Para que tanto excesso ?; ou Da ignorância voluntária

Certa vez um cunhado meu, renomado economista acadêmico da UFRJ, em vias de se aventurar no mundo empresarial, no segmento de alimentos, me perguntou qual eu escolheria dentre uma pizzaria de menu sucinto, com uns poucos sabores, e outra que oferecesse uma grande variedade de opções. Para sua decepção, escolhi recorrentemente aquela que oferecia menos pizzas diferentes, alegando que o excesso de opções não servia mais do que para distrair os clientes – o que representava, para mim, uma sobrecarga desnecessária no processo de escolha, o qual, num estabelecimento decente, não precisa ir além de alguns clássicos como napolitana, margarita, calabresa ou anchovas. Vá lá, tomates secos com rúcula. Mas gourmetizações de toda sorte, com salmão, bacalhau, mel, queijo brie  e afins, além das famigeradas pizzas de coração de galinha e estrogonofe (eca !), são, para mim, um engodo.

Meu cunhado professor de economia acabou abrindo uma pastelaria, com não sei quantos tipos de pastel e que existiu no Leblon por não sei quanto tempo. Do episódio de sua indagação filosófica sobre a variedade do cardápio e sua frustração ante minha preferência, testada de vário modos, por um menu mais sucinto, permaneço até hoje com a impressão de que, para a economia tradicional (aquela que adota o mercado como régua ideal para tudo), mais opções de consumo é sempre desejável. Este texto tem por finalidade afirmar o contrário.

* * *

E já que começamos falando em comida, olhemos mais de perto como se comporta a gastronomia em relação à variedade.

A cozinha clássica é fundada sobre um repertório bem delimitado, tendendo ao finito, de combinações de ingredientes. Assim, podemos pensar em muitas sopas, cujas bases se constituem em batatas (o caldo verde), ervilhas, aspargos, abóbora, repolho (kapuzta) ou beterrabas  (bortsh), entre outras. É claro que as carnes e os temperos podem variar em cada versão familiar, mas ai do cozinheiro que, inadvertidamente, ousar misturar quaisquer dos ingredientes acima, mascarando suas identidades.

O mesmo ocorre com o sushi, cuja versão original exclui inovações ocidentais como o acréscimo de cream cheese, morangos ou coisa que o valha. Então, não é por acaso que reality shows culinários, tais como o Mastercheff, repousam sobre a criação, pelos aspirantes, de combinações inusitadas de velhos ingredientes. Nestes programas, os processos culinários são quase sempre ofuscados pela originalidade da mistura.

O segmento onde a multiplicação capitalista da oferta se manifesta com mais veemência é o da moda – que, além de induzir alguns a possuir uma grande variedade de peças de vestuário, os leva a trocar de guarda-roupa de tempos em tempos, sob o preço de, caso contrário, parecerem de algum modo ultrapassados. O caso mais emblemático deste estado de coisas é o de mulheres que precisam ostentar um vestido novo a cada festa. O fato de que homens não estejam, geralmente, submetidos ao mesmo “código” de vestuário permanece um dos grandes mistérios dos estereótipos de gênero.

* * *

Desgraçadamente, a música, o cinema e a literatura foram as modalidades artísticas melhor absorvidas pela praga da indústria do entretenimento – principal responsável, ainda que de modo espúrio, alheio à própria vontade, pelo surgimento, entre as obras de arte, da noção do supérfluo, irrelevante ou descartável.

Não sendo um leitor “profissional”, como um crítico, nem sequer compulsivo, interessado pela maioria das novidades editoriais, divido minhas leituras em dois grandes grupos. De um lado, títulos consagrados, de ficção ou não, contemporâneos ou datados, “históricos”; noutras palavras, o que se convencionou chamar de grande literatura. De outro, livros escritos por amigos.

Muitas vezes abandono leituras antes de chegar ao fim. Em favor de meus amigos literatos, posso dizer que não lembro de, em tempos recentes, ter abandonado a leitura de alguma de suas obras, e que isto tem mais a ver com a qualidade de seus livros do que com nossa amizade. Por extensão, concluo que exista, para além de meu círculo de amizade, uma vastidão de novos autores interessantes cuja obra jamais chegarei a conhecer. Isto pode ser tido como um dos grandes males do excesso de autoria em que somos imersos. Ou não. Não sei ao certo.

