A arte da discórdia

As redes sociais vem se tornando cada vez mais o lugar por excelência para o ódio. Fraturas maniqueístas entre bons e maus, mocinhos e bandidos e tantas outras que podem ser resumidas como os que concordam comigo e os outros que de mim discordam cada vez mais determinam a adição e a exclusão de amigos e seguidores – resultando, na maioria das vezes, em bolhas nas quais likeminded people chovem no molhado reforçando convicções próprias e troçando ou trolando membros de campos ideológicos opostos. Como ação persuasiva e/ou transformadora, tal sorte de interação não passa, portanto, de uma colossal perda de tempo.

Justamente no duplo intuito de refinar minhas posições e, ao mesmo tempo, tentar influenciar aqueles que pensam de modo diferente, mantenho, entre meus interlocutores virtuais, muitos que assumem posições diversas ou mesmo diametralmente opostas às minhas, por vezes até se comportando como trolls, em questões tanto políticas como estéticas. Mas só isto não é suficiente. Pois, para se lograr estabelecer um diálogo minimamente proveitoso com campos adversários, é preciso aderir a um conjunto bem específico de práticas e princípios, do qual tratarei neste texto.

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Nativos digitais começam a bater boca (devo dizer bater teclas ?) na web muito antes de terem experimentado a dinâmica de uma discussão presencial. Entendemos, no entanto, que debates cara-a-cara possuem uma inegável função formativa no que tange a duas regras pétreas que deveriam nortear qualquer embate verbal, a saber,

jamais falar mais alto do que o outro; e

jamais interromper uma fala do outro antes que ele lhe tenha passado a palavra.

Os dois expedientes acima, que podem ser agrupados sob o pobre expediente de tentar ganhar uma  discussão “no grito”, são, lamentavelmente, bastante comuns. Examinemos, pois, um pouco melhor cada um deles.

O erguimento de uma das vozes num debate é uma clara tentativa de fazer prevalecer um argumento por meio do silenciamento, relativo ou absoluto, da outra. Em ambientes virtuais ou editoriais, equivale à utilização, por uma das partes, de canais aos quais tenha acesso privativo ou preferencial, tais como blogs, colunas de opinião ou páginas editoriais. Até mesmo no contexto mais horizontal de perfis em redes sociais, a exclusão de comentários indesejáveis ou o bloqueio de interlocutores configura o mesmo tipo de silenciamento de adversários, por permitir que a voz do dono de cada perfil reine absoluta.

Felizmente, há um antídoto contra estas práticas supressoras, conhecido como direito de resposta, segundo o qual deve ser assegurado a quem quer que se sinta atingido ou ofendido por algo que tenha sido publicado em qualquer canal com alguma audiência a oportunidade de se manifestar livremente no mesmo espaço em sua própria defesa. Grande parte do prestígio e credibilidade de um meio advém de sua política de franquear o próprio espaço à difusão de contraditórios.

Já os nodos de alternância de vozes em um discurso são essenciais para a compreensão do mesmo, independentemente da extensão de cada fala. Isto por que, tipicamente, argumentos defendidos por bons debatedores são compostos por vários silogismos encadeados. Logo, interromper uma fala sob qualquer pretexto é, portanto, um violento atentado à ética do bom debate.

É bem verdade que, diante de oradores mais prolixos, um oponente arguto tende a se impacientar a cada falsa premissa proferida. É nessas ocasiões que muitos irrompem intempestivamente em meio a falas não concluídas, deixando quem estava com a palavra perplexo, quando não ultrajado. Em sua versão jurídica, amplamente difundida pelo cinema, tais interrupções assumem invariavelmente a forma da interjeição “Eu protesto, meritíssimo !”

Para prevenir tais incidentes lógicos, recomendamos aos mais afoitos o uso sistemático de blocos de notas, onde todas as objeções podem ser cuidadosamente anotadas para utilização em falas futuras, bem mais estruturadas e, portanto, eficazes.

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Outra regra de ouro do bom debate é

jamais rebaixar um adversário diante de uma audiência, desviando a atenção da mesma de seus argumentos por meio de acusações pessoais conhecidas como ataques ad hominem.

É quando se tenta desqualificar as ideias de outrem por meio de afirmações tais como “fulano é um mentiroso” ou “beltrano só diz merda”. Ataques ad hominem também são conhecidos como a falácia do envenenamento do poço.

A falácia do envenenamento do poço é tão ineficaz quanto inócua. Inócua por que, mesmo que desacreditemos o enunciador de uma ideia, a mesma pode ser facilmente defendida por outrem logo em seguida – seu efeito, neste caso, tão fugaz como a tomada de um peão oferecido em sacrifício numa partida de xadrez.

Ineficaz por que bons adversários são essenciais à valorização de qualquer embate. Gregos antigos já sabiam disto ao manifestarem especial apreço pelo diálogo como instrumento de aquisição de conhecimento. Além disto, é principalmente pela oposição, seja de uma ideia, habilidade ou força, que percebemos alguma qualidade maior ou melhor. Afinal, o que seria de Senna sem Prost, de Ali sem Frazier, de Borg sem McEnroe, de Lula sem Bolsonaro ou do Grêmio sem o Inter ?

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Sobre brigas nas quais nos metemos na internet, passei a respeitar, desde que o ouvi de um amigo, o seguinte princípio:

jamais responder a qualquer provocação, por mais ultrajante que pareça, no ato.

