Comentários anteriores e posteriores à minha diatribe contra Carmina Burana, precedidos por anotações sobre o uso que fazemos de blogs e redes sociais

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Já devo ter dito em algum lugar deste blog (até por que a ideia não é nada original) que, tivesse vivido em nosso tempo, Mikhail Bakhtin (1895-1975) teria se esbaldado analisando os tipos de discurso produzidos na web a partir dos princípios que formulou. Segundo sua teoria, todo discurso, lacônico ou prolixo, se relaciona com outros existentes por meio de nodos que representam a alternância entre falantes. As falas contidas entre um nodo e outro, produzidas por um único autor, são chamadas de discursos monológicos – o “grande romance” como seu mais típico e monumental exemplo; enquanto aqueles constituídos por falas de vários autores, em concordância ou oposição, são considerados dialógicos.

Ora, esta dicotomia cai como uma luva para classificar a algaravia da internet. De tal modo que, enquanto o que se escreve em blogs é essencialmente monológico – com um elevado grau, portanto, de controle autoral – já as plataformas de redes sociais primam por facilitar discursos mais interativos, com falas menores de um maior número de autores (nelas chamados de comentaristas), engendrando discursos dialógicos nos quais o controle do autor (raramente exercido) se limita, quando muito, à remoção de comentários considerados, por quaisquer razões, indesejáveis por quem inicia a conversa.

Desta distinção resulta que, enquanto o texto em (bons) blogs costuma ser mais linear e enxuto, com uma série de silogismos perfeitamente encadeados do início até o fim de cada post, em redes sociais o discurso tende a ser mais errático, interrompido aqui e ali por possíveis linhas de argumentação logo abandonadas, a confundir leituras mais objetivas. Tal é o estado das coisas ao menos até a implementação de uma web semântica, idealizada por Pierre Lèvy, que tratará de identificar e agrupar automaticamente enunciações pertencentes a uma mesma categoria. Até que isto aconteça, todavia, é recomendável a todo sujeito se fazer presente, com finalidades diferentes, tanto em blogs como em redes sociais, utilizando os blogs em busca de maior introspecção ou para a sedimentação de linhas argumentativas mais complexas e as redes sociais como local ideal por definição tanto para a difusão como para a colisão de ideias.

Já disse acima que blogs são mais afeitos ao que é comumente conhecido por “textão”. Com efeito, o textão constitui uma espécie de limite tácito àquilo que podemos postar numa rede sem grande risco de incomodar quem lê. O tamanho do que é considerado textão varia, é claro, de uma pessoa para outra muito em razão do tamanho daquilo com que cada um acha aceitável se deparar em sua timeline, a clamar por atenção. Recentemente, se tornou popular um tipo de disclaimer de textão, como uma tarja de advertência a quem se dispuser a clicar no botão “ler mais” que o facebook, muito convenientemente, disponibiliza logo após as primeiras linhas de qualquer texto parcialmente ocultado por seu algoritmo.

Outra grande distinção entre os blogs e as redes é que as últimas são imensamente mais interativas do que os primeiros, a julgar pela grande diferença entre o número de comentários postados nuns e noutros. Além disto, comparando-se a visitação inicial a cada novo texto postado num blog com o número de curtidas da divulgação do mesmo numa rede social, também se pode inferir que postagens em redes sejam bem mais visualizadas do que aquelas em blogs. Então, se afigura com uma estratégia bastante útil divulgar em redes sociais cada nova postagem em um blog, no intuito de atrair para o último parte do público que vê o que é postado nas primeiras.

Por fim, é preciso ressaltar que a permanência de tudo o que se escreve num blog é muito maior do que a de tudo o que é dito exclusivamente em redes sociais – que são, por natureza, voláteis, i.e., tudo o que nelas se publica tende a ser rapidamente esquecido em favor de postagens mais recentes.

Por tais razões, utilizamos os blogs, primordialmente, para

desenvolver, num discurso monológico, argumentações mais complexas; e, secundariamente,

conferir maior permanência a falas que emergem em redes sociais cujo interesse seja, no entender do blogueiro, mais duradouro. Por isto, transcrevemos, abaixo, dois threads (desculpem o anglicismo, mas não encontrei, até o momento, uma tradução suficientemente boa para a expressão) de comentários, respectivamente, anteriores e posteriores à publicação neste blog, dias atrás, de uma diatribe contra a cantata Carmina Burana, de Carl Orff (1895-1982).

* * *

Notas sobre as transcrições:

1) Em tempos distantes, quando eu frequentava o twitter e sequer conhecia o facebook, tive pela primeira vez a ideia de perpetuar num post, em meu primeiro blog, uma conversa que mantive numa rede social que achara particularmente interessante. Tão logo divulguei a postagem, uma blogueira (sic !) cujas falas na rede social eu citara em meu blog reclamou por ter se sentido indevidamente exposta ao ver o que dissera, de modo espontâneo e casual, descontextualizado e cristalizado num meio mais permanente. Algo parecido, suponho, com a distinção que alguns fazem entre a palavra falada e a escrita. Acatei e removi prontamente. Do mesmo modo, me prontifico a retirar deste post quaisquer comentários que venham a ser considerados por seus autores como indevidamente publicizados. Em ocasiões anteriores, busquei autorizações expressas de todos que pretendia citar. Só que, aqui, como os comentaristas são tantos, optei por publicar e só depois remover falas cujos autores se sintam, por qualquer razão, incomodados. Há comentaristas habituais que sei não se importarem com a ampliação da visibilidade de suas falas. Mas pode bem haver entre eles, igualmente, aqueles que talvez não considerem suas falas em redes sociais como públicas. A estes, I humbly apologize.

2) Logo que constatei a grande profundidade e relevância de alguns comentários para a discussão que iniciara, hesitei em relação a publicar tais threads no blog. Só, no entanto, até o Milton me pedir que o fizesse. Novo impasse: transcrever os threads na íntegra ou, ao contrário, editá-los, deles removendo a conversa mais casual e pinçando só as falas que julgasse mais relevantes ? Tão somente por não ter conseguido estabelecer um critério de corte, escolhi publicá-los na forma bruta, sem edições. Ainda não sei se foi a melhor opção.

* * *

Os comentários seguintes foram postados sob um desabafo que fiz, no facebook, em relação a estar tocando Carmina Burana. Para que os mesmos façam mais sentido, transcrevo também, inicialmente, meu desabafo – praticamente um textão – responsável por desencadear a conversação.

Augusto Maurer Carl Orff é um fenômeno totalmente supérfluo e colateral à história da música, sequer constando em alguns compêndios. Ouvi dizer que era nazista e batia na mulher. Desgraçadamente, uma de suas duas únicas composições (se é que dá prá chamar assim aquelas formas repetitivas de alguém que provavelmente jamais aprendeu a modular de uma tonalidade a outra (que se dane a desculpa de que era modal: já ouvi muita música modal bem inteligente)) caiu definitivamente no gosto popular – empatando somente com, talvez, o Bolero de Ravel. Para seus maiores entusiastas, se confunde com a própria origem do rock sinfônico.

Dito isto, dou por cumprido meu triste dever de participar que, no próximo fim de semana, a OSPA tocará, no auditório Araújo Vianna, a controversa Carmina Burana. Pois, é preciso admitir, a coisa tem seus apreciadores. Méritos ? Não sei.

Magda Sarmento A opinião de quem entende de fato, é para nos fazer pensar, Sidney.

Sidney Lima [emoticon]

Milton Ribeiro Carl Orff recusava-se a falar publicamente sobre seu passado. Era oriundo de uma família da alta burguesia bávara, muito ativa na vida militar alemã… Embora a associação de Orff com o nazismo nunca tenha sido comprovada, Carmina Burana tornou-se muito popular na Alemanha nazista depois de sua apresentação na cidade de Frankfurt, em 1937. Depois da Segunda Guerra Mundial, Orff alegou ter sido membro da resistência, mas não há evidências disso.

Fabio Zanon Uma das maiores desgraças da música do século XX é esse troço ainda permanecer no repertório.

André Luiz López Cardozo  “Não concordo com nada que dizes, mas respeito até o fim teu direito de dize-lo”

Milton Ribeiro Agora, a música é uma TREMENDA BOSTA.

André Luiz López Cardozo não confundam “juízo de gosto” com “juízo de valor”

Augusto Maurer Exatamente ! Nunca disse não gostar de Carmina Burana – e sim que, por qualquer critério técnico, ela não vale nada !

Ricardo Branco Eu acho esta música chatissima. Começa legal, a Fortuna Imperatrix Mundi, mas depois é um estupor.
Quando levei um pessoal não muito afeito à música de concerto ouvi-la e dishe-lhes depois que a desgostava, quase apanhei.

Fabio Zanon Isso acontece porque o nível de exigência auditiva só se compara a um rock de quinta categoria. Melodia modal (sempre o mesmo modo, sempre usado da mesma maneira), ritmo fácil, máximo de 3 acordes, muita repetição, bateria fazendo bastante barulho, a mesma melodia não importa a letra. Os Beatles são Bach comparando com isso.

Milton Ribeiro Perfeito !

Augusto Maurer É preciso, então, suponho, vê-la em perspectiva: comparada ao resto do repertório sinfônico, é mesmo uma bosta; mas, talvez, para quem nunca (ou quase nunca) ouça orquestras, deve impressionar.

Fabio Zanon Porque a orquestra sinfônica é um dos pináculos da criação humana. 100 pessoas tocando harmoniosamente no mesmo ritmo fica bonito até com música ruim.

Adroaldo Bauer Corrêa Bem mais recentemente ganhou letra em homenagem crítica ao provecto marido da Marcela. Prepare-se pra eventual interação de platéia incontida e pouco reverente.

Augusto Maurer Compartilha, Adroaldo Bauer Corrêa ! Em nome da ilustração do público.

Adroaldo Bauer Corrêa Fá-lo-ei, Augusto Maurer.

Augusto Maurer (mesóclise de dar inveja ao marido da Marcela…)

Ricardo Branco Eu acho que justamente a repetição, pouca variação e barulheira agrada ao público em geral.

Fabio Zanon Precisamente, igual a rock de quinta, sertanejo universitário, funk etc.

Milton Ribeiro O Sar…to…ri..! BUM!

Augusto Maurer Obrigado, amigos ! Nada como dizer algo polêmico para ter, instantaneamente, a atenção de algumas das pessoas mais inteligentes que conheço !

Augusto Maurer (notem que, quando devidamente provocados, escreveram, colaborativa e espontaneamente, o melhor anti-release que já vi. Por essas e outras estou no face…)

Gabriela Vilanova Maestro, tenho acompanhado seus artigos no jornal e que bom saber notícias suas. Foi com o senhor que fiz meu primeiro festival onde tocamos a oitava de Beethoven. Muita emoção pra quem tem 13anos!!! Eu era violinista na época. Toco na Ospa há 8 anos! Abraço

Fabio Zanon O maestro Osvaldo bem aponta que é a obra mais conhecida do autor. Ainda bem, porque as desconhecidas são ainda piores. Assisti uma vez a Der Mond e acho que preferiria ficar uma hora na cadeira do dentista.

