Por que é tão ridículo quanto inócuo criminalizar o funk

Nos últimos dias, ganhou justa notoriedade uma polêmica absurda deflagrada pela chegada ao senado de uma proposta ridícula para criminalizar o funk. Como piada, até que a ideia tem algum alcance, por denotar um consenso entre certos segmentos de que, como diz o nome do site do proponente, “funk é lixo”. Até aí, assino em cima, embaixo e por todos os lados. Mas só até aí. Não quero, neste post, esmiuçar as razões técnicas e objetivas pelas quais tenho o gênero (assim como alguns outros) em tão baixo apreço. Pois este não é um texto de crítica musical.

A proposta de criminalização do funk  é, primeiramente, inócua em razão da impossibilidade de definição, por parte de quem aplica a lei, de qualquer gênero musical. Sim, o senso comum estabelece que qualquer um sabe, afinal, o que é um funk.  Só que, em arte, toda categorização genérica é elusiva, sendo natural a qualquer mente criativa metamorfosear gêneros recebidos em derivações que facilmente escapem, num quesito ou noutro, às melhores definições do modelo original. Considero, então, a proposta natimorta pela própria impossibilidade de aplicação de qualquer lei neste sentido. Seria como a censura, sob a qual e apesar da qual os melhores artistas sempre lograram difundir suas mensagens. Por que não me espanto que o senado perca tempo e energia com isto ? Ora, por que é uma ótima cortina de fumaça para quem vem se dedicando a perpetrar malfeitorias de toda sorte.

Historicamente, outros gêneros musicais, como o samba ou o maxixe, já foram proscritos. Inutilmente. Pois a proibição costuma funcionar como um atrativo adicional. Então, enquanto alguém reconhecer algum valor no funk, ele vai continuar existindo, apesar de qualquer esforço em contrário.

Mas nos atenhamos um pouco sobre a materialidade do funk (impressionante como o juridiquês é afeito a este termo: “a materialidade das provas…”). Para fins de análise, é conveniente, aqui, desmembrarmos o gênero em questão entre letra e música.

Sobre a música, conquanto absolutamente rasa segundo  qualquer critério musical utilizado (me poupem, aqui, de bater na desgastada tecla da “música do homem branco europeu da renascença ao romantismo”), nada pode ser imputado ao funk como socialmente nocivo ou degradante. Se fosse assim, também precisaríamos banir, num mesmo movimento, todo Paulo Coelho, sertanejo universitário y otras cositas más.

É em relação às letras de muito funk que se concentra a maior parte das objeções. Pois é bem comum ouvirmos textos francamente apologéticos à violência, ao sexismo ou ao consumo de drogas. Ora, para tudo isto existem as leis, a polícia e a justiça. A ideia de combater estes problemas proibindo a circulação de mensagens que os incitem é análoga à queima de livros tão cara às grandes distopias, nas quais estados fortes logram eliminar pragas sociais por meio da destituição dos indivíduos de livre arbítrio.

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Ouço, por opção, pouco ou nenhum funk. Achei o pouco que ouvi não repulsivo e desnecessário que fechei meus ouvidos para o gênero. Durante a recente e pertinente campanha contra sua criminalização, acabei tomando contato com algumas vertentes virtuosas do funk, que utilizam sua penetração em camadas sociais mais desfavorecidas para disseminar mensagens de conscientização e emancipação. Mesmo que, em termos amostrais, se trate de uma agulha num palheiro, tais casos são por si só suficientes para legitimar o gênero.

Observando mais atentamente, notamos que, se quisermos isolar o funk virtuoso do funk nocivo (me desculpem os rótulos, tão úteis à presente discussão), devemos desconsiderar o gênero para nos concentrar em seus  autores.  Pois, ainda que o funk seja extremamente diverso quanto à benignidade/malignidade de suas letras, encontramos uma consistência bem maior ao nos debruçarmos sobre os textos de um mesmo autor. Ou seja, é bastante improvável que um mesmo artista exorte a violência numa canção e apele aos bons sentimentos em outra. Deste modo, não se pode dizer que o funk seja, por definição, bom ou ruim. Há, no entanto, inequivocamente bons e maus funkeiros (falo, aqui, tão somente do aspecto poético-literário – pois se a música hegemônica evidentemente empobreceu ao longo das  últimas décadas, tal se deve a um conjunto de fatores que fogem ao âmbito deste texto).

Tendo uma vez discriminado cada instância do funk em relação à sua nocividade social, não cabe, ainda assim, criminalizar sua banda podre. Cabe, isto sim, promover entre a população afetada pelo gênero este tipo de discernimento. Para tanto, é preciso, antes de ignorar, ouvir. E em vez de criminalizar, criticar.

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PS: ao procurar na web imagens para ilustrar este post, me deparei com cenas das mais degradantes que já vi, das quais quem não vai a bailes funk só ouve falar, mas que bem retratam a realidade que faz prosperar uma ideia como a da iniciativa de criminalizar o funk. Optei por poupar leitores do blog de sua visualização. Se quiserem, no entanto, vê-las, digitem no navegador a expressão “baile funk images”. Por que falo isto ? Por que se, por algum canetaço, o funk simplesmente deixasse de existir,  o mesmo tipo de diversão perversa continuaria acontecendo nestes bailes sob outro tipo de música qualquer. O fenômeno do baile funk é, sim, um problema de saúde pública – só que de erradicação bem mais complexa. A música que os embala, no entanto, não mais do que um aditivo intercambiável.

Por que aprendizes de certos instrumentos musicais devem ser precocemente estimulados a desistir

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Chamem a isto, se quiserem, de pedagogia da desistência precoce. Antes de mais nada, deve ser ressaltado, por mais óbvio que pareça, que a prática abaixo descrita se aplica exclusivamente ao ensino superior, para o qual nem todos os estudantes se encontram aptos a exercer uma escolha suficientemente ponderada, mas jamais aos ensinos médio e fundamental, com seus núcleos duros de disciplinas imprescindíveis a todos indistintamente, mais ou menos segundo a premissa de que one size fits all.

Qualquer um que tenha acumulado certa experiência no ensino universitário da execução de um instrumento musical chega facilmente à conclusão empírica de que muitos dos que procuram este tipo de instrução são movidos predominantemente, quando não exclusivamente, por motivações românticas, por vezes fantasiosas, que subestimam ou ignoram o elevado grau de comprometimento que tal aprendizado inevitavelmente pressupõe. Tal atitude inicial simplória em relação à aptidão pretendida acaba se tornando, com o passar do tempo, na maioria das vezes um importante fator de desistência antes que muitos adquiram a proficiência almejada.

Se, no entanto, professores logram oferecer, de saída, uma perspectiva clara e sincera sobre o grau de dedicação envolvido (que muitos, de outra forma, só descobririam depois de muito tempo investido), acabam por propiciar aos aspirantes uma chance privilegiada de desistirem rapidamente de uma opção mal informada – devolvendo, com isto, aos mesmos tempo precioso que poderão, então, dedicar a objetivos mais realistas. Como, por exemplo, instrumentos mais apropriados à utilização da música com outros fins que não o de execução pública, tais como instrumentos de harmonia, como violão ou teclado.

Antes que me executem em público, esclareço ! É claro que os melhores concertistas de violão ou piano tocam de modo tão sublime quanto qualquer solista de instrumentos de cordas ou sopros. A partir daí, nenhuma analogia é possível. Pois, ainda que seja admissível numa ampla gama de atividades artísticas, pedagógicas ou comunitárias se ouvir muitos violonistas e pianistas satisfatórios, ainda que aquém da capacidade de concerto ou camerística; não é, todavia, possível a quaisquer ouvidos sensíveis suportar a audição prolongada (salvo se protegido pela cortina do uníssono) de quem quer que se encontre no meio do caminho na aprendizagem da execução de, digamos, um violino, uma flauta, uma clarineta ou um saxofone. Isto por que alguns instrumentos possuem, por assim dizer, mais vocação pedagógica do que outros cuja ergonomia e complexidade de execução tendem a comprometer o foco na aprendizagem musical.

É claro que professor algum deve sugerir a qualquer aluno que desista da empreitada de apreender a tocar um instrumento, sob o preço de ser justamente tachado de preconceituoso e arbitrário para baixo. Todo aluno tem direito ao benefício da dúvida. Isto quer dizer que ELES – e não seus professores ! – devem, especialmente no início dos estudos, exercer constantemente a dúvida sobre estarem ou não investindo seu tempo de modo minimamente coerente e satisfatório.

Diferentes docentes podem aplicar este princípio de modo distinto. Em meu caso, depois de advertir novos alunos sobre a complexidade da empreitada e a dedicação necessária, lhes pergunto sobre suas fantasias de palco para dali a alguns anos. De cinco anos para os mais afoitos até mesmo dez para os mais zen. Se o sujeito não tem uma fantasia de palco suficientemente desafiadora, lhe desencorajo na hora, afirmando que só uma ambição duradoura de se apresentar diante de um público atento (a tão frequentemente negligenciada dimensão comunicativa da música) é capaz de sustentar a motivação necessária à aquisição da proficiência pretendida.

Aparentemente, tal postura pedagógica estaria longe de ser inclusiva. Pois desestimularia uma parcela considerável de uma população de inocentes que querem antes tocar o instrumento como uma atividade solitária meramente recreativa ou, quando muito, em agremiações musicais onde possam tocar partes em uníssono (para leigos: vários indivíduos tocando a mesma nota ao mesmo tempo). Por outro lado, tal atitude docente desencoraja precocemente aqueles que, pela pura falta de motivos suficientes (i.e., tocar proeminentemente em público), se encontram fadados a não atingir seus objetivos por não suportarem a carga de estudos necessária.

Resta, então, a este professor – ainda que visto por muitos como desestimulante ou injusto – uma classe enxuta, cujos poucos membros costumam ocupar importantes posições em organizações de performance (bandas e orquestras) ou acadêmicas (escolas). Pensem, se quiserem, em otimização de recursos. Ou me tomem por uma espécie de exterminador de futuros. De futuros inglórios, eu diria.

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Da enorme vantagem das aulas de instrumentos musicais em grupo sobre as individuais

The Despair of a Mother Teaching Music to her First Born

Torno, como prometido, ao problema das aulas de instrumento musical individuais ou em grupo. Fui ensinado a tocar a clarineta em aulas exclusivamente individuais (salvo raras masterclasses, não mais do que uma ou duas ao ano). Assim, incumbido de ensinar o instrumento, simplesmente reproduzi, de início, o modo como fora ensinado. Com o tempo, terminei por duvidar da eficácia das aulas individuais, uma vez ter se tornado evidente que,

embora alunos não tenham vergonha de tocar mal diante de seus professores

(notem, num rápido exame de memória, como toda aula individual de instrumento começa com uma confissão de menos estudo do que o desejado, seja por problemas pessoais, familiares, sobrecarga acadêmica ou afins; com o tempo, professores passam a esperar cada vez menos de alunos, e vice-e-versa);

sentem, outrossim, vergonha de tocar mal diante de seus pares.

De fato, é tão somente ouvindo rotineiramente as aulas de colegas que alunos adquirem  um sentido de classe e, portanto, de objetivos comuns (preservada, é sempre bom lembrar, a singularidade de cada um !) a serem perseguidos. Outra enorme vantagem de ensinar a uma classe ao invés de por meio de aulas individuais é que, tendo que tocar sozinhos semanalmente diante de uma classe, alunos são precocemente forçados a lidar com a exposição pública.

É importante, aqui, deixar claro estarmos nos referindo a alunos tocando sozinhos ou, preferencialmente, com o auxílio de um piano – mas jamais em uníssono ou mesmo em conjuntos de clarinetas. Cabe, talvez, acrescentar que, ainda que muitos ingressem nos cursos de graduação e extensão com bastante experiência de execução de partes em naipes numerosos, poucos possuem alguma experiência prévia em repertório solo, tanto de recital como de concerto. É deixando claro a todos, por meio da execução de colegas, que nosso objeto de trabalho é restrito a esta última literatura que tantos desistem tão cedo. Mas aí já estou falando de outro assunto prometido, o estímulo à desistência precoce. Melhor deixar para outro post.

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Então. Ao mesmo tempo, me perguntava

até que ponto se deve assegurar a um aluno de uma escola pública gratuita o direito a ter aulas individuais, ao modo de como ainda é feito em grande parte da instrução musical privada ?

Pelas razões acima, entendi que, como professor público, só deveria dar aulas públicas. Mesmo que, por vezes, só para um ou dois alunos. Com sorte, quatro ou cinco. Mas o fato de se ouvirem mutuamente faz com que desistam ou progridam muito mais rápido do que se condenados à monotonia da instrução regular individual.

Pensando mais sobre o custo/benefício de instrução musical grupal X individual, se chega rapidamente à constatação de que aulas individuais são, por definição, muito mais repetitivas do que as em grupo. Ao mesmo tempo, alunos prestam notoriamente mais atenção no que é dito em aulas grupais do que nas individuais. Como resultado, professores mais experientes tendem, depois de certo tempo de prática pedagógica, a convergir para uma metodologia mais programática, prescritiva, “one size fits all”; em prejuízo da escuta clínica que predomina em toda masterclass (aula coletiva).

Sei, no entanto, que a instrução instrumental individual tem defensores ferrenhos. Apaixonados, até. Gostaria muito de ouví-los !

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Primeira aula

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Hoje reencontrei três alunos depois das férias e conheci dois novos. Depois de ouvir os novos e lhes colocar a par de dois princípios pedagógicos basais à classe de clarineta que me é confiada, a saber,

que todas as aulas são coletivas, abertas a todos os alunos de extensão e graduação (mais sobre a ineficácia da instrução individual em música em post vindouro); e

que aderimos ao princípio da desistência precoce (idem),

lhes dei, finalmente, uma tarefa para a semana, enfatizando, na “preleção final”, que tratassem de ser absolutamente intransigentes em relação a ter, logo de início, um som do qual pudessem se orgulhar. Nada daquela ladainha de ir estudando lição após lição até que, meio que por cansaço, se acaba por adquirir uma sonoridade interessante ao instrumento.

Dispensei-os. Qual não foi minha surpresa e alegria ao constatar que os dois alunos que começaram o curso de extensão no semestre anterior retornaram das férias ostentando um som respeitável ! Independentemente do nível de complexidade do que tocavam. Assim, ouvi desde o cisne de Saint-Säens (um extremo de simplicidade) até um chorinho bem cromático e quebrado (algo bem complexo). Ambos, no entanto, com ótimo som. Para completar meu dia, ouvi de um deles, chileno, que, em recente visita a seu país, ouviu de amigos e familiares por lá francos elogios a seu progresso à clarineta. Ganhei o dia.

(jamais esquecerei de um professor de piano secundário que, durante meu mestrado, dizia, sempre que estava prestes a ouvir meus estudos e citando o inesquecível Dirty Harry (criado e vivido por Clint): ” – Go ahead, Augusto. Make my day ! “

Devo acrescentar que este mesmo professor, de alguns dos melhores concertistas do conservatório que, por alguma estranha razão que sempre fugiu à minha compreensão, aceitava ministrar também classes de piano como segundo instrumento a todos que, como eu, lá chegassem com esta lacuna de formação)

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De tudo o que vi e ouvi em aula hoje, o que mais me chamou a atenção foi que, ao recomendar algumas obras que, apesar de seu alto valor expressivo, podem ser consideradas como uma espécie de “grau zero” de dificuldade técnica (para os curiosos: as peças de fantasia de Niels Gade e as cinco bagatelas de Gerald Finzi), vários alunos anotaram as referências em seus telefones celulares. Nunca tinha pensado em usar o meu como um bloco de notas. Ensinar é apreender.

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Eu não queria falar sobre xenofobia, mas…

Logo que conheci o blog Opera e Ballet, de Ali Hassan Ayache, simpatizei com sua prática de replicar textos meus e de outros autores e até com sua militância em favor de muitas boas causas musicais. De modo que dei pouca ou nenhuma atenção às diatribes que lá apareceram contra Marin Alsop à frente da OSESP. Até por sempre ter sido favorável a uma melhor distribuição do poder em instituições culturais (dentre elas as orquestras) entre músicos, maestros, ouvintes, críticos e, vá lá, mesmo patrocinadores. Depois, Lady Alsop dispensa defensores: sua competência e reputação (uma de nada serviria sem a outra) falam por si mesmas.

Então, veio, semanas atrás, a mais explicita incitação à xenofobia que já vi no meio musical. Francamente, quem seria neste país qualquer coisa em música não fosse a contribuição de um ou mais estrangeiros ou descendentes de imigrantes ? Ao ler, estupefato, o ataque endereçado, desta vez, à incrível regente italiana Valentina Peleggi, me limitei a repassar a peça difamatória ao amigo Milton Ribeiro, cuja indignação e maestria verbal se encarregaram de publicizar o ocorrido sem que eu precisasse pronunciar uma palavra sequer. Aqui, a excelente réplica do Milton.

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Até dias atrás, quando a bola da vez do Opera e Ballet passou a ser o spalla da OSESP, o italiano Emmanuele Baldini. De pronto, cutuquei o Milton outra vez – que, no entanto, já tinha dito a Baldini que nada diria sobre o ocorrido, a fim de não dar visibilidade a um ataque tão gratuito – com o que o italiano concordou, apenas agregando que ler um troço daqueles doía (acho que ele não se importará de eu ter revelado isto, principalmente em razão do que escreverei daqui em diante). Dada, então, a sábia reticência do Milton, me coube a missão de tecer este pequeno instrumento de desagravo (da última vez em que fiz isto, me chamaram de puxa-saco).

Vou poupá-los de citar a íntegra do post do Opera e Ballet, destacando, tão somente, duas expressões que saltam aos olhos como grandes disparates, só “deglutíveis” por aqueles que não tenham a mínima familiaridade com a música nem tampouco com o contexto envolvido – a saber, o das orquestras sinfônicas no Brasil e no mundo.

Primeiro, Baldini é chamado por Ayache de “spalla mediano”. Qualquer um que já tenha ouvido o violinista jamais partilharia desta opinião. Em seguida, Ayache declara, com a maior cara de pau, que “Baldini acomodou-se como spalla da OSESP”. Ora, dizer isso é tão absurdo como dizer que Messi ou Neymar se acomodaram a jogar no Barcelona. Ou então (já que falamos de italianos) que algum piloto tenha se acomodado a competir pela Ferrari. Percebem, com isto, o absurdo de se afirmar que alguém se acomodou como spalla da OSESP ? Como é possível se considerar um acomodado quem se encontra no topo de sua carreira ?

É preciso dizer, ainda, em favor da presença de estrangeiros entre nós, que, especialmente em casos como os dos italianos Baldini e Pellegi, pinçados por Ayache como exemplares (num tiro que, felizmente, lhe saiu pela culatra…), sua influência tem um alcance que transcende em muito o âmbito de seu trabalho junto à instituição que os acolhe (neste caso, a OSESP, que ela rege e na qual ele toca numa posição de destaque) – já que ambos perseguem, como missão de vida, oportunidades de compartilhamento de seus conhecimentos em festivais, cursos e programas educativos em nosso país. De tal forma que, sem estrangeiros assim, ainda estaríamos, em áreas tais como a música, em plena idade da pedra.

Então, a frase com que Milton termina seu post de desagravo em favor de Valentina também se aplica perfeitamente ao caso de Baldini, que não deveria ser jamais um problema – mas, antes, um motivo de orgulho para São Paulo.

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Acompanhando de longe a intensificação dos ataques xenofóbicos naquele blog, minha amada Astrid formulou, como sempre, a pergunta crucial: a mando de quem Ali escreve ? Quem paga suas contas ?

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As anotações para este post (e para o próximo, sobre o problema da didática da regência) se amontoaram ao redor de meu PC por vários dias, enquanto aderi à resolução de não escrever uma única linha no blog antes de tocar, na última terça-feira (nem parece que já faz tanto tempo !) a primeira sinfonia de Mahler e, ontem, no lançamento do CD de Leonardo Winter.

Dias antes, quando pensamentos enfurecidos acerca dos recentes episódios de xenofobia ainda dominavam minha mente, Valentina disse ” Vi que vocês vão tocar Mahler 1 !! Fantástico !! Se divirta, tem solos incríveis. ”

Obrigado Valentina ! Obrigado, Leonardo ! Obrigado, Mahler !

Primeiros comentários sob um post sobre as razões de ser das orquestras

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Não é novidade para quem lê este blog que, de uns tempos prá cá, temos publicado, muito mais do que textos originais, comentários derivados dos mesmos. Só que a imensa maioria dos comentaristas ainda prefere comentar posts em redes sociais ao invés de nos sites e blogs onde são originalmente publicados – mesmo sabendo que a permanência do que é dito é muito maior em sites do que em redes sociais (soube, esses dias, que já há uma plataforma, acho que snapchat, que deleta tudo o que nela aparece pouco tempo depois !…).

Então, até como forma de dar continuidade a uma auspiciosa discussão que procurei, com o post anterior, iniciar, resgato, para a permanência do blog e para vossa reflexão, os primeiros e valiosos comentários deixados sob a divulgação do mesmo. Notem que, ainda que sejam apenas dois os comentaristas iniciais, deixaram pareceres qualificadíssimos, vindos de dois universos opostos, mutuamente excludentes – a saber, de um lado, o de quem é profundamente habituado a concertos e, de outro, o de quem precisa viajar 500 quilômetros para ouvir a orquestra mais próxima. Ameaçada, aliás, de extinção por determinação governamental.

Muito obrigado, então, Breno Freire, que ainda não conheço pessoalmente, e Solange Maciel, que conheci no sertão baiano, pelos ilustrativos comentários deixados, abaixo transcritos. Que sirvam de combustível a esta virtuosa discussão. Para que orquestras como a OSBA deixem de ser ameaçadas pela pura ignorância dos ungidos pelo voto.

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Breno Freire Tenho muito para falar sobre isso também. Faltou-me a iniciativa da escrita. Curioso para saber a justificativa da determinada passagem ” orquestras não podem nem devem ser populares nem tampouco (portanto) gerar lucros”.

Augusto Maurer Se orquestras flexibilizarem suas programações a ponto de se deixarem pautar predominantemente pelo gosto popular, deixam de cumprir sua função, que é a de tocar música composta originalmente para elas – correndo real risco de extinção, pois, fora do âmbito da música sinfônica, não conseguem concorrer com alternativas mais econômicas de performance. Por exemplo: por que utilizar uma orquestra num espetáculo de crossover, quando uma banda de rock pode dar conta da tarefa com muito mais economia e eficiência ? Obrigado por se interessar pela discussão !

Breno Freire Augusto, fundamental é falarmos sobre isso ! Se nós, os músicos, não discutimos e tivermos claro em nossas perspectivas os porquês de uma orquestra, estamos perdidos. Vamos lá, entendo seu ponto de vista. porém, ascendo a questão para alguns pontos:

1) Antes de tudo, penso que popularizar não é flexibilização de programação. Popularizar no meu ponto de vista, é tornar o evento economicamente viável para a prática de todas as diferentes categorias de remuneração da sociedade, a ponto de não se excluir público pelas condições determinadas pelo preço. A orquestra é fruto de trabalho humano, e portanto feita por seres humanos PARA seres humanos, TODOS e TODAS devem ter acesso a ela.

2) “gosto popular” – o que é o gosto popular ? Pela sua afirmação parece-me que existe um “gosto popular” que é aquele que é formado pela apreensão “fácil” de músicas ” fáceis” e o gosto “erudito” formado pela intelectualização da apreensão estética. Além de eu não concordar com essa fala, acho que ambos sabemos que um deles é forjado para alimentar uma cultura burguesa distante da realidade total em que vivem os seres humanos. A popularização das entidades orquestrais se dá justamente pela sua prática na sua plena forma do “dever-ser” e para além de uma questão de repertório, fornecer a humanização dos sentidos ao maior número de pessoas, estamos falando de trabalho humano. Se “privarmos” o acesso em decorrência de categorias salariais, vamos entender que a orquestra age como uma propriedade privada na sua forma de expressão plenamente capitalista, na qual a pessoa deve pagar para ter acesso. Sou a favor de caminharmos para custos de ingresso tendendo a zero, e assim a responsabilidade do Estado em comprometer-se com uma entidade que não busca lucrar, mas busca potencializar nas formas mais intensas e complexas, os seres humanos.

3) Repertório – O gosto por Beethoven só vai existir se a pessoa ouvir Beethoven. Mas para isso acontecer, ela precisa adentrar ao espaço do concerto, sentido que aquilo é parte dela, ou seja, que se identifique com a orquestra. Não é o repertório, na minha opinião, o fator determinante para a não potencialização da audição da música. Acho sim, que essas questões residem na esfera capitalista, em sua forma monetária. Pessoas de menor poder aquisitivo não vão, porque não tem acesso ( entenda acesso não apenas como determinação de valor, mas também cultural ) e por consequência, a questão do repertório acaba travestida num ponto que, na minha opinião, não é o dela. Orquestras devem tocar o repertório que para ela foi escrita e as pessoas terão a oportunidade de escolher se lhes agrada ou não, o que vai além de uma determinação de gosto por questões relativas ao dinheiro.

É isso meu camarada, um abraço. Obrigado por compartilhar.

Augusto Maurer Concordo plenamente que orquestras devem ser acessíveis a todos. Sou, no entanto, radicalmente contra a flexibilização por meio da facilitação de seu repertório em nome da ampliação da audiência. Então, parece que estamos de acordo. Mas reconheço que preciso clarear melhor alguns pontos. Tomara que esta discussão frutifique !

Breno Freire Também sou, Augusto ! Não é assim, no meu ponto de vista, que vamos encher as casas de concerto, não com essa falsa sensação de que se populariza por meio da “facilitação” de repertório. Todas as pessoas merecem um Gurre-Lieder, uma segunda de Mahler, um Willy Correa e um Pixinguinha.

Breno Freire Torço para florescer esse debate cada vez mais nos núcleos de música !

Solange Maciel Gosto muito de ouvir uma orquestra, embora onde moro há alguns anos, não tenha sido possível, até o presente momento, apreciar tal evento, e sempre pensei na ideia de acessibilidade das orquestras, mas, confesso, que pensava nessa “flexibilização de repertório”, na minha ignorância, até ler o que o senhor escreveu nessa resposta, professor Augusto Maurer. Realmente, agora entendi esse aspecto e concordo plenamente com o senhor. Essa flexibilização nos impediria de conhecermos um repertório mais vasto e diversificado, sobretudo, elaborado por quem efetivamente conhece uma orquestra. Achei muito interessantes e esclarecedores os seus argumentos.
Ah! E desculpe-me pela intromissão (extremamente leiga!) nesta discussão.

Augusto Maurer Muito obrigado, Solange Maciel, pela intromissão, sempre bem-vinda: com efeito, é só por isso que escrevo, i.e., tentando conversar e polemizar. Só para de me chamar de senhor – ou também vou te tratar por senhora !

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Atualização em 06 de janeiro de 2017: enquanto publicava os comentários acima, me chegaram mais dois, de frequentadores habituais de concertos, expressando opiniões de certo modo contrárias; o primeiro, reivindicando a ampliação do repertório por meio da maior inclusão de obras recentes e populares, com menos repetições; o segundo, advogando justo o contrário, i.e., mais repetições das peças mais populares entre ouvintes em nome da ampliação da audiência. O segundo comentário abaixo também trata com agudeza do problema da amplitude semântica da palavra popular, exigindo – com razão – definições mais precisas, das quais trataremos adiante. Difícil equação, cuja solução ainda não vislumbro. Fiquem, então, por enquanto, com mais estes argutos comentários resgatados da algaravia do facebook. E obrigado, André e Norberto, por se juntarem a esta importante conversa !

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Norberto Flach Tirando as grandes e centenárias orquestras europeias e norte-americanas, quais orquestras sinfônicas são “apenas” sinfônicas? Não têm que fazer parte de um contexto mais amplo, de arranjos sinfônicos de música popular, grupos menores para repertório de câmara, uma ou outra ópera, escola de música etc? É isso, ou a inexistência. (Agora, só aqui entre nós: acho que tem muita música sinfônica do século XX excelente ou pelo menos boa. Quero dizer: muito mais do que o pessoal costuma programar. São ingleses, europeus orientais, japoneses e por aí vai. Mas o pessoal prefere programar pela cagagésima vez aquela música para fogos de artifício).

Andy Serrano sobe esta passagem:

“Se orquestras flexibilizarem suas programações a ponto de se deixarem pautar predominantemente pelo gosto popular, deixam de cumprir sua função, que é a de tocar música composta originalmente para elas – correndo real risco de extinção, pois, fora do âmbito da música sinfônica”

O que me vem a cabeça são duas formas de entender a palavra “popular”…

Uma coisa é a orquestra que interpreta a “música popular”, do tipo “música popular brasileira” ou ” música popular americana”, ou “música popular alemã”, etc… ou seja, peças originalmente não sinfônicas.

e OUTRA coisa é a orquestra ter PEÇAS SINFÔNICAS que sejam do APREÇO POPULAR. (melhor não elencar Karmina nem Bolero pra não reeditar celeumas).

Minha opinião é que peças de apreço popular (e podem ser sinfônicas sim) são porta de entrada para que as pessoas entendam melhor uma orquestra, e passem, consequentemente, a buscar por mais apresentações das mesmas.

E tampouco penso ser isso um “mal necessário” para a orquestra… embora imagine que, depois de tocar a mesma peça tantas vezes, seja um saco também.

Para que servem orquestras ? Por que sua existência deve ser garantida pelo estado ?

batutas-14Já ouvi de uma amiga, eminente economista de inclinação liberal, que é papel do estado assumir direitos dos cidadãos desprezados pelo capital privado. Orquestras, como um dos mais conhecidos e onerosos equipamentos culturais, pertencem a esta categoria. Tanto que as poucas mantidas predominantemente por recursos públicos são constante alvo de projetos de enxugamento por parte de partidos que almejam um estado mínimo. Nessas horas é que mais pessoas se perguntam para que servem, afinal, orquestras sinfônicas. Pergunta difícil, que tentaremos responder abaixo, por partes.

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A primeira e talvez principal razão para a existência de orquestras sinfônicas tem a ver com a execução de um repertório, altamente redundante, predominantemente composto durante um período de uns 200 anos por europeus em sua maioria.

Poucos compositores compõem (cada vez menos) ou compuseram sinfonias. Os bons, pelo menos umas 4; os melhores, raramente mais do que 9 (depois de Haydn ou Mozart (cuja produção juvenil deve ser, para efeito de execução pública, descartada), só aqueles dois russos). De sorte que, se ouço falar de algum sinfonista vivo, fico imediatamente curioso, tratando logo de verificar se o mesmo efetivamente se ergue acima dos ombros de um Mahler, Nielsen ou Shostakovich. Costumo me decepcionar.

Neste contexto, não são poucos os que taxam a música sinfônica de ser, além de francamente elitista (refutaremos esta falácia noutra ocasião), limitada a um repertório fechado e redundante. Têm razão no que toca ao reperrtório. Mas isto não quer dizer que orquestras sejam de modo algum obsoletas.

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Uma segunda razão para a manutenção desses conjuntos musicais, dedicados à execução repetida de um repertório composto quase totalmente no passado, até tidos por uns como dinossauros (não falarei, neste post, de extinção, prevista por alguns, de orquestras como hoje as conhecemos (i.e., fixas) em até 30 anos), é que não se pode conceber a plenitude da audição de um bom concerto sinfônico em um bom auditório a não ser pela própria experiência.

Deste modo, ninguém pode conhecer, de fato, uma sinfonia meramente pela reprodução de gravações da mesma. Isto por que, enquanto na plateia de um concerto ouvimos sons produzidos por fontes dispersas em um espaço contínuo que chegam até nós refletidos por múltiplas superfícies, quando escutamos música gravada ouvimos, na maioria das vezes, sons vindos de apenas duas fontes (quando em estéreo) ou, mais raramente, em até 5 canais (como em algumas salas de cinema). Não é a mesma coisa.

É difícil explicar a quem nunca foi a um bom teatro ouvir boa música tocada por uma boa orquestra por que a experiência é bem diferente de ouvir uma gravação da mesma música nos melhores home theaters. Ainda mais hoje, que chegamos instantaneamente à melhor música sinfônica (as melhores obras pelas melhores orquestras com os melhores solistas e maestros) já está há muito disponível online, em plataformas como o youtube. Só que nenhuma gravação de som ou imagem obtida por meio de qualquer tecnologia conhecida substitui a experiência única de ouvir esta mesma música ao vivo em um concerto. Muito se pode falar da degradação histórica da qualidade de experiência auditiva em espetáculos musicais. Da amplificação eletrônica, do fim do silêncio, do encurtamento das formas. Mais tarde, talvez.

Por hora, apenas deixemos sublinhado que há muitos outros aspectos a serem observados na participação como ouvinte em concertos sinfônicos, principalmente se levarmos em conta a evolução dos espetáculos musicais desde seu surgimento até os dias atuais. Mas, como disse ainda há pouco, so much for one post (mais tarde, quem sabe…) Que fique apenas registrada, por enquanto, a enorme importância, em qualquer época, dos ritos de escuta coletiva, sincronicamente compartilhada.

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O que está escrito acima é uma revisão severa da parte aproveitável de algo editado pela última vez mais de um ano atrás (joguei a maior parte fora). O rascunho foi desencadeado pelo fato de eu ter sido incumbido, ainda antes, numa assembleia de músicos da OSPA, de redigir algo que, de algum modo, esclarecesse à opinião pública para que serve, afinal, uma orquestra hoje. Se demorei, no entanto, para retornar à tarefa – mesmo com sua questão norteadora reverberando incessantemente desde então em minha mente (com efeito, é para mim praticamente uma questão de vida), foi por jamais julgar ter elencado motivos suficientes ou suficientemente bons.

Até uns dias atrás. Por meio do seguinte comentário que deixei sob uma postagem no facebook, respondendo a alguém que acreditava que orquestras devem subsistir exclusivamente do que arrecadam na bilheteria de seus concertos:

Orquestras não pertencem, como muitos devem acreditar, à indústria do entretenimento e, portanto, não podem depender de arrecadações de bilheteria. São, sim, sofisticadíssimos equipamentos educativo-culturais, cuja função é ampliar horizontes estéticos. Se tiverem, no entanto, que depender do gosto do público e da mesmice que o mesmo estaria disposto a pagar para ouvir (para isto existem as mídias comerciais), já não servem mais para nada.

Foi, ao que me recordo, a partir deste instante que me ficou absolutamente claro (como não me dei conta disto antes !…) que orquestras não podem nem devem ser populares nem tampouco (portanto) gerar lucros. Para explicar o por que disto, preciso de um outro post, que já prometi acima, sobre a evolução das plateias de espetáculos musicais. Por enquanto, é suficiente dizer que, por sua pouca afinidade natural ao lucro, orquestras devem ter sua existência, como disse minha amiga liberal, garantida pelo estado. Caso contrário, têm suas atividades corrompidas (como pode ser visto em tantos casos próximos e distantes) ao serem utilizadas, em muitas ocasiões, muito aquém de todo seu potencial artístico.

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Atualização em 25/1/2017: Este texto dialoga diretamente com outro, de André Egg, publicado ontem: A importância de orquestras e sua manutenção. Ele vê alguma contradição entre o que eu disse aqui e quase três anos antes em Políticos demais (iii): anotações para uma reforma política. Obrigado, André, por tocar em frente uma discussão tão importante ! Terei que me puxar para oferecer uma réplica à altura.

Réplica de Fernando Rauber Gonçalves à minha diatribe contra Carmina Burana

orff-1Entendo que um blog cumpra melhor sua função tanto mais quanto seja capaz de provocar ressonâncias longas e lentas. Por longas, me refiro à extensão e à profundidade das réplicas provocadas, enquanto que por lentas, falo do maior intervalo de tempo transcorrido entre o enunciado gerador e a(s) réplica(s).

Assim, só posso me regozijar de que minha casual e improvisada diatribe contra Carmina Burana tenha suscitado não apenas os comentários já citados em post anterior, mas, recém o soube, a inauguração de um blog por um dos melhores músicos que conheço. Concertista e improvisador (vide seu ótimo repositório Breviários Lunáticos !), Fernando Rauber Gonçalves é, além de músico e professor, também programador de videojogos (só para terem uma ideia do grau de nerdice do sujeito) e um pensador arguto sobre tudo o que se refira à musica.

Obrigado, então, por me honrar com a réplica transcrita abaixo – e vida longa ao Caleidosinóptico !

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 Brahms e Carmina: sobre modelos comparativos na crítica musical

“Conversa na qual todos concordam só pode ser de bêbados” já dizia um certo professor. Tivesse eu lido além da orelha de “Raízes do Brasil” (aos imberbes: antes da wikipedia a gente lia orelhas de livros para ganhar erudição instantânea) teria uma citação mais erudita sobre a cordialidade brasileira e nossa dificuldade em discordar. Além disso, citações são bom recursos para estabelecer pretensa autoridade discursiva, tanto mais se combinarem autores hors concours das ciências humanas com outros mais obscuros, sugerindo vasto conhecimento (estrangeirismos em línguas diversas também reforçam a ideia de que fazemos parte do universo dos sabidos).

Após essa pequeno desvio cínico (tldr; desconfie de tudo), sigamos para o motivo da discórdia, um texto publicado pelo amigo Augusto Maurer na ocasião da última apresentação de Carmina Burana pela OSPA. Um pouco de contexto: há tempos acompanho certas discussões no Facebook sobre crítica musical, nas quais é notória uma tensão entre universos distintos: músicos profissionais, diletantes com significativa vivência auditiva e, por vezes, um bom conhecimento musical e ouvintes leigos (geralmente centrados em comunicar suas experiências afetivas com a obra/compositor em questão). Há espaço para todos na conversa de bar feicibuquiana, porém é evidente que existe um vácuo de crítica especializada, que exige um conhecimento mais especializado. Em um cenário de crescente desvalorização das artes no país, o engajamento e a educação do público se torna cada vez mais necessário, antes que nos tornemos uma espécie em extinção (teatros não são erguidos, concursos não são respeitados, fundações culturais são desmanteladas, the writing is on the wall …). Por isso, valorizo a iniciativa de discutir uma obra popular, porém tenho necessidade de fazer uns apontamentos em outras direções.

