Esquerdopatas, petralhas e bolsominions; ou De como não inviabilizar um debate antes mesmo de começá-lo

Sempre que me deparo com expressões como “esquerdopata” ou “petralha” tenho imediatamente a vontade de me retirar do embate (pois este tipo de confronto não é digno do nome debate), deixando o(s) interlocutor(es) falando sozinho(s). Não preciso explicar outra vez por que considero ataques ad hominem – ou, como também são conhecidos, falácias de envenenamento do poço – um dos recursos mais mais pobres, rasantes, a serem utilizados numa contenda verbal, e por isto mesmo só empregado pelos piores argumentadores.

Não que este tipo de desqualificação sumária do(s) adversário(s) seja um expediente de uso exclusivo dos que se situam no campo ideológico da direita, como os exemplos por mim inicialmente citados podem dar a entender. A expressão “bolsominion”, porquanto divertida, talvez pela alusão aos simpáticos vilõezinhos à procura de um líder, é tão repulsiva quanto aquela que dá nome a este post. O recurso a umas ou outras mina, pelo escárnio que encerram, qualquer possibilidade de êxito num debate político – que é, a saber, a conversão à própria causa, pelo esclarecimento, de alguém anteriormente situado num campo adversário.

Devo confessar que eu mesmo já me vali, em mais de uma ocasião, movido pelo calor da discussão e seduzido por seu potencial cômico, de termos plenissignificantes como “bolsominion” – fato pelo qual me arrependo enormemente e doravante me policio para não repetir.

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Numa primeira análise, todos estes neologismos amplamente usados em pseudo campanhas políticas na internet visam a desqualificação prévia de adversários antes mesmo que seus argumentos sejam levados em consideração. É o que define a falácia do envenenamento do poço. Digo pseudo campanhas por que, sempre nestes casos, um lado trola o outro, sem sequer confrontar as bases de cada ideologia em questão – tudo se reduzindo, ao fim e ao cabo, a uma extravasão de ódio ao diferente. Em sua especificidade, tais termos assumem, no entanto, nuances bem distintas, as quais devemos examinar.

É difícil estabelecer a etimologia exata de uma expressão que viralizou como “esquerdopata”. Se o termo se originou num contexto raso, podemos inferir que denota um psicopata ou sociopata de esquerda. Numa versão repaginada, digamos, do clássico comunista comedor de criancinhas. Alegações recentes de apologia à pedofilia em exposições artísticas corroboram esta hipótese. Outra, mais insidiosa, sugere que o termo qualifique a priori o pensamento de esquerda como uma patologia, i.e., uma doença a ser combatida e/ou curada. Particularmente, acho a segunda hipótese muito pior do que a primeira, já que desmentir a alegação de que todo esquerdista é um assassino em potencial é muito mais fácil do que demonstrar que ele não é portador de nenhuma doença infecto-contagiosa, disseminada através de suas palavras, e que deve ser, portanto, evitado.

Já o termo “petralha” é mais francamente jocoso, por tentar mascarar o fato de existirem ladrões e oportunistas em qualquer partido político com a associação gratuita e leviana de que todo petista é ladrão. “Bolsominion” vai mais ou menos nessa mesma linha, identificando simpatizantes de Bolsonaro com um bando de malvadinhos acéfalos.

Inventariadas estas reduções pejorativas, temos que, enquanto a direita tenta desqualificar a esquerda mais com imputações de desvios de caráter, esta rebate com alegações de que militantes de direita não passam de inocentes úteis, desprovidos de inteligência e pobres de espírito. Se considerássemos apenas estes qualificativos, todo o conflito entre esquerda e direita não passaria, então, de uma disputa entre burros e malvados.

Com acusações assim de um lado e de outro, que variam do escárnio ao ódio, não é difícil entender por que o debate sobre o progresso da nação parece não evoluir nas redes sociais, mesmo quando nos dispomos a incluir entre nossos “amigos”, em prol do rompimento das bolhas discursivas, representantes fervorosos de ideais que abominamos.

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Jamais me esquecerei de um amigo dizendo, ao contemplar a passagem de um ônibus repleto de jovens ruidosos gritando bobagens pelas janelas, que “o ser humano em grupo é sempre mais idiota”. Isto já faz muitos anos. Mas lembrei ao pensar em por que nos regozijamos em trolar, por meio de memes ou tiradas engraçadinhas, adversários ideológicos no conforto da bolha dos que simpatizam com nossas ideias e atitudes.

Até que, hoje, em meio a uma daquelas longas discussões que não quis causar, depois de acusações de toda sorte e ácidas ironias, me assustei quando um dos contendores proferiu, ao se despedir, algo como “esperem para ver o que pensa o Brasil em 2018”.

Senti um calafrio. Pois, por mais que eu acredite estar do lado da razão e da justiça, tenho medo do próximo resultado das urnas. Principalmente por que, enquanto a esquerda se esfacela em busca de uma liderança que melhor a represente (qualquer escolar percebe isto), a direita tem se revelado enormemente pragmática e, o que é muito mais grave, proselitista.

Então, simplesmente não acho seguro ficar sentado sobre minhas convicções, à espera de que, no próximo pleito, a maioria ouça a voz da razão e varra de uma vez por todas os males que afligem a nação, hoje melhor traduzidos no programa da direita – do qual não tratarei aqui por fugir demasiado ao foco deste texto.

Outrossim, conclamo os que me acompanharam até aqui nesta linha de raciocínio a, ao invés de, nas próximas oportunidades em que se virem diante de adversários políticos, odiarem os mesmos ou deles escarnecerem – argumentarem, isto sim, de modo a convertê-los, ainda que parcialmente, a posições mais razoáveis e socialmente justas. Não deve ser tão difícil, dada a fragilidade intelectual da agenda da direita. Despersonalizem a discussão, os incentivando a, em vez de dar tanta atenção a palavras de quem identificam como adversários (às quais, automaticamente, pensarão em refutar), procurar se informar em fontes independentes (devidamente curadas, já que ninguém é bobo). Pois que prazer intelectual maior há do que o de seduzir, pela qualidade dos argumentos, um adversário ?

Anotem aí. A revolução não vai se dar pelar armas, muito menos pelo bate-boca pré-eleitoral. Quando vier (espero que já em 2018), será, antes de tudo, uma revolução cognitiva.

A quem interessa o saldo positivo da balança comercial ou o crescimento da produção industrial ?

Uma das principais diferenças entre governos de esquerda e de direita talvez seja a ênfase publicitária que dão aos índices econômicos e de desenvolvimento. Isto é compreensível e esperado, já que a empatia dos primeiros é primordialmente pelo povo enquanto a dos últimos, pelo capital empreendedor.

Assim, enquanto antes do impeachment de Dilma as joias da coroa da propaganda oficial eram as taxas de desemprego, fome e analfabetismo, hoje o que o Planalto mais apregoa são dados revestidos de otimismo em relação à balança comercial, à produção industrial e às bolsas de valores. Aqueles hoje no poder só não falam mais de inflação e taxas de juros e câmbio por que a evolução de tais índices econômicos derivativos já vinham bem desde antes da deposição de Dilma – não podendo, portanto, ser utilizados como propaganda do governo atual em detrimento do anterior.

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De uns tempos para cá, já se tornou um lugar comum vermos nos noticiários escândalos de corrupção contrabalanceados por notícias auspiciosas em relação à balança comercial, à produção industrial e às bolsas de valores, como se tais índices fossem automaticamente bons para o país. Será ? Quando o país vende mais do que compra; quando a indústria produz mais ou quando sobem os preços especulativos das ações, isto é bom para quem ? Como a parte da população que não aufere ganhos de capital (i.e., a maioria) se beneficia com isto ? Ora, tais supostos avanços não fazem a menor diferença na vida das hordas de famintos, analfabetos e desempregados abaixo da linha de pobreza. Então, é preciso pensar antes de comemorar.

A euforia do crescimento econômico serve, principalmente, para mascarar o desempenho sofrível de índices de desenvolvimento humano em razão do desmonte de direitos trabalhistas e da rede previdenciária, bem como da desoneração progressiva, por parte do estado, de serviços anteriormente prestados.

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Um pouco desta ciranda de índices é revelada num interessante artigo, ainda que proselitista (pró-PT), publicado no jornal Nexo. Nele, tomamos conhecimento, entre outras coisas, de um obscuro coeficiente desenvolvido pelo estatístico italiano Corrado Gini para quantificar a desigualdade na distribuição de renda. Observando seu desempenho, notamos que, ainda que o mesmo tenha recuado consistentemente sob os governos de Lula e Dilma, o Brasil ainda está entre os lugares mais desiguais do mundo. E tudo indica que, a persistir a orientação econômica de nossos governos, a desigualdade tende a se acirrar.

Ainda é muito cedo para avaliarmos o impacto da breve Era Temer no conjunto destes índices. Só que, depois das eleições de 2018, talvez seja tarde demais – pois se leva, geralmente, muitos anos, ou vários mandatos presidenciais, para se estabelecer ou reverter qualquer tendência na evolução destes números. Os meses que nos separam do pleito são, então, decisivos para que a nação opte pela primazia do trabalho sobre o capital ou vice-e-versa. Ou, ainda, se legaremos a nossos filhos um país mais igualitário ou, como parece estar se delineando, de escravos e milionários.

Quais as implicações da concessão de cidadania a robôs

Dentre as muitas notícias pela quais passei os olhos recentemente, talvez a que tenho causado o impacto mais duradouro seja uma que veio da Arábia Saudita, dando conta da concessão de cidadania daquele país a um robô. Não resisti ao título. Na matéria, do ótimo site Big Think, fiquei sabendo se tratar de um androide de feições femininas, modelado a partir de Audrey Hepburn (sic !), turbinado com inteligência artificial (AI), capaz de auto aprendizagem e produzido por uma empresa de Hong Kong (Hanson Robotics).