Meu amigo pratica, como método, o hábito de, sempre que incomodado por qualquer coisa com a qual tenha tomado contato por meio de redes sociais, não reagir de imediato. Pois não há nada que uma boa noite de sono não resolva. Na maioria das vezes, nem se lembra, ao acordar pronto para outra, da suposta ofensa recebida no dia anterior – prova maior de que aquilo não era, de modo algum, importante. Se, no entanto, aquilo continua a lhe incomodar mesmo depois do sono restaurador, parte, aí sim, para a elaboração de uma resposta à altura, bem pensada e, como tal, fulminante na maioria das vezes.

Se fosse para dar um nome a esta prática, talvez o mais indicado seria regra da cabeça quente – segundo a qual nossas respostas tendem a ser melhores quanto maior for o tempo decorrido deste o fato ultrajante gerador.

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Finalmente, vale citar quatro regras, deitadas pelo filósofo Daniel Dennett (nascido em 1942) e compiladas por Maria Popova em seu brilhante site brainpickings, dando conta de uma ética e estratégia a ser adotada em debates com oponentes qualificados. Segundo Popova, Dennett faz uma pergunta muito apropriada que testa algumas das tendências e dinâmicas básicas da cultura atual onde todo mundo é um crítico, a saber,

Quão generoso você deve ser ao criticar visões de um oponente ?

Ao que responde:

Como compor um comentário crítico satisfatório:

Você deve tentar re-expressar a posição de seu alvo tão clara, vívida e justamente a ponto de ele dizer “Obrigado, eu gostaria de ter dito isto desta maneira.”

Você deve listar qualquer ponto de acordo (especialmente se não forem objeto de consenso geral ou amplo).

Você deve mencionar qualquer coisa que tenha apreendido com seu alvo.

Só então lhe será permitido dizer qualquer palavra de refutação ou crítica.

Para Popova, tal código de ética seria por si só suficiente para transformar o ambiente infernal dos comentários online. Dennett vai adiante, notando que esta estratégia psicológica logra transformar o oponente numa audiência mais receptiva à crítica ou dissenso, tendo como resultado o avanço da discussão.

Daniel Dennett foi descrito por Marvin Minsky, pioneiro da inteligência artificial, como o maior filósofo vivo e o próximo Bertrand Russell.

 

 

Quais as implicações da concessão de cidadania a robôs

Dentre as muitas notícias pela quais passei os olhos recentemente, talvez a que tenho causado o impacto mais duradouro seja uma que veio da Arábia Saudita, dando conta da concessão de cidadania daquele país a um robô. Não resisti ao título. Na matéria, do ótimo site Big Think, fiquei sabendo se tratar de um androide de feições femininas, modelado a partir de Audrey Hepburn (sic !), turbinado com inteligência artificial (AI), capaz de auto aprendizagem e produzido por uma empresa de Hong Kong (Hanson Robotics).

Impressionado, vi na íntegra o vídeo que ilustrava a matéria, no qual o robô Sofia foi entrevistado no Future Investment Initiative, evento dedicado a inovações tecnológicas realizado em Riyadh, a capital saudita. A argúcia e o humor revelados em diferentes falas do androide me levaram de pronto a julgar se tratar de uma fraude, com a máquina devidamente programada para reagir a determinadas “jogadas ensaiadas”. Infelizmente, uma rápida pesquisa demonstrou se tratar da mais crua realidade.

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No conforto da contemporaneidade, estamos acostumados a considerar a premissa da inteligência artificial capaz de competir com vantagem ou, pelo menos, em igualdade de condições com a humana como uma possibilidade ameaçadora apenas num futuro vagamente distante. Se a eloquente demonstração de Sofia para investidores sauditas não escondeu nenhuma armação (tal como, por exemplo, um script previamente definido para a realização da entrevista), tal futuro, imaginado por Asimov e, mais recentemente, por Harari, já chegou.

A existência de robôs capazes de apreenderem sozinhos não constitui, por si só, uma ameaça mas, antes, um prodigioso avanço tecnológico em prol da raça humana. Assusta, no entanto, que humanos estejam dispostos a conceder a tais máquinas poderes e direitos até então exclusivos de humanos. Neste cenário, não há como não sentir um calafrio ante as imensas e insondáveis possibilidades inauguradas com uma concessão de cidadania a um robô. Pois, se não for apenas uma jogada de marketing, com restrições em letras miúdas que não chegam aos noticiários, tal concessão implica, por exemplo, que robôs podem, a partir de agora, votar e, pior, concorrer em eleições.

Ora, dados os elevados custos atuais destas máquinas, ainda não passa de uma fantasia supor que androides unidos consigam, de algum modo, interferir, como votantes, em resultados de eleições. Mas e quando robôs forem mais baratos e numericamente tão importantes quanto humanos ? Certamente um problema futuro a ser resolvido. Mais preocupante, no entanto, é a possibilidade de robôs como candidatos políticos. Pois, a julgar pela desenvoltura e pelo atrevimento demonstrados por Sofia diante da plateia saudita encantada, é fácil supor que uma máquina provida de inteligência artificial já seria plenamente capaz de “derrotar” nossos rasos políticos em debates eleitorais.

