporte mais a dor de, por exemplo, ter cera quente derramada sobre o corpo pode interromper a “brincadeira” pela simples pronúncia da palavra “laranja”. Só que, em ambientes de trabalho marcados por relações sadomasoquistas, um empregado não pode interromper sem maiores consequências (como o desemprego) qualquer abuso cometido por seu chefe simplesmente dizendo “laranja” (cujo equivalente numa relação de trabalho seria “eu me demito”).

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Quando o ensaio de 2013 no qual Graeber cunhou a expressão bullshit jobs viralizou, uma das reações previsíveis foi um esforço acadêmico-científico para quantificar o fenômeno. Daí emergiram dados alarmantes, ainda que nem um pouco surpreendentes. Na ocasião, se constatou que no Reino Unido nada menos do que 37% dos entrevistados declararam estar aprisionados em bullshit jobs. Replicada na Holanda, a enquete revelou uma realidade ainda mais impressionante: 40% se consideraram na mesma situação. Isto quer dizer quase metade da população – ou, se quiserem, em número suficiente para eleger um presidente ou primeiro ministro numa democracia. Ainda assim, ainda há quem se recuse a ver a coisa como um problema social. A prevalência deste estado de coisas é esmiuçada nos capítulos sobre por que  bullshit jobs proliferam e por que não reagimos, como sociedade, à proliferação dos mesmos.

Aqui, uma dose moderada de spoilers não deverá afugentar potenciais leitores. Suficiente dizer que a manutenção do problema é um pré-requisito para o capitalismo. Como ? Impossível resumir. Até por que os dois capítulos supracitados são uma aula de história, traçando a origem do mito puritano de que “o sofrimento laboral forma o caráter” desde tempos medievais até os dias de hoje, passando por vários filósofos, discutindo a diferença entre “valor” e “valores” e a transição gradual da vigência da teoria do valor-trabalho (labor theory of value) para a aceitação praticamente hegemônica da lei da oferta e da procura, que serve de pilar ao capitalismo.

Tamanha densidade de informações (bibliográficas inclusive) aportadas tornam estes capítulos algo para ser lido e relido – até como mapa para outras leituras.

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Graeber tempera o tom professoral naquilo que mais poderia parecer um tratado (pelo título da obra, de seus capítulos e sub-capítulos) com tiradas engraçadas aqui e ali. Para destacar apenas duas:

Depois de anunciar, nalgum lugar no início do livro, que vê com reservas o fato de ser frequentemente tachado de anarquista (numa compreensível aversão ao aspecto reducionista dos rótulos); se auto-declara, ao fim da obra, um anarquista.

No mesmo último capítulo, depois de deixar claras suas restrições (bem razoáveis) a finalizar uma obra por meio de uma receita ou recomendação para solucionar os problemas nela apontados, preconiza com todas as letras que quaisquer bullshit jobs seriam sumariamente riscados do mapa mediante a implementação de uma renda mínima universal. Ambas as discussões (tanto o disclaimer contra as fórmulas prontas como aquela sobre os possíveis prós e contras de uma renda mínima universal) coroam o volume de uma forma deliciosa, transmitindo ao leitor a plena convicção de que nada do que nele foi lido é supérfluo ou, de algum modo, acessório.

A observação acima, sobre a obrigatoriedade de cada linha, sublinha também o fato das notas sobre o texto serem tão volumosas quanto interessantes. São 40 páginas de notas (fora a bibliografia) para 285 de texto (fora o prefácio), ensejando fatalmente a especulação sobre se o autor

escreveu as notas à guisa de complementação depois de ter o livro pronto (o que é menos provável); ou, antes,

preferiu relegá-las a um apêndice, como num hipertexto, a fim de não comprometer, com elas, seu apurado fluxo argumentativo.

De qualquer modo, quaisquer que sejam as razões que o levaram a destacar, no final da obra, observações tão interessantes – praticamente um outro livro sobre o livro, é altamente recomendável que as mesmas sejam lidas na íntegra concomitantemente ao texto principal.

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Como já deixei claro, é bem difícil eleger uma ou outra passagem do livro para destaque (dignas, digamos, de terminar uma resenha sobre o mesmo). Ainda assim, sou, como disse acima, teimoso e, como tal, arrisco afirmar que, de tudo o que li em Bullshit Jobs: a Theory, talvez o que mais tenha reverberado, no sentido de permitir uma compreensão superior do universo capitalista, é que

o mesmo é alimentado por uma complexa, sutil e insolúvel rede de ressentimentos mútuos entre classes de trabalhadores – não apenas entre aquelas mais óbvias tais como patrões X empregados ou capitalistas X trabalhadores, mas entre as próprias categorias ocupacionais; e que

o que conhecemos usualmente por economia é, antes do que uma ciência, uma doutrina, com raízes históricas claras e, por vezes, profundo cunho teológico.

A Outra Mulher (França, 2018)

No último domingo assistimos, Astrid e eu, a um forte candidato ao título de pior filme de 2018 – a saber, Amoreux de ma femme, de Daniel Auteuil, lastimavelmente traduzido como A Outra Mulher.

Dirigido pelo próprio protagonista, a comédia começa bem, num hilário jantar com dois casais, organizado por dois amigos e realizado à revelia da esposa de um deles, amiga daquela de quem o outro recém se divorciara, no qual o anfitrião tenta em vão disfarçar seu avassalador encantamento pela nova namorada do outro. Enquanto entretenimento, até aí tudo bem. Boas risadas garantidas.

A coisa se complica ao se iniciar um previsível (logo entenderão por que) vai-vém entre fantasia (o improvável idílio de um dos amigos com a namorada do outro) e a realidade de seu amor por sua esposa. Já vi vários filmes assim, nos quais uma situação retratada com cores realistas, como só o cinema é capaz (vá lá, a literatura também), acaba por se revelar totalmente fantasiosa.

Dramaticamente, isto funciona uma única vez em cada obra. Se, no entanto, a alternância entre as duas situações, fantasia e realidade, se repete, é como querer que se ria de uma mesma piada várias vezes, mais ou menos como se alguém dissesse: ” Não entendeu ? Peraí que vou contar de novo de outro jeito que é prá ver se você entende. “ Ora, nenhum contador de piadas alcançaria qualquer êxito procedendo desta forma. Ainda assim, é o que o ator/diretor faz insistentemente em seu patético filme. Neste contexto, de nada adiantam os exuberantes cenários em Paris, Veneza e Ibiza (sim, a produção deve ter sido bem cara) para sustentar o interesse de espectadores mais exigentes.

Soube de outras críticas desfavoráveis ao filme, tendo a ver mais com a rasura das personagens (feministas ficaram, com razão, irritadíssimas) – pelas quais não tive, no entanto, a menor curiosidade. Para quem quiser, o Google está aí.

Saí do cinema pensando no que faz um ator consagrado como Auteuil manchar sua biografia assinando a direção de uma coisa assim.

 

Beethoven tempi, outra vez

Nestes dias de ópera-rock farroupilha, nem vale a pena falar do assunto. Não que o tema, tão repugnante, não mereça. Ao contrário. É que tantos amigos vem se manifestando com tanta propriedade, tanto na mídia como em redes sociais (vejam, por exemplo, as ótimas peças de Claudia Laitano, Celso Loureiro Chaves, Milton Ribeiro e Francisco Marshall, para citar uns poucos), que, diante do brilho do que já foi dito, é melhor ficar calado.

É nestas horas, em que mais nos esforçamos para afastar nossa atenção do absurdo cotidiano, que certas preocupações recorrentes, tidas por artistas como leitmotiv ou acadêmicos como linhas de pesquisa ou indagação, mais nos ocupam a mente. Em meu caso, torno ciclicamente a ruminar sobre a fidelidade ou não aos tempos de execução diligentemente prescritos por Beethoven para cada trecho de suas monumentais sinfonias. Tanto que já me ocupei disto, ao menos, aqui e aqui.

Sei. Até há músicos bons e honestos capazes de sustentar firmemente que os  andamentos de quaisquer movimentos de sinfonias de Beethoven sejam prerrogativa exclusiva de cada regente no pódio. Há controvérsias. Talvez poucos saibam que Beethoven foi, dentre os compositores mais importantes, o primeiro a deixar instruções específicas quanto a isto aos chefes de orquestra futuros por meio de anotações metronômicas em suas partituras.

Vergonhosamente, é prática corriqueira desrespeitá-las. Se pode ter uma visão, ao mesmo tempo ampla e sucinta, de como pode variar o tempo de execução do primeiro movimento da Eroica (terceira sinfonia de Beethoven, composta em 1803 e 1804), neste fabuloso audiográfico, autoexplicativo, dentre os melhores que já vi.

Notem a lentidão das primeiras gravações, em especial as de Toscanini (1938 e 1945) e Furtwängler (1944 e 1952); em oposição à vivacidade das da última década da amostra, com Abbado (2000), Rattle (2002) e Chailly (2011). Notem também o baixo diapasão das orquestras de instrumentos de época de Hogwood (1985), Norrington (1987), Harnoncourt (1991), Gardiner (1993) e Savall (1994). Interessantemente, o pessoal dos instrumentos de época está entre os que mais aderiram às prescrições de andamento de Beethoven. Muito mais, pelo menos, do que seus contemporâneos.

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Sempre que o tema dos andamentos de Beethoven vem à tona, não há como não nos referirmos à primeira gravação integral de suas sinfonias segundo a vontade do autor, a saber, a coleção gravada entre 1987 e 1989 pelos London Classical Players, liderados por Roger Norrington. A edição, encaixotada pela EMI, é primorosa. O encarte, trilíngue (inglês, alemão e francês), de 94 páginas, tem o requinte de especificar a duração da unidade de tempo (notação metronômica, tipo “semi-colcheia igual a 92”) para cada nova seção, com a devida minutagem na faixa do CD, de cada movimento de cada uma das nove sinfonias. Chamem, se quiserem, de referência.

Moonrise Kingdom (2012), de Wes Anderson

Por mais óbvio que soe, não custa repercutir a ideia de que o cinema, assim como a música e a literatura, consiste num manancial praticamente inesgotável de tesouros – os quais, todavia, precisam ser pacientemente garimpados num imenso limbo de conteúdos irrelevantes cujo mérito não passa de distrair nossa atenção (daí a denominação do abominável segmento do entretenimento) tão somente até os relegarmos ao esquecimento e/ou indiferença. É por esta razão que se, ao acordar, sigo marcado por algum filme que vi no dia anterior, considero o mesmo digno de uma recomendação. Deste modo, o presente post poderia bem ser chamado de Razões para se assistir a Moonrise Kingdom (2012), de Wes Anderson.

Quando, depois de um final de semana preguiçoso, em que os lançamentos  em cartaz não ofereciam estímulo suficiente para que abandonássemos o conforto do sofá para nos dirigirmos a alguma sala de projeção, e à meia-noite de domingo, quando tudo já parecia perdido (nessas horas sempre lembro a máxima de Les Luthiers “cultura para todos, en su horario habitual de las tres de la mañana”), foi absolutamente por acaso que topei com esta obra-prima que me fez vencer o sono e a disposição de dormir cedo para melhor encarar a semana que inicia.

O filme me agarrou do primeiro ao último minuto, para o que contribuíram fatores tais como a fotografia exuberante, evocando os matizes saturados do já obsoleto Technicolor; a fascinante temática do amor juvenil; o super elenco, com, entre outros, Bruce Willis, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton (a anciã em Doutor Estranho) e Harvey Keitel – isto sem falar dos jovens e, portanto, ainda desconhecidos protagonistas Jared Gilman e Kara Hayward; e, last but not least, a música de Benjamin Britten (The Young Person’s Guide to the Orchestra, Op. 34, por Leonard Bernstein).

Cinéfilo casual, fui dormir ainda sem saber nada sobre o diretor. Foi só hoje, ao acordar e graças ao valioso auxílio da wikipedia (não entendo o desprestígio do qual ainda desfruta, junto a alguns, o gigantesco repositório colaborativo de conhecimento), que soube se tratar do mesmo realizador de Os Excêntricos Tenenbaums (2001) e O Grande Hotel Budapeste (2014). Voilá. Estava assim a obra recém vista devidamente inserida numa filmografia – definida, entre outros, pelas imagens exuberantes, narrativa esquemática (com tudo explicado nos mínimos detalhes (vale conferir, na supracitada wikipedia, os livros e mapas fictícios criados para dar verossimilhança à história) ) e personagens tão caricatos quanto adoráveis. Trata-se de um cinema anti-realista, sem sombras nem lacunas narrativas a serem preenchidas pelo espectador. É como se, ao invés de estarmos assistindo a um filme, lêssemos um livro no qual cada detalhe é minuciosamente explícito. Noutras palavras, um deleite para aqueles com pouca paciência para com obras abertas (como, por exemplo, apreciadores de boas narrativas policiais, nas quais tudo deve ser univocamente explicado no último instante e jamais antes disto).

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É bem interessante se especular sobre a influência deste ou daquele artista sobre os demais. Ainda é cedo para se ponderar até que ponto o cinema de Anderson, relativamente jovem (nascido em 1969 e tendo estreado com um curta-metragem em 1994) afetará os filmes de outros. O que já é, no entanto, patente, é a enorme influência exercida pelos irmãos Joel e Ethan Coen sobre o cinema norte-americano. Mais. Vários filmes inequivocamente influenciados pelos irmãos Coen tem como marca a participação destacada de quem, de um modo ou de outro, é central à sua filmografia ou mesmo a suas biografias. Assim, o estilo dos Coen (que pode ser grosseiramente sintetizado como comédia do absurdo) é facilmente identificável, por exemplo, em duas obras alternativas (i.e., ao contrário da maioria das produções do cinemão de Hollywood, de baixo orçamento e sem grandes efeitos especiais) que ganharam as telas no ano passado – a saber, Suburbicon e Três Anúncios para um Crime, as quais permaneceram, infelizmente, pouquíssimo tempo em cartaz. Não deve ser por acaso que o primeiro foi dirigido por George Clooney – protagonista de Queime depois de ler (2008), dos irmãos Coen – e o segundo estrelado por Frances McDormand, musa dos filmes de Coen e esposa de um deles, Joel, oscarizada em 2018..

Como nos filmes dos Coen, tanto o enquadramento como a voz narrativa em Moonrise Kingdom conspiram para que o espectador deixe de viver cada cena para, ao invés, espreitá-las. Se isto, na história recente da arte cinematográfica, não se tratar de um fato novo, é, pelo menos, inegavelmente um atributo ausente de todo mainstream.