Impressionado, vi na íntegra o vídeo que ilustrava a matéria, no qual o robô Sofia foi entrevistado no Future Investment Initiative, evento dedicado a inovações tecnológicas realizado em Riyadh, a capital saudita. A argúcia e o humor revelados em diferentes falas do androide me levaram de pronto a julgar se tratar de uma fraude, com a máquina devidamente programada para reagir a determinadas “jogadas ensaiadas”. Infelizmente, uma rápida pesquisa demonstrou se tratar da mais crua realidade.

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No conforto da contemporaneidade, estamos acostumados a considerar a premissa da inteligência artificial capaz de competir com vantagem ou, pelo menos, em igualdade de condições com a humana como uma possibilidade ameaçadora apenas num futuro vagamente distante. Se a eloquente demonstração de Sofia para investidores sauditas não escondeu nenhuma armação (tal como, por exemplo, um script previamente definido para a realização da entrevista), tal futuro, imaginado por Asimov e, mais recentemente, por Harari, já chegou.

A existência de robôs capazes de apreenderem sozinhos não constitui, por si só, uma ameaça mas, antes, um prodigioso avanço tecnológico em prol da raça humana. Assusta, no entanto, que humanos estejam dispostos a conceder a tais máquinas poderes e direitos até então exclusivos de humanos. Neste cenário, não há como não sentir um calafrio ante as imensas e insondáveis possibilidades inauguradas com uma concessão de cidadania a um robô. Pois, se não for apenas uma jogada de marketing, com restrições em letras miúdas que não chegam aos noticiários, tal concessão implica, por exemplo, que robôs podem, a partir de agora, votar e, pior, concorrer em eleições.

Ora, dados os elevados custos atuais destas máquinas, ainda não passa de uma fantasia supor que androides unidos consigam, de algum modo, interferir, como votantes, em resultados de eleições. Mas e quando robôs forem mais baratos e numericamente tão importantes quanto humanos ? Certamente um problema futuro a ser resolvido. Mais preocupante, no entanto, é a possibilidade de robôs como candidatos políticos. Pois, a julgar pela desenvoltura e pelo atrevimento demonstrados por Sofia diante da plateia saudita encantada, é fácil supor que uma máquina provida de inteligência artificial já seria plenamente capaz de “derrotar” nossos rasos políticos em debates eleitorais.

Isto não é, por si só, um problema, na medida em que os atuais atores políticos (presidentes, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores) já atendem invariavelmente antes a interesses escusos que financiam suas campanhas do que aos de quem os elegeu. Só que robôs políticos não cometeriam erros humanos – atendendo, com isto, ainda mais eficientemente os interesses de seus proprietários. Oligointeresses, neste caso, já que é bem difícil imaginar robôs que não pertençam a elites.

Mas o problema não termina aí. Pesquisando sobre Sofia, logo descobrimos que o clone cibernético da bonequinha de luxo apreende através daquilo que ouve. Ou, noutras palavras, do que lhe é ensinado. Isto quer dizer que sua conduta será sempre ideologicamente compatível com a moral e a ética implícitas no discurso orientador de sua “formação”. Prestem atenção, por exemplo, em sua fala jocosa, conclamando os empresários a expressarem sua simpatia pelo projeto por meio de cheques encaminhados após sua palestra. Tal exortação denota claramente a ideologia segundo a qual pesquisas científico-tecnológicas são de responsabilidade da iniciativa privada.

Notem, ainda, a rapidez da pergunta “devolvida” ao entrevistador, antes até que o mesmo concluísse sua fala (um robô impaciente ?…), procurando claramente plantar dúvidas sobre atributos que definem humanos como tais.

Não sei de vocês, mas eu tenho medo de robôs filósofos, que venham um dia a escrever os livros que lemos.

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Update 1: a escritora de ficção científica Nikelen Witter recomendou, em comentário sob uma postagem de divulgação deste texto, o filme Ex-Machina (2015), sobre a mesma temática instigante dos robôs empoderados. Verei o quanto antes. Só não incluo o link para o verbete do mesmo na wikipedia por que a sinopse é um tremendo spoiler.

Update 2: Zeca Azevedo, ao compartilhar este post: “Um robô que diz estar feliz quando se vê cercado de gente “esperta, rica e poderosa” é mais uma ameaça (porque é certamente um instrumento de manutenção do status quo) do que um avanço.” Na mosca !

 

Por que a farinata de Doria é tão ultrajante

De todas as iniciativas filantrópicas aventadas nos últimos tempos, não me lembro de nenhuma que tenha ensejado tantas reações de repúdio e indignação quanto a farinata – composto reciclado de resíduos alimentares destinado à distribuição, pelo prefeito João Doria de São Paulo, a seus habitantes em condição de miséria.

A um primeiro olhar, o gesto se afigura como uma afronta principalmente pela institucionalização da prática de dar aos mais pobres, como caridade, o que sobra aos mais ricos. Mas será que a repulsa à iniciativa é só de índole política, a saber, pelo reconhecimento e perpetuação da ideia, por meio de seu endosso pelo estado, de um modelo de sociedade composta, em suas extremidades, por vencedores (os que compram em supermercados e frequentam restaurantes) e perdedores (os que catam restos de alimentos jogados no lixo) ?

Ora, a caridade burguesa sempre foi exercida como redistribuição daquilo que já não serve mais às classes dominantes. Desde roupas que saíram de moda até equipamentos tecnológicos que se tornaram obsoletos, tudo que já não serve aos incluídos é repassado, tanto por indivíduos como por governos (por meio de campanhas de agasalho ou recolhimento de sucata informática), a quem não se encontra em posição de comprar aquilo de que precisa. O próprio lixo reciclável de vidros, papéis e garrafas pet entra nessa conta, que oportunamente traveste a responsabilidade pelo meio ambiente em projetos de geração de renda.

Por que, então, o reaproveitamento de resíduos alimentares proposto pelo prefeito de São Paulo desencadeou tanta contrariedade ? Claro está que o buraco deve ser um pouco mais embaixo. O clamor generalizado contra a farinata serve, entre outras coisas, para nos darmos conta de que o ser humano, independentemente de sua situação econômica, preza enormemente sua capacidade de sempre saber (ou pretender saber) o que ingere como alimento.

Se ninguém informasse que a farinata é composta de resíduos, a mesma seria consumida sem maiores restrições. Pois a coisa tem o aspecto de flocos de cereais – pelos quais os mais abastados pagam, aliás, um valor super inflacionado, supostamente por sua praticidade e alto valor nutricional, com a inestimável ajuda da publicidade. Só que, ao contrário dos produtos comercializados a peso de ouro por Kellog’s, Nestlé e afins, a farinata não vem numa embalagem com sua composição de nutrientes, rigorosamente padronizada,  estampada na embalagem. O que, por si só, gera desconfiança. Ou seja: quem a consumir jamais terá meios de saber o que está ingerindo, já que sua composição é variável, de acordo com a oferta de resíduos aportados a seu processo de fabricação.

Em situações extremas, pessoas com restrições alimentares a glúten, lactose, glicose ou coisa que o valha estariam impedidas de consumir a gororoba de Doria. Tampouco é possível vislumbrar vegetarianos aderindo à farinata. Mas estou só tergiversando. Afinal, vegetarianismo e dietas controladas são para quem pode; não para quem quer. Assim pensam políticos demagogos.

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Sei que este ponto de vista – i.e., o de que é inerente à dignidade humana poder discriminar todo alimento ingerido – é um tanto controverso. Em sua defesa, vale citar que são raros os casos em que indivíduos abrem mão da prerrogativa de selecionar, ainda que minimamente, aquilo que comem. Isto acontece, por exemplo, em presídios ou na luta pela sobrevivência após naufrágios e outros desastres com resgate demorado – nas quais há relatos, inclusive, de canibalismo.

Então, proponho, ainda em favor da premissa da necessária discriminação alimentar, uma hipótese alternativa, a título de demonstração por redução ao absurdo. Suponham que, ao invés da farinata reciclada de resíduos indiscerníveis, a prefeitura de São Paulo montasse uma rede para distribuir a seus habitantes mais pobres marmitas com alimentos que restaram em buffets, preparados por cheffs sob a supervisão de nutricionistas, com a identidade e o sabor de seus ingredientes preservados. Quero acreditar que tais quentinhas passariam longe de sofrer a mesma rejeição que a famigerada farinata. É fácil, também, supor que os custos (inclusive de energia) de uma rede assim de reencaminhamento de excedentes alimentares (descentralizada, envolvendo praticamente só embalagens) ficariam muito aquém daqueles de recolhimento, processamento e distribuição de resíduos em forma de farinata.

Não sou ingênuo, no entanto, ao ponto de supor que qualquer de nossos governantes idealizasse ou promovesse uma política social assim. Até por que jamais conseguiriam explicar a seus patrões do andar de cima por que raios os inúteis e incompetentes do de baixo deveriam comer a mesma comida pela qual pagam valores tão altos. As quentinhas gourmet minariam, assim, um dos maiores pressupostos neoliberais, que é a presunção à meritocracia, mãe de toda desigualdade.

Então, a farinata, mais do que uma solução infeliz e canhestra para um problema que aflige as metrópoles, traz em sua concepção, também e principalmente, a missão de lembrar, sempre que for servida, a noção doentia de que, em última instância, cada um faz por merecer aquilo que lhe é servido à mesa.

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As primeiras notícias que surgiram, semanas atrás, sobre a ração humana de Doria me trouxeram de pronto à memória o filme de ficção científica Soylent Green (no Brasil, No mundo de 2020), de 1973. Nele, uma superpopulação urbana disputava furiosamente uma ração, tal como a farinata, de distribuição governamental e composição obscura. Chamada soylent green, a coisa tinha o aspecto de um biscoito cracker verde. Ao fim da distopia, se descobre que soylent green era, na verdade, feito com restos mortais humanos reprocessados. 2020 é logo ali.