Isto não é, por si só, um problema, na medida em que os atuais atores políticos (presidentes, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores) já atendem invariavelmente antes a interesses escusos que financiam suas campanhas do que aos de quem os elegeu. Só que robôs políticos não cometeriam erros humanos – atendendo, com isto, ainda mais eficientemente os interesses de seus proprietários. Oligointeresses, neste caso, já que é bem difícil imaginar robôs que não pertençam a elites.

Mas o problema não termina aí. Pesquisando sobre Sofia, logo descobrimos que o clone cibernético da bonequinha de luxo apreende através daquilo que ouve. Ou, noutras palavras, do que lhe é ensinado. Isto quer dizer que sua conduta será sempre ideologicamente compatível com a moral e a ética implícitas no discurso orientador de sua “formação”. Prestem atenção, por exemplo, em sua fala jocosa, conclamando os empresários a expressarem sua simpatia pelo projeto por meio de cheques encaminhados após sua palestra. Tal exortação denota claramente a ideologia segundo a qual pesquisas científico-tecnológicas são de responsabilidade da iniciativa privada.

Notem, ainda, a rapidez da pergunta “devolvida” ao entrevistador, antes até que o mesmo concluísse sua fala (um robô impaciente ?…), procurando claramente plantar dúvidas sobre atributos que definem humanos como tais.

Não sei de vocês, mas eu tenho medo de robôs filósofos, que venham um dia a escrever os livros que lemos.

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Update 1: a escritora de ficção científica Nikelen Witter recomendou, em comentário sob uma postagem de divulgação deste texto, o filme Ex-Machina (2015), sobre a mesma temática instigante dos robôs empoderados. Verei o quanto antes. Só não incluo o link para o verbete do mesmo na wikipedia por que a sinopse é um tremendo spoiler.

Update 2: Zeca Azevedo, ao compartilhar este post: “Um robô que diz estar feliz quando se vê cercado de gente “esperta, rica e poderosa” é mais uma ameaça (porque é certamente um instrumento de manutenção do status quo) do que um avanço.” Na mosca !

 

Por que a justiça faz vista grossa ao abismo existente entre os discursos público e privado dos políticos ?

A nação está pasma. Dia após dia, os que ainda tem estômago para acompanhar noticiários tentam desesperadamente entender como uma quadrilha de ladrões e potenciais assassinos confessos permanecem, apesar dos crimes em que se envolvem, à frente do governo. Depois da última onda de prisões e solturas (que mercado para os advogados !), parece consenso que contam, inclusive, com a conivência do judiciário.

Entendo, outrossim, que a falha que permitiu chegarmos à absurda situação atual se encontra, primordialmente, na letra fria da lei. Mais especificamente, no regramento que invalida toda prova obtida por meio de microfones ocultos.

Sob o pretexto de salvaguardar a privacidade dos denunciados, tribunais superiores perdem tempo discutindo se esta ou aquela gravação incriminatória – obtida, no entanto, sem a ciência e o consentimento explícito de um criminoso confesso  – pode ou não ser utilizada como prova em processos contra o mesmo.

Vale a pena nos determos por um instante sobre os termos (tanto a forma como o conteúdo) das últimas falas reveladas do malfeitor, espécie de inimigo público número um (ou dois, vá lá, pois ele ainda não está na presidência da república, à qual é eterno candidato) Aécio Neves. Tenho certeza de que qualquer um que ouça, de um lado, as já célebres gravações reveladas na delação da JBS e, de outro, tanto a peça publicitária de alegação de inocência de Aécio quanto o discurso por ocasião de sua volta triunfal ao senado, não teria a menor dificuldade em identificar, tanto pelo linguajar quanto pelo teor, o que foi proferido pelo senador em contextos, respectivamente, públicos e privados.

Se Aécio fosse uma pessoa comum na qual precisássemos confiar, perderíamos qualquer confiança nele depois de ouvir o que disse quando julgava que suas palavras morreriam ali, sem serem jamais publicadas.

Só que a lei não funciona assim. Enquanto o abismo reconhecido por todo cidadão entre o discurso público e o privado de Aécio é suficiente para que o consideremos um mentiroso notório, a justiça só reconhece como expressão da verdade o que é dito por ele publicamente – como, por exemplo, na tribuna do senado ou em peças publicitárias (videos inclusos neste post) – ignorando, pasmem, suas falas mais comprometedoras proferidas, no entanto, sob o conveniente manto da privacidade.

Deste modo, a mensagem implícita passada pelo poder judiciário a quem quer que ingresse na carreira política pode ser mais ou menos formulada como “cometa crimes à vontade, desde que jamais os assuma publicamente”.

Mais. Tecnicamente, não há qualquer diferença entre as gravações de Joesley e aquelas produzidas diariamente pela polícia entre traficantes e seus cúmplices. Por que umas servem como provas para a condenação de criminosos e as outras não ?

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Cheguei a dizer, de certa feita, que, num mundo perfeito, deveríamos escolher governantes em reality shows nos quais todos os candidatos estariam sob vigilância pública permanente, sempre ao alcance de câmeras e, principalmente, microfones. É claro que isto foi uma piada. Pois todos os políticos de sucesso são, antes, grandes atores e, como tais, não teriam (assim como não tem) qualquer dificuldade em fingirem virtude o tempo todo. Notem, no entanto, que um Big Brother eleitoral assim dificultaria em muito qualquer maracutaia. Pois que outra razão haveria, afinal, para o Palácio do Planalto estar há vários anos sem um sistema de câmeras de segurança a documentar idas e vindas entre gabinetes ?