(um intermezzo: este post desemboca na análise musical – dimensão crítica mais técnica – especialmente por conta da natureza da publicação original do Augusto. Desta forma, boa parte da substância desse post é direcionada para músicos profissionais).

Enquanto peça educativa altamente especializada, considero a crítica do Augusto problemática, pois parte de uma premissa comparativa que julgo inadequada. Maurer questiona o mérito composicional da obra de Orff a partir da ideia das “variações em desenvolvimento” de Walter Fritsch, um importante texto de análise musical que demonstra a riqueza do jogo motívico na obra de Brahms, avançando um pouco as ideias de análise motívica de Rudolph Reti e do conceito Schoenberguiano da grundgestalt (motivo básico, de caráter unificador), em uma concepção musical de viés organicista e estruturalista (música enquanto entidade viva, absoluta e autônoma). Por acaso, gastei umas dezenas de horas da minha vida investigando a utilização desse princípio na obra de Camargo Guarnieri, compositor de domínio composicional – os mais chiques fazem biquinho e chamam de mètier – invejável e que, assim como outros compositores do período entreguerras do Século XX, precisou recorrer ao motivicismo como princípio unificador em substituição aos esquemas de organização tonal dos séculos XVII-XIX (leiam Remaking the Past do musicólogo Joseph Strauss).

Antes de discorrer sobre o porquê deste conceito ser inadequada para a obra de Orff, mais um desvio (adoro eles). Maurer considera Orff um compositor “irrelevante” e Carmina uma obra “pueril”. Pela negativa, aprendemos que existem no mínimo duas categorias de compositores: relevantes e irrelevantes (Greimas grita: quatro), o que explica de certa forma a escolha semântico do termo “mérito composicional”. Buscando entender o que seria o tal do mérito composicional, cheguei a duas possibilidades: 1) mérito composicional enquanto medida de artesanato composicional, ou seja, a capacidade de criar com os elementos musicais a sua disposição e 2) mérito composicional enquanto merecimento, qual seja, o de pertencer ao sagrado panteão de compositores dignos de constarem na programação musical de uma orquestra. O ponto 1 será discutido mais adiante e, sobre o ponto 2, Richard Taruskin, na minha história predileta da música (The Oxford History of Music), explica um pouco a origem da cultura conservadora (“museum culture“) ao redor das sociedades de concerto, e sua predileção pela música dos mestres vienenses já em meados do Século XIX:

But we are facing a potentially grim paradox; for “symphonic” music began growing toward its new plateau of popularity and prestige exactly as its production was falling off. What were all those excellent new professional orchestras playing in their immense new concert halls?

The answer is implied in the statement of aims with which Pasdeloup launched his Société des Jeunes Artistes du Conservatoire in 1852: “to present recognized masterpieces alongside music by young composers.” Pasdeloup’s repertoire consisted of the “Viennese classics”—Haydn, Mozart, and Beethoven—plus Mendelssohn and Schumann (shortly destined to join the rest in the ranks of dead composers), with the works of “young composers” admitted only insofar as they were composed in “classical” forms. The early symphonies of Saint-Saëns and Gounod, mentioned above as conservatory produce, were all that Pasdeloup was at first prepared to admit alongside the masterpieces of the Teutonic dead. These were (in the words of David Charlton, a historian of French music) “among the earliest works in ‘classical’ forms by Frenchmen.Audiences found them delightful, especially Gounod’s. ”  [Leia o capítulo inteiro aqui]

Voltando às variações em desenvolvimento e o problema do modelo comparativo. Ao contrário da música tonal da Brahms, a organização harmônica de Carmina Burana não demanda ou mesmo comporta tal forma de desenvolvimento motívico, e seu modalismo assume centro tonais estáticos, calcado nos modos litúrgicos. O termo modalismo em si é tão abrangente que é necessário algumas distinções em relação algumas possíveis referências dos modos litúrgicos na tradição européia:

a) o modalismo monofônico do cantochão (séculos IX-XI)

b) o modalismo medieval polifônico da Escola de Notre Dame e da Ars Nova

c) o modalismo renascentista, expandindo as forças cromáticas com modificações de sensíveis, bemolizações e transposições

Para os propósitos das considerações que se seguem, é importante ter em vista o sistema modal mais puro presente no cantochão, pois esta é a referência predominante em Carmina Burana (os modos litúrgicos porém com suporte harmônico triádico ou simplesmente por quintas). A base melódica do cantochão consiste em células e esquemas melódicos padronizados, que visam ressaltar a característica expressiva dos intervalos do modo (geralmente através de padrões melódicos cadenciais), exatamente a base melódica de Carmina. Partindo dessa premissa (seja por escolha ou por limitação criativa mesmo), Orff constrói bases harmônicas extremamente simples, por ostinati, quintas paralelas ou tríades. Orff também eventualmente utiliza mudanças de centros tonais e algumas tintas de tonalismo. De forma geral, em vez da direcionalidade modulatória da música tonal como eixo composicional central, o que temos é a possibilidade de variação variação rítmica/métrica, guiada de forma prosódica (aliás, é importante lembrar que o texto da obra tem pés poéticos bastante simétricos e regulares, mais um fator limitante para desenvolvimentos motívicos) ou variação das cores modais, pela alternância dos modos construídos a partir de um mesmo centro tonal (ou transposição dos centros).

Vou improvisar aqui, mas acredito que o próprio tematicismo é consequência direta das características do tonalismo: em um sistema de entidades harmônicas de funções altamente previsíveis e padronizadas, a variedade se dá por meio da modulação e da distância tonal, sendo que o tematicismo fornece um princípio unificador, especialmente em formas musicais mais extensas. A história da forma sonata é ilustrativa nesse aspecto, com seu molde inicialmente binário (geralmente com a repetição de material temático idêntico em outra tonalidade, aliás podemos escutar esse princípio monotemático até mesmo em compositores clássicos, tais como nas primeiras sonatas de Haydn). A medida em que mais hierarquias tonais são adicionadas (mais modulações, expandindo a duração das formas musicais), o tematicismo acaba se tornando ainda mais necessário como princípio unificador. Indo em direção aos limites, chegamos por exemplo no aspecto cíclico dos motivos da sonata de Liszt ou nas developing variations em Brahms (e Schoenberg, que criou um novo universo sonoro livre do tonalismo mas carregando a tradição do tematicismo).

Outra diferença: enquanto que Brahms trabalha com um ideal fechado de obra musical idealizada, intelectualizada e que só pode ser esculpida no papel, Orff trabalha com a simplicidade do modalismo – sistema musical predominante no mundo, especialmente nas músicas de tradição oral, ou seja, aquelas que são transmitidas sem o apoio de uma partitura. Portanto, estamos tratando de universos e ontologias musicais distintas, uma delas nos levando a maior complexidade musical, e a outra buscando engajamento e absorção imediata. Extrapolando um pouco, poderia até dizer que uma delas é centrada no indivíduo (subjetividade, criatividade, dinamismo) e a outra na comunidade (convenções, rituais, acordos, estase). Adorno chegou a pensar nas categorias de “música séria” e “música ligeira”, porém acredito que essas barreiras já caíram e o que precisamos discutir é a substância musical de uma obra de acordo com seus próprios critérios e/ou referências próximas (e por isso a análise musical, que foca na lógica interna da obra, ainda é relevante para elucidar essas questões, não como meio único mas como uma ferramente poderosa de crítica).

Situado o universo harmônico e as referências de Orff, quais seriam modelos comparativos melhores para julgar o artesanato composicional de Carmina em um análise comparativa? Difícil encontrar outras obras que trabalhem dentro desse universo modal tão restrito,mas me lembra do caso de Satie, que emprega ambientes (poli)modais similares com centro fixo, porém fugindo das fórmulas melódicas mais tradicionais empregadas por Orff.

Outro exemplo que muito me interessa é a Musica Ricercata de Ligeti, uma obra extremamente didática na qual ambientes modais são construídos de forma progressiva, através do acréscimo de uma nota por movimento. Aqui temos um excelente exemplo de domínio do artesanato composicional e criatividade que poderia melhor ilustrar o argumento do Augusto. Forçando um pouco a barra até poderíamos enxergar como variações em desenvolvimento alguns dos procedimentos adotados por Ligeti, porém eu não gosto de adaptar o contexto do termo, afinal transposições similares poderiam ser feitas para um número enorme de obra musicais (afinal a variação é o componente central da composição), mas é importante chamarmos atenção para os detalhes: o compositor não está trabalhando com os modos litúrgicos, e o resultado sonoro é repleto de “aliterações” que certamente não se encaixariam com a prosódia do texto de Carmina. Ou seja, novamente são ideias estéticos distintos.

Portanto, espero que com essas referências tenha conseguido explicar porque considero a crítica de amigo atrativa na forma mas problemática na substância. Usando um exemplo ad absurdum seria o mesmo que julgar a qualidade de um rap pelo seu (inexistente) contorno melódico (by the way: meu rap preferido). Ainda assim, o recurso da comparação é muito útil, mais por nos ajudar a evidenciar diferentes concepções do que para elencar winners and losers.

O texto de Maurer prossegue discorrendo sobre a repetição, e novamente acho que desliza na questão do modelo comparativo problemática ao comentar sobre o Bolero de Ravel. Curiosamente, é também uma obra de contornos modais – composta para um balé – cujo fator estruturante é de certa forma o timbre, aliás uma ideia que já havia sido tentada por outros meios em Farben(cores) de Schoenberg, da série de cinco peças orquestrais Op.16.