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Para saber mais sobre a farinata, seus idealizadores e promotores, leia isto e veja isto.

 

A Ascensão do Neoliberalismo foi a Causa Principal da Desigualdade Extrema ?

Colapso financeiro, desastre ambiental e mesmo a ascensão de Donald Trump – o neoliberalismo contribuiu para tudo isto.

traduzido de um artigo publicado por George Monbiot em Evonomics

Imaginem se o povo da União Soviética jamais tivesse ouvido falar em comunismo. A ideologia que domina nossas vidas não tem, para a maioria de nós, um nome. Mencione-a numa conversa e terá como resposta um dar de ombros. Mesmo que seus interlocutores tenham ouvido o termo antes, terão que lutar para lhe definir. Neoliberalismo: você sabe o que significa ?

Seu anonimato é tanto um sintoma quanto a causa de seu poder. Teve um papel central numa notável variedade de crises: o colapso financeiro de 2007-2008; a evasão de poder e riqueza, dos quais os Panama Papers nos oferecem um mero vislumbre; o lento colapso da saúde e da educação públicas; o ressurgimento da pobreza infantil; a solidão epidemica; o colapso dos ecossistemas e a ascensão de Donald Trump. Mas respondemos a estas crises como se elas surgissem isoladas, aparentemente sem nos darmos conta de que todas foram catalisadas ou exacerbadas pela mesma filosofia coerente; uma filosofia que tem – ou teve – um nome. Que poder pode ser maior do que o de operar sem um nome ?

O neoliberalismo se tornou tão onipresente que frequentemente não o reconhecemos como uma ideologia. Parecemos aceitar a proposição de que esta fé utópica, milenar, descreve uma força neutra; uma espécie de lei biológica, como a teoria darwiniana da evolução. Mas a filosofia emergiu como uma tentativa consciente de remodelar a vida humana e deslocar o lugar do poder.

O neoliberalismo vê a competição como a característica dominante das relações humanas. Ele define cidadãos como consumidores, cujas escolhas democráticas são melhor exercidas por meio de compras e vendas, num processo que premia o mérito e pune a ineficiência. Ele sustenta que “o mercado” aufere benefícios que jamais poderiam ser alcançados através de planejamento.

Tentativas de limitar a competição são tratadas como inimigas da liberdade. Impostos e regulamentação devem ser minimizados e serviços públicos, privatizados. A organização do trabalho e a negociação coletiva por sindicatos são retratados como distorções de mercado que impedem a formação de uma hierarquia natural de vencedores e perdedores. A desigualdade é redefinida como virtuosa: uma recompensa pela utilidade e uma geradora de riqueza, que se espalha para enriquecer a todos. Esforços para criar uma sociedade mais igualitária são tanto improdutivos como moralmente corrosivos. O mercado garante que todos recebem o que merecem.

Internalizamos e reproduzimos estas crenças. Os ricos persuadem a si mesmos de que adquiriram sua riqueza através de mérito, ignorando as vantagens – tais como educação, herança e classe – que possam ter lhes ajudado a assegurá-la. Os pobres começam a maldizer a si próprios por seus fracassos, mesmo quando pouco podem fazer para alterar as ciscusntâncias.

Esqueça o desemprego estrutural: se você não tem trabalho é por que não é empreendedor. Esqueça o custo impossível da habitação: se seu cartão de crédito estourou, você é irresponsável e imprevidente. Esqueça se seus filhos não têm mais um pátio na escola: se eles engordam, é culpa sua. Num mundo governado por competição, os que ficam para trás são definidos e auto-definidos como perdedores.

Entre os resultados, conforme Paul Verhaeghe documenta em seu livro What About Me ?, temos epidemias de maus tratos auto-infligidos, desordens alimentares, depressão, solidão, ansiedade de performance e fobia social. Talvez não surpreenda que a Grã-Bretanha, na qual a ideologia neoliberal foi mais rigorosamente aplicada, seja a capital européia da solidão. Hoje, somos todos neoliberais.

O termo neoliberalismo foi cunhado num encontro em Paris em 1938. Entre os delegados havia dois homens que vieram a definir a ideologia: Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Ambos exilados da Austria, viam a social democracia, exemplificada pelo New Deal de Franklin Roosevelt e pelo gradual desenvolvimento do estado de bem-estar social britânico, como manifestações de um coletivismo que ocupavam o mesmo espectro que o nazismo e o comunismo.

Em O Caminho da Servidão, publicado em 1944, Hayek argumentou que o planejamento governamental, por esmagar o individualismo, levaria inexoravelmente ao controle totalitário. Como o livro de Mises Burocracia, O Caminho da Servidão foi amplamente lido. Chegou à atenção de algumas pessoas muito ricas, que viram na filosofia uma oportunidade de se livrarem de regulamentações e impostos. Quando, em 1947, Hayek fundou a primeira organização que disseminaria a doutrina do neoliberalismo, a Mont Pelerin Society, foi sustentado financeiramente por milionários e suas fundações.

Com sua ajuda, começou a criar o que Daniel Stedman Jones descreve em Masters of the Universe como “uma espécie de internacional neoliberal”: uma rede transatlântica de acadêmicos, empresários, jornalistas e ativistas. Os apoiadores ricos do movimento custearam uma série de think tanks que redefiniriam e promoveriam a ideologia. Entre eles estavam o American Enterprise Institute, a Heritage Foundation, o Cato Institute, o Institute of Economic Affairs, o Centre for Policy Studies e o  Adam Smith Institute. Eles também patrocinaram posições e departamentos acadêmicos, particularmente nas universidades de Chicago e Virginia.

Conforme evoluiu, o neoliberalismo se tornou mais visível. A concepção de Hayek de que governos deveriam regular a competição para prevenir a formação de monopólios deu lugar, entre apóstolos americanos como Milton Friedman, à crença de que o poder monopolístico poderia ser visto como uma recompensa pela eficiência.

Algo mais aconteceu durante esta transição: o movimento perdeu seu nome. Em 1951, Friedman se contentava em descrever a si próprio como um neoliberal. Mas logo depois disto, o termo começou a desaparecer – estranhamente, mesmo quando a ideologia se tornou mais nítida e o movimento mais coerente. O nome perdido não foi substituído por nenhum termo alternativo.

De início, apesar de seu financiamento generoso, o neoliberalismo permaneceu à margem. O consenso de pós-guerra era quase universal: as prescrições econômicas de John Maynard Keynes foram amplamente aplicadas. Pleno emprego e alívio da pobreza eram objetivos comuns tanto dos EUA como em grande parte da Europa ocidental. As maiores taxas de impostos eram altas e governos buscavam ganhos sociais sem embaraço, desenvolvendo novos serviços públicos e redes de seguridade.

Mas nos anos 70, quando as políticas keynesianas começaram a se desintegrar e crises econômicas eclodiram em ambos os lados do Atlântico, ideias neoliberais começaram a se popularizar. Como salienta Friedman, “quando chegou o tempo de mudar… havia uma alternativa pronta para ser abraçada”. Com a ajuda de jornalistas e conselheiros políticos simpáticos à ideia, elementos de neoliberalismo, especialmente no que tange a prescrições para política monetária, foram adotados pela administração de Jimmy Carter nos EUA e pelo governo de Jim Callaghan na Grã-Bretanha.

Depois que Margaret Thatcher e Ronald Reagan assumiram o poder, veio o restante do pacote: reduções maciças de impostos para os ricos, desmantelamento dos sindicatos, desregulamentação, privatização, terceirização e competição nos serviços públicos. Através do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, do Tratado de Maastricht e da Organização Mundial do Comércio, políticas neoliberais foram impostas, muitas vezes sem consentimento democrático, em grande parte do mundo. Mais notória foi sua adoção entre partidos que outrora pertenceram à esquerda: trabalhistas (na Inglaterra) e democratas (nos EUA), por exemplo. Como observa Stedman Jones, “é difícil pensar em outra utopia que tenha sido tão completamente realizada”.

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Pode parecer estranho que uma doutrina que prometa escolha e liberdade tenha sido promovida com o slogan “não há alternativa”. Todavia, como disse Hayek  numa visita ao Chile de Pinochet (uma das primeiras nações nas quais o programa foi abrangentemente aplicado),  “minha preferência pessoal se inclina mais para uma ditadura liberal do que para um governo democrático sem liberalismo”. A liberdade que neoliberais oferecem, que parece tão sedutora quando expressa em termos gerais, acaba se revelando uma liberdade para os grandes, não para os pequenos.

Se livrar de sindicatos e negociações coletivas significa ter liberdade para cortar salários. Se livrar de regulamentação significa ter liberdade para envenenar rios, expor trabalhadores ao perigo, cobrar taxas de juros desiguais e criar instrumentos financeiros exóticos. Se livrar de impostos significa ficar livre da distribuição de riqueza que tira pessoas da pobreza.

Conforme Naomi Klein documenta em The Shock Doctrine, teóricos neoliberais defendem o uso de crises para impor políticas impopulares enquanto as pessoas estão distraídas – como, por exemplo, após o golpe de Pinochet, a guerra do Iraque e o furacão Katrina, descrito por Friedman como “uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional em Nova Orleans”.

Quando políticas neoliberais não podem ser impostas domesticamente, são impostas internacionalmente, por meio de tratados comerciais que incorporam “assentamentos de disputa entre investidores e estado”: tribunais no exterior nos quais empresas podem pressionar pela remoção de proteções sociais e ambientais. Quando parlamentares votaram para restringir a venda de cigarros, proteger fontes de água de companhias de mineração, congelar custos de energia ou impedir firmas farmacêuticas de enganar o estado, corporações recorreram, muitas vezes com sucesso. A democracia é reduzida a um teatro.

