Rieufobia

Dia desses me deparei, na algaravia do facebook, com o seguinte comentário, sob uma postagem de divulgação de um texto sobre o estupendo ensemble parisiense sans baton Les Dissonances:

Sempre que músicos conversam surge a rieufobia. Por que?

Em ambientes musicais, tal pergunta soa francamente retórica e revestida de fina ironia. Só que a maioria dos leitores deste blog, que chegam até ele principalmente por meio de anúncios do Sul21 em redes sociais, não é constituída de músicos. Até mesmo entre meus amigos no facebook há muitos que não são músicos. Por isto, decidi responder à interessante pergunta (juro que pensei bastante nela) usufruindo da atemporalidade, da permanência e da introspecção inerentes ao blog.

Não estaria muito longe da verdade se simplesmente dissesse que o que André Rieu oferece a seus apreciadores não passa de uma embalagem vazia. Pois a importância absolutamente secundária da música em todo o complexo cênico vendido em suas apresentações seria suficiente para corroborar esta resposta.

Se fosse apenas para brigar com campos adversários, haveria evidência suficiente para chamá-lo, assim como tantos outros que se apropriam de elementos musicais a fim de produzir um encanto irresistível em audiências mal formadas e/ou informadas, de charlatão. Tal qualificação não suscitaria reações adversas em quem quer que tenha algum conhecimento musical e nutra um certo apreço pela música. Tal querela, no entanto, não valeria a pena.

Sigo, então, perseguindo o propósito de explicar em termos objetivos por que o que Rieu optou por fazer, conquanto lucrativo, não passa de… charlatanice (me desculpem se não encontro palavra melhor que o descreva).

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Inicialmente, examinemos o público que se encanta com seus espetáculos comparativamente às audiências que efetivamente buscam, em concertos presenciais ou gravações, a fruição musical e a ampliação do repertório que conhecem.

Tomemos, inicialmente, o típico melômano com vasto conhecimento musical. Seu repertório conhecido, conquanto abrangendo vários séculos, algumas dúzias de compositores e centenas de obras, é por definição incompleto. Nosso amigo melômano tem profunda consciência disto e faz da exploração de territórios desconhecidos e inexauríveis uma missão de vida.

Num nível intermediário, temos os apreciadores de música que “comem o mingau pelas bordas”. Pertencem a esta categoria aqueles capazes de identificar, após ouvidos uns poucos acordes, trechos da quinta e da nona sinfonias de Beethoven, do primeiro concerto de piano de Tchaikovsky, do segundo de Rachmaninoff, de Carmina Burana, da Pequena Serenata Noturna de Mozart, das Czardas de Monti, das Estações de Vivaldi, da Ária na Corda Sol ou do coral Jesus Alegria dos Homens de Bach, do Bolero de Ravel, de algumas valsas vienenses e de umas poucas árias de óperas. A ópera é um nicho bem especializado, mas é pouco provável que a maioria de seus apreciadores já tenha ouvido obras inteiras, de onde suas árias favoritas foram desmembradas.

Representantes das duas categorias acima, conquanto frequentem salas de concerto (os da primeira muito mais do que os da segunda), sabem que não podem restringir a descoberta de novas obras ao repertório habitual de conjuntos a cujas apresentações tenham acesso. Por isto, costumam investir pesado na formação de discotecas ou, mais recentemente, em serviços de streamming. Bem, estou sendo otimista. Na verdade, acho que só os membros da primeira categoria fazem da audição de gravações de repertório novo um hábito regular.

Um terceiro modo de relação com a música dita “clássica” é o praticado por pessoas que nunca ou muito raramente (só em casos circunstanciais, como, por exemplo, quando não tem como recusar um convite) frequentam concertos de qualquer espécie. É o público, por excelência, dos concertos populares (que prefiro chamar de demagógicos), o qual, mesmo sem empreender qualquer esforço ou iniciativa para ouvir orquestras ou conjuntos de câmera aos quais tenha acesso, acredita, talvez por ter ouvido falar, que a música faça bem para a alma, que é uma maneira de manter jovens no bom caminho, que concertos ao ar livre são ótimos para popularizar uma manifestação cultural de outro modo “elitista” e até que a música tenha alguma influência na aprendizagem (o célebre efeito Mozart). De quebra, a música clássica confere a quem professa algum apreço pela mesma um certo verniz cultural.

Concertos demagógicos em geral e os de André Rieu em particular contemplam exclusivamente os integrantes desta terceira categoria. Todos os restantes padecem, como bem disse meu comentarista, de rieufobia.

 

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Um dos maiores problemas dos concertos demagógicos é a ideia de que a música pode ser levada às audiências por amostragem, com trechos selecionados de muitas obras concebidas para serem ouvidas na íntegra. Como num desfile variadíssimo de épocas, lugares, gêneros e estilos, somos contemplados com um mosaico aleatório de recortes cujo único objetivo é angariar o aplauso fácil. Nestes eventos, a imersão mais prolongada no universo de uma obra ou autor, como em concertos sinfônicos, está fora de qualquer questão.

Notem que concertos sinfônicos com mais de uma hora de duração costumam ter no máximo três ou quatro obras, não sendo raros aqueles com apenas duas ou até mesmo uma só. Suponho que a enorme profusão de “números” curtos, entrecortados por aplausos, em concertos populares tente emular, de algum modo, uma dinâmica de espetáculo específica da música popular, limitada, ao mesmo tempo, historicamente pela duração do que cabia num lado dum disco de 78 rpm e também pelo próprio exaurimento de suas formas depois de 3 ou 4 minutos.

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Muito da apologia que se faz dos espetáculos capitaneados por Rieu está fundada na soberania absoluta do gosto popular. Só que, neste caso, não faz sentido algum se falar numa opção por um tipo de espetáculo por parte de ouvintes que não têm a menor ideia da vastidão daquilo que ignoram. A imensa popularidade, portanto, de Rieu e congêneres é, no fundo, reflexo de um problema maior de educação.

Conquanto Rieu tenha alcançado, ainda que por méritos próprios, uma evidência que o coloca como símbolo internacional desta espécie de degeneração da música de concerto, está longe de ser seu representante exclusivo. Sua versão nacional mais conhecida é o pianista e maestro João Carlos Martins, que já virou até filme e enredo de escola de samba. Os agravantes, no caso de JCM, são a exploração do próprio “coitadismo” e o pretenso trabalho social que desenvolve.

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O surgimento de personagens como Rieu,  que personificam para uma parcela numerosa do público o que se poderia chamar de “a cara da música clássica” (do mesmo modo que, até pouco tempo atrás, os “3 tenores” encerravam para muitos o significado do canto lírico), é um fenômeno típico da época em que vivemos – na qual a celebração da autoria deu lugar à primazia absoluta da figura do intérprete. Pois se antes os grandes festivais serviam principalmente como plataforma de lançamento para compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Milton Nascimento (ainda que os mesmos fossem, incidentalmente, intérpretes de suas próprias obras), o que temos hoje, em reality shows como Fama ou The Voice, é a busca incessante por novos invólucros descartáveis para antigos sucessos. Esta tendência reflete perfeitamente uma opção exercida pela indústria do entretenimento que, não sem razão, talvez por perceber que a autoria sofre períodos recessivos nos quais bons autores não conseguem suprir a demanda permanente por novidades, se volta para a fabricação de celebridades fugazes capazes de dar ares novos a velhas canções repaginadas.

A música erudita desfruta atualmente de um status de anacronismo e elitismo em parte por resistir a se alinhar a esta tendência, i.e., nela a autoria ainda prevalece sobre a interpretação. Explico. Por mais notórios que sejam os regentes ou solistas, a parte mais assídua e expressiva do público que aflui a concertos sinfônicos ainda sai de casa primordialmente para ouvir obras de fulano ou beltrano do que, propriamente, “versões” das mesmas por este ou aquele maestro ou solista. Prova disto é que obras conhecidas por intérpretes desconhecidos ainda atraem muito mais público do que obras desconhecidas por intérpretes célebres. Neste contexto, figuras como Rieu, que logram uma popularidade análoga à de muitos artistas pop, constituem uma grande exceção, só possível devido às concessões cometidas em detrimento da qualidade da experiência musical.

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A exuberância visual de um espetáculo de Rieu também merece uma análise mais demorada, com dois pontos a serem destacados. Primeiro, temos os trajes de gala, com flagrante sugestão de indumentárias de época, como a reforçar uma ideia de deslocamento mágico entre o que se passa no palco e o cotidiano de quem assiste a esses shows.  Como se, através do espetáculo oferecido, o público pudesse se transportar, ainda que por breves instantes, a  mundos distantes e/ou inexistentes de luxuosas cortes de outrora. Algo como um complexo de Sissi. Ou a suposta magia de um desfile na Sapucaí.

Segundo, salta à nossa percepção o fato de que, enquanto concertos são idealizados primordialmente para serem ouvidos, o circo de Rieu é concebido essencialmente para ser visto. Não tenho como afirmar que existam à venda muito mais DVDs do que CDs do músico – o que constituiria uma tremenda inversão dos números do mercado da música clássica. Posso, no entanto, sustentar que seus DVDs possuem muito mais apelo aos ouvintes do que seus CDs. Já que, enquanto os primeiros não conhecem nenhum produto concorrente, já os últimos competem em franca desvantagem com inúmeras outras gravações das mesmas obras.

