O parênteses do filme (ii): a fotografia antes e depois das câmeras digitais

Meus parcos leitores devem ter estranhado quando chamei meu texto saudosista sobre o Technicolor de O parênteses do filme. Então, explico. A denominação foi copiada da instigante formulação, por intelectuais escandinavos e da qual sempre torno a me ocupar neste blog, do Parênteses de Gutenberg, segundo o qual nossa cultura que repousa sobre a palavra impressa se trata não mais do que de uma interrupção, de uns poucos séculos, na história da comunicação humana. De acordo com esta teoria, a era da textualidade seria não mais do que uma interpolação, a partir de Gutenberg e até mais ou menos nossos dias, entre uma oralidade primária, anterior, e outra secundária, a partir de agora.

Do mesmo modo, o registro de imagens, estáticas (fotografia) ou em movimento (cinema) sobre superfícies transparentes tratadas quimicamente (inicialmente placas de vidro; depois, filmes flexíveis de acetato) já pode ser considerado um processo rigorosamente datado, com ascensão e declínio confinados aos séculos 19 e 20, ao fim do qual a tecnologia foi rendida obsoleta pela captura e armazenamento de imagens em meios digitais transitórios (discos magnéticos (HDs) e memórias sólidas).

A substituição dos filmes fotográficos pelas imagens digitalizadas já é uma realidade irreversível. Mesmo que ainda existam filmes fotográficos à venda (num número reduzidíssimo de estabelecimentos, se comparado à imensa oferta de outrora), facilidades para seu processamento são ainda mais raras. Para tanto, contribuiu decisivamente a enorme diferença de custo entre os dois processos.

Há, no entanto, outra diferença, um pouco mais sutil, entre a fotografia analógica (como passou a ser chamada aquela que utilizava filmes com emulsões químicas) e a digital.  Trata-se da nova facilidade do ato de fotografar e filmar. Pois se anteriormente um fotógrafo, antes de registrar uma imagem, tinha que antecipar imaginariamente o resultado, lhe sendo permitido, na melhor das hipóteses, capturar no máximo 36 exposições (com os outrora populares filmes de 35 milímetros), hoje qualquer um com uma câmera digital pode tomar centenas ou mesmo milhares de imagens sem qualquer interrupção para troca de filme. Mais. Se antes um fotógrafo precisava esperar o trabalho do laboratório para conhecer o resultado obtido (oscilando entre algumas horas, no caso de ambientes profissionais como redações jornalísticas e estúdios publicitários, e vários dias, nos laboratórios comercias então à disposição de amadores), os novos equipamentos permitem ao usuário a visualização imediata de cada foto tirada e até seu descarte sem ônus algum. Com efeito, é hoje bem comum vermos fotógrafos profissionais verificarem e até descartarem, durante a própria sessão fotográfica, fotos recém obtidas.

A tentativa e erro, antes um processo proibitivo (tanto pelo custo como pela dificuldade ou mesmo impossibilidade de se recompor a cena uma vez auditados os resultados), se tornou, assim, a regra entre usuários de câmeras digitais.

Esta combinação de custo irrisório (só do equipamento, já que a mídia se tornou reutilizável) com a facilidade de aprendizado (pela redução extrema da duração do ciclo entre tirar uma foto e poder ver a mesma) alterou irreversivelmente o contexto da fotografia, que deixou de ser um campo altamente especializado para se tornar uma atividade ao alcance, em última análise, de todo proprietário de um telefone celular.

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Ainda que goste de exercitar, vez que outra e sem saber muito bem por que, a fotografia em filmes, não sou saudosista ao ponto de lamentar o fim da complexidade técnica que já foi marca registrada do ato de fotografar. Pois não acho que isto fizesse, necessariamente, melhores fotógrafos. Se a exposição (não mais do filme, mas da superfície de sensores) é bem mais simples, fotógrafos ainda precisam ter um senso apurado de enquadramento e compreensão privilegiada da luz. Noutras palavras, câmeras digitais não garantem, por si só, boas fotos. Notem que, ainda que a química tenha dado lugar à eletrônica no registro de imagens, nada mudou na parte ótica do processo – i.e., as lentes ainda são as mesmas, bem como os fatores que determinam sua qualidade.

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É preciso ver com bons olhos a democratização das artes de sons e imagens sob as novas tecnologias digitais. Se hoje é enormemente mais fácil e barato fotografar, filmar e gravar sons, tal realidade derrubou barreiras de acesso anteriormente impostas ao exercício de tais artes. Então, se hoje qualquer um pode ser um músico, fotógrafo ou cineasta – ou, em última análise, um autor, temos que esta universalização da autoria oferece a quem quiser um inegável incremento na qualidade de vida. Noutras palavras, acabou a distinção que houve outrora entre autores e espectadores. E, ao longo desta evolução, muitas profissões já caíram por terra ou tendem, inexoravelmente, à extinção. Se algumas delas ainda subsistem, tal se deve exclusivamente à prevalência de uma economia (que, oxalá, seja substituída por outra melhor para a espécie humana) fundada sobre a comercialização de bens e serviços, da qual a publicidade e o entretenimento são meros subprodutos. Mas isto já é outro assunto.