Amusing ourselves to death – public discourse in the age of show business (1985), de Neil Postman

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Terminei de ler um livro fascinante, a saber, Amusing ourselves to death – public discourse in the age of show business, escrito por Neil Postman (1931-2003). Publicado em 1985, sequer foi traduzido para o português.

Até por volta do ano 2000 e antes de conhecer, portanto, a internet, lia tudo o que me chegasse às mãos precedido por boas recomendações. Depois, tendo adquirido a noção de excesso editorial que define os dias atuais, passei a declinar, por vezes com alguma frustração, da leitura da maior parte do que generosamente me indicam para dedicar o restante de meus dias exclusivamente a alguns daqueles textos que me parecem absolutamente imprescindíveis – como, no caso, este livro.

Por que tanta certeza ? Primeiramente, por se tratar de uma daquelas visões privilegiadas a explicar convincentemente o contexto a que chegamos no que diz respeito à circulação de informações. Segundo, por que o texto de Postman tem um alvo claro e convidativo, a saber, a televisão. Tais fatos, dos quais vim a saber por meio de um artigo do filho do autor publicado recentemente no The Guardian por ocasião da eleição de Donald Trump, foram suficientes para que eu importasse o volume (que, como já disse, espantosamente ainda não foi traduzido para o português) e me entregasse avidamente a sua leitura. No decorrer da mesma, não tardei a perceber, com grande prazer, que, dentre tudo o que li nos últimos anos, o livro é um dos que apresenta, talvez, a maior densidade lógica – categoria que formulei, não lembro ao certo onde, que significa a quantidade relativa de ideias expressas em uma certa extensão de texto.

Deste modo, é de se esperar que, salvo raras exceções, textos de não ficção tenham uma densidade lógica superior aos de ficção, que são, por natureza, mais descritivos, evocativos e, em muitos casos, redundantes. Sem nenhum demérito, pois assim é a literatura. Suficiente declarar, aqui, minha irrestrita preferência pelos escritos de alta densidade lógica – talvez, sei lá, em razão de minha impaciência. Precisaria nascer de novo para me tornar um leitor mais competente.

* * *

Mas estou a abusar da paciência dos leitores, pois lá já se foram quatro parágrafos e nada, até agora, do teor do volume incensado. A ele, então.

Em Amusing ourselves to death, Postman inaugura ou simplesmente pratica (me desculpem a falta de pesquisa, fruto da pressa, já que outras leituras me aguardam) algo a que convencionou chamar de epistemologia da mídia – pois, argumenta, todo meio de comunicação tem seu próprio modo de aquisição do conhecimento. Sem detalhar historicamente (apenas mencionando) a origem do alfabeto e da página impressa, descreve os primeiros séculos da história norte-americana como uma época de primazia absoluta do discurso impresso. Ou, em suas palavras, a Era da Tipografia, também chamada Era da Explanação. Tal período se caracteriza pelo alto apreço à argumentação lógica e pela abominação da contradição. Todos os grandes oradores, tanto da política como do direito ou da religião, se dirigiam a seus públicos por meio de discursos escritos, e a leitura era hegemônica em todas as camadas sociais na América do Norte colonial até a de meados do século 19. Ler, naquele tempo, à luz de velas ou mesmo à gás, depois das horas de trabalho, estava longe de se constituir numa atividade recreativa, exigindo, outrossim, um esforço devotado e deliberado. Assim, para os norte-americanos daquela época não faria o menor sentido a noção, como temos hoje, de “um problema de leitura”, nem tampouco a existência de uma disciplina curricular chamada “interpretação de texto”. Era, portanto, uma civilização amplamente letrada, capaz de acompanhar linhas de raciocínio extensas e complexas. Postman defende seus argumentos com números que denotam a existência, então, de uma enorme atividade editorial.

A grande ruptura tecnológica veio com a invenção por Samuel Morse do telégrafo, o qual, segundo Postman, aniquilou com a correlação até então existente entre comunicação e transporte. Mas não foi só isto. O telégrafo também deitou por terra a correlação existente, nos meios tipográficos, entre uma informação e aquela que a precede ou sucede. Com isto, a informação se emancipou da obrigatoriedade de um contexto – um dos principais atributos da circulação de informação na televisão até a época em que o livro foi escrito – quando Postman alertou, inclusive, para problemas futuros em relação ao computador, então ainda uma novidade. Imaginem o que teria pensado se chegasse a conhecer sua versão mais recente, os telefones móveis, e as redes sociais.

Depois de analisar, na primeira parte do livro, as transformações epistemológicas ocorridas na passagem da Era da Tipografia para a Era do Show Business, Postman se dedica, em sua segunda parte, ao comentário detalhado da degradação do discurso público sob o impacto da televisão em diferentes áreas, principalmente na política, na religião e na educação. Para tanto, se detém bastante sobre a linguagem dos comerciais. Sua tese é a de que o foco dos mesmos não são os produtos mas seus consumidores. Empresas deixam, assim, de investir em pesquisas sobre produtos para pesquisar mercados. Palavras de políticos se tornam irrelevantes quando apenas suas imagens passam a importar. O fenômeno Nixon é demoradamente discutido. No início, o público se importava com suas mentiras. Com o passar do tempo, não é que jornalistas tenham deixado de denunciá-las. A grande tragédia, para Postman, é que o próprio público deixou de lhes dar importância. Pois contradições dependem da existência de um contexto. Numa sucessão rápida de imagens da qual é abolido qualquer contexto, toda contradição perde seu sentido.

Contra tal estado de coisas, o autor desqualifica como naive uma série de antídotos propostos por terceiros para, em seguida, formular o seu – o qual, no intuito de não oferecer um spoiler (pois quero, afinal, que vocês empreendam o esforço de ler o livro em inglês), declino de revelar.

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Me referi, no início desta resenha, à grande densidade lógica da obra-prima de Postman, que conspira contra qualquer redução abrangente de seu conteúdo. É, pois, suficiente dizer que os dados e casos que arrola para ilustrar seus pontos de vista são tão ricos quanto contundentes. Um exemplo. Embora os 15 primeiros presidentes norte-americanos (que viveram na Era da Tipografia) provavelmente não seriam reconhecidos ao circular pela rua (eram conhecidos por seus discursos), em tempos mais recentes, sob o domínio da imagem (na Era do Show Business), ninguém teria dificuldade alguma em reconhecer a imagem de qualquer celebridade, de Einstein a políticos e artistas, sem conhecer, no entanto, na maioria das vezes, o mínimo de suas palavras, ideias ou obras. Noutra passagem, lembra que não há sequer uma única imagem do carrancudo Lincoln sorridente – e que, portanto, este jamais seria eleito nos dias de hoje. Ainda noutra, informa que a Associated Press foi fundada apenas 4 anos (!) depois da invenção do telégrafo, germe da descontextualização da informação nos meios de comunicação.

Outro dos pontos altos do livro é o elenco de autores citados, que declino de enumerar tão somente para não cometer injustiças por omissão. É preciso no entanto, mencionar dois gigantes, autores de duas das maiores distopias escritas em língua inglesa no século 20, a saber, Aldous Huxley, autor de O Admirável Mundo Novo, e George Orwell, que escreveu 1984. Postman considera estas duas obras paradigmáticas e diametralmente opostas no que tange ao modo pela qual a estabilidade política do mundo seria alcançada. Alega que a profecia de Orwell, fundada sobre uma rigorosa vigilância estatal, não se realizou (ao menos nas democracias ocidentais); já a de Huxley, baseada na submissão dócil e voluntária de cada indivíduo à sua condição social, foi perfeitamente realizada na Era do Show Business, tendo a exacerbação do entretenimento, por meio da televisão, como meio principal de sustentação.

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The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Academy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber

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The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Adademy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber (University of Toronto Press, 2016), é um daqueles livros impossíveis de serem lidos a não ser quando já temos em mente resenhá-los. O título atua como um imã sobre quem quer que já tenha experimentado algum tipo de desconforto ou insatisfação com quaisquer aspectos da vida acadêmica de algum modo associados à cultura da velocidade a que aludem.

Não é difícil para qualquer professor e/ou pesquisador experimentado se identificar com tal cultura. Até por isto, optamos por, em vez definir no que consiste esta cultura, deixar ao leitor que intua seu sentido por meio de situações, relatadas no livro e transcritas alguns parágrafos abaixo, que ilustram exemplarmente sua atual banalização em ambientes acadêmicos.

O título, apelativo, me fisgou de pronto. Tanto que, mal soube da existência do livro através de uma postagem de Éder Silveira no facebook, tratei logo de lhe adquirir e ler, sublinhando e anotando furiosamente, despudoradamente anunciando esta resenha muito antes de ter iniciado a leitura. Por que tanta certeza sobre meu entusiasmo acerca do que sequer havia lido ? Ora, por que, no instante em que li o irresistível título, tive a plena convicção de que encontrara, finalmente, minha turma.

As ideias de slow teaching e slow research, desdobramentos no campo acadêmico de princípios observados por adeptos ao movimento conhecido por Slow Food, são solenemente explicitadas, logo no prefácio da obra, por meio de um partisaníssimo The Slow Professor Manifesto. Para se referir à cultura de velocidade acadêmica a que aludem no título, as autoras recorrem a dois conceitos fundamentais, intraduzíveis, a saber, o de

corporatization (corporatização ?) da academia e o de

collegiality (colegialidade ?).

Em sua argumentação, observam que, no âmbito acadêmico e numa linha de tempo recente, um crescimento do primeiro parâmetro correspondeu a um declínio do segundo.

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Para leitores mais velozes, poderia encerrar a resenha por aqui. Vale a pena, no entanto, esmiuçar um pouco o pequeno volume, de menos de cem páginas. Pois, para estimularem a leitura do livro, suas autoras acordaram desde cedo manter o texto sucinto.

Os nomes dos capítulos de The Slow Professor dão uma ótima ideia de seu conteúdo. São eles “Gestão Temporal e Falta de Tempo”, “Pedagogia e Prazer”, “Pesquisa e Compreensão” e “Colegialidade e Comunidade”. Alguns deles foram escritos individualmente por uma das autoras. Outros, bem como a introdução e a conclusão, são frutos de um processo de escrita colaborativa entre as duas. Há, em todo o livro, fartas referências à colaboração híbrida que lhe deu origem.

Numa primeira leitura (pois se trata, sem dúvida, de uma obra de referência), The Slow Professor pode parecer uma imensa revisão bibliográfica. Pois tudo o que já foi dito sobre o assunto está lá. Cabe aqui, no entanto, um parêntesis. Sempre reputei revisões bibliográficas como as partes mais enfadonhas dos (poucos) documentos acadêmicos que li. Mas aqui não ! Não sei se pelo critério de corte, pela qualidade das citações e menções ou por ambos, The Slow Professor é, de longe, a melhor revisão bibliográfica que conheço. Pretendo voltar a ela muitas vezes em busca de inspiração e orientação para leituras a empreender.

Para equilibrar a aridez enciclopédica e burocrática inerente às revisões bibliográficas, as autoras pontuam o texto, aqui e ali, com relatos, por vezes anedóticos, que bem ilustram o absurdo a que não raro chegamos. Como os seguintes.

Tendo perguntado a uma aluna se lera a uma bibliografia exigida, uma das autoras obteve como resposta: “ – Parte dela. “

Tratando da fragmentação exacerbada do tempo acadêmico, da descontinuidade do ritmo produtivo e criativo – e de como ambos estes fenômenos podem interagir perniciosamente, falam de relatórios exageradamente detalhados, como os já exigidos por muitos órgãos de fomento, que, numa situação extrema, poderiam conter relatos como “ às 9:00, escrevi uma frase; às 9:30, a deletei… ”.

Mencionam uma colega docente que, tendo recém publicado DOIS livros, se preocupava com o fato de que, no ano vindouro, teria a agregar a seu currículo APENAS participações em congressos.

Outros trechos que sublinhei, transcritos abaixo, dão perfeitamente conta, se considerados em seu conjunto, de caracterizar o que seria a cultura de velocidade na academia.

” … a persistente percepção de professores como uma classe “folgada”, dada ao prazer, produziu uma cultura de culpa e sobrecarga de trabalho. “

” Flexibilidade de horário pode se traduzir em trabalhar o tempo todo, particularmente por que o trabalho acadêmico, por sua própria natureza, jamais se dá por concluído. Nossas respostas aos trabalhos dos alunos sempre podem ser mais detalhadas; nossa leitura de literatura especializada sempre pode ser mais atual; nossos livros sempre podem ser mais exaustivos. “

” … explica a um estudante de pós-graduação que reclama que seu supervisor nunca está disponível que provavelmente lhe falta tempo; que ele provavelmente está demasiado ocupado atendendo a reuniões, preparando orçamentos, gerenciando e avaliando pessoal e fazendo todas essas coisas que professores fazem hoje ao invés de pensar. “

” A falácia da accountability (outro termo intraduzível), definida como a crença de que o processo de relatar uma atividade na forma apropriada de algum modo garante que algo de real valor foi adequadamente feito. “

” … a corporatização levou à padronização do aprendizado e a um senso de urgência […] “ ou, como diz um dos autores citados, ” à passagem da ignorância ao esclarecimento em um espaço determinado de tempo (um que seja o mais curto e padronizado possível). ” “

” a danosa concepção, no atual ethos acadêmico, de excelência como um estado de ‘ não ficar parado ‘. “

” Dividir nosso tempo em intervalos cada vez menores e mais precisos não é uma solução a longo prazo. “

” […] o número de páginas que lemos em uma hora varia amplamente, dependendo do que se está lendo e com que propósito. “

” […] pesquisa (a criação de conhecimento) e aprendizado (a criação de conhecimento dentro de alguém) precisa ser medida de um modo totalmente diferente do modo como medimos o trabalho industrial […] o que precisamos é de thinkology em vez de technology. “

” O prazer é, como o movimento Slow Food deixou claro, inimigo do mundo corporativo. “

” Ensino e aprendizado são cada vez mais vistos como aspectos meramente colaterais da descoberta e da pesquisa aplicada. “

” Ser ético pode verdadeiramente significar ser, por vezes, ineficiente. “

” Pensar pertence mais a uma economia de desperdício do que, propriamente, a uma economia restrita de cálculo […] “

” Horácio recomenda que se espere nove anos entre escrever e publicar. ” (!)