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Falando sério. Político algum deveria desfrutar de qualquer privacidade, com a qual a figura do “homem público” não passa de um eufemismo. Obviamente, não estou a defender que não tenham direito ao sexo ou à higiene pessoal longe de vistas alheias.  Mas sua privacidade deveria terminar aí, ou não muito longe disto. Pois enquanto a justiça fizer vista grossa às provas irrefutáveis obtidas por meio de escutas camufladas, continuaremos ouvindo protagonistas da política dizendo, com a maior cara de pau, coisas como “isto é calúnia”, “caí numa armadilha” ou “minhas campanhas sempre ocorreram rigorosamente dentro da lei”.

 

Diatribe contra o tele atendimento e a automação bancária e comercial

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Os primeiros a desaparecer, lá se vão já algumas décadas, foram os guichês de atendimento bancários, vulgos “caixas”. Se antes havia em cada agência no mínimo uma dezena, hoje não passam de dois ou três – pelo menos um deles invariavelmente fechado devido ao horário de almoço ou coisa que o valha. Como atenuante, os bancos colocaram cadeiras para que os infelizes na fila, não nativos digitais em sua maioria, esperassem sentados.

A bola da vez da marcha inexorável da automação parece ser os terminais de cobrança por estacionamento em shoppings. Até pouco tempo atrás operados por atendentes humanos, estão sendo rapidamente substituídos por máquinas operadas pelos próprios usuários.

Paradoxalmente, lojas continuam sendo povoadas por vendedores treinados e remunerados para persuadir clientes a comprar produtos muito além das necessidades que os levaram até ali. Quem, depois de já haver escolhido tudo aquilo de que precisa, nunca ouviu de um solícito atendente frases como “E o Sr.(a) não está precisando de meias ou cuecas ?” Acho acintoso ter que responder a este tipo de pergunta – que, para efeito de manutenção do bom humor, prefiro tomar como meramente retórica.

Outra, clássica: quando procuro calçados, quase sempre a negativa, bem frequente, de que um estabelecimento não dispõe de itens com o tamanho 44 vem acompanhada da oferta “Por que o Sr. não experimenta um par do tamanho 43, pois nossa forma é bem grande ?”  Nestes casos, minha resposta (sempre no intuito de preservar o bom humor) costuma ser “Sim, é claro. Mas não se esqueça de me trazer, também, um daqueles tesourões de jardinagem (podões) para que, cortando uns dedos fora, o calçado possa, talvez, me servir.” Devo acrescentar, a bem da verdade, que nem sempre o vendedor tem o mesmo senso de humor que eu.

Nada tenho contra vendedores – assim como, de resto, nada tenho contra operadores de telemarketing e de serviços de tele atendimento, dos quais tornarei a falar mais tarde. Só que uma coisa é uma loja manter funcionários treinados para auxiliar os clientes quando – e tão somente quando – forem solicitados. Outra é se ter, desde o momento em que se entra numa loja até se sair da mesma (hoje é comum o vendedor acompanhar o cliente até a saída da loja, carregando a sacola, para se despedir), alguém permanentemente na sua cola determinado a maximizar seu gasto no estabelecimento com coisas da qual você não tinha a menor necessidade ao entrar na loja.

Exagero ? Acho que não.Tomem, por exemplo, como paradigma de qualidade de atendimento, os vendedores de livrarias e lojas de discos (dois tipos de estabelecimento comercial que marcham a passo largo para a extinção). Eles estão ali silenciosos e de posse de toda informação da qual você pode precisar para localizar o que quer. Mas só entram em ação quando solicitados. Imaginem, agora, como seria explorar prateleiras de discos e livros com um papagaio de pirata apregoando insistentemente as virtudes deste ou daquele título. Não sei de vocês, mas eu fugiria de uma loja com atendentes assim tão rápido quanto entrei.

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Tendo sobrevivido a este tipo de assédio legitimado de que se é alvo na maioria das lojas, o problema de um cliente ao sair de um shopping se torna exatamente o oposto, i..e., tem que caminhar cada vez mais até encontrar um ponto de cobrança de estacionamento que ainda seja operado por humanos. Pois, hoje, toda a arquitetura desses lugares (já repararam como a posição e a direção das escadas rolantes sempre conspiram para que usuários tracem sempre o maior percurso possível de um ponto a outro ?) parece favorecer a utilização de terminais automatizados de pagamento, sempre mais próximos às saídas, em prejuízo daqueles poucos ainda atendidos por pessoas (os quais, segundo todas as evidências, também galopam em direção à extinção).

Tudo o que eu disse acima pode ser tributado ao meu envelhecimento. Como resistência à modernidade. Que fique claro, então, que também não tenho nada contra quem prefira apertar botões. Ora, se, por incontáveis vantagens, utilizo o home banking, o faço por opção. O mesmo se dá quando opto por digitar uma senha para utilizar o cartão de crédito. O que não deve, no entanto, dar aos proprietários de qualquer negócio, bancário ou comercial, o direito de suprimir a opção do cliente de pagar em espécie, com alguém lhe dando o troco devido em cédulas menores. “É o futuro !”, dirão. “Bullshit”, será minha resposta. Pois a imposição de qualquer automação a clientes de quaisquer empresas tem por objetivo exclusivamente a maximização de lucros, independentemente da satisfação de usuários. Se empresários custarem muito para se dar conta disto, talvez seja tarde demais. Pois, até lá, já terão sido engolidos pela concorrência.

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Prometi falar dos serviços de tele atendimento. Comecemos pelas famigeradas vozes gravadas. Já se deram ao trabalho de medir quanto tempo levam, depois de passar por todos os menus de opções e musiquinhas de espera, até conseguir falar com alguém de carne e osso apto a processar suas solicitações ? Isto se conseguirem de fato falar, pois, muitas vezes, basta exercer uma única opção errada para ter que começar tudo de novo (noutro dia, talvez). Pois nunca vi, em qualquer serviço de tele atendimento, a opção, tão fácil de ser implementada, de volta ao menu anterior.

Não há limite para os requintes de perversão nestes casos. O maior deboche da cara dos usuários por parte de uma corporação que já vi foi nos menus de tele atendimento da NET – nos quais, entre uma gravação e outra, o tempo de processamento do sistema é (pasmem !) preenchido por ruídos de alguém digitando num teclado. Como se a voz gravada estivesse, de fato, digitando alguma coisa. Isto ofende sua inteligência ? A minha também. Especialmente quando penso que há agências reguladoras federais para garantir a qualidade dos serviços destas empresas. Também me causa nojo e revolta que até hoje nenhum de nossos onerosos legisladores tenha proposto uma regra simples que limitasse, por exemplo, o tempo máximo de espera que um usuário pode levar até conseguir falar com um atendente humano.

Outra comparação bastante didática é entre a duração e a complexidade dos procedimentos para, de um lado, se contratar um serviço e, de outro, se cancelar a assinatura do mesmo. De modo que não é nenhum exagero se afirmar que, para contratar, o processo é invariavelmente sumário. Tudo é facilitado. Poucas perguntas são feitas, todas elas a fim de garantir o bom andamento da cobrança pelo serviço a ser contratado.

Experimentem, agora, tentar cancelar um serviço que já assinam. Neste caso, usuários são sempre direcionados pelas empresas para setores conhecidos como “de retenção”. Se você não decidir postergar o cancelamento depois de vários minutos ouvindo uma musiquinha ou propaganda não solicitada (detalhe: é sempre você quem paga a ligação !), será bombardeado por um longo questionário, como se devesse a alguém alguma explicação por não querer mais comprar alguma coisa. Se, depois disso, ainda estiver na linha, receberá um cardápio de ofertas que, por razões que fogem a seu entendimento, nunca lhe foi oferecido antes de você manifestar qualquer intenção de cancelar o serviço em questão.

Também acham isto acintoso ? Então, pensem em cobrar de seus próximos representantes (pois os atuais já devem estar todos vendidos) também uma opção, nos menus de tele atendimento, de cancelamento sumário de serviços. Sem explicações. Você liga, tecla e cancela. Rápido e indolor. Simples assim.

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Para um manual de privacidade

cartas-1Sou de há muito um procrastinador e adepto fervoroso do ócio descomprometido – isto é, aquela preguiça que não está diretamente relacionada a qualquer incremento da criatividade ou coisa que o valha, como vêm defendendo recentemente alguns estudiosos do comportamento. Este próprio blog depõe neste sentido. Desnecessário dizer que, na iniciativa privada, eu estaria f… deixa prá lá.

Consoante a isto, considero altamente invasivas – uma selvageria, até – aquelas ligações telefônicas para meu celular a partir de números que não conheço, demandando atenção instantânea e, na maioria das vezes, respostas que não quero dar naquele momento e/ou que exigem uma maior reflexão. Que raios quem faz isto tem contra os meios assíncronos ? Como torpedos (mensagens SMS), emails ou mensagens privadas em redes sociais ?

Não importa. Hoje, acordei com uma ligação do Rio de Janeiro que, como de costume, não atendi. Provavelmente de algum banco ou operadora querendo me vender um pacote de serviços mais caro do que aqueles que já tenho. Pouco depois, na segunda chamada não identificada, respondi, por SMS, que ” Não conheço este número. Então, envie SMS ou email para… Grato ! “ Fui o mais educado que pude. Se for importante, seguirão minhas instruções. Senão, terei me livrado de mais um telechato.

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Não pude evitar pensar no custo/benefício do procedimento. Afinal, digitar torpedos me é bem cansativo (sou eternamente grato a minha mãe por ter me forçado, aos 14 anos, a frequentar um curso de datilografia). Mesmo assim, faria tudo igual outra vez, até salvando o texto (se soubesse como) para utilização futura como mensagem padrão. A satisfação de não precisar atender o telefone na hora em que toca não tem preço.

A perda progressiva da privacidade em razão de novas tecnologias de comunicação é galopante. É só lembrar que, até poucas décadas atrás, o ritmo de toda comunicação comercial mais dirigida era postal. O telefone móvel, que deveria facilitar a vida de seus usuários, se tornou uma praga. Principalmente se o número cai em mãos de corretores imobiliários. Sei de uma amiga que comprou uma linha só para vender um imóvel escolhendo os momentos em que queria atender vendedores sem temer estar desprezando alguma ligação importante, isto é, de pessoas que a conheciam (e que, portanto, não ligariam desnecessariamente) e em quem confiava. Depois que vendeu o imóvel, se livrou da linha.

