O que há em comum entre o incêndio no Ninho do Urubu e a “tragédia” da Chapecoense ?

Ou, ainda, entre os dois fatos a que aludi no título e os rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho ? Ora, por que vivemos no país do laissez faire. Simples assim.

Senão, quem permitiria, em são consciência, que jogadores adultos embarcassem naquele vôo ou jovens atletas se alojassem nas instalações do centro de treinamento do Flamengo ?

Os crimes, eufemisticamente chamados de tragédias, da Chapecoense e do Ninho do Urubu são, portanto, variantes exatas daqueles ocorridos em barragens, respectivamente, da Samarco e da Vale. A única distinção, sutil, entre os primeiros e os últimos é que, enquanto a licenciosidade (ou “vista grossa”) se deu, nos casos envolvendo clubes esportivos, em nome de uma suposta “alegria do povo”, aquela envolvendo mineradoras foi justificada, além de pelo lucro, também pela geração de empregos.

Pareço exagerar, ou “forçar a barra” ? Consideremos, então, alguns contraexemplos.  Quais executivos bem remunerados, sejam eles do esporte ou de empresas de mineração, embarcariam, em férias, num voo fretado daquela empresa contratada, por minimizar custos, para transportar o time da Chapecoense para uma partida internacional ? Ou então quais deles morariam em casas construídas no caminho da lama das barragens rompidas ou, ainda, nos dormitórios improvisados em contêineres que pegaram fogo na última madrugada ?

Não sou o primeiro e oxalá não serei o último a dizer que tais óbitos desnecessários são fruto da ganância combinada com a falta de regulamentação e fiscalização, crescente nos dias que correm, típicas de nosso país.

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Somos o país das tragédias anunciadas. Seja do prédio abandonado, transformado em depósito de lixo, que pega fogo, ou da creche que é incendiada por um ex-funcionário desequilibrado que entra lá sem ser barrado por qualquer agente de segurança. De tal modo que todo mês é marcado por uma nova tragédia cujo principal “mérito” é nos fazer esquecer, no ritmo frenético da mídia, de todas as anteriores – mesmo as mais recentes. Notícias sobre tragédias só não são mais frequentes

por causa da estranha hierarquia das redes de notícias que classifica a importância de cada fatalidade em razão de seu número de óbitos;

e, também, pelo fato de que muitos incidentes perfeitamente evitáveis só não resultam em óbitos ou ferimentos graves por pura intervenção da sorte.

Não é preciso procurar muito para enumerar o fluxo diário de vítimas do trânsito ou de armas de fogo. Também não é preciso ir longe para nos lembrarmