Sobre palavras proibidas

Em dois episódios recentes na cena política brasileira, o poder judiciário, em flagrante desvio de função, se dedicou ao inútil exercício de tentar banir do vocabulário palavras consagradas pelo uso comum. O primeiro caso foi o do termo polissêmico “golpe” usado em conexão ao processo de impeachment que resultou no afastamento da presidente Dilma Rousseff. Mais recentemente, uma juíza do Distrito Federal tentou proibir o uso do neologismo “helicoca”, de sentido unívoco, utilizado para designar o… helicoca, de propriedade de um senador da República.

Gabriela Jardon, a juíza alçada à fama pela prosaica decisão

Não sou linguista mas, muito antes, um livre palpiteiro. E, como tal, tendo a acreditar que convenções da língua sejam validadas muito antes pelos hábitos daqueles que a falam do que, ao contrário, por força da lei. Daí a enorme complexidade das reformas ortográficas, que sempre geram polêmica e precisam de largos períodos de carência (geralmente de muitos anos) para sua total implementação na língua culta. Pelo menos até o advento dos corretores ortográficos embutidos em todo editor de texto, que nos lembram, mais do que quaisquer outros sistemas de aprendizagem, dos erros distraidamente cometidos.

Há, nos dois casos, supracitados, em que a máquina judicial foi recentemente acionada por políticos brasileiros com o intuito de coibir termos consagrados pelo uso, interessantes nuances a serem consideradas. Tomemos, inicialmente, a acepção política da palavra “golpe”, que vale como uma abreviatura da expressão “golpe de estado”. Trata-se de uma conotação poderosa, que encerra, numa só palavra, todo o caráter de ilegitimidade democrática imputado a um processo de alijamento do poder por parte de seus críticos.

Exatamente por isto, é perfeitamente natural o incômodo causado pela potente conotação do termo a todos os que acreditam que o impeachment de Dilma não tenha sido… um golpe. O que não é, no entanto, nada aceitável é que juízes de um tribunal superior se arvorem a determinar se este ou aquele termo pode ou não ser usado com esta ou aquela conotação. O discurso político, salvo em flagrantes casos de difamação ou calúnia, é livre, e cabe a cada uma das partes conflitantes persuadir a maioria de que a verdade esteja de seu lado. A ideia de legislar sobre os termos do discurso é, portanto, tão acintosa (por implicar em censura) quanto inócua e, consequentemente, hilária.

Mais: a espetacular proibição do uso da palavra “golpe” para designar o impeachment só faz consagrar ainda mais o sentido da acepção banida – do mesmo modo, digamos, que a publicidade, por definição mentirosa (se fosse verdade, ninguém precisaria pagar para que fosse dito), que só faz reforçar nas mentes mais argutas a noção de que, por trás de todo anúncio, alguém está sendo enganado.

Deliberações judiciais sobre o uso de termos específicos são, antes de mais nada, um subproduto canhestro dos tempos de maior liberdade de expressão. Paradoxal ? Não acho. Pensem, por exemplo, no longo período de vigência, de mais de duas décadas, do golpe militar de 1964. Naquele tempo, se banalizou, por meio de uma estreita vigilância e censura dos meios de comunicação, a ideia de que o que ocorrera em 31 de março daquele ano não fora um golpe e sim uma revolução. Só depois da restauração do estado democrático é que o termo golpe se consagrou para designar a truculenta tomada do poder pelos militares.

Ora, revolução e golpe encerram sentidos diametralmente opostos, de índole popular e oligárquica, respectivamente. Daí a enorme conveniência da utilização de um ou outro por parte de quem queira incensar ou condenar a ruptura política em questão. De 1964 até as Diretas, a censura fazia sua parte, não havendo, portanto, a menor necessidade de se legislar sobre o léxico. Hoje, com os discursos fluindo livremente, volta e meia nossos tribunais se deixam envolver em presepadas como as tentativas de banir o uso de termos como golpe ou helicoca.

Se golpe incomoda muita gente, helicoca incomoda muito mais. Isto por que o golpe foi desferido por agentes distribuídos. Ou, se quiserem, por um grupo de interesses. De tal modo que não é possível atribuir individualmente a este ou aquele político a responsabilidade exclusiva pelo afastamento da presidente. Por trás de uma coalizão de forças se alternam, assim, vilões de plantão, como Cunha, Temer ou Bolsonaro, a servir de fachada para interesses corporativos maiores e anônimos, por que impessoais.

Já no caso do helicoca, a coisa é bem diferente. Primeiro por que, por se tratar de um neologismo, não há qualquer significado pré existente para a palavra – que se refere, unicamente, ao helicóptero flagrado transportando quase meia tonelada de cocaína. Segundo, por que a aeronave tem dono – no caso um respeitável senador da República. O qual não deve ter se preocupado muito com a cunhagem da expressão, cuja maior probabilidade era, como soe acontecer com a maioria dos políticos pegos com a boca na botija, cair no esquecimento. Só que não. O termo helicoca é um grande achado linguístico que, passados já ca. 3 anos do fato causador, continua impregnado no imaginário popular.

Imaginem, agora, face aos exíguos e caros tempos de publicidade eleitoral, o potencial devastador de uma palavra como helicoca no discurso de opositores do senador nas próximas eleições. Daí que, segundo o princípio empírico do jus esperneandi, é natural que o proprietário do helicoca  bata às portas da justiça procurando banir ou delimitar o uso da palavra que o incrimina inequivocamente. Inaceitável, no entanto, é a justiça acolher seu pleito. Se juízes fossem descontados em seus polpudos vencimentos como penalização por decisões estapafúrdias, talvez não tivéssemos coisas como Gilmar soltando criminosos notórios ou, ainda, o goleiro Bruno trabalhando com crianças numa escolinha de futebol.

Caso contrário, não estamos longe do dia em que veremos luminares togados deliberando, em exercícios de malabarismo semântico, sobre quem pode, de direito, utilizar em seu próprio benefício ou contra outrem potentes adjetivos como democrático, socialista, de esquerda ou de direita.

Por que toleramos abusos cometidos por elites governantes; ou Onde falha o Jogo do Ultimato

É um grande equívoco considerar Yuval Noah Harari um historiador, ainda que sua formação deponha neste sentido. Pois seus escritos o definem muito mais como um filósofo que usa e abusa da história a fim de argumentar em favor de sua visão de mundo. Talvez por isto leitores mais rigorosos reputem suas narrativas como sensacionalistas, sem o devido rigor histórico. Ou não. Posso mudar de ideia, pois estou apenas a um terço da leitura de seu segundo livro, Homo Deus.