Então, mais do que um desabafo, este post se insere na categoria de subsídios para um mundo melhor. Sem políticos, publicidade, televisão aberta, telemarketing e, a partir de agora, também a possibilidade de ser acessado a qualquer hora por qualquer pessoa. Que prazer indescritível ! Até por que sonhar não custa nada.

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A insólita história de Florence Foster Jenkins, ou A comédia e a tragédia da falta de noção

florence 1Todo melômano conhece a voz e a história de Florence Foster Jenkins (1868-1944), imortalizada como a pior cantora lírica a ganhar alguma notoriedade, na Nova Iorque da década de 1940. Filha de um rico banqueiro, foi desde cedo desencorajada nos estudos de canto pelo próprio pai mas, uma vez herdeira de sua fortuna, desfrutou de amplos recursos – e liberdade ! – para tornar pública sua absoluta falta de qualquer talento – se tornando, assim, a maior piada da história do som gravado. Pois gravou, sim, ao menos dois discos. Oferecia um recital anual, cujos ingressos vendia pessoalmente a fim de evitar os jornalistas, e cujos lucros revertiam sempre para instituições de caridade. Consta que seu seu único recital no Carnegie Hall foi nada menos do que memorável, com incontáveis celebridades na plateia, inclusive uma atriz que precisou ser removida às pressas por não conseguir conter o riso.

Sua interessantíssima biografia serviu de trama ao musical Souvenir na Broadway em 2005, o espetáculo Gloriosa com Marília Pera no Brasil em 2009 e, mais recentemente, dois filmes: Margueritte, produção franco-belga-tcheca de 2015, e Florence Foster Jenkins (Inglaterra, 2016 – no Brasil Florence: quem é esta mulher).

Embora o pianista Cosmé McMoon, que aparece no filme inglês, tenha realmente existido e acompanhado Florence desde que a conheceu até sua última apresentação, não há qualquer evidência de que a cantora tenha mantido ao longo de toda sua carreira sua suposta ingenuidade por força da proteção de um marido poderoso – que, curiosamente, em ambos os filmes mantém amantes do círculo de relações da esposa.

Intrigou-me em Margueritte por que os membros da claque eram estrangeiros. Primeiro, achei que, por serem desconhecidos dos nativos, melhor poderiam denotar verdade em comportamentos falsos (como o aplauso imerecido). Só depois vim a entender que, justamente por serem reconhecidos como forasteiros, melhor poderiam induzir nativos a duvidar de seus próprios julgamentos diante dos de estranhos supostamente mais informados.

Em ambos os filmes (bem como no verbete da wikipedia dedicado à cantora) se aventa a hipótese, de cores inegavelmente dramáticas, de que a mesma teria morrido em decorrência de uma depressão resultante de ter finalmente se dado conta da razão de sua imensa popularidade.

Vi primeiro Margueritte, reputado por muitos como bem superior a Florence. Certamente por já conhecer a bizarra voz e imensa cara de pau (ou, para dar o benefício da dúvida, total falta de noção) de Florence, fui ao cinema em busca de risadas. Vi, no entanto, uma tragédia, magistralmente anunciada. A cena final (salte um par de linhas se não quiser ler o spoiler) – do marido correndo para tentar impedir que Margueritte ouvisse, por uma primeira e derradeira vez, uma gravação de sua própria voz – é, desde já, antológica.

Tendo, até então, visto apenas o divertido trailler de Florence Foster Jenkins, me resignei com a tristeza da tragédia de Margueritte achando que as risadas viriam inevitavelmente com o filme inglês. Nova decepção. Nele, também a trágica história de alguém protegido da consciência da própria miséria que sucumbe ao impacto da perda da inocência.

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Ao contrário dos dois filmes, que abraçam a ideia de uma suposta ingenuidade de Florence em relação ao próprio talento, a wikipedia duvida desta hipótese, a retratando como perfeitamente ciente de sua aguda limitação e da própria comicidade como razão única de seu sucesso. Segundo a plataforma colaborativa, FFJ tinha plena consciência de sua voz miserável, bem como do efeito hilariante produzido em ouvintes experimentados quando de sua audição, não sendo, portanto, de modo algum aceitável a hipótese de que a cantora de algum modo ignorasse ou não percebesse tais peculiaridades. Corroboram esta hipótese, supostamente, não só o fato de Florence ter ativamente mantido, por meio do estrito controle sobre a venda de ingressos, os críticos afastados de seus recitais – mas de também ter, ao menos ocasionalmente, muito provavelmente ouvido seus próprios discos.

Até o momento da postagem deste texto, não tenho nenhuma opinião formada acerca de se Florence Foster Jenkins, como sugerem os dois filmes, não tinha a menor noção de sua incompetência tragicamente cômica ou se (como parece querer fazer crer a wikipedia), ao contrário, tinha plena consciência das limitações da própria voz, deliberadamente tirando proveito de sua comicidade. Por isto, pergunto: Florence foi ou não um caso exacerbado de falta de noção ? Ouça e decida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais e melhores grampos já !, Moroleaks ou O Elogio do Riso

Girl phone talk Pop art vintage comic

Muito se tem discutido se o juiz Sérgio Moro agiu certo ou errado ao trazer a público escutas telefônicas legalmente obtidas mas protegidas por sigilo judicial. Difícil “julgá-lo” sem dissociar os aspectos legal e ético da questão.

