Ainda sobre a inimputabilidade pessoal nas sociedades de responsabilidade limitada

Ainda no intuito de entender a grande dificuldade em enquadrar criminalmente pessoas responsáveis por catástrofes ensejadas por atividades negligentes de corporações, exultei ao localizar mais esta citação extensa, desta vez do imprescindível Sapiens: uma breve história da humanidade, do historiador israelense Yuval Noah Harari.  Como a formulação da David Graeber compilada no post anterior, ajuda em muito a explicar a cara da paisagem ostentada em entrevistas por estes senhores:

Fabio Schvartsman, presidente da Vale
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo

” A Peugeot pertence a um gênero particular de ficção jurídica chamado “empresas de responsabilidade limitada”. A ideia por trás de tais empresas está entre as invenções mais engenhosas da humanidade. O Homo sapiens viveu sem elas por milênios. [..]

Se tivesse vivido [no século 13], você provavelmente pensaria duas vezes antes de abrir um negócio próprio. E, com efeito, [a] situação jurídica desencorajava o empreendedorismo. As pessoas tinham medo de começar novos negócios e assumir riscos econômicos. Dificilmente valeria a pena correr o risco de sua família ser totalmente destituída.

Foi por isso que as pessoas começaram a imaginar coletivamente a existência de empresas de responsabilidade limitada. Tais empresas eram legalmente independentes das pessoas que as fundavam, ou investiam dinheiro nelas, ou as gerenciavam. Ao longo dos últimos séculos, essas empresas se tornaram os principais agentes na esfera econômica, e estamos tão acostumados a elas que nos esquecemos de que existem apenas em nossa imaginação. Nos Estados Unidos, o termo técnico para uma empresa de responsabilidade limitada é “corporação”, o que é irônico, por que o termo deriva de “corpus” (“corpo” em latim) – exatamente aquilo de que as corporações carecem. Apesar de não ter um corpo real, o sistema jurídico norte-americano trata as corporações como pessoas jurídicas, como se fossem seres humanos de carne e osso.

Também foi isso o que fez o sistema jurídico francês  em 1896, quando Armand Peugeot, que herdara de seus pais uma oficina de fundição de metal que fabricava molas, serrotes e bicicletas, decidiu entrar no ramo de automóveis. Para isso, ele criou uma empresa de responsabilidade limitada. Batizou a empresa com seu nome, mas ela era independente dele. Se um dos carros quebrasse, o comprador poderia processar a Peugeot, e não Armand Peugeot. Se a empresa tomasse emprestados milhões de francos e então falisse, Armand Peugeot não deveria a seus credores um único franco. O empréstimo, afinal, fora concedido à Peugeot, a empresa, e não a Armand Peugeot, o Homo sapiens. Armand Peugeot morreu em 1915. A Peugeot, a empresa, continua firme e forte.

Como exatamente Armand Peugeot, o homem, criou a Peugeot, a empresa ? Praticamente da mesma forma como os padres e feiticeiros criaram deuses e demônios ao longo da história e como milhares de padres católicos franceses continuaram recriando o corpo de Cristo todo domingo nas igrejas da paróquia. Tudo se resumia a contar histórias e convencer as pessoas a acreditarem nelas. No caso dos padres franceses, a história crucial foi a da vida e morte de Cristo tal como contada pela Igreja Católica. […]

No caso da Peugeot SA, a história crucial foi o código jurídico francês, tal como redigido pelo parlamento francês. […]

Contar histórias eficazes não é fácil. A dificuldade está não em contar a história, mas em convencer todos os demais a acreditarem nela. Grande parte da nossa história gira em torno desta questão: como convencer milhões de pessoas a acreditarem em histórias específicas sobre deuses, ou nações, ou empresas de responsabilidade limitada ? Mas quando isso funciona, dá aos sapiens poder imenso, porque possibilita que milhões de estranhos cooperem para objetivos em comum. Tente imaginar o quão difícil teria sido criar Estados, ou igrejas, ou sistemas jurídicos se só fôssemos capazes de falar sobre coisas que realmente existem, como rios, árvores e leões. “

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Yuval Noah Harari

O problema da imputabilidade nas sociedades anônimas, por cotas de responsabilidade limitada e outras agremiações

Fabio Schvartsman, presidente da Vale
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo

Imagens como as acima, denotando consternação e surpresa, obtidas em  entrevistas concedidas logo após catástrofes anunciadas por presidentes de organizações diretamente responsáveis pelas mesmas, me trazem de pronto à memória uma das tantas formulações brilhantes, abaixo transcrita, de David Graeber em seu colossal livro Divida: os primeiros 5000 anos.

O livro de Graeber é tão abrangente que se esquiva a uma resenha de proporções normais.  Sagaz, resiste à tão tentadora quanto impossível tarefa de oferecer uma definição completa e sucinta de capitalismo – preferindo, ao invés, conduzir seu leitor até um conceito aproximativo através de uma série de caracterizações profundamente verdadeiras, conquanto parciais. A citação abaixo é um ótimo exemplo disto.

[…] a relação entre, de um lado, o aventureiro ousado e o apostador disposto a correr todo tipo de risco e, de outro, o financiador criterioso, cujas operações eram planejadas para produzir um crescimento estável, matemático e inexorável de renda, encontra-se no cerne do que chamamos “capitalismo”.

Assim, nosso sistema econômico atual sempre foi marcado por um peculiar caráter dual. […] nos momentos fundamentais de decisão, […] quem decidia não sentia que estava no controle; e quem estava no controle não se importava particularmente em saber dos detalhes. […]

Criar acordos sociais que nos forcem a pensar dessa maneira é a característica peculiar do capitalismo moderno. A estrutura das corporações é um excelente exemplo […] Trata-se de uma estrutura para eliminar todos os imperativos morais, menos o lucro. Os executivos que tomam as decisões podem argumentar – e assim o fazem com frequência – que, se estivessem usando o próprio dinheiro, é claro que não demitiriam empregados de longa data uma semana antes de se aposentarem, nem despejariam detritos cancerígenos perto de escolas. Contudo, moralmente são levados a ignorar essas considerações, pois não passam de empregados cuja única responsabilidade é promover o máximo de retorno dos investimentos para os acionistas da companhia. (Os acionistas, é claro, não são obrigados a se pronunciar.) ”

David Graeber, autor de Dívida: os primeiros 5000 anos

O que há em comum entre o incêndio no Ninho do Urubu e a “tragédia” da Chapecoense ?

Ou, ainda, entre os dois fatos a que aludi no título e os rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho ? Ora, por que vivemos no país do laissez faire. Simples assim.

Senão, quem permitiria, em são consciência, que jogadores adultos embarcassem naquele vôo ou jovens atletas se alojassem nas instalações do centro de treinamento do Flamengo ?

Os crimes, eufemisticamente chamados de tragédias, da Chapecoense e do Ninho do Urubu são, portanto, variantes exatas daqueles ocorridos em barragens, respectivamente, da Samarco e da Vale. A única distinção, sutil, entre os primeiros e os últimos é que, enquanto a licenciosidade (ou “vista grossa”) se deu, nos casos envolvendo clubes esportivos, em nome de uma suposta “alegria do povo”, aquela envolvendo mineradoras foi justificada, além de pelo lucro, também pela geração de empregos.

Pareço exagerar, ou “forçar a barra” ? Consideremos, então, alguns contraexemplos.  Quais executivos bem remunerados, sejam eles do esporte ou de empresas de mineração, embarcariam, em férias, num voo fretado daquela empresa contratada, por minimizar custos, para transportar o time da Chapecoense para uma partida internacional ? Ou então quais deles morariam em casas construídas no caminho da lama das barragens rompidas ou, ainda, nos dormitórios improvisados em contêineres que pegaram fogo na última madrugada ?

Não sou o primeiro e oxalá não serei o último a dizer que tais óbitos desnecessários são fruto da ganância combinada com a falta de regulamentação e fiscalização, crescente nos dias que correm, típicas de nosso país.