Até que ponto esta maior resistência de assimilação aos formatos visuais oferecida pela música de concerto em relação à popular está por trás da baixa popularidade da primeira quando comparada à do universo pop, no qual André Rieu deve ser incluído, é uma pergunta que não sei responder.

On (non) conducting (xvi): A propósito da impactante descoberta de Les Dissonances, duas piadas com um fundo de verdade

Como é bom poder tocar um instrumento

Caetano Veloso, em Tigresa

O repertório de piadas que circulam em ambientes musicais, desde conservatórios até orquestras, é imenso. Os violistas são os que mais sofrem com isto. Ou se divertem, não sei ao certo. Quem ainda não viu, por exemplo, este célebre fragmento de um ensaio do grande Celibidache ?

Mas não vim aqui para falar dos queridos amigos violistas. Soe que, dentre a penca de excelentes comentários desencadeada pelo post de ontem, sobre a execução da Sagração da Primavera, de Stravinsky, pelo ensemble Les Dissonances em Paris, alguns me trouxeram de pronto à memória duas populares piadas, tendo a orquestra como temática de fundo, que não poderiam ser mais verdadeiras. Ainda por cima, as duas compõem um par perfeito, correlato – por se tratar, num caso, de uma semelhança e, no outro, de uma diferença. Não resisti. A elas.

A primeira deve ser contada a inglês, para preservar o ótimo trocadilho entre condom (preservativo) e conductor (regente). É mais ou menos assim:

Question: What’s there in common between a condom and a conductor ?

Answer: In both cases, it’s safer with, but better without.

Já a segunda é assim:

Pergunta: Qual a principal diferença entre uma orquestra sinfônica e uma de jazz ?

Resposta: É que na segunda, todos parecem gostar do que fazem.

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É sabido que piadas explicadas tendem a perder a graça. Deixo, então, a vocês, se quiserem, a tarefa opcional de as relacionarem com comentários sob a primeira postagem de divulgação do texto de ontem no facebook. Dito isto, assumo o risco de me tornar demasiado sério e enfadonhamente didático ao trocar em miúdos o tal fundo de verdade ao qual aludo no título.

A primeira piada se refere claramente à relação custo/benefício envolvida no uso de preservativos e maestros. Numa primeira leitura, mais ligeira, depreendemos a correlação inversa entre segurança e prazer normalmente associada ao uso ou não de uns e de outros. Indo, no entanto, um pouco mais a fundo, verificamos que a música orquestral é executada com melhores resultados em concertos sem a intervenção de maestros – ainda que, para tanto, sejam necessários muito mais ensaios.

Temos, então, que, salvo nos raros casos que envolvem maestros excepcionais (i.e., em poucos ou pouquíssimos concertos, dependendo da orquestra), eles estão ali antes de tudo para poupar tempo de ensaio. Pois, afinal, ensaios são caros e agendas precisam ser cumpridas.

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A segunda piada tem a ver com o prazer que os músicos demonstram sentir, num caso e noutro (i.e., na orquestra sinfônica e na de jazz), ao tocar. Ora, é praticamente impossível a alguém habituado a frequentar concertos sinfônicos não perceber, em pelo menos alguns assentos orquestrais, músicos que mais parecem no desempenho de alguma função burocrática, apenas à espera do fim do expediente. Isto não acontece em conjuntos de jazz, onde o prazer de cada integrante é muito mais evidente. Por que, então, orquestras tendem a ser mais “broxantes” para alguns ? (não falo, aqui, é claro, dos muitos músicos sinfônicos que revelam a cada instante a imensa alegria que sentem por poderem fazer parte daquilo tudo)

Uma possível explicação para este fenômeno é a tremenda desigualdade existente na distribuição de atenção entre todos os atores envolvidos em uma performance musical. Comparem, por exemplo, um concerto sinfônico com um jogo de futebol. Se em campo todos os olhares e as câmeras estão voltados, na maior parte do tempo, para os jogadores que correm no gramado ao invés de para o técnico que grita e gesticula à margem do mesmo, já num concerto tanto o público quanto as lentes parecem se concentrar no gestual do maestro, como se dele, e não dos músicos, emanasse a música que se ouve.

Ora, assim como excluídos e remediados se ressentem da enorme desigualdade na distribuição de renda, é natural que músicos de um conjunto limitem, voluntária ou inconscientemente, seu desempenho ao perceberem desequilíbrio similar na distribuição da atenção de ouvintes presenciais ou remotos. Suprimido o grande imã de atenção no qual se constitui a figura do maestro, a mágica se processa: todos passam a dar seu máximo, tocando “na ponta da cadeira”, motivados pela percepção de estarem recebendo seu devido quinhão na economia da atenção. Então, não é que alguns músicos não pudessem tocar mais proativamente – mas, tão somente, por que, dada a baixa taxa de atenção recebida, simplesmente não viam motivo algum para tanto entusiasmo. Isto é perfeitamente evidente, por exemplo, na execução da Sagração da Primavera por Les Dissonances, da qual falei ontem.

Stravinsky – The Rite of Spring by Les Dissonances

We did it ! Great premiere of Stravinsky – The Rite of Spring performed without a conductor at Philharmonie de Paris ! Heureux de partager avec vous les premières images du Sacre du Printemps de Stravinski, 93 musiciens à l'unisson, un moment magique ! ✨✨✨

Posted by Les Dissonances on Friday, November 3, 2017

Outro aspecto inibidor do ímpeto orquestral é o confortável hábito de se ter uma referência visual única permanentemente disponível. A supressão da regência, além de obrigar cada músico a ouvir melhor o que os outros tocam, também engendra um complexo e ágil jogo de olhares entre as partes que compõem o todo. Isto pode ser ser muito bem observado nos close-ups de um outro vídeo de Les Dissonances tocando o movimento lento (a marcha fúnebre) da sétima sinfonia de Beethoven. Notem o contraste entre a delicadeza da música e o intenso jogo de olhares necessário para manter aquele tecido coeso.

Beethoven 7th Symphony – Les Dissonances

L'une des premières symphonies de Beethoven jouée par Les Dissonances, vous vous en souvenez ?Nous serons heureux de la rejouer à la rentrée avec le Sacre du Printemps de Stravinsky à la Philharmonie de Paris, à l'Opéra de Dijon – Page officielle et à Le Volcan – Scène nationale du Havre !Beethoven Video Playlist 👉 http://bit.ly/YoutubeLesDissonances

Posted by Les Dissonances on Friday, June 9, 2017

Ainda sobre o prazer de tocar se sentindo no comando: observem a felicidade da primeira flautista de Les Dissonances, depois de tocar, praticamente sozinha, aquela frase final da Sagração, logo depois daquela apoteose orgiástica. Ninguém me convence de que é possível tocar aquilo melhor em resposta a um comando externo.

Conquanto o problema seja de fácil diagnóstico, sua solução não é nada simples. Passa, antes, pela conquista de uma sociedade mais igualitária, horizontal, na qual a competência de poucos deixe de ser reconhecida como tão superior à de muitos. Até lá, o modelo orquestral vigente permanecerá como talvez a melhor metáfora disponível de ideais neoliberais.

 

On conducting (xv): Por que A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, é melhor executada sem a intervenção de um regente

Por mais piegas que possa parecer, tenho que confessar: chorei vendo isto:

Stravinsky – The Rite of Spring by Les Dissonances

We did it ! Great premiere of Stravinsky – The Rite of Spring performed without a conductor at Philharmonie de Paris ! Heureux de partager avec vous les premières images du Sacre du Printemps de Stravinski, 93 musiciens à l'unisson, un moment magique ! ✨✨✨

Posted by Les Dissonances on Friday, November 3, 2017

O vídeo me foi apresentado por um amigo – a quem sou imensamente grato – que, presumivelmente, prefere permanecer anônimo. Além de emocionado, também fiquei lisonjeado por ter sido, de certo modo, lembrado como alguém que comemoraria a boa nova. Faço, então, mais do que isto compartilhando a façanha.

Para quem ainda não se deu conta, se trata da estreia, há poucos dias em Paris, da icônica Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, executada sem a intervenção de um regente. Não é pouca coisa. Pois embora vários conjuntos internacionais (um dos primeiros foi o Orpheus, de Nova Iorque) já se dediquem há algum tempo à execução de repertório orquestral sem maestros, havia, antes desta façanha do Les Dissonances, um certo consenso de que aquele repertório no limite da complexidade rítmica sempre exigiria alguém à frente da orquestra a indicar o tempo. Com esta performance, foi deixado para trás mais este mito.

Antes disto, eu já havia visto uma execução de uma sinfonia de Mahler sem regente. Que, no entanto, deixou muito a desejar. Provavelmente por que, ao contrário do que costuma ocorrer na obra de Stravinsky, na qual o tempo é inflexível, já em Mahler o tempo é maleável – o que talvez ainda implique na direção de uma consciência individual para sua realização. Assim, embora aqueles músicos conseguissem tocar Mahler juntos sem o auxílio de um maestro (o que também não é pouco), faltava à música, a meu ver, digamos que um pouco de personalidade.