” Alunos de pós-graduação, dada a escassez de financiamento e falta de perspectivas de trabalho futuro, são particularmente vulneráveis à cultura da velocidade […] “, passando a sofrer de um mal que um dos autores citados define, apropriada e divertidamente, como publicatio praecox.

A prevalência atual, em ambientes acadêmicos, de uma publish or perish culture também é mencionada.

A certa altura, citam um texto no qual alguém chega mesmo a sugerir que alunos de pós-graduação assumam parte das tarefas do trabalho docente no que tange, por exemplo, ao peer review de artigos (!). Sabemos a utilização de alunos como força-tarefa para desonerar docentes de suas atribuições está longe de ser uma ideia remota.

E assim, por meio de exemplos frequentes no dia a dia de qualquer professor, tecem um claro panorama daquilo em que consiste a cultura de velocidade na academia – tida como decorrente, acima de tudo, de um posicionamento cada vez mais empresarial das instituições de ensino superior, o qual se traduz, no cotidiano acadêmico, na crescente pressão por resultados regulares e a curto prazo.

O estudo não se limita, no entanto, a apontar, em tom de denúncia, a condição doente em que a universidade se encontra. Em uma de suas partes, as autoras adotam um caráter mais prescritivo, declaradamente de auto-ajuda, sob a forma de comportamentos a serem adotados por quem quer que queira combater ativamente a cultura de velocidade que se enraizou tão profundamente no mundo acadêmico. Só que, a pretexto de não oferecer um spoiler (pois quero que leiam o livro !), não vou me referir à receita nesta resenha.

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Gostei muito de achar, entre os autores citados, pensadores recentes da cena digital como Sherry Turkle (Alone Together, 2011) e o guru dos netskeptics Nicholas Carr (The Shallows: what the internet is doing to our brains, 2010). Exatamente por isto, estranhei não encontrar, no excelente “inventário de campo” produzido por Berg & Seeber, um texto que considero fundamental à cultura colaborativa, a saber, Where good ideas come from, de Steven Johnson (2010).

Mas isto é o de menos. Com ou sem menção à hipótese de Johnson, The Slow Professor é um livro que não pode faltar à cabeceira de qualquer professor e/ou pesquisador universitário que leve seu métier minimamente à sério. Quem se anima a traduzir ?

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Maggie Berg e Barbara K. Seeber

Sobre telas, gente que não vê televisão e, ainda, o Admirável Mundo Novo

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Uma das maiores virtudes de um bom livro é permanecer vivo na mente por mais tempo do que o ordinário do restante que se lê. Assim é comigo. Enquanto ainda não posso devorar Amusing ourselves do death, sigo matutando sob o impacto do futurismo distópico de Huxley. Aqui, especulando sobre o que seria, em nossa civilização, análogo ao soma.

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Frequentemente topo, em conversas que tenho no facebook, com gente que não assiste TV. Fosse eu um antropólogo, entrevistaria tantos destes espécimes quanto conseguisse.  Pois se tratam, praticamente, de selvagens, heroicamente sobrevivendo numa era de (ainda) hegemonia televisiva.

Televisão não quer dizer hoje a mesma coisa que significava quando foi inventada. No início e por um bom tempo, a TV só dava acesso à visualização de conteúdos de pouquíssimas redes e emissoras. Então vieram os canais a cabo e por satélite, bem mais diversos. Hoje, telas adquiridas como aparelhos de TV são amplamente utilizadas para a visualização, bem mais customizável, de séries no Netflix ou vídeos no Youtube. Diante de tais possibilidades, millennials se interessam cada vez menos por conteúdos da TV aberta – preferindo, antes, garimpar conteúdos melhores na internet. Tenho que concordar que não é nada difícil.

Se por um lado a qualidade das grandes telas, propícias à sinestesia, melhorou tremendamente, é preciso também que consideremos outro aspecto importantíssimo de sua evolução, a saber, a miniaturização. Cujo “estado da arte” é hoje o telefone celular.

Tendo surgido despretensiosamente como mera extensão móvel do telefone fixo, o celular logo se revelou um Gargantua de funções ao incorporar, pouco a pouco, recursos de internet. Mais: em memórias cada vez mais generosas, tem hoje residentes, em boa resolução, toda a música que alguém gosta de ouvir, suas imagens favoritas e acesso imediato, por vários meios, a qualquer de seus amigos, colaboradores ou conhecidos. O que mais alguém pode querer para ser feliz ?

Desde que o celular se tornou demasiado interessante para só ficar guardado no bolso, sua onipresença se tornou facilmente constatável em quaisquer ambientes.. Cada nova geração do iPhone é aguardada e celebrada como um título mundial. Já foi até noticiado o caso de um “empresário” que aluga aparelhos caros (e vistosos !), sem linha, a usuários que fingem usá-los em festas. Youtubers são campeões de audiência, e há mesmo quem prefere adormecer olhando para uma tela. A primeira coisa que a maioria dos jovens trata de descobrir ao adentrar um novo ambiente é a senha do wi-fi.

Em nossa civilização, passamos uma parte considerável de nossos dias em deslocamento de um lugar a outro. Estejamos atravessando bairros, cidades, países ou continentes, é predominantemente nestes momentos que vemos o mundo ao redor. Antes, era comum se espreitar o mar sobre decks de navios, ver a paisagem através de janelas de trens, ônibus ou carros, de bicicleta ou a pé, ou até por escotilhas de aviões. Hoje, quase sempre em lugares públicos estamos cercados por pessoas com a atenção drenada pelas pequenas telas de seus dispositivos móveis. É o mesmo em meios de transporte, salas de espera, mesas de bares e restaurantes e, se deixarem, até em salas de aula.

Face a tudo isto, gosto de pensar que o soma, idealizado por Huxley como uma substância capaz de anular toda possível frustração (que garantia, portanto, em seu livro, uma civilização sem tédio), é, em muitos aspectos, análogo ao que temos hoje no telefone celular. Poderia explicar em miúdos, mas seria um insulto à inteligência dos leitores.

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Sobre o fim das grandes formas, ao término de um livro e à espera de outro

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Aldous Huxley

Livros, ainda. Alguns se conectam ao longo dos séculos ou,  mais recentemente, das décadas, dada a evidente aceleração histórica de nossa época. Como, por exemplo, alguns de Shakespeare (que devem se conectar com muitos !), escritos entre os séculos 14 e 15; o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, da primeira metade do século 20 e, de apenas meio século após, Amusing ourselves do death, de Neil Postman.

Recentemente, tive minha atenção voltada para o último por conta de um excelente artigo do filho de seu já finado autor publicado no Guardian. Tendo rapidamente descoberto que ainda não havia sido traduzido para o português, tratei logo de importá-lo. No tempo que ainda me falta para finalmente tê-lo em mãos, procedi, então, ao preenchimento de outra enorme lacuna de leitura: o clássico Admirável Mundo Novo (Brave New World), de 1932.