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Somos o país das tragédias anunciadas. Seja do prédio abandonado, transformado em depósito de lixo, que pega fogo, ou da creche que é incendiada por um ex-funcionário desequilibrado que entra lá sem ser barrado por qualquer agente de segurança. De tal modo que todo mês é marcado por uma nova tragédia cujo principal “mérito” é nos fazer esquecer, no ritmo frenético da mídia, de todas as anteriores – mesmo as mais recentes. Notícias sobre tragédias só não são mais frequentes

por causa da estranha hierarquia das redes de notícias que classifica a importância de cada fatalidade em razão de seu número de óbitos;

e, também, pelo fato de que muitos incidentes perfeitamente evitáveis só não resultam em óbitos ou ferimentos graves por pura intervenção da sorte.

Não é preciso procurar muito para enumerar o fluxo diário de vítimas do trânsito ou de armas de fogo. Também não é preciso ir longe para nos lembrarmos de quase tragédias das quais escapamos por muito pouco. Ainda não fui assaltado, mas já fugi de um tiroteio. E estive num palco da OSPA que desabou no Jardim Botânico durante um temporal, felizmente sem vítimas. Só que, num incidente análogo, o colapso de um palco durante uma rave em Esteio (RS) matou um DJ. Pode-se especular que a estrutura que colapsou na festa era maior do que aquela no concerto; ou, ainda, que o palco do último caiu em dois momentos distintos, permitindo uma evacuação rápida entre um e outro. O que não tira, no entanto, a sensação de estarmos vivos por detalhes.

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A julgar pelo que temos visto, não se pode esperar muito dos atuais congressistas. Ainda assim, devemos cobrar de nossos representantes (enquanto existirem), contra todos os lobbies, uma inversão no espírito das leis de modo a considerar o risco à integridade da vida humana mais do que o investimento de empreendedores e patrocinadores. Tarefa difícil, porém necessária.

 

 

A intérprete de Libras, musa do governo Bolsonaro

Meses atrás, quando se gritava “fora Temer”, dificilmente se ouvia alguém defender o vampiro. Hoje, é bem diferente. Basta aludirmos a qualquer coisa percebida como negativa em relação a Bolsonaro, fato novo ou não,  para que as portas do inferno se abram e soltem no espaço virtual uma leal tropa de choque a chamar os críticos do governo recém empossado de petralhas, comunistas, derrotados, desesperados, ridículos, patéticos… enfim, a lista é imensa. Foi exatamente o que aconteceu dias atrás sob uma de minhas três postagens em sequência sobre a posse presidencial que dominou a mídia durante todo o dia.

Não pretendo, aqui, defender alguma deselegância ou comportamento politicamente incorreto de quem, como eu, pensa mais à esquerda do que aqueles que assumiram o poder. É que, diante de tanta asneira, é difícil permanecer impassível. Até eu, por vezes, tenho que morder a língua para não troçar de simpatizantes do idiota do ano (mais do mesmo aqui). Por isto, não condeno (ao contrário, até acho divertido) quem se utiliza das caixas de comentários sob minhas postagens para lascar um “otário” ou coisa que o valha diante da verborragia chapa branca.

Mas não vim aqui para falar disto. De início, fiquei intrigado sobre por que, de minhas três postagens, a que mais suscitou comentários de ambos os lados, numa verdadeira batalha campal, foi justamente a mais gratuita – a saber, aquela sobre a intérprete de Libras (língua brasileira de sinais) que, na aurora do novo governo, já ocupa a posição de sua musa absoluta. Mais, até, do que a primeira dama (não riam: já há quem ache que, com aquele carisma, será a próxima presidente. Uma espécie de Evita 2.0). Em meio ao bate-boca, poucas frases sobre as duas postagens que considerei mais reflexivas – a saber, que ironizavam, respectivamente, o clima de caça a dissidentes reeditado dos tempos da ditadura e a hábil manobra da prisão do candidato com maiores chances na corrida presidencial.

Dizem que piada explicada perde a graça. Ainda assim, sou forçado a recorrer ao expediente devido à reprimenda moral que recebi por, ao atentar para o lado cômico da já célebre intérprete, estar supostamente menosprezando uma ferramenta de comunicação tão importante para uma minoria (estranhamente, uma das poucas, senão a única, vista com bons olhos pelo novo governo).

Não devo ter sido o único a sublinhar a franca evidência dela em relação a qualquer autoridade ao lado da qual se apresente. Na presente situação, o fato mais relevante é que os monótonos discursos lidos por Bolsonaro em ocasiões importantes (mais sobre a autoria dos mesmos adiante) são inquestionavelmente valorizados pela atuação dramática e, sobretudo, cômica daquela intérprete – o que nos leva, de pronto, a indagar: por que os discursos do presidente precisam necessariamente sair de sua boca ? Ora, não seriam muito mais convincentes se proferidos originalmente pela intérprete, enquadrada no centro do campo visual, e traduzidos para os não fluentes em Libras por meio de legendas ou de uma voz em off ?

Indo mais fundo na leitura do fenômeno. Talvez o que torne a fala daquela intérprete tão cômica sejam os dois níveis em que o discurso é percebido. Num plano mais neutro, está a linguagem de sinais. Noutro, que a distingue tanto de outros colegas de profissão, está sua expressão facial ou, noutras palavras, as engraçadíssimas caras e bocas que faz concomitantemente à tradução.

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Eu já havia escrito este post até aqui quando, tomado por intensa curiosidade, fui “pesquisar” (eufemismo para digitar no google ” quem é a intérprete de libras dos discursos de Bolsonaro ? “) quem seria, afinal, a carismática figura que, no imaginário popular, já está indissoluvelmente colada à imagem do presidente. Depois de ler o texto de apresentação de uma entrevista (que ainda não vi, pois sou, como sabem, avesso a videos) e  uma matéria arrolando comentários politicamente corretos de desaprovação em relação a tiradas engraçadas sobre a intérprete, fiquei sabendo se tratar de Elisângela Castelo Branco, professora da UFRJ, coordenadora do ministério Incluir da Igreja Batista Atitude (RJ) e, aparentemente, uma das maiores autoridades nacionais em Libras. Ao ler tudo aquilo, me senti meio culpado, constrangido até, por achar que zoar de sua atuação e, pior, tentar instigar o mesmo sentimento em terceiros se constituiria numa ofensa a toda a minoria que se beneficia daquela linguagem. Naquela matéria, também fiquei sabendo que justo a expressão facial de Elisângela, que eu achara tão engraçada, era parte indispensável da gramática de Libras (mais do mesmo).

Consoante a isto, estive a ponto de me desculpar publicamente pela suposta piada de mau gosto. Pensei mais, porém, e não encontrei qualquer explicação satisfatória para o fato da expressão facial de Elisângela ser, positivamente, MUITO mais engraçada do que, por exemplo (não é preciso ir longe), as de outros “falantes” de Libras que atuaram na cerimônia. A começar pela primeira dama. Continuo sem resposta mas, ao menos, aliviei minha culpa.

Pensando mais (este velho mau hábito), lembrei do poder destronante do riso que, segundo Bakhtin, serviria, desde tempos medievais, para que os comuns pudessem, por meio da ridicularização, desafiar todo poder absoluto – e, na presente situação, se não seria precisamente isto que está em jogo quando rimos da tradução em gestos dos discursos de Bolsonaro. Pois, neste caso, não estaríamos rindo das caras e bocas de Elisângela e sim dos discursos lidos pelo presidente com sua monotonia habitual. Monotonia, entenda-se, do presidente e não dos discursos – posto que os últimos são prá la de engraçados. Eloquentemente engraçados.

Forçado ? Talvez. Uma contraprova seria submeter os discursos de Bolsonaro a outros intérpretes para verificar se a componente cômica permanece ou não. Há que se considerar, todavia, que Elisângela deve ter sido escolhida justamente por traduzir aqueles discursos convincentemente, i.e., ela definitivamente ACREDITA (como uma Velhinha de Taubaté, lembram ?) no que o presidente diz. E a comicidade é, no caso, mera consequência daquelas asneiras devidamente interpretadas. Pois, convenhamos, Bolsonaro não serve para ler nem boletins meteorológicos,  o que dirá discursos políticos (não é preciso muita sensibilidade para perceber o quão dramaticamente lhe falta o dom da oratória típico dos grandes estadistas).