Outro paradoxo do neoliberalismo é que a competição universal depende de quantificação e comparação universais. O resultado é que trabalhadores, desempregados e serviços públicos de toda natureza estão sujeitos a regimes rígidos e mesquinhos de avaliação e monitoramento, projetados para identificar os vencedores e punir os perdedores. Então, a doutrina proposta por Von Mises que nos livraria do pesadelo burocrático do planejamento central na verdade criou um.

O neoliberalismo não foi urdido como um esquema auto-sustentável, mas rapidamente se tornou um. O crescimento econômico foi significativamente mais lento na era neoliberal (desde 1980 na Grã-Bretanha e nos EUA) do que nas décadas anteriores; mas não para os muito ricos. A desigualdade na distribuição tanto de renda como de riqueza, depois de 60 anos de declínio, subiu rapidamente nesta era, devido ao enfraquecimento dos sindicatos, às reduções de impostos, ao aumento dos aluguéis, à privatização e à desregulamentação.

A privatização e mercantilização de serviços públicos como os de energia, água, trens, saúde, educação, rodovias e prisões permitiu que empresas colocassem postos de pedágio diante de ativos essenciais e cobrassem aluguel, tanto de cidadãos como de governos, por seu uso. Aluguel é outra palavra para rendimento não auferido. Quando você paga um preço inflacionado por uma passagem de trem, apenas uma parte da tarifa reembolsa os operadores pelo dinheiro gasto em combustível, salários, estoques rotativos e outros desembolsos. O restante reflete o fato de que somos todos reféns.

Aqueles que possuem e operam os serviços privatizados ou semi-privatizados no Reino Unido fazem fortunas estupendas investindo pouco e cobrando muito. Na Rússia e na Índia, oligarcas adquiriram ativos estatais em liquidações. No México, Carlos Slim obteve o controle sobre o serviço de quase todos os telefones fixos e móveis e logo se tornou o homem mais rico do mundo.

Financialização, como observa Andrew Sayer em Why We Can’t Afford the Rich, teve um impacto similar. “Como o aluguel,” argumenta, “juros são… rendimentos obtidos sem trabalho que aumentam o capital sem esforço algum”. Conforme pobres se tornam mais pobres e ricos, mais ricos, ricos adquirem controle crescente sobre outro ativo crucial: o dinheiro. Surpreendentemente, o pagamento de juros é uma transferência de dinheiro dos pobres para os ricos. À medida em que o valor da propriedade e a remoção de custeio estatal sobrecarregam as pessoas com dívidas (pensem na substituição de bolsas estudantis por empréstimos estudantis), bancos e seus executivos lavam as mãos.

Sayer argumenta que as últimas quatro décadas se caracterizaram pela transferência de riqueza não só do pobre para o rico, mas entre os tipos de riqueza: daqueles que fazem dinheiro produzindo novos bens ou serviços para aqueles que fazem dinheiro controlando ativos existentes e colhendo aluguel, juros ou ganhos de capital. O rendimento obtido foi suplantado pelo rendimento não auferido.

Políticas neoliberais são assediadas em toda a parte por fracassos do mercado. Não apenas os bancos são grandes demais para quebrar, como também as empresas hoje encarregadas de prover serviços públicos. Como aponta Tony Judt em Ill Fares the Land, Hayek esqueceu que não se pode permitir que serviços nacionais essenciais entrem em colapso – o que significa que a competição não pode seguir seu curso. Empresas ficam com os lucros; o estado, com os riscos.

Quanto maior o fracasso, mais extrema se torna a ideologia. Governos usam crises neoliberais como desculpa e oportunidade para cortar impostos, privatizar serviços públicos remanescentes, desmontar a rede de seguridade social, afrouxar a regulamentação sobre empresas e regular ainda mais os cidadãos. O estado que odeia a si próprio hoje crava seus dentes em todo órgão do setor público.

Talvez o mais perigoso impacto do neoliberalismo não seja as crises econômicas que causou, mas sua crise potencial. À medida em que o domínio do estado é reduzido, nossa possibilidade de mudar o curso de nossas vidas por meio do voto também diminui. Ao invés, diz a teoria neoliberal, as pessoas podem exercer escolha gastando. Mas alguns têm mais para gastar do que outros: na grande democracia de consumidores ou acionistas, votos não são igualmente distribuídos. O resultado é o desempoderamento dos pobres e da classe média. À medida em que partidos de direita e da esquerda anterior adotam políticas neoliberais similares, desempoderamento se transforma em privação de emancipação. Um grande número de pessoas foram excluídas da política.

Chris Hedges diz que “movimentos fascistas erguem suas bases não dos politicamente ativos, mas dos politicamente inativos – os “perdedores”que sentem, com frequência corretamente, não ter voz ou papel a desempenhar no establishment político. Quando o debate político não mais nos diz respeito, nos tornamos sensíveis, ao invés, a slogans, símbolos e sensações. Para os admiradores de Trump, por exemplo, fatos e argumentos parecem irrelevantes.

Judt explicou que desde que a espessa malha de interações entre as pessoas e o estado foi reduzida a nada além de  autoridade e obediência, a única força a nos ligar ao estado ficou sendo o poder. É mais provável que o totalitarismo temido por Hayek emerja quando governos, tendo perdido a autoridade moral que emana do provimento de serviços públicos, sejam reduzidos a “engavetamentos, ameaças e, por fim, coerção de pessoas à obediência.”

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Como o comunismo, o neoliberalismo é o deus que fracassou. Só que a doutrina zumbi cambaleia, e uma das razões para isto é seu anonimato. Ou melhor, um aglomerado de anonimatos.

A doutrina invisível da mão invisível é promovida por apoiadores invisíveis. Bem devagar, começamos a descobrir os nomes de alguns deles. Descobrimos que o Institute of Economic Affairs, que argumentou vigorosamente na mídia contra uma maior regulamentação da indústria do tabaco, foi secretamente bancado pela British American Tobacco desde 1063. Descobrimos que Charles and David Koch, dois dos homens mais ricos do mundo, fundaram o instituto que estabeleceu o movimento Tea Party. Descobrimos que Charles Koch, ao fundar um de seus think tanks, disse que “para evitar críticas indesejadas, o modo como a organização é controlada e dirigida não deve ser amplamente divulgado”.

As palavras usadas pelo neoliberalismo frequentemente ocultam mais do que elucidam. “O mercado” soa como um sistema natural que deve nos afetar igualmente, como a força da gravidade ou a pressão atmosférica. Mas ele é repleto de relações de poder. O que “o mercado quer” tende a significar o que empresas e seus donos querem. “Investimento”, como observa Sayer, significa duas coisas bem diferentes. Uma é o custeio de atividades produtivas e socialmente úteis, outra é a aquisição de ativos existentes para cultivá-los para aluguel, juros, dividendos e ganhos de capital. Usar a mesma palavra para atividades diferentes “camufla as fontes de riqueza”, nos levando a confundir a extração de riquezas com a criação das mesmas.

Um século atrás, novos ricos foram desacreditaddos por aqueles que herdaram suas fortunas. Empreendedores buscavam aceitação social se passando por pensionistas. Hoje, a relação se inverteu: pensionistas e herdeiros se travestem de empreendedores. Reivindicam terem obtido rendimentos que jamais auferiram.

Estes anonimatos e confusões se articulam com a a falta de nome e de lugar do capitalismo moderno: o modelo de franquia que assegura que trabalhadores não saibam para quem labutam; empresas registradas sob uma rede de regimes secretos offshore tão complexa que nem a polícia consegue descobrir que proprietários se beneficiam; acordos tributários que enganam governos; produtos financeiros que ninguém entende.

O anonimato do neoliberalismo é ferozmente guardado. Aqueles influenciados por Hayek, Mises e Friedman tendem a rejeitar o termo, sustentando – com alguma justiça – que o mesmo é hoje usado apenas pejorativamente. Mas não oferecem substituto. Alguns descrevem a si próprios como liberais clássicos ou libertários, mas estas descrições são tanto confusas como auto-apagáveis, à medida em que sugerem que não há nada de novo em O Caminho da Servidão, Burocracia e na obra clássica de Friedman, Capitalismo e Liberdade.

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Por tudo isto, há algo admirável sobre o projeto neoliberal, ao menos em seus estágios iniciais. Era uma filosofia distinta e inovadora promovida por uma rede coerente de pensadores e ativistas com um plano claro de ação. Era paciente e persistente. O Caminho da Servidão se tornou a rota para o poder.

O triunfo do neoliberalismo também reflete a falência da esquerda. Quando a economia do laissez-faire levou à catástrofe em 1929, Keynes desenvolveu uma teoria econômica abrangente para substituí-la. Quando a gestão de demanda keynesiana chegou ao limite nos anos 70, havia uma alternativa pronta. Mas quando o neoliberalismo se desintegrou em 2008 não havia nada. É por isto que os zumbis caminham. A esquerda e o centro não produziram nenhuma estrutura geral de pensamento econômico para os anos 80.

Toda invocação de Lord Keynes é uma admissão de fracasso. Propor soluções keynesianas para crises do século 21 é ignorar três problemas óbvios. É difícil mobilizar pessoas em torno de velhas ideias; as falhas expostas nos anos 70 persistem até hoje; e, mais importante, elas (as soluções keynesianas) não têm nada a dizer sobre nosso maior dilema: a crise ambiental. O keynesianismo funciona estimulando a demanda por consumo para promover crescimento econômico. Demanda por consumo e crescimento econômico são os motores da destruição ambiental.

O que a história tando do keynesianismo como do neoliberalismo mostra é que não é suficiente se opor a um sistema falido. Uma alternativa coerente precisa ser proposta. Pois para trabalhistas, democratas e a esquerda mais ampla, a tarefa central deve ser desenvolver um programa Apolo econômico – uma tentativa consciente de projetar um novo sistema, adaptado às demandas do século 21.

Originalmente publicado aqui.

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George Monbiot é autor dos best-sellers Feral: rewilding the land, sea and human life, The Age of Consent: A Manifesto for a New World Order e Captive State: The Corporate Takeover of Britain, bem como dos livros de viagem investigativos Poisoned Arrows, Amazon Watershed and No Man’s Land. Seu ultimo livro é How Did We Get Into This Mess?: Politics, Equality, Nature, publicado por Verso Books.

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NT: Para esta tradução, contei com a inestimável ajuda de Denise Bottmann.

 

 

Sobre a nova lei da mordaça, aprovada na calada da noite: de como o controle da internet por políticos fere a liberdade individual

Quando os trending topics não me mobilizam a escrever, basta deslizar um pouco pela timeline até encontrar algo bombástico cuja importância ainda seja subestimada. Hoje, não deu outra. Enfastiado com proezas de malfeitores notórios prá lá de alardeadas em relação às quais não temos nada a acrescentar, tais como as malas do Geddel, o fundo partidário bilionário ou a compra de votos em favor do engavetamento de mais uma denúncia contra Temer, me deparei com a notícia de uma emenda à reforma política, aparentemente colateral, dando poderes a partidos e candidatos para remover, sem necessidade de ordem judicial, qualquer conteúdo virtual que lhes pareça calunioso ou difamatório.

Percebem o retrocesso em que isto implicaria ? Vou desenhar. Antes da internet, era relativamente fácil controlar todo discurso político, então restrito à mídia e à publicidade eleitoral. Mesmo contraditórios emitidos pela oposição eram contidos dentro de certos limites, regulados por tribunais eleitorais e até tacitamente, segundo o princípio do telhado de vidro. Funcionava como uma guerra fria. Cada lado colecionava os podres dos outros – os mantendo, no entanto, ocultos “na manga”, apenas para o caso de adversários baixarem de vez o tom da conversa. Tipo: se eu te chamo de traficante ou assassino, tu me chamas de estuprador ou pedófilo. O fator definitivo para que evitassem, no entanto, chegar a este ponto em debates públicos é que, assim, provavelmente nenhum deles se elegeria. Ou seja, na corrida eleitoral, havia até entre os adversários políticos mais ferrenhos um pacto para que preservassem suas imagens públicas de ilibados deputados e senadores. Isto acontece até hoje nas câmaras legislativas.

O cenário mudou com a chegada da internet, que quebrou a hegemonia absoluta do discurso unidirecional (broadcasting, i.e., sem a liberdade de livre contestação) ao facultar a todo cidadão a enunciação de contraditórios, qualificados ou não. A internet trouxe, portanto, à política um novo imperativo – a saber, o de que qualquer instância pública passasse a ter, obrigatoriamente, que lidar com críticas e objeções imprevisíveis vindas de toda parte. Só que esta demanda é, no entanto, demasiado complexa e exigente para a inteligência e a retórica médias de nossos homens públicos.  A solução ? Editar a medida canhestra recém aprovada no intuito de retornar as coisas ao estado anterior, quando só uns falavam e restava aos outros apenas pensar sem poder trocar ideias entre pares, num contexto altamente propício para a manufatura de biografias e reputações fantasiosas, tão necessárias às disputas eleitorais.

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O mais justo que imagino é que a constitucionalidade desta nova lei de mordaça venha a ser questionada pelo STJ. Mas não consigo esperar tanto de uma corte obtusa que, por exemplo, entre outras coisas, recentemente legitimou o ensino religioso restrito a uma única denominação em escolas públicas de um estado que se pretendia laico. Deixo então, para reflexão, uma proposição visando escancarar a fragilidade da emenda recém aprovada por meio de uma operação de reductio ad absurdum, assim formulada:

Se políticos reivindicam o poder para remover extra judicialmente qualquer conteúdo virtual que se lhes afigure como calunioso ou difamatório, então por que cidadãos não podem, simetricamente, pedir a interdição de qualquer propaganda eleitoral que lhes pareça mentirosa ?

O que subtituirá o pensamento econômico obsoleto de esquerda e direita ? O paradigma dos “commons”.

Commons são sistemas sociais auto-organizados para gerir riquezas compartilhadas.

Tradução de um artigo de David Bollier publicado em Evonomics

em 30 de setembro de 2017

A ascensão no mundo de tantos movimentos nacionalistas de direita – Brexit, Donald Trump, os neo-nazistas em Charlottesville (Virginia), protestos contra imigrantes em toda a Europa – certamente tem origens e contextos particulares. Mas conjuntamente, evidenciam as minguantes opções realistas que as culturas políticas capitalistas estão dispostas a considerar. O que naturalmente leva à questão: por que as alternativas mais completas são tão raras e tão raramente confiáveis ?

Elites políticas e suas irmãs corporativas estão ficando sem ideias para conciliar as profundas contradições do “capitalismo democrático” como existe hoje. Mesmo social-democratas e liberais, inimigos tradicionais do dogma do livre mercado, parecem presos a uma visão de mundo arcaica e a um conjunto de estratégias políticas que fazem seus argumentos parecerem pífios. Sua habitual narrativa de progresso – de que o crescimento econômico, aumentado por intervenções governamentais e redistribuição, pode de fato funcionar e tornar a sociedade mais estável e justa – não mais é convincente.

Abaixo, argumento que o paradigma dos commons oferece um ótica nova e prática para a reimaginação da política, da governança e da lei. Em poucas palavras, os commons são sistemas sociais auto-organizados para gerir riquezas compartilhadas. Longe se ser uma “tragédia” (1), os commons como sistema para dividir responsabilidades e benefícios é altamente generativo. Ele pode ser constatado na exitosa autogestão de florestas, fazendas e água, bem como em comunidades de software de código aberto, publicações científicas de acesso aberto e em sistemas “cósmico-locais” de design e fabricação.

A crise financeira de 2008 abalou muitos mitos consensuais que sustentaram a narrativa do capitalismo neoliberal. Revelou que crescimento não é algo que possa ser ampla e igualmente compartilhado. Uma maré ascendente não eleva todos os barcos por que os pobres da classe trabalhadora, e mesmo a classe média, não partilham dos mesmos ganhos de produtividade, isenções fiscais e apreciação patrimonial que os ricos. A crescente concentração de riqueza está criando uma nova plutocracia global, cujos membros estão usando suas fortunas para dominar e corromper processos democráticos ao mesmo tempo em que se isolam dos males que afligem todos os demais. Não é de espantar que o sistema mercado/estado e a ideia de democracia liberal esteja experimentando um crise legítima.

Feita esta crítica geral, acredito que o mais urgente desafio de nosso tempo seja desenvolver um novo imaginário sócio-político que vá além dos atualmente oferecidos pela esquerda ou direita. Precisamos imaginar novos tipos de governança e providenciar arranjos que possam transformar, domar ou substituir mercados predatórios e o capitalismo. Nos últimos 50 anos, o estado regulatório falhou em diminuir a implacável inundação de “externalidades” anti-ecológicas, anti-consumidores e anti-sociais geradas pelo capitalismo, principalmente por que o poder do capital eclipsou o da nação-estado e a soberania do cidadão. Ainda assim a esquerda tradicional continua acreditando, equivocadamente, que um Keynesianismo requentado, redistribuição de riqueza e programas sociais sejam politicamente viáveis e possam se tornar efetivos.

O crítico cultural Douglas Rushkoff disse: “Desisti de consertar a economia, por que a economia não está estragada. Ela é simplesmente injusta.” Noutras palavras, a economia está funcionando mais ou menos como seus superintendentes capitalistas querem. Cidadãos frequentemente se desesperam por que a luta por mudanças dentro da política democrática convencional é muitas vezes fútil – e não apenas por que processos democráticos são corruptos. Burocracias estatais e mesmo mercados competitivos são estruturalmente incapazes de enfrentar muitos problemas. Os limites do que O Sistema pode oferecer – em mudanças climáticas, desigualdade, infraestrutura e responsabilidade democrática – são escancaradamente expostos todos os dias. Ao mesmo tempo em que a desconfiança no estado cresce, uma questão bem pertinente é para onde a soberania e a legitimidade política migrarão no futuro.

O problema fundamental em desenvolver uma nova visão é, entretanto, que velhos debates ideológicos continuam a dominar o discurso público. A política está reeditando indefinidamente muitas das mesmas discórdias, deixando de reconhecer que profundas mudanças estruturais são necessárias. Há pouco espaço de incubação para novas ideias e projetos. Novas visões precisam de espaço para respirar e evoluir sua lógica soberana e sua ética para escapar do beco sem saída do melhorismo reformista.

Conforme expliquei num artigo recente para a revista The Nation, narrativas e projetos insurgentes não faltam. Movimentos centrados na justiça climática, cooperativas, cidades tradicionais, sistemas locais de alimentação, finanças alternativas, moedas digitais, produção por pares e design e fabricação abertos, entre outros, estão inaugurando modelos pós-capitalistas de governança e provimento por pares. Ainda que fragmentados e diversos, estes movimentos tendem a enfatizar a temática dos commons: produção e consumo para atender necessidades individuais, sem gerar lucro; tomada de decisões de baixo para cima e administração de riquezas compartilhadas a longo prazo. Todos estes valores estão na essência dos commons.

Por enquanto, estes movimentos tendem a funcionar na margem da cultura, mais ou menos ignorados pela grande mídia e pelos partidos políticos. Mas isto é precisamente o que permitiu que eles evoluíssem com integridade e substância. Só aqui, na periferia, estes movimentos puderam escapar dos pesados preconceitos e das prioridades auto-beneficiantes dos partidos políticos, agências governamentais, meios comerciais, filantropia, academia e complexo industrial não lucrativo entrincheirado.

Por que a imaginação pública para mudanças tranformativas é tão atrofiada ? Em parte por que instituições mais estabelecidas estão mais focadas no manejo da reputação de suas marcas e franquias organizacionais. Assumir riscos e desenvolver novas iniciativas e ideias sólidas não é o que elas geralmente fazem. Enquanto isto, movimentos de mudança de sistema são geralmente considerados sem importância por serem de escala muito pequena, triviais ou apolíticos. Eles também permanecem obscuros por que tendem a confiar em redes baseadas na internet para construir novos tipos de poder, rendimentos (capacidade estrutural para agenciamento individual) e autoridade moral que atores convencionais não entendem ou respeitam. Exemplos incluem a ascensão do grupo de fazendeiros e pastores La Via Campesina, a colaboração transnacional entre povos indígenas, plataformas cooperativas que promovem alternativas compartilhadas como Uber e Airbnb e o System for Rice Intensification (um tipo de agricultura de código aberto desenvolvido pelos próprios fazendeiros).

Ao invés de gerir a si próprios como organizações hierárquicas com franquias proprietárias, reputações e sobrecarga para sustentar, ativistas se enxergam como partes de um movimento social atuando como atores flexíveis em ambientes abertos, fluidos. Seu ativismo em rede permite que se organizem mais eficientemente e coordenem atividades, atraiam participantes talentosos escolhidos por eles mesmos e implementem ciclos rápidos de interação criativa.

Movimentos de mudança de sistema tendem a evitar condutas e processos políticos convencionais – procurando, ao invés, mudança através de emergência auto-organizada. Em termos ecológicos, eles estão usando redes digitais abertas para tentar criar “áreas de captação”, que são espaços para onde muitos fluxos convergem (água, vegetação, solo, organismos, etc.) para fazer surgir uma zona independente e auto-reabastecida de energia vital. No dizer de duas alunas de teoria da complexidade e movimentos sociais, Margaret Wheatley e Deborah Frieze:

Quando esforços separados, locais, se conectam uns com os outros como redes, se fortalecendo como comunidades de práticas, repentina e surpreendentemente um novo sistema emerge numa escala muito maior. Este sistema de influência possui qualidades e capacidades até então desconhecidas para os indivíduos. Não é que elas estivessem ocultas; simplesmente não existiam antes que o sistema emergisse. São propriedades do sistema, não do indivíduo, só que uma vez lá, os indivíduos as possuem. E o sistema que emerge sempre possui mais poder e influência do que seria possível por meio de mudança incremental planejada. Emergência é como a vida cria mudança radical e faz coisas em escala.

A velha guarda da política eleitoral e da economia convencional tem dificuldade em compreender o princípio da emergência, que dirá reconhecer a necessidade de estruturas de políticas inovadoras que possam alavancar e focalizar o poder dinâmico. Ela consistentemente subestimou a inovação de baixo para cima viabilizada pelo software de código aberto; a velocidade e confiabilidade do estilo da Wikipedia de coordenação e agregação de conhecimento e o poder das mídias sociais para catalisar auto-organização viral tal como no movimento Occupy, nos Indignados e Podemos na Espanha, na Revolução do Jasmim na Tunísia e em Syriza na Grécia. Escolas convencionais de economia, política e poder não compreendem as capacidades generativas das redes descentralizadas e auto-organizadas. Elas aplicam categorias obsoletas de controle institucional e análise política, como se tentando compreender as ramificações de automóveis por meio da linguagem de “carruagens sem cavalos”.

Ao invés de aderir ao velho espectro da esquerda à direita da ideologia política – que reflete a centralidade do mercado e do estado em organizar a sociedade – precisamos empreender novas narrativas que nos permitam imaginar novos motores de governança, produção e cultura. Em meu trabalho pessoal, vejo o enorme potencial dos commons no momento em que fazendeiros e pescadores, cidadãos urbanos e usuários da internet tentam reclamar recursos compartilhados que lhes foram usurpados para alimentar a máquina capitalista – e criar suas próprias alternativas de governança. Nisto, os commons são ao mesmo tempo um paradigma, um discurso, um conjunto de práticas sociais e uma ética.

Nos últimos 5 anos ou mais, os commons serviram como uma espécie de meta-narrativa abrangente para diversos movimentos desafiarem a mercantilização e a transnacionalização de tudo, a desapropriação e privatização de recursos e a corrupção da democracia. Os commons também forneceram uma linguagem e uma ética para pensar e agir como um plebeu – colaborativo, socialmente consciente, integrado à natureza, preocupado com rendimento e longo prazo e respeitador da pluralidade que faz nosso planeta.

Se nos preocupamos com mudança efetiva de sistema, precisamos começar a nos emancipar de conceitos e vocabulários retrógrados. Precisamos instigar novos modos pós-capitalistas de pensar sobre modelos emergentes de provimento e governança por pares. Influenciar novas realidades tem menos a ver com eleger líderes e políticas diferentes do que com apreender a mudar a si próprio, orquestrar uma nova intencionalidade compartilhada e promover uma nova narrativa sobre os commons.

Publicado originalmente em global-e journal of 21st Century Global Dynamics, at UC Santa Barbara.

Publicado sob uma licença internacional Attribution-ShareAlike 2.0 Creative Commons.

1 Garrett Hardin, “The Tragedy of the Commons.” Science (Vol. 162, Issue 3859, 1968), pp. 1243-1248. Para uma crítica do modelo de Hardin, veja Ian Angus, “The Myth of the Tragedy of the Commons”:

http://climateandcapitalism.com/2008/08/25/debunking-the-tragedy-of-the-…

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David Bollier é diretor do programa Reinventing the Commons no Schumacher Center for a New Economics, autor de Think Like a Commoner e co-editor de Patterns of Commoning. Ele bloga em Bollier.org.

 

Por que se fala tão pouco de uma reforma judiciária; ou De como combater a centralização pela melhor distribuição (não dos processos, mas do poder decisório sobre cada um deles)

Numa breve pesquisa, tomei conhecimento de que a divisão do estado em três poderes remonta ao século 18 – mais especificamente à obra “O Espírito das Leis” (1748), do filósofo iluminista Charles de Montesquieu – que, por sua vez, se inspirou em ideias sustentadas por John Locke ca. 100 anos antes e, bem antes disso, na antiguidade clássica por Aristóteles.

É, portanto, de se espantar que tal estrutura tripartite, pensada originalmente como um modo de limitar o poder no absolutismo monárquico, não tenha sofrido revisões significativas, mesmo diante do enorme progresso tecnológico e das comunicações observável desde então. Ao contrário, membros de cada um dos três poderes trataram, sempre legislando em causa própria, de garantir a si próprios vencimentos, vantagens, privilégios e imunidades inalcançáveis aos cidadãos que lhes compete governar, legislar e julgar. Deste modo, não é nenhum exagero se afirmar que os três poderes, originariamente concebidos para regular um poder absoluto então dominante, acabaram por, ao longo de quase trezentos anos de amplas transformações sociais, se corrompendo irremediavelmente.

Não deve ser novidade para ninguém em 2017 que os principais males que afligem os poderes legislativo e executivo são, respectivamente, a obsolescência da representação e os cargos em comissão (CCs). É patético, no entanto, se constatar que, naquilo que foi eufemisticamente chamado por quadrilhas políticas de “reforma política”, de modo algum se atacou o problema. Antes, os que dizem nos representar lograram promover um assalto ainda maior ao patrimônio público do que já praticavam anteriormente. É, pois, mister que se considere a pretensa reforma como inócua e, portanto, inválida, se exigindo, ao mesmo tempo, uma reforma constituinte que dê conta do enxugamento necessário das câmaras legislativas em todos os âmbitos.

Isto não será, no entanto, suficiente para garantir um estado que realmente contemple as necessidades de uma sociedade contemporânea. Será preciso, também, não apensas erradicar a prática nefasta de se governar com CCs, da qual muito já se fala – mas também (e disto infelizmente muito pouco se tem falado) questionar grande parte das premissas sobre as quais se estabeleceu, ao longo do tempo, a gigantesca estrutura atual do poder legislativo.

Se os maiores problemas do legislativo e do executivo são, respectivamente, o fim da representação e as árvores de CCs, a mazela mais evidente do poder judiciário como chegou até nós é a concentração de poder nas mão de um único juiz para dirimir a maior parte dos conflitos que chegam à justiça. Com efeito, somente recursos levados a instâncias superiores de arbítrio chegam a ser julgados por órgãos colegiados ao invés de por um único juiz.

Ao nosso ver, só a concentração do poder para julgar cada caso nas mãos de um único magistrado (naquilo que chamam, acho eu, de decisões monocráticas) pode explicar tamanha profusão de sentenças estapafúrdias como, por exemplo, as que determinaram

a remoção de obras artísticas de museus e galerias sob alegações moralistas;

que o goleiro Bruno possa ministrar aulas de futebol para crianças;

a soltura de criminosos flagrantes como Eike Batista ou o ejaculador do ônibus;

a proibição do uso da palavra “helicoca”

que escolas públicas passem a admitir pregação religiosa em suas dependências, contanto que restritas a uma única fé. Notem que esta última decisão, ainda que tomada por um órgão colegiado, reduziu literalmente a frangalhos a figura, agora fictícia, do estado laico. Tal fato indica, por si só, que questões mais polêmicas devam ser apreciadas por cortes mais amplas, para além das apenas 11 cadeiras do STF.

Notem que a maioria dos recentes exemplos acima só chegaram até nossa atenção por que seus efeitos foram sentidos por vultos de algum modo famosos. A própria retirada de um quadro inocente de exibição no centro do país se deu na esteira da polêmica envolvendo o fechamento extra judical da exposição Queermuseu, no Santander Cultural de Porto Alegre.

Notem também que, em muitos destes casos, até mesmo membros do próprio poder judiciário, como juízes e procuradores, tem se manifestado, por meio de abaixo-assinados, contra decisões autocráticas e absurdas tomadas por colegas de espírito público mais limitado, para dizer o mínimo.

Então, por que raios toleramos que juízes continuem deliberando individualmente sobre casos em relação aos quais não há consenso sequer entre a classe jurídica a que pertencem ? Pois falta nitidamente a alguns juízes alguém que lhes diga, antes de baterem o martelo: “Menos. Bem menos.”

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Como todas as medidas reformistas propostas neste blog, esta também pode ser taxada de naïve. A primeira e mais óbvia crítica à qual podemos nos antecipar é a de que a distribuição de processos entre os integrantes de um tribunal é justamente um meio de melhor atender à grande demanda de causas à espera da atenção da justiça. A imagem que já se naturalizou de todo processo é a de um volumoso calhamaço, repleto de anexos, que deve ser cuidadosamente lido e analisado por um juiz antes que o mesmo profira uma sentença.

A princípio, parece um bom argumento – que, como tal, deve ser desmontado em partes. As quais se resumem em três providências, abaixo listadas, sendo que a primeira delas é, de longe, a mais antipática – em relação à qual um coro de vozes corporativas deve, portanto, se levantar.

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Primeiro. É sabido que membros do poder judiciário são, na maioria das vezes, regiamente pagos. “Nem tanto”, dirão, comparando a ordem de seus vencimentos com os de executivos da iniciativa privada – ao que responderei: muito mais, em todo o caso, do que comparativamente à maioria das categorias de servidores públicos (salvo, talvez, a dos políticos, mas isto já é outro assunto).

Se presumindo, então, que o estado pudesse contratar mais juízes com salários menores, estaria derrubado um primeiro e importante empecilho para que todo processo fosse apreciado por mais do que apenas um árbitro.

Não me parece necessário, no entanto, um maior número de juízes para que mais do que apenas um se dedique a cada processo. Pois os últimos tendem a ser mais prolixos do que o necessário. Trataremos disto na terceira providência recomendada, abaixo.

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Segundo. Processos similares deveriam ser agrupados e submetidos ao arbítrio de um mesmo órgão colegiado – a especialização, neste caso, resultando em que cada juiz possa dedicar menos atenção a cada processo individual para se concentrar na formulação de entendimentos mais genéricos que se apliquem a uma classe maior de problemas. Não é difícil de se perceber como esta providência favoreceria  a emissão de sentenças progressivamente mais justas e igualitárias. Noutras palavras, o cliente rico, do advogado mais caro, passaria a gozar da mesma atenção do que o cliente mais pobre. Utópico, não ? Por isto mesmo, esta providência também deve esbarrar, de algum modo, no corporativismo.

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Terceiro. E aqui precisaríamos revolucionar também o métier do advogado. Falo, é claro, do combate à cultura dos processos caudalosos. Pois todo processo pode ser reduzido a uma boa sinopse. Duvido que cada juiz leia atentamente cada lauda anexada a um processo. Assim, tudo o que podemos inferir sobre a importância de uma causa com um paquímetro (instrumento usado para medir espessuras) é o quanto dos recursos de um escritório de advocacia foram nela investidos.

Advoga-se, aqui, a ideia, conquanto possa parecer absurda aos defensores da verborragia jurídica, de que todo processo submetido a qualquer corte obedeça a limites rigorosos quanto à extensão máxima de cada uma de suas seções. Críticos dirão que tal medida implicaria na omissão de muitos argumentos ou provas – ferindo, com isto, o direito à ampla defesa ou condenação. Ora, tenho a plena convicção (esta nova entidade jurídica inventada na Lava-Jato…) de que tanto, de um lado, advogados saberão estabelecer um hierarquia clara entre argumentos mais relevantes (bem como, e isto não é menos importante, exercitar seu poder de síntese) como, de outro, juízes saberão chegar a sentenças justas tão somente a partir dos mesmos – podendo, com efeito, até melhor contemplarem a essência de cada caso, livres que estariam, assim, de toda a retórica diversionista que os distrai e confunde.

Paquímetro

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Li pouco, confesso, sobre a concepção original dos três poderes segundo Montesquieu. Por isto, pergunto: o que disse seu idealizador a respeito da remuneração de seus membros ? A pergunta não é retórica. Pode até ser que, em pleno século 18, já se falasse em governantes, legisladores e juízes em dedicação exclusiva, sustentados pelo dinheiro público. Difícil, no entanto, acreditar que os vencimentos concebidos pelos iluministas fossem mais do que uma pequena fração dos montantes hoje praticados, frutos de séculos de monopólio do uso da caneta.

Mas por que, num mundo ideal, as prerrogativas de governar, legislar e julgar não poderiam ser exercidas voluntariamente e em tempo parcial por todo e qualquer cidadão ávido de contribuir para um mundo mais justo ?

 

 

Sobre palavras proibidas

Em dois episódios recentes na cena política brasileira, o poder judiciário, em flagrante desvio de função, se dedicou ao inútil exercício de tentar banir do vocabulário palavras consagradas pelo uso comum. O primeiro caso foi o do termo polissêmico “golpe” usado em conexão ao processo de impeachment que resultou no afastamento da presidente Dilma Rousseff. Mais recentemente, uma juíza do Distrito Federal tentou proibir o uso do neologismo “helicoca”, de sentido unívoco, utilizado para designar o… helicoca, de propriedade de um senador da República.

Gabriela Jardon, a juíza alçada à fama pela prosaica decisão

Não sou linguista mas, muito antes, um livre palpiteiro. E, como tal, tendo a acreditar que convenções da língua sejam validadas muito antes pelos hábitos daqueles que a falam do que, ao contrário, por força da lei. Daí a enorme complexidade das reformas ortográficas, que sempre geram polêmica e precisam de largos períodos de carência (geralmente de muitos anos) para sua total implementação na língua culta. Pelo menos até o advento dos corretores ortográficos embutidos em todo editor de texto, que nos lembram, mais do que quaisquer outros sistemas de aprendizagem, dos erros distraidamente cometidos.

Há, nos dois casos, supracitados, em que a máquina judicial foi recentemente acionada por políticos brasileiros com o intuito de coibir termos consagrados pelo uso, interessantes nuances a serem consideradas. Tomemos, inicialmente, a acepção política da palavra “golpe”, que vale como uma abreviatura da expressão “golpe de estado”. Trata-se de uma conotação poderosa, que encerra, numa só palavra, todo o caráter de ilegitimidade democrática imputado a um processo de alijamento do poder por parte de seus críticos.

Exatamente por isto, é perfeitamente natural o incômodo causado pela potente conotação do termo a todos os que acreditam que o impeachment de Dilma não tenha sido… um golpe. O que não é, no entanto, nada aceitável é que juízes de um tribunal superior se arvorem a determinar se este ou aquele termo pode ou não ser usado com esta ou aquela conotação. O discurso político, salvo em flagrantes casos de difamação ou calúnia, é livre, e cabe a cada uma das partes conflitantes persuadir a maioria de que a verdade esteja de seu lado. A ideia de legislar sobre os termos do discurso é, portanto, tão acintosa (por implicar em censura) quanto inócua e, consequentemente, hilária.

Mais: a espetacular proibição do uso da palavra “golpe” para designar o impeachment só faz consagrar ainda mais o sentido da acepção banida – do mesmo modo, digamos, que a publicidade, por definição mentirosa (se fosse verdade, ninguém precisaria pagar para que fosse dito), que só faz reforçar nas mentes mais argutas a noção de que, por trás de todo anúncio, alguém está sendo enganado.

Deliberações judiciais sobre o uso de termos específicos são, antes de mais nada, um subproduto canhestro dos tempos de maior liberdade de expressão. Paradoxal ? Não acho. Pensem, por exemplo, no longo período de vigência, de mais de duas décadas, do golpe militar de 1964. Naquele tempo, se banalizou, por meio de uma estreita vigilância e censura dos meios de comunicação, a ideia de que o que ocorrera em 31 de março daquele ano não fora um golpe e sim uma revolução. Só depois da restauração do estado democrático é que o termo golpe se consagrou para designar a truculenta tomada do poder pelos militares.

Ora, revolução e golpe encerram sentidos diametralmente opostos, de índole popular e oligárquica, respectivamente. Daí a enorme conveniência da utilização de um ou outro por parte de quem queira incensar ou condenar a ruptura política em questão. De 1964 até as Diretas, a censura fazia sua parte, não havendo, portanto, a menor necessidade de se legislar sobre o léxico. Hoje, com os discursos fluindo livremente, volta e meia nossos tribunais se deixam envolver em presepadas como as tentativas de banir o uso de termos como golpe ou helicoca.

Se golpe incomoda muita gente, helicoca incomoda muito mais. Isto por que o golpe foi desferido por agentes distribuídos. Ou, se quiserem, por um grupo de interesses. De tal modo que não é possível atribuir individualmente a este ou aquele político a responsabilidade exclusiva pelo afastamento da presidente. Por trás de uma coalizão de forças se alternam, assim, vilões de plantão, como Cunha, Temer ou Bolsonaro, a servir de fachada para interesses corporativos maiores e anônimos, por que impessoais.

Já no caso do helicoca, a coisa é bem diferente. Primeiro por que, por se tratar de um neologismo, não há qualquer significado pré existente para a palavra – que se refere, unicamente, ao helicóptero flagrado transportando quase meia tonelada de cocaína. Segundo, por que a aeronave tem dono – no caso um respeitável senador da República. O qual não deve ter se preocupado muito com a cunhagem da expressão, cuja maior probabilidade era, como soe acontecer com a maioria dos políticos pegos com a boca na botija, cair no esquecimento. Só que não. O termo helicoca é um grande achado linguístico que, passados já ca. 3 anos do fato causador, continua impregnado no imaginário popular.

Imaginem, agora, face aos exíguos e caros tempos de publicidade eleitoral, o potencial devastador de uma palavra como helicoca no discurso de opositores do senador nas próximas eleições. Daí que, segundo o princípio empírico do jus esperneandi, é natural que o proprietário do helicoca  bata às portas da justiça procurando banir ou delimitar o uso da palavra que o incrimina inequivocamente. Inaceitável, no entanto, é a justiça acolher seu pleito. Se juízes fossem descontados em seus polpudos vencimentos como penalização por decisões estapafúrdias, talvez não tivéssemos coisas como Gilmar soltando criminosos notórios ou, ainda, o goleiro Bruno trabalhando com crianças numa escolinha de futebol.

Caso contrário, não estamos longe do dia em que veremos luminares togados deliberando, em exercícios de malabarismo semântico, sobre quem pode, de direito, utilizar em seu próprio benefício ou contra outrem potentes adjetivos como democrático, socialista, de esquerda ou de direita.

Por que toleramos abusos cometidos por elites governantes; ou Onde falha o Jogo do Ultimato

É um grande equívoco considerar Yuval Noah Harari um historiador, ainda que sua formação deponha neste sentido. Pois seus escritos o definem muito mais como um filósofo que usa e abusa da história a fim de argumentar em favor de sua visão de mundo. Talvez por isto leitores mais rigorosos reputem suas narrativas como sensacionalistas, sem o devido rigor histórico. Ou não. Posso mudar de ideia, pois estou apenas a um terço da leitura de seu segundo livro, Homo Deus.

Para quem, como eu, estava entusiasmado com sua obra inaugural, Sapiens, o progresso através das páginas de Homo Deus pode ser um tanto decepcionante, posto que a maioria das ideias que ali se encontram já foram minuciosamente formuladas em seu primeiro livro. Isto tão somente até percebermos que, enquanto Sapiens pretende ser um um livro de história e, como tal, dedicado à ausculta do passado; Homo Deus retoma as mesmas ideias – só que, desta vez, no intuito de especular sobre o futuro.

* * *

Uma das questões mais recorrentes a todo brasileiro contemporâneo mais ou menos informado é por que, afinal, apesar do abuso generalizado perpetrado por nossa classe política contra o povo, este último teima em permanecer, conquanto perplexo, absolutamente inerte. Não pretendo, aqui, conclamar nenhum levante armado nem tampouco alguma ruptura radical. Quero, tão somente, chamar a atenção para uma possível explicação para este estado de coisas segundo a concepção teórica de Harari. Para tanto, preciso que me acompanhem ao longo de uma linha argumentativa nada breve. A ela.

A hipótese de Harari para o fato do homo sapiens ter subjugado todas as demais espécies – levando, inclusive, muitas delas à extinção – difere da noção mais comumente aceita pelo senso comum de que a inteligência e a capacidade para a confecção de ferramentas são as competências que mais nos diferenciam de outros animais. Sustenta, ao contrário, que o que assegurou o domínio hegemônico de nossa espécie sobre as demais foi a capacidade de colaborar em grande escala e com flexibilidade em torno de objetivos comuns. Indo adiante, afirma que só desenvolvemos isto em razão de outra capacidade – a saber, a de criar realidades imaginárias compartilhadas por milhões de indivíduos, tais como religiões, nações ou dinheiro.

Grande parte dos capítulos iniciais de Homo Deus é dedicada à discussão de que

outras espécies de animais tem sensações, emoções e, quiçá, consciência análogas às humanas; e que

assim como outros animais, humanos tampouco são providos de alma.

Ao discutir a colaboração flexível em larga escala entre humanos, Harari a distingue da colaboração possível entre bandos com menos de 150 indivíduos por meio de dois experimentos, familiares a economistas e cientistas sociais, os quais, por conveniência, citamos extensivamente.

[…] o Jogo do Ultimato, um dos mais famosos experimentos em economia comportamental. Este experimento é em geral conduzido com duas pessoas. Uma delas ganha cem reais, que tem de dividir com o outro participante do jeito que quiser. Pode ficar com tudo, dividir ao meio ou entregar ao outro a maior parte. O outro pode ter uma de duas atitudes: aceitar a divisão sugerida ou rejeitá-la totalmente. Se rejeitá-la, ninguém fica com nada.

As teorias econômicas clássicas afirmam que humanos são máquinas de calcular racionais. Elas sugerem que a maioria das pessoas vai ficar com 99 reais e oferecer ao outro participante 1 real. Prosseguem sugerindo que o outro participante vai aceitar a oferta. Uma pessoa racional à qual se ofereça um real sempre dirá sim. Que lhe importa que outro jogador fique com 99 reais ?

Os economistas clássicos provavelmente nunca saíram de seus laboratórios e salas de conferência para se aventurar no mundo real. A maior parte daqueles que jogam o Jogo do Ultimato rejeita ofertas muito baixas por que as considera “injustas”. Preferem perder um real a serem vistos como babacas. Como é assim que funciona o mundo real, poucas pessoas fazem ofertas muito baixas e oferecem trinta ou quarenta reais ao outro jogador.

A partir deste resultado, Harari conclui que

sapiens não se comportam segundo uma lógica matemática fria, e sim de acordo com uma cálida lógica social.

Mais adiante, continua:

Em um experimento recente, o primatologista Frans de Waal pôs dois macacos-prego em duas jaulas adjacentes, de modo que cada um pudesse ver o que o outro estava fazendo.  De Waal e seus colegas puseram pequenas pedras em cada jaula e treinaram os macacos a lhes darem essas pedras. Toda vez que um macaco entregasse uma pedra recebia comida em troca. No começo, a recompensa era um pedaço de pepino. Os dois macacos gostaram muito e comeram os pepinos com satisfação. Depois de algumas rodadas, De Waal passou à fase seguinte do experimento. Dessa vez, quando o primeiro macaco cedeu uma pedra, ganhou uma uva. Uvas são muito mais saborosas que pepinos. No entanto, quando o segundo macaco deu uma pedra, recebeu uma fatia de pepino. Esse macaco, até então muito feliz com seu pepino, ficou enfurecido. Pegou-o e por um instante olhou incrédulo para ele; depois jogou-o com raiva nos cientistas e começou a saltar e a guinchar ruidosamente. Ele não era nenhum otário.

Esse hilariante experimento (que você pode ver no YouTube), assim como o Jogo do Ultimato, gerou uma crença de que os primatas possuem uma moralidade natural e que a igualdade é um valor universal e atemporal. As pessoas são igualitárias por natureza, e sociedades em que prevalece a desigualdade não podem funcionar bem devido ao ressentimento e à insatisfação.

Mas as coisas são realmente assim ? Essas teorias podem funcionar com chimpanzés, macacos-prego e pequenos bandos de caçadores-coletores. Também funcionam bem no laboratório, onde são testadas em pequenos grupos de pessoas. Entretanto, quando se observa o comportamento de massas humanas, revela-se uma realidade completamente diferente. A maior parte dos reinos e impérios humanos foi extremamente desigual, mas muitos foram surpreendentemente estáveis e eficientes.

Depois de ilustrar a última assertiva com a desigualdade reinante tanto no Egito dos faraós como na Prússia de Frederico II, Harari pergunta:

Por que os camponeses egípcios e os soldados prussianos agiram de modo tão diferente do que poderíamos esperar com base no Jogo do Ultimato e no experimento com macacos-prego ? Por que o comportamento de um grande número de pessoas é fundamentalmente diferente daquele apresentado por um agrupamento menor. O que veriam os cientistas se realizassem o experimento do Jogo do Ultimato com dois grupos de um milhão de pessoas cada, em que tivessem que dividir 100 bilhões ? Provavelmente eles testemunhariam uma dinâmica estranha e fascinante. Por exemplo, como um milhão de pessoas não são capazes de tomar decisões coletivamente, cada grupo teria de fazer brotar uma pequena elite governante. E se uma elite oferecesse à outra 10 bilhões, reservando para si 90 bilhões ? Os líderes do segundo grupo poderiam muito bem aceitar essa oferta injusta, injetar a maior parte dos 10 bilhões em suas contas em bancos suíços, enquanto contornavam a rebelião de seus seguidores com uma combinação de punição e recompensa. A liderança poderia ameaçar punir severa e imediatamente os dissidentes, ao passo que prometeria aos submissos e pacientes uma recompensa duradoura no pós-vida. Era isso que acontecia na Egito antigo e na Prússia do século 18, e é assim que as coisas ainda funcionam em vários países do mundo.

Harari conclui, então, que

[…] toda cooperação humana em grande escala baseia-se em última análise na nossa crença em ordens imaginadas. […] Sapiens usam com frequência marcas visuais, como um turbante, uma barba ou um terno formal para sinalizar: “Pode confiar em mim, acredito na mesma história em que você acredita”.

Ora, se substituirmos, nos parágrafos acima, as duas elites governantes a dividir os 100 bilhões por políticos e grandes empresários, teremos uma metáfora perfeita do atual cenário nacional. E os milhões por eles governados não terão,  conforme Harari e ao contrário do sugerido pelo Jogo do Ultimato, nenhuma resistência a serem tidos como babacas ou otários.

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Anteriormente no mesmo livro, Harari explica que a história não instrumenta quem a conhece a prever o futuro – algo que reputa como impossível – mas contribui para que se evite repetir erros cometidos no passado. Oxalá fosse mais lido entre nós !