Martin Muehle Conforme o Prof. Celso Loureiro Chaves, Carmina Burana teria similaridades questionáveis com obra As Bodas de Stravinsky composta anteriormente….

Osvaldo Colarusso é um xerox não autenticado de Les Noces

Fabio Zanon Se a gente considerar um Fiat 147 um xerox de um Camaro…

Milton Ribeiro Fabio Zanon HAHAHAHAHAHAHAHA

Angelo Metz Acho que é o unico assunto em que eu e Celso concordamos na vida. hehehehe

Ricardo Branco Olha, de fato tem algumas lembranças. Não sou músico, tampouco toco instrumento. Gosta das bodas, muito. Seria uma versão muito piora da?

Martin Muehle Ou seja, um plágio descomunal

Charlles Adriano Campos Sempre odiei Carmina Burana. Acho de uma breguice sem igual.

Carlos Sell Com certeza algo ficou em falta na minha educação musical! Eu adoro essa peça desde a infância, praticamente cresci ouvindo a interpretação do Seiji Ozawa! Mas enfim, o mundo é diverso né? Abraço!

Ricardo Branco Como leigo, eu acho que música uma arte ímpar. Às vezes, ela nos pega por algum , remete a situações que nem mais lembramos. Talvez não gostemos pelos mesmos motivos, sei lá

Paulo Paranhos Jr. gosto de ler o que meu amigo e colega Augusto Maurer escreve. Seus textos sempre me fazem ter que ler e reler pra eu ter certeza do que ele quis dizer…e isso faz meu cérebro criar mais ligações neuronais….

Paulo Paranhos Jr. e,particularmente, também acho meio chata essa música.

Damián Keller Nada como a mediocridade composicional para se transformar em referência da educação musical.

Wilfried Berk Carl Orff na wikipedia

Norberto Flach E daquelas músicas para festa com foguetório, gostas?

Omar Gianlupi Carlo Gianlupi, ler os papos cabeças.

Rodrigo Nassif Essa Carmina é de Passo Fundo , que nem eu?

Júlio César Apollo Há música para músicos e estetas e há música para as pessoas comuns do povo. Levar o povo ao concerto é algo que Orf faz com sua música brega e chata muito melhor do que Bach, Haydn ou Josquim. Que o digam o Sr. Rieu e os Lima.

Augusto Maurer Não concordo com esta categorização da música segundo seu suposto público alvo. Até por que, em nome dele, todo o pop foi cometido. Por isso, prefiro pensar em música boa ou ruim. Segundo critérios bem objetivos e demonstráveis. Coisas como ambição formal ou amplitude harmônica. De modo que não concordo com máximas simplistas do tipo “gosto não se discute”. Se discute, sim. E quanto mais se comparar, melhor.

Fabio Zanon Tem milhares de pessoas que dedicam suas vidas à música de Bach ou Haydn. Eles têm algumas das obras que definem a cultura ocidental e são consenso entre músicos e público há 200 anos. Orff tem somente uma música que ainda é executada, que cria lá seu efeito. Bach é um universo em música. Bach vende milhões de discos e downloads. Orff não.

Júlio César Apollo Fabio Zanon, todos sabemos disso. Mas proponho um desafio, um concerto maravilhoso e digno com a Arte da Fuga e um outro com Carmina Burana. Qual venderia mais ingressos? Eu tenho dúvidas, mas suspeito qual seria o resultado. Ah, e tem pessoas que dedicam-se à Josquim também que foi um dos maiores.

Júlio César Apollo Augusto Maurer, eu também acho que gosto se discute e que qualidade é perfeitamente demonstrável. Mas basta olhar em volta e ver e ouvir a diversidade musical. Tem público para tudo. E uma grande e competente orquestra mantida com dinheiro de todos os gaúchos deve tocar para todos os gaúchos.

Augusto Maurer Se venda de ingresso e preferência do público fossem critério estético, a arte não existiria. Imaginem, por exemplo, um futuro distópico onde só houvesse gente como, sei lá, Rieux ou os Lima. Ou Romero Brito.

Fabio Zanon Júlio César Apollo, você pegou um exemplo particularmente extremo. A Arte da Fuga nem é música para se tocar em público, é de um músico para outro. Idem Josquin. Isso é música de nicho. Mas, vamos combinar, se formos pensar em música para grandes plateias, levanta-defunto, tem milhares de composições decentes de gente decente. Qualquer Abertura 1812 é um monumento à sutileza comparada a Orff. Na verdade, não vejo problema em que ela seja apresentada ocasionalmente. O negócio é o que o Colarusso falou, ela é o tipo de música que se programa tropegamente, sem ensaiar direito, para atrair artificialmente um público que não vai voltar nunca pra ouvir outra coisa. Acho até que mereceria ser encenada, da forma como Orff a concebeu (só que não tão cafona e datado quanto este vídeo):

Júlio César Apollo Conheço o vídeo, acho chato até o Hermann Prey que gosto está meio sem graça.

Júlio César Apollo Entretanto as moças com os seios nus no laguinho ficou carimbada na minha mente.

Angela Maria Bordini Nogueira Até onde sei Carmina Burana vem da Idade Média. Carl Off juntou os temas e letras. Há letras ótimas. Aquela das moças convidando os moços pra namorar, por exemplo. Minha professora ( século passado) de Português Medieval- galego português- dizia que as moças levantavam as saias e cantavam em frente às igrejas 🙂 Mas aquela língua ninguém entende bem, não ė ?

Milton Ribeiro Sim, o que cantado é de muito alto nível, o que é desmanchado pela música.

Milton Ribeiro Aquele O Fortuna tem a seguinte tradução:

Oh, sorte
És como a lua
Estado variável
Sempre crescendo
Ou decrescendo
Vida detestável
Primeiro oprime
Depois alivia
A mente só por diversão
Pobreza
Poder
Dissolvem como gelo
Destino monstruoso
E vazio
Tu, Roda da Sorte
És malevolente
Bondade em vão
Que sempre leva a nada
Obscura
E velada
Também me amaldiçoaste
Agora – por diversão
Trago o dorso nu
E entrego à tua perversidade O destino da saúde
E virtude
Agora me é contrária
Dás (afeto)
E tiras (afeto)
mantendo sempre escravizado
Então agora
Sem demora
Tange a corda vibrante
Porque a sorte
Extermina o forte
Chorais todos comigo

Milton Ribeiro Roubei a tradução na rede, tá?

Angela Maria Bordini Nogueira Depois vou procurar o encarte da gravação aqui. As traduções são boas. E quem quiser gostar que goste. Sou simples. Gosto até de alguns funks :))

Angela Maria Bordini Nogueira Hoje não tenho mais interesse em ouvir Carmina Burana. Mas já gostei.

Milton Ribeiro Angela Maria Bordini Nogueira, defina “simples”. 🙂 Acho que tu não és simples na acepção que utilizaste.

Angela Maria Bordini Nogueira Receptiva, menos crítica. Não tenho a cultura musical de vocês.

Milton Ribeiro Sim, porque literariamente tu és sofisticadíssima.

Angela Maria Bordini Nogueira Imagine, sou não.

Milton Ribeiro Ok, vamos brigar. 🙂 É SIM!

Angela Maria Bordini Nogueira Só quero agradecer o que aprendi de música clássica com você: ) Grata.

Maria de Abreu E o que dizer desta união, hein, hein???

Herta Elbern Pois não é que a “forma repetitiva” ajudou a reforçar o coro!

Júlio César Apollo Esse povo que canta fora Temer ficou sempre quietinho quando a dilma e o lula saquearam a nação.

Herta Elbern Paz e amor, bicho!

Harold Emert Sinto equal de voce Augusto tocando Wagner…mas a musica e fantastica…Waget era antes De Hitler mas tocando sua musica menos o meistersinger sinto o cheiro De Nazismo..mas os Grandes como Levine e baremboim judeus tambem nao pensam assim …

Ricardo Melo Dá-le, Augusto!

Herta Elbern Flávio Leite! Concordas?

Cristina Maria Capparelli Gerling Todo ser humano passa meses na barriga da mãe ouvindo uma percussão em altíssimo volume que regula o coração e outras funções básicas da sobrevivência, assim quando o humano nasce fica com saudade daquela barulheira toda. Só isso explica a atração por músicas como Carmina Burana, Bolero e roque pauleira desenfreado. Sim, tem seus momentos mas é barulheira destinada a nos levar ao transe coletivo.

Augusto Maurer Ótima análise, Cristina ! Nunca a tinha ouvido Carmina ou rock sob este prisma.

Cristina Maria Capparelli Gerling Veja se te interessa: “Lost in time” but still moving to the beat

Nelson Fiedler Tenho gostado bastante das novas vertentes do tech house . E principalmente das novas criacoes em cima da linha hip house . Acho q a musicalidade nesta 2a decada do 3 milenio esta a caminho de ser comparada aos anis 80 …o q acha ? Abracos neo

Nelson Fiedler Quanto ao Orff concordo com vc

André Luiz López Cardozo sentimentos e sensações atávicas, pertencentes ao coletivo, são despertadas por essa cantata, com certeza, Cristina Caparelli…

Claudia Antonini Bem, entendo o debate mas não curto o preconceito que ironicamente o permeia. Não pensem que eu não percebo perfeitamente que é uma música menos sofistica, menos complexa, que tem “empréstimos” de outros compositores, etc, não é uma caixinha de jóias. Eu também gosto de música complexa e sofisticada, mas, nem por isso, deixo de gostar de ópera, outro gênero sobre o qual abundam preconceitos. Por outro lado, também acho legal o transe coletivo de um espetáculo de som, luz e dança e entendo que a Carmina Burana permite este tipo de vivência. Me divirto assim como faria numa experiência catártica dentro de uma bateria da Escola de samba ou de um show antigo dos Titãs no qual se pulava durante 3 horas e depois se ficava surdo por 3 dias. Acho, alem disso, que como trilha ela funciona muito ou não teria sido usada em tantos filmes legais. Excalibur (1981) de John Boorman, Assassinos por natureza (1994) de Oliver Stone, Detroit Rock City (1999) de Adam Rafkin, e A Filha do General (1999) de Simon West, são alguns deles. São filmes excelentes. Também fico pensando em como ter uma experiência de potência catártica neste tipo de espetáculo sem a potência de uma orquestra de boa dimensão. Enfim, muitos mas…

Claudia Antonini Angela Maria Bordini Nogueira

Fabio Zanon Não é o problema de se valorizar somente música complexa ou sofisticada. Schubert não é sempre complexo, Verdi não é sempre sofisticado, Tchaikovsky não é sempre sutil, Liszt não é sempre de bom gosto, Villa-Lobos nem sempre é intelectualizado, música minimalista nem sempre e musical, mas é música genuína. Carmina Burana é uma música cuidadosamente planejada para ser tosca, é a única obra escrita sob o regime nazista que ainda se toca (claro, se considerarmos Richard Strauss um conservador independente). Alex Ross diz que a sua utilização em inúmeros filmes e comerciais é prova de que ela não contém nenhuma “mensagem diabólica”; o problema é que talvez ela não contenha “mensagem” alguma.