Wes Anderson

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Dito isto, se você ainda não viu Moonrise Kingdom e, depois de ler este texto, tiver vontade de vê-lo, o mesmo terá cumprido seu objetivo.

 

Por que considero Ah Um (1959), de Charlie Mingus, um álbum superestimado

Soltei no facebook, sem explicar as razões, que acho Ah Um, de Mingus (1959) um álbum superestimado. Em consideração à atenção de uns poucos que vierem aqui em busca de esclarecimento sobre a ao menos inusitada afirmação (posto que praticamente uma blasfêmia para qualquer mingófilo por se tratar, afinal, de um disco icônico), vou diretamente ao ponto.

O principal problema da outrossim excelente da música de Mingus é não ter encontrado, em grande parte das vezes, sua melhor expressão nos conjuntos em que o compositor atuava como contrabaixista. Ouvir Mingus em 1959 dá a nítida impressão de que ainda estavam por surgir músicos que plenamente realizassem sua música. Tudo bem que Dannie Richmond, seu fiel escudeiro, já estava lá  (pensem em quantas vezes Bill Evans trocou de baterista…). E Jimmy Knepper. Mas caras da estatura de um Eric Dolphy permaneceram com Mingus por muito pouco tempo.

Naquela época, improvisadores mais exponenciais orbitavam ao redor de Miles. Se pode até especular sobre como a excelente música de Mingus, que não deve nada a de Miles, teria se popularizado se o primeiro contasse com improvisadores como Cannonball ou Coltrane. Mas voltemos ao Ah Um.

O início do álbum é promissor, com uma das mais potentes composições de Mingus num arranjo vibrante, de um tipo aberto, consistindo em partes livres  (neste caso o trombone) sobre outras predeterminadas. É precisamente isto que dá aquela impressão de “baguncinha” ou caos controlado tão cara ao estilo de Mingus. Só que, na hora da entrada de um solo rasgando… nada. Só a base. E os riffs, é claro, de quando em quando. De pouco adiantam os gritos de Mingus – como que, sei lá, tentando acordar algum solista – que finalmente comparece, hesitante, com algumas notas longas e indecisas.  Em minha modesta experiência auditiva, não me parece que fosse esta, nem de longe, a intenção do autor. Aquilo é, sem sombra de dúvida, a cama perfeita para um solo vertiginoso. Só que, infelizmente, Dolphy, Bird, Trane ou similares não estavam ali. Então, não consigo ouvir o Ah Um a não ser como uma coisa incompleta, à qual ainda falta uma voz principal.

(é bem provável que, neste ponto, alguém diga que estes “buracos” no arranjo fazem parte da linguagem de Mingus, sutuada fora do alcance de minha compreensão rasa. Pode até ser. Mas evidências como as mesmas músicas tocadas por formações posteriores ou mesmo póstumas depõem em favor do que acho)

Percebem o problema de timing a que me refiro ? Sobre o cara certo estar no lugar certo na hora certa ? É perfeitamente razoável se afirmar que a música de Mingus muitas vezes só encontra sua melhor expressão depois que o autor deixa de atuar como músico em suas bandas. Como, por exemplo, nas raras e espetaculares gravações, ao vivo e em estúdio, da Mingus Dinasty ou da Essential Mingus Big Band, bandas memoriais dedicadas à preservação do legado de Mingus. Ou então nas sessões de gravação que Mingus acompanhou já numa cadeira de rodas. Ou, ainda, na colaboração com Joni Mitchell.

Falando em Joni, avancemos à segunda faixa de Ah Um, a balada Goodbye Pork Pie Hat, dedicada por Mingus a Lester Young, com versos escritos pela cantora, com alguma licença, sobre a linha improvisada pelo saxofonista no Ah Um. A versão de Joni dá de dez no original. Digam se exagero: preferem esta versão ?

Ou esta ?

Outro problema de Mingus em 1959 é uma certa falta de impulso em suas tradicionais “canções de batalha”, como Fables of Faubus ou Better git it in your soul. Agravada, talvez, pelo andamento excessivamente lento. Estou enganado ? Mingófilos e mingólogos que me corrijam !

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Quinze anos depois, Mingus já encontrara sua banda. Já havia, por exemplo, em Changes One & Two, pianistas como Don Pullen e Bom Neloms e horns como George Adams e Jack Walrath. Os espaços privilegiados destinados ao improviso não passavam mais em branco. Mas, como nem tudo é perfeito, já na segunda faixa de Changes One, nos deparamos com um erro de mixagem grosseiro. Como se tivessem cortado o microfone da voz principal (a trompeta, no caso). Não me perguntem como isto acontece num lançamento de uma grande gravadora. Está lá para que quiser ouvir. A falha gritante me faz supor que álbuns de jazz e outros não eram auditados na íntegra, mas só por amostragem, antes de serem fabricados e distribuídos. Um dos casos mais gritantes em que faixas desastrosas passaram pelo crivo de executivos fonográficos é este:

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É, como já foi dito, nos álbuns póstumos (como os de Mitchell, da Mingus Dinasty ou da Mingus Essential Big Band) ou quase (como aqueles cuja gravação Mingus acompanha de uma cadeira de rodas) que toda a força de sua música se realiza plenamente. Em 1978, um ano antes de sua morte, Mingus, cuja música inovadora o excluíra pela maior parte de sua vida do mainstream do jazz, gozava, finalmente, da reputação de um dos maiores, senão o maior, dos inovadores vivos. Com isto, era natural que os melhores daquele tempo o cercassem em busca de, algum modo, colarem suas imagens (e discografias !) à dele. Resulta que Something Like a Bird (1978) foi gravado por um dream team. Particularmente, raras vezes ouvi um saxofonista com a desenvoltura do outrossim desconhecido George Coleman. O disco conta até com a participação, pasmem, do guitarrista Larry Coryell.

Nos álbuns do Mingus Dinasty, “modernos” atrevidos como Joe Farrell e Randy se amalgamam a veteranos dos combos de Mingus como Richmond, Knepper e Pullen para injetar vida nova em sua música. E o que dizer, então, do álbum Mingus, de Joni ? Prá começo de conversa, há Jaco Pastorius. O que define, no entanto, a qualidade quase sempre superior das versões de Joni em relação às originais de Mingus é a intensidade expressiva – que se deve, repito, antes ao pouco alcance dos solistas do que a qualquer deficiência das composições, excelentes e irretocáveis.

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Atualização: saindo em busca de videos para ilustrar este post, particularmente da versão de Goodbye Pork Pie Hat em Ah Um, me deparei com esta, que confundi com o que procurava. Estupefato com a profundidade e proficiência do saxofonista, descobri tratar-se de um obscuro Seamus Blake da (!) Essencial Mingus Big Band, num disco lançado em 2001. Nenhum saxofonista chegou sequer perto disto em gravações de qualquer combo de Mingus.

 

Comprando discos em Buenos Aires: piano trios argentinos: Ernesto Jodos e Adrian Iaies

Não é de hoje que amo o jazz argentino. Tragicamente, costumo estar em Buenos Aires quando meus ídolos porteños tiram férias. Com isto, nunca pude testemunhar qualquer performance de seus combos nos irretocáveis clubes de jazz de Buenos Aires (já foi dito que a capital argentina lidera o ranking mundial de livrarias por habitante; suponho que um levantamento dos clubes de jazz não deixaria por menos…)

Chegando, então, à Zival’s (melhor loja de discos (CDs e vinilos) e livros sobre música de Buenos Aires), procurei discos de Jodos (que conhecera num festival de jazz de Canoas…),  abrindo mão de um álbum de piano solo e recomprando seu experimento com o double trio de piano com dois contrabaixos e duas baterias, Fragmentos del mundo.