O que desemboca diretamente na questão acima aludida sobre a autoria de seus discursos.  É claro que, nem em seu caso nem tampouco em qualquer outro, é possível comprovar cabalmente a redação de própria lavra ou de outrem de um pronunciamento político. Fica tudo, então, no campo da conjectura. Ghost writers não deixam vestígios. São segredos guardados a sete chaves e suponho que a revelação dos mesmos seja passível de punição, em alguns regimes, até com execução. Ainda assim, grandes discrepâncias entre a linguagem oral de alguns dignitários e seus discursos escritos engendram dúvidas sobre a autoria dos últimos. Ninguém duvidaria, por exemplo, da autoria do bilhete de suicídio de Getúlio. Ou da de um discurso lido por Churchill ou Fidel. No caso de Bolsonaro, no entanto, a coisa é bem diferente. Basta comparar a coerência (não falo, é claro, do conteúdo ridículo, mas da forma bem trabalhada) dos discursos que lê com a de suas (poucas) falas improvisadas, sejam elas intempestivas ou mais controladas, em entrevistas.  E, a partir disto, também é fácil entender por que não lhe deixaram comparecer a qualquer debate.

Mais sobre a burrice ostentação

Há pouco tempo, comentei, sob o deceptivo título Por uma web semântica, sobre a atual tendência, no imaginário brasileiro, de sustentação de opiniões como se fossem verdades auto-evidentes sem qualquer esforço de comprovação das mesmas, até como se isto não fosse necessário, em flagrante violação de qualquer lógica ou método científico. Com isto, o que antes pertencia (ou ao menos pretendia pertencer) ao domínio da razão, repentinamente se transfere ao âmbito da fé. Quando esta guinada, típica do fundamentalismo religioso, se dá no campo do debate político, se prenuncia uma ditadura.

Felizmente, o fenômeno já não passa despercebido, para além dos memes, ocupando algumas das mentes mais argutas da inteligência nacional. Primeiro foi o cineasta Jorge Furtado, o qual, ao fim de uma entrevista a ZH, se referiu, ainda que de passagem, à nova moda de se sentir orgulho da própria ignorância. Vá lá que a peça jornalística era dedicada à promoção de seu novo filme, passando por seus últimos trabalhos para a televisão.  Só que Furtado é um irremediável ativista, bem atento e claramente posicionado em relação aos acontecimentos políticos e, como tal, se declarou, respondendo à última pergunta, como pessimista em relação ao futuro da arte e da cultura frente à onda fascista e anti-intelectual que já se faz sentir. Textualmente, eis o que disse:

Sobre o futuro, estou bem pessimista, porque vem um governo de inclinação fascista. As pessoas têm medo dessa palavra, mas na verdade é o que é. O fascismo é contra o saber, a ciência, sabedoria, cultura. Em princípio ele é contra, sempre foi. Então, é muito provável que, nessa nova ordem que está chegando aí, a escola e a cultura e a arte sejam as primeiras vítimas. A escola já está sendo, e a cultura deve ser também, porque é um certo elogio da burrice. É um certo orgulho da ignorância: as pessoas não apenas são ignorantes, elas têm orgulho de ser ignorantes. A minha expectativa é muito ruim. É claro que espero, do fundo do coração, estar errado.

Tal observação (mais importante, a meu ver, do que todo o restante da entrevista e fugindo totalmente ao foco da mesma) poderia muito bem ter sido suprimida por um jornalista mais “chapa branca”. Só que, ao contrário, acabou enfatizada, por força da mão invisível de algum editor anônimo, na retumbante manchete

“As pessoas não apenas são ignorantes, elas têm orgulho de ser ignorantes”, diz Jorge Furtado

Normalmente, a edição jornalística tem sido responsável por mutilar o pensamento dos que protagonizam os noticiários. Não foi, no entanto, o que ocorreu aqui. Eu mesmo não teria lido uma longa peça promocional das últimas realizações do cineasta não fosse para situar, num contexto maior, suas sábias palavras realçadas no título da matéria. Devemos, então, neste caso, agradecer ao benfeitor anônimo pela edição da entrevista.

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Apenas dois dias depois, o fenômeno da burrice ostentação, ao qual eu já tinha aludido e que foi mencionado de raspão por Furtado em sua entrevista a ZH, foi objeto de análise mais demorada por Eliane Brum em El País. Numa peça de fôlego, está tudo ali. Desde a ascendência “intelectual” de Olavo de Carvalho sobre Bolsonaro até os maiores disparates proferidos por Ricardo Vélez-Rodriguez (futuro ministro da educação) e Ernesto Araújo (futuro ministro das relações exteriores), ambos indicados por Carvalho.

Isto tudo antes que o nome de Damares Alves (sem dúvida a figura mais bizarra do próximo ministério) sequer houvesse sido trazido à baila. Súbito, sou acometido por um inadiável desejo de conhecer o que Elaine Brum disse ou dirá sobre a nova ministra das mulheres, família e direitos humanos.

Por uma verdadeira reforma política: o problema dos CCs e dos representantes parlamentares

Não é de hoje que sustento que toda a tragédia da política resulta primordialmente de um fato, tido como espécie de cláusula pétrea de todo sistema democrático parlamentar e de governo – a saber (no caso dos governos; o problema da representação parlamentar será tratado mais adiante), a nomeação de cima para baixo dos ocupantes dos cargos ditos de confiança, mais conhecidos como CCs, tais como ministros, secretários de estado e detentores de cargos em escalões inferiores que sejam nomeados por governantes eleitos ou seus prepostos imediatamente subordinados.

Imaginem, assim, toda a pirâmide administrativa com um presidente (na esfera federal), governador (na estadual) ou prefeito (na municipal) no topo e um círculo ligeiramente mais numeroso de ministros e secretários nomeados pelos primeiros sem a obrigatoriedade de consulta a qualquer setor afetado pelas nomeações. Abaixo disto, há um plano mais numeroso ainda de diretores nomeados, sob as mesmas condições, por estes ministros e secretários – os quais, por sua vez, possuem a prerrogativa de nomear para as organizações sob sua direção, também sem qualquer obrigatoriedade de consulta às comunidades afetadas, legiões ainda maiores de ocupantes de “cargos de confiança”.

A pergunta que deve ser feita é: da confiança de quem ? Pois, ainda que um presidente da república, governador ou prefeito possa legitimamente confiar em sua equipe mais próxima de ministros ou secretários, é humanamente impossível a qualquer governante eleito confiar, por delegação de responsabilidade, na competência e na integridade de cada ocupante de cargos designados por seus subalternos imediatos e, menos ainda, por subalternos destes subalternos e assim por diante – de tal modo que é razoável se supor (e isto é, de fato, o que geralmente acontece) que, em algum escalão de nível inferior, longe da vista do governante no topo de cada pirâmide, fatalmente se instalarão oportunistas de plantão, quase sempre políticos filiados a algum partido que não lograram eleição para cargos de maior evidência e melhor remunerados.

Temos, então, que, em pirâmides administrativas, a confiança se degrada descendentemente, do topo em direção à base. Políticos eleitos sabem disto e, por esta razão, invariavelmente prometem, em suas campanhas, que suas equipes administrativas serão compostas por critérios exclusivamente técnicos – promessa que é, no entanto, deixada de lado, nas fuças dos eleitores, tão logo os eleitos começam a montar suas equipes para o primeiro escalão.

Neste contexto, o que temos, então, invariavelmente (exceto, talvez, em universidades federais, cujos reitores e diretores já são escolhidos pela comunidade acadêmica), gestores diretos (diretores) e indiretos (secretários) de escolas, hospitais e outros equipamentos públicos que foram escolhidos sem que jamais as comunidades afetadas (usuários e servidores) fossem consultadas.