Angela Maria Bordini Nogueira Claudia Antonini, procurei algo mais sobre Carmina Burana. Um dos links ė do filologia. com. -com ênfase nas letras . Aqui : Carmina Burana. A cantata cênica em latim medieval

Angela Maria Bordini Nogueira O outro link ė o pqpbach : Carl Orff (1895-1982) = Carmina Burana (Osawa)

Claudia Antonini Boa essa Angela. O “Olímpo” erudito se manifesta, kkkk.

Angela Maria Bordini Nogueira Exibem tb outras análises boas em inglês. O que me incomoda um pouco é que pessoas que mal conhecem música clássica partem para avaliações no estilo : “ė brega, ė chata,” somente porque Carmina Burana é bem conhecida.

Claudia Antonini É o Olimpo do preconceito minha cara! Convivi muito com isso, sei bem do que falo.

Angela Maria Bordini Nogueira Claudia, não vou discutir Olimpo. Não sei analisar melodia.

Angela Maria Bordini Nogueira Tenho de sair agora .

Claudia Antonini Quedate tranquila, é só uma velha constatação.

Carlos Sell Claudia Antonini, colocaste em palavras aquilo que penso!

Gary Dranch Carmina Burana has to be seen in context of the self-conscious, neo-classicism medievalism “awakening” work full of theatrical pageantry. Scholars love the bawdy texts and illusions to Goliards, and choreographers go wild with antiphonal orgiastic and repetitive chanting as inspiration to wild Bacchanales. So, I would urge you to take a more wholistic look at this 20th century masterpiece. I agree, from the music “pit”, having performed it at least 4 times, it would seem that the sum of the parts is greater than the whole!

Claudia Antonini Exactly!

Fabio Zanon I agree there is nothing quite like it, whence the fascination it can exercise. I still keep the Jochum recording I got when I was 15, but frankly the perspective of hearing it again could only be contemplated if I were payed for it. If I am after orgiastic music, nowadays I’d go to Turangalila or something of the kind.

Augusto Maurer Na atual conjuntura cultural, minimalista, tenho saudade de terminar o ano sinfônico solenemente, em alto estilo, com uma oitava de Mahler ou, vá lá, nona de Beethoven. Não devo, no entanto, reclamar, pois sempre pode ficar pior do que está. Ou, pelo menos, assim dizem os mais cautelosos.

Fabio Zanon Da próxima vez que decidirem fazer um show com música de Tom Jobim lembre que poderia ser Orff de novo…

Augusto Maurer Quem dera tocar Jobim mais amiúde !

Fabio Zanon Exatamente.

Gary Dranch Or as the French say, “Vive la différence!”Norberto Flach Ah, lembrei que uma vez ouvi uma versão com a Gundula Janowitz e o Fischer-Dieskau. Com esse time, qualquer obra sobe no ranking.

Fabio Zanon É a gravação do Jochum. A Janowitz já não tinha mais agudos pra cantar Dulcissima, soa bem estrangulado para os meus ouvidos.

Norberto Flach Fabio Zanon, é a cruel mazela endocrinológica de que padecem as sopranos. Mas àquela que cantou as Vier letzte Lieder daquele jeito, tudo se perdoa e condescende.

Fabio Zanon Isso é bem verdade.

Gary Dranch Try to imagine Fischer-Dieskau singing Jobim?

Norberto Flach For his voice and way of singing, maybe Inútil Paisagem (Useless Landscape).

* * *

Os próximos comentários foram postados sob a primeira divulgação que fiz no facebook da diatribe contra Carmina Burana que publiquei neste blog.

Augusto Maurer Obrigado por contribuírem com a apaixonada discussão, Magda Sarmento, Sidney Lima, Milton Ribeiro, Fabio Zanon, André Luiz López Cardozo, Ricardo Branco, Adroaldo Bauer Corrêa, Osvaldo Colarusso, Gabriela Vilanova, Martin Muehle, Angelo Metz, Charlles Adriano Campos, Carlos Sell, Paulo Paranhos Jr., Damián Keller, Wilfried Berk, Norberto Flach, Omar Gianlupi, Rodrigo Nassif, Júlio César Apollo, Angela Maria Bordini Nogueira, Maria de Abreu, Herta Elbern, Ricardo Melo, Harold Emert, Cristina Maria Capparelli Gerling, Nelson Fiedler, Claudia Antonini e Gary Dranch !

Andy Serrano fiz o primeiro comentário 🙂
fala pro Milton aprovar lá… kkkkkkk

Augusto Maurer Obrigado por deixar teu comentário lá. Feliz aniversário atrasado !

Milton Ribeiro É o Augusto que aprova.

Augusto Maurer (não sendo fake, sempre aprovo)

Wilfried Berk Irrelevante? Discordo ! Suas óperas die Kluge e der Mond são únicas. Contudo, a sua maior contribuição se situa na área da pedagogia musical, com o Método Orff de ensino musical, baseado na percussão e no canto. Orff criou um centro de educação musical para crianças e leigos em 1925, no qual trabalhou até a data do seu falecimento. Zelação !

Augusto Maurer Ah, a educação musical, este interregno onde tudo prospera… Mas não conheço o trabalho pedagógico de Orff suficientemente bem para criticá-lo. De qualquer modo, pelo sim ou pelo não, jamais confiaria qualquer parte da educação de um filho a alguém com uma biografia como a sua – ainda que não autorizada. Obrigado por enriquecer a discussão, Wilfried !

Wilfried Berk Se informa melhor, antes de malhar o cara …

Fabio Zanon Educador musical é uma coisa, compositor é outra, e o indivíduo Carl Orff outra ainda. Villa-Lobos é um dos maiores compositores de música para criancas na história e não teve filhos. Qual o problema? O método Orff obviamente tem seu mérito. Entretanto Orff não dava muita atenção para sua própria filha. Mas o que isso tem a ver com Carmina Burana? Eu queria saber por que tanta gente se sente tão ofendida quando alguém levanta um argumento para se criticar uma obra de arte. Eu não concordo com o argumento do Augusto; não acredito na linearidade do desenvolvimento musical, pois por este argumento cada obra só poderia ser validada caso fosse igualmente ou mais complexa que todas as outras já compostas. Mas é um argumento para se justificar sua aversão por uma música que nos dá vários motivos para ter aversão, ao mesmo tempo que dá vários motivos para um vasto público se empolgar. A propósito, eu vi Der Mond and vivo e achei uma experiência ainda mais tediosa que Carmina Burana.

Augusto Maurer Belo argumento, Fabio Zanon ! Fico apenas curioso para entender o seguinte: se não for pelo retrocesso no desenvolvimento musical, o que torna a audição de Carmina Burana tão entediante para alguns ?

Augusto Maurer (nunca consegui ouvir música da mesma forma depois de descobrir os primeiros movimentos da Eroica e da Espansiva. Ou qualquer primeiro movimento de Brahms. Aquele ímpeto modulatório vertiginoso, difícil de se encontrar em outras obras, e seu sofisticado uso da incerteza tonal como gerador de forma fizeram com que eu as ouvisse repetidamente, cada qual a seu tempo, a ponto de não restar espaço algum para que eu ouvisse outras coisas. Por muito tempo, não reconheci nada como tão estimulante. Questão de gosto ?)

Norberto Flach Augusto Maurer, as tuas preferências podem ter até razões biológico-evolutivas. Quem sabe? Aquela coisa de gostar de uns sons e não gostar de outros pode ser o que diferencia os entes mais evoluídos dos mais primitivos. Já eu estou entre os indecisos, que ainda não decidiram se gostam tanto assim de Webern, e se constrangem um pouco de gostar de U2.

Augusto Maurer Não conheço U2 e, talvez por ignorância, não gosto da música da segunda escola de Viena (embora reconheça sua importância “filosófica”). Quanto a ouvidos mais “primitivos ou evoluídos”, all I have to say, my dear Norberto Flach, is “bullshit”. Obrigado por participar desta lambança !

Fabio Zanon Augusto Maurer, acho que é entediante por já termos ouvido processos semelhantes utilizados de maneira muito mais rica em outros contextos. Ouvintes que têm um repertório menor se impressionam pela novidade, pela massa sonora, inegavelmente empolgante, da Carmina. Quando tinha 15 anos me empolguei, comprei o disco, vi uma vez ao vivo, mas não dá pra escutar várias vezes, porque a música não tem nada para oferecer numa segunda ou terceira audição, a menos que o ouvinte esteja interessado em reproduzir o efeito de transe irracional a que a obra induz, que é muito similar ao de um show de heavy metal. Para nós, especialmente para você, que já ouviu de tudo tocando na orquestra, essa novidade passa rapidamente. O que sobra é somente essa impressão de que tem alguém repetindo a mesma coisa 20 vezes e gritando cada vez mais alto. E isso é feito de uma maneira completamente calculada. Orff não é um compositor incapaz, que escreve assim porque não saberia escrever de outro jeito. Talvez ele conseguisse escrever uma sinfonia acadêmica sem muito problema, ou boas canções populares; certamente conhecia o métier de orquestrador, a peça é organizada de um jeito eficiente. Com um olho na aprovação por parte de um ambiente belicista e confrontacional da Alemanha prestes a invadir seus vizinhos, ele decidiu criar um efeito catártico com uma espécie de ritual medieval semi-pagão kitsch, que envolve o ouvinte pela repetição e pela pela amplidão do espaço sonoro. concordo com uma outra pessoa que disse que não existe nada parecido. Realmente não existe, não tem como fazer Carmina nº 2. Orff tentou e ficou uma paródia de si mesmo, Catulli Carmina.

Andy Serrano “que envolve o ouvinte pela repetição”. Curti. Foi exatamente esta minha tese ao comentar o post lá no blog. Dentro de minha visão empírica sobre o assunto, obviamente.

Augusto Maurer Que aula, Fabio Zanon ! Nunca li nada, ao mesmo tempo, tão verdadeiro e sucinto sobre Orff e Carmina Burana. Obrigado por aceitar a provocação !