Toda a literatura restante é por mim relegada a um imenso limbo com o qual não travarei, no restante de meus dias, qualquer contato – sem me sentir, com isto, de modo algum irremediavelmente ignorante por isto nem tampouco culpado por tal atitude. Tal ignorância é  ruim ou indesejável ? Também não sei. Torno a isto ainda neste post

* * *

O tempo disponível durante uma existência humana para a fruição de livros, filmes e música é limitado, variando de acordo com cada indivíduo e sua etapa  de vida. É, no entanto, evidente que, mesmo no caso de bibliófilos, cinéfilos e melômanos vorazes, ninguém tem tempo para conhecer tudo o que já foi produzido. Daí a pergunta:

qual a importância de alguém, mesmo um “especialista”, conhecer, de fato, tudo o que está a seu alcance ?

Tudo bem que redes de recomendação dependam, para seu bom funcionamento, de curadores oniscientes. Mas e se nossa biblioteca, playlist ou coleção de filmes vistos mais de uma vez se estendesse a um conjunto dramaticamente menor de opções do que a totalidade de tudo o que se filma, compõe ou escreve, seríamos, necessariamente, mais estúpidos e/ou menos felizes ?

Eis, outra vez, a pergunta que não quer calar. Retórica, é claro, apenas à guisa de provocação.

* * *

Duas “novidades” da indústria do entretenimento são as séries televisivas e as plataformas de streamming de música e filmes.

Dizem que até há séries boas. O que, todavia, não é suficiente para eu me interessar por elas. O problema é o tipo de contrato que se estabelece entre uma série e seu espectador. Para melhor entendê-lo, tomemos, por contraste, a experiência de se assistir a um filme comum. Nele, podemos, ao cabo de umas poucas horas, impregnar no imaginário uma história com começo, meio e fim. Mesmo naqueles com finais abertos, antíteses dos whodunits policiais. Já em séries somos convidados a reencontrar, ciclicamente, as mesmas personagens a postergar indefinidamente um gran finale que jamais acontece. Pois séries apresentam, invariavelmente, dois tipos de desfecho, a saber,

enquanto a série em questão tiver bons índices de audiência, se pode apostar com segurança numa nova temporada, com os mesmos heróis e situações requentados;

se, ao contrário, a série não der muito Ibope, é abortada ao fim da temporada corrente, ainda que, para alguns aficionados, com um amargo gosto de quero mais.

Nas duas hipóteses, séries se constituem, no máximo, em esforços bem sucedidos para preencher com estímulos externos o tempo disponível para entretenimento de cada um. O preenchimento de todo o tempo e de todos os espaços disponíveis, ainda que com coisas e conteúdos descartáveis, é um dos pilares do consumismo.

* * *

Quanto às plataformas de streamming, o maior problema é sua notória hostilidade a conteúdos perenes mais antigos. A revista Newsweek já se ocupou da escassez de títulos clássicos no Netflix. Em meio à profusão de lançamentos que em poucos meses serão esquecidos, é impossível encontrar, por exemplo, um único Hitchcock. A exclusão é a mesma até se considerarmos cinematografias mais recentes. Quando quis mostrar a um de meus filhos Fargo, uma Comédia de Erros, dos irmãos Cohen, não encontrei o filme no Now nem tampouco no Netfix.

Ao mesmo tempo, já não dispomos de uma rede decente de videolocadoras. É, pois, possível se afirmar que, dados os atuais meios de exibição, a memória cinematográfica está morrendo. Ou, quando muito, foi relegada a círculos especializados.

* * *

E chegamos, por fim, à música. A esmagadora maioria do que se produz hoje pertence a um segmento, o pop, para o qual careço de conhecimento e, portanto, competência para apreciar. Por isto, tenho que me debruçar sobre coisas mais antigas tais como o jazz ou a música sinfônica.

A sinfonia é um território pouco populoso, evitado por compositores casuais, dada a grande complexidade tanto da escrita para o conjunto de instrumentos (a orquestra sinfônica) para o qual é composta como das formas nas quais se realiza.

O marco do primeiro movimento da Eroica (terceira das nove sinfonias de Beethoven), com seus 15 minutos de duração. Ora, são raros os compositores, de agora ou de qualquer época, capazes de sustentar por tanto tempo o interesse em torno de um todo inteligível (i.e., que permita ao ouvinte reconhecer, a cada instante da audição, em que parte do “percurso” se encontra).

Mesmo neste campo rarefeitamente  povoado, que inclui não mais do que umas poucas centenas de obras, é bem questionável até que ponto vale a pena conhecer tudo “em extensão” ao invés de, ao contrário, se ouvir repetidamente algumas poucas obras seminais.

No jazz não é diferente. De que vale se ouvir tantos pianistas, por melhores que sejam, depois de ouvir tudo o que se conhece de Bill Evans ? É claro que toda curiosidade é por si só virtuosa, nada invalidando a nem sempre prazerosa tarefa de se conhecer algo novo, já que a taxa de gratificação da escuta exploratória é sempre muito baixa. Coisa para especialistas, que precisam ter uma visão “plana” de campo para poder oferecer recomendações confiáveis.

Assim, frequentemente me pego reouvindo aqueles três álbuns de Oliver Nelson com Eric Dolphy, contemporâneos menos célebres do Kind of Blue, que nunca foram superados por qualquer coisa que tenha vindo antes ou depois.

Essas coisas me remetem sempre a uma asserção de Paulo Moreira, numa audição comentada sobre Bill Evans no Instituto Ling, segundo a qual todas as possibilidades parecem já terem sido experimentadas – não havendo, portanto, qualquer espaço para o surgimento de novos gênios e restando aos criadores atuais não mais do que exercitar, em releituras e interpretações, as descobertas de um punhado de inovadores históricos. Pessimismo ? Acho que não. Realismo, talvez.

* * *

E como tudo tende à repetição, com novas elaborações sobre velhos temas, recorrentes, admito já ter me ocupado neste blog, ainda que como temas colaterais, com o excesso autoral, a importância da curadoria (aqui e aqui), a falta de memória do streamming, reality shows (aqui e aqui), o fim da genialidade (aqui e aqui) e os três álbuns de Oliver Nelson com Eric Dolphy, dos quais devo tornar a falar em breve.

 

Por que considero Ah Um (1959), de Charlie Mingus, um álbum superestimado

Soltei no facebook, sem explicar as razões, que acho Ah Um, de Mingus (1959) um álbum superestimado. Em consideração à atenção de uns poucos que vierem aqui em busca de esclarecimento sobre a ao menos inusitada afirmação (posto que praticamente uma blasfêmia para qualquer mingófilo por se tratar, afinal, de um disco icônico), vou diretamente ao ponto.

O principal problema da outrossim excelente da música de Mingus é não ter encontrado, em grande parte das vezes, sua melhor expressão nos conjuntos em que o compositor atuava como contrabaixista. Ouvir Mingus em 1959 dá a nítida impressão de que ainda estavam por surgir músicos que plenamente realizassem sua música. Tudo bem que Dannie Richmond, seu fiel escudeiro, já estava lá  (pensem em quantas vezes Bill Evans trocou de baterista…). E Jimmy Knepper. Mas caras da estatura de um Eric Dolphy permaneceram com Mingus por muito pouco tempo.

Naquela época, improvisadores mais exponenciais orbitavam ao redor de Miles. Se pode até especular sobre como a excelente música de Mingus, que não deve nada a de Miles, teria se popularizado se o primeiro contasse com improvisadores como Cannonball ou Coltrane. Mas voltemos ao Ah Um.

O início do álbum é promissor, com uma das mais potentes composições de Mingus num arranjo vibrante, de um tipo aberto, consistindo em partes livres  (neste caso o trombone) sobre outras predeterminadas. É precisamente isto que dá aquela impressão de “baguncinha” ou caos controlado tão cara ao estilo de Mingus. Só que, na hora da entrada de um solo rasgando… nada. Só a base. E os riffs, é claro, de quando em quando. De pouco adiantam os gritos de Mingus – como que, sei lá, tentando acordar algum solista – que finalmente comparece, hesitante, com algumas notas longas e indecisas.  Em minha modesta experiência auditiva, não me parece que fosse esta, nem de longe, a intenção do autor. Aquilo é, sem sombra de dúvida, a cama perfeita para um solo vertiginoso. Só que, infelizmente, Dolphy, Bird, Trane ou similares não estavam ali. Então, não consigo ouvir o Ah Um a não ser como uma coisa incompleta, à qual ainda falta uma voz principal.