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Imaginemos, agora, um paradigma inverso, no qual governantes não pudessem mais escolher subordinados (eliminando-se, com isto, toda indicação política) mas, ao contrário, os mesmos fossem escolhidos ascendentemente pela maioria da população afetada sob cada esfera administrativa. Assim, pais, professores e alunos escolheriam diretores de escolas; pacientes, médicos e servidores escolheriam diretores de hospitais; juízes e a sociedade organizada escolheriam os membros do STF e até o ministro da justiça; e assim por diante.

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Feito este exercício hipotético, é fácil antever possíveis objeções levantadas – as mais óbvias dentre elas sendo a ingovernabilidade resultante e a complexidade de implementação. Vejamos cada uma delas separadamente.

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Desde as primeiras vezes em que, décadas atrás, formulei esta utopia, sempre ouvi dos mais cínicos que ninguém conseguiria governar sem exercer a prerrogativa de nomear seus subalternos imediatos. Como resolver conflitos de interesse como, por exemplo, a partilha de orçamentos entre setores concorrentes ?

Ora, é claro que o exercício do poder, num sistema em que governantes não mais pudessem impor sua vontade pessoal mas, ao invés, tivessem que mediar tais interesses conflitantes, seria inegavelmente muito mais difícil, requerendo um talento como negociador muito maior do que aquele a que estamos acostumados a reconhecer entre nossos políticos. Mais: para que serviria um presidente, governador ou prefeito que não pudesse nomear equipes de governo ? Ótima pergunta, pois, face ao que a política, independentemente de partido, tem nos proporcionado recorrentemente, chega até a ser desejável um sistema no qual detentores de cargos majoritários tenham cada vez menos autoridade, se tornando figuras cada vez mais simbólicas. Noutras palavras, uma redefinição radical daquilo que normalmente entendemos como um estadista.

Não posso afirmar com segurança se um sistema como o aqui proposto deve ou não ser considerado como anárquico. Por isso mesmo, deixo a rotulagem para os cientistas políticos. O que posso, sim, afirmar é que tal configuração seria um passo importantíssimo em direção à tão necessária (acho difícil alguém não concordar com isto) descentralização dos governos e que, portanto, valeria a pena ser experimentada.

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A outra objeção facilmente levantada em relação a um sistema de nomeação de confiança ascendente (i.e., pela maioria) reside em sua complexidade de implementação. A própria definição de “comunidade afetada”, essencial ao modelo, é escorregadia, variando enormemente em cada caso. Por exemplo: como determinar em que proporção (peso) os pacientes, servidores e corpo clínico de um hospital devem ser considerados quando da escolha da direção do mesmo ? Mais: ainda que médicos e servidores constituam um conjunto relativamente estável, como delimitar a esfera dos pacientes atendidos, que variam constantemente em cada comunidade ?

Claro está que, em suas peculiaridades, cada caso é um caso. Exatamente por isto, a implementação de tal modelo só poderá se dar de modo progressivo, umas poucas instâncias de cada vez, até que se chegue, empiricamente, a algum tipo de fórmula consensual.

A tarefa também seria enormemente difícil para a justiça eleitoral, acostumada que é a conduzir pleitos para uns poucos cargos a cada dois anos. Numa sociedade como a antevista acima, as consultas seriam muito mais numerosas e praticamente contínuas. Já existe, todavia, tecnologia para tanto. A solução passa, necessariamente, pela universalização do voto eletrônico e facultativo, desonerando a justiça da complexa logística das seções eleitorais e das apurações centralizadas. Com isto, o maior empecilho não está tanto na viabilidade técnica mas na vontade política – o que nos leva diretamente à próxima discussão.

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Se uma ideia como esta fosse assim tão boa, por que políticos a ignoram sempre que falam, com ares de importância, numa necessária reforma política ? Ora, por que não interessa a governantes eleitos nem tampouco a partidos políticos perder a prerrogativa de nomear CCs. A simples supressão do expediente debilitaria, talvez irreversivelmente, a estrutura partidária, pela simples abolição de sua moeda de troca mais corrente. Pois, ainda que só uns poucos se filiem a partidos nutrindo reais ambições de se elegerem, muitos de afiliados certamente lá estão na esperança de serem lembrados na hora em que, depois de cada eleição, forem preenchidos os numerosos cargos dos escalões inferiores.

Mais ou menos a mesma lógica de obsolescência em relação aos governos centralizadores se aplica, também, à representação parlamentar. Sejamos honestos: para que precisamos de representantes hoje, quando já podemos votar diretamente sobre quaisquer questões que nos digam respeito ? Numa era de facilidades digitais, por que precisamos sustentar onerosas casas legislativas tão somente para permitirmos que políticos, detentores de procurações em branco, decidam em nosso lugar ? Estou aqui, é claro, a falar de uma política plebiscitária, sem intermediários, de complexa implementação, mas para a qual as condições tecnológicas já existem. O que falta, novamente, é só vontade política.

O que leva, fatalmente, à questão: como esperar de atuais legisladores qualquer reforma política de fundo que, ao mesmo tempo, suprima parlamentares e limite o poder de governantes ? A resposta, óbvia, é que não podemos esperar de uma classe política acostumada a mamar nas tetas do que é público que corte a própria carne. O tema, então, se prosperar, deve ser obrigatoriamente objeto de deliberações à revelia do parlamento tais como emendas populares e/ou uma constituinte exclusiva. Ou seja, não será fácil.

Primeiro, é preciso plantar a ideia nas mentes das pessoas. Depois, lembrar que configurações democráticas não possuem um status de irrevogabilidade; tendo já sido diferentes ao longo da história (ainda que o timing das mudanças de concepções políticas seja bem lento, com cada modelo valendo por vários séculos ou gerações). É neste esforço que este post se insere. Obrigado pela atenção dispensada a sua leitura !

Sobre mitos trazidos à baila na atual campanha eleitoral (ii): a ideia de que devemos confiar na direita por que ela representa, ao contrário da esquerda, o que já foi testado e deu certo

Hoje, postei no facebook o seguinte:

Conforme anunciado ontem, sigo, até o segundo turno, esmiuçando mitos que sustentam a candidatura mais à direita. Tenho especial apreço pela lógica e, consoante a isto, o que gostaria de sublinhar hoje é a natureza falaciosa de um argumento frequentemente empregado contra ideais igualitários e em prol do liberalismo – a saber, o de que, enquanto a direita representa o que já foi testado e deu certo, a esquerda propõe ideias que, na melhor das hipóteses, jamais foram testadas, ou, na pior, foram historicamente implementadas e rejeitadas.

Ouvi pela primeira vez esta definição furada dos campos de esquerda e direita formulada por Olavo de Carvalho (prefiro a de Gilles Deleuze, mas isto não vem ao caso agora; nos comentário, talvez…)

Percebem a circularidade do argumento ? Segundo o mesmo, só o que já foi posto à prova pode funcionar; mas não devemos por à prova o que pode não funcionar. Ora, pela mesma “lógica”, o homem jamais teria ido à lua, nem tampouco realizado viagens de circum-navegação.

Então, ao menos em nome da razão, descartem a ideia de alguma superioridade da direita sobre a esquerda exclusivamente com base em seus históricos de implementação. Até por que grandes forças escusas (já ouviram falar, por exemplo, na Atlas Foundation ?) contribuíram e continuam contribuindo decididamente para o aparente êxito de alguns regimes de direita, invariavelmente mantidos pela força e cercados por cinturões de miséria. Mas isto já é assunto para outra postagem. Fiquem, então, por hora, nos comentários abaixo, com as definições dos dois campos por Carvalho e Deleuze.

Então, nos comentários logo abaixo da postagem, postei os seguintes videos, que falam por si só:

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Pouco depois, ainda conclamei amigos à não agressão verbal de adversários políticos (tendência que, felizmente, tenho constatado cada vez mais em redes sociais (ao menos no campo da esquerda)):

Peço, encarecidamente, que se abstenham de xingar ou ridicularizar publicamente bolsonaristas, tanto em minha timeline como em qualquer outra, pois isto não levará a nada em termos de conquistar seus votos (muito antes o contrário). Então, se todos morderem a língua quando tiverem vontade de empregar termos pejorativos, por mais engraçados que pareçam, aumentam as chances de trazê-los à razão. Valorizem o intelecto de seus adversários. Abracem um eleitor de Bolsonaro por dia até o segundo turno !

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Completando o dia de campanha, compartilhei, finalmente, uma postagem, altamente didática, do Idelber Avelar sobre o valor, para a conquista de votos, de se infiltrar no campo adversário. Idelber falou, especificamente, de grupos bolsonaristas no Whatsapp. Vale a pena, também aqui, a citação por extenso de sua postagem:

Relato de experiências em grupos bolsonaristas de Whatsapp

Passei as duas últimas semanas da campanha do 1˚ turno infiltrado em grupos bolsonaristas de Whatsapp, tentando roubar-lhe votos, sempre em conversas privadas, fora do grupo, iniciadas com eleitores que me pareciam mais suscetíveis à dúvida. Não sei quanto sucesso tive, mas acredito ter lhe tirado, sim, algumas poucas dezenas de votos. Relatar essa experiência, a quem interessar possa, é o objetivo das linhas que seguem.

1. A primeira convicção que se instalou em mim, cristalina, é que era necessário despir-se um pouco da arrogância de quem acha que já entendeu tudo. O bolsonarismo é uma articulação inédita da extrema-direita, que não se parece com nada que conhecíamos antes. Sabemos que ele é extremista, autoritário e violento o suficiente para ser perigoso, mas ele é também uma série de outras coisas para muita gente. Não tenho nenhum problema em caracterizar Bolso como fascista, mas essa palavra, com um eleitor, não vai lhe ajudar em nada.

2. As conversas em que creio ter tido mais sucesso foram aquelas em que falei menos. Ouvir, ouvir, ouvir foi sempre o melhor caminho. Essa escuta me mostrou que os epítetos com que os eleitores de Bolso são rotulados (racistas, machistas, homofóbicos etc.) cumprem um papel bem pequeno na motivação do voto. As preocupações com segurança pública, sim, aparecem com frequência. O horror ao sistema político também tem destaque. A pauta anti-corrupção é constante. E, em primeiríssimo lugar, disparado, o anti-petismo. Esses me parecem ser os motivadores principais do voto em Bolso. As declarações misóginas, racistas e homofóbicas me parecem funcionar muito mais como uma espécie de “grito de torcida”, que energizam a base e a mantêm acesa. Isso não as torna menos graves, é óbvio. Apenas tornam-as menos relevantes na hora da persuasão.

3. Muitos já notaram uma obviedade: o Brasil não tem 49 milhões de fascistas. Mas o Brasil tem, sim, 49 milhões de anti-petistas. Esse fenômeno para você é odioso, inexplicável, inaceitável, coisa de gente burra? Anti-petismo para você é sinônimo de fascismo? É melhor você parar por aqui e desistir de ganhar voto, porque você não vai persuadir ninguém. O anti-petismo é um fenômeno real, enraizado na sociedade, com razões que se remontam ao próprio petismo. “Ah, mas o PT governou sem ameaçar as instituições democráticas! Os bancos ganharam tanto! Empresa nenhuma foi estatizada!” Sim, concordo, mas você não entenderá o anti-petismo olhando apenas a forma como o PT governou. Você terá que olhar também a forma como o PT falou, tagarelou, rotulou, discursou, fez campanha eleitoral como se fosse um partido bolchevique, etiquetando até Marina Silva como “direita fascista”. Essa dinâmica entre atos de governo e atos de fala é a necessária para se entender o anti-petismo, porque o jogo duplo começou a cobrar seu preço: as pessoas não são burras e sacaram a contradição entre governar como se fosse Sarney e tagarelar como se fosse Lênin. Em suma: ou Haddad será um candidato supra-partidário, de uma frente democrática, ou não há a menor chance.

4. Não se chegará a lugar nenhum contra Bolso sem reconhecer que o discurso do golpe foi amplamente derrotado no debate livre que ocorreu na sociedade brasileira. O exemplo perfeito aqui é a campanha de Dilma Rousseff ao Senado em Minas. Toda a sua campanha foi ancorada no discurso do golpe. Tudo o que ela disse ao longo da campanha foi que “as urnas darão uma resposta ao golpe”. De nada ela falou, a não ser de gópi gópi gópi. Tendo sido Presidente do Brasil por um mandato e um terço, ela concorreu contra Carlos Viana, jornalista com zero experiência política, Rodrigo Pacheco, do DEM, um partido há tempos inexpressivo em Minas, e Dinis Pinheiro, uma nulidade do minúsculo Solidariedade. Ficou atrás dos três, em quarto lugar, com 15% dos votos em uma eleição de duas vagas. Recebeu um dos mais claros e sonoros NÃO que um eleitorado já enfiou nas fuças de um político conhecido. Falar de gópi com o eleitor, a estas alturas, é pedir para perder.

5. O bolsonarismo se articula como um rizoma, uma rede descentralizada, um formigueiro em que indivíduos vão produzindo montagens, memes, notícias falsificadas, paródias. Algumas delas (como a falsa notícia de que Haddad teria distribuído mamadeiras em forma de pênis) viralizam para milhões de pessoas. Nesse terreno, a contra-argumentação é inútil. É preciso falar na mesma linguagem. É inacreditável, por exemplo, que até hoje não se tenha feito nada com o vídeo em que Bolso confessa ter estuprado galinhas e cabras.

6. Bolso é deputado há 28 anos e nunca fez nada que preste, mas passou a expressar a revolta contra o sistema político. Recebeu doações da JBS, está na lista de Furnas e utilizou de forma pouco ética o auxílio moradia, mas passou a simbolizar a luta contra a corrupção. Está no terceiro casamento, traiu a esposa (coisas que a mim, obviamente, não interessam em absoluto) e terminou um divórcio com ameaças de morte, mas passou a representar a postura “cristã”. Foge da briga como um covarde, mas passou a ser o emblema do eleitorado “machão”. Sempre votou em favor de um nacionalismo tosco e em defesa de corporações, mas herdou o eleitorado da centro-direita liberal privatizante. Foi explorando esses furos, essas incoerências, que acredito ter puxado alguns votos dele para Daciolo, Amoêdo, Alckmin ou Ciro, dependendo do interesse de cada eleitor.

De resto, a tarefa é inglória mesmo. Haddad é boa pessoa, mas péssimo candidato. O partido ao qual ele é filiado é detestado por metade do eleitorado. Ele tem se comportado como representante de um líder que é amado por 30% da população, mas está preso e é odiado por outros 50%. O tsunami Bolso parece uma daquelas desgraças cuja hora chegou, mas não nos está dada a possibilidade de não lutar. E o terreno é lá mesmo, no Whatsapp. Todo mundo aqui tem um parente bolsonarista. Todo bolsonarista conhece algum outro bolsonarista em um grupo de Whatsapp, que pode te pôr lá dentro em contato com eleitores volúveis. Os grupos se proliferam como coelhos, e é possível que você seja expulso de algum, mas haverá outros. É a única chance que vejo.

Como disse uma amiga, chegamos a uma inacreditável situação: o futuro de nossa democracia e dos direitos humanos no Brasil pode estar dependendo de o PT aprender a usar o Whatsapp. É o que tenho a contribuir.

Sobre mitos trazidos à baila na atual campanha eleitoral (i): uma introdução

Não deve ser novidade para ninguém que o facebook não tem memória. Nele, tudo o que dizemos hoje será facilmente esquecido amanhã. Face a isto, não é de hoje que defendo a utilização de blogs como backup do facebook, para conferir alguma permanência ao que por vezes dizemos, no calor das discussões, em redes sociais

Como agora. Nesta época de paixões políticas exacerbadas, tenho deixado meu querido blog meio abandonado. Então, copiarei aqui os “textões” que, desde hoje, me comprometi a publicar no face diariamente até o segundo turno destas eleições. Se o Haddad for o próximo presidente, me regozijarei secretamente pela campanha que empreendi; caso contrário, a inutilidade de minhas postagens na rede permanecerá como uma lição a ser por mim apreendida.