Régis Antônio Coimbra Prefiro Brahms ou, dito de outro modo, não me imagino procurando Carmina Burana para ouvir – embora já tenha cantado (fazia parte do Coral da UFRGS que deu uma reforçada no Coro da OSPA… gostei mais do Ein Deutesches Requiem, do Brahms, que cantei no mesmo tipo de situação… regido pelo Kurt Redel). No entanto, Carmina Burana tem seu lugar…

A repetição literal pode ser entendida como uma citação às formas medievais. Pronto. E podia ser preguiça – como no caso de Rossini que, não por isso, deixo de amar de tanto ver, na infância, em desenhos do Pica-Pau (Endy Panda e outros personagens do Walter Lantz).

Robson Pereira “I know, it’s only rock and roll/ But I like it”

Augusto Maurer Também gosto de rock, mas não consigo levar Carmina Burana a sério. Muito menos como rock. A única coisa da qual gosto na obra é como ela divide opiniões. Obrigado por se manifestar ! Adorei teu texto sobre a tentação e o perigo das explicações mais simples ! http://www.sul21.com.br/…/a-magia-das-falas…/

Milton Ribeiro Parece rock sinfônico mesmo!

Augusto Maurer Ah, o crossover… Mas deixemos, por hora, de lado esta estranha paixão de alguns.

Fabio Zanon Taí, Orff está num patamar parecido ao de Rick Wakeman. Tomem isso como elogio.

Fabio Zanon Não colocaria jamais Bolero de Ravel no mesmo saco. Aquilo está num patamar de qualidade composicional completamente diferente, é um estudo de orquestração da maior perfeição. Não se julga o Bolero sem levar em conta Ravel como um todo.

Milton Ribeiro Concordo. Como leigo, ouço o Bolero como um admirável ensaio timbrístico. Na minha opinião, não há nada de primarismo ali.

Augusto Maurer Verdade. Exagerei no caso do Bolero. Obrigado por me chamarem à razão !

Norberto Flach E A Valsa? Sinto-me pronto a começar uma guerra mundial toda vez que ouço.

Milton Ribeiro Adoro La Valse….

Augusto Maurer … moi aussi !

Augusto Maurer (estranho o silêncio dos admiradores de Pollock, Rothko, Basquiat and the like…)

Fabio Zanon Sou um deles. Assim como sou de, digamos, Radulescu. Mas não existe Pollock nº 2, uma vez feito, acaba em si.

Osvaldo Colarusso Apesar de não ser um fã de Carmina Burana creio que deve haver alguma qualidade intrínseca que ainda não percebi. Mas que deve existir eu acredito que sim. Uma obra que chamou a atenção de músicos que respeito demais como James Levine, Seiji Ozawa, Herbert Kegel e Eugen Jochun deve ter sim alguma qualidade. Agora compará-la com Bolero é injusto. Bolero de Ravel é uma obra prima. Não é difícil encontrar suas inúmeras qualidades. Uma obra muito popular não tem obrigação de ser ruim.

Augusto Maurer Verdade, Osvaldo Colarusso: muitas vezes, o gosto popular está certo !

Wilfried Berk Falem mal, mas falem de Carl Orff …

Osvaldo Colarusso Karl Orff não conheço. Só conheço Carl Orff….

Wilfried Berk

Wilfried Berk Carmina Burana na wikipedia

Zeca Azevedo Texto EXCELENTE como sempre, Augusto Maurer, uma verdadeira aula. No meu caso, antes de julgar e condenar a obra mais famosa de Orff por suas limitações formais em comparação a outras peças musicais (acho que não seria capaz de realizar tal tarefa), eu rejeitei a obra pelo efeito que ela provoca ou quer provocar nos ouvintes. ”Carmina Burana”, por sua ”grandiosidade” fabricada, transforma (ou quer transformar) grupos de indivíduos em massas humanas indistintas que respondem de maneira uniforme a estímulos sonoros (como fazem os hinos). É música que não pede engajamento individual, mas sim engajamento coletivo da forma mais nociva. Não há espaço para sutileza ou para fraturas existenciais no triunfalismo de Orff, que apela para o pior tipo de humanismo, aquele que se ufana, que se orgulha de si mesmo de forma irrefletida (Sartre fala sobre esse tipo de humanismo em ”O Existencialismo é um Humanismo”). É o tipo de sentimento incentivado e manipulado pelos nazistas, a ideia de que o indivíduo tem que abandonar suas idiossincrasias em nome de ”algo maior”. Até onde posso perceber, Carmina Burana é o nazismo em forma de música.

Fernando Rauber Gonçalves Vou escrever uma resposta depois com calma, mas acho que tua crítica parte de uma premissa inadequada: você julga um suposto mérito de uma composição a partir das ideias do organicismo musical germânico em uma obra que não faz parte dessa tradição. Portanto, seu texto é bullshit, teu ponto deveria ser a comparação com outras obras (neo)modais.

Augusto Maurer Concordo, Fernando Rauber Gonçalves: todo referencial comparativo é altamente ideológico, i.e., podemos enaltecer ou depreciar tremendamente qualquer coisa, dependendo daquilo com a qual a comparamos (esta é, afinal, a verdadeira razão de ser de qualquer estética comparada !). Por isto, pergunto: com o que devemos comparar Carmina Burana para fazermos justiça à obra e seu autor ?

Fernando Rauber Gonçalves Na minha opinião, a tradição germânica é guiada pela ideia do organicismo, com essa ênfase no jogo motívico e numa concepção bastante intelectualizada e elaborada. Em contraposição, temos uma tradição latina (a música francesa, italiana, portuguesa, espanhola) que dá mais ênfase ao ritmo e a melodia e entendo esses dois espectros como tradeoffs da complexidade musical, duas vertentes distintas da tradição europeia.

Fernando Rauber Gonçalves Por exemplo, qual teu posicionamento sobre a obra de Satie?

Augusto Maurer Satie foi, como Cage ou, digamos, o sujeito do Ballet Mechanique (Antheil), não mais do que um provocador. Uma influência a ser considerada mais do que o autor de uma obra relevante. Forçou os limites dos conceitos, mas não produziu nada para a posteridade equiparável aos legados de um Debussy, um Stravinsky ou, ainda, da segunda escola de Viena ou mesmo do círculo de Darmstadt.

Augusto Maurer Como Miles: um inovador, certamente, mas jamais dono de um legado como os de Evans ou Monk.

Augusto Maurer É como comparar, por exemplo, Duchamp com Dali – respectivamente, um anão e um gigante.

Fernando Rauber Gonçalves E Liszt? E sobre a ópera italiana? Estou lhe provocando com exemplos que fogem da tradição germânica 🙂

Augusto Maurer … fora de minha área de competência. Tenho, particularmente, pouca paciência com Liszt e a ópera italiana …

Fernando Rauber Gonçalves Enfim, é esse o ponto que quero escrever na minha resposta, sobre a questão dos parâmetros comparativos e sobre a multiplicidade de concepções no julgamento estético/composicional. Óbvio que Orff não é um compositor inovador ou essencial, e que Carmina é uma obra desigual, porém tem momentos suficientes de acerto que justificam sua popularidade.

Augusto Maurer … “momentos de acerto” me soam obscenamente parecidos com as “músicas de trabalho” destacadas num “álbum”, dentre todas aquelas outras faixas fadadas ao esquecimento. Acho que o Ricardo Branco já se referiu a isto ao afirmar que, depois da empolgação inicial com “Fortuna Imparatrix Mundi”, todo o resto de Carmina Burana não passa de uma colossal chatice.

Augusto Maurer … o que me remete diretamente ao lúcido comentário de Osvaldo Colarusso: será que Levine, Osawa, Kegel, Jochun e outros efetivamente optaram por gravar a cantata de Orff, ou assim foram persuadidos por seus produtores por razões mercadológicas ? Who knows ? Jamais saberemos. Por isso mesmo, o fascínio das especulações a respeito. Posso até imaginar um diálogo, de um drama metalinguístico, entre um desses maestros, ávidos por perpetuar mais uma versão de Beethoven, Brahms ou Mahler, e seu produtor, convencido da alta conveniência de se lançar, antes, mais uma versão de Carmina Burana…

Fernando Rauber Gonçalves Interessante que tu tragas a chatice, vou buscar trabalhar esse conceito na minha resposta, sob a perspectiva do ouvinte leigo e do músico treinado.

Júlio César Sosnoski Segundo o jornalista Norman Lebrecht, que teve amplo acesso ao mercado da gravação por meio de pessoas que trabalharam no mercado, e mesmo através dos próprios produtores. Era bem difícil persuadir regentes já de carreiras sólidas a gravar qualquer coisa com as quais não concordassem…

Fernando Rauber Gonçalves Do ponto de vista analítico, também existem outros referências mais pertinentes para a obra de Orff também, creio que a partir das análises estruturalistas da semiologia musical pode inclusive descobrir porque certos jogos motívico aparentemente simplórios de Orff “grudam” tão bem no ouvido.

Darian Weber Pergunto onde está convencionado que para reger essa obra, o maestro tenha que estar em um altar, tão alto que quase não dá pra ver a orquestra?

Augusto Maurer Isto não tem a ver com a obra, Darian Weber, mas com a mitologia do maestro. Outros fatores, outra discussão. Bem oportuna, sem dúvida ! Mais tarde, talvez.

Augusto Maurer … e, antes que eu me esqueça, bem-vindos a esta ilustrada conversa, Osvaldo Colarusso, Zeca Azevedo, Fernando Rauber Gonçalves e Darian Weber. Me sinto mui honrado com seus comentários !

Darian Weber Orff com esta obra e como disse o nobre amigo Fernando Rauber…teria sido um Michel Teló por ter composto uma peça tão ” grudenta”?

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Por que não ouço música em rádio

radio-3Como meio de se ouvir música, estações de rádio deixam muito a desejar. Já me debrucei sobre a atual falta de critério, senão em todas, pelo menos em parte das estações públicas aqui. Neste texto, busco um olhar mais dedicado ao problema do rádio comercial que, a julgar pela comparação entre uma memória resgatada de minha juventude, uns 50 anos atrás, e experiências mais recentes, permanece rigorosamente o mesmo – pois, ao que tudo indica, a execução desta ou daquela música nas principais estações do dial ainda é em grande parte determinada pelo jabá.

Para quem não sabe, jabá (abreviatura de jabaculê) é a propina paga pelas gravadoras a radialistas para que toquem insistentemente certas músicas em detrimento de outras.

Por volta de meus 14 anos, ganhei de meus pais num natal meu primeiro gravador portátil. Entusiasmado com a posse da nova ferramenta de descoberta, nos dias que se seguiram repeti obsessivamente um procedimento que consistia em gravar, de uma célebre estação de rádio (“na Caiçara, a música não para”), todas as músicas das quais gostasse. Se determinada música não me interessava, interrompia imediatamente a gravação, rebobinando a fita até o final da última música gravada para, em seguida, começar a gravar a próxima que me interessasse.

Assim procedendo, bastaram 3 dias para que (ó desilusão !) eu descobrisse o inevitável, a saber, que havia, então, não mais do que duas sequências de músicas (hoje chamadas playlists) – uma delas repetida exatamente a cada segunda, quarta e sexta-feira, e a outra nas terças e sextas. A partir daquele momento, decidi não mais utilizar o rádio para escutar música.

Para qualquer melômano, não ouvir rádio requer, além de uma discoteca de um certo calibre, algum planejamento. De sorte que, no carro, onde não consigo ter muitos discos, comecei a ouvir, incidentalmente, uma rádio que transmite exclusivamente colunas e notícias. Com o tempo, até acabei desenvolvendo uma forte aversão a todo e qualquer jingle, desligando o rádio sempre que os ouço – chegando, assim, empiricamente, a um limite do suportável em se tratando de bombardeio publicitário, que pode ser formulado mais ou menos assim: ainda que seja moralmente aceitável ouvir alguém apregoando verbalmente as vantagens deste ou daquele produto ou serviço (como nos reclames da Rádio Guaíba), é absolutamente ultrajante (além de irritante) ouvir peças musicais criadas exclusivamente para vender qualquer coisa.

Como nada é perfeito, quase todo programa veiculado por mídias comerciais possui uma linha editorial indisfarçavelmente partisana. Felizmente, com o tempo aprendemos a estabelecer filtros. Por exemplo. Antes mesmo de Diego Casagrande abrir a boca, já sabemos que pela frente vem um discurso anti-petista. Chega a ser monótono – até quando ele, eventualmente, tem razão. Como ouvinte, nunca entendi por que conglomerados de mídia insistem em repartir programas entre apresentadores ideologicamente idênticos; invariavelmente um figurão, mais experiente e consagrado, a proferir asneiras e um baba-ovo cuja única função parece ser a de reforçar o que é dito por seu mentor. Nesses verdadeiros chás de comadres, onde fica o contraste ? Por isto, jamais levo totalmente a sério qualquer coisa que dizem, relegando tal discurso, antes, aos domínios do humor e do entretenimento. Enquanto isto, sigo à espera de bons programas animados por um mínimo de antagonismo entre seus apresentadores.

Mas não vim aqui para falar disto. Retomo, então, depois desta breve incursão por uma senda lateral, ao propósito original de tratar do problema da música no rádio comercial. Tendo, assim, permanecido por ca. 50 anos voluntariamente virgem em relação a toda música tocada em estações de rádio, fui recentemente confrontado com a mesma ao começar a frequentar, por razões de saúde, uma academia de ginástica.

Passado o espanto de perceber que, aparentemente, ninguém consegue se exercitar em silêncio, me vi forçado a observar o que ouvia durante a nova e monótona rotina. Quase tudo o que ouvia era (felizmente !) novo para mim. Não demorou muito, todavia, para que eu percebesse que, por mais variados que fossem os horários em que eu frequentasse a academia, certas músicas me perseguiam. Fosse manhã, tarde ou noite, estavam sempre lá. Mais: algumas eram repetidas exatamente na mesma sequência, independentemente de horário. Ora, tenho que o universo amostral das músicas tocáveis em qualquer estação de rádio, por mais segmentada que seja, é enormemente variado. Então, se algumas delas se repetem insistentemente ao longo de um mesmo dia, deve haver algo maior em ação. Foi quando me convenci da permanência, até os dias de hoje, do velho e bom jabá. As únicas exceções a sua hegemonia parecem ser os pedidos de ouvintes, atendidos por razões óbvias (os broadcasting media, em seus derradeiros momentos, tentam desesperadamente parecer interativos).

Curioso pela identidade dessas músicas mais bombadas, perguntei no facebook a que locui pertenciam alguns refrões e fragmentos melódicos. Coisas como “quem é que só de rebolar te enlouqueceu / a danada sou eu” e “uéuéuéuéué” (sic !). As respostas não tardaram e, assim, fiquei sabendo que uma rádio repetia, várias vezes ao dia e sempre uma imediatamente após a outra, Sou Eu, de Ludmilla e Work, de Rihana. Lixo que dificilmente alguém ouviria (assim prefiro pensar, em razão de ainda ter alguma esperança na humanidade) não fosse a colossal promoção a que são submetidas, da qual o jabá é, sem dúvida, apenas uma parte. Então, pergunto (e não é só retórica !): face a tamanho determinismo, por que raios estações de rádio ainda contratam programadores – já que seria igualmente eficaz e muito mais econômico permitir aos que pagam o jabá atuarem diretamente em suas grades de programação ?

Mas o problema não termina aí. Dias atrás, antes de ir à academia, constatei que minha timeline havia sido invadida por uma infinidade de postagens alusivas à morte, naquele dia, de Leonard Cohen. Consoante a isto, esperava que um programa auto-definido como “a memória do rádio” (o que significa, na prática, que não toca nada produzido neste milênio) dedicasse o horário, senão exclusivamente ao menos em parte, à obra do grande Cohen. Mas não. Naquele dia, ouvi Legião Urbana, Titãs, Phil Collins, Credence Clearwater Revival, Supertramp, Madonna e uns tais Smiths e Pixels, mas nada de Cohen. Pensei com meus botões: impossível que o apresentador não navegasse na web entre uma música e outra e, face ao ocorrido, “parasse as prensas” para improvisar um programa dedicado ao mito recém falecido. Do episódio, aprendi muito sobre a suposta agilidade do rádio.

Quanto mais ouço rádio na academia, mais me convenço de que não perdi nada por meu exílio voluntário nestes anos todos. Considero a experiência (de ouvir rádio), muito mais do que de entretenimento, como uma de aprendizagem. Pois foi graças ao rádio da academia que descobri que uma canção dos Pixels é introduzida por um solo de guitarra (havaiana, retrô, a la Beach Boys, como na maior parte da “música” produzida naquelas décadas perdidas) descaradamente copiado do que inicialmente pensei se tratar do que se ouve no começo de Sugar Sugar, dos Archies (até poderia, já que as partes de uma canção pop costumam ser intercambiáveis) – mas que depois verifiquei se tratar dos compassos iniciais de La Bamba. Do episódio, aprendi o que esperar – ou melhor, o que não esperar – do pop em geral e da tão incensada música dos anos 80 e 90.

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Da diferença essencial entre (i) blogs e redes sociais e (ii) orquestras e universidades públicas; on conducting (xii)

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Isto não é um instrumento musical !

Sou um blogueiro procrastinador. O motivo é bem simples. Blogs são o derradeiro reduto do direito de expressão de seus donos quando outros espaços não se interessam por seus discursos, pouco importando quantas pessoas leiam as postagens neles publicadas. Só que, pela própria natureza do funcionamento de cada tipo de plataforma, redes sociais são imensamente mais interativas do que blogs. Basta ver a proporção existente entre postagens e comentários em cada ambiente. Enquanto blogs são mais afeitos a longos discursos monológicos e geram relativamente poucos comentários, em redes sociais postagens lacônicas podem desencadear, dependendo da temática (i.e., se for mais ou menos polêmica ou ultrajante), enormes sucessões de reações que podem se estender, em muitos casos, por vários dias após a postagem original.

Talvez por isto eu me sinta muito mais compelido a compartilhar inquietações na algaravia do facebook do que no conforto do discurso mais controlado em meu blog. Pois a conversa em si me interessa muito mais do que meus pensamentos depurados em palavras bem acabadas.

Por outro lado, o discurso dos blogs é muito mais permanente do que aquele das redes sociais. Pois é nitidamente mais fácil recuperar ideias lançadas no passado em um blog do que em timelines do facebook. Por isto, gosto de pensar no blog como uma espécie de back up do facebook, para onde exporto, a fim de conferir maior permanência, ideias mais relevantes recortadas de plataformas mais efêmeras.

Foi assim que decidi copiar aqui as palavras extremamente lúcidas proferidas por Graziela Bortz, entre outros comentários interessantes, acerca de um ótimo artigo do  crítico Ali Hassan Ayache (que eu ainda não conhecia !) a propósito da necessidade e supostos benefícios de alguém como Marin Alsop à frente da OSESP. Sob o mesmo, Graziela expressou, de modo ao mesmo tempo conciso e abrangente, tudo o que sempre achei sobre os modos de gestão diametralmente opostos de orquestras e universidades públicas. Sem mais delongas, eis o que ela disse:

[…] orquestra é um monumento artístico como muitos outros, um veículo de expressão artística como muitos outros, que deve, sim, ser mantida como patrimônio cultural importantíssimo. A estrutura precisa, e em alguns lugares isso tem acontecido, ser modernizada. Eu toquei em orquestra, o Augusto ainda toca (tocamos juntos no passado) e ambos dividimos também, como você, Damián, a experiência muito diferente que é a de trabalhar em universidade. Nesta última, a despeito de todos os problemas que enfrentamos, creio que possamos concordar nisso, temos imensamente mais autonomia. Por que? O Augusto disse a palavra-chave: conselhos. Nós somos representados nos órgãos colegiados. Por mais imperfeito que seja esse modelo de democracia, ainda é uma democracia. A orquestra está anos-luz disso. O maestro continua se cercando de puxa-sacos que muitas vezes até são músicos bons, muitas vezes não, e maltratando aqueles sem grandes habilidades na arte do cinismo. É um jogo horroroso de egos que nada tem a ver com técnica ou conhecimento musical, que favorece o crescimento do ego e mata o desenvolvimento da alma, da arte e do espírito de colaboração. Não é preciso ser assim, nós sabemos; vivenciamos outra maneira de gerir o trabalho no cotidiano. Acontece que maestros normalmente são escolhidos e nomeados por políticos, ainda que indiretamente (por um conselho que tem tudo menos músicos da própria orquestra). Lembre-se que, no passado, foram os professores universitários que escolheram esse tipo de gestão, a tal da autonomia universitária. É por isso que temos brigado tanto por mantê-la. Faz toda a diferença em nossas vidas e na de toda a comunidade universitária.

Um pouco adiante na mesma conversa, Graziela exemplificou brilhantemente com as consequências nefastas da concentração de poder em mãos de políticos numa orquestra prá lá de conhecida como a OSESP. Vale muito a pena a leitura.

[…] nesse caso, são oportunidades das quais os políticos fazem uso por deterem o poder de escolha nas mãos, a escolha de nomear os conselheiros (quando tem conselho!), de nomear o líder artístico (sic), os cargos administrativos, e por aí vai. A associação de músicos da Osesp que ousou questionar os contratos de gravações no passado foi 100% demitida na época em que o Neschling era o diretor artístico! E o conselho fez alguma coisa? Claro que não, foi nomeado por ele em comum acordo com os políticos. Isso não acontece na universidade, por razões diversas: nossos contratos são de funcionários públicos e, portanto, estáveis, e nós, professores, somos os conselhos (de membros eleitos pela comunidade). Diferença básica, modelo de autonomia. Tem seus problemas, como mencionei antes, mas não esse, de abuso de autoridade. O perigo é misturar isso com a arte em si. E é disso que estamos falando, e creio que concordamos, que é preciso modernizar o modelo de gestão. O que creio que torna difícil a mudança é que alguns músicos preferem se beneficiar da aproximação do poder, enquanto a maioria (silenciosa, covarde – covardia esta muitas vezes compreensível, pelo medo de perder o emprego) se ferra pelas decisões aleatórias que vêm de cima.