Explico por que recomprar. É que emprestei a não me lembro quem meu exemplar de Fragmentos del mundo. Então, descartada a desagradável opção de rastrear o item subtraído a minha coleção, preferi adquirir a obra pela segunda vez, num investimento prá lá de bom !

Fecha parêntesis. Munido, assim de pelo menos uns dois discos de Jodos com satisfaction guaranteed, me dirigi ao balcão, dizendo: ” – Se gosto disto, do que mais posso gostar em termos de jazz argentino ? ” – ao que, prontamente, me recomendaram Adrian Iaies, igualmente pianista, organizador dos festivais de jazz que acontecem em Bs As em setembro.

Em toda esta pequena antologia, há que se prestar atenção na extraordinária proficiência jazzística dos músicos porteños. Desde, por exemplo, o baterista Pepi Taveira, parceiro tanto de Iaies (em Esa sonrisa es un santo remedio) como de Jodos (em Light Blue) – ou então o genial contrabaixista Jerónimo Carmona, parceiro de Jodos em vários discos.  O trabalho do excelente baterista Sergio Verdinelli tampouco passa despercebido. Quisera ter escutado esse pessoal em clubes de jazz na última  vez em que estive lá.

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Com algum tempo de sobra, perguntei ao mesmo atendente sobre trompetistas argentinos tão bons como, por exemplo, Juan Cruz de Urquiza (que conhecera numa ida anterior ao Zival’s). O Gillespi (” O argentino, não o Dizzy ! “, se apressaram em me explicar), que me foi recomendado era, no entanto, um tanto quanto fusion demais para meus ouvidos. Acabei ficando com os piano trios. Na seguinte cronologia:

Adrian Iaies Trio – Esa sonrisa es un santo remedio (2002)

Ernesto Jodos double trio – Fragmentos del mundo (2011)

Ernesto Jodos Trio – Light Blue (2012)

Adrian Iaies Trio – La Vida Elige (2016)

Devo interpolar a esta coleção

Ernesto Jodos Trio (2007)

e El Jardin Seco (de 2008, do qual não encontrei imagens).

O que dizer desses discos ? Recomendo todos. Fortemente.

 

Homo Deus – Uma breve história do amanhã, de Yuval Noah Harari

Homo Deus, o segundo livro de Yuval Noah Harari, é uma recompilação de ideias já expostas, anos antes, em seu primeiro livro, Sapiens (resenhado aqui). O que não deve, no entanto, se constituir em nenhuma surpresa para quem prestar atenção nos subtítulos dos dois volumes, a saber, Uma breve história da humanidade e Uma breve história do amanhã, respectivamente. Assim, o que no primeiro era exaustivamente examinado como resultado de um cuidadoso encadeamento histórico, no segundo se apresenta como um estado de coisas a apontar para um elenco de alternativas futuras – fato suficiente, a nosso ver, para alimentar especulações quanto a sobre o que versará, se e quando vier, seu terceiro livro.

A matéria da qual trata nos dois, a que chama de realidades imaginadas, é a principal razão, ao mesmo tempo, da enorme verossimilhança de tudo o que afirma no primeiro, na maioria das vezes contrariando o senso comum, e do ceticismo despertado em muitos leitores pelo segundo. Talvez por isto seja mais conveniente distinguir as realidades imaginadas enumeradas no primeiro – as quais, por existirem ou terem existido no presente ou no passado, são mais palpáveis à maioria dos leitores – daqueles cenários hipotéticos projetados por Harari para um futuro imediato ou distante – mais insondáveis, portanto, ao senso comum – e que, por isto mesmo, seriam melhor designados pela expressão realidades imaginárias. Teríamos, assim, o termos imaginadas para designar aquelas criadas e compartilhadas por milhões de humanos e imaginárias para se referir a formulações até então inexistentes a não ser na fértil mente de Harari. Esta convenção ajuda a situar ambas as obras nos devidos planos.

Antes, porém, de nos debruçarmos sobre suas antevisões, um tanto quanto distópicas, vale a pena contemplarmos o nó histórico em que nos encontramos. Num passado marcado por fome, pestes e guerras, se pode afirmar que o que a humanidade mais almejou até aqui tenha sido prosperidade, saúde e harmonia. Num argumento que pode parecer a muitos um tanto chocante, Harari considera estes três problemas solucionados – já que, hoje, num contexto global, as pestes estão controladas, a fome é política e as guerras, localizadas – e que, portanto, a humanidade nunca desfrutou de tanta prosperidade, saúde e harmonia como agora.

Sendo assim, ante a necessidade de estabelecer uma agenda para o futuro, o gênero humano se volta hoje para a obtenção de imortalidade, felicidade e divindade. É sobre a conquista destas três qualidades e suas implicações que versam as quase 400 páginas de Homo Deus (mais umas 40 de notas e referências para quem ache o estilo do autor dominado por frases de efeito sem muito fundamento).

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No decorrer de sua fascinante jornada especulativa, Harari alude a algumas ideias perturbadoras, contrárias ao que a maioria das religiões conhecidas (lembrem-se que, para ele, comunismo, capitalismo e humanismo são, enquanto realidades imaginadas, as religiões mais hegemônicas da atualidade) sustenta, dentre as quais destacamos

que, ao contrário do que ocorre com a inteligência, não existe até hoje nada que prove cientificamente a existência de entidades como a mente ou a alma – pilar central de todos nossos sistemas político, jurídico e econômico;

que animais não humanos também são dotados de emoções e necessidades subjetivas e que, portanto, também padecem de sofrimento;

que a espécie humana não é necessariamente o ápice da evolução;

em Homo Deus, Harari retoma e desenvolve a ideia, já formulada em Sapiens, de que a hegemonia da espécie se deve não ao uso de ferramentas e inteligência, como sempre se acreditou, mas à habilidade adquirida de cooperar em larga escala e com flexibilidade a partir da crença em mitos compartilhados por milhões de humanos;

que o espectro mental humano é apenas uma pequena fração de todos os estados mentais possíveis, refletindo, quando muito, na maioria dos estudos em publicações especializadas, os resultados de experimentos realizados sobre populações WEIRD (Western, Educated, Indutrialized, Rich & Democratic) – já que a maior parte da pesquisa psicológica é realizada, por conveniência, tendo alunos dos próprios pesquisadores como sujeitos;

que o livre arbítrio só existe em histórias imaginárias inventadas por humanos;

para explicar a emergência, aqui e ali, de noções românticas como a do livre arbítrio, Harari discorre longamente sobre a coexistência conflitante de duas entidades às quais chama, respectivamente, de eu da experiência e eu da narrativa. Segundo esta dicotomia, o eu da narrativa altera qualquer realidade vivida pelo eu da experiência de modo a melhor acomodá-la à história de vida na qual cada um de nós prefere acreditar. Então, isto é, por si só, suficiente para desqualificar como verdade factual qualquer percepção filtrada pelo eu da narrativa;

a felicidade é bioquímica, tendo pouco ou nada a ver com a satisfação de desejos.