Tal não é o caso, entretanto, na execução de Stravinsky pelos membros de Les Dissonances – grupo que me apressei em conhecer e cuja performance do Concerto de Orquestra de Bartók, também no facebook, verei imediatamente após publicar este post.

Vendo e ouvindo este final da Sagração da Primavera, não pude deixar de reparar duas coisas. Primeiro, é visível o tremendo envolvimento de cada membro da orquestra, com uma linguagem corporal comum na música de câmera mas absolutamente rara em orquestras. Pois em Les Dissonances, todos tocam como se fossem spallas, i.e., proativamente. Tamanho empenho individual se reflete no corolário sonoro deste aspecto visual. Posso estar enganado, mas jamais ouvi uma orquestra que soasse tão articulada.

Quem frequenta concertos sinfônicos habitualmente já deve ter observado um certo “arrefecimento” (salvo raras exceções) do ímpeto dos que sentam nas primeiras estantes na medida em que nos aproximamos das últimas. Acho que isto pode até ter se normalizado como uma espécie de competência ideal na “ética” da performance orquestral – i.e., seguir o spalla sem em nenhum momento desafiá-lo. O resultado deste “abrandamento” de intenção expressiva em direção às últimas estantes passou, então, a ser percebido não como uma distorção mas, ao contrário uma qualidade orquestral – traduzida, talvez, como uma suavidade de ataque (na verdade um blend de ataques ligeiramente fora de sincronia) impensável em conjuntos de câmera.

Orquestras não tocam assim, no entanto, por que seus músicos sejam incompetentes. Ao contrário. O problema decorre, em parte, do fato de que músicos devam obedecer, permanentemente, a uma espécie de duplo comando, a saber, do regente e do respectivo spalla. Só que é bem difícil e contraditório – com efeito não mais do que uma aproximação – tocar ao mesmo tempo junto com outros instrumentistas (a concepção camerística) e com alguém que apenas gesticula sem tocar instrumento algum.

Em Les Dissonances, no entanto, não existe este duplo comando e a impressão que se tem é de uma orquestra em que todos tocam como se fossem spallas.

É claro que qualquer orquestra não tocaria melhor sem um regente. A disciplina da submissão a uma batuta é arraigada à cultura orquestral e assimilada desde o início da formação de cada instrumentista. A ruptura proposta por conjuntos de ponta como Les Dissonances só é possível com muito muito treino e certamente tem também seu embasamento teórico. Então, não esperem ver, daqui prá frente, muitas orquestras seguindo os passos destes bravos franceses. Até por que há bastante poder em jogo, fundado sobre tradições tão antigas quanto a realização de concertos sinfônicos.

Deixo instaurada a polêmica. Comentem à vontade !

Atrações locais que “abrem” megashows de celebridades globais recebem alguma remuneração por isto ou, como parece mais lógico, pagam para fazê-lo ?; ou Sobre títulos bombásticos e limitações do streamming

Acompanhando de longe os últimos megashows a acontecerem em minha cidade, me ocorreu perguntar se atrações locais que “abrem” espetáculos de celebridades globais efetivamente recebem algum tipo de remuneração para fazê-lo ou, efetivamente, como me parece bem mais lógico, pagam para estar ali, com toda aquela infraestrutura emprestada e provavelmente a maior audiência que hão de encarar em suas carreiras. Não, a pergunta não é retórica. E por mais preconceito que possa denotar, me apresso em esclarecer que, de acordo com a teoria da qualidade distribuída, ou dispersa, não é de todo improvável que, circunstancialmente, artistas desconhecidos fora de seus nichos locais tenham muito mais qualidade, num sentido amplo, do que as celebridades que guarnecem. Retornaremos a isto em seguida.

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Admito. Títulos bombásticos, ultrajantes, constituem um grande atrativo – razão pela qual a eles recorro com frequência, mesmo sabendo que quem a eles reage mais prontamente muitas vezes sequer lê o texto ao abrigo dos mesmos. Isto é fácil de provar. Num exemplo recente, compartilhei um excelente artigo publicado em Evonomics cujo bem escolhido título rezava How America Hates Socialism without Knowing Why (Como os EUA odeiam o socialismo sem saber por que). A peça estabelece uma arguta correlação entre o grau de confiança no país (i.e., em seus homens públicos, segundo dados da Transparência Internacional) e o apreço de seus cidadãos pelo socialismo. Para meu espanto, um troll comentou, sob a postagem: Parece que a América já está tendo acesso a história e sabendo o que foi o socialismos ao longo destes cento e alguns anos(sic). Normalmente, não reajo a este tipo de provocação. Só que, neste caso, minha curiosidade foi maior e tive que perguntar se o comentarista lera, de fato, o artigo.  É claro que não obtive resposta alguma.

Numa situação mais remota, fui chamado de idiota prá baixo ao postar um texto sob o descaradamente apelativo título Por que gosto de assistir ao jornalismo da Globo. Até agora não sei quantos dos que protestaram com indignação efetivamente leram o que escrevi.

Não quero dizer, com isto, que leio todas as letras miúdas sob os mais chamativos títulos que desfilam na timeline. Até por que o expediente de ler apenas as manchetes em busca de conteúdos que nos interessam é pelo menos tão antigo quanto os jornais impressos – não tendo, aliás, as manchetes outra função senão a de permitir que evitemos a leitura de conteúdos que se nos afigurem como menos relevantes. Só que, para tentar evitar pagar micos, me abstenho de comentar textos que não tenha lido, tão somente a partir de seus títulos.

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Como falávamos acima, a probabilidade de um frequentador contumaz de megashows se deparar ao acaso com shows de abertura de algum modo superiores às celebridades que os sucedem no palco não é, ao contrário do que empresários acreditam, totalmente nula. Até por que muitas bandas hoje célebres mas então obscuras devem ter sido descobertas ao abrirem shows de artistas consagrados. Se este tipo de evento inesperado, “fora da curva”, de fato existe como possibilidade concreta, tal se deve à consistência da teoria da qualidade dispersa, ou distribuída, à qual não cansamos de aludir neste blog, que pode ser mais ou menos formulada como:

Deve haver, oculta sob o manto da diversidade, muito mais qualidade do que qualquer que já tenha sido revelada pela indústria do entretenimento, posto que esta , em sua seletividade predatória, é incapaz de acessar, por meio de seus radares centralizados, o que de melhor existe como fruto da criatividade e expressão artística humanas.

Num paradigma anterior, astros predestinados a algum sucesso nas gravadoras e no showbusiness eram frutos de escolhas arbitrárias, orientadas por perspectivas de mercado, de produtores todo-poderosos. O binômio mais emblemático deste estado de coisas é a exitosa associação entre George Martin e os Beatles – o primeiro, um executivo fonográfico incumbido pela indústria de descobrir sons que, prensados em discos de vinil, constituíssem objetos de desejo imediato do maior número possível de consumidores, e os últimos, um conjunto de jovens menestréis como qualquer outro em terras britânicas. Sei que esta última afirmação tende a angariar, entre defensores irredutíveis dos méritos do quarteto de Liverpool, contraditórios veementes sempre que reiterada neste espaço. Rogo-lhes, ainda assim, que deixem temporariamente de lado a eterna questão do caráter único ou banal da música dos Beatles para, ao menos desta vez, se fixarem na transformação dos meios de acesso ao estrelato desde aquele tempo até agora – esta sim central à presente argumentação.

Desde então,  o showbusiness, adaptativo como qualquer indústria, vem procurando incorporar, sintonizado ao espírito dos tempos, procedimentos de avaliação distribuída, típicos das comunidades virtuais, nos quais a maioria da audiência é quem decide quem vai adiante e quem é eliminado em muitos reality shows. Devemos, no entanto, frisar que isto é o máximo que já se conseguiu até agora em se tratando da tão propalada mas tão pouco implementada televisão interativa. Ao mesmo tempo, muitos concursos televisivos, sejam de canto, dança ou culinária, ainda se mantém fiéis ao formato tradicional de júris compostos por um punhado de celebridades.

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Em nome da concisão (bem como da inteligência dos leitores), não choveremos no molhado falando, aqui, das recentes e radicais transformações sofridas pela indústria do entretenimento nas últimas décadas. Suficiente, então, sublinhar que, para se adaptar à perda do monopólio sobre os meios de produção (estúdios caros e fábricas de LPs e CDs), investidores migraram para o setor de distribuição por meio de streamming.

O streamming (i.e., a transmissão de sons e imagens, residentes em servidores, pela internet) sepultou, ao menos entre consumidores menos especializados, o até então robusto comércio de música e cinema gravados em mídias físicas como CDs e DVDs. Proprietários destes serviços se desoneraram completamente da tarefa de produzir conteúdos para transmissão, cabendo agora a cada artista – de uma base, portanto, supostamente ampla e diversa – produzir seus próprios conteúdos, os disponibilizando para streamming por valores bem mais acessíveis do que, comparativamente, o jabá anteriormente pago pelas gravadoras para a execução repetida de música por estações de rádio. Cabe, ao mesmo tempo, a cada artista a divulgação e a criação de uma demanda por todo conteúdo por ele disponibilizado “na nuvem”.