Se tirei meu blog da hibernação para repercutir estas palavras, foi tão somente por pensar que a discussão é altamente pertinente. Mesmo que instituições como orquestras estejam, como as políticas, entre as mais inerciais – i.e, são altamente resistentes a mudanças – e, portanto, como costuma dizer um grande amigo, só devem evoluir depois de alguns séculos (se ainda existirem). Exagero ou não, nada deve mudar antes de minha aposentadoria. Atestando, portanto, neste caso, a total falta de interesses pessoais em minha defesa do que aqui foi ventilado.

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Existe esta naturalização das ideias de que, enquanto em universidades professores são eleitos como líderes por seus pares (i.e., de baixo para cima), em orquestras diretores artísticos (leia-se maestros) são indicados por políticos (de cima para baixo) à revelia de seus quadros estáveis. Ora, tal se deve exclusivamente ao fato de que, para a grande maioria (dos políticos, inclusive), regentes não são percebidos como músicos temporariamente investidos de uma atribuição especial (a regência), mas como pertencentes a uma categoria autônoma e hermética. Uma outra casta, se quiserem, diferente da dos músicos. Deste modo, qualquer evolução da orquestra em direção a um modelo mais democrático passa, obrigatoriamente, pela derrubada deste mito.

Uma analogia bem útil: a carreira de regente orquestral, como a do político, não deveria existir. Isto quer dizer que, num “mundo perfeito”, do mesmo modo que governantes e legisladores deveriam ser não mais do que cargos honoríficos temporariamente ocupados por cidadãos comuns que não abdicassem de suas ocupações originais (sem aposentadorias especiais), também o pódio orquestral deveria ser ocupado, em regime de revezamento, por músicos talentosos que não abdicassem de sua responsabilidade de execução de um instrumento. Tão simples e tão distante do que temos hoje. Ou, como diz meu amigo, é algo para daqui a uns 300 anos.

Caixinhas (i) ou para ouvir Bill Evans (ii)

jazz audience 26Caixinhas é como chamamos aquelas embalagens contendo vários CDs abarcando ciclos composicionais maiores do que a música que cabe em apenas um disco. Em música clássica (na ausência de um termo melhor, prefiro clássico a erudito simplesmente por ter 25% menos sílabas), caixinhas contém geralmente ciclos integrais de sinfonias, quartetos, trios, sonatas e afins de um mesmo compositor, capturados em gravações realizadas ao longo de largos períodos de tempo.

Em música popular, não vi muitas caixinhas a não ser de jazzistas importantes, contendo na maioria das vezes vários takes alternativos de cada música, na maioria versões descartadas à época dos lançamentos originais em LPs e, depois, CDs. Caixinhas de discos de jazz contém, então, sempre versões improvisadas diferentes de umas poucas músicas gravadas durante curtos períodos de tempo. Mais. Grandes jazzistas retornam, em diferentes momentos de suas carreiras, a uns mesmos poucos temas. Há muito mais o que falar sobre isto. Mais tarde, talvez.

Caixinhas decorrem de certo modo da não existência, na indústria fonográfica, de objetos de diferentes valores distribuídos através de um mesmo meio. Explico. A indústria automotiva oferece carros dos mais diversos valores. O mesmo sucede no setor imobiliário. No fonográfico, no entanto, há pouca ou nenhuma diferença entre os valores de comercialização de discos de variadíssimo valor artístico. É, pois, tão somente por meio do agrupamento em coleções de CDs com várias horas de música que esta indústria que luta contra sua própria extinção logra oferecer objetos mais caros a  fãs e colecionadores ávidos.

Também não esperem topar com muitas caixinhas que não sejam de obras terminadas. Pois Investidores apostam mais em coisas de artistas mortos. Sejam sinfonias de Beethoven ou canções da Legião Urbana. Do mesmo modo, coleções monumentais como, por exemplo, dos Beatles devem ser bem mais populares do que dos Rolling Stones e outros que ainda estejam na estrada. Mas é só uma suposição. Não conheço este mercado.

* * *

Foi tomado por esta atração irresistível que todo fã sente por bocados colecionáveis da obra de uns poucos ídolos que topei dia desses, ao mesmo tempo (!) com duas coleções de improvisadores pelos quais nutro especial apreço, a saber, a integral dos sets gravados em um dia pelo trio de Bill Evans com Scott LaFaro no Village Vanguard em 1961 (3 CDs) e todas as 49 faixas deixadas por Clifford Brown com o quinteto de Max Roach (4 CDs).

Acabo de ouvir na íntegra os sets gravados pelo trio de Evans no Vanguard em 25 de junho de 1961, apenas dez dias antes da trágica morte de LaFaro com apenas 25 anos num acidente automobilístico.

Clifford Brown também morreu num acidente automobilístico com 25 anos.

Designers de caixinhas de CDs costumam caprichar no visual. Pois deve ser, por vezes, bem difícil persuadir audiófilos a replicar em CDs itens já existentes em suas coleções de LPs. Nesta hora, embalagens luxuosas, incluindo amplas referências, rico material gráfico e até latas personalizadas, fazem toda a diferença.

Já conhecia de longa data os highlights, editados num único CD, dos sets do trio de Evans no Vanguard em 61. Uma das tantas vantagens de se descobrir, décadas depois, em raras e quase inaudíveis (pois os microfones estavam posicionados para captar o som dos instrumentos e não a voz dos músicos) falas de Evans, preservadas nestas integrais, uma fina ironia acerca da franca indiferença do público de então à sua música. Situação bem diferente, como já apontamos anos atrás, daquela quando do retorno de seu trio ao mesmo santuário em 1980.

Da breve e fértil colaboração de Clifford Brown falarei outra hora.

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Polissemia ao contrário ou da diferença inexistente entre orquestras sinfônicas e filarmônicas ou, ainda, entre choros e bachianas brasileiras de Villa-Lobos

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Pierre Lévy

Um dos grandes problemas enfrentados pelos cientistas comandados por Pierre Lévy rumo a seu intento de implementar uma web semântica (não sei por que essa ideia me fascina tanto) é, com certeza, o das palavras diferentes que designam uma mesma coisa, numa espécie de polissemia ao contrário ou, se preferirem, sinonimia. Mas não falo aqui de temos universalmente reconhecidos como equivalentes. Antes, me ocupo daquelas palavras que, ao designarem uma mesma coisa, sugerem coisas diferentes. Como orquestras sinfônicas e filarmônicas. Ou os Choros e as Bachianas Brasileiras de Heitor Villa-Lobos (1887-1959). O caso das orquestras é auto explicativo e, portanto, dispensa comentário.

Nas peças de Villa-Lobos, há muito mais diferença entre peças agrupadas em coleções designadas por um mesmo nome (choros ou bachianas brasileiras) do que entre os conjuntos das existentes em cada coleção. Pouco importa, então, se o compositor quisesse, ao escolher um título, sublinhar a índole popular ou o contraponto de Bach encontrados em cada obra. Até por que ambos os idiomas são formadores indissociáveis de sua técnica.

Noutras palavras, as Bachianas Brasileiras e os Choros de Villa-Lobos resistem a qualquer categorização tanto quanto à instrumentação com à duração ou forma – já que encontramos, em ambas as coleções,

desde solos (Choros #1, para violão, e #5, para piano) e duetos (Choros #2, para flauta e clarineta, e Bachianas Brasileiras # 6, para flauta e fagote) até orquestras expandidas, bandas e grandes corais;

tanto miniaturas (como o Choros #2, de apenas dois minutos e meio) como obras colossais, em vários movimentos (como o Choros #11, para piano e orquestra, que leva em torno de uma hora para ser executado);

formações instrumentais exclusivas (i.e., pouquíssimo ou nada utilizadas por outros compositores) como, por exemplo, a orquestra de violoncelos utilizada nas Bachianas Brasileiras #1 e #5.

E por aí afora. A música, em suas tantas categorizações, é território dos mais férteis para confusões decorrentes dessa espécie (até o advento de termo mais adequado) de polissemia ao contrário. Pois, convenhamos, calabouços semânticos de uso disseminado tais como concerto, sonata, balada e afins não ajudam muito.

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Heitor Villa-Lobos

A insólita história de Florence Foster Jenkins, ou A comédia e a tragédia da falta de noção

florence 1Todo melômano conhece a voz e a história de Florence Foster Jenkins (1868-1944), imortalizada como a pior cantora lírica a ganhar alguma notoriedade, na Nova Iorque da década de 1940. Filha de um rico banqueiro, foi desde cedo desencorajada nos estudos de canto pelo próprio pai mas, uma vez herdeira de sua fortuna, desfrutou de amplos recursos – e liberdade ! – para tornar pública sua absoluta falta de qualquer talento – se tornando, assim, a maior piada da história do som gravado. Pois gravou, sim, ao menos dois discos. Oferecia um recital anual, cujos ingressos vendia pessoalmente a fim de evitar os jornalistas, e cujos lucros revertiam sempre para instituições de caridade. Consta que seu seu único recital no Carnegie Hall foi nada menos do que memorável, com incontáveis celebridades na plateia, inclusive uma atriz que precisou ser removida às pressas por não conseguir conter o riso.

Sua interessantíssima biografia serviu de trama ao musical Souvenir na Broadway em 2005, o espetáculo Gloriosa com Marília Pera no Brasil em 2009 e, mais recentemente, dois filmes: Margueritte, produção franco-belga-tcheca de 2015, e Florence Foster Jenkins (Inglaterra, 2016 – no Brasil Florence: quem é esta mulher).

Embora o pianista Cosmé McMoon, que aparece no filme inglês, tenha realmente existido e acompanhado Florence desde que a conheceu até sua última apresentação, não há qualquer evidência de que a cantora tenha mantido ao longo de toda sua carreira sua suposta ingenuidade por força da proteção de um marido poderoso – que, curiosamente, em ambos os filmes mantém amantes do círculo de relações da esposa.

Intrigou-me em Margueritte por que os membros da claque eram estrangeiros. Primeiro, achei que, por serem desconhecidos dos nativos, melhor poderiam denotar verdade em comportamentos falsos (como o aplauso imerecido). Só depois vim a entender que, justamente por serem reconhecidos como forasteiros, melhor poderiam induzir nativos a duvidar de seus próprios julgamentos diante dos de estranhos supostamente mais informados.

Em ambos os filmes (bem como no verbete da wikipedia dedicado à cantora) se aventa a hipótese, de cores inegavelmente dramáticas, de que a mesma teria morrido em decorrência de uma depressão resultante de ter finalmente se dado conta da razão de sua imensa popularidade.

Vi primeiro Margueritte, reputado por muitos como bem superior a Florence. Certamente por já conhecer a bizarra voz e imensa cara de pau (ou, para dar o benefício da dúvida, total falta de noção) de Florence, fui ao cinema em busca de risadas. Vi, no entanto, uma tragédia, magistralmente anunciada. A cena final (salte um par de linhas se não quiser ler o spoiler) – do marido correndo para tentar impedir que Margueritte ouvisse, por uma primeira e derradeira vez, uma gravação de sua própria voz – é, desde já, antológica.

Tendo, até então, visto apenas o divertido trailler de Florence Foster Jenkins, me resignei com a tristeza da tragédia de Margueritte achando que as risadas viriam inevitavelmente com o filme inglês. Nova decepção. Nele, também a trágica história de alguém protegido da consciência da própria miséria que sucumbe ao impacto da perda da inocência.

florence 2* * *

Ao contrário dos dois filmes, que abraçam a ideia de uma suposta ingenuidade de Florence em relação ao próprio talento, a wikipedia duvida desta hipótese, a retratando como perfeitamente ciente de sua aguda limitação e da própria comicidade como razão única de seu sucesso. Segundo a plataforma colaborativa, FFJ tinha plena consciência de sua voz miserável, bem como do efeito hilariante produzido em ouvintes experimentados quando de sua audição, não sendo, portanto, de modo algum aceitável a hipótese de que a cantora de algum modo ignorasse ou não percebesse tais peculiaridades. Corroboram esta hipótese, supostamente, não só o fato de Florence ter ativamente mantido, por meio do estrito controle sobre a venda de ingressos, os críticos afastados de seus recitais – mas de também ter, ao menos ocasionalmente, muito provavelmente ouvido seus próprios discos.

Até o momento da postagem deste texto, não tenho nenhuma opinião formada acerca de se Florence Foster Jenkins, como sugerem os dois filmes, não tinha a menor noção de sua incompetência tragicamente cômica ou se (como parece querer fazer crer a wikipedia), ao contrário, tinha plena consciência das limitações da própria voz, deliberadamente tirando proveito de sua comicidade. Por isto, pergunto: Florence foi ou não um caso exacerbado de falta de noção ? Ouça e decida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estreia da Big Band do Instituto de Artes da UFRGS

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Foto: Eduardo Gutterres

Dias atrás, assistimos, Astrid e eu, à apresentação de estreia da big band do Instituto de Artes da UFRGS. Antes de comentar o que ouvimos na ocasião, cabe uma pequena nota de esclarecimento. Todo músico experiente sabe que a principal dificuldade enfrentada por qualquer coletivo musical é se encontrar periodicamente para ensaiar. A tal ponto de se poder afirmar com segurança que, portanto, a probabilidade de permanência de qualquer grupo é inversa e exponencialmente proporcional ao número de seus integrantes.

Muitos grupos acadêmicos contrariam esta lógica existindo por muito tempo tão somente por força da obrigatoriedade curricular de participação de alunos nos mesmos. Tal não é o caso da big band do IA – que, apesar de ostentar o nome da instituição sob a qual se abriga, não possui qualquer vinculação com os cursos de música lá oferecidos, tendo surgido de modo espontâneo exclusivamente em razão da vontade de seus membros. Então, só pelo fato de ter ensaiado e realizado com êxito uma apresentação de estreia, esses jovens músicos já mostraram claramente a que vieram, nos restando torcer para que tornem a se apresentar regularmente e com frequência. Posto isto, falemos do recital.

Confesso ter saído de casa preparado para ouvir algo meio verde, como na maior parte dos espetáculos de estreia. Como se, por este motivo, a apresentação devesse ser guarnecida por uma tarja de advertência. Minha (baixa) expectativa foi frustrada logo de início, pois a rapaziada ganhou o (numeroso !) público abrindo o concerto com Superstition, de Stevie Wonder. A partir dali, ficou claro que a noite seria de festa.

A big band do IA possui uma formação inusual, com duas guitarras elétricas encorpando a seção rítmica (constituída quase sempre apenas por um trio de piano, contrabaixo e bateria, além de percussão). Tal distinção lhe confere uma “pegada” mais sólida, bem distinta daquela ouvida em precursoras da era do swing, que é percebida pelo ouvinte casual como um som mais “moderno”. Sem falar nas portas que tal formação abre para o repertório. Senão, como imaginar hits como o tema de Hawai 5.0 ou o já mencionado Superstition com um conjunto de instrumentação mais “clássica” ?

Todo o concerto foi empolgante, transcorrendo num clima que variava do solene ao festivo, com apenas duas ressalvas. Primeiro, o arranjo de Over de Rainbow (música do filme O Mágico de OZ), escolhido (soube depois) burocraticamente, apenas para aumentar a duração do espetáculo. De uma rasura constrangedora, o mesmo destoava flagrantemente do altíssimo nível dos demais arranjos, notadamente aqueles assinados por Nikolas Gomes (baixista da banda e aluno do IA) e Julio “Chumbinho” Herrlein (professor do IA).

Depois, senti uma tremenda falta de amplificação, sobretudo dos instrumentos de sopro e do piano, os quais, sem um gás que seria facilmente suprido por uma combinação adequada de microfones, console de mixagem, amplificadores de potência e caixas acústicas, soavam, por vezes, irremediavelmente abafados pelo contrabaixo. Como soube depois, os próprios músicos da banda tinham consciência desta deficiência, decorrente da falta de recursos dos mesmos para arcar com o alto custo deste tipo tão necessário de parafernália. Espero que, no futuro, consigam atrair a atenção de algum apoiador para este fim.

O que me surpreendeu mais positivamente foi a grande coesão do grupo recém-formado. Mais do que tocarem juntos (toco numa orquestra sinfônica e, portanto, sei como isto é difícil), tinham uma perfeita noção de equilíbrio, apesar da falta de amplificação, respeitando o espaço alocado a cada momento para naipes e solistas. Mérito compartilhado, sem dúvida, pelo regente Guilherme Rodrigues (aluno do IA), sempre claro e seguro.

Por fim, não poderia deixar de mencionar o que pareceu a ouvintes mais experimentados que lá estavam uma das maiores atrações da noite: o trompetista Gabriel Ugamba (aluno do IA), praticamente um autodidata, com suas improvisações eletrizantes, nas quais não hesitava em assumir riscos – e sair muito bem deles ! Não é pouca coisa. Mais: é ótimo saber que há entre nós outros grandes improvisadores ao trompete além do Jorginho.

De resto, cabe, aqui, ecoar as palavras emocionadas proferidas antes do espetáculo pela chefe do Departamento de Música e idealizadora do curso de graduação em música popular da UFRGS Luciana Prass, a saber, ” – Vida longa à Big Band do IA ! “

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Foto: Eduardo Gutterres

on conducting (xi): tempo falado X tempo tocado: uma correlação nada espúria

Sempre insisti que a qualidade de um ensaio orquestral pode ser facilmente relacionada à proporção entre o tempo empregado pelo maestro no pódio para se dirigir à orquestra com palavras e o tempo, nesse mesmo ensaio, em que os mesmos (orquestra e maestro) estão tocando. Pois observo que melhores resultados são indiscutivelmente obtidos por aqueles regentes que tocam (regem) mais do que falam. A tal ponto de eu já ter sugerido, em tom jocoso, que todos no pódio deveriam obedecer a um “protocolo do regente amordaçado” – uma indiscutível vantagem pelo menos naqueles concertos populares em que, a certa altura, o maestro toma um microfone para se dirigir ao público, proporcionando, nestes casos, a todos os presentes inesquecíveis momentos de vergonha alheia.

É claro que esta relação não é linear. Posto que algumas palavras endereçadas aos músicos em ensaios são essenciais. Só que a assertividade de uma orquestra durante um concerto costuma ser diretamente proporcional ao tempo efetivamente passado tocando e/ou repetindo a música durante ensaios. Conquanto isto possa parecer óbvio a observadores casuais, devo dizer que não são poucos os maestros que perdem tempo demais falando à orquestra, seja por falta de foco naqueles problemas que mais dificultam uma boa performance ou, não raro, se sentirem mais confortáveis falando do que regendo (sim, isto existe !). Com efeito, muitos parecem sentir genuíno pânico de estar à frente da orquestra por todo o tempo que lhes é facultado – daí soltarem descontroladamente o verbo, na maioria das vezes com detalhes ou assuntos colaterais que pouco ou em nada contribuem para o aprimoramento da execução. Quando isto acontece, pode ser “lido” na cara dos músicos, que passam a tocar burocraticamente, à espera do final de cada ensaio. Ao contrário, bons regentes são facilmente reconhecíveis pelo ânimo dos músicos que dirige – os quais, mais do que não denotar o peso inerente à atividade, parecem recuperar, ao tocar, algo de uma alegria infantil.

Desde que, muito cedo, constatei esta correlação, a meu ver nada espúria, entre a razão entre os tempos tocado X falado e a qualidade (aproveitamento) de ensaios, penso que o meio ideal para se estabelecer, em termos numéricos, esta relação seria através da utilização, durante os mesmos, de um daqueles cronógrafos duplos utilizados em partidas de xadrez por tempo, i.e., ganhas por xeque-mate ou esgotamento do tempo do adversário. Então, não estranhem quando eu finalmente aparecer num ensaio com um desses, pressionando os botões correspondentes a cada alternância entre a fala e a regência do maestro.

relógio para xadrez 5Estimo que a análise dos dados assim obtidos será bem elucidativa, ajudando a compreender melhor uma atividade pouco discutida e, por isso mesmo, repleta de mitos.

 

On conducting (x): a formação do regente segundo Teraoka

Um dos grandes privilégios de se tocar numa orquestra como a OSPA é o de ser, ocasionalmente, regido por excelentes maestros convidados. Mais raro, nos encontrarmos em posição de ouvir suas palavras – até por que, quanto melhor o maestro, mais rege e menos fala durante ensaios.

É, pois, natural que nossa curiosidade, nessas raras ocasiões, se volte para questões essenciais que definem o arte e o ofício da regência orquestral. Coisas tais como quais são os pré-requisitos fundamentais da regência, como se dá sua transmissão ou mesmo se mulheres são ou não aptas a seu exercício.

De sorte que, num desses memoráveis encontros, ouvi do grande Kyotaka Teraoka (discípulo de Jorma Panula, reconhecido como um dos maiores didatas da regência orquestral), que, enquanto no Japão é possível se graduar em regência orquestral regendo, predominantemente, dois pianos, na célebre escola finlandesa de regência é exigida de todo aluno não só a proficiência em algum instrumento orquestral mas também a participação como instrumentista na orquestra regida pelos alunos. Como única exceção aos executantes de instrumentos orquestrais, também são admitidos em cursos de regência pianistas excelentes. Concertistas.

Concordando sobre a vantagem de uma boa leitura ao piano e  indagado sobre o nível de proficiência ao teclado necessária a um bom maestro, Teraoka disse considerar suficiente saber lidar com o grau de dificuldade de uma sonata de Beethoven.

Tais limiares de acesso se constituem, a nosso ver, numa barreira considerável à ambição de aventureiros mais atrevidos. Com esperança, paciência e, sobretudo, perseverança, chegamos lá.

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Dois livros para se entender a indústria fonográfica

Nos últimos 25 anos tenho me mantido, mais por força do hábito do que por determinação, um leitor de catálogos e manuais. Isto quer dizer que li, nas últimas décadas, muito pouca ficção, invariavelmente a pedido de amigos. Fora isto, os poucos volumes dos quais cheguei às última páginas tiveram a ver com algum interesse bem específico. Quase técnico. Como, por exemplo, a história da indústria fonográfica, desde sua expansão a partir de meados do século 20 até seu colapso frente ao avanço da internet.

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Já faz tempo que li a indispensável tese de Marcia Tosta Dias, publicada pela Boitempo em 2000, Os donos da voz; indústria fonográfica no Brasil e mundialização da cultura, abrangendo a história das gravadoras no Brail desde os tempos dos festivais e da bossa nova. Fundado sobre extensos de depoimentos primários de alguns de seus principais atores, como o executivo André Midani ou o produtor Pena Schmidt. O livro é um rico compêndio de dados sobre a indústria do disco no Brasil e no mundo. Fartos quadros de fusões e curvas de faturamento dão uma boa ideia de como este importante setor da economia (já repararam como os negócios mais lucrativos são justo aqueles ligados à beleza, ao entretenimento ou ao lazer, tidos por vezes como supérfluos ?) se comportou por mais de meio século.

André Midani
André Midani
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Pena Schmidt

Lendo Os Donos da Voz, fiquei meio incomodado com a predominância, sei lá se por hábito acadêmico ou o que, de muitas páginas dedicadas à explicitação de um referencial teórico/ideológico (Adorno, se não me falha a memória) que, conquanto importante de algum modo para a autora, é perfeitamente dispensável para o leitor em busca do que é prometido no título. Impaciente, queria chegar logo à parte que tratava da indústria da música no Brasil. Pois, ora, se quisesse ler sobre o frankfurtiano, comprava um livro sobre ele.

Também senti falta de um índice onomástico no lugar de uma bibliografia (outro vestígio inequívoco da origem acadêmica do texto), além de um certo sabor de história inacabada devido ao fato do volume não contemplar a então novíssima cena virtual e as reações da indústria frente à nova ameaça da pirataria. Não devemos, no entanto, culpar a autora por esta omissão – já que tudo aquilo era, então, ainda muito novo. Em que pesem estas arestas a serem aparadas da transposição da tese acadêmica para um relato destinado ao leitor comum, o trabalho permanece, no entanto, essencial para se entender como a economia afetou a história da música brasileira num período áureo.

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Ano passado, recomendações pelo facebook de Maria Estrella e Zeca Azevedo me levaram até Como a música ficou grátis (Intrínseca, 2015), do jornalista Stephen Witt. Como o livro de Dias, este também ostenta um subtítulo (como se editores no fundo duvidem que títulos destinados a públicos mais específicos chamem, de algum modo, a atenção de seus leitores em potencial…): O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria.

Em favor do livro de Witt (ah, maldito estigma da comparação…) está o ritmo da narrativa. Ao contrário de Dias, intercala, com a maestria de um bom roteirista, fragmentos de narrativas de vários atores, todos eles centrais na história da indústria fonográfica, mas cujas trajetórias pessoais, todavia, jamais se tocaram. Como resultado, dá um sentido (ou, como talvez prefiram alguns, provê um contexto) para fatos que, de outro modo, pareceriam desconexos.

A base de consulta de Witt é ampla: dezenas de entrevistas e milhares de páginas de documentos examinados. Os quais, no entanto, não nos são mostrados sequencialmente, tal qual armazenados em arquivos. Ao invés, o texto salta dinamicamente de uma narrativa para outra a cada capítulo, começando com a história de Karlheinz Brandenburg e seu círculo, responsáveis por desenvolverem, no Instituto Fraunhofer (Erlangen, Alemanha), o algoritmo de compactação utilizado até hoje no formato mp3.

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Karlheinz Brandenburg

A seguir, passa a narrar a história da pirataria musical, constituída principalmente por anônimos, a partir da biografia de um de seus principais atores, Dell Glover, funcionário de uma fábrica de CDs da Polygram em Kings Mountain (Carolina do Norte, EUA) que, tendo progredido por anos a fio de empacotador e gerente, conseguiu vazar mais de dois mil CDs antes de seus lançamentos até ser pego por autoridades. Peça importantíssima para grandes redes piratas como a Scene ou seu subgrupo RNS, Dell foi um dos principais informantes de Witt, revelando, entre outras coisas, não conhecer pessoalmente, a não ser por conversas telefônicas mediante pseudônimos, o “dono” da rede a quem se reportava.

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Dell Glover

A perseguição por agentes policiais e braços jurídicos das gravadoras aos compartilhadores piratas mais eficientes foi sempre desastrada. Conseguindo chegar não mais do que a usuários finais, resultou principalmente em perseguições a estudantes e donas de casa enquanto responsáveis por redes ou servidores permaneciam, via de regra, impunes. Na maioria das vezes, incógnitos. Quando logravam prender alguém, como aquele australiano doido, dono do Megaupload, em sua casamata, se tratava de uma exceção, altamente celebrada e publicizada. Como, por exemplo, no insólito caso de Alan Ellis, dono do exitosíssimo site Oink (de compartilhamento via torrent), encarcerado pelo governo britânico.

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Alan Ellis

Um dos raros piratas que efetivamente chegaram a cumpriram pena, Ellis se tornou notório por jamais ter utilizado, em benefício próprio ou para seu sustento, qualquer centavo das volumosas doações que seu site recebia, as quais mantinha – talvez por achar que, assim, melhor as protegeria contra qualquer confisco ou congelamento judicial – distribuídas em dez contas bancárias distintas.

Do lado da indústria, acompanhamos a trajetória de grandes executivos. Como Doug Morris, que esteve à frente, entre outras, da Warner, da Universal e da Sony.

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Doug Morris

Lendo o livro de Witt, sucumbimos à evidência de que o gênero que moveu a indústria nos últimos dez ou vinte anos foi, sem sombra de dúvida, o rap. Mais que a irreverência, acionistas de grandes gravadoras reconheciam em letras de muitos rappers o incitamento a sentimentos indesejáveis, como a violência ou o sexismo. Os mesmos eram, no entanto, tolerados em virtude de serem, entre todos os artistas dos elencos das gravadoras, os que mais rentabilidade apresentavam nas últimas décadas..

A certa altura, Witt dedica alguns parágrafos a esmiuçar o tipo de contrato tradicionalmente oferecido pela indústria fonográfica. Funcionava mais ou menos assim. Tendo escolhido um artista, a gravadora investia antecipadamente os elevados montantes requeridos para a produção, gravação e fabricação dos discos, descontando, depois, dos artistas, tais valores dos royalties que deveriam receber sobre as vendas. Por vezes, dados os custos extravagantes de algumas produções, músicos não recebiam praticamente nada pelas vendas de álbuns bem populares. Cabe, aqui, comparar este tipo de contrato – a saber, do acesso aos meios de produção por seus proprietários mediante o comprometimento de parte substancial da produção futura – com o tipo de acordo tacitamente outrora celebrado entre, de um lado, senhores feudais e, de outro, os servos que aravam suas terras.

Não é, pois, de se estranhar que, ao ensejo do impacto de novas tecnologias, tal tipo de contrato tenha sido abandonado. Com efeito, é bem mais provável que este tipo de contrato – muito mais do que, como muitos ainda acreditam, a pirataria – tenha “matado” a indústria fonográfica. De uns tempos prá cá, as poucas gravadoras corporativas (i.e., não indie) que sobrevivem, além de não mais investir na produção de qualquer artista (um investimento, como mostra Witt, de alto risco – já que, dos muitos nomes do elenco de qualquer gravadora, somente uns poucos podem ser considerados, efetivamente, como lucrativos), passaram, ao invés de pagar royalties por vendas de álbuns a artistas, a cobrar (sic !) dos mesmos parte de valores obtidos com a venda de ingressos para seus shows.

Temos, com isto, uma mudança radical do foco de atuação de uma indústria minguante procurando se reinventar para sobreviver. Pois quem antes vendia mídias físicas gravadas agora vende experiência presencial. Isto, aliás, ajuda a entender todos aqueles smartphones que se erguem hoje sobre as cabeças do público em muitos espetáculos.

O livro de Witt tem um epílogo desconcertante. Conta o autor que, tendo sucumbido definitivamente ao streamming, resolveu se livrar de vários HDs que guardara ao se desfazer de sucessivos computadores, alguns já ilegíveis, contendo milhares de álbuns baixados ao longo de várias décadas. Procurando uma empresa especializada neste tipo de serviço, foi conduzido pelo proprietário de uma delas até um recinto onde havia uma máquina de pregar. O sujeito, então, após se recusar a receber qualquer valor devido ao ínfimo porte do trabalho a ser realizado, efetuou com a pistola alguns disparos contra os HDs para, em seguida, os abandonar numa caixa ao lado que já continha a sucata de muitos outros.

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A tragédia da indústria fonográfica é seu fracasso sistemático em repetidas tentativas de abranger a qualidade e a diversidade. Pois a índole do capital é a devora do menor pelo maior, tendendo à existência de um número cada vez menor de conglomerados cada vez maiores, no que poderíamos chamar de um efeito espuma – na qual, com o tempo, há um número cada vez menor de bolhas maiores. Com negócios lucrativos – como foram, por muito tempo, as grandes gravadoras – não é diferente.

Alguns selos indie –  clássicos, inclusive – até perduram por algum tempo. Mas nenhum catálogo físico (como os HDs pregados de Witt) é ou será capaz de resistir ao apelo avassalador da internet e do streamming. Há coisas que, como a fotografia digital, vieram para sepultar outras. Ao menos quando competitividade comercial estiver em questão.

Como praticamente toda história, esta começou a ser contada a partir de seu final – com o qual temos, obrigatoriamente, maior familiaridade. Resta, então, para completar a narrativa do parêntesis da indústria fonográfica, esperar que alguém escreva o grande livro sobre o recém falecido George Martin, inventor da coisa. Quando poderemos ter, finalmente, uma perspectiva mais completa de como a economia afetou a música durante os últimos cinquenta anos.

George Martin
George Martin