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Talvez a projeção (prefiro evitar, como o autor, a palavra previsão por se tratarem, suas antevisões, muito mais de possibilidades alternativas do que de consequências inevitáveis) mais espetacular de Harari em Homo Deus seja a corrida em busca da imortalidade. Pois a pesquisa genética vem avançando muito no que tange ao retardamento do envelhecimento, permitindo a vários magnatas do Vale do Silício já lidarem com a hipótese da imortalidade. O tema até já inspirou o cinema de ficção científica, numa das sequelas da série X-Men.

A ideia não é tão futurista quanto parece. No livro, Harari lembra que Angelina Jolie extirpou os próprios seios não em razão de um diagnóstico de câncer já existente mas, tão somente, devido a uma alta probabilidade, revelada através de testes genéticos, de vir a desenvolver a doença. Ao mesmo tempo, uma empresa chamada 23andMe, fundada por Anne Wojcicki, ex-mulher de um dos fundadores do Google, e cujo nome alude aos 23 pares de cromossomos que nosso genoma contém, oferece, por módicos 99 dólares, a possibilidade de você cuspir num tubo de ensaio, enviar a amostra de saliva a Mountain View, na California, e receber online uma análise de seu DNA contendo sua predisposição genética para mais de 90 características e condições, incluindo da calvície até a cegueira.

Nesta progressão, é fácil imaginar terapias de aprimoramento genético e facilidades para a instalação de próteses cyborg (inorgânicas) muito mais poderosas e versáteis do que os órgãos que vierem a substituir. É claro que tais aperfeiçoamentos custarão muito caro, atingindo valores inimagináveis para a maioria dos humanos.  Com isto, o cenário imaginado por Harari prevê a coexistência, num futuro não muito distante, de humanos mortais com super-humanos imortais. As implicações éticas de tal coexistência são sombrias, remontando ao desprezo de humanos por outras espécies, sobreviventes ou extintas, com as quais dividem ou já dividiram o ambiente. Parte delas é perfeitamente resumida na seguinte citação:

“O que acontecerá quando se constatar que esses super-humanos tem experiências fundamentalmente diferentes das dos Sapiens ? E se super-humanos se entediarem com romances que contam as experiências de Sapiens ladrões inferiores, enquanto para os humanos ordinários as novelas sobre casos de amor entre super-humanos forem ininteligíveis ?” (p.352)

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Uma das principais ideias examinadas em Sapiens que retornam em Homo Deus é a noção de que o capitalismo é fundado sobre a possibilidade de crescimento ilimitado. No primeiro livro, Harari é mais didático, exemplificando com um ciclo vicioso (mas que se pretende virtuoso) onde um mesmo dinheiro (uma realidade imaginária) é sucessivamente emprestado à dona de uma padaria, que contrata um construtor para expandir suas instalações, que por sua vez deposita o dinheiro cobrado à padeira no mesmo banco ao qual ela o tomou emprestado – o qual passa a contar com um capital só aparentemente crescente (primeiro 1 milhão, depois 2 e assim sucessivamente). É por isto que, se todos os que depositaram alguma coisa em bancos retirassem ao mesmo tempo seus depósitos, os bancos quebrariam. Então, todo o sistema capitalista depende da confiança num crescimento constante (impossível, como veremos a seguir) no qual governos liberais se empenham em nos fazer acreditar.

Em Homo Deus, Harari avança neste tema ao comparar as noções medieval de riquezas limitadas e contemporânea de crescimento constante, alertando para seus limites. Antes da Revolução Científica, um proprietário de terras sabia o máximo que seus campos poderiam produzir e só concebia a ideia de acumular mais se subtraísse a outros. Capitalistas modernos, no entanto, já não reconhecem o esgotamento da capacidade produtiva. O que facilita esta ilusão é que, enquanto fontes de matérias-primas e energia são limitadas e esgotáveis, o conhecimento não está sujeito aos mesmos limites.

Assim, a história insiste em nos provar que, aos esgotarmos os recursos naturais necessários à produção de um bem, inauguramos um novo ciclo de prosperidade mediante a simples descoberta de novas tecnologias. Um bom exemplo disto é o domínio dos meios para a exploração de petróleo no pré-sal. Outro, já realizado, é a produção de energia por fissão nuclear, que ampliou enormemente o potencial de energia que poderia ser gerada uma vez esgotados todos recursos hídricos e as reservas de carvão e petróleo conhecidos.  Outro, apenas projetado e por isto mesmo objeto de intensa pesquisa, é a produção de energia por meio da fusão nuclear.

A naturalização da ideia de um crescimento ilimitado é bem representada pelos jogos. Se em velhos jogos de tabuleiro havia uma noção implícita de degradação do patrimônio (numa partida de xadrez, por exemplo, sempre terminamos com menos peças do que começamos – e mesmo que uns raros peões sejam promovidos a damas, há um número limitado de peões a serem promovidos ou, mais provavelmente, sacrificados); já em jogos recentes de computador como Minecraft ou Civilização os participantes são incentivados a construir, a partir do nada, casas, aldeias, cidades e impérios. Deste modo, os jogos que jogamos refletem perfeitamente aquilo em que acreditamos.

Por isto, logo no início do livro Harari pergunta, retoricamente, quem vai pisar no freio. É claro que ninguém. Pois o mito do crescimento ilimitado é crucial não só para o capitalismo como também para a cruzada em busca da felicidade na qual a humanidade está hoje empenhada. A despeito dos índices alarmantes de aquecimento global, há décadas os EUA vem se recusando a assinar os protocolos de limitação de emissão de gases causadores do efeito estufa, primeiro no Rio, depois em Kyoto e recentemente em Paris, tão somente para não interromper o ciclo de prosperidade e felicidade crescente de seus cidadãos. Além disto, os pobres (sempre os mais atingidos) teriam uma enorme dificuldade em aceitar uma desaceleração do crescimento, por ficar mais difícil acreditar na história do bolo que precisa crescer antes de ser repartido.

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Uma das mais instigantes formulações presentes em Homo Deus é a ideia de que a felicidade seja, antes de uma percepção subjetiva, tão somente resultante de reações químicas que variam no metabolismo de cada indivíduo. Segundo esta crença, indivíduos felizes o são tão somente em razão de um estado de equilíbrio bioquímico e independentemente de quaisquer estímulos externos, ao passo que os deprimidos o serão apesar de quaisquer gratificações que a vida lhes trouxer. Sendo assim, a felicidade é apenas uma questão de manutenção, em cada organismo, de níveis de substâncias estimulantes ou depressoras.

Soma-se a esta questão o fato de que o apetite humano por obter sempre mais felicidade e acumular mais riquezas materiais é, até onde se pode perceber, insaciável.

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De todas as projeções contidas em Homo Deus, aquela da qual Harari mais se ocupa é a de que, cedo ou tarde, todas as profissões humanas hoje conhecidas serão substituídas com vantagem por algoritmos inorgânicos.

Em The Future of Employment (Oxford, 2013), Carl Benedikt Frey e Michael A. Osborne investigam a probabilidade de diferentes profissões serem assumidas por algoritmos de computador nos próximos 20 anos. Segundo eles, 47% dos empregos hoje existentes nos EUA correm alto risco. Em seguida, enumeram, em ordem decrescente, a probabilidade que cada profissão tem de ser totalmente substituída por algoritmos:

operadores de telemarketing e corretores de seguro – 99%; árbitros de modalidades esportivas – 98%; caixas – 97%; chefs – 96%; garçons e assistentes jurídicos – 94%; guias de turismo – 91%; padeiros e motoristas de ônibus – 89%; operários na construção civil – 88%; assistentes de veterinária – 86%; seguranças – 84%; marinheiros – 83%; bartenders – 77%; arquivistas – 76%; carpinteiros – 72%; salva-vidas – 67%; e assim sucessivamente.

