Sobre palavras proibidas

Em dois episódios recentes na cena política brasileira, o poder judiciário, em flagrante desvio de função, se dedicou ao inútil exercício de tentar banir do vocabulário palavras consagradas pelo uso comum. O primeiro caso foi o do termo polissêmico “golpe” usado em conexão ao processo de impeachment que resultou no afastamento da presidente Dilma Rousseff. Mais recentemente, uma juíza do Distrito Federal tentou proibir o uso do neologismo “helicoca”, de sentido unívoco, utilizado para designar o… helicoca, de propriedade de um senador da República.

Gabriela Jardon, a juíza alçada à fama pela prosaica decisão

Não sou linguista mas, muito antes, um livre palpiteiro. E, como tal, tendo a acreditar que convenções da língua sejam validadas muito antes pelos hábitos daqueles que a falam do que, ao contrário, por força da lei. Daí a enorme complexidade das reformas ortográficas, que sempre geram polêmica e precisam de largos períodos de carência (geralmente de muitos anos) para sua total implementação na língua culta. Pelo menos até o advento dos corretores ortográficos embutidos em todo editor de texto, que nos lembram, mais do que quaisquer outros sistemas de aprendizagem, dos erros distraidamente cometidos.

Há, nos dois casos, supracitados, em que a máquina judicial foi recentemente acionada por políticos brasileiros com o intuito de coibir termos consagrados pelo uso, interessantes nuances a serem consideradas. Tomemos, inicialmente, a acepção política da palavra “golpe”, que vale como uma abreviatura da expressão “golpe de estado”. Trata-se de uma conotação poderosa, que encerra, numa só palavra, todo o caráter de ilegitimidade democrática imputado a um processo de alijamento do poder por parte de seus críticos.

Exatamente por isto, é perfeitamente natural o incômodo causado pela potente conotação do termo a todos os que acreditam que o impeachment de Dilma não tenha sido… um golpe. O que não é, no entanto, nada aceitável é que juízes de um tribunal superior se arvorem a determinar se este ou aquele termo pode ou não ser usado com esta ou aquela conotação. O discurso político, salvo em flagrantes casos de difamação ou calúnia, é livre, e cabe a cada uma das partes conflitantes persuadir a maioria de que a verdade esteja de seu lado. A ideia de legislar sobre os termos do discurso é, portanto, tão acintosa (por implicar em censura) quanto inócua e, consequentemente, hilária.

Mais: a espetacular proibição do uso da palavra “golpe” para designar o impeachment só faz consagrar ainda mais o sentido da acepção banida – do mesmo modo, digamos, que a publicidade, por definição mentirosa (se fosse verdade, ninguém precisaria pagar para que fosse dito), que só faz reforçar nas mentes mais argutas a noção de que, por trás de todo anúncio, alguém está sendo enganado.

Deliberações judiciais sobre o uso de termos específicos são, antes de mais nada, um subproduto canhestro dos tempos de maior liberdade de expressão. Paradoxal ? Não acho. Pensem, por exemplo, no longo período de vigência, de mais de duas décadas, do golpe militar de 1964. Naquele tempo, se banalizou, por meio de uma estreita vigilância e censura dos meios de comunicação, a ideia de que o que ocorrera em 31 de março daquele ano não fora um golpe e sim uma revolução. Só depois da restauração do estado democrático é que o termo golpe se consagrou para designar a truculenta tomada do poder pelos militares.

Ora, revolução e golpe encerram sentidos diametralmente opostos, de índole popular e oligárquica, respectivamente. Daí a enorme conveniência da utilização de um ou outro por parte de quem queira incensar ou condenar a ruptura política em questão. De 1964 até as Diretas, a censura fazia sua parte, não havendo, portanto, a menor necessidade de se legislar sobre o léxico. Hoje, com os discursos fluindo livremente, volta e meia nossos tribunais se deixam envolver em presepadas como as tentativas de banir o uso de termos como golpe ou helicoca.

Se golpe incomoda muita gente, helicoca incomoda muito mais. Isto por que o golpe foi desferido por agentes distribuídos. Ou, se quiserem, por um grupo de interesses. De tal modo que não é possível atribuir individualmente a este ou aquele político a responsabilidade exclusiva pelo afastamento da presidente. Por trás de uma coalizão de forças se alternam, assim, vilões de plantão, como Cunha, Temer ou Bolsonaro, a servir de fachada para interesses corporativos maiores e anônimos, por que impessoais.

Já no caso do helicoca, a coisa é bem diferente. Primeiro por que, por se tratar de um neologismo, não há qualquer significado pré existente para a palavra – que se refere, unicamente, ao helicóptero flagrado transportando quase meia tonelada de cocaína. Segundo, por que a aeronave tem dono – no caso um respeitável senador da República. O qual não deve ter se preocupado muito com a cunhagem da expressão, cuja maior probabilidade era, como soe acontecer com a maioria dos políticos pegos com a boca na botija, cair no esquecimento. Só que não. O termo helicoca é um grande achado linguístico que, passados já ca. 3 anos do fato causador, continua impregnado no imaginário popular.

Imaginem, agora, face aos exíguos e caros tempos de publicidade eleitoral, o potencial devastador de uma palavra como helicoca no discurso de opositores do senador nas próximas eleições. Daí que, segundo o princípio empírico do jus esperneandi, é natural que o proprietário do helicoca  bata às portas da justiça procurando banir ou delimitar o uso da palavra que o incrimina inequivocamente. Inaceitável, no entanto, é a justiça acolher seu pleito. Se juízes fossem descontados em seus polpudos vencimentos como penalização por decisões estapafúrdias, talvez não tivéssemos coisas como Gilmar soltando criminosos notórios ou, ainda, o goleiro Bruno trabalhando com crianças numa escolinha de futebol.

Caso contrário, não estamos longe do dia em que veremos luminares togados deliberando, em exercícios de malabarismo semântico, sobre quem pode, de direito, utilizar em seu próprio benefício ou contra outrem potentes adjetivos como democrático, socialista, de esquerda ou de direita.

Por que a publicidade do Uber é, mais do que enganosa, perversa

Ontem, me surpreendi ao me deparar no facebook com uma imagem de um anúncio do Uber, seguida de um comentário, em tom de desabafo, cuja essência se resumia à popular piada:

”  – O que você faz ?

– Sou músico.

– Sim. Mas o que você faz para viver ? “

O anúncio era este:

A anedota, autoexplicativa, tem a ver com a noção, cada vez mais propagada, de que a música é, antes de uma profissão, uma ocupação, não obrigatoriamente remunerada. Faz sentido. Ao externar, mais tarde, minha indignação, ouvi até de músicos profissionais que o anúncio do Uber traduzia perfeitamente uma realidade há muito vigente.

Mesmo sob risco de ser taxado de paranoico ou afeito a teorias conspiracionistas, não consigo aceitar o anúncio supracitado como algo simplesmente natural. Até por que, por força do ofício, acabo conhecendo muita gente que, apesar do espírito dos tempos, ainda estuda música no intuito de fazer dela sua ocupação principal. Acho, portanto, a noção implícita no anúncio bem perversa e insidiosa.

Já defendi, noutros posts, a ideia de que as profissões, como hoje as conhecemos, estão fadadas à obsolescência, na impossibilidade de se determinar quais das ocupações remuneradas hoje existentes sobreviverão num futuro próximo ou distante. Consoante a isto, a retórica, adotada pelo  Uber, de justificar seus serviços pela possibilidade de sustento, por parte de seus afiliados, de outras ocupações preferenciais, ainda que mais dificilmente remuneradas, não deveria me causar nenhuma surpresa. Só que não. Uma coisa são profissões surgirem e desaparecerem ao sabor das tecnologias de cada época. Outra, bem diferente, é um sistema ideológico (o capitalismo, no caso) tomar a si o privilégio de ditar quais ocupações devam se perpetuar ou, ao contrário, serem decretadas obsoletas ante novas tecnologias e, portanto, extintas.

Tentando enxergar um pouco mais além do próprio umbigo, se pode dizer que o maior problema do anúncio da Uber não é tanto o preconceito em relação a uma atividade profissional, a do músico, mas a ideia de que o mercado pode, por meio de uma empresa, deliberar sobre quais ocupações devam ser remuneradas e quais outras devam, ao contrário, ser relegadas exclusivamente a províncias de diletantes.

Como disse pouco acima, o conjunto de profissões existentes em cada momento da história é peculiar a cada época. Deste modo, profissões como as de músico, fotógrafo ou (por que não ?) até mesmo as de médico ou advogado venham a se tornar, numa era de algoritmos, obsoletas (vide Harari). Não cabe, no entanto, à publicidade, enquanto braço privilegiado do capitalismo, tentar moldar ou simplesmente interferir nestes desígnios. A mensagem implícita no outdoor do Uber é, portanto, no mínimo, mistificadora e, francamente, mal intencionada. Como tal, deveria ser denunciada e proscrita pelos órgãos responsáveis pela regulamentação da ética publicitária.

Duvido, no entanto, que isto aconteça. Não por que não existam tais órgãos reguladores mas, tão somente, por que a mentira continua sendo a principal matéria-prima de toda propaganda. Uma das melhores e mais hilárias que conheço é um spot da BandNews no qual é dito que “propaganda é cultura e entretenimento”. Me dobro de rir cada vez que ouço. Mas deve ter quem acredite.

Além disto, há outro aspecto envolvido, mais sutil. Quando o Uber justifica que alguém dirija para sustentar outra atividade preferencial, fica implícito que dirigir não seja, necessariamente, o que o motorista gostaria de estar fazendo em primeiro lugar. Mesmo que isto seja verdade na maioria das vezes, e até mesmo que seja impossível determinar se alguém que declare gostar de algum trabalho efetivamente goste do mesmo (o que deve acontecer com bastante frequência), prefiro pensar que estou sendo transportado por alguém que goste de dirigir para terceiros.

Mais. É do credo capitalista o princípio de que quem empreende gosta, necessariamente, do que faz – ou seria incapaz de fazer direito. Ora, a retórica de todos os aplicativos de serviços autônomos enfatiza que todo prestador de serviços (que, como todo empresário, assume riscos mas, ao contrário da maioria dos mesmos, não explora a força de trabalho alheia) é, em última análise, também um empreendedor (já falei disto aqui).

O furo deste argumento é que, enquanto qualquer empresário pode crescer e se esforça para isto (o mito do crescimento constante é, com efeito, a grande mola propulsora do capitalismo (vide, outra vez, Harari)), o progresso de um motorista de Uber é limitado pelo esgotamento de seu tempo disponível. Desenhando, não há para ele, atingido o limite de sua força produtiva, qualquer possibilidade de crescimento.

Ao mesmo tempo, é o único responsável pela amortização, manutenção e reposição de seu meio de produção, a saber, seu próprio veículo. Um contrato, a nosso ver, nada glamoroso – fato compreensivelmente omitido da publicidade do aplicativo.

Se, ainda assim, estiver difícil de entender o que há de tão errado com o anúncio do Uber estampado lá em cima, recorramos a uma redução ao absurdo, da seguinte maneira: se a propaganda do aplicativo estampasse os dizeres “Dirijo para me dedicar à advocacia”, certamente a OAB já teria montado num porco. Não sou, no entanto, tão ingênuo a ponto de esperar que a Ordem dos Músicos do Brasil se manifeste em termos semelhantes.

* * *

P.S.: depois de publicar o texto acima, li, nos comentários sob uma das muitas postagens indignadas do polêmico anúncio do Uber (compreensivelmente por músicos ultrajados) o seguinte:

” […] Para conseguir ganhar algum dinheiro dirigindo para Uber, tem que passar 10 horas dentro do carro, 6 a 7 dias por semana. Vai se dedicar à música quando? “

Bingo ! Em pouquíssimas palavras, estabelece que a dedicação a outra atividade, ao menos como prescreve a famosa teoria das dez mil horas minimamente necessárias à proficiência em qualquer coisa, é impossível a quem transporte passageiros, seja de Uber, taxi ou o escambau – sendo, portanto, o anúncio em questão acintosamente enganoso, como queríamos demonstrar.

O que significa ser de direita ou de esquerda no Brasil hoje ?

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Lancei esta pergunta faz poucos dias. Primeiro, entre amigos lá em casa. Depois, no facebook. Em casa, não tive resposta. No facebook, colhi, inclusive, dois textões, de proporções enormemente maiores do que minha provocação, um deles junto com um video de Olavo de Carvalho, cuja reputação sempre conheci mas em cujo discurso confesso jamais ter prestado antes qualquer atenção.

Nos primeiros minutos do vídeo (que, confesso, desisti de ver até o fim), Olavo mistifica, definindo, em política, a direita como a experiência, como aquilo que é conhecido, e a esquerda como o experimentalismo, para em seguida proclamar seu repúdio a todo pensamento revolucionário, inventariando em favor de sua posição uma extensa lista de genocídios e assassinatos cometidos por governos revolucionários.de esquerda. Não me dei, no entanto, por satisfeito com sua definição.

A tragédia da desilusão nacional com o PT, sentida por muitos e minimizada por outros tantos, se deve, principalmente, ao ruir do discurso de esquerda que levou o partido ao poder nas últimas décadas. Mas vejamos por partes.

Assumidamente ou não (pois a verdadeira índole de todo interesse político é por vezes velada), apoiadores de candidatos ou partidos reconhecidos como de direita sempre defenderam o direito ao poder do capital empreendedor enquanto seus opositores de esquerda reclamavam, acima de tudo, mais justiça social.

Só que, no Brasil dos governos de Lula e Dilma, se institucionalizou (ou, pelo menos, começou a ser apurada) a corrupção dos poderes pelas grandes empreiteiras. Com isto, grupos oligárquicos (acionistas majoritários) se tornam os maiores beneficiários da realização de obras de indiscutível (ou mesmo discutível) alcance social. In short, se dá aos ricos em nome dos pobres, numa espécie de complexo de Robin Hood ao contrário – a tragédia do PT sendo, neste caso, tolerar sob seu manto o mesmo tipo de comportamento corrupto que critica em seus predecessores.

Com tantos agrados de empreiteiras a agentes da pirâmide administrativa custeados com recursos surrupiados ao bem comum – é, pois, no mínimo acintoso ver políticos e governos manchados por esse tipo de escândalo de corrupção sustentar qualquer discurso em favor da justiça social, como muitos (praticamente todos) ainda insistem em fazer.

E o que é justiça social ? Distribuição de renda e igualdade de oportunidade, a meu ver. Duas condições, aliás, frequentemente atropeladas pela voracidade do capital que move os interesses de direita. Estou enganado ?

* * *

Grata surpresa tive, durante a por vezes tediosa tarefa de procurar figuras para os posts (Milton diz que ajudam muito na divulgação), ao topar com uma charge de 2012 do querido Latuff que ilustra o que falo de modo exemplar.

 

Da propaganda (ii): o parêntesis da TV

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Quando falei da obsolescência da propaganda em meios de comunicação de massa, previ certas reações, mas não obtive uma das respostas que mais esperava, a saber, a de que a propaganda já está migrando dos broadcasting media para a web, interativa por definição. Pois a possibilidade de publicar todo e qualquer comentário, em que pesem diferentes graus de moderação por proprietários de postagens iniciais, é, sem sombra de dúvida, a principal diferença entre qualquer rede social e todo meio de broadcasting.

Ferramentas de busca vendendo anúncios não são nenhuma novidade. Só que até canais de TV por assinatura, sejam a cabo o mediados pela web – e que antes eram add free ! – começaram recentemente a exibir anúncios. Como bem notou, esses dias, Luiz Afonso Alencastre Escosteguy.

Enquanto isto, José Agustoni me perguntou que alternativas de custeio poderiam ter os atuais meios de comunicação de massa uma vez abolida toda publicidade. Na hora, só lembrei de mencionar sua absorção pelo estado, tendo que reconhecer, no entanto, que o mesmo talvez não tivesse a capacidade para administrar tantas emissoras. Ao menos, não o estado como conhecemos até aqui.