Eventualmente, compilarei, abaixo das postagens originais, os threads de comentários sob as mesmas – pois, em redes sociais, discussões ensejadas são, por definição, mais interessantes ou, pelo menos, mais didáticas do que as postagens que lhes dão origem.

Então, sem mais delongas, após as três estrelinhas, a postagem original da série prometida.

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Até aqui me abstive de usar o facebook para fazer política. Agora é diferente. Para impedir uma catástrofe iminente, Haddad precisa conquistar um ponto percentual por dia. Não é pouco. Por isto, mais do que nunca, prezo a existência, que sempre defendi, de membros do espectro ideológico oposto em minha timeline. Até o segundo turno, metade das minhas falas serão a eles dirigidas no intuito de derrubar mitos que dão sustentação às teses de que 1) o #elenão poderá redimir a nação e 2) o PT é intrinsecamente maligno e, como tal, responsável por tudo o que de ruim aconteceu por aqui nos últimos anos.

A tarefa, para quem quer que se identifique minimamente com a justiça social e as liberdades democráticas (principalmente as das minorias que estão na mira), não é nada fácil. Então, dedicarei a outra metade de minhas intervenções a conversar com likeminded people sobre como “converter” aqueles seduzidos pelo discurso de direita.

Estas eleições, mais do que quaisquer anteriores, estão se definindo a partir da campanha na internet. O que não deixa de ser um avanço, i.e., com as falas distribuídas (narrowcasting) influenciando muito mais do que qualquer propaganda – incluindo debates ! – veiculada nos grandes meios (broadcasting). E, nessa guerra, vale tudo. Fake news e memes rasos, inclusive. Se quisermos um país melhor daqui prá frente, temos que ocupar este espaço. Então, abracem eleitores do #elenão todos os dias (pois xingá-los só os encherá de razão…) – e, embora eu não seja nem petista nem tampouco religioso, jamais acreditei tanto na máxima ” – Eles não sabem o que dizem ! ”

Bullshit Jobs: a Theory, de David Graeber (2018)

Raros livros me impactaram tanto, nos últimos anos, como Bullshit Jobs: a Theory (2018), do antropólogo anarquista David Graeber, atualmente lotado na London School of Economics. O tema que dá nome ao volume – a saber, aqueles trabalhos percebidos como inúteis ou até mesmo nocivos à sociedade por quem os exerce – já é, por si só, fascinante. Como se não bastasse, o livro mais recente de Graeber (autor, entre outros, de Dívida: os primeiros 5000 anos (já traduzido) e The Utopia of Rules (também inédito em português)) ostenta uma densidade lógica (conceito que formulo aqui e ao qual também me refiro aqui) excepcional. Nele, não há sequer um único parágrafo que possa ser tomado por acessório ou colateral à argumentação – o que rende, de saída, qualquer resenha, enquanto recorte, como supérflua. Bem melhor, neste caso, é ler a coisa inteira. Ainda assim, teimoso que sou e impactado que estou, prossigo.

Outra boa razão para se evitar (escrever e ler) esta resenha é que o livro ainda não foi traduzido para o português. Com isto, estas linhas servirão, no máximo, para que alguns entusiasmados se submetam à trabalhosa e demorada importação de um exemplar. Trabalho, portanto, inútil ? Não acho. Quem decidir me acompanhar além deste preâmbulo haverá de concordar.

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Bullshit Jobs: a Theory se originou a partir do ensaio On The Phenomenon of Bullshit Jobs (traduzido por mim aqui) publicado por Graeber em 2013 e reproduzido no prefácio de seu livro de 2018.  Entre uma coisa e outra, o autor realizou uma pesquisa a partir de uma ampla base de dados formada por depoimentos (anônimos por razões óbvias) em resposta a seu ensaio original e ensejados por provocações por ele lançadas através do Twitter (!) – o que, por si só, o situa como, no mínimo, um pesquisador original. Tais depoimentos, citados textualmente e costurados pela voz do autor, constituem a  base da estrutura narrativa da obra de tal forma que, nela, qualquer monotonia potencial da voz onipresente do último é temperada pela variedade e, em certos casos, até humor (pois não há nada mais divertido e verdadeiro do que a auto-ironia) das vozes emprestadas por seus muitos informantes.

É a partir desta rica casuística que Graeber deixa claro, ao longo do primeiro capítulo e por meio de sucessivas definições provisórias aproximativas, o que vem a ser um bullshit job – a saber, todo trabalho percebido com socialmente inútil ou mesmo pernicioso por quem o executa.

A expressão bullshit job traz em si um problema para o tradutor. Num primeiro impulso, somos tentados a traduzi-la simplesmente como “trabalho de merda”. Só que, já no início do livro, a coisa se complica quando o autor faz uma distinção entre um bullshit job e um shit job, demonstrando por que nem todo trabalho que pertence a uma das categorias pertence, necessariamente, também à outra. Com isto, “trabalho de merda” e “merda de trabalho” estão longe de se constituir em traduções satisfatórias por não explicitarem suficientemente a distinção entre as duas categorias.

Nos capítulos subsequentes, estabelece uma tipologia de tais trabalhos (capítulo 2); trata da violência psicológica sofrida por quem neles se vê encurralado (capítulos 3 e 4); explica por que tais trabalhos proliferam (capítulo 5) e por que não objetamos, como sociedade, à proliferação dos mesmos (capítulo 6) e, finalmente, no último capítulo, analisa os efeitos políticos dos bullshit jobs e propõe uma possível solução (no spoilers yet) para tal estado de coisas.

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Mesmo reconhecendo a natureza redutora de toda resenha, é impossível resistir a mencionar em detalhe certas passagens de Bullshit Jobs: a Theory. Como, por exemplo, quando nos é explicado, já nas definições aproximativas iniciais, por que não se pode dizer que um assassino da máfia tenha um bullshit job – uma vez que o mesmo, ainda que admitindo o óbvio prejuízo social inerente a seu trabalho, acredita fazer parte de uma honrada e antiga tradição com finalidades claras.

Outra parte memorável, capaz de dirimir qualquer dúvida sobre o que venha a ser um bullshit job, é a supracitada tipologia do segundo capítulo. Nele, Graeber divide tais trabalhos em cinco categorias:

Lacaios (flunkies). São aqueles postos de trabalho que existem exclusivamente para que alguém (o chefe) se sinta importante. Como exemplo mais emblemático, temos as comitivas que precedem a entrada de autoridades em qualquer recinto. Também não é nenhuma novidade que o poder de quem quer que exerça alguma atividade gerencial é medido pelo número de subordinados ao seu comando. Qualquer semelhança entre a alta incidência de lacaios em ambientes de trabalho contemporâneos e no mundo medieval não é mera coincidência, sendo tratada em profundidade nas partes dedicadas ao “feudalismo gerencial” (managerial feudalism).

Valentões (goons). Usada metaforicamente (i.e., não se referindo apenas a gangsters), a expressão serve para designar pessoas cujo trabalho envolve algum tipo de violência e existe apenas por que alguém as emprega. Exemplos clássicos incluem forças armadas (países só tem exércitos por que outros países os tem), lobistas, especialistas em relações públicas, operadores de telemarketing e advogados corporativos.

Duct tapers. De difícil tradução. Tapa-buracos, talvez. Pertencem a esta categoria todos aqueles que executam remendos ou gambiarras para resolver problemas que simplesmente não deveriam existir mas que, em existindo, emperram o bom funcionamento de um todo maior. Tais trabalhos são particularmente abundantes na indústria da informática.

Box tickers. Igualmente de difícil tradução. O nome se refere àqueles formulários que incluem quadradinhos que devem ser marcados por “tiques” (sinais em forma de “V”). Para Graeber, são todos aqueles empregados que existem exclusiva ou primordialmente para que organizações possam alegar estarem fazendo o que, na verdade, não fazem.

Taskmasters (another category likely to be lost in translation). Se dividem em dois tipos.

Pertencem ao primeiro aqueles que, encarregados de atribuir tarefas a terceiros, acreditam que as mesmas seriam desempenhadas de qualquer maneira, mesmo que não fossem por eles atribuídas. Deste modo, taskmasters do primeiro tipo (supervisores desnecessários) podem ser considerados como o exato oposto de flunkies (subordinados desnecessários).

Taskmasters do segundo tipo são aqueles que inventam tarefas desnecessárias para outros realizarem.

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A distribuição da incidência de bullshit jobs não é homogênea em relação a todos os setores da economia. Tais trabalhos parecem se concentrar mais no setor administrativo intermediário (middle management) e em empresas do setor FIRE (finance, information and real estate (financeiro, informático e imobiliário)).

Tamanha proliferação de cargos inúteis jamais poderia existir sem uma igual abundância de títulos para os mesmos. Numa das passagens mais divertidas, Graeber oferece, em seu site dedicado ao assunto, um Job Title Generator engraçado por si só que dispensa quaisquer comentários.

Um mito bem popular derrubado por Graeber é o de que bullshit jobs seriam peculiares ao setor público. Ao contrário, existem igualmente no privado. Se há uma regra para sua proliferação, parece ter a ver com a maior presença de práticas e conceitos gerenciais em qualquer indústria. São particularmente ilustrativas as análises de sua influência recente na academia e na indústria criativa, particularmente a cinematográfica.

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Forçado, em nome da concisão, a eleger para menção uma única parte dos dois riquíssimos capítulos sobre o sofrimento amargado por detentores de bullshit jobs, minha escolha recai facilmente sobre a exploração de elementos sadomasoquistas inerentes a tais trabalhos. É quando o autor faz uma distinção importantíssima entre as práticas sadomasoquistas recreativas e a ocorrência da mesma sorte de relação em ambientes de trabalho.

Não deve ser nenhuma novidade, mesmo para não adeptos destas práticas, que todo sofrimento físico consentido infligido por dominadores a dominados pode ser interrompido por uma palavra de segurança (como “laranja”). De tal modo que alguém que subitamente não suporte mais a dor de, por exemplo, ter cera quente derramada sobre o corpo pode interromper a “brincadeira” pela simples pronúncia da palavra “laranja”. Só que, em ambientes de trabalho marcados por relações sadomasoquistas, um empregado não pode interromper sem maiores consequências (como o desemprego) qualquer abuso cometido por seu chefe simplesmente dizendo “laranja” (cujo equivalente numa relação de trabalho seria “eu me demito”).

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Quando o ensaio de 2013 no qual Graeber cunhou a expressão bullshit jobs viralizou, uma das reações previsíveis foi um esforço acadêmico-científico para quantificar o fenômeno. Daí emergiram dados alarmantes, ainda que nem um pouco surpreendentes. Na ocasião, se constatou que no Reino Unido nada menos do que 37% dos entrevistados declararam estar aprisionados em bullshit jobs. Replicada na Holanda, a enquete revelou uma realidade ainda mais impressionante: 40% se consideraram na mesma situação. Isto quer dizer quase metade da população – ou, se quiserem, em número suficiente para eleger um presidente ou primeiro ministro numa democracia. Ainda assim, ainda há quem se recuse a ver a coisa como um problema social. A prevalência deste estado de coisas é esmiuçada nos capítulos sobre por que  bullshit jobs proliferam e por que não reagimos, como sociedade, à proliferação dos mesmos.

Aqui, uma dose moderada de spoilers não deverá afugentar potenciais leitores. Suficiente dizer que a manutenção do problema é um pré-requisito para o capitalismo. Como ? Impossível resumir. Até por que os dois capítulos supracitados são uma aula de história, traçando a origem do mito puritano de que “o sofrimento laboral forma o caráter” desde tempos medievais até os dias de hoje, passando por vários filósofos, discutindo a diferença entre “valor” e “valores” e a transição gradual da vigência da teoria do valor-trabalho (labor theory of value) para a aceitação praticamente hegemônica da lei da oferta e da procura, que serve de pilar ao capitalismo.

Tamanha densidade de informações (bibliográficas inclusive) aportadas tornam estes capítulos algo para ser lido e relido – até como mapa para outras leituras.

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Graeber tempera o tom professoral naquilo que mais poderia parecer um tratado (pelo título da obra, de seus capítulos e sub-capítulos) com tiradas engraçadas aqui e ali. Para destacar apenas duas:

Depois de anunciar, nalgum lugar no início do livro, que vê com reservas o fato de ser frequentemente tachado de anarquista (numa compreensível aversão ao aspecto reducionista dos rótulos); se auto-declara, ao fim da obra, um anarquista.

No mesmo último capítulo, depois de deixar claras suas restrições (bem razoáveis) a finalizar uma obra por meio de uma receita ou recomendação para solucionar os problemas nela apontados, preconiza com todas as letras que quaisquer bullshit jobs seriam sumariamente riscados do mapa mediante a implementação de uma renda mínima universal. Ambas as discussões (tanto o disclaimer contra as fórmulas prontas como aquela sobre os possíveis prós e contras de uma renda mínima universal) coroam o volume de uma forma deliciosa, transmitindo ao leitor a plena convicção de que nada do que nele foi lido é supérfluo ou, de algum modo, acessório.

A observação acima, sobre a obrigatoriedade de cada linha, sublinha também o fato das notas sobre o texto serem tão volumosas quanto interessantes. São 40 páginas de notas (fora a bibliografia) para 285 de texto (fora o prefácio), ensejando fatalmente a especulação sobre se o autor

escreveu as notas à guisa de complementação depois de ter o livro pronto (o que é menos provável); ou, antes,

preferiu relegá-las a um apêndice, como num hipertexto, a fim de não comprometer, com elas, seu apurado fluxo argumentativo.

De qualquer modo, quaisquer que sejam as razões que o levaram a destacar, no final da obra, observações tão interessantes – praticamente um outro livro sobre o livro, é altamente recomendável que as mesmas sejam lidas na íntegra concomitantemente ao texto principal.

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Como já deixei claro, é bem difícil eleger uma ou outra passagem do livro para destaque (dignas, digamos, de terminar uma resenha sobre o mesmo). Ainda assim, sou, como disse acima, teimoso e, como tal, arrisco afirmar que, de tudo o que li em Bullshit Jobs: a Theory, talvez o que mais tenha reverberado, no sentido de permitir uma compreensão superior do universo capitalista, é que

o mesmo é alimentado por uma complexa, sutil e insolúvel rede de ressentimentos mútuos entre classes de trabalhadores – não apenas entre aquelas mais óbvias tais como patrões X empregados ou capitalistas X trabalhadores, mas entre as próprias categorias ocupacionais; e que

o que conhecemos usualmente por economia é, antes do que uma ciência, uma doutrina, com raízes históricas claras e, por vezes, profundo cunho teológico.

Por que a ideia de Pátria de Chuteiras é nociva ao Brasil; impressões sobre a Copa do Mundo de 2018 e sua cobertura pela TV

Dia desses, um amigo, cujo anonimato devo proteger, postou no facebook algo mais ou menos assim:

Bélgica 2 X 0 Brasil. Viva ! Acabou o feriado. Agora podemos voltar à realidade.

De pronto, compartilhei. Não foi, no entanto, nenhuma surpresa para mim quando a postagem original, que já tinha sido curtida por várias pessoas em minha timeline, foi removida. Por razões óbvias.

Desenhando: secar a seleção brasileira em copas do mundo acabou se tornando, desde tempos imemoriais, no mínimo um ato de lesa-pátria. Eu mesmo tive uma experiência estranha quando, em companhia de amigos e familiares, torci contra o Brasil no primeiro jogo da copa da Rússia. Vi algumas das pessoas mais queridas e inteligentes que conheço torcendo apaixonadamente pela seleção brasileira sem, no entanto, conseguir me envolver com aquilo. Jamais havia me sentido tão claramente como um peixe fora d’água ou, se preferirem, como que oriundo de outro planeta.

O primeiro jogo desta copa que assisti quase por inteiro foi o contra a Bélgica. Ironicamente, aquele em que o Brasil – pelo qual, confesso, torci – foi eliminado. Eu já havia capitulado à paixão futebolística sincera de meus filhos e amigos e, mesmo sem ligar a mínima para a seleção, queria a alegria daqueles que amo. Não preciso dizer que fui chamado de pé frio.

Depois disto – e de saber de xingamentos sofridos por meu amigo após sua postagem comemorativa à desclassificação – me tornei curioso pelo complexo de razões que podem levar os indiferentes à euforia que toma conta de grande parte dos brasileiros em tempos de copa do mundo a serem tratados, por vezes, com párias.

Talvez torcer por um time de futebol e, de quatro em quatro anos, pela seleção brasileira seja para tantos uma emoção tão espontânea por se tratar, antes de mais nada, de um ritual familiar. Herdamos a paixão futebolística de nossos pais. Quando estes as tem, é claro. Como a religião. Só que meu pai só me levou ao estádio uma ou duas vezes e à missa, nenhuma. No caso do estádio, suponho que procurasse desempenhar do melhor modo possível a função paterna segundo o que preconiza o senso comum. Já sua recusa em frequentar missas tinha uma razão mais insólita: tendo estudado em um internato, no qual atendia, como cantor, a missas diárias, lá pelas tantas calculou que já tinha ido a mais missas do que a maioria das pessoas religiosas durante uma vida inteira e, portanto, estava quites com deus. Lhe sou grato por ambas as coisas.

Mas aí  veio a copa de 70, no México. A seleção do “milagre brasileiro”, apenas seis anos depois do golpe militar, com ídolos inesquecíveis como Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho e tantos outros. A apoteose do “futebol arte”. Aqui, um pouco de história. Os anos de chumbo, nos quais tivemos, além do tricampeonato de futebol, os quatro primeiros títulos de fórmula 1 com Fittipaldi e Piquet, foram dominados pela ideia de “Brasil melhor em tudo”, perfeitamente sintetizada no lema “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Como um ultimato. Não havia qualquer espaço para ceticismo ou questionamentos. Era pegar ou largar.

Foi neste clima que entregaram lá em casa, dias antes da competição e a mando de um próspero comerciante amigo de meu pai, nossa primeira TV a cores. Era para ser um empréstimo, é claro, retornável após a copa. Como se fosse uma crueldade extrema alguém privar os próprios filhos de torcer pelos canarinhos com imagens coloridas. Só que meu pai, submetido ao constrangimento, se apressou em comprar o aparelho. Eu tinha, à época, 11 anos de idade, insuficientes para entender os horrores do regime.

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Muita coisa mudou no futebol desde então. Principalmente a remuneração dos jogadores. Hoje, um astro do futebol recebe por mês, sem exagero algum, mais do que a maior parte das pessoas conseguem ganhar durante uma vida inteira de trabalho. Defensores deste estado de coisas hão de dizer que tal se deve à ação da “mão invisível do mercado”. Pode até ser. O que não torna, no entanto, o salário de um Neymar ou coisa que o valha moralmente aceitável.

A profissionalização exacerbada é boa para os investidores e ruim para o esporte. E o futebol, por sua vez, há muito deixou de ser um esporte para se tornar um negócio. Os altos salários, patrocínios maciços, passes milionários, ingressos caros e cobiçadas licenças televisivas falam por si só. Cabe, aqui, olhar para os antigos (ou nem tanto), para os quais a atividade física era uma prerrogativa do homem comum.  Hoje, ao contrário, enquanto 22 atletas correm em campo, milhões de obesos consomem cerveja sentados em sofás diante de telas de TV.

Mais. O que foi, no início, um esporte de equipe, acabou se tornando mais um circo de celebridades, com seleções que podem ser consideradas como Neymar + 10, Messi + 10, Cavani + 10, Cristiano Ronaldo + 10, Kane + 10 e por aí afora. Duvidam ? Então tentem enumerar o escrete destas seleções. Menos a do Brasil, é claro, cujos jogadores devem ser do conhecimento do torcedor nacional médio. Ou nem tanto. Prova disto é que o Jornal Nacional se dedicou a levar ao ar, em dias anteriores à copa, longas matérias biográficas sobre cada um dos atletas convocados por Tite enfatizando a infância pobre de muitos deles, seu sucesso no futebol europeu e, invariavelmente, entrevistas com as mães dos jogadores.

Também não devem ter passado despercebidos a nenhum espectador atento os comerciais de patrocinadores da seleção alusivos à sua derrota. Pois quem investe pesado não pode se dar ao luxo de não contemplar todas as possibilidades – mais ou menos como empreiteiras que, na impossibilidade de antever com precisão quem ganhará cada eleições, doam somas polpudas às campanhas de vários candidatos. Assim, Brahma, Coca-Cola e Itaú levaram ao ar anúncios motivacionais, do tipo “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, imediatamente após a eliminação do Brasil pela Bélgica. Estes comerciais não podem ter sido concebidos, produzidos e veiculados tão pouco tempo após a derrota – devendo, portanto, estarem prontos ou, no mínimo, encaminhados desde o início da copa. A produção do da Brahma foi particularmente rápida e enxuta, consistindo exclusivamente num áudio sobreposto a uma imagem estática de uma lata de cerveja.

Seria, pois, particularmente didático para estudiosos de mídia a divulgação, talvez num documentário, dos comerciais abortados certamente produzidos para o caso de conquista da copa pelo Brasil. Assim como, reciprocamente, deveriam ser dados ao conhecimento público os comerciais da derrota em caso de êxito da seleção. Muito teríamos a apreender, com isto, sobre o nefasto – tanto pela mentira como pelo desperdício de recursos que nele prevalecem – mundo da publicidade. Mas isto, é claro, só num mundo perfeito, em que tais planos B não fossem guardados como segredos de estado.

Ainda sobre o comportamento insidioso da mídia no mundial, vale sublinhar a matéria de encerramento do último Fantástico, censurando a onda de humor sobre as frequentes quedas de Neymar. Ainda que não seja novidade nenhuma a Globo se arvorando a ditar do que podemos ou não rir ou, em última análise, a determinar o que é politicamente correto, em mais uma tentativa canhestra e inglória, tão cara à mídia e aos políticos, de controlar a internet. Ora bolas, se Neymar aceita ter vencimentos superiores a 10 milhões por mês, então não vejo mal nenhum que o mesmo seja objeto de piadas generalizadas. Pois ao menos esta alegria é capaz de dar aos torcedores frustrados.

Por fim, há que se mencionar a profusão de feriados decretados por entidades públicas e privadas em dias de jogo da seleção brasileira, as quais tem seus expedientes normais alterados para que alunos, servidores e clientes possam assistir aos jogos sem maiores impedimentos, como se isto fosse, acima de tudo, um dever cívico.

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Propositalmente, não bati na tecla de por que o êxito desportivo é nocivo a uma nação como a nossa. Pois é amplamente disseminada, tanto em artigos como em redes sociais, a discutível ideia de que termos o melhor futebol do mundo (ou o melhor carnaval, “o maior espetáculo da terra”) funciona como um grande estímulo ao conformismo. Ou de por que a “pátria de chuteiras” seria o verdadeiro “ópio do povo” (expressão cunhada por Karl Marx, em Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, para se referir à religião). Pois, afinal, se temos tudo isso, para que nos preocuparmos com nosso baixo IDH ou a qualidade de nossos políticos e governantes ?

Ao ver pela primeira vez a curiosa composição, do acampamento de um morador de rua ostentando orgulhosamente uma bandeira brasileira, que sintetiza perfeitamente o que sinto em relação à copa e cuja foto ilustra este post, tive a ideia para o texto que, todavia, relutei em finalizar – pela mesma razão que levou meu amigo a remover a postagem comemorativa à desclassificação. Ao voltar ao locar para tirar a foto, o tamanho da bandeira havia aumentado – e se tivesse ficado algum tempo à espera, certamente teria fotografado, ao lado do cafofo, algum carro de luxo com aquelas bandeirinhas presas às janelas. Tive, no entanto, que deixar o local às pressas, perseguido pelo morador, que gritava, em tom ameaçador, para que eu não usasse a foto na “porcaria da eleição”.