É claro que, segundo Frey e Osborne, em 2033 ainda haverá empregos seguros. Por exemplo: a probabilidade de que, até lá, se desempreguem arqueólogos é de apenas 0,7%.

O fato de humanos estarem cada vez mais se profissionalizando (especializando) em muito contribui para a absorção de suas profissões por algoritmos. Os caçadores-coletores que viviam na savana durante a Revolução Cognitiva há 12 mil anos atrás possuíam um complexo de competências muito mais difícil de ser substituído por algoritmos do que, digamos, um motorista, advogado ou médico dos dias que correm.

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Deixei para me ocupar ao final desta já longa resenha com duas das formulações mais caras a Harari que são, no entanto, facilmente objetáveis. Na primeira delas, afirma que o triunfo histórico do capitalismo sobre o comunismo se deve, mais do que a quaisquer méritos do primeiro quando comparado ao segundo, tão somente ao fato de que,

enquanto no comunismo todo processo decisório (isto é, a precedência disto sobre aquilo) se baseia num processamento centralizado de dados por uma autoridade única;

já no capitalismo tal processamento de informações é realizado de modo distribuído por uma multiplicidade de agentes que competem entre si em bolsas de valores, numa homeostase dinâmica e auto-regulável que atribui a cada coisa seu devido valor sem depender, para tanto, da intervenção de nenhuma autoridade central.

Talvez esta visão funcione em conexão com a economia de mercado. Não é suficiente, no entanto, para explicar por que o poder nas ditaduras comunistas é essencialmente distinto do poder em democracias liberais. Isto por que, tanto em regimes totalitários como nos democráticos, toda autoridade é central, se propagando descendentemente nas pirâmides administrativas sempre a partir da confiança de cada superior em seus subordinados, pela nomeação de detentores de cargos em comissão, ao invés de na confiança de cada conjunto de subordinados em seus superiores.

Admito que isto deva ser melhor explicado. De qualquer modo, não aqui. Que fique, então, apenas registrado que o processamento de dados distribuído, tido por Harari como principal vantagem histórica da religião capitalista sobre a comunista, não vale tanto para a política como parece valer para a economia.

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A outra formulação na qual pode parecer a muitos leitores que Harari esteja forçando um tanto a barra em prol de sua antevisão é aquela na qual, para negar a existência do livre arbítrio, reduz toda decisão tomada por humanos apenas ao resultado de algoritmos bioquímicos. Segundo esta ótica, tudo o que somos, pensamos e fazemos não passa de um produto de uma predisposição genética, contida em nosso DNA, com uma infinidade de fatores condicionantes ao qual respondemos de modo totalmente determinístico. Harari exemplifica isto, inclusive, com o controle de movimentos de ratos de laboratório por meio de estímulos transmitidos a seus cérebros por eletrodos neles implantados.

Mais. Ao considerar toda existência humana como algoritmos orgânicos, Harari antecipa que algoritmos inorgânicos (i.e., residentes em máquinas) e, portanto, desprovidos de consciência, sejam mais confiáveis e venham, efetivamente, a substituir os humanos num futuro não muito distante, dando origem a uma população de inempregáveis. Para ele, tais algoritmos, equiparáveis aos piores pesadelos imaginados em distopias de ficção científica, já estão entre nós. Basta nos atermos, por exemplo, aos algoritmos do Google ou do Facebook, oniscientes, que sabem mais sobre mim do que eu próprio, e que são criados por uma miríade de desenvolvedores sem que qualquer um deles tenha uma compreensão privilegiada do funcionamento do algoritmo como um todo.

É aí que reside, a nosso ver, uma das principais vulnerabilidades da antevisão distópica de Harari – já que, por mais desenvolvidos que se encontrem os algoritmos auto replicantes, que apreendem sozinhos por meio de redes neurais, sua arquitetura ainda está longe de ser determinada sem intervenção humana. Mesmo que macro projetistas ignorem detalhes das partes (isto deve ser bem comum em equipes de desenvolvimento de software).

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Ainda é muito cedo para se saber se Homo Deus, escrito há apenas dois anos, nos contempla com uma visão verossímil ou, ao contrário, fantasiosa e conspiratória sobre o futuro. Com sorte, em 50 ou 100 anos seus leitores se divertirão com os temores ali expressos, mais ou menos ao modo como nos divertimos hoje com as antecipações não realizadas de Orwell em 1984 – ou, na pior das hipóteses, se tenha que recorrer ao livro em busca de pistas sobre como se chegou até ali e o que fazer para escapar de um destino tão tenebroso.

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PS: Antes desta resenha, já havia me referido aqui a dois curiosos experimentos relatados em Homo Deus, devidamente contextualizados para o atual cenário político brasileiro.

 

 

Por que toleramos abusos cometidos por elites governantes; ou Onde falha o Jogo do Ultimato

É um grande equívoco considerar Yuval Noah Harari um historiador, ainda que sua formação deponha neste sentido. Pois seus escritos o definem muito mais como um filósofo que usa e abusa da história a fim de argumentar em favor de sua visão de mundo. Talvez por isto leitores mais rigorosos reputem suas narrativas como sensacionalistas, sem o devido rigor histórico. Ou não. Posso mudar de ideia, pois estou apenas a um terço da leitura de seu segundo livro, Homo Deus.

Para quem, como eu, estava entusiasmado com sua obra inaugural, Sapiens, o progresso através das páginas de Homo Deus pode ser um tanto decepcionante, posto que a maioria das ideias que ali se encontram já foram minuciosamente formuladas em seu primeiro livro. Isto tão somente até percebermos que, enquanto Sapiens pretende ser um um livro de história e, como tal, dedicado à ausculta do passado; Homo Deus retoma as mesmas ideias – só que, desta vez, no intuito de especular sobre o futuro.

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Uma das questões mais recorrentes a todo brasileiro contemporâneo mais ou menos informado é por que, afinal, apesar do abuso generalizado perpetrado por nossa classe política contra o povo, este último teima em permanecer, conquanto perplexo, absolutamente inerte. Não pretendo, aqui, conclamar nenhum levante armado nem tampouco alguma ruptura radical. Quero, tão somente, chamar a atenção para uma possível explicação para este estado de coisas segundo a concepção teórica de Harari. Para tanto, preciso que me acompanhem ao longo de uma linha argumentativa nada breve. A ela.

A hipótese de Harari para o fato do homo sapiens ter subjugado todas as demais espécies – levando, inclusive, muitas delas à extinção – difere da noção mais comumente aceita pelo senso comum de que a inteligência e a capacidade para a confecção de ferramentas são as competências que mais nos diferenciam de outros animais. Sustenta, ao contrário, que o que assegurou o domínio hegemônico de nossa espécie sobre as demais foi a capacidade de colaborar em grande escala e com flexibilidade em torno de objetivos comuns. Indo adiante, afirma que só desenvolvemos isto em razão de outra capacidade – a saber, a de criar realidades imaginárias compartilhadas por milhões de indivíduos, tais como religiões, nações ou dinheiro.