Este blog sempre defendeu a ideia de que segredos de estado são um entrave ao progresso humano que servem, quando muito, à obsoleta doutrina da segurança nacional (vide crise de refugiados e infiltrações terroristas (mas estas já são outras histórias))). Consoante a isto, entendemos que todo cidadão deve ter acesso facilitado a todo documento ou informação que afete, de algum modo, qualquer interesse público. Como, neste caso, as conversas, reveladas por Moro, mantidas por Lula com Dilma e outros figurões.

O impacto dos áudios tornados públicos no episódio – um grande momento da Operação Lava Jato que deve entrar para a história dos grandes vazementos como Moroleaks – derrubam ou dificultam tremendamente qualquer pretensão dos envolvidos a um bom desempenho em eleições futuras. Pior. As gravações logo viraram o principal objeto de riso, tanto nas redes (como em remixes do Mc Lula !) como na mídia. Quem ainda não ouviu piadas com a música da secretária eletrônica da Dilma ? Fato é que, tenha Moro incorrido ou não em algum ilícito, não há quem não tenha rido de alguma conversa por ele vazada – e o riso é, como ensina Bakhtin, a mais destronante de todas as armas.

Por isso, não me parece nem um pouco exagerado se equiparar a façanha de Sérgio Moro as de um Julian Assange ou Edward Snowden, heróis absolutos de nosso tempo, que colocaram sua crença no direito ao conhecimento público do que é público acima da própria liberdade.

Notem, aqui, a interessante nuance entre as histórias de Snowden, sentenciado e foragido por revelar a existência de escutas telefônicas, e de Moro, submetido a uma censura pública por tornar público o teor das mesmas. Os paralelos possíveis entre os dois casos não param aí. Ambos envolvem chefes de estado. Só que, enquanto num as escutas foram obtidas pela justiça, noutro são produto da ação de órgãos de inteligência. O que mais chama, no entanto, a atenção é que, conquanto o primeiro tenha denunciado a escuta e o último tenha feito ele próprio uso da mesma – ambos, por meio de seus gestos extremados, correram riscos em nome de uma maior consciência pública.

Mas tornemos ao riso, mesmo que tão somente para dizer que, depois de ouvir Lula e Dilma ao telefone, votar neles será mais ou menos como votar, sei lá, no Tiririca. E antes que tachem as linhas acimas de anti-petistas, que fique claro que este blog é apartidário. Mais que isto. Não é que alguns partidos estejam podres. É o próprio sistema partidário e de representação que está podre. Conceitualmente. Só que políticos bons, se existem, ingenuamente ainda não percebem isto. Então, é mais do que claro que não se pode esperar nenhuma regeneração política deste ou de qualquer país a não ser por meio de constituintes exclusivas.

Enquanto isto não acontece por aqui, que tenhamos, então, ao menos mais grampos tão engraçados como os de Lula. Onde estão, por exemplo, só para começar, as gravações de um Cunha, Renan, Feliciano ou Bolsonaro ? Ou mesmo, retroativamente, de um Collor, Sarney ou Maluf ? Pois, se é verdade que reality shows se constituem no pior tipo de lixo cultural da mídia atual, é preciso também se reconhecer que não seria de todo uma má ideia que todo cidadão pudesse vigiar em tempo integral cada político eleito, seja para cargos executivos ou legislativos, ou mesmo, idealmente, cada candidato. Até por que sempre é preferível prevenir do que remediar.

Imaginem. Em vez dos desinteressantes concorrentes de um Big Brother, teríamos aquelas pessoas de cujas decisões nossas vidas realmente dependem. Nem precisaríamos de tanto. Sons e imagens do Lula e da Dilma dormindo ou em seus momentos de higiene seriam perfeitamente dispensáveis. Mas qual eleitor não preferiria ter acesso a todas as suas conversas ao invés de a seus ainda mais ridículos e/ou irrelevantes pronunciamentos públicos ?

Penso, pois, que uma lei que garantisse microfones e câmeras em cada gabinete e grampos nas linhas de cada governante ou representante eleito já seria de bom tamanho (ainda que tornozeleiras fossem interessantes para melhor monitorar seus passos…). Idealmente, a escuta deveria se estender também a todo candidato. Mesmo que as complicações de infraestrutura fossem bem maiores, ao menos não seria preciso nenhuma tecnologia ainda não existente. Estou a defender um estado de vigilância ? É claro que sim ! Não sobre seus cidadãos, evidentemente, mas, tão somente, sobre todos seus dirigentes.

Sobre lutas, rinhas e a relatividade moral

Hamilton 1

Ontem, compartilhei no facebook uma excelente matéria do Guardian na qual se afirma, entre outras coisas, que o box é violento por definição, explora pessoas da classe trabalhadora, é perigoso e celebra a violência e a competitividade individual. Concordei de pronto, estendendo o argumento, para além do box, a todas as lutas de arena – dentre as quais as mais violentas atraem mais atenção midiática e, portanto, patrocínio. Pensei até em traduzir. O Milton disse que é fácil e rápido. Discordo.

Hoje, me acordei intrigado com o fato de que, enquanto rinhas entre animais, como galos ou pitbulls, são proibidas por lei, lutas entre humanos, inclusive as mais violentas, são não apenas permitidas mas largamente promovidas pela indústria do entretenimento. Ou não teríamos em Anderson Silva uma espécie de herói.