(é bem provável que, neste ponto, alguém diga que estes “buracos” no arranjo fazem parte da linguagem de Mingus, sutuada fora do alcance de minha compreensão rasa. Pode até ser. Mas evidências como as mesmas músicas tocadas por formações posteriores ou mesmo póstumas depõem em favor do que acho)

Percebem o problema de timing a que me refiro ? Sobre o cara certo estar no lugar certo na hora certa ? É perfeitamente razoável se afirmar que a música de Mingus muitas vezes só encontra sua melhor expressão depois que o autor deixa de atuar como músico em suas bandas. Como, por exemplo, nas raras e espetaculares gravações, ao vivo e em estúdio, da Mingus Dinasty ou da Essential Mingus Big Band, bandas memoriais dedicadas à preservação do legado de Mingus. Ou então nas sessões de gravação que Mingus acompanhou já numa cadeira de rodas. Ou, ainda, na colaboração com Joni Mitchell.

Falando em Joni, avancemos à segunda faixa de Ah Um, a balada Goodbye Pork Pie Hat, dedicada por Mingus a Lester Young, com versos escritos pela cantora, com alguma licença, sobre a linha improvisada pelo saxofonista no Ah Um. A versão de Joni dá de dez no original. Digam se exagero: preferem esta versão ?

Ou esta ?

Outro problema de Mingus em 1959 é uma certa falta de impulso em suas tradicionais “canções de batalha”, como Fables of Faubus ou Better git it in your soul. Agravada, talvez, pelo andamento excessivamente lento. Estou enganado ? Mingófilos e mingólogos que me corrijam !

* * *

Quinze anos depois, Mingus já encontrara sua banda. Já havia, por exemplo, em Changes One & Two, pianistas como Don Pullen e Bom Neloms e horns como George Adams e Jack Walrath. Os espaços privilegiados destinados ao improviso não passavam mais em branco. Mas, como nem tudo é perfeito, já na segunda faixa de Changes One, nos deparamos com um erro de mixagem grosseiro. Como se tivessem cortado o microfone da voz principal (a trompeta, no caso). Não me perguntem como isto acontece num lançamento de uma grande gravadora. Está lá para que quiser ouvir. A falha gritante me faz supor que álbuns de jazz e outros não eram auditados na íntegra, mas só por amostragem, antes de serem fabricados e distribuídos. Um dos casos mais gritantes em que faixas desastrosas passaram pelo crivo de executivos fonográficos é este:

* * *

É, como já foi dito, nos álbuns póstumos (como os de Mitchell, da Mingus Dinasty ou da Mingus Essential Big Band) ou quase (como aqueles cuja gravação Mingus acompanha de uma cadeira de rodas) que toda a força de sua música se realiza plenamente. Em 1978, um ano antes de sua morte, Mingus, cuja música inovadora o excluíra pela maior parte de sua vida do mainstream do jazz, gozava, finalmente, da reputação de um dos maiores, senão o maior, dos inovadores vivos. Com isto, era natural que os melhores daquele tempo o cercassem em busca de, algum modo, colarem suas imagens (e discografias !) à dele. Resulta que Something Like a Bird (1978) foi gravado por um dream team. Particularmente, raras vezes ouvi um saxofonista com a desenvoltura do outrossim desconhecido George Coleman. O disco conta até com a participação, pasmem, do guitarrista Larry Coryell.

Nos álbuns do Mingus Dinasty, “modernos” atrevidos como Joe Farrell e Randy se amalgamam a veteranos dos combos de Mingus como Richmond, Knepper e Pullen para injetar vida nova em sua música. E o que dizer, então, do álbum Mingus, de Joni ? Prá começo de conversa, há Jaco Pastorius. O que define, no entanto, a qualidade quase sempre superior das versões de Joni em relação às originais de Mingus é a intensidade expressiva – que se deve, repito, antes ao pouco alcance dos solistas do que a qualquer deficiência das composições, excelentes e irretocáveis.

* * *

Atualização: saindo em busca de videos para ilustrar este post, particularmente da versão de Goodbye Pork Pie Hat em Ah Um, me deparei com esta, que confundi com o que procurava. Estupefato com a profundidade e proficiência do saxofonista, descobri tratar-se de um obscuro Seamus Blake da (!) Essencial Mingus Big Band, num disco lançado em 2001. Nenhum saxofonista chegou sequer perto disto em gravações de qualquer combo de Mingus.