Mas quem, afinal, precisará da TV aberta (i.e., gratuita e minimamente custumizável) dentro de um futuro não muito distante ? Poderíamos, então, muito bem estar vivendo nos últimos anos de algo que poderia ser formulado como um parêntesis da TV, sob os mesmos moldes do parêntesis de Gutenberg, segundo o qual a televisão (inicialmente a aberta e, logo, também as por assinatura) estaria com os dias contados, tendo, portanto, um período de existência se estendendo desde seu advento comercial até meados do século 21. Ou seja, provavelmente, bem menos do que uns 100 anos.

A mídia impressa não se encontra menos terminal. Tanto que especuladores profissionais do setor já proclamam slogans como “impresso, digital ou o que vier” enquanto migram ativos para commodities mais seguras. Comprando vinhedos em parceria com grandes enólogos, por exemplo. Mas isto já é outra conversa.

Como vimos, a razão da perda progressiva de interesse pela TV e pelo rádio é sua falta de interatividade. Ou seja, nativos digitais preferem, por definição, interagir sobre coisas bem menos interessantes, como jogos, imagens (selfies, foodporn, etc.) ou meras redes de fofoca do que, por exemplo, visualizar conteúdo não interativo bem mais interessante e facilmente customizável em muitos canais de broadcasting ou, se preferirem, “mão-única” (como por exemplo, Discovery ou National Geographic, para citar só um tipo de programação qualificada). O fato de que isto tem a ver com a presença e ausência, respectivamente, num (broadcasting media) e noutro (redes sociais) de interatividade pode ser confirmado numa conversa com qualquer nativo digital.

Por tudo isso, acho que teremos cada vez mais fluxo publicitário em canais de entretenimento. Tanto na TV como na web. Queiramos ou não, Luiz Afonso. Feliz aniversário !

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Da propaganda (i)

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Ligo o rádio. Ouço Ricardo Boechat, que equivale à voz editorial da Rede BAND, vituperar contra a remuneração exorbitante, superior a 200 milhões de reais, do marketeiro do PT em 7 campanhas políticas. A bagatela de, em média, uns 30 milhões por campanha. Em seguida, o apresentador indignado esbraveja sobre a necessidade urgente e imperiosa de que sejam prestadas contas à sociedade sobre a origem e o destino deste montante, tido como, no mínimo, imoral. Fim do editorial.

Intervalo comercial. Imediatamente após a contundente posição assumida pela emissora por meio de seu mais eminente porta-voz, é veiculado um comercial institucional da mesma cujo teor é perfeitamente resumido pela chamada “propaganda também é conteúdo”.

Cá com meus botões, tento em vão entender por que, sob uma mesma ética e pelos mesmos agentes, a propaganda política é violentamente execrada enquanto a comercial é francamente exaltada e estimulada. Ora, um e outro são, essencialmente, a mesma coisa, a saber, a veiculação ampla de mentiras sem direito à qualquer contraditório.

(pausa para que os publicitários se retirem da sala)

Passei dias, até semanas, pensando sobre a contradição acima. Não me dedicarei, aqui, a esmiuçar os aspectos mais nocivos da propaganda e da representação políticas, até por que muitos já o fazem com bastante brilho e desenvoltura. Já a propaganda comercial, ainda que fundada sobre o mesmo pressuposto – a propagação em mão única de mentiras ou, quando muito, meias verdades, se encontra perfeitamente naturalizada na economia contemporânea. É sobre este mito que, doravante, queremos nos concentrar.

A publicidade de bens e serviços comerciais não passa da faceta mais visível de um modelo econômico fundado sobre a competição pela produção e comercialização de bens em excesso e a custos reduzidos. Para muito além das necessidades humanas. Os carros empacados nos pátios das montadoras de tempos em tempos não nos deixam mentir. Neste contexto, a propaganda existe nos broadcasting media (reparem como campanhas publicitárias não vingam em redes sociais !) unicamente no intuito de dar vazão à produção excessiva por meio tanto da exacerbação das qualidades do que é anunciado como da criação artificial de necessidades até então inexistentes.