Notem que, nos casos acima, as referências vão muito além de meras citações – sendo, outrossim, essenciais à conceituação das obras que se referem a outras. O próprio nome do clássico de Huxley, estampado já em sua epígrafe, vem de uma passagem de A Tempestade, de Shakespeare. Tratam-se, pois, de textos que, como diria Bakhtin, dialogam entre si. Curioso que estou de saber como o livro de Postman dialoga com o o de Huxley, me consolo, enquanto ele, todavia, não chega, anotando ideias desencadeadas pela leitura da clássica distopia de Huxley.

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Podemos entender nosso tempo como uma era de morte das formas longas. No filme cult dos anos 70 “Jonas que terá 25 anos no ano 2000”, de Alain Tanner, o protagonista imaginava diariamente, ao pedalar para o trabalho, as longas “preleções” (chautauquas) que daria os filho que estava para nascer. Nelas, deitava clara sua visão de mundo – o que não é pouco !

Duas décadas e meia mais tarde,  ouço de um experiente psicólogo que a melhor maneira de se comunicar com adolescentes é por meio de falas curtas. Percebem a diferença abissal entre as duas formas de discurso ? De um lado, chautauquas. De outro, máximas proverbiais. Ou, como no livro de Huxley, a educação hipnopédica, que consistia no condicionamento moral dos indivíduos pela repetição, várias vezes ao dia por meses a fio (qualquer semelhança com frequência e período de exibição de anúncios publicitários não deve ser mera coincidência…), de bordões, repetidos como mantras, durante seus períodos de sono, reforçando o que seria ou não socialmente desejável.

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Neil Postman

Antes de ler o livro de Postman, sei, em grande parte por meio do artigo de seu filho no Guardian, que a tese de fundo de Amusing ourselves to death é a ideia de uma civilização fundada sobre a diversão e a gratificação – e, portanto, não mais sobre a reflexão e a permanência. Consideremos a máxima, cuja autoria me foge à memória, de que é a morte que define a vida. Haveriam, assim, vidas esquecidas (a maioria) e, em quantidade bem menor, lembradas. No último caso, invariavelmente por seu legado – que pode ser, por sua vez, material (afeito à posse) ou intelectual (científico ou artístico; afeito à autoria e avesso à propriedade). Tomemos, então, o seguinte referencial

antes, não que educava mais para querer ser lembrado por algum tipo de legado (material ou não; todo empresário visa, ao final, a uma herança, assim como todo artista quer, acima das circunstâncias temporais, deixar uma obra legada para a posteridade);

hoje, não estamos envolvidos por uma cultura na qual a maioria trabalha, antes de tudo, em nome do máximo de entretenimento e bem estar material que possa, porventura, conquistar. Em vida ou, quando muito, para seus sucessores biológicos.

Neste último cenário, as grandes formas narrativas (tais como grandes romances, novelas, contos, ensaios, sinfonias, concertos, música de câmera, ópera, filmes (notem que não falo em séries !) e outros) perdem importância e espaço para enunciações mais sucintas (tais como singles, tweets, posts em redes sociais, mensagens instantâneas e afins). O fim do conceito de álbum é um dos sintomas mais precoces disto.

O fim das grandes formas discursivas também pode ter a ver com a evolução das tecnologias. Queira-se ou não, foi só depois do surgimento da internet qua a autoria quase universal teve que privilegiar (pelo excesso discursivo, como já dissemos) falas mais curtas. Compare-se, por exemplo, a extensão média dos enunciados em redes sociais (postagens no facebook, twitter e outras plataformas de mensagem textuais e visuais) com a de romances, novelas, contos, artigos e notícias da era anterior, de hegemonia do texto impresso.

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Insisto na importância, para toda edição de qualquer livro, da escolha dos tipos mais adequados. Vejam, por exemplo, uma comparação entre edições de Admirável Mundo Novo da Globo, da qual já reclamei aqui, e da Abril, encadernada – a qual descobri escondida em minha modesta biblioteca só depois que terminei de ler o volume novo que recém adquirira.

Não me senti um idiota por ter gasto com um livro que já tinha – mas por ter desnecessariamente enfrentado uma leitura mais penosa tão somente por ignorar que dispunha de uma edição com tipos bem mais amigáveis. Ainda que o espaço entre linhas seja, no volume da Globo, bem mais confortável e elegante. Os dois livros em números: o da Globo tem 306 páginas de 29 linhas; o da Abril, 310 de 32.

Não sei vocês, mas eu pagaria de bom grado por um pouco mais de papel. Não só no tamanho da folha como na gramatura (o papel da Abril é, como podem ver abaixo, mais transparente). Pois nenhuma leitura que não seja confortável pode ser prazerosa.

À esquerda, página da edição da Globo; à direita, da Abril.

Respeitável Público, de Henrique Schneider, e considerações sobre o problema da leitura numa época de escrita excessiva

Livros. Ontem, tentei explicar a meus filhos que um dos maiores problemas de nossa era de excesso de conteúdo é que, ao contrário de como costumava ser logo antes do surgimento da internet – quando, sob a  hegemonia dos broadcasting media, tínhamos  uma coleção mais ou menos delimitada suficientemente ampla de textos máximos cuja totalidade representava tacitamente tudo o que de mais notável já fora produzido pelo espírito humano; vivemos hoje numa época em que a quantidade de textos disponíveis se multiplicou exponencialmente, de tal modo que é impossível a qualquer um ler, ao longo de uma vida, tudo o que a humanidade escreveu de importante até agora.

Então, se antes, com alguma dedicação, se podia, ao longo de toda uma vida, ler quase tudo o que de mais sublime a humanidade já produziu; hoje, seguramente, não. Até por que, para começar, teríamos enorme dificuldade em discriminar o essencial do excessivo numa era de expansão exacerbada da autoria (age of nearly universal authorship, significando que nunca antes tantos escreveram tanto).

Foi quando Astrid me disse que um leitor dedicado é capaz de ler um livro por dia; um profissional (i.e., que divide a leitura com outras ocupações), um a cada 3 ou 4 dias.

Então, podemos grosseiramente afirmar que lemos, na maioria das vezes, mais ou menos na mesma “velocidade lógica” em que vemos um filme, ou seja, na medida em que, em nome da “apropriação” de uma narrativa, suportamos frustrar nossa expectativa de um desfecho dramático por uma ou duas horas. Ou, no caso da música (sem entrar na controversa seara da complexidade harmônica – nem que só para não despertar os ânimos mais exaltados), de formas mais ambiciosas. Na prática, falo da duração da maior forma não repetida que é ouvida em cada música. Naquela chamada de “popular” (jazz, inclusive), se costuma ter como extraordinária qualquer coisa com 5 ou mais minutos de duração (“a 5+, 6+, 7+ or longer track”); na “clássica” ou “erudita”, nada que não tenha lá seus 12 ou 15 minutos. Coisas de 3 minutos ou menos ? Desconfiem sempre. Tal preconceito, que orgulhosamente professo, tem me ajudado a discriminar muito lixo dentre tudo o que há, na era de excesso em que estamos, para ser ouvido.

Em todos os casos, a leitura de um livro implica num tipo de foco mais prolongado. Uma sorte de atenção praticamente desconhecida na cultura mobile, cujos feeds se atualizam à razão de até muitas vezes por minuto.