Grande parte dos capítulos iniciais de Homo Deus é dedicada à discussão de que

outras espécies de animais tem sensações, emoções e, quiçá, consciência análogas às humanas; e que

assim como outros animais, humanos tampouco são providos de alma.

Ao discutir a colaboração flexível em larga escala entre humanos, Harari a distingue da colaboração possível entre bandos com menos de 150 indivíduos por meio de dois experimentos, familiares a economistas e cientistas sociais, os quais, por conveniência, citamos extensivamente.

[…] o Jogo do Ultimato, um dos mais famosos experimentos em economia comportamental. Este experimento é em geral conduzido com duas pessoas. Uma delas ganha cem reais, que tem de dividir com o outro participante do jeito que quiser. Pode ficar com tudo, dividir ao meio ou entregar ao outro a maior parte. O outro pode ter uma de duas atitudes: aceitar a divisão sugerida ou rejeitá-la totalmente. Se rejeitá-la, ninguém fica com nada.

As teorias econômicas clássicas afirmam que humanos são máquinas de calcular racionais. Elas sugerem que a maioria das pessoas vai ficar com 99 reais e oferecer ao outro participante 1 real. Prosseguem sugerindo que o outro participante vai aceitar a oferta. Uma pessoa racional à qual se ofereça um real sempre dirá sim. Que lhe importa que outro jogador fique com 99 reais ?

Os economistas clássicos provavelmente nunca saíram de seus laboratórios e salas de conferência para se aventurar no mundo real. A maior parte daqueles que jogam o Jogo do Ultimato rejeita ofertas muito baixas por que as considera “injustas”. Preferem perder um real a serem vistos como babacas. Como é assim que funciona o mundo real, poucas pessoas fazem ofertas muito baixas e oferecem trinta ou quarenta reais ao outro jogador.

A partir deste resultado, Harari conclui que

sapiens não se comportam segundo uma lógica matemática fria, e sim de acordo com uma cálida lógica social.

Mais adiante, continua:

Em um experimento recente, o primatologista Frans de Waal pôs dois macacos-prego em duas jaulas adjacentes, de modo que cada um pudesse ver o que o outro estava fazendo.  De Waal e seus colegas puseram pequenas pedras em cada jaula e treinaram os macacos a lhes darem essas pedras. Toda vez que um macaco entregasse uma pedra recebia comida em troca. No começo, a recompensa era um pedaço de pepino. Os dois macacos gostaram muito e comeram os pepinos com satisfação. Depois de algumas rodadas, De Waal passou à fase seguinte do experimento. Dessa vez, quando o primeiro macaco cedeu uma pedra, ganhou uma uva. Uvas são muito mais saborosas que pepinos. No entanto, quando o segundo macaco deu uma pedra, recebeu uma fatia de pepino. Esse macaco, até então muito feliz com seu pepino, ficou enfurecido. Pegou-o e por um instante olhou incrédulo para ele; depois jogou-o com raiva nos cientistas e começou a saltar e a guinchar ruidosamente. Ele não era nenhum otário.

Esse hilariante experimento (que você pode ver no YouTube), assim como o Jogo do Ultimato, gerou uma crença de que os primatas possuem uma moralidade natural e que a igualdade é um valor universal e atemporal. As pessoas são igualitárias por natureza, e sociedades em que prevalece a desigualdade não podem funcionar bem devido ao ressentimento e à insatisfação.

Mas as coisas são realmente assim ? Essas teorias podem funcionar com chimpanzés, macacos-prego e pequenos bandos de caçadores-coletores. Também funcionam bem no laboratório, onde são testadas em pequenos grupos de pessoas. Entretanto, quando se observa o comportamento de massas humanas, revela-se uma realidade completamente diferente. A maior parte dos reinos e impérios humanos foi extremamente desigual, mas muitos foram surpreendentemente estáveis e eficientes.

Depois de ilustrar a última assertiva com a desigualdade reinante tanto no Egito dos faraós como na Prússia de Frederico II, Harari pergunta:

Por que os camponeses egípcios e os soldados prussianos agiram de modo tão diferente do que poderíamos esperar com base no Jogo do Ultimato e no experimento com macacos-prego ? Por que o comportamento de um grande número de pessoas é fundamentalmente diferente daquele apresentado por um agrupamento menor. O que veriam os cientistas se realizassem o experimento do Jogo do Ultimato com dois grupos de um milhão de pessoas cada, em que tivessem que dividir 100 bilhões ? Provavelmente eles testemunhariam uma dinâmica estranha e fascinante. Por exemplo, como um milhão de pessoas não são capazes de tomar decisões coletivamente, cada grupo teria de fazer brotar uma pequena elite governante. E se uma elite oferecesse à outra 10 bilhões, reservando para si 90 bilhões ? Os líderes do segundo grupo poderiam muito bem aceitar essa oferta injusta, injetar a maior parte dos 10 bilhões em suas contas em bancos suíços, enquanto contornavam a rebelião de seus seguidores com uma combinação de punição e recompensa. A liderança poderia ameaçar punir severa e imediatamente os dissidentes, ao passo que prometeria aos submissos e pacientes uma recompensa duradoura no pós-vida. Era isso que acontecia na Egito antigo e na Prússia do século 18, e é assim que as coisas ainda funcionam em vários países do mundo.

Harari conclui, então, que

[…] toda cooperação humana em grande escala baseia-se em última análise na nossa crença em ordens imaginadas. […] Sapiens usam com frequência marcas visuais, como um turbante, uma barba ou um terno formal para sinalizar: “Pode confiar em mim, acredito na mesma história em que você acredita”.

Ora, se substituirmos, nos parágrafos acima, as duas elites governantes a dividir os 100 bilhões por políticos e grandes empresários, teremos uma metáfora perfeita do atual cenário nacional. E os milhões por eles governados não terão,  conforme Harari e ao contrário do sugerido pelo Jogo do Ultimato, nenhuma resistência a serem tidos como babacas ou otários.

* * *

Anteriormente no mesmo livro, Harari explica que a história não instrumenta quem a conhece a prever o futuro – algo que reputa como impossível – mas contribui para que se evite repetir erros cometidos no passado. Oxalá fosse mais lido entre nós !

Sapiens – Uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari

Talvez a principal diferença imposta pela transição de um mundo, anterior à internet, de autores e não autores para outro onde todo e qualquer indivíduo é um autor (não importa de que, de uma mensagem eletrônica a um grande romance) seja que agora, ao contrário de como era antes, a leitura de toda obra caudalosa implique numa profusão de reações publicadas ao que foi lido. Pois já não basta ao leitor comum se deixar impactar por seu objeto de atenção; é preciso, mais do que isto, que cada reação pessoal a um determinado livro seja alardeada na esfera de atenção a cada leitor\autor.

De tal modo que a bela concepção do discurso de Mikhail Baktin tal qual uma malha de conexões entre nodos discretos correspondentes, cada um deles, a enunciados individuais (monológicos, na terminologia baktiniana, cujo melhor exemplo é o grande romance) dialogando entre si; é hoje melhor representada por uma nuvem na qual cada obra popular (best-sellers, se quiserem) está envolvida por uma massa indistinta de discursos que lhe fazem referência.

(não é de hoje que digo que, tivesse Baktin vivido por estes dias, teria sido sem dúvida o grande filósofo da internet. Pois ninguém vislumbrou melhor do que ele um modelo para a comunicação humana que tão bem acomodasse os agenciamentos virtuais)

Então, se antes, para decidir ler ou não determinado livro, dispúnhamos não mais do que de um punhado de textos críticos publicados em fontes confiáveis; há hoje, para cada obra de maior fôlego publicada, uma infinidade de apreciações residentes em sites e blogs de toda espécie, por autores que variam dos críticos mais profundos aos mais aventureiros franco-atiradores. Neste panorama, de pouca ou nenhuma ajuda são os engenhos de busca em se tratando de mapeá-los, não obstante o quão práticos sejam na hora de simplesmente levantá-los.

Neste universo de autoria quase universal (não canso de citar este artigo), todo leitor/autor possui, ao empreender a leitura disto ou daquilo, o por vezes inconfesso desejo de lavrar uma resenha capaz de atrair outros leitores para seu novo objeto de apreço. Pois, numa época em que um dos valores mais altos no capital social de cada um seja talvez existir perante outros como um formador de opinião,  a fantasia de descobrir algo bom até então incógnito a seus pares efetivamente move teclados e servidores.

Foi neste contexto que, ao visualizar, numa gôndola estrategicamente disposta à entrada de uma revistaria (vejam bem: não foi numa livraria !), a capa do primeiro e mais popular livro de Yuval Noah Harari em cujo topo havia uma tarja vermelha com a isncrição “best-seller internacional”, caí na real. Como assim, Brutus ? A tradução para o português da principal obra do autor tão instigante com o qual eu tomara contato por meio de um provocativo artigo publicado recentemente pelo The Guardian já estava em sua 22ª edição e ninguém me dissera nada. Foi como perder o melhor da festa. Ou desembarcar num planeta desconhecido. Naquele instante, tive a exata noção de que o livro não precisava de mais uma recomendação. Muito menos de uma resenha – até por que lemos, estampada em sua contracapa, uma daquelas frases pinçadas (do Financial Times, no caso) que diz “Este livro fascinante não pode ser resumido; você simplesmente terá de lê-lo.”

Resignado, iniciei de pronto a leitura de suas 400+ páginas – talvez o livro mais longo que li de cabo a rabo nos últimos dez anos. Isto não é pouca coisa, numa época em que apenas “degustamos” discos, livros e filmes para, só depois de uma experiência sensorial em primeira mão, decidir empreender ou não o tempo necessário à fruição da obra em sua totalidade. A nova economia da atenção é um tema fascinante, incluindo a subseção relativa à não tão recente mania das séries. Já falei disto e devo tornar ao assunto noutro momento.

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Os muitos e impressionantes méritos de Sapiens – uma breve história da humanidade são bem conhecidos. Por isto, optamos por nos concentrar num aspecto que lhe é singular. Desde as primeiras páginas, constatamos se tratar indiscutivelmente de um livro de história, daí decorrendo nossa perplexidade inicial. Pois não era, afinal, a condição de best-seller exclusiva, até então, de obras de ficção ou de auto ajuda ? Nesse sentido, um best-seller de história é um evento tão improvável como, digamos, um disco de música clássica (ou mesmo de jazz – daí a singularidade do Kind of Blue) no topo das listas dos mais vendidos.

Salvo se eu estiver enganado, grandes volumes dedicados à história tem geralmente um interesse restrito a círculos acadêmicos e/ou especializados. Por uma razão, em nosso entender, bastante simples – a saber, a de que as narrativas históricas são tremendamente previsíveis. Não há finais deceptivos. Quase sempre, sabemos como vai terminar antes mesmo de começar a ler. Não, no entanto, em Sapiens.

Sem dúvida alguma o principal talento de Harari é desafiar, a cada página, noções adquiridas pelo senso comum. Para tanto, trata primeiro de colocar para o leitor a história de nossa espécie na devida perspectiva. Quando chegamos, finalmente, à história dos dias que correm, temos a mais firme convicção (e isto é novo !) de que quase tudo aquilo em que acreditamos e que defendemos é fundado sobre o pouco que sabemos de um período de civilização extremamente curto, de poucos milhares de anos, se comparado aos bilhões de anos de história de nosso planeta e aos milhões de anos de nossa espécie. Com efeito, sabemos mais sobre os últimos 500 anos do que sobre tudo o que aconteceu antes.

Para se ter uma ideia do deslocamento que tal enfoque significa, basta verificar que, até há poucas décadas atrás, gastávamos mais tempo escolar estudando as chamadas revoluções comercial e industrial (ocorridas, respectivamente, há ca. 500 e 150 anos atrás). Já Harari narra a história da humanidade a partir das mudanças ocorridas pelas revoluções cognitiva (ca. 70 mil anos atrás), agrícola (há 12 mil anos), e científica (há 500 anos). É inegável que esta substituição de uma régua por outra, muito maior, possibilita uma compreensão bem melhor de como chegamos até aqui.

Harari parte da premissa, esmiuçada por muitos estudiosos, de que nenhum humano é capaz de conhecer suficientemente bem mais do que uns 150 de seus pares a ponto de ter confiança nos mesmos. Não por acaso, este é o número máximo de indivíduos num bando de grandes primatas que conseguem colaborar entre si. Para poder colaborar com um número maior de indivíduos, os sapiens desenvolveram, ainda no tempo dos caçadores-coletores anteriores à revolução agrícola, realidades imaginadas compartilhadas por milhões de pessoas, tais como religiões, estados, ideologias, dinheiro e afins. Tal é, segundo Harari, o que distingue os sapiens de outras espécies, humanas ou não – a saber, a capacidade de contar histórias, a qual possibilita a criação de realidades imaginadas. A certa altura, chega a desconstruir a fronteira entre as definições de religião e ideologia.

Ao se debruçar sobre a aceleração científica, tecnológica e econômica exponencial verificada ao longo de toda a história humana, Harari desafia a noção banalizada de que qualquer progresso nestas áreas tenha significado, necessariamente, um aumento de felicidade. Questiona, por exemplo, se o agricultor pré-histórico era mais feliz do que seus antepassados caçadores-coletores, ou se o homem contemporâneo, com todo seu acesso ao conforto material e tecnológico, é mais feliz do que o homem medieval. Os argumentos apresentados são contundentes. Mas não quero, aqui, fornecer nenhum spoiler.

É, no entanto, ao especular sobre possíveis cenários futuros resultantes da aceleração cognitiva e tecnológica em que estamos imersos que Harari bate mais forte. Ao declarar que a fome (hoje apenas política) e a guerra (hoje apenas localizada) são coisas do passado, chega a provocar a irritação de alguns leitores, que até mesmo abandonam a leitura sob a alegação de um total descolamento da realidade objetiva por parte do autor. ” E a África ? E Donald Trump ?”, dizem.

Em certo ponto, chega a propor que ninguém mereceria mais o Prêmio Nobel da Paz do que Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan que culminou com o desenvolvimento da bomba atômica – já que a ameaça permanente de um holocausto nuclear é a melhor garantia possível para a manutenção de uma paz duradoura. Argumenta que há mais pessoas que se suicidam anualmente do que vítimas de terrorismo, e que acidentes de carro matam mais do que guerras. Logo, o mundo nunca foi tão pacífico como agora – e se prestamos mais atenção às mortes violentas do que antes, tal se deve exclusivamente à combinação de sua escassez com seu realce midiático. A meu ver, é justamente este tipo de independência lógica que torna o pensamento de Harari tão fascinante.