O design industrial e a obsolescência programada só existem em razão da manutenção deste ciclo. Ou então por que alguém precisaria trocar de carro ou telefone celular de tempos em tempos ? Inovações tecnológicas ? Bowshit.Toda propaganda é, por definição, anti-ecológica se levarmos em consideração a parte do valor de qualquer produto que é agregada exclusivamente para que o mesmo desfrute de um bom posicionamento no mercado. Hão de dizer, no entanto, que produtos dos quais fossem expurgados todos os valores investidos em sua publicidade teriam, por assim dizer, as “pernas curtas”, ou seja, que o conhecimento sobre a própria existência dos mesmos, independentemente de suas qualidades, estaria irremediavelmente restrito, quando muito, aos círculos locais em que são produzidos. Ao que contraponho: mas por que raios um produto precisa ser comercializado longe de onde é produzido ? Ou, em casos extremos, para além-fronteiras ? Ora, se algo longínquo é, efetivamente necessário, a isto chegamos hoje, facilmente, por meios de buscas informatizadas.

As marcas, que procuram conferir a bens produzidos por conglomerados uma identidade global única, independente das condições frequentemente sub-humanas em que são produzidos, são parte essencial do problema. Vide as roupas e calçados esportivos produzidos para grifes e marcas por meio de trabalho escravo. Ou o recente escândalo de corrupção na FIFA, em que o marketing esportivo foi protagonista absoluto.

Por isto, vejo toda publicidade como um enorme e desnecessário dispêndio energético. A indústria da propaganda não só sabe disto mas, via de regra, opera levando isto em consideração. Pois todo anunciante ou publicitário sabe que, de todos os sujeitos bombardeados por uma mensagem publicitária, apenas uma pequena parte está interessada naquilo que é anunciado. Para os restantes, toda propaganda não passa de ruído, lamentavelmente naturalizado na vida cotidiana. Numa analogia grosseira, então, veicular anúncios por meio de broadcasting (a própria atividade fim da publicidade) é mais ou menos como pulverizar toda uma lavoura com pesticidas de amplo espectro e nocivos quando ingeridos por pessoas apenas para eliminar uma praga específica que esteja a ameaçar a rentabilidade de uma colheita.

* * *

Contra tal visão dos fatos se erguerão, certamente, duas vozes majoritárias, a saber, uma que diz que a indústria da propaganda emprega muita gente e outra que considera que anunciantes sejam benfeitores responsáveis pelo fácil acesso a conteúdos desejáveis. Como, por exemplo, programas de rádio e TV ou matérias impressas em jornais e revistas. Nestes dois casos, apologistas da propaganda comercial recorrem a mitos distintos que, para maior clareza, veremos separadamente.

A ideia de que num mundo livre de toda publicidade muitas pessoas perderiam suas ocupações atuais é derivada de um mito maior, a saber, o de que as atividades humanas a que chamamos de profissões sempre existiram e sempre existirão. Ora, não é preciso muito conhecimento histórico para se intuir que ocupações surgem e desaparecem de tempos em tempos, de acordo com peculiaridades de cada época. De tal modo que pessoas cujas ocupações desaparecem sempre acabam, de um jeito ou de outro, se ocupando de outras coisas. Só que, como o ciclo de existência das profissões é bem longo, geralmente superior à duração de vidas humanas, é perfeitamente compreensível que ocupações tendam a se confundir com as próprias identidades individuais, a ponto de qualquer um não conseguir se enxergar no mundo fora da atividade que exerce e para a qual foi treinado. Estamos, então, aqui, claramente lidando com o medo do desconhecido por excelência, o futuro. As profissões assumindo, neste caso, o mesmo status das religiões. Umas e outras a oferecer conforto contra o grande vazio existencial que representaria não pertencer a nenhum mundo, antes ou depois da morte.

Um bom exemplo deste estado de coisas é a indignação generalizada recém desencadeada pela primeira manifestação no Brasil (pois no “primeiro mundo” já é um tema recorrente há bastante tempo) sobre a obsolescência das orquestras sinfônicas como hoje as conhecemos.

Vejam ainda, sobre a volatilidade das profissões, as facilidades recentemente aprovadas pelo congresso brasileiro para a contratação terceirizada de serviços.

O segundo mito sobre o qual repousa a naturalização da propaganda em nossa economia é o de que, sem ela, teríamos pouco ou nenhum acesso a conteúdos desejáveis (i.e., aqueles pelos quais optamos e que justificam nossa tolerância a todo lixo publicitário). Ora, se a informação ou o entretenimento que queremos só chega até nós por causa da existência de anunciantes que os sustentam, devemos lembrar que isto só é assim por que a sociedade organizada assim o permite. Mas caso contrário, quem pagaria a conta ? O estado, é claro. Pois se diz das democracias que são os próprios cidadãos que deliberam sobre a alocação dos tributos recolhidos. Não sou tão ingênuo de supor que, na prática, isto seria uma tarefa fácil. Senão já estaríamos, para começar, livres dos representantes parlamentares e das concessões de rádio e TV. Mas toda mudança, para melhor ou pior, passa, necessariamente, por uma discussão. Contra a qual conspiram, além de pessoas e grupos interessados, as ideias naturalizadas.

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Sobre debates eleitorais em particular e propaganda política em geral

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Quando FHC derrotou Lula em eleições presidenciais (bem antes, portanto, da universalização da internet !), foi naturalmente aceita, como um fato banal, a tese do primeiro de que, na campanha que antecedesse o pleito, os candidatos não precisassem debater ao vivo em redes de rádio e TV – sendo, portanto, suficiente para orientar a escolha dos eleitores a propaganda veiculada por meio de carros de som. Foi nesta época que a extinta Gazeta Mercantil publicou, entre seus editoriais, o primeiro e único texto político que rabisquei décadas antes de cometer um blog, panfletariamente intitulado “Debate Já !”.

De lá para cá, as coisas mudaram bastante, a ponto dos embates entre candidatos em cadeia nacional de TV se tornarem os pontos culminantes de qualquer campanha eleitoral. Sustento, no entanto, que ainda é muito pouco. Nestes debates, a escassez de tempo e o engessamento do formato em perguntas, respostas, réplicas e tréplicas cronometradas impedem ou dificultam tremendamente a argumentação em torno de ideias e princípios que realmente importam em se tratando de escolher governantes e (oxalá não por muito tempo !) representantes parlamentares.

Provavelmente devido a minha baixa expectativa em relação a estes embates, me mantenho sistematicamente alheio aos mesmos – me beneficiando, com isto, da enorme vantagem de deles só ter notícia por meio de comentários sobre os mesmos bem mais qualificados (posto que por membros cuidadosamente selecionados de minha PLN !) do que os próprios debates em si. É como fico sabendo, por exemplo, das excrescências verbais do pastor ou da rinha entre os três favoritos na noite de ontem.

É, pois, pela caduquice dos formatos de peças de campanhas como hoje conhecemos (debates, horário eleitoral gratuito e publicidade paga (midiática, cartazes & santinhos)) que reivindiquei aqui, dias atrás, em tom apenas aparentemente jocoso, a realização obrigatória de reality shows, senão como todos os candidatos (enquanto custos ainda forem proibitivos), então pelo menos com os presidenciáveis.

Por que isto ainda não acontece ? Ora, por que viriam inevitavelmente à tona verdades que implicariam na ruína dos partidos políticos e dos monopólios midiáticos.

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Ideias simples para um mundo melhor (i): da propaganda

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Poucas coisas me causam irritação maior do que argumentos exclusivamente fundamentados sobre tradições, do tipo “é assim por que sempre foi”. Desde jovem sempre tive mais simpatia pelas formulações utópicas, jamais experimentadas. Isto vale para instituições sólidas, tidas como dadas, tais como a democracia representativa ou a escola, as quais, bem ou mal, existem já há bastante tempo e cuja legitimidade, talvez por isso, poucos ousam questionar. Como, por exemplo, a ideia do consumo como principal motor da economia, recentemente invocada por Pedro Bial para encerrar precocemente, sem dúvida em nome do interesse da emissora, um auspicioso debate sobre o banimento de toda publicidade direcionada ao público infantil.

Vou mais longe. Sonho com um futuro não muito distante em que toda mensagem publicitária seja considerada propaganda não solicitada e, como tal, devidamente execrada, a tal ponto que anunciantes abram mão das mesmas sob pena de, caso contrário, estarem ofendendo clientes em potencial. Neste mundo perfeito, toda decisão relativa à aquisição deste ou daquele bem seria, então, orientada exclusivamente por processos de busca e comparação por meio de algoritmos operados por instâncias independentes. Ingenuamente ou não, acredito nesta visão a ponto de olhar com ceticismo e estranheza quem quer que se submeta a programas acadêmicos em propaganda e marketing, como se tais instituições não estivessem com os dias contados.

É claro que a propaganda não será totalmente extirpada de nossa cultura a não ser por meio de estratégias graduais. Dentre as quais haveria que se implementar, inicialmente, duas medidas simples, conquanto possam esbarrar na surrada justificativa das realidades dadas a que me referi pouco acima, a saber, o banimento

  • de toda publicidade governamental e
  • de toda concessão comercial de canais de televisão e rádio.

Como se pode ver, não se trata de tarefas fáceis, em razão dos enormes interesse em jogo. Senão, vejamos.

Que necessidade tem qualquer governo eleito de enaltecer, por meio de mensagens publicitárias, as realizações em nome das quais foi eleito ? Toda propaganda oficial por parte de quem está instalado no poder desequilibra francamente os pleitos seguintes, para os quais todos os concorrentes deveriam, se atendessem exclusivamente aos requisitos do fair play, se restringir às campanhas conforme regulamentadas pela justiça. Além disto, se este ou aquele governo realiza isto ou aquilo, não faz nada mais do que aquilo a que se propôs antes de ser eleito ou, noutras palavra, sua obrigação. Ora bolas, cidadãos bem que mereceriam ser poupados deste tipo de propaganda. Por isso, estranho muito que tão poucos parecem se ofender ou sequer importar com isto. Não consigo atribuir tal estado de coisas a outra coisa que não a supracitada naturalização acrítica de realidades dadas.

Do mesmo modo, não posso aceitar que recursos de tamanho alcance como a transmissão de sons e imagens por meio de ondas eletromagnéticas sejam concedidos pelo poder público a permissionários proprietários de emissoras de rádio e televisão. Se assino ou compro exemplares avulsos de jornais ou revistas impressos, estou perfeitamente ciente e tacitamente de acordo que os mesmos sejam parcialmente custeados por anúncios de terceiros estampados em suas páginas. Não é, todavia, aceitável que, ao sintonizar receptores de sons e imagens a determinadas frequências coexistentes no éter, tenhamos que ser constantemente bombardeados por propaganda não solicitada. Curiosamente, parece haver uma quantidade bem menor de publicidade em canais de TV por assinatura. Novamente aqui, se naturalizou a ideia perversa de que as poucas transmissões de TV aberta, disponíveis gratuitamente, devam ser bancadas por patrocinadores anunciantes enquanto as disponíveis exclusivamente mediante contrato sejam justamente aquelas mais livres de publicidade. Ora, as transmissões de rádio e televisão são um recurso por demais importante para serem concedidas à exploração comercial por uns poucos. Por isto, deveriam ser tratadas como de interesse público e, como tal, assumidas pelo estado, o qual também teria a incumbência de garantir seu controle social.

Bizarro ? Naïve ? Acho que não. Insisto que nenhuma tradição é totalmente inocente ou gratuita e que, mais uma vez nestes casos, a naturalização das coisas estabelecidas é governada por poderosíssimos interesses arraigados nos códigos que regem nossa sociedade. Interesses pelos quais textos como este jamais serão difundidos em qualquer veículo pertencente a conglomerados midiáticos mas, tão somente, num ou noutro blog improvável de audiência dispersa. Ao menos até que a idealização por Pierre Lévy de uma web semântica produza os primeiros resultados concretos.

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