Como em todo negócio da era digital, provedores de streamming apostam acima de tudo na venda de acesso. Para tanto, competem entre si para oferecer a seus assinantes a maior base possível de conteúdos disponíveis. Daí o custo irrisório de se “subir” qualquer coisa para a nuvem – praticamente destinado apenas a cobrir gastos operacionais de inclusão e manutenção de conteúdos em servidores.

Por mais, no entanto, que o capital cumulativo tenha assumido, ao se adaptar e migrar para a economia digital, aspectos distribuídos das comunidades virtuais, jamais encontrou um modo de se desvincular de sua natureza – que é a de favorecer inevitavelmente as celebridades, como veremos a partir de duas críticas recentemente veiculadas a dois gigantes da distribuição de conteúdos digitais: Spotify e Netflix.

Um compositor amigo meu, desconhecido das multidões (alguém que jamais tocará num megashow) mas que cultiva, há muitos anos, um público consistente e cativo de apreciadores de sua música, se queixou de que, por milhares de execuções da mesma no Spotify, obteve como remuneração não mais do que centavos. Levei a queixa a outro amigo, versado nos meandros da indústria, que de pronto me respondeu que, para se faturar alguma quantia significativa no Spotify, é preciso ter sua música executada milhões de vezes. O que prova que, para se fazer sucesso no Spotify e afins, é preciso ser uma celebridade. Como queríamos demonstrar.

Ao mesmo tempo, a Newsweek publicou recentemente uma matéria denunciando a falta de filmes clássicos na Netflix. Era de se esperar que a exacerbação da seletividade das plataformas de streamming, manifesta na exclusão de conteúdos importantes, fosse mais acentuada na distribuição de filmes do que na de música, posto que o armazenamento de imagens em movimento ocupa muito mais espaço em servidores do que o de sons. O que, no entanto, mais nos interessa, neste caso, é que serviços de streamming não são, ao contrário do que muitos pretendem fazer acreditar, a melhor solução para a distribuição imediata de conteúdos diversificados.

Moral da história: desconfiem sempre de grandes iniciativas capitalistas (big players) apregoando oferecer amplo acesso à diversidade. Nisto, os commons, não lucrativos por definição, permanecem imbatíveis.

 

Por que não vou a megashows de roqueiros veteranos

Quem lê este blog sabe o quanto gosto de causar polêmica. Por isto, regozijei ontem ao lograr dividir opiniões, no facebook, sobre megashows atuais de roqueiros veteranos. Li atentamente todos os comentários, compreendendo as razões de ambos os lados – me esforçando, no entanto, para me manter em silêncio (que esforço !), já pensando em explorar melhor o tema num post. O qual, advirto, não deve ser lido por quem pretende ir ao show do The Who em Porto Alegre hoje à noite. Não, ao menos, antes de ter ido ao show.

Há bandas e bandas; roqueiros e roqueiros. É, assim, um exercício totalmente inútil tentar discutir com fãs de uns ou de outros sobre os enormes méritos de seus ídolos em relação aos demais. Não cairei nesta cilada. Antes, tentarei me debruçar sobre certos atributos genéricos de apresentações requentadas, comuns à maioria dos astros veteranos que optaram, por razões pecuniárias ou quaisquer outras, por retardar indefinidamente o abandono dos palcos. Que me perdoem, então, os fãs das honrosas exceções.

Primeiro, preciso esclarecer por que tenho o rock, dentre os gêneros populares, como algo datado, intrinsecamente associado a experiências da juventude de seus apreciadores. Senão, me apontem um ouvinte que seja que, tendo vivido a juventude alheio ao rock (ou seja, numa caverna), desenvolveu algum tipo de apreço pelo gênero em idades mais maduras. Não conheço ninguém assim. Mas me disponho alegremente a conhecer tal sujeito, como objeto de estudo.

Assim, tendo a presumir que pessoas com mais de 40 ou 50 anos prefiram, em sua maioria, ouvir música sentadas, em ambientes relativamente silenciosos. Ouvir música em pé ? Pior: em meio a uma multidão de sovacos a erguerem celulares sobre suas cabeças ? Incluam-me fora disso. O megashow tem outros agravantes. Citarei dois. Exceto para os felizes portadores dos ingressos mais caros, os astros não serão mais do que minúsculos vultos distantes, tendo a maioria dos espectadores que se contentar com closes dos mesmos projetados em telões ao lado do palco. Depois, tem aquela passarela, que se estende perpendicularmente ao palco cortando o espaço destinado à audiência, na qual protagonistas empreenderão, ao longo do show, uma ou duas corridas ensaiadas – premiando, com isto, os que ousarem disputar um espaço junto à mesma com a fugaz sensação de maior proximidade com seus ídolos.

Música ? A música é secundária neste contexto, em que mais vale a comunhão entre os presentes no culto aos que se apresentam. Isto explica, ao menos em parte, o fenômeno dos celulares – pois, para muitos, mais importante do que estar lá é poder mostrar, aos outros e mesmo a si próprios, que se esteve lá.

But so much for the stage. Aos atores, então.

Comecemos por um preconceito. Com o qual, devo confessar, me identifico profundamente – a saber, o de que o rock é, acima de tudo, uma das mais intensas manifestações de espíritos jovens que habitam corpos jovens. Muito já se disse que rock é atitude e coisas semelhantes. Pois a atitude rock é, na maioria das vezes, explosiva, de inconformidade e rebeldia em relação a valores herdados à revelia. Com o avançar da idade, além de preferirmos ouvir música sentados ao invés de em pé, tendemos a elaborar nossa crítica a valores hegemônicos com os quais não concordamos de modo mais introspectivo ou contemplativo. Notem que, como eu disse, se tratam, aqui, de preconceitos, realçados pelas notáveis exceções. Pois bem. Acontece que a maioria dos roqueiros veteranos que espreito (confesso: jamais vi um show inteiro de algum…) são de velhos que se comportam e vestem como meninos, na tentativa patética de emular suas performances de décadas atrás. É claro que, nestes casos, os fãs são condescendentes, não esperando dos mesmos o  desempenho atlético e vocal de outrora.

A longevidade de certas bandas é, para mim, um completo mistério. Por exemplo, não entendo o êxito estrondoso de cada nova tourné dos Rolling Stones, invariavelmente anunciada como sendo a última. Outra coisa: o que faz com que uma banda veterana, com apenas alguns de seus integrantes originais, ostente a denominação que consagrou a banda ou, ao contrário, apenas o nome de seus integrantes remanescentes ? Como, por exemplo, o que faz com que Pete Townshend se apresente como The Who e David Gilmour ou Roger Waters não se apresentem como Pink Floyd – já que, em todos estes casos, o núcleo duro dos shows se constitua de canções de suas bandas míticas ? Desconheço detalhes, mas suspeito que o uso de nomes de bandas como marcas seja objeto de complexas disputas comerciais.

Ainda vou entender por que bandas de enorme sucesso como Beatles, Nirvana, Legião Urbana ou Mamonas Assassinas não tiveram qualquer carreira depois das mortes de, respectivamente, Lennon, Cobain, Russo ou todos os seus membros. Pois, em todos os casos, bastaria um produtor com algum senso de oportunidade e muita habilidade no manejo de contratos para garantir o influxo contínuo de dividendos sobre sucessos garantidos.  Seriam, nestes casos, as figuras dos intérpretes mais importantes do que as músicas ? A pergunta não é retórica. Vou modificar ligeiramente. O que é preferível: ouvir  membros remanescentes de bandas icônicas cantando novas canções desconhecidas ou, ao contrário, bandas cover interpretando velhos sucessos da maneira mais próxima possível à original ?

O megashow é território por excelência da indústria do espetáculo, comandada por produtores. Que, como os barões de qualquer indústria, abominam todo risco. Pois os investimentos são demasiado volumosos para sequer se admitir a hipótese de qualquer erro. Assim, sempre que ingressos são postos à venda para qualquer megashow, já se sabe de antemão que um público numeroso afluirá ao mesmo e dele sairá plenamente gratificado. Caminhando sobre nuvens. Vastos recursos de sonorização, iluminação e pirotecnia contribuem, além do elenco aclamado cuidadosamente escolhido para cada audiência, para a sinestesia da experiência.

Já uma situação totalmente diferente ocorre em espetáculos de gêneros musicais mais intimistas, como, por exemplo, o jazz, apresentados para plateias sentadas, escuras e silenciosas diante de um palco despojado de recursos visuais no qual músicos efetivamente correm riscos ao improvisarem em público.

Vale a pena, aqui, tecer algumas comparações entre o megashow de rock e o espetáculo intimista de jazz. Num a audiência é iluminada; no outro, não. Num o público faz parte da experiência; noutro não (vide, por exemplo, a quantidade de selfies tirados num e noutro). Um segue um roteiro minucioso, com todas as ações dos protagonistas cuidadosamente planejadas; o outro é aberto ao imprevisto. Num o público fica em pé; no outro, sentado. Num o público grita e canta junto; no outro, permanece em silêncio. Em qual deles vocês acham que ouvintes estão mais propensos a uma apreciação crítica ?