Para quem, como eu, estava entusiasmado com sua obra inaugural, Sapiens, o progresso através das páginas de Homo Deus pode ser um tanto decepcionante, posto que a maioria das ideias que ali se encontram já foram minuciosamente formuladas em seu primeiro livro. Isto tão somente até percebermos que, enquanto Sapiens pretende ser um um livro de história e, como tal, dedicado à ausculta do passado; Homo Deus retoma as mesmas ideias – só que, desta vez, no intuito de especular sobre o futuro.

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Uma das questões mais recorrentes a todo brasileiro contemporâneo mais ou menos informado é por que, afinal, apesar do abuso generalizado perpetrado por nossa classe política contra o povo, este último teima em permanecer, conquanto perplexo, absolutamente inerte. Não pretendo, aqui, conclamar nenhum levante armado nem tampouco alguma ruptura radical. Quero, tão somente, chamar a atenção para uma possível explicação para este estado de coisas segundo a concepção teórica de Harari. Para tanto, preciso que me acompanhem ao longo de uma linha argumentativa nada breve. A ela.

A hipótese de Harari para o fato do homo sapiens ter subjugado todas as demais espécies – levando, inclusive, muitas delas à extinção – difere da noção mais comumente aceita pelo senso comum de que a inteligência e a capacidade para a confecção de ferramentas são as competências que mais nos diferenciam de outros animais. Sustenta, ao contrário, que o que assegurou o domínio hegemônico de nossa espécie sobre as demais foi a capacidade de colaborar em grande escala e com flexibilidade em torno de objetivos comuns. Indo adiante, afirma que só desenvolvemos isto em razão de outra capacidade – a saber, a de criar realidades imaginárias compartilhadas por milhões de indivíduos, tais como religiões, nações ou dinheiro.

Grande parte dos capítulos iniciais de Homo Deus é dedicada à discussão de que

outras espécies de animais tem sensações, emoções e, quiçá, consciência análogas às humanas; e que

assim como outros animais, humanos tampouco são providos de alma.

Ao discutir a colaboração flexível em larga escala entre humanos, Harari a distingue da colaboração possível entre bandos com menos de 150 indivíduos por meio de dois experimentos, familiares a economistas e cientistas sociais, os quais, por conveniência, citamos extensivamente.

[…] o Jogo do Ultimato, um dos mais famosos experimentos em economia comportamental. Este experimento é em geral conduzido com duas pessoas. Uma delas ganha cem reais, que tem de dividir com o outro participante do jeito que quiser. Pode ficar com tudo, dividir ao meio ou entregar ao outro a maior parte. O outro pode ter uma de duas atitudes: aceitar a divisão sugerida ou rejeitá-la totalmente. Se rejeitá-la, ninguém fica com nada.

As teorias econômicas clássicas afirmam que humanos são máquinas de calcular racionais. Elas sugerem que a maioria das pessoas vai ficar com 99 reais e oferecer ao outro participante 1 real. Prosseguem sugerindo que o outro participante vai aceitar a oferta. Uma pessoa racional à qual se ofereça um real sempre dirá sim. Que lhe importa que outro jogador fique com 99 reais ?

Os economistas clássicos provavelmente nunca saíram de seus laboratórios e salas de conferência para se aventurar no mundo real. A maior parte daqueles que jogam o Jogo do Ultimato rejeita ofertas muito baixas por que as considera “injustas”. Preferem perder um real a serem vistos como babacas. Como é assim que funciona o mundo real, poucas pessoas fazem ofertas muito baixas e oferecem trinta ou quarenta reais ao outro jogador.

A partir deste resultado, Harari conclui que

sapiens não se comportam segundo uma lógica matemática fria, e sim de acordo com uma cálida lógica social.

Mais adiante, continua:

Em um experimento recente, o primatologista Frans de Waal pôs dois macacos-prego em duas jaulas adjacentes, de modo que cada um pudesse ver o que o outro estava fazendo.  De Waal e seus colegas puseram pequenas pedras em cada jaula e treinaram os macacos a lhes darem essas pedras. Toda vez que um macaco entregasse uma pedra recebia comida em troca. No começo, a recompensa era um pedaço de pepino. Os dois macacos gostaram muito e comeram os pepinos com satisfação. Depois de algumas rodadas, De Waal passou à fase seguinte do experimento. Dessa vez, quando o primeiro macaco cedeu uma pedra, ganhou uma uva. Uvas são muito mais saborosas que pepinos. No entanto, quando o segundo macaco deu uma pedra, recebeu uma fatia de pepino. Esse macaco, até então muito feliz com seu pepino, ficou enfurecido. Pegou-o e por um instante olhou incrédulo para ele; depois jogou-o com raiva nos cientistas e começou a saltar e a guinchar ruidosamente. Ele não era nenhum otário.

Esse hilariante experimento (que você pode ver no YouTube), assim como o Jogo do Ultimato, gerou uma crença de que os primatas possuem uma moralidade natural e que a igualdade é um valor universal e atemporal. As pessoas são igualitárias por natureza, e sociedades em que prevalece a desigualdade não podem funcionar bem devido ao ressentimento e à insatisfação.

Mas as coisas são realmente assim ? Essas teorias podem funcionar com chimpanzés, macacos-prego e pequenos bandos de caçadores-coletores. Também funcionam bem no laboratório, onde são testadas em pequenos grupos de pessoas. Entretanto, quando se observa o comportamento de massas humanas, revela-se uma realidade completamente diferente. A maior parte dos reinos e impérios humanos foi extremamente desigual, mas muitos foram surpreendentemente estáveis e eficientes.

Depois de ilustrar a última assertiva com a desigualdade reinante tanto no Egito dos faraós como na Prússia de Frederico II, Harari pergunta:

Por que os camponeses egípcios e os soldados prussianos agiram de modo tão diferente do que poderíamos esperar com base no Jogo do Ultimato e no experimento com macacos-prego ? Por que o comportamento de um grande número de pessoas é fundamentalmente diferente daquele apresentado por um agrupamento menor. O que veriam os cientistas se realizassem o experimento do Jogo do Ultimato com dois grupos de um milhão de pessoas cada, em que tivessem que dividir 100 bilhões ? Provavelmente eles testemunhariam uma dinâmica estranha e fascinante. Por exemplo, como um milhão de pessoas não são capazes de tomar decisões coletivamente, cada grupo teria de fazer brotar uma pequena elite governante. E se uma elite oferecesse à outra 10 bilhões, reservando para si 90 bilhões ? Os líderes do segundo grupo poderiam muito bem aceitar essa oferta injusta, injetar a maior parte dos 10 bilhões em suas contas em bancos suíços, enquanto contornavam a rebelião de seus seguidores com uma combinação de punição e recompensa. A liderança poderia ameaçar punir severa e imediatamente os dissidentes, ao passo que prometeria aos submissos e pacientes uma recompensa duradoura no pós-vida. Era isso que acontecia na Egito antigo e na Prússia do século 18, e é assim que as coisas ainda funcionam em vários países do mundo.