O assunto da repetição me interessa muito, e está implícito no texto do amigo um certo demérito automático da repetição não-variada (e sua possível associação com a chatice). Pois bem, proporção, unidade e diversidade, recorrência e contraste, são parâmetros possíveis para escutas comparadas enquanto princípios estéticos universais. No aspecto da percepção, a teoria psicológica da gestalt ainda é bastante interessante para entendermos certas ideias estéticas (proximidade, separação, simetria).Em uma perspectiva assincrônica – a obra enquanto unidade abstrata fora da experiência auditiva-temporal – toda repetição é mera redundância que não acrescenta informação, mas sendo a música uma arte do tempo, não só do tempo presente mas também do tempo passado (na cumulatividade das experiências auditivas, seja dos ambientes harmônicos gerais ou de obras específicas e dos afetos atribuídos), a repetição também possui uma função importante no processo de moldar e conduzir as expectativas dos ouvintes e de estabelecer referências internas. E isso talvez explique porque Carmina (e o Bolero) é tão popular: é uma das raras obras do repertório sinfônico que podem ser desvendadas e desfrutadas na primeira audição por ouvintes leigos (e um ouvinte precisa começar por algum lugar, mesmo que nos greatest hits). Me esquivei de dar meu juízo subjetivo sobre Carmina, mas, de maneira geral, nada tenho contra a música fácil, como músico rofissional me sinto na obrigação de entender o maior número possível de possibilidades e estilos musicais, reconhecer suas lógicas e executá-las no melhor de minhas possibilidades. Portanto, apesar de sua simplicidade e monotonia (prefiro esse termo do que chatice), que Carmina continue sendo tocada pelas nossas orquestras, lembrando que também cabe aos músicos/maestros introduzir sutis variações nas repetições, dar contorno e forma ao discurso musical.

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Comentários a um texto sobre o mito da escassez do talento para reger orquestras (on conducting xiv)

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Dias atrás, ao divulgar um post sobre o mito da escassez do talento para reger orquestras, fui, como sempre, brindado com comentários que ampliavam muito minha visão sobre o tema – razão pela qual os compilo abaixo. Como na última vez, optei por deixar a penca de comentários intacta, sem edições.
Obrigado, ilustres interlocutores !
Tudo começou com uma provocação minha a alguns amigos maestros.
* * *

Augusto Maurer O que acham, Emmanuele Baldini, Valentina Peleggi, Fabio Zanon, Lavard Skou Larsen, Tobias Volkmann, Nicolas Rauss, Ricardo Melo, Osvaldo Colarusso, Evandro Matté, Arthur Barbosa, Wilthon Matos, Lincoln Da Gama Lobo, Sasha Mäkilä … ?

Augusto Maurer … Leandro Schaefer, Ubiratã Rodrigues ?

Lavard Skou Larsen Quem? Aonde?

Sasha Mäkilä It is neither. The problem is the uneven distribution of talent – a lot of talented people don’t get enough chances to prove themselves in front of the orchestra, while a lot of untalented people are able to make a career because of political or financial support.

Augusto Maurer I strongly agree, Sasha !

Fabio Zanon Uma vez perguntaram isso ao Lorin Maazel. Ele respondeu: ¨existem três pessoas no mundo hoje que reúnem todas as qualidades para torná-los dignos de subir ao pódio: maestro Karajan, maestro Solti e eu”. Na época, como você deve lembrar, estavam vivos Bernstein, Celibidache, Giulini, Kleiber, para não falar dos mais novos. Para responder à sua pergunta, a gente tem de decidir onde que deve traçar a linha. Quem critica maestros by default deveria experimentar, por uma vez só na vida, subir ao pódio e tentar conduzir um começo de uma sinfonia de Mozart. Não sai nada; a preocupação em mexer os braços tapa os ouvidos, e tudo aquilo que se preparou previamente não resulta muito. Precisa ter uma confiança técnica muito grande ou uma cara de pau infinita. E, mesmo fazendo tudo errado, ainda tem mais chance de sair melhor com que sem maestro. Um maestro que realmente reúne as qualidades todas necessárias para fazer um grupo que já é de alto nível chegar a um nível excepcional é muito, MUITO rara e vale ouro; isso, combinado à necessidade de se colocar um nome e reputação na berlinda frente a um grupo e a autoridades, patrocinadores e público, faz com que os salários subam a níveis estratosféricos, é um pouco como jogador de tênias. As pessoas ainda acreditam que talento para reger é somente facilidade musical, mas, apesar de ser a condição sine qua non, é só o começo da história. Eu cursei regência como segundo estudo numa das melhores escolas que existem, que formou Simon Rattle entre outros, e garanto que, se o sujeito não dominar uma partitura como quem descasca uma banana, não consegue nem passar no exame de admissão. As vagas são muito poucas, as exigências são altas e eles preferem não preencher se não tiver ninguém à altura. Eu vi professor descascar aluno talentoso por não estar perfeitamente preparado e o cara sair chorando da aula; foi para casa, estudou como um escravo e hoje o cara é titular de uma boa orquestra, já regeu Concertgebouw em Amsterdam. Eu não acredito muito somente nessa coisa de contatos, apesar disso ser absolutamente necessário. Quem não é competente está fora do jogo. Se tem alguém genial que fica de fora? Sim.

Augusto Maurer Obrigado pela profundidade do comentário, Fabio Zanon, como sempre ! Já faz tempo que superei a ingenuidade de achar que qualquer um pode reger. Insisto, todavia, que o acesso às oportunidades de instrução em regência ainda estão muito longe de ser universal e isonômico. É claro que grandes maestros são raríssimos. Mas existem muitos suficientemente bons que permanecem desconhecidos mesmo sendo melhores do que a maioria dos que detém com exclusividade ou quase exclusividade as poucas posições existentes.

Fabio Zanon Eu acho que a vocação para regência deveria brotar de uma outra atividade musical. Uma pessoa que naturalmente lidera quando faz música de câmara ou canta, que tem facilidade para compor, que já está acostumada a liderar uma orquestra ou um naipe a partir da primeira estante, que é craque em acompanhar e treinar cantores, enfim, que se excede em mais de um ramo de atividade é aquela que deveria ser encaminhada para reger. O problema é que o que a gente vê com frequência é gente que toca um pouco de piano que acorda um dia e acha que seria bonito ser maestro; entra num curso de baixo nível de exigência e, ao final, bem…todo mundo tem de trabalhar, né?

Lavard Skou Larsen conductor = condom;  with condom = safe; without condom = you enjoy; (sometimes condom explodes….)

Lavard Skou Larsen Violaplayer and concertmaster meet in stomach of conductor!; Violaplayer to concertmaster: “Did he also swallow you???”; Concertmaster:”No, I came from behind…..!!”

Sasha Mäkilä This is a new one! 😀

Wilthon Matos José Milton Vieira

Arthur Barbosa Na minha opinião Augusto, são vários fatores a serem analisados…é uma temática complicada porque não pode ter uma só medida… depende de que tipo de orquestra se fala ( nem tanto pela sua qualidade mas pela sua função ) . Quanto mais orquestras no mundo melhor para a música, melhor para os músicos e melhor para a humanidade, mas assim como só existiu um Carajan, só existe uma Filarmônica de Berlim… lógico que os que fazem música com responsabilidade, tanto músicos, como orquestras e regentes, querem mirar lá no alto, na qualidade absoluta, porém são barrados por suas próprias limitações naturais… mas daí dizer que se eles não forem cópias de Carajan não servem como regentes seria ridículo. Um só exemplo: Na última vez que estive na Venezuela, movido por minha curiosidade, perguntei a um dos organizadores locais do El Sistema: ” com tantas orquestras (quase 500) no pais, como vocês fazem para ter uma formação de regentes de excelência?” …a Resposta foi surpresa pra mim (ou não) : “Desde pequenos já identificamos perfis que se enquadram em ser um regente, mas mais que regentes com “excelência” buscamos regentes eficazes”… ou seja , uma demanda alta fez com que não mirassem em ser perfeito, mas que funcionassem bem com tal papel…Realmente não é fácil, como muito músico acha, se posicionar na frente de uma orquestra , porém acho que todo bom músico deveria ter em sua formação esta experiência, ajudaria a ele como músico e ajudaria a entender um papel diferente do seu na orquestra… Por outro lado algumas castas da música de concerto tentam sim mitificar a função de tal modo que a gente pense que é “rarississíssimo” achar um regente competente, mas acho que parte dessa culpa é do próprio músico de orquestra que muitas vezes não sabe nem identificar e distinguir entre um regente bom, um ótimo, um razoável ou um ruim. Só para ilustrar, esta semana ouvi um grupo de músicos profissionais falando sobre um determinado concerto que tinham feito com um determinado regente recentemente e diziam mais ou menos o seguinte: ” – Foi legal o concerto né? o maestro é meio palhaço, rege fora do tempo, faz macaquices , mas tem seu carisma com o público… e no final a orquestra toca sempre bem …” Ora, nem eles mesmos se dão conta de que tocaram bem porque são excelentes músicos, e que pelo que percebi, o regente mais atrapalhou que ajudou, mas apenas ter carisma resolve, mesmo que o resto ( da parte do regente) seja horrível, e ainda por fim este regente em questão em nenhum momento os ajudou a tocarem melhor, mas atribuem a ele o sucesso do concerto…enfim, enquanto nós músicos de orquestra ( coisa que sou há muito mais tempo que regente ) não soubermos identificar e concluir que um regente que é carismático e palhaço ( ou qualquer outra atribuição “não-musical” ) mas é ruim como regente não nos serve de nada não sairemos desta linha antiga de pensamento que diz “sob a batuda de…” . Abraço

Augusto Maurer Muito obrigado, Arthur, por lançar tanta luz sobre o tema. Em especial com o relato primário de teu mergulho na Venezuela – e pela distinção, às vezes sequer percebida pelos próprios músicos, entre bons e maus maestros.