(já devo ter dito aqui, mais de uma vez, que, no contexto atual, Bakhtin de esbaldaria com sua teoria do discurso articulado pela alternância de falantes)

Distopias com a proscrição de livros existem às pencas. As melhores que conheço são as novelas Admirável mundo novo, de Huxley,  e Fahrenheit 451, de Bradbury, filmada por Truffaut. Enquanto na primeira o banimento da leitura se dá pelo condicionamento, na última se deve a uma proibição. Por ser, de algum modo, menos violento (não, havendo, por exemplo, a poderosa figura da queima de livros), o primeiro é muito mais perverso e eficaz do que o segundo.

Quem me conhece a mais tempo sabe que, por volta de quando tinha 30 anos, me tornei um “leitor de catálogos e manuais”. A alcunha, criada pelo Milton, não poderia ser mais precisa, pois venho lendo, por décadas, tão somente textos longos referentes a alguma preocupação bem específica de índole técnica ou acadêmica. Com isto, os poucos textos de ficção que li nos últimos 20 ou 30 anos foram quase sempre presentes de amigos que escrevem bem. Muito bem. Tenho sorte quanto a isto. Então, costumo ler (talvez, sei lá, por medo de não saber o que dizer ao lhes reencontrar), contos ou novelas que me chegam carinhosamente às mãos (ou à vistas, se quiserem) como presentes de seus autores. Como Respeitável Público, de Henrique Schneider (Dublinense, 2015).

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Lendo Respeitável Público, se descobre rapidamente por que seu autor já teve ao menos uma história roteirizada para o cinema. É que suas descrições de lugares, ações e personagens grudam na memória como as melhores cenas de um filme. Os diálogos são, mais do que precisos, cirúrgicos, desprovidos de quaisquer acessórios. Dignos, no mínimo, de bons dramaturgos.

Li em poucos dias (mais, é claro, do que nas poucas horas levadas por Astrid para devorá-lo). Livros e filmes, de assimilação lenta por definição, tem que ter, como bons pratos, um certo after taste. Há, na novela de Schneider, twists (nós) dramáticos claros, de diferentes intensidades, ao longo de toda a narrativa, guarnecidos por capítulos adjacentes como cenas de um filme bem montado. Como em muita boa música (mostly jazz & late romantic) e, de resto, em toda boa literatura policial, o uso inteligente das cadências deceptivas. Tanto que arrisco até o palpite de que tais injunções foram planejadas pelo autor, como em algumas composições de Beethoven, bem antes do próprio detalhamento do texto. Como, no entanto, não queremos oferecer spoilers, é suficiente por hora dizer que o principal contraste de tensão dramática existente entre dois pontos da obra, para os quais toda a narrativa converge, é entre os acontecimentos (ou cadências deceptivas, se quiserem) que culminam, respectivamente, nas páginas 110 e 126 do volume. Curioso ? Leia o livro, então !

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Ainda que irrelevante para a atribuição de qualidade ao teor do livro acima resenhado, o que será dito em seguida é, a meu ver (no second meanings, please !), de crucial importância para garantir alguma audiência a tudo o que ainda é impresso em papel. Tem a ver com tipografia. Parece pouco importante ? Vamos, então, a alguns fatos.

qualquer texto impresso é lido com mais facilidade (e, portanto, maior prazer) quanto maior for a fonte tipográfica utilizada na composição do volume;

a iluminação, tanto de telas como de papéis impressos, também contribui, em razão direta, para a legibilidade de um texto;

indivíduos com mais idade tendem a ser mais preparados e/ou predispostos para a leitura do aqueles mais jovens, notadamente nativos digitais; tragicamente, no entanto, a visão humana se deteriora com o avançar do tempo.

Em razão disto, o tamanho e o contraste de uma fonte tipográfica são fatores cruciais para a maior ou menor leitura de qualquer coisa que se imprima. Especialmente no caso de livros, que demandam uma atenção mais persistente. Os quais, por cansarem mais a vista em razão da demora na leitura, demandam tipos visualmente mais confortáveis.

Por que tudo isto ? Tão somente para sublinhar que, no caso do volume que acabo de ler da Dublinense, contribuiu para a manutenção de meu propósito de enfrentar o (ótimo) texto até o final, tanto quanto sua qualidade intrínseca, também o fato de ter sido impresso num ótimo papel com letras suficientemente grandes e “pesadas” – como se impressas em negrito (ou bold) para vistas mais cansadas. Tipos serifados, como Times Roman, também são bem mais legíveis, quando impressos em papel, do que, por exemplo, o que utilizamos aqui.

Editores: jamais subestimem os benefícios de uma boa composição tipográfica !

Pois não devo ser o único a padecer de pouca paciência com fontes rarefeitas e tipos pequenos demais. Agora mesmo, sofro com as minúsculas letras de uma outrossim belíssima edição da Globo de Admirável mundo novo – lacuna de leitura à qual prazeirosamente hora me dedico. Para melhor ler Amusing ourselves to death, de Postman, assim que  chegar.

Comparação entre os tipos utilizados em volumes publicados pela Dublinense (acima) e pela Globo (abaixo)

Caixinhas (i) ou para ouvir Bill Evans (ii)

jazz audience 26Caixinhas é como chamamos aquelas embalagens contendo vários CDs abarcando ciclos composicionais maiores do que a música que cabe em apenas um disco. Em música clássica (na ausência de um termo melhor, prefiro clássico a erudito simplesmente por ter 25% menos sílabas), caixinhas contém geralmente ciclos integrais de sinfonias, quartetos, trios, sonatas e afins de um mesmo compositor, capturados em gravações realizadas ao longo de largos períodos de tempo.

Em música popular, não vi muitas caixinhas a não ser de jazzistas importantes, contendo na maioria das vezes vários takes alternativos de cada música, na maioria versões descartadas à época dos lançamentos originais em LPs e, depois, CDs. Caixinhas de discos de jazz contém, então, sempre versões improvisadas diferentes de umas poucas músicas gravadas durante curtos períodos de tempo. Mais. Grandes jazzistas retornam, em diferentes momentos de suas carreiras, a uns mesmos poucos temas. Há muito mais o que falar sobre isto. Mais tarde, talvez.

Caixinhas decorrem de certo modo da não existência, na indústria fonográfica, de objetos de diferentes valores distribuídos através de um mesmo meio. Explico. A indústria automotiva oferece carros dos mais diversos valores. O mesmo sucede no setor imobiliário. No fonográfico, no entanto, há pouca ou nenhuma diferença entre os valores de comercialização de discos de variadíssimo valor artístico. É, pois, tão somente por meio do agrupamento em coleções de CDs com várias horas de música que esta indústria que luta contra sua própria extinção logra oferecer objetos mais caros a  fãs e colecionadores ávidos.

Também não esperem topar com muitas caixinhas que não sejam de obras terminadas. Pois Investidores apostam mais em coisas de artistas mortos. Sejam sinfonias de Beethoven ou canções da Legião Urbana. Do mesmo modo, coleções monumentais como, por exemplo, dos Beatles devem ser bem mais populares do que dos Rolling Stones e outros que ainda estejam na estrada. Mas é só uma suposição. Não conheço este mercado.