Para produtores e investidores habituados à indústria do espetáculo, a anulação do risco pode até ser tida como natural. Discordo. Pois tenho a imponderabilidade em relação ao êxito como um dos principais atrativos de qualquer manifestação artística. Pensem, por exemplo, no que seriam os famosos festivais de MPB televisionados ao vivo nos anos 70 sem o expediente da vaia. Os próprios reality shows de calouros atuais exploram ao limite a tensão entre o sucesso e o fracasso.

Além disto, no caso de manifestações radicalmente inovadoras, uma vaia contemporânea é um dos melhores indicativos de um êxito futuro. Lhes contarei uma história. Após a estréia de A Sagração da Primavera, fragorosamente vaiada pela platéia do teatro dos Champs-Elysées em 1913, seu compositor Stravinsky, o empresário dos Ballets Russes de Paris, Serge Diaghilev e o coreógrafo Vaslav Nijinsky retornaram juntos ao hotel. Diaghilev estava furioso; Nijinsky, em estado de choque e Stravinsky, radiante – somente o último, portanto, perfeitamente ciente do enorme triunfo que aquela vaia representou.

A influência do cargo de Simon Rattle é menor do que a de um visconde

O que segue é a tradução de um artigo de Norman Lebrech publicado em The Spectator em 23 de setembro de 2017

O novo director musical da London Symphony Orchestra (LSO) pode pensar que tem mais controle do que seus predecessores mas, como todo director musical de orquestras nos dias que correm, não tem poder algum

Muito se falou do cargo dado a Sir Simon Rattle quando chegou à Orquestra Sinfônica de Londres. Ao contrário de seus predecessores – Valery Gergiev, Colin Davis, Michael Tilson Thomas, Claudio Abbado  ou André Previn – todos eles contratados como regentes principais, Rattle foi nomeado diretor musical, uma posição que implica em sérias responsabilidades administrativas. Como Rattle disse recentemente numa de uma dúzia de entrevistas concedidas à mídia: “- Valery não estava interessado, tampouco Claudio. Colin os amava, mas deixou bem claro que não queria nada que tivesse a ver com a administração, as audições ou o pessoal… Eu me involverei muito mais com o dia a dia.“

Será que vai ? De todas as erosões que afetaram orquestras na última geração, entre as mais significativas está a degradação progressiva do diretor musical. Tendo sido já altos déspotas que demitiam músicos ao bel prazer e tratavam orquestras com feudos pessoais – pensem em Toscanini, Beecham ou Solti – o papel evoluiu primeiro para um amigável  primus inter pares e, ultimamente, até para um pouco abaixo dos pares.

O fim dos tiranos não é de todo indesejável. Músicos de Boston ainda contam do oboísta que, demitido em meio a um ensaio, se ergueu e gritou. “– Foda-se, Koussevitzky !“ O maestro russo, pouco fluente no idioma inglês, retrucou, “- É tarde demais para se desculpar.” Despotismo deste tipo é decididamente indesejável.

Leonard Bernstein, protegido de Koussevitzky, inaugurou um estilo mais amigável, temperando seus ensaios com piadas judaicas e, ocasionalmente, baixando ambas os braços mãos para reger só com a expressão – como a dizer que o regente é um item de luxo, a ser usado com parcimônia e amplamente compartilhado.

Pelos anos 80, era comum que grandes maestros fossem diretores musicais em dois ou três continentes, alocando a cada orquestra fragmentos de sua preciosa atenção. Em suas ausências, seus poderes foram usurpados. Músicos tomaram a si o direito de escolher novos membros das orquestras. Em 1989, Herbert von Karajan se demitiu da Orquestra Filarmônica de Berlim após anos de amargura, depois que os músicos rejeitaram sua escolha de uma clarinetista principal em 1983, alegando que Sabine Meyer – que seria a primeira mulher a entrar na orquestra – não se adequava a seu som. Em 2005, Riccardo Muti foi dispensado do La Scala de Milão em razão de um voto de desconfiança de seus músicos.

Outras erosões se seguiram. Na ausência de maestros, gestores passaram a controlar conteúdo. “- Jamais deixarei um diretor musical me dizer que solistas contratar,” me assegurou o presidente de uma orquestra norte-americana. “- Tampouco aceitaria seus regentes convidados preferidos.” Patronagem costumava ser o charme de um maestro, se dando a velhos excêntricos um acesso a jovens talentos do qual alguns desavergonhadamente abusavam. O fim da patronagem acabou com o expediente. Exceto por Muti em Chicago e Barenboim na Ópera Estatal de Berlim, hoje é difícil se apontar uma instituição musical onde a voz dominante ainda pertença ao diretor musical.

Tomem Covent Garden (a principal casa de ópera inglesa). Antonio Pappano manteve o velho navio andando a uma velocidade decente por 15 anos mas foi impotente para impedir cortes em sua orquestra. Ao longo de 45 anos no Met (Nova Iorque), James Levine não deixou marcas duradouras. Quando sua amiga Kathleen Battle foi demitida por ser uma praga, Levine não pode readmiti-la. Na Ópera Estatal de Viena, tudo o que Franz Wesler—Möst conseguiu fazer quando suas produções foram cortadas pelo diretor geral foi se demitir, alegando que o cargo de diretor musical carecia de autoridade significativa.

Então, o que, exatamente, pode Rattle esperar realizar na LSO ? Ele disse a amigos que gostaria de ver algumas trocas de pessoal, mas contratar e demitir está inteiramente nas mãos dos músicos. Tudo o que o diretor musical pode fazer é empurrar e piscar para seus apoiadores e esperar por um resultado desejado. Rattle inaugurou a temporada com um programa inteiramente dedicado a compositores ingleses, a maioria deles vivos, mas a ele não será permitido impor qualquer programação além do que a bilheteria permita – a qual não suportará, por sua vez, mais do que um desses chamarizes por temporada.

O que Rattle deveria fazer é abolir excursões desnecessárias que exaurem seus melhores músicos, bem como datas de gravação no Abbey Road com aspirantes de quarta categoria. Mas a LSO precisa da grana dessas gravações e os músicos não tolerarão um diretor musical que interfira com filões lucrativos.

Num mundo perfeito, Rattle excursionaria com a LSO em seu próprio país, ao invés de em toda parte no estrangeiro, com um grito de guerra em prol da elevação de padrões. Isto não acontecerá, no entanto, por que o Arts Council não custeará nada que atenda demandas de públicos regionais. Tudo isto deixa Rattle com um cargo com menos influência do que o de um visconde. Um honorífico para enganar a mídia, a levando a acreditar em milagres. Estas limitações ajudam a explicar por que o novo diretor musical fincou tanto o pé em arrancar das autoridades públicas a construção de um novo teatro. Isto, ao menos, poderia ser creditado como uma conquista concreta.

Sobre marcadores e celebridades

Costumo utilizar marcadores (bookmarks, em inglês), que são etiquetas com nomes de categorias, para salvar, para referência futura, toda página da internet que, numa leitura cuidadosa ou rápida, se afigure como de algum interesse. Deste modo, acumulei, desde 2009, quando comecei a usar a plataforma de marcadores Delicious, mais de 7000 páginas marcadas.

Dentre minhas categorias mais populosas, se destacam, entre outras, as de music economics, celebrities, album, orchestral crisis e fontes como Norman Lebrecht, The Guardian ou brainpickings. Pensadores da internet como Clay Shirky, Cory Doctorow, Henry Jenkins e Howard Rheingold também mereceram categorias próprias. Numa analogia com o conhecimento acadêmico, podemos, então, afirmar que tais categorias resumem exemplarmente o que, num programa de pós-graduação, seria considerado, respectivamente, como as “linhas de investigação” adotadas por alguém, bem como seu elenco de “gurus”.

Só que, anos atrás, o Delicious foi comprado pelo Yahoo e, desde junho último, numa tremenda puxada de tapete, o site opera em modo read only, tendo perdido, portanto, toda a funcionalidade para armazenar novas páginas. Tiveram ao menos o decoro de manter a coisa no ar por tempo suficiente para que usuários desesperados, como eu, tivessem tempo de migrar com seus dados para outras plataformas. Meu desespero, no caso, não se trata de nenhum eufemismo, posto que todo meu conhecimento adquirido ao longo da última década passou a correr o risco de, por não estar mais acessível, se pulverizar.

Foi quando decidi, semanas atrás, empreender uma cruzada em busca tanto de uma nova plataforma com um bom prognóstico de sobrevivência (por que nessas horas sempre confiamos tanto no Google ?) como de um meio prático para executar a migração. Pois 7000+ páginas não é pouca coisa. O Delicious tentou facilitar a tarefa, disponibilizando uma ferramenta para gravar um arquivo HTML que pudesse ser importado por seus concorrentes. De pouco adiantou, entretanto, pois os aplicativos de migração davam pau (como eu disse, 7000+ é uma quantidade atipicamente grande) em meio à operação de importação.

O que me fez sair atrás de um editor de HTML para fracionar o arquivo em partes menores, mais manejáveis pelo algoritmo de importação do Google Bookmarks, meu novo hospedeiro de marcadores. Não sem antes, no entanto, promover uma faxina nas páginas hospedadas no Delicious, no intuito de reduzir significativamente seu número. Em vão, pois só logrei eliminar ca. 1000 páginas. É sobre o que constatei neste processo que falarei daqui em diante.

* * *

Antes, porém, de examinar mais de perto os links eliminados, algumas palavras sobre por que me tornei tão obcecado por marcadores. Tem a ver, principalmente, com a velocidade do feed nas redes sociais e, ao mesmo tempo, a necessidade de aglutinar notícias, fatos ou descobertas descontínuos no tempo e isolados por tudo aquilo que acontece entre eles em categorias, definidas por um mesmo headline, capazes de alguma significação mais permanente. Deste modo, tudo aquilo que vem no feed que, de algum modo, reverbera singularmente em nossa mente, entra em ressonância com um conjunto de outros fatos, já coletados ou não, que, embora nada signifiquem isoladamente, podem dizer muito se considerados em conjunto.

O hábito de salvar marcadores se torna, assim, extremamente útil quando da recuperação de referências para pesquisa ou citação. Pensem, se quiserem, por analogia, naquela profusão de papeizinhos com notas afixados às páginas de documentos impressos levantados e perscrutados na fase de revisão bibliográfica de qualquer tese acadêmica. Pois os marcadores virtuais vieram para render essas etiquetas obsoletas, tanto pela facilidade de recuperação de informações como pela de cruzamento entre as mesmas.

* * *

Há 24 horas atrás, estava, com lhes disse acima, às voltas com o problema de ter que reduzir drasticamente, para futura exportação, os links que armazenara no Delicious. Nesta situação, um método se afigurava como absolutamente necessário, posto que não teria tempo de examinar cada um dos links antes de decretar sua permanência ou exclusão. De sorte que ataquei, de pronto, aquelas categorias mais numerosas sobre as quais não pretendia mais me concentrar. Curioso como nossos interesse mudam, ainda que só consigamos perceber isto quando distanciados no tempo.

Quando comecei a salvar marcadores em 2009, estava obcecado pela indústria fonográfica, querendo anunciar como um arauto ou profeta uma realidade que, para qualquer observador mais atento, já estava caindo de maduro – a saber, o declínio de certas mídias e formatos e, com eles, da própria indústria. Pois poucas coisas mudaram tanto nas últimas décadas, sob efeito da internet, como o modo como ouvimos música e a forma como ela é produzida e distribuída. Testemunhamos o empoderamento dos autores e o esfacelamento dos impérios do disco, que reinaram absolutos por cerca de 50 anos.

O primeiro conjunto de links salvos que descartei sumariamente foi aquele gerado quando de minha descoberta do compartilhamento gratuito, reunidos sob o sugestivo marcador free music. Foi um enxugamento formidável. Posso afirmar, hoje, que salvei muito mais páginas de blogs e álbuns do que efetivamente cheguei a ouvir. Tempo perdido. Pois não há nada mais fácil do que descobrir, instantaneamente, de onde baixar qualquer coisa que queiramos ouvir. Num dos poucos links que preservei, alguém pontifica que ouvimos muito mais a música que compramos do que aquela que baixamos. Pode ser. Devo ler com atenção.

Procedi, então, às igualmente numerosas categorias celebrities e album, além de fontes especializadas na indústria fonográfica como hypebot e pitchfork. Nesta etapa, excluí centenas de referências a pessoas como Rihana, Milley Cirus, Britney Spears, Katy Perry, Lady Gaga, Kanye West, Will.i.am, Jay-Z, Madonna e afins. Foi quando confirmei algo de que, por muito tempo, sempre suspeitara – a saber, a tremenda redundância verificada entre os factoides exaustivamente divulgados como notícias por estes atores. Tanto que vale a pena uma compilação dos gêneros assumidos pelos mesmos.

Em primeiríssimo lugar, celebridades e seus produtores competem entre si para ver quem emite mais anúncios sobre planos futuros, do tipo “A banda X lançará até o mês Y o primeiro disco depois de Z anos !”. Em seguida, vem as notas de lançamento de cada novo álbum, invariavelmente apregoado como algo inovador. Acompanham estas notas aquelas sobre o sobe e desce de cada artista em vendas de discos, audições em rádio e outras plataformas e visualizações em redes sociais. Como numa bolsa de valores.

São também frequentes os anúncios de colaborações em forma de dobradinha entre um rapper e um cantor ou cantora. Só que nem sempre produtores acertam e, com isto, nos deparamos frequentemente com imbroglios envolvendo desmentidos, insultos e até pedidos de desculpa. Ao fim e ao cabo, de pouco importa se as colaborações se concretizam, já que os encontros e desencontros estão na mídia, a um custo muito mais barato do que o de casamentos e divórcios entre celebridades.

No lado B da indústria do entretenimento, são também muito comuns os cancelamentos de shows e os casos de hostilidade em relação a celebridades, como copos jogados pelo público em Axl Rose ou garrafas d’água em Justin Bieber. E como não há nada para quebrar o marasmo do noticiário upbeat, bombam as notícias sobre cada vez que uma celebridade é flagrada pisando na bola. Como o uso ocasional de cocaína por Lady Gaga, de maconha por um tal de George Michael, a agressão de um fã por Justin Bieber ou, ainda, as 19 tentativas empreendidas por Ozzy Osbourne até obter, finalmente, uma carteira de motorista.

Dentre os grandes micos nacionais, se destacam o fiasco novaiorquino de Ivete Sangalo (episódio que deve ter ensinado muito a produtores nativos sobre o equívoco de se comparar protagonistas de degêneros regionais como aché, tchê, pagode e sertanejo a celebridades pop internacionais) e o imbroglio de Xuxa no twitter (aquele em que culpou Sacha por seus atentados linguísticos).

Outra categoria interessante são os leilões. Como, por exemplo, do piano empregado em gravações dos Beatles ou do vaso sanitário (sic !) usado por John Lennon. Jamais duvidem da devoção de um fã. Acrescente-se à trivia do célebre piano a indignação dos fãs do quarteto de Liverpool com o uso do mesmo por Lady Gaga, como se isto se constituísse numa profanação do icônico instrumento.

Quando a indústria constata a exaustão criativa de seus elencos atuais, se volta invariavelmente a seus acervos históricos. Foi assim que, dentre os links que deletei, encontrei notas bombásticas sobre reedições como, por exemplo, a das primeiras gravações, ainda em mono, de Bob Dylan e até, pasmem, a publicação póstuma de músicas inéditas de Michael Jackson. Neste departamento, a cereja do bolo é, a coleção de “duetos” não consentidos entre Renato Russo, já morto, e terceiros – as quais foram recebidas naturalmente, como um grande achado, longe de se constituírem em algo ligeiramente macabro. E, aproveitando a deixa, passemos a um último tópico – que, compreensivelmente, deverá suscitar certa revolta entre muitos fãs.

De todas as categorias a mais especial é, sem sombra de dúvida, a morte. Pois não há nada mais extraordinário – e, portanto, monetizável – em relação à mesmice produzida por qualquer celebridade pop ao longo de sua carreira do que a própria morte. As luxuosas reedições de gravações, os onerosos ingressos para shows de tributo e os altos valores alcançados em leilões de objetos pessoais de, digamos, um Elvis Presley, Michael Jackson, John Lennon, Kurt Cobain ou Amy Winehouse estão aí para provar que mais vale investir em seus espólios do que em suas obras em vida. Para pelo menos um analista, a morte precoce teria literalmente salvado, senão a carreira, ao menos a obra de Jackson.

Mais: é bem mais interessante para uma celebridade, sob o ponto de vista econômico, ter sua vida interrompida abruptamente, por acidente, assassinato, overdose ou suicídio, no auge de sua capacidade criativa do que por morte natural aos seus 80 anos, já tendo enfrentado o declínio e o esquecimento. É só comparar os obituários de uns com os de outros, que aparecem, respectivamente, em capas e nas últimas páginas – ou, ainda, o tempo relativo que lhes é consagrado pela TV.

* * *

PS: tão logo terminei de escrever este post, lembrei deste, bem mais denso, de Norman Lebrecht (um dos primeiros links salvos em meus marcadores, em 2009), sobre o por que do não surgimento, após suas mortes, de mitos com a força de Elvis Presley e Maria Callas. Prestem atenção na parte em que ele culpa os executivos fonográficos desde os anos 70, que “are not in the market for uninsurable risks”. Melhor citação: “cultural narcolepsy”.

Goatbleat ou O problema do canto lírico

Cases are by no means uncommon of practised singers and speakers losing all confidence in their old methods in new and alarming conditions as to space. When that happens, they begin to bleat frantically […]. Actors and singers who have small voices should remember that the problem for them is to make themselves heard, and by no means to make themselves loud. Loudness is the worst defect of quality that any voice, large or small, can have. *

George Bernard Shaw, sob o pseudônimo de Corno di Bassetto, em London Music in 1889-1990

A crônica da cena musical londrina na era vitoriana por Bernard Shaw, escrita para um tablóide sob um pseudônimo bem antes do autor ganhar notoriedade como um dos maiores dramaturgos de seu tempo, é injustamente negligenciada em nossos dias. De leitura divertidíssima, é uma janela para o mundo do espetáculo de então. Cantores, músicos, maestros, empresários e o próprio público não escapam ao olhar agudo e à pena ácida do autor, que apontou más práticas que perduraram por mais de cem anos até os dias de hoje.

Shaw foi, como de costume, profético ao detectar, no parágrafo que serve de epígrafe a este post, um fenômeno novo que começava a ameaçar a atividade de alguns cantores e que atravessaria o próximo século, com reflexos até hoje. Tem a ver, principalmente, com a evolução da orquestra e os espaços onde as mesmas atuam. Para entender como, é preciso desmembrar o problema em três partes, a saber,

a evolução dos espaços onde a música (não amplificada) é executada;

a evolução da orquestra e dos instrumentos que a integram;

as características da voz humana, em especial no que se refere ao canto.

Até por volta do final da era barroca e o início da clássica, toda música ocidental era composta para ser executada por conjuntos que coubessem em salões palacianos, templos religiosos (por maiores que fossem as naves, os executantes deveriam ser acomodados num espaço exíguo correspondente ao que separa um altar dos bancos reservados às congregações) ou teatros de dimensões modestas, com menos de 1000 assentos. A partir do final do século 19, se iniciou uma verdadeira corrida por salas sinfônicas maiores, com 1500 ou mais lugares, envolvendo os melhores projetistas na solução de um problema representado pelo delicado compromisso entre a maximização da capacidade para o público ouvinte e a otimização das condições acústicas para a audição musical. O estado atual desta corrida é uma competição entre  grandes metrópoles pela construção, nem sempre bem sucedida, de espaços sinfônicos cada vez mais perfeitos. Assim, se juntam a cada ano a salas míticas como as de Berlim, Viena ou Amsterdã novos experimentos como os de São Paulo, Paris ou Hamburgo.

Paralelamente ao agigantamento histórico dos espaços para a execução e audição musicais, as tecnologias para a construção de instrumentos também propiciaram grandes avanços ao longo dos últimos século. Os instrumentos de cordas foram os primeiros a se tornar mais generosos em termos de radiação sonora, ainda na era barroca, sob as mãos dos mestres cremonenses. A substituição das cordas de tripa pelas metálicas foi outro passo importante a determinar que violinos e congêneres soassem mais. Depois, durante a revolução industrial, avanços na metalurgia e na tornearia possibilitaram o desenvolvimento de instrumentos de sopro cada vez mais sonoros.

Atingido um certo limite com a otimização do som de cada um dos instrumentos constituintes da palheta orquestral, compositores, passando por Berlioz e culminando em Mahler, trataram de demandar orquestras cada vez mais numerosas. Notem, no entanto, que mesmo a expansão orquestral pelo acúmulo de instrumentos teve seu limite empiricamente determinado pela necessidade musical de que cada instrumento pudesse ser ouvido em solos (i.e., sem duplicações ao uníssono) aqui ou ali sem ser esmagado pelo volume produzido em trechos adjacentes da música em que todos tocam ao mesmo tempo (tutti).

* * *

Neste quadro evolutivo, a voz humana (e, com ela, o canto) permaneceu rigorosamente igual ao longo de toda a história da música. Não é preciso, no entanto, muita argúcia para intuir que, face à intensificação do som orquestral ao longo dos últimos 100 ou 200 anos, cantores determinados a participar da execução de certos repertórios tiveram que, igualmente, “vitaminar” seus dotes vocais. Aí começa, em nosso entender, o problema.

O quadro abaixo ajuda a entender por que a voz humana está em franca desvantagem de intensidade em relação a todos os instrumentos de uma orquestra sinfônica. Lembramos que a representação de intensidades sonoras em decibéis (dB) é uma escala logarítmica na qual uma diferença de 10 pontos corresponde a uma diferença de intensidade da ordem de 100 vezes. Assim, se observa que, enquanto o volume normalmente produzido por uma voz é equiparável ao de um piano, o mesmo é, no entanto, bem inferior (pelo menos 100 vezes) ao produzido por qualquer instrumento orquestral.

A voz articulada – e, como parte dela, o canto – é composta por dois tipos de sons, a saber, vogais e consoantes. O drama enfrentado por todo cantor é que, enquanto a intensidade das vogais pode, até certo ponto, ser aumentada por meio de recursos técnicos e exercício, pouco ou nada se pode fazer pela expansão das consoantes. Ao mesmo tempo, a boa dicção – principal responsável pela compreensão por ouvintes de qualquer texto falado ou cantado – depende do perfeito balanço entre vogais e consoantes.

Tomemos como exemplo o canto na música de câmera, através de seu caso mais emblemático – o lied com acompanhamento de piano, ou mesmo o de um solista vocal numa cantata com uma orquestra barroca. Nestas condições, um cantor suficientemente treinado não terá dificuldade alguma para projetar o texto de seu versos, na plenitude de suas vogais e consoantes, para uma plateia reunida num espaço adequado a tais gêneros musicais.

Deslocando-se, no entanto, este mesmo cantor para um contexto sinfônico, o mesmo precisará se valer de recursos para aumentar a intensidade de sua voz. Com sorte (e boa técnica), conseguirá projetar mais as vogais. Consoantes, no entanto, se perderão pelo caminho.

* * *

Sobre a perda progressiva da relevância das consoantes na história do canto lírico, descrita acima, cabem duas ressalvas.

Primeiro, esta perda relativa da articulação vocal (que é como são chamadas, em música, as consoantes) é muito mais perceptível em audições ao vivo do que na de música gravada, em razão do posicionamento dos microfones – via de regra bem mais próximos dos cantores do que da orquestra – e da mistura dos sinais (mixagem) – que permite aos cantores atuarem bem mais próximos de sua zona de conforto do que em apresentações ao vivo.

Segundo, a perda relativa e progressiva da articulação vocal em razão do agigantamento orquestral não se deu de um dia para o outro. Com efeito, era bem possível que, antes da existência do som gravado, ninguém tivesse jamais ouvido um modo de cantar suficientemente diferente de seu contemporâneo para intuir que não se cantasse sempre assim. Com isto, é razoável supor que a lentidão da transformação e a falta de referências distantes contribuíram para promover a banalização da ininteligibilidade do texto – principal atributo, para ouvintes leigos, do canto lírico como é hoje conhecido.

* * *

Gosto de pensar que a distinção entre o canto lírico e o popular é, assim como aquela entre entre música erudita e popular, uma ideia bem recente. É difícil pensar, por exemplo, em qualquer cantor medieval ou renascentista que não dependesse, para sua sobrevivência no ofício, da perfeita compreensão, por seus ouvintes, de cada palavra que cantasse. Hoje, achamos natural não entender lhufas do que ouvimos em salas de concerto sem recorrer a textos convenientemente impressos entre notas de programa.

Ao mesmo tempo, qualquer ouvinte contemporâneo não habituado ao canto lírico prontamente o desqualificaria devido à ostensiva e já banalizada, entre ouvintes experimentados, ininteligibilidade do que é cantado.

A questão é complexa. Sei que há fatores culturais envolvidos, dentre eles a noção de que há cantores de “voz grande” e de “voz pequena”, e que só os primeiros devem se aventurar à frente de orquestras – a intensidade da voz sendo, no caso, um inquestionável diferencial de qualidade, independentemente de qualquer prejuízo à dicção ou expressão e com o canto promovido, assim, à condição de uma modalidade olímpica. Cabe, então, perguntar por que cantores não podem se beneficiar, como todo grande violonista em concertos ao vivo, do uso de microfones para uma amplificação discreta.

* * *

* Não é nem um pouco raro que cantores e oradores experientes perderem toda a confiança em seus velhos métodos diante de novas e alarmantes condições no que tange ao espaço. Quando isto acontece, começam a balir freneticamente […]. Atores e cantores com vozes pequenas devem lembrar que seu problema é se fazerem ouvir, e de modo algum se fazerem altos. Altura é o pior defeito de qualidade que qualquer voz, grande ou pequena, pode ter.

 

Por que é tão ridículo quanto inócuo criminalizar o funk

Nos últimos dias, ganhou justa notoriedade uma polêmica absurda deflagrada pela chegada ao senado de uma proposta ridícula para criminalizar o funk. Como piada, até que a ideia tem algum alcance, por denotar um consenso entre certos segmentos de que, como diz o nome do site do proponente, “funk é lixo”. Até aí, assino em cima, embaixo e por todos os lados. Mas só até aí. Não quero, neste post, esmiuçar as razões técnicas e objetivas pelas quais tenho o gênero (assim como alguns outros) em tão baixo apreço. Pois este não é um texto de crítica musical.

A proposta de criminalização do funk  é, primeiramente, inócua em razão da impossibilidade de definição, por parte de quem aplica a lei, de qualquer gênero musical. Sim, o senso comum estabelece que qualquer um sabe, afinal, o que é um funk.  Só que, em arte, toda categorização genérica é elusiva, sendo natural a qualquer mente criativa metamorfosear gêneros recebidos em derivações que facilmente escapem, num quesito ou noutro, às melhores definições do modelo original. Considero, então, a proposta natimorta pela própria impossibilidade de aplicação de qualquer lei neste sentido. Seria como a censura, sob a qual e apesar da qual os melhores artistas sempre lograram difundir suas mensagens. Por que não me espanto que o senado perca tempo e energia com isto ? Ora, por que é uma ótima cortina de fumaça para quem vem se dedicando a perpetrar malfeitorias de toda sorte.

Historicamente, outros gêneros musicais, como o samba ou o maxixe, já foram proscritos. Inutilmente. Pois a proibição costuma funcionar como um atrativo adicional. Então, enquanto alguém reconhecer algum valor no funk, ele vai continuar existindo, apesar de qualquer esforço em contrário.

Mas nos atenhamos um pouco sobre a materialidade do funk (impressionante como o juridiquês é afeito a este termo: “a materialidade das provas…”). Para fins de análise, é conveniente, aqui, desmembrarmos o gênero em questão entre letra e música.

Sobre a música, conquanto absolutamente rasa segundo  qualquer critério musical utilizado (me poupem, aqui, de bater na desgastada tecla da “música do homem branco europeu da renascença ao romantismo”), nada pode ser imputado ao funk como socialmente nocivo ou degradante. Se fosse assim, também precisaríamos banir, num mesmo movimento, todo Paulo Coelho, sertanejo universitário y otras cositas más.

É em relação às letras de muito funk que se concentra a maior parte das objeções. Pois é bem comum ouvirmos textos francamente apologéticos à violência, ao sexismo ou ao consumo de drogas. Ora, para tudo isto existem as leis, a polícia e a justiça. A ideia de combater estes problemas proibindo a circulação de mensagens que os incitem é análoga à queima de livros tão cara às grandes distopias, nas quais estados fortes logram eliminar pragas sociais por meio da destituição dos indivíduos de livre arbítrio.

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Ouço, por opção, pouco ou nenhum funk. Achei o pouco que ouvi não repulsivo e desnecessário que fechei meus ouvidos para o gênero. Durante a recente e pertinente campanha contra sua criminalização, acabei tomando contato com algumas vertentes virtuosas do funk, que utilizam sua penetração em camadas sociais mais desfavorecidas para disseminar mensagens de conscientização e emancipação. Mesmo que, em termos amostrais, se trate de uma agulha num palheiro, tais casos são por si só suficientes para legitimar o gênero.

Observando mais atentamente, notamos que, se quisermos isolar o funk virtuoso do funk nocivo (me desculpem os rótulos, tão úteis à presente discussão), devemos desconsiderar o gênero para nos concentrar em seus  autores.  Pois, ainda que o funk seja extremamente diverso quanto à benignidade/malignidade de suas letras, encontramos uma consistência bem maior ao nos debruçarmos sobre os textos de um mesmo autor. Ou seja, é bastante improvável que um mesmo artista exorte a violência numa canção e apele aos bons sentimentos em outra. Deste modo, não se pode dizer que o funk seja, por definição, bom ou ruim. Há, no entanto, inequivocamente bons e maus funkeiros (falo, aqui, tão somente do aspecto poético-literário – pois se a música hegemônica evidentemente empobreceu ao longo das  últimas décadas, tal se deve a um conjunto de fatores que fogem ao âmbito deste texto).

Tendo uma vez discriminado cada instância do funk em relação à sua nocividade social, não cabe, ainda assim, criminalizar sua banda podre. Cabe, isto sim, promover entre a população afetada pelo gênero este tipo de discernimento. Para tanto, é preciso, antes de ignorar, ouvir. E em vez de criminalizar, criticar.

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PS: ao procurar na web imagens para ilustrar este post, me deparei com cenas das mais degradantes que já vi, das quais quem não vai a bailes funk só ouve falar, mas que bem retratam a realidade que faz prosperar uma ideia como a da iniciativa de criminalizar o funk. Optei por poupar leitores do blog de sua visualização. Se quiserem, no entanto, vê-las, digitem no navegador a expressão “baile funk images”. Por que falo isto ? Por que se, por algum canetaço, o funk simplesmente deixasse de existir,  o mesmo tipo de diversão perversa continuaria acontecendo nestes bailes sob outro tipo de música qualquer. O fenômeno do baile funk é, sim, um problema de saúde pública – só que de erradicação bem mais complexa. A música que os embala, no entanto, não mais do que um aditivo intercambiável.

Por que aprendizes de certos instrumentos musicais devem ser precocemente estimulados a desistir

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Chamem a isto, se quiserem, de pedagogia da desistência precoce. Antes de mais nada, deve ser ressaltado, por mais óbvio que pareça, que a prática abaixo descrita se aplica exclusivamente ao ensino superior, para o qual nem todos os estudantes se encontram aptos a exercer uma escolha suficientemente ponderada, mas jamais aos ensinos médio e fundamental, com seus núcleos duros de disciplinas imprescindíveis a todos indistintamente, mais ou menos segundo a premissa de que one size fits all.

Qualquer um que tenha acumulado certa experiência no ensino universitário da execução de um instrumento musical chega facilmente à conclusão empírica de que muitos dos que procuram este tipo de instrução são movidos predominantemente, quando não exclusivamente, por motivações românticas, por vezes fantasiosas, que subestimam ou ignoram o elevado grau de comprometimento que tal aprendizado inevitavelmente pressupõe. Tal atitude inicial simplória em relação à aptidão pretendida acaba se tornando, com o passar do tempo, na maioria das vezes um importante fator de desistência antes que muitos adquiram a proficiência almejada.

Se, no entanto, professores logram oferecer, de saída, uma perspectiva clara e sincera sobre o grau de dedicação envolvido (que muitos, de outra forma, só descobririam depois de muito tempo investido), acabam por propiciar aos aspirantes uma chance privilegiada de desistirem rapidamente de uma opção mal informada – devolvendo, com isto, aos mesmos tempo precioso que poderão, então, dedicar a objetivos mais realistas. Como, por exemplo, instrumentos mais apropriados à utilização da música com outros fins que não o de execução pública, tais como instrumentos de harmonia, como violão ou teclado.

Antes que me executem em público, esclareço ! É claro que os melhores concertistas de violão ou piano tocam de modo tão sublime quanto qualquer solista de instrumentos de cordas ou sopros. A partir daí, nenhuma analogia é possível. Pois, ainda que seja admissível numa ampla gama de atividades artísticas, pedagógicas ou comunitárias se ouvir muitos violonistas e pianistas satisfatórios, ainda que aquém da capacidade de concerto ou camerística; não é, todavia, possível a quaisquer ouvidos sensíveis suportar a audição prolongada (salvo se protegido pela cortina do uníssono) de quem quer que se encontre no meio do caminho na aprendizagem da execução de, digamos, um violino, uma flauta, uma clarineta ou um saxofone. Isto por que alguns instrumentos possuem, por assim dizer, mais vocação pedagógica do que outros cuja ergonomia e complexidade de execução tendem a comprometer o foco na aprendizagem musical.

É claro que professor algum deve sugerir a qualquer aluno que desista da empreitada de apreender a tocar um instrumento, sob o preço de ser justamente tachado de preconceituoso e arbitrário para baixo. Todo aluno tem direito ao benefício da dúvida. Isto quer dizer que ELES – e não seus professores ! – devem, especialmente no início dos estudos, exercer constantemente a dúvida sobre estarem ou não investindo seu tempo de modo minimamente coerente e satisfatório.

Diferentes docentes podem aplicar este princípio de modo distinto. Em meu caso, depois de advertir novos alunos sobre a complexidade da empreitada e a dedicação necessária, lhes pergunto sobre suas fantasias de palco para dali a alguns anos. De cinco anos para os mais afoitos até mesmo dez para os mais zen. Se o sujeito não tem uma fantasia de palco suficientemente desafiadora, lhe desencorajo na hora, afirmando que só uma ambição duradoura de se apresentar diante de um público atento (a tão frequentemente negligenciada dimensão comunicativa da música) é capaz de sustentar a motivação necessária à aquisição da proficiência pretendida.

Aparentemente, tal postura pedagógica estaria longe de ser inclusiva. Pois desestimularia uma parcela considerável de uma população de inocentes que querem antes tocar o instrumento como uma atividade solitária meramente recreativa ou, quando muito, em agremiações musicais onde possam tocar partes em uníssono (para leigos: vários indivíduos tocando a mesma nota ao mesmo tempo). Por outro lado, tal atitude docente desencoraja precocemente aqueles que, pela pura falta de motivos suficientes (i.e., tocar proeminentemente em público), se encontram fadados a não atingir seus objetivos por não suportarem a carga de estudos necessária.

Resta, então, a este professor – ainda que visto por muitos como desestimulante ou injusto – uma classe enxuta, cujos poucos membros costumam ocupar importantes posições em organizações de performance (bandas e orquestras) ou acadêmicas (escolas). Pensem, se quiserem, em otimização de recursos. Ou me tomem por uma espécie de exterminador de futuros. De futuros inglórios, eu diria.

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