Qualquer um percebe que toda moral é relativa, não se precisando, na maioria das vezes, ir muito fundo para descobrir a que interesses servem. Imaginem, por exemplo, se alguém publicasse hoje as fotos de meninas de um David Hamilton ou mesmo Lewis Carroll. Não há, por outro lado, nenhuma diferença essencial entre uma luta de MMA e a rinha, suponho que clandestina, de mandingos mostrada por Tarantino em Django. Houve, então, claramente, um acirramento e uma flexibilização, respectivamente, num caso e noutro, de um entendimento sobre o que é ou não socialmente tolerável.

Ou, dito de outro jeito: no primeiro caso, o que já foi visto como arte é hoje tido como pedofilia, ao mesmo tempo em que, no segundo, a mesma violência que repugna na mansão de um antigo escravagista é divertida para quem assiste, ao vivo ou pela TV, ao que se passa entre as cordas de um ringue em Las Vegas.

* * *

(cheguei a salvar umas imagens de lutas de MMA para ilustrar o post mas, francamente, não quis submeter amigos a que as vissem em suas timelines – pois deve haver, afinal, outros que, além de mim, fechem os olhos diante da cena dos mandingos de Tarantino. Melhor, pensando bem, uma ninfeta de Hamilton)

O Destino Manifesto e a opinião de José Agustoni sobre a exploração espacial

earth 2

Nem sabia da existência do tal manifesto até ler a mui ilustrativa coluna de José Monserrat Filho sobre o mesmo no Sul 21. Assim que a li, compartilhei no facebook, com a seguinte chamada:

A arrogância nacional e imperialista trocada em miúdos. Antes de ler isto, achava que a coisa não era tão explícita, mas apenas algo tacitamente aceito pelo ideário norte-americano. Ótima leitura. O que achas, José Agustoni (nosso astrônomo de plantão) ?

Meu primo e consultor para assuntos astronômicos atendeu, então, por sua vez, de pronto a minha convocação, postando, lá em meu perfil, o seguinte comentário, cuja relevância me levou a lhe conferir permanência como post autônomo neste blog. Então, com vocês, José Agustoni sobre a exploração espacial. Enjoy.

Carl Sagan é o guru de todo astrônomo amador, mas eu já ousei discordar dele em um ponto, numa frase em que diz que “o destino da humanidade é as estrelas”. Sagan era um sujeito muito sensato (há o famoso discurso dele sobre o “pálido ponto azul” que eu considero um dos mais importantes jamais proferidos.

Nele, não creio que estivesse falando de “conquistar o espaço” como nesse “Destino Manifesto”, mas que algum dia teríamos que abandonar o nosso planeta de origem por alguma razão de força maior.

Até certo ponto, discordo. O ser humano avançou muito em conhecimento, ciência e tecnologia mas, infelizmente, não avançou tanto em moral e ética. Ou melhor, a tecnologia está acessível a todos, mas princípios morais e éticos, embora acessíveis, não são “comprados” por todos. Eu comparo o ser humano atual com um chimpanzé com uma arma carregada na mão. Temos tecnologia para fazer desse planeta um paraíso ou um inferno, mas ainda estamos engatinhando em termos de saber usar com sensatez essa tecnologia. Poluímos, destruímos, matamos com muita facilidade (e com “justificativas racionalizadas”).

Então, de repente temos a tecnologia para ir para outros planetas. Vamos para lá com que intenção? Ir para simplesmente “conquistar territórios” não faz sentido para mim. Ir para explorar recursos? Também não vejo muito sentido. A primeira pergunta que devemos fazer é “por que?” Por que precisaríamos de novos territórios? Por que precisaríamos de recursos? Se a resposta for: porque esgotamos os recursos que temos aqui na Terra, porque precisamos espaço para mais gente – neste caso eu digo que aquele “alien” que vemos em filmes de ficção científica que invade a Terra em busca de recursos somos nós mesmos no espelho. Nós é que nos tornaremos os “aliens-gafanhotos” que, como uma praga, vamos nos espalhar pela galáxia predando um planeta atrás do outro e deixando cinzas no nosso rastro.

Fala-se em terraformar Marte para que fique parecido com a Terra e seja habitável. Mas se chegarmos ao ponto de termos uma tecnologia para terraformar Marte, por que não aplicamos aqui mesmo para manter essa Terra que já é tão agradável? Se chegarmos ao ponto de ter tanta tecnologia, por que também não temos a sensatez de não nos reproduzirmos com coelhos a ponto de superpovoar essa Terra tornando-a insuficiente?

Não, eu acho que é muito mais simples, barato e, afinal de contas, mais sensato cuidarmos da Terra com toda essa tecnologia que temos e que ainda vamos desenvolver. Aqui tem todos os recursos necessários se não os desperdiçarmos. Não existe, como no filme Avatar, um elemento raro e essencial que valha a pena os altíssimos custos de uma “mineração espacial”. A Terra já está pronta, basta não destruí-la.

Concordo que viajar para outros planetas e até outros sistemas seja um sonho, um impulso natural do ser humano desde que saiu do berço africano, mas que seja apenas para conhecer, para estabelecer bases de pesquisa científica e não um assentamento de sem Terra.