* * *

Foi tomado por esta atração irresistível que todo fã sente por bocados colecionáveis da obra de uns poucos ídolos que topei dia desses, ao mesmo tempo (!) com duas coleções de improvisadores pelos quais nutro especial apreço, a saber, a integral dos sets gravados em um dia pelo trio de Bill Evans com Scott LaFaro no Village Vanguard em 1961 (3 CDs) e todas as 49 faixas deixadas por Clifford Brown com o quinteto de Max Roach (4 CDs).

Acabo de ouvir na íntegra os sets gravados pelo trio de Evans no Vanguard em 25 de junho de 1961, apenas dez dias antes da trágica morte de LaFaro com apenas 25 anos num acidente automobilístico.

Clifford Brown também morreu num acidente automobilístico com 25 anos.

Designers de caixinhas de CDs costumam caprichar no visual. Pois deve ser, por vezes, bem difícil persuadir audiófilos a replicar em CDs itens já existentes em suas coleções de LPs. Nesta hora, embalagens luxuosas, incluindo amplas referências, rico material gráfico e até latas personalizadas, fazem toda a diferença.

Já conhecia de longa data os highlights, editados num único CD, dos sets do trio de Evans no Vanguard em 61. Uma das tantas vantagens de se descobrir, décadas depois, em raras e quase inaudíveis (pois os microfones estavam posicionados para captar o som dos instrumentos e não a voz dos músicos) falas de Evans, preservadas nestas integrais, uma fina ironia acerca da franca indiferença do público de então à sua música. Situação bem diferente, como já apontamos anos atrás, daquela quando do retorno de seu trio ao mesmo santuário em 1980.

Da breve e fértil colaboração de Clifford Brown falarei outra hora.

Clifford 1

 

Rachel Weisz e Madalina Diana Ghenea em A Juventude (Itália, 2015)

Ontem, quando foi divulgada minha resenha do filme A Juventude, estranhei muito o recorde histórico de visitação a meu blog até as 12 horas e a duplicação do mesmo até o fim do dia. Considerei, inicialmente, a possibilidade de alguma reconfiguração de rede ou então, como raramente falo sobre cinema, que talvez houvesse um surto de interesse pelo o tema. Meu amigo e, de uns anos para cá, também editor Milton preferiu atribuir, no entanto, o pico de visitação a fatores como (1) uma rejeição generalizada a tudo o que tenha a ver com impeachment, citando, em favor de sua tese, a grande e atípica audiência de seu post sobre Cervantes; (2) o aumento na frequência de atualização de meu blog ou ainda, muito provavelmente, (3) a imagem de Madalina Diana Ghenea nua que foi usada em sua divulgação.

Foi como um balde de água fria. Tive que reconhecer, de pronto, que parte considerável dos que pensava terem lido minha crítica talvez só tenham aberto a página a procura de mais imagens como a usada em sua divulgação. Face a isto, decidi fazer um experimento, a saber, anunciar, junto com mais fotos da bela romena e outras da não menos espetacular Rachel Weisz, um video (isso mesmo !), facilmente encontrado, da antológica cena da piscina.

Só que, para realizar o supracitado teste, precisava falar mais sobre o filme cuja resenha já publicara. Mas, ora, é muito mais fácil tornar a falar de alguns filmes (ou livros, ou músicas…) do que escrever sequer um parágrafo sobre outros. Então, complementando o que já havia dito, decidi falar sobre algumas mulheres notáveis do elenco de A Juventude que ostensivamente ignorara quando de minha abordagem inicial sobre o filme

A propósito de tão gritante omissão, cabe lembrar que amigos se divertem até hoje com o fato de eu ter uma vez revelado não saber que Nara Leão estava morta. Com o tempo, passaram a dizer que eu também achava que Derci Gonçalves estivesse viva. Brincadeiras a parte, tenho real dificuldade em lembrar de notáveis que já se foram ou que ainda estão entre nós. Não que não leia obituários. Ao contrário.

Tendo, pois , passado batido, ao longo de minhas primeiras impressões sobre o filme, sobre atuações e aparições monumentais que eu sequer houvera notado, venho, com este post, procurar reparar a omissão. Lembro de ter falado aqui que só depois de postar a primeira resenha vim a saber quem é Madalina Ghenea. Pois bem. Além de também não ter notado que a filha de Caine era interpretada por Rachel Weisz e a violinista da cena final era ninguém menos do que Viktoria Mullova, sequer sabia da existência de um soprano chamado Sumi Jo. Mais por fora, portanto, do que Glória Pires comentando a entrega do Oscar.

Curiosamente, a única das mulheres notáveis acima cujas imagens no filme de Sorrentino não encontrei na web foi Mullova. Suponho, pois, que tenham sido restritas por alguma cláusula contratual. Dentre as fotos que encontrei, as que mais chamam a atenção são as seguintes:

youth 24youth 7youth 11youth 9youth 2youth 6youth 8youth 4youth 5youth 20Rachel Weisz as “Lena” in YOUTH. Photo courtesy of Fox Searchlight Pictures. © 2015 Twentieth Century Fox Film Corporation All Rights Reservedyouth 15youth 19youth 13youth 18* * *

Quando da primeira parte desta resenha em aberto, estranharam que eu não houvesse falado no maestro (perfeitamente !) vivido por Michael Caine. Sobre isto, sigo sem saber o que dizer. Ah: já ia me esquecendo do video que prometi. Ei-lo:

 

A Juventude (Itália, 2015)

youth 1Como fazemos, Astrid e eu, a cada quinze dias, vimos, neste final de semana, três bons filmes. Para ser mais exato, um bom (Asterix e o Domínio dos Deuses), um ótimo (A Senhora da Van) e um extraordinário (A Juventude). Impossível, pois, não falar do terceiro.

Confesso que só depois de pesquisar sobre o até então desconhecido para mim diretor italiano Paolo Sorrentino descobri se tratar de ninguém mais ninguém menos do que o realizador do também excepcional A Grande Beleza (2013). Meus sentidos não me enganaram. A belíssima fotografia ombreia com a dos mais oníricos filmes de Peter Greenaway. Num roteiro de tirar o fôlego, diálogos memoráveis. Mínimos. Essenciais. Reflexões sobre a arte, a memória, percursos criativos individuais, a primazia atual da televisão sobre o cinema e afins.

Todos esses diálogos são mantidos entre personagens fascinantes recolhidos, como hóspedes, num luxuoso spa nos alpes suíços, longe de toda civilização. Um diretor de cinema e um compositor e maestro aposentados. Um jovem ator compondo seu próximo papel. Uma Miss Universo. Um casal de hóspedes misterioso porquanto lacônico. Uma menina mais perspicaz do que os adultos ao seu redor. A filha do maestro e o filho do cineasta, ambos em processo de separação. Uma celebridade pop, nova namorada do filho do cineasta. Os próprio staff do spa, incluindo um alpinista, uma massagista, um médico e uma prostituta.

youth 2Notem que A Juventude, juntamente com 45 Anos (2015) e A Senhora da Van (2015), pertence a uma tendência recente de propiciar a atores veteranos grandes solos como protagonistas. Pois os três títulos supracitados perderiam parte substancial de seu brilho não fossem as atuações memoráveis de Michael Caine, Maggie Smith e Charlotte Rampling, respectivamente. O mesmo se pode dizer de Peter O’Toole em Vênus (2006). Sem falar em atuações magistrais nesses filmes, como coadjuvantes ou em breves aparições, de monstros como Harvey Keitel, Jane Fonda ou Vanessa Redgrave. Que bom que o cinema não vira as costas para velhos astros. Pois sinto pena de caras como, por exemplo, Donald Sutherland em episódios da série Jogos Vorazes. Do mesmo modo, seria imensamente triste se Caine se aposentasse apenas como o patético mordomo Alfred, do Batman.