Augusto Maurer Mais: tocaste num ponto crucial: para que se evidenciem talentos excepcionais, é preciso, antes, implementar e manter estruturas que permitam e fomentem a descoberta contínua e sistemática de talentos suficientemente bons. Pois não existiria nenhuma Fórmula 1 sem as divisões inferiores do esporte, desde o kart; ou, ainda, um Neymar sem centenas de bons jogadores disputando os mesmos campeonatos. De acordo com o que disseste (e como eu suspeitava !), a Venezuela tem feito isto em relação à regência como, suponho, ainda não é feito em qualquer outro lugar do mundo. Talvez por isto a regência ainda seja tida pela maioria como um território para iniciados, muitas vezes de formação nebulosa (felizmente isto já está mudando !), com o acesso ao pódio regulado por desígnios misteriosos para o leigo.

Fabio Zanon Augusto, isso já é feito na Alemanha, na Finlândia, na Áustria, na Inglaterra, na Suíça, até na Itália há décadas. Sim, precisa ser feito e é feito; só não é feito aqui (isso está mudando com os projetos sociais inspirados no El Sistema; o Neojibá estimulou desde cedo um jovem muito talentoso chamado Yuri Azevedo). Eu ouço falar do Daniel Harding desde que ele tinha 15 anos; com 18 ele já regia orquestras profissionais. E o fato é que não existe nenhuma escola que se proponha a formar Kleibers; isso acontece por força da excepcionalidade do talento da pessoa. TODA boa escola de regência tenta formar, antes de mais nada, regentes eficientes. Na Inglaterra, em particular, onde as orquestras são freelancers e tempo de ensaio vale ouro, ser capaz de reger sem ensaiar é uma condicão fundamental pra se começar uma carreira. Francamente, um bom curso de regência é uma estrutura muito cara e as escolas brasileiras não podem se dar ao luxo de manter isso com os números que temos. Por enquanto, vale mais a pena investir num bom preparo teórico precoce para quem é fera e mandar o sujeito estudar fora com 17 anos.

Fabio Zanon Sobre a mítica do maestro, bom… O fato é que existem maestros que mitam! Uma vez, conversando com um músico da Fil de Berlim, perguntei como era trabalhar com o Harnoncourt. Ele respondeu “ah, a orquestra tem um padrão próprio; quando tem um regente médio a gente toca mais ou menos do nosso jeito”. Harnoncourt, médio! Lidar com músicos de alto nível é uma coisa misteriosa, porque, de fato, eles não vão tocar abaixo de um certo padrão. O problema é como motivar ou induzir quem já toca com perfeição a ir além da perfeição. Eu ficava muito impressionado com os ensaios do Giulini, por exemplo, porque ele não falava quase nada; quando dava algum problema ele dava uma instrução em poucas palavras,e seguia o ensaio. Mas, por alguma razão, a Philharmonia soava com ele de um jeito que não soava com mais ninguém; parecia que tinham devoção pelo homem. Aqui na OSESP acontecia algo parecido com o Frank Shipway, um maestro que, aliás, sempre teve problemas de convivência com as orquestras e tinha uma carreira muito inferiro à sua capacidade. E assim o barco anda. Mas o fato é que isso tudo só interessa por mais uns 40 ou 50 anos; a estrutura está mudando completamente. Veja um cara chamado Teodor Currentzis, por exemplo; ele está fazendo um trabalho visionário de construção de grupo no interior da Rússia, com resultados extraordinários. Acho que esse tipo de coisa vai se tornar a norma, descentralizar a responsabilidade artística e enxugar estruturas.

Arthur Barbosa Sobre o El Sistema ser “único” o Fabio já respondeu o que eu ia responder basicamente…

Júlio César Apollo CRO é tão abundante ou tão escassa quanto a competência para tocar clarineta, se for com uma boquilha mansa é um pouco mais fácil. Assim como é um pouco mais fácil reger músicos amistosos. Certamente a CRO não reside no âmbito musical. É muito mais do que competência musical e os colegas aí em cima já disseram bem sobre isso. Eu penso que o que diferencia o solista e/ou o regente, aqueles que ficam em pé na frente, é, entre outras coisas e principalmente, o sangue frio. Ah, e há, também, uma habilidade quase mística de sentir, entender e conduzir a platéia nas costas.

Tobias Volkmann Augusto, todos os grandes regentes ou grandes mestres da regência com quem busquei aprender o ofício na universidade, em masterclasses ou ao menos em uma conversa no intervalo de ensaios (entre eles Kurt Masur, Jorma Panula, Mariss Jansons, Manfred Honeck, Andris Nelsons, Gustavo Dudamel, Herbert Blomstedt e meu mentor Ronald Zollman, entre outros não considerados grandes, mas com muito a ensinar) em algum momento destacaram o seguinte: é indispensável desenvolver a maturidade como músico/intérprete em algum instrumento para ser capaz de assumir a responsabilidade de conduzir o processo de construção de uma interpretação coletiva. Nisso concordamos todos. Porém, o que você define como CRO eu entendo como um conjunto de “Cs” que vem sempre em um pacote com níveis distintos em cada aspirante a regente. Eu, por exemplo, não tive a benção de ter tocado profissionalmente em uma orquestra – o que é uma enorme lacuna que estou até hoje buscando preencher com muita observação e ouvidos bem atentos aos bons músicos experientes – mas cresci cantando em coros, atuei como cantor profissional e estudei instrumentos de orquestra na infância e durante o estudo de regência. Não é o que poderíamos chamar de usual na trajetória de uma formação na área, mas não me impediu de atuar hoje como profissional. Porém, há muitas capacidades a desenvolver, entre elas a cultura geral, línguas, a gestão psicológica de coletividades, a auto-gestão psicológica, o controle do ego, a gestão do tempo de ensaio, o planejamento de trabalho em uma temporada, o conhecimento de repertório, as características específicas de gêneros como ballet, ópera e da música contemporânea e… ah!… ia me esquecendo… a técnica gestual! Tudo isto DEPOIS de uma sólida formação musical. Ainda assim, se um dedicado e esforçado talento consegue desenvolver com um mínimo equilíbrio estas habilidades, a “selva” do mercado musical, que de democrática não tem nada, se encarrega de não oferecer oportunidades suficientes para que um verdadeiro talento tenha mais do que uma ou duas chances. Assim, muitas vezes vale a máxima gaúcha: cavalo encilhado não passa duas vezes!!!

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Sobre o mito da escassez da competência para a regência orquestral (on conducting xiii)

batutas-11Há em todo concerto para escolas o clássico momento em que o maestro empresta a batuta a uma criança sorteada entre as presentes – momento, aliás, da igualmente clássica pegadinha em que fazem o desavisado inocente se mover indefeso diante de uma orquestra que começa a tocar – pasmem ! – uma daquelas danças húngaras repletas de mudanças de andamento. Numa destas, diante da inação do maestro em exercício em interromper alguém que, ouvindo a música, entendera rapidamente qual era a jogada, ouvi de um músico de outro naipe a hilária e emblemática exortação

Interrompe logo ele, maestro – ou vai acabar achando que é fácil !

Ao que, prontamente, corrigi;

Errado: vai acabar descobrindo como é fácil.

Não é preciso ir muito a fundo para perceber que o diálogo acima, conquanto passível de diversas interpretações, denota antes de tudo a proteção ao mito de que a competência para a regência (doravante CRO) seja uma aptidão escassa, i.e., que só uns poucos são aptos a exercê-la. A perpetuação do mesmo talvez se deva ao fato de que a didática da regência orquestral seja, enquanto área ou disciplina acadêmica, um fato ainda muito recente

Deve ser difícil a qualquer instituição de ensino pensar na regência como objeto de um programa acadêmico acessível a muitos. Possivelmente achem que, face ao máximo de tempo semanal que alunos de conservatórios de primeira linha toleram (antes de tudo por causa dos músicos que lhes regem !) tocar em orquestras formativas. Pois a maior parte dos que ingressam em conservatórios ainda quer ser solista. O que é muito bom – pois isto faz deles alunos estudiosos . Tão bom, ao menos, quanto que sejam obrigados, ainda que por imposição curricular, a integrar orquestras acadêmicas durante a maior parte de seus cursos.

Neste quadro demográfico é fácil notar que, nas poucas horas em que uma orquestra acadêmica ensaia (sempre menos, em todo caso, do que a carga semanal de ensaios de uma orquestra profissional !), será possível treinar poucos regentes. Além disto, há quem pergunte por que treinar uma legião de frustrados se as oportunidades de trabalho conhecidas são tão poucas. Não acreditamos que sejam poucas mas, tão somente, mal distribuídas. Só que, em nome da perversa lógica de toda proteção de mercado, já vi um curso universitário de bacharelado em regência orquestral ser extinto.

Em muitos conservatórios são ministradas disciplinas de regência. Só em alguns deles, todavia, há ensaios e aulas conduzidos por grandes maestros. Na falta de orquestras didáticas para todos, é comum que alunos de regência sejam primordialmente treinados “regendo” reduções de partituras orquestrais para um ou dois pianos. Tal problema, o da grande discrepância numérica entre aspirantes ao pódio ou às estantes orquestrais, foi magistralmente solucionado na Finlândia – berço de uma das mais reputadas escolas de regência, praticamente personificada na polêmica figura de Jorma Panula – que declarou, para pasmo e decepção de seus admiradores (alguns dos quais ainda insistem que podia estar bêbado ou, ainda, que suas palavras foram severamente descontextualizadas) que mulheres seriam menos aptas do que homens a dirigir uma orquestra (sic !)

Kiyotaka Teraoka, que estudou na Finlândia, conta que, lá, todo aluno de regência deve obrigatoriamente participar também, como músico, executando um instrumento no qual seja totalmente proficiente, da orquestra integrada e regida por seus colegas. Como única exceção a esta exigência, também são admitidos às classes de regência os pianistas excelentes. Concertistas, no mínimo. É por estas e outras que esses finlandeses estão anos-luz à frente de quem quer que seja na pedagogia da batuta.

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A economia da batuta deve ser intuitivamente vista por muitos mais ou menos como o problema dos técnicos de futebol. Ora, todos sabem que qualquer um que se dispuser a assistir em estádios ou mesmo pela TV disputas travadas entre grandes times se tornará, depois de algum tempo, apto a gritar da porta do vestiário com um plantel a se degladiar. Qual diretoria se atreveria, no entanto, pressionada por uma torcida furiosa, a confiar jogadores caros a alguém sem algum êxito prévio à frente de grandes equipes ? com isto, apenas poucos, de um universo abundante de capacitados (compreensivelmente, em muitos casos, ex-jogadores de expressão) chegam a ocupar os raros postos de trabalho existentes.

(nunca entendi muito bem a função de um técnico de futebol (do mesmo modo, acho, que custei a perceber a de um maestro).

Custo a entender por que raios duas equipes de 11 pessoas que se enfrentam numa arena durante noventa minutos devem ficar, cada uma delas, de algum modo

subordinadas ao comando único de alguém a lhes gritar coisas da boca do vestiário, inaudíveis na maior parte do tempo;

ao invés de, ao contrário,

cada equipe funcionar como uma entidade única e autônoma, orientada por decisões instantâneas tomadas de modo descentralizado (não sei por que suspeito que, na prática, a coisa seja mais ou menos assim) – como, sei lá, por meio da interação entre nodos de uma rede neural.

Falo da diferença entre processos seriais e paralelos. Acho um técnico a gritar e gesticular à beira do campo um troço tão… serial. Mas devo estar, afinal, esperando demais de um esporte organizado.

Na regência orquestral, tampouco é diferente. Na proporção de, ao menos, um pódio para algumas dezenas de estantes, muitas delas para dois músicos)

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O mito da regência orquestral como competência escassa tem, além de, como vimos, a relativa novidade de sua didática como disciplina autônoma, também como razões de sua perpetuação até hoje o protetorado e a proximidade. Já ouviram aquela história de ser a pessoa certa na hora e no lugar certos ? É disto que falo.

O protetorado pode ser mais ou menos descrito como o acesso aos meios (i.e., às orquestras) mediante imposição ou forte recomendação de alguém eminente. Fatores como proximidade pessoal e confiança são sempre determinantes. Dentre os casos conhecidos, podemos citar os de Koussevitzky e Eleazar, Bernstein e Chamis ou, mais recentemente, Masur e Minczuk, só para ficar entre alguns dos que envolvem brasileiros.

A proximidade frequentemente tem a ver com a exposição precoce, pré-escolar e, em muitos casos, familiar, à atividade. Kleiber cresceu vendo o pai reger. Pelo menos até certa idade. Os Wagner são bem conhecidos e, mais recentemente, os Järvi também. E notem que, em famílias de músicos, dentre os mais novos aqueles que tomam para si a ocupação dos pais tendem a superá-los. A propósito, me refresquem a memória: o pai de Bernstein também não foi músico ? De qualquer modo, Bernstein foi o cara certo no lugar certo e na hora certa que, quando faltou um maestro, intrepidamente stepped in. Não desmereço (ao contrário !) nenhuma faceta de sua genialidade (inclusive o talento televisivo que tanto o popularizou !) – mas, fossem os meios de acesso mais… democráticos, por assim dizer, não teríamos conhecido, de sua época, tantos mais Bernsteins ?

Outro exemplo, já esquecido, de um cara que teve o atrevimento de saltar à frente quando, na última hora, precisaram de um regente foi o de um trombonista baixo que assumiu um concerto na Alemanha. É certo que não deve ser nenhum gênio. Mas, de tanto ouvir a música, a conhecia bem. O mais provável, então, é que, dada a escassez de partes compostas para seu seu instrumento (os trombones só comparecem em Beethoven a partir do último movimento de sua quinta sinfonia !…), estivesse ocioso quando o dever o chamou. Então, despretensiosamente, isento de qualquer vaidade, encarou a bronca em nome de um show que tinha que continuar. Colegas devem ter brindado a ele depois. Com razão. Mais entusiasmados podem até achar que, na ocasião, se revelou um grande talento dormente. Prefiro pensar que o episódio tenha muito mais a ensinar. A saber, que a CRO é uma competência enormemente mais abundante do que comumente se pensa. Esta é, no entanto, uma verdade bem inconveniente para alguns.

Nenhuma indústria – em especial a do entretenimento – jamais soube nem teve qualquer interesse em aceitar premissas de que certas competências gerenciais (como muitos ainda entendem a regência orquestral) sejam disponíveis abundantemente. Isto se dá por que a preservação de mitos de competência escassa tenham, na maior parte das vezes, a ver com a maior concentração de lucros.

Outra anedota bem popular (como aquela, factual, com que iniciamos este post) que, olhada a fundo, também remete diretamente ao mito da CRO como uma competência escassa é a de que” ninguém deveria reger a nona sinfonia de Beethoven pela primeira vez. ”

Os mitos de escassez são vitais ao ideário capitalista e, portanto, onipresentes na maior parte dos ambientes corporativos. Pois há, em toda grande organização, muitíssimos postos mais monótonos e menos especializados e, ao mesmo tampo, cada vez menos postos gerenciais à medida que se sobe na pirâmide administrativa. Desgraçadamente, a formulação encontra fáceis analogias na natureza (um filé e tanto para os crédulos !), como nos casos de abelhas-rainha e tais, de modo que tudo conspira para reforçar a crença que seja normal ou natural, para líderes ou gestores de toda espécie, saber mais que seus subordinados.

Mais. Toda indústria de entretenimento anterior à web (brodcasting, media oriented) sempre endossou, explícita ou implicitamente, em qualquer de suas ações, o culto à celebridade – categoria à qual pertencem, além de muitos políticos, executivos, cantores, atores, jogadores e até técnicos de futebol, também, “naturalmente”, os maestros. Eram conhecidíssimos, por exemplo, o apreço e os favores de executivos japoneses a Karajan. E não há guru ou coach corporativo que não ame a metáfora da orquestra como modelo organizacional perfeito.

(difícil, neste cenário, se livrar do estigma de que orquestras funcionem, essencialmente, subordinadas a um protocolo de comando altamente centralizado)

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Praticamente todo bom regente é ou foi, antes de empunhar a batuta, um músico, senão de grande expressão, ao menos completamente proficiente. Os casos são inúmeros, desde Rostropovich, Levine, Ashkenazy, Barenboim (que, para a decepção e desespero de alguns fãs, surpreendentemente se declarou contrário a que músicos orquestrais se sentissem empoderados em relação a assumir o pódio) até brasileiros como Zanon ou Minczuk ou, ainda, membros de destaque de orquestras prestigiosas como Baldini (spalla da OSESP) ou, até (não é piada !), o spalla de violas (!) da Filarmônica de Berlim (Lebrecht disse, tempos atrás, que Sir Rattle o deixou dirigir um concerto antes de se aposentar !…). Até de Karajan ao piano há filmes.

Todavia, como bom cético que sou, sigo no aguardo de vir a conhecer ao menos um caso de um bom regente que não é ou tenha sido, antes, um ótimo musico. Se alguém ainda duvidar disto, é só perguntar para qualquer virtuose que, por razões de saúde, idade, vaidade, finanças ou outras quaisquer, tenha optado, a partir de certo momento de sua carreira, por também atuar como regente, o que levou mais tempo para aprender: se

a tocar seu instrumento ou

a reger uma orquestra ?

Ou, ainda,

a tocar um concerto como solista ou

a reger uma sinfonia ?

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Apesar de importantes progressos na aceitação de que a CRO é muito mais abundante do que até há pouco tempo se supunha, a indústria ainda trabalha primordialmente com a hipótese de que tal habilidade seja bem escassa, a ser prospectada apenas entre uns poucos. Accordingly, posições de destaque ainda são ocupadas por uns poucos.

O que, no entanto, a maioria não percebe é que, conquanto um Dudamel ainda seja tratado pela indústria como um caso isolado de talento excepcional, não é difícil perceber que ele só emergiu por força da existência, num dado contexto (a saber, o célebre El Sistema, da Venezuela), de uma necessidade muito acima da habitual de sujeitos aptos a reger orquestras sinfônicas, no qual ele foi prospectado e prosperou. Só que, como ele, há, muito provavelmente, muitos. Como Payarez, Allondra e outros ainda por serem descobertos.

O ponto onde quero chegar é que pódios mais numerosos e rotativos revelariam, por definição, mais maestros suficientemente bons do que todos os que atualmente conhecemos. Se no, entanto, o acesso aos pódios orquestrais ainda é tão restrito, tal se deve exclusivamente à manutenção de privilégios indevidamente adquiridos.

Não canso de dizer, neste blog e no facebook, que devemos nos engajar, entre outras coisas, numa cruzada pela substituição do mito de que a CRO seja uma competência escassa pela ideia de que a mesma é abundante. Nesta índole, todo programa de treinamento com livre acesso é extremamente bem-vindo. Como, por exemplo a academia de regência da OSESP, dirigida por Valentina Peleggi, onde o acesso universal e isonômico às disputadíssimas vagas é garantido por um rigoroso processo seletivo regulamentado por edital público.

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