Harari conclui, então, que

[…] toda cooperação humana em grande escala baseia-se em última análise na nossa crença em ordens imaginadas. […] Sapiens usam com frequência marcas visuais, como um turbante, uma barba ou um terno formal para sinalizar: “Pode confiar em mim, acredito na mesma história em que você acredita”.

Ora, se substituirmos, nos parágrafos acima, as duas elites governantes a dividir os 100 bilhões por políticos e grandes empresários, teremos uma metáfora perfeita do atual cenário nacional. E os milhões por eles governados não terão,  conforme Harari e ao contrário do sugerido pelo Jogo do Ultimato, nenhuma resistência a serem tidos como babacas ou otários.

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Anteriormente no mesmo livro, Harari explica que a história não instrumenta quem a conhece a prever o futuro – algo que reputa como impossível – mas contribui para que se evite repetir erros cometidos no passado. Oxalá fosse mais lido entre nós !

Por que se evita tanto falar em democracia direta ?

Quem mais ouviu ontem, na Band News FM, o Ricardo Boechat defender a democracia direta, ainda que sem se referir a ela pelo nome ? Pois, ao pleitear que, a exemplo do que já é feito em alguns países, as cédulas eleitorais permitam aos cidadãos, além de escolher representantes, deliberar sobre decisões a serem tomadas em relação a matérias importantes, se referiu inequivocamente àquilo em que se constitui, em essência e em última análise, uma democracia direta – a saber, a voz do eleitor se fazendo valer em todas as matérias de interesse público. Isto é o contrário do que temos hoje, com representantes eleitos a quem outorgamos o direito e o poder de decidir em nosso nome.

No mesmo editorial, o âncora da Band caçoou da única e improvável possibilidade que a população tem hoje de fazer sua vontade adquirir força de lei. Pois, mesmo que alguma causa consiga angariar os milhões de assinaturas requeridas para o encaminhamento de uma emenda popular à constituição, a mesma ainda dependerá, para sua implementação, do endosso de casas legislativas numericamente muito inferiores aos signatários de cada emenda proposta – a vontade de milhões ficando, portanto, sujeita à aprovação de umas poucas centenas.

Esta questão deveria estar, portanto,  juntamente com outras tais como o fim do foro privilegiado e das aposentadorias especiais, rituais mais sumários para cassação de mandatos e criminalização de políticos corruptos ou flagrados em estelionato eleitoral (o não cumprimento do que foi prometido), redução dos salários de políticos, enxugamento de custos legislativos e tantas outras, no âmago de qualquer reforma política. Mas não. Em vez disto, políticos eleitos tentam incutir em eleitores perplexos a impressão de que estão de fato fazendo alguma coisa simplesmente tergiversando sobre a composição de distritos eleitorais. Sob esta cortina de fumaça, tratam de amealhar para suas próximas campanhas eleitorais mais um bocado colossal do orçamento nacional. Tenho, então, que concordar com Boechat quando diz que a reforma política, tal como vem sendo encaminhada, será totalmente inócua, a não ser pela concessão de mais vantagens aos políticos e aos partidos.

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Nomes importam. Muitos ainda se incomodam com a designação de “golpe” à articulação que afastou Dilma do poder por delitos bem menores do que malfeitorias perpetradas pela quadrilha hoje instalada. Pois o que são, afinal, pedaladas fiscais perto da abolição de direitos e flexibilização dos contratos trabalhistas ? Sem falar em propinas milionárias e na compra de votos de parlamentares.  Querem nos fazer acreditar, no entanto, que nos livraremos de tudo isto simplesmente com a “reforma política” que aí está. Ao mesmo tempo, se evita a qualquer custo a popularização da noção de “democracia direta” tão somente por que ela rende óbvia a obsolescência dos representantes eleitos tais como hoje os conhecemos. Esta é uma verdade inconveniente (para os políticos profissionais) protegida a sete chaves.

Daí a necessidade de uma assembleia constituinte soberana e exclusiva (i.e., sem a participação dos atuais congressistas) para a redação, após ampla discussão (que tarefa para os tribunais eleitorais !), de uma nova carta magna da qual sejam expurgadas as mazelas da representação.

Não sou tão ingênuo a ponto de acreditar que isto venha a acontecer num futuro próximo nem tampouco sem alguma comoção popular, pois a blindagem contra esta ideia é fortemente sustentada pelo congresso e pela mídia, ambos controlados pelo poder econômico. Mas sonhos só possuem alguma chance de se tornar realidade se falarmos sobre eles.

A perversa retórica de que a salvação reside no empreendedorismo

Já disse noutro post que tenho o incurável hábito de assistir ao Jornal Nacional tão somente para auscultar a linha editorial da Rede Globo e, residualmente, para ficar a par do mais recente pacote de maldades do governo federal bem como das últimas peripécias do circo judiciário.

Ouvindo de longe, ontem, apenas o áudio do Jornal Nacional, fui tomado de curiosidade por uma matéria que, supostamente, fomentava o empreendedorismo. Algo sobre abraçar novas carreiras. De um modo tortuoso, a tônica do discurso me pareceu, de imediato, a banalização do desemprego. Achei aquilo muito sintomático,  pois justo quando o alto empresariado obtém o aval do estado, respaldado pelo poder legislativo, para se desonerar de responsabilidades trabalhistas, seu principal arauto (afinal, quem sustenta, por meio de anúncios, a grande mídia ?) toma a si a tarefa de persuadir a população de que sua emancipação e felicidade não dependem da segurança do recebimento de um salário mensal e outros benefícios tidos como supérfluos por defensores das virtudes do mercado – tais como férias remuneradas, décimo-terceiro salário e aposentadoria – mas, tão somente, de arriscadas e improváveis incursões de nanicos no mundo dos negócios. Pois, para o credo liberal, o mundo ideal é povoado não por assalariados mas por pequenos empreendedores. O governo federal estimula essa ideia por meio do Sebrae. Até orquestras, como a OSESP, já contratam músicos como empreendedores individuais.  Ainda assim, quase vomitei ao ver o JN incentivar a audiência a abraçar carreiras autônomas no mesmo dia em que o governo anunciou um novo plano de demissões voluntárias.

Na supra-citada matéria, mostraram um site que já tinha mais de 11 mil seguidores. Ora, curtidas em redes sociais não equivalem de modo algum a intenções de compra. Com efeito, se tivéssemos que pagar por cada coisa que curtimos, seríamos bem mais criteriosos ao pressionar o ícone da mãozinha com o polegar erguido. A dona do mesmo site nos informa sobre alguém que, pelo volume de fotos postadas, já pode ser considerado como o fotógrafo oficial do site. Se a TV fosse interativa, perguntaria de pronto quanto pagou por cada foto. O que mais me irrita nisto tudo é pensar que esta retórica emancipatória possa encontrar, entre a audiência, olhos e ouvidos crédulos. Se fosse na internet, seria automaticamente descartada como algum vírus ou spam. Na tela da TV adquire, no entanto, o benefício da validação.

Indo adiante, é preciso acrescentar que, conquanto muitas iniciativas comercias já tenham se apropriado com êxito de recursos virtuais, a esmagadora maioria dos sites ainda é exclusivamente voltada para a comunicação entre seus mantenedores e visitantes. A web ainda é, portanto, eminentemente um meio de informação. Se, no entanto, os responsáveis por cada site ou blog passassem a tentar vender alguma coisa, arrisco afirmar que, em sua grande maioria, perderiam um volume considerável de leitores.

Sei. Há sites como um prosaico “Viver de blog”, que “ensina” técnicas para potencialização da audiência e monetização do conteúdo. Insisto, ainda assim, que o maior potencial da rede, largamente subaproveitado, reside na comunicação, com especial importância para a educação e a política. Só que ambas precisam mudar radicalmente para desfrutar deste benefício e, ao menos no que se refere à política, tal não é do interesse da classe governante, indiscutivelmente devido à horizontalidade inerente aos protocolos virtuais.

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Como disse acima, o empreendedorismo nanico (na ausência de expressão melhor) já foi banalizado como parte do pensamento liberal, tanto no que tange ao estado mínimo quanto na crença na suprema legitimidade do mercado como mediador de todas as relações humanas.

Uma das coisas que apreendemos, no entanto, lendo Harari, é que nenhuma ideia é naturalizada sem uma poderosa combinação de interesses e esforços, ainda que escusos, a contribuir para sua aceitação. No caso do empreendedorismo individual, é possível identificar, além de campanhas como as da Globo, auto-justificadas com a eloquência de atos falhos, inúmeros interesses em ação.

Primeiro, há que se reconhecer que organizações colaboram para isto. Vejam, por exemplo, o caso da campanha publicitária In doers we trust, lançada pelo provedor de serviços free lance Fiverr, que chegou à minha atenção por meio de uma matéria publicada no New Yorker, crítica em relação à atual onda de empreendedorismo individual, que narra a história de uma mulher, em busca de alguns dólares a mais, que entrou em trabalho de parto enquanto dirigia uma espécie de Über. A esta matéria deve ser creditada a expressão gig economy, traduzível como “economia de bicos”, que bem define a situação à qual governos liberais e empresários mancomunados presentemente querem relegar a sociedade.

Outras organizações, mais antigas, que promovem a desregulamentação trabalhista e a supremacia do mercado, são mencionadas num interessantíssimo artigo publicado pelo The Guardian. Sintomaticamente, magnatas que dirigem estas organizações insistem em permanecer no anonimato, como se a mera publicização de sua relação com tais organizações fosse por si só suficiente para minar seu propósito de promoção da livre iniciativa.

Por aqui, se popularizou, anos atrás, a denominação jocosa de PDV (plano de demissão voluntária) para as acessíveis vans asiáticas adquiridas por ex-funcionários públicos para a venda de cachorros-quentes com os recursos oferecidos pelo governo estadual em troca da auto-exoneração precoce.

Além disso, há hoje um aquecido mercado para palestras de autoajuda, por coachs a afins (que, em sua maioria, jamais abriram um CNPJ), destinadas a indivíduos em busca de estímulo para se lançarem a empreendimentos individuais. Nestes rituais, se promove a ideia de que há um mercado ávido pela iniciativa a ser empreendida por cada um,  dependendo apenas de sua vontade, se vendendo a ideia de que abrir uma empresa é tão fácil quanto montar uma banda de garagem e deliberadamente omitindo o fato de que poucas dentre as empresas abertas efetivamente prosperam.

Por que é tão ridículo quanto inócuo criminalizar o funk

Nos últimos dias, ganhou justa notoriedade uma polêmica absurda deflagrada pela chegada ao senado de uma proposta ridícula para criminalizar o funk. Como piada, até que a ideia tem algum alcance, por denotar um consenso entre certos segmentos de que, como diz o nome do site do proponente, “funk é lixo”. Até aí, assino em cima, embaixo e por todos os lados. Mas só até aí. Não quero, neste post, esmiuçar as razões técnicas e objetivas pelas quais tenho o gênero (assim como alguns outros) em tão baixo apreço. Pois este não é um texto de crítica musical.

A proposta de criminalização do funk  é, primeiramente, inócua em razão da impossibilidade de definição, por parte de quem aplica a lei, de qualquer gênero musical. Sim, o senso comum estabelece que qualquer um sabe, afinal, o que é um funk.  Só que, em arte, toda categorização genérica é elusiva, sendo natural a qualquer mente criativa metamorfosear gêneros recebidos em derivações que facilmente escapem, num quesito ou noutro, às melhores definições do modelo original. Considero, então, a proposta natimorta pela própria impossibilidade de aplicação de qualquer lei neste sentido. Seria como a censura, sob a qual e apesar da qual os melhores artistas sempre lograram difundir suas mensagens. Por que não me espanto que o senado perca tempo e energia com isto ? Ora, por que é uma ótima cortina de fumaça para quem vem se dedicando a perpetrar malfeitorias de toda sorte.

Historicamente, outros gêneros musicais, como o samba ou o maxixe, já foram proscritos. Inutilmente. Pois a proibição costuma funcionar como um atrativo adicional. Então, enquanto alguém reconhecer algum valor no funk, ele vai continuar existindo, apesar de qualquer esforço em contrário.

Mas nos atenhamos um pouco sobre a materialidade do funk (impressionante como o juridiquês é afeito a este termo: “a materialidade das provas…”). Para fins de análise, é conveniente, aqui, desmembrarmos o gênero em questão entre letra e música.

Sobre a música, conquanto absolutamente rasa segundo  qualquer critério musical utilizado (me poupem, aqui, de bater na desgastada tecla da “música do homem branco europeu da renascença ao romantismo”), nada pode ser imputado ao funk como socialmente nocivo ou degradante. Se fosse assim, também precisaríamos banir, num mesmo movimento, todo Paulo Coelho, sertanejo universitário y otras cositas más.

É em relação às letras de muito funk que se concentra a maior parte das objeções. Pois é bem comum ouvirmos textos francamente apologéticos à violência, ao sexismo ou ao consumo de drogas. Ora, para tudo isto existem as leis, a polícia e a justiça. A ideia de combater estes problemas proibindo a circulação de mensagens que os incitem é análoga à queima de livros tão cara às grandes distopias, nas quais estados fortes logram eliminar pragas sociais por meio da destituição dos indivíduos de livre arbítrio.

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Ouço, por opção, pouco ou nenhum funk. Achei o pouco que ouvi não repulsivo e desnecessário que fechei meus ouvidos para o gênero. Durante a recente e pertinente campanha contra sua criminalização, acabei tomando contato com algumas vertentes virtuosas do funk, que utilizam sua penetração em camadas sociais mais desfavorecidas para disseminar mensagens de conscientização e emancipação. Mesmo que, em termos amostrais, se trate de uma agulha num palheiro, tais casos são por si só suficientes para legitimar o gênero.

Observando mais atentamente, notamos que, se quisermos isolar o funk virtuoso do funk nocivo (me desculpem os rótulos, tão úteis à presente discussão), devemos desconsiderar o gênero para nos concentrar em seus  autores.  Pois, ainda que o funk seja extremamente diverso quanto à benignidade/malignidade de suas letras, encontramos uma consistência bem maior ao nos debruçarmos sobre os textos de um mesmo autor. Ou seja, é bastante improvável que um mesmo artista exorte a violência numa canção e apele aos bons sentimentos em outra. Deste modo, não se pode dizer que o funk seja, por definição, bom ou ruim. Há, no entanto, inequivocamente bons e maus funkeiros (falo, aqui, tão somente do aspecto poético-literário – pois se a música hegemônica evidentemente empobreceu ao longo das  últimas décadas, tal se deve a um conjunto de fatores que fogem ao âmbito deste texto).

Tendo uma vez discriminado cada instância do funk em relação à sua nocividade social, não cabe, ainda assim, criminalizar sua banda podre. Cabe, isto sim, promover entre a população afetada pelo gênero este tipo de discernimento. Para tanto, é preciso, antes de ignorar, ouvir. E em vez de criminalizar, criticar.

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PS: ao procurar na web imagens para ilustrar este post, me deparei com cenas das mais degradantes que já vi, das quais quem não vai a bailes funk só ouve falar, mas que bem retratam a realidade que faz prosperar uma ideia como a da iniciativa de criminalizar o funk. Optei por poupar leitores do blog de sua visualização. Se quiserem, no entanto, vê-las, digitem no navegador a expressão “baile funk images”. Por que falo isto ? Por que se, por algum canetaço, o funk simplesmente deixasse de existir,  o mesmo tipo de diversão perversa continuaria acontecendo nestes bailes sob outro tipo de música qualquer. O fenômeno do baile funk é, sim, um problema de saúde pública – só que de erradicação bem mais complexa. A música que os embala, no entanto, não mais do que um aditivo intercambiável.

Por que a linha sucessória da presidência da república é ilegítima

Qualquer um percebe que há algo profundamente errado na linha sucessória para a presidência da república do Brasil, ainda que amparada no texto constitucional. Ao longo deste post, tentaremos deixar claro, em termos quase didáticos, o por que. Se já souberem, abandonem a leitura por aqui.

As eleições diretas para a presidência da república foram um inegável avanço democrático, arduamente conquistado depois dos anos de chumbo. Só que, na prática, o problema começa na composição de uma chapa presidencial. Queiramos ou não, elegemos um mandatário para a nação apesar do candidato à sua vice-presidência – via de regra um boneco alçado à candidatura muito mais em razão de composições partidárias destinadas a garantir a governabilidade do que por qualquer outra coisa. No caso do impedimento temporário ou permanente de um mandatário legitimamente eleito, se fica à mercê de um Temer ou de um Itamar.

(não votei em Dilma principalmente devido à sua aliança eleitoral com raposas do PMDB; logo que vi Temer como papagaio de pirata durante seu discurso triunfal por ocasião da última eleição presidencial, pensei: “vai dar merda”. Não deu outra.)

Mas o problema não termina aí. A legitimidade de qualquer chapa presidencial ungida pelo voto (ainda que com o indesejável contrapeso de um vice plantado ali por conveniência partidária) termina na segunda instância caso o vice eventualmente empossado também seja deposto – como estamos prestes a assistir, pasmos e impotentes face à carta constitucional (esta mãe de todos os males).

Pois tanto a terceira quanto a quarta instância da linha sucessória, respectivamente os presidentes da câmara de deputados e do senado, jamais foram eleitos pela nação para o exercício da presidência da república. Nem tampouco o presidente do STF – neste caso alguém indicado pelo próprio presidente ou um de seus antecessores:  querem vício político maior do que este ? (oportunamente, tornarei à questão do vício inerente aos cargos de confiança).

Presidentes de casas legislativas não desfrutam da confiança majoritária do eleitorado, sua ascensão ao cargo se devendo exclusivamente à capacidade pessoal de administrar alianças e acordos escusos com os demais parlamentares. Pensem que, até pouco tempo atrás, estávamos sujeitos, na hipótese de queda dos primeiros mandatários da linha sucessória, a ser governados por criminosos notórios, ainda que políticos hábeis, como Cunha ou Renan. Ambos, no entanto, seriam demais até para a complacência bovina da população brasileira. O jeito, então, encontrado pela quadrilha para prevenir um improvável levante popular foi sacrificar Cunha em prol do golpe (aguardem sua vingança em forma de delação) e simplesmente deixar que Renan passasse da validade; elegendo para suas posições de vantagem novas caras, com biografias demasiado curtas para o acúmulo de sujeira e coroadas por exuberante cabeleiras (a propósito, Rodrigo e Eunício usam perucas ?) – a denotar, emblematicamente, a renovação de carecas prá lá de comprometidas.

O problema acima descrito persistirá até que a carta magna seja remendada a fim de garantir que todas (e não apenas a primeira e a segunda) posições da linha sucessória sejam ocupadas por sujeitos escolhidos por voto direto. Idealmente, sem a composição de chapas, para contemplar, por exemplo, os que votariam em Dilma mas jamais em Temer. Como ? Em turnos sucessivos, tantos quantas forem as posições da linha sucessória. Trabalhoso ? Para os tribunais eleitorais, talvez. Jamais, no entanto, para os eleitores assim empoderados.

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Não é de hoje que venho dizendo que a restauração da dignidade nacional (se é que já houve alguma) passa, obrigatoriamente, por uma reforma política e uma constituinte exclusiva que garantam, entre outros avanços,

a instalação de uma democracia direta;

o fim de toda representação;

o fim de todos os cargos de confiança (em qualquer esfera administrativa, a gestão deve ser conduzida por agentes escolhidos ascendentemente pela maioria administrada e jamais descendentemente nomeados por qualquer mandatário eleito majoritariamente (sempre defendi isto; esmiuçei a ideia no blog anterior e devo tornar a bater na mesma tecla)).

Sei. Nunca foi tão alardeado, como hoje, o bordão “não há política sem políticos”. Convenientemente, há quem queira naturalizá-lo como verdade. Duvido muito. Penso que a política só começará com a extinção dos políticos.  Ou, ao menos, da política como profissão. Pois, pelo andar da carruagem, não falta muito para que algum ego exacerbado com vocação ditatorial decida fechar o congresso com amplo apoio da população. Então, é imensamente preferível que a população declare, por algum meio plebiscitário, a obsolescência do congresso antes que algum oportunista o faça.

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PS: Procurando fotos de Eunício na web para ilustrar esta postagem, me ficou evidente que ele pinta o cabelo. Alguém também há de publicar um ensaio semiótico sobre o por que de candidatos serem fotografados invariavelmente em mangas de camisa e, uma vez eleitos, sempre de terno e gravata. Não deve ser só por causa do regimento parlamentar.

Por que a justiça faz vista grossa ao abismo existente entre os discursos público e privado dos políticos ?

A nação está pasma. Dia após dia, os que ainda tem estômago para acompanhar noticiários tentam desesperadamente entender como uma quadrilha de ladrões e potenciais assassinos confessos permanecem, apesar dos crimes em que se envolvem, à frente do governo. Depois da última onda de prisões e solturas (que mercado para os advogados !), parece consenso que contam, inclusive, com a conivência do judiciário.

Entendo, outrossim, que a falha que permitiu chegarmos à absurda situação atual se encontra, primordialmente, na letra fria da lei. Mais especificamente, no regramento que invalida toda prova obtida por meio de microfones ocultos.

Sob o pretexto de salvaguardar a privacidade dos denunciados, tribunais superiores perdem tempo discutindo se esta ou aquela gravação incriminatória – obtida, no entanto, sem a ciência e o consentimento explícito de um criminoso confesso  – pode ou não ser utilizada como prova em processos contra o mesmo.

Vale a pena nos determos por um instante sobre os termos (tanto a forma como o conteúdo) das últimas falas reveladas do malfeitor, espécie de inimigo público número um (ou dois, vá lá, pois ele ainda não está na presidência da república, à qual é eterno candidato) Aécio Neves. Tenho certeza de que qualquer um que ouça, de um lado, as já célebres gravações reveladas na delação da JBS e, de outro, tanto a peça publicitária de alegação de inocência de Aécio quanto o discurso por ocasião de sua volta triunfal ao senado, não teria a menor dificuldade em identificar, tanto pelo linguajar quanto pelo teor, o que foi proferido pelo senador em contextos, respectivamente, públicos e privados.

Se Aécio fosse uma pessoa comum na qual precisássemos confiar, perderíamos qualquer confiança nele depois de ouvir o que disse quando julgava que suas palavras morreriam ali, sem serem jamais publicadas.

Só que a lei não funciona assim. Enquanto o abismo reconhecido por todo cidadão entre o discurso público e o privado de Aécio é suficiente para que o consideremos um mentiroso notório, a justiça só reconhece como expressão da verdade o que é dito por ele publicamente – como, por exemplo, na tribuna do senado ou em peças publicitárias (videos inclusos neste post) – ignorando, pasmem, suas falas mais comprometedoras proferidas, no entanto, sob o conveniente manto da privacidade.

Deste modo, a mensagem implícita passada pelo poder judiciário a quem quer que ingresse na carreira política pode ser mais ou menos formulada como “cometa crimes à vontade, desde que jamais os assuma publicamente”.

Mais. Tecnicamente, não há qualquer diferença entre as gravações de Joesley e aquelas produzidas diariamente pela polícia entre traficantes e seus cúmplices. Por que umas servem como provas para a condenação de criminosos e as outras não ?

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Cheguei a dizer, de certa feita, que, num mundo perfeito, deveríamos escolher governantes em reality shows nos quais todos os candidatos estariam sob vigilância pública permanente, sempre ao alcance de câmeras e, principalmente, microfones. É claro que isto foi uma piada. Pois todos os políticos de sucesso são, antes, grandes atores e, como tais, não teriam (assim como não tem) qualquer dificuldade em fingirem virtude o tempo todo. Notem, no entanto, que um Big Brother eleitoral assim dificultaria em muito qualquer maracutaia. Pois que outra razão haveria, afinal, para o Palácio do Planalto estar há vários anos sem um sistema de câmeras de segurança a documentar idas e vindas entre gabinetes ?

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Falando sério. Político algum deveria desfrutar de qualquer privacidade, com a qual a figura do “homem público” não passa de um eufemismo. Obviamente, não estou a defender que não tenham direito ao sexo ou à higiene pessoal longe de vistas alheias.  Mas sua privacidade deveria terminar aí, ou não muito longe disto. Pois enquanto a justiça fizer vista grossa às provas irrefutáveis obtidas por meio de escutas camufladas, continuaremos ouvindo protagonistas da política dizendo, com a maior cara de pau, coisas como “isto é calúnia”, “caí numa armadilha” ou “minhas campanhas sempre ocorreram rigorosamente dentro da lei”.

 

Por que a intolerância é inerente a todas as religiões

Um dos aspectos mais fascinantes das redes sociais é a absoluta falta de controle, por parte de quem posta algo, sobre as múltiplas inclinações que podem assumir os comentários sob cada postagem. De pouco adianta que seus autores tentem exercer uma espécie de curadoria perversa, excluindo este ou aquele comentário a fim de manter minimamente a correlação entre o que foi postado e o que é comentado e, com isto, alguma coerência discursiva entre a postagem original e os comentários sob a mesma – já que, ao frequentarmos as redes, almejamos, antes de tudo, alguma interação com a audiência.

Foi assim que, dias atrás, ao procurar reverberar no facebook o conhecidíssimo bias da mídia corporativa em relação à importância atribuída a cada atentado terrorista em função dos territórios onde ocorrem, me deparei com um thread de comentários cuja índole denotava, antes de mais nada, a intolerância religiosa. A saber, o velho conflito entre os mundos judaico e muçulmano.

Não pretendo (nem poderia), aqui, identificar de que etnia partiu a agressão inicial em nome da qual todas as guerras e atrocidades subsequentes foram cometidas. Até por que a justificativa mais usada para qualquer ataque é sempre a defesa. Em nome dela, se invadem países, bombardeiam populações inocentes e ditam leis de exceção. Nem tampouco me proponho a condenar ou justificar a existência de Israel ou a inexistência, até o momento, de um estado palestino. Pois tais questões envolvem conhecimentos geopolíticos melhor dominados por economistas e historiadores. Vale a pena, no entanto, se debruçar um pouco sobre a indagação de por que, desde tempos pré-bíblicos até muitos estados modernos, fronteiras geográficas sempre foram determinadas pelas crenças religiosas de quem vive entre elas e, portanto, pela intolerância em relação a crenças divergentes.

Tanto no mundo antigo como no medieval ou atual, guerras foram e são travadas e fronteiras estabelecidas, fundamentalmente, em razão dos deuses em que grupos humanos distintos acreditam. Enquanto o extremo oriente é dividido entre budistas e hinduístas, temos no oriente médio o clássico conflito entre judeus e muçulmanos, atual centro de atenção jornalística principalmente em razão de riquezas do subsolo, e, no mundo europeu e suas ex-colônias, a fratura do mundo cristão entre católicos, protestantes e, mais recentemente, as denominações neopentecostais. Desde os tempos medievais, estados vem sendo estabelecidos, na melhor das hipóteses, por alianças cuidadosamente arquitetadas sob a forma de casamentos entre casas monárquicas ou, na pior (por que a mais sangrenta), por guerras devastadoras. Mesmo na de resto civilizadíssima Europa, temos ou tivemos até pouco tempo atrás (não sei ao certo) conflitos como aquele entre católicos e protestantes irlandeses. Neste contexto, o estado laico é uma invenção humanista bem recente e ainda precariamente implementada. A julgar, por exemplo, pelas orações promovidas pela bancada evangélica no congresso brasileiro.

Posto isto, cabe se especular por que a intolerância é inerente não a uma mas a todas as religiões. Pois mesmo que algumas delas preguem a tolerância aos que acreditam em divindades e valores diferentes, para todos os seus adeptos a simples aceitação de uma condição de igualdade com alguém com uma matriz diferente de crenças implica na insuportável premissa de que, por tolerarmos que outros pensem de modo diferente, eles possam estar certos e nós, errados. O que pode variar, de uma religião para outra, é só uma atitude que vai de superioridade e soberba travestida em tolerância até a retaliação fundamentalista de infiéis. Seja como for, a incerteza implícita na coexistência com o que é diverso é estranha a todo pensamento religioso. Pois religiões são, afinal, dedicadas primariamente à sustentação de fantasias criadas pelo homem como verdades incontestáveis muitas vezes incompatíveis entre si. Mais: já foram descritas como enormes jogos de realidade virtual compartilhados e jogados por milhões de pessoas. Tal é a concepção do pensamento religioso segundo Yuval Noah Harari, da Universidade Hebraica de Jerusalém, cujas ideias merecem ser melhor conhecidas.

harari 1
Yuval Noah Harari

Para uma introdução ao pensamento do israelense Harari, tão instigante quanto original, confiram o artigo recentemente publicado pelo historiador em The Guardian. E para uma visão crítica e divertida da intolerância insana inerente a todas as denominações religiosas vejam o filme de curta metragem This Land is Mine, sobre a música tema do filme Exodus, realizada pela excelente cartunista, ativista e artista de animação norte-americana Nina Paley.

 

 

Muito fogo e pouco povo; ou A greve que não existiu

Negações de fatos comprovados vem tomando bastante importância em tempos recentes. São, por exemplo, bem conhecidos os casos de negadores do holocausto e do aquecimento global. O primeiro já ganhou as telas do cinema, através de um julgamento célebre (Negação, 1916). O segundo já é uma preocupação nos EUA: Jay Rosen, professor de jornalismo da NYU, escreveu sobre como o problema do aquecimento global deve ser endereçado por educadores e jornalistas. Em seus artigos, defende que fatos comprovados não podem ser tratados como meras questões de opinião. Podemos, então, afirmar que a expressão negacionismo (denialism) entrou definitivamente para o jargão sócio-político.

No Brasil, o negacionismo registrou, nos últimos dias, seu caso mais emblemático, a saber, a premissa, sustentada eloquentemente pela Rede Globo e outros conglomerados de mídia, de que a greve geral do último dia 28 de abril jamais existiu.

Dois dias depois do grande evento, que foi considerado pela Fundação Getúlio Vargas como o maior em toda a história da internet brasileira, a revista Veja circulou com a seguinte capa:

veja greve geral 1

Um parêntesis sobre a Veja. Quando apanhei um exemplar numa gôndola do supermercado para apreciar a capa, me espantei com a minguada espessura do fascículo. A Veja, que já teve lá suas 100 páginas, está hoje reduzida a algo como a metade disto. Pois bem. Meu pai, que assinou a revista desde seus primeiros exemplares, que saíram mais ou menos quando do golpe militar de 1964, adotou, lá pelas tantas, o hábito de arrancar à revista todas as páginas que contivessem anúncios dos dois lados, tão somente para saber o quanto de material editorial o semanário lhe oferecia em troca de sua assinatura. Não viveu para ver a revista convergir para a espessura de uma Time ou uma Neewsweek. Minguaram só os anúncios ou, igualmente, a matéria editorial ? Deve a redução da espessura da revista ser interpretada como um signo do declínio dos meios de broadcasting ? Não sei. Mas fica aí a dica de pesquisa para media watchers de plantão.

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Já havia me referido, aqui, à vantagem de ler o noticiário da Globo nas entrelinhas. Na greve geral da última sexta-feira, começaram por mostrar desde quão cedo, ainda pela madrugada, seus repórteres estavam a postos para cobrir o anunciado dia de paralisação. Depois, no primeiro jornal da noite (o Jornal Nacional), trataram de caracterizar, no texto, a greve como um movimento exclusivo de centrais sindicais (esta atribuição de responsabilidade foi repetida nada menos do que TRÊS vezes pelo âncora William Bonner ao longo de toda a matéria) e, em imagens, como se a mobilização massiva tivesse se restringido a pneus incendiados em bloqueios de vias, vidraças quebradas e piquetes diante de garagens de ônibus para que não circulassem.

Tal recorte editorial gerou uma expectativa de que, no Fantástico do domingo seguinte à greve, se repetisse o mesmo tipo de discurso de minimização do ocorrido. Meu amigo Adroaldo Bauer Corrêa chegou mesmo a comentar que abriria mão da necessária tarefa de assistir ao programa por saber, de fonte confiável, que lá veríamos “muito fogo e pouco povo”. Tal era a expectativa geral. A Globo, no entanto, surpreendeu, pois nenhuma palavra ou imagem da greve foi veiculada nas ca. duas horas de duração do programa.

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Me referi acima ao fenômeno crescente do negacionismo, que consiste na negação, por indivíduos ou grupos, da existência de fatos comprovados, passados ou presentes. A negação, no entanto, por meios supostamente jornalísticos, de fatos ou enunciações que sequer foram formulados nos mesmos meios (como, por exemplo, responder a uma pergunta que jamais foi proferida) é conhecida por psicólogos como denegação. Então, pelas razões acima, entendemos que a omissão praticada tão consistentemente (praticamente um insulto à inteligência dos espectadores), se trata, mais do que uma negação do ocorrido, de uma denegação – que, no entender de psicólogos, costuma significar muito. Noutras palavras, a recusa em divulgar a greve geral em toda sua magnitude, e mesmo sua omissão por completo, diz mais da posição da emissora do que qualquer matéria ou editorial sobre o evento diria.

Já bem disse alguém que uma imagem vale mais do que mil palavras. Consoante a isto, não vi nada que retratasse com mais precisão a atitude da mídia corporativa em relação à greve geral da última sexta-feira do que a charge abaixo (obrigado, Fernando Lewis de Mattos !):

charge 1

 

 

 

 

Por que gosto de assistir ao jornalismo da Globo

Jornal Nacional 2

Cada vez mais me deparo com postagens incitando a um boicote à Rede Globo. Acho isto auspicioso. Só que, enquanto não se unirem forças suficientes para evitar a renovação da concessão da emissora (até quando vai ?), continuarei achando bem didático assistir, sempre que possível, a seus programas, particularmente aqueles ditos “jornalísticos”, neles incluída sua revista semanal, o Fantástico, espécie de carro chefe a evidenciar toda sua linha editorial.

Cultivo o hábito de assistir aleatoriamente a estes programas da Globo por acreditar que a audiência crítica a sua editoria jornalística propicia um olhar privilegiado sobre a engenhosa manipulação exercida sobre o que lá é veiculado como notícia. É, no entanto, ingênuo esperar que esta manipulação seja denunciada no calculado discurso de seus âncoras – que são, de resto, muitas vezes também grandes atores. Para tanto, existem as redes sociais.

Senão, vejamos. Na última segunda-feira, pipocaram no facebook exortações (inclusive da OAB) à ampla divulgação, pela ministra-chefe do STF, do teor, ainda mantido sob sigilo, da delação premiada da Odebrecht. Também conhecida, por seu presumível potencial de não deixar pedra sobre pedra, como a Delação do Fim do Mundo. Enquanto isto, no Jornal Nacional do mesmo dia a prisão de Eike Batista foi mais amplamente coberta – celebrada, até – do que a bombástica delação, a qual foi apenas laconicamente (para não dizer discretamente) abordada somente mais próximo ao final do noticiário, em sua segunda metade.

Por que a espetacularização exacerbada da prisão de Eike Batista (verdadeira produção televisiva, como um reality show) pelo conglomerado dos Marinho de modo algum me surpreende ? Ora, por que seu desfecho dramático já havia sido exaustivamente antecipado, primeiro no Jornal da Globo da última sexta-feira e, depois, no Fantástico do último domingo, em atualizações ao vivo diretamente do aeroporto em que o milionário esperava para embarcar voluntariamente de volta ao Brasil, onde era esperado para ser preso em cela comum. Exatamente como naquelas espiadinhas na casa do Big Brother inseridas durante toda a programação.

De volta ao problema da delação da Odebrecht, dirão os mais cínicos defensores do estado de direito que Carmen Lúcia agiu corretamente ao manter o conteúdo da delação por ela homologada sob sigilo. Ao menos me pareceu este o tom editorial no Jornal Nacional da última segunda, quando algum entrevistado elogiou – contra todo o coro a clamar nas redes pela divulgação dos nomes dos políticos sob suspeita – a opção da ministra por não divulgar o teor da delação (i.e., os nomes de políticos acusados de receberem propinas). A reforçar essa suspeita, se agrega o o fato de que, naquela mesma edição do noticioso, nomes de quaisquer suspeitos sequer foram mencionados.

Tudo bem que não se queira promover caçadas a bruxas, nem tampouco induzir a opinião pública a quaisquer condenações prévias (linchamentos, se quiserem) até que provas irrefutáveis tenham sido levantadas e os indiciados julgados, com direito a ampla defesa. Mas daí a negar a jornalistas a possibilidade de realização de investigações independentes e, pior, permitir a suspeitos de acusações gravíssimas a permanência no exercício de funções públicas (hoje dedicados quase exclusivamente ao desmonte do estado e à proteção da exploração empresarial) é de uma parcialidade descarada, perceptível à inteligência mais elementar.

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O colapso de uma hierarquia de relevância entre notícias, até então tacitamente implícita entre proprietários e usuários de meios de comunicação, é o indício mais notório da manipulação sofrida pelo conteúdo veiculado em programas da Rede Globo. Duas semanas atrás, comentei no facebook que especulações sobre a iminente posse de Trump (uma não notícia por definição, portanto) ocuparam mais tempo em noticiários da emissora do que o bombardeio por engano, por forças governamentais, de um acampamento de refugiados na Nigéria que deixou mais de 50 mortos. E numa semana em que se acumularam grandes suspeitas sobre Temer, a principal matéria do Fantástico foi, pasmem, sobre pizza. Sugestivo, não ?

Já a principal matéria do programa no último domingo foi sobre um teste realizado com medicamentos genéricos. Números precisos, procedimentos rigorosos. Só faltou dizer quem patrocinou o estudo, que não foi barato. Pelo alarde, confesso que esperava resultados bem piores. Pois os únicos desvios encontrados (ou seja, dentro de uma margem de 10%, que deveria ser de apenas de 5%) foram insuficientes para causar qualquer alarme. Como até “especialistas” entrevistados reconheceram. Toma força, com isto, a tese de que uma das principais funções de matérias assim seja a de criar uma cortina de fumaça sobre aquilo que não se quer noticiar. E para não dizer que a matéria me foi absolutamente inútil, fiquei com uma pulga atrás da orelha, querendo saber quais eram, afinal, as concentrações dos princípios ativos nos medicamentos de referência, isto é, naqueles produzidos por laboratórios detentores de patentes. Ou, como sabiamente os chama meu médico, “de grife”.

(não querendo saber de mais teorias conspiratórias, encerre sua leitura deste texto por aqui; tendo apetite por mais uma, siga em frente)

Minhas favoritas tem a ver com matérias como aquela sobre o potencial danoso de certos boatos inadvertidamente semeados na web veiculada no Fantástico do último domingo, que era ilustrada por uma tentativa de produção de pânico em relação a supostos efeitos nocivos de exames de mamografia. Otimistas (ou ingênuos) podem ver em peças assim tão somente o propósito de ensinar internautas a detectar notícias falsas. Já faz tempo que Howard Rheigold cunhou a expressão crap detection para se referir a esta competência. Já aqueles, como eu, mais escaldados (ou paranoicos, se quiserem) preferem ver na advertência acima de tudo a promoção de um descrédito generalizado em relação à web enquanto fonte de informação confiável. Como se, de algum modo, a TV (ou, mais amplamente, todo jornalismo corporativo) reivindicasse para si o privilégio exclusivo da posse dos meios de fact checking. Assustador, não ?

(em prol da concisão, tenho que encontrar termos que designem atitudes em relação à TV análogas às que netopians e netskeptics mantém em relação à web. Que, noutras palavras, signifiquem acreditar,  excludentemente (i.e., ou num ou noutro mas jamais nos dois ao mesmo tempo) nos potenciais emancipatório ou nocivo da televisão)

Fantástico 2