Junto com a primorosa fotografia, outro elemento importante em A Juventude é sua trilha sonora. A começar pelo silêncio, reinante na atmosfera alpina, que chega a evocar (me permitam a licença) a clínica em que se desenrola a história das mais de 700 páginas de A Montanha Mágica, de Thomas Mann. A música composta por David Lang para o filme é uma das melhores ouvidas no cinema nos últimos anos – assumindo, na cena final, um protagonismo equivalente, a nosso ver, ao da partitura de Bernard Herrmann para O Terceiro Tiro, de Hitchcock. Outro grande momento é quando Caine, num cenário bucólico, “rege” uma memorável pastoral. Me esforço, aqui, para evitar o spoiler.

Se fosse, no entanto, para resumir a genialidade do diretor numa única cena ou situação, eu escolheria de pronto o modo como é mostrada, por meios exclusivamente visuais, a condição, vaticinada pelo apático personagem de Caine, de mediocridade da celebridade pop de quem seu ex-genro se enamora – a saber, por meio de um plástico e gritante videoclip, misturando sugestão erótica, explosões e carros velozes, que interrompe abruptamente, depois de um fade-out e no que posteriormente se revela ser um pesadelo, a poética visual já estabelecida do filme. É a TV invadindo o cinema. Toque de mestre absoluto.

Aguardamos avidamente, então, a próxima aventura de um diretor cujo nome dificilmente esqueceremos: Paolo Sorrentino. O nome de massa deve ajudar a memória.

Dois livros para se entender a indústria fonográfica

Nos últimos 25 anos tenho me mantido, mais por força do hábito do que por determinação, um leitor de catálogos e manuais. Isto quer dizer que li, nas últimas décadas, muito pouca ficção, invariavelmente a pedido de amigos. Fora isto, os poucos volumes dos quais cheguei às última páginas tiveram a ver com algum interesse bem específico. Quase técnico. Como, por exemplo, a história da indústria fonográfica, desde sua expansão a partir de meados do século 20 até seu colapso frente ao avanço da internet.

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Já faz tempo que li a indispensável tese de Marcia Tosta Dias, publicada pela Boitempo em 2000, Os donos da voz; indústria fonográfica no Brasil e mundialização da cultura, abrangendo a história das gravadoras no Brail desde os tempos dos festivais e da bossa nova. Fundado sobre extensos de depoimentos primários de alguns de seus principais atores, como o executivo André Midani ou o produtor Pena Schmidt. O livro é um rico compêndio de dados sobre a indústria do disco no Brasil e no mundo. Fartos quadros de fusões e curvas de faturamento dão uma boa ideia de como este importante setor da economia (já repararam como os negócios mais lucrativos são justo aqueles ligados à beleza, ao entretenimento ou ao lazer, tidos por vezes como supérfluos ?) se comportou por mais de meio século.

André Midani
André Midani
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Pena Schmidt

Lendo Os Donos da Voz, fiquei meio incomodado com a predominância, sei lá se por hábito acadêmico ou o que, de muitas páginas dedicadas à explicitação de um referencial teórico/ideológico (Adorno, se não me falha a memória) que, conquanto importante de algum modo para a autora, é perfeitamente dispensável para o leitor em busca do que é prometido no título. Impaciente, queria chegar logo à parte que tratava da indústria da música no Brasil. Pois, ora, se quisesse ler sobre o frankfurtiano, comprava um livro sobre ele.

Também senti falta de um índice onomástico no lugar de uma bibliografia (outro vestígio inequívoco da origem acadêmica do texto), além de um certo sabor de história inacabada devido ao fato do volume não contemplar a então novíssima cena virtual e as reações da indústria frente à nova ameaça da pirataria. Não devemos, no entanto, culpar a autora por esta omissão – já que tudo aquilo era, então, ainda muito novo. Em que pesem estas arestas a serem aparadas da transposição da tese acadêmica para um relato destinado ao leitor comum, o trabalho permanece, no entanto, essencial para se entender como a economia afetou a história da música brasileira num período áureo.

* * *

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Ano passado, recomendações pelo facebook de Maria Estrella e Zeca Azevedo me levaram até Como a música ficou grátis (Intrínseca, 2015), do jornalista Stephen Witt. Como o livro de Dias, este também ostenta um subtítulo (como se editores no fundo duvidem que títulos destinados a públicos mais específicos chamem, de algum modo, a atenção de seus leitores em potencial…): O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria.

Em favor do livro de Witt (ah, maldito estigma da comparação…) está o ritmo da narrativa. Ao contrário de Dias, intercala, com a maestria de um bom roteirista, fragmentos de narrativas de vários atores, todos eles centrais na história da indústria fonográfica, mas cujas trajetórias pessoais, todavia, jamais se tocaram. Como resultado, dá um sentido (ou, como talvez prefiram alguns, provê um contexto) para fatos que, de outro modo, pareceriam desconexos.

A base de consulta de Witt é ampla: dezenas de entrevistas e milhares de páginas de documentos examinados. Os quais, no entanto, não nos são mostrados sequencialmente, tal qual armazenados em arquivos. Ao invés, o texto salta dinamicamente de uma narrativa para outra a cada capítulo, começando com a história de Karlheinz Brandenburg e seu círculo, responsáveis por desenvolverem, no Instituto Fraunhofer (Erlangen, Alemanha), o algoritmo de compactação utilizado até hoje no formato mp3.

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Karlheinz Brandenburg

A seguir, passa a narrar a história da pirataria musical, constituída principalmente por anônimos, a partir da biografia de um de seus principais atores, Dell Glover, funcionário de uma fábrica de CDs da Polygram em Kings Mountain (Carolina do Norte, EUA) que, tendo progredido por anos a fio de empacotador e gerente, conseguiu vazar mais de dois mil CDs antes de seus lançamentos até ser pego por autoridades. Peça importantíssima para grandes redes piratas como a Scene ou seu subgrupo RNS, Dell foi um dos principais informantes de Witt, revelando, entre outras coisas, não conhecer pessoalmente, a não ser por conversas telefônicas mediante pseudônimos, o “dono” da rede a quem se reportava.

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Dell Glover

A perseguição por agentes policiais e braços jurídicos das gravadoras aos compartilhadores piratas mais eficientes foi sempre desastrada. Conseguindo chegar não mais do que a usuários finais, resultou principalmente em perseguições a estudantes e donas de casa enquanto responsáveis por redes ou servidores permaneciam, via de regra, impunes. Na maioria das vezes, incógnitos. Quando logravam prender alguém, como aquele australiano doido, dono do Megaupload, em sua casamata, se tratava de uma exceção, altamente celebrada e publicizada. Como, por exemplo, no insólito caso de Alan Ellis, dono do exitosíssimo site Oink (de compartilhamento via torrent), encarcerado pelo governo britânico.

Alan Ellis
Alan Ellis

Um dos raros piratas que efetivamente chegaram a cumpriram pena, Ellis se tornou notório por jamais ter utilizado, em benefício próprio ou para seu sustento, qualquer centavo das volumosas doações que seu site recebia, as quais mantinha – talvez por achar que, assim, melhor as protegeria contra qualquer confisco ou congelamento judicial – distribuídas em dez contas bancárias distintas.

Do lado da indústria, acompanhamos a trajetória de grandes executivos. Como Doug Morris, que esteve à frente, entre outras, da Warner, da Universal e da Sony.

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Doug Morris

Lendo o livro de Witt, sucumbimos à evidência de que o gênero que moveu a indústria nos últimos dez ou vinte anos foi, sem sombra de dúvida, o rap. Mais que a irreverência, acionistas de grandes gravadoras reconheciam em letras de muitos rappers o incitamento a sentimentos indesejáveis, como a violência ou o sexismo. Os mesmos eram, no entanto, tolerados em virtude de serem, entre todos os artistas dos elencos das gravadoras, os que mais rentabilidade apresentavam nas últimas décadas..

A certa altura, Witt dedica alguns parágrafos a esmiuçar o tipo de contrato tradicionalmente oferecido pela indústria fonográfica. Funcionava mais ou menos assim. Tendo escolhido um artista, a gravadora investia antecipadamente os elevados montantes requeridos para a produção, gravação e fabricação dos discos, descontando, depois, dos artistas, tais valores dos royalties que deveriam receber sobre as vendas. Por vezes, dados os custos extravagantes de algumas produções, músicos não recebiam praticamente nada pelas vendas de álbuns bem populares. Cabe, aqui, comparar este tipo de contrato – a saber, do acesso aos meios de produção por seus proprietários mediante o comprometimento de parte substancial da produção futura – com o tipo de acordo tacitamente outrora celebrado entre, de um lado, senhores feudais e, de outro, os servos que aravam suas terras.

Não é, pois, de se estranhar que, ao ensejo do impacto de novas tecnologias, tal tipo de contrato tenha sido abandonado. Com efeito, é bem mais provável que este tipo de contrato – muito mais do que, como muitos ainda acreditam, a pirataria – tenha “matado” a indústria fonográfica. De uns tempos prá cá, as poucas gravadoras corporativas (i.e., não indie) que sobrevivem, além de não mais investir na produção de qualquer artista (um investimento, como mostra Witt, de alto risco – já que, dos muitos nomes do elenco de qualquer gravadora, somente uns poucos podem ser considerados, efetivamente, como lucrativos), passaram, ao invés de pagar royalties por vendas de álbuns a artistas, a cobrar (sic !) dos mesmos parte de valores obtidos com a venda de ingressos para seus shows.

Temos, com isto, uma mudança radical do foco de atuação de uma indústria minguante procurando se reinventar para sobreviver. Pois quem antes vendia mídias físicas gravadas agora vende experiência presencial. Isto, aliás, ajuda a entender todos aqueles smartphones que se erguem hoje sobre as cabeças do público em muitos espetáculos.

O livro de Witt tem um epílogo desconcertante. Conta o autor que, tendo sucumbido definitivamente ao streamming, resolveu se livrar de vários HDs que guardara ao se desfazer de sucessivos computadores, alguns já ilegíveis, contendo milhares de álbuns baixados ao longo de várias décadas. Procurando uma empresa especializada neste tipo de serviço, foi conduzido pelo proprietário de uma delas até um recinto onde havia uma máquina de pregar. O sujeito, então, após se recusar a receber qualquer valor devido ao ínfimo porte do trabalho a ser realizado, efetuou com a pistola alguns disparos contra os HDs para, em seguida, os abandonar numa caixa ao lado que já continha a sucata de muitos outros.

* * *

A tragédia da indústria fonográfica é seu fracasso sistemático em repetidas tentativas de abranger a qualidade e a diversidade. Pois a índole do capital é a devora do menor pelo maior, tendendo à existência de um número cada vez menor de conglomerados cada vez maiores, no que poderíamos chamar de um efeito espuma – na qual, com o tempo, há um número cada vez menor de bolhas maiores. Com negócios lucrativos – como foram, por muito tempo, as grandes gravadoras – não é diferente.

Alguns selos indie –  clássicos, inclusive – até perduram por algum tempo. Mas nenhum catálogo físico (como os HDs pregados de Witt) é ou será capaz de resistir ao apelo avassalador da internet e do streamming. Há coisas que, como a fotografia digital, vieram para sepultar outras. Ao menos quando competitividade comercial estiver em questão.

Como praticamente toda história, esta começou a ser contada a partir de seu final – com o qual temos, obrigatoriamente, maior familiaridade. Resta, então, para completar a narrativa do parêntesis da indústria fonográfica, esperar que alguém escreva o grande livro sobre o recém falecido George Martin, inventor da coisa. Quando poderemos ter, finalmente, uma perspectiva mais completa de como a economia afetou a música durante os últimos cinquenta anos.

George Martin
George Martin

Anotações sobre a crítica musical de Bernard Shaw (ii): goatbleat

Dentre as melhores partes da crítica musical de Bernard Shaw está, certamente, ao final de uma longa crônica, publicada em 10 de janeiro de 1890 e se dirigindo (em tom aforístico, como lhe era de costume) a cantores e atores, em que cunha a formidável expressão goatbleat. Traduzindo, o que o Bassetto diz é mais ou menos o seguinte:

[…] Eu não era então acostumado ao hoje felizmente obsoleto método vocal chamado goatbleat (berro de bode); […]

[…] Não são raros os casos de cantores e falantes experientes perderem toda a confiança em seus velhos métodos em novas e alarmantes condições acústicas. Quando isto acontece, começam a berrar francamente, […] Atores e cantores que tenham vozes pequenas devem lembrar que seu problema é se fazerem ouvidos e, de modo algum, soarem alto (loud). Loudness é o pior defeito de qualidade que qualquer voz, grande ou pequena, pode ter.

* * *

Dia desses, intrigado, perguntei a um de meus filhos por que preferia, aos canais de TV a cabo que lhe eram disponíveis, invariavelmente videos postados no youtube. De pronto, me respondeu que pela liberdade de escolha de conteúdos. Fez sentido.

A princípio, desdenhei o tempo gasto vendo outros (que depois me inteirei se chamarem youtubers) postarem em vlogs recortes de seu dia-a-dia ou, simplesmente, partidas de videogames comentadas (!). Confrontado com as enormes quantidades de seus seguidores, questionei os números declarados. A discussão parou por aí. Mas isso foi meses atrás.

Anteontem, ele quis (!) que eu visse uns videos que ele garimpara, independentemente de recomendações, apenas buscando por palavras-chave. Tive que dar o braço a torcer: não via nada tão engraçado na TV há tempos. O que ele me mostrou ? Talvez as melhores realizações até hoje, mais de 100 anos depois (!), da metáfora imaginada por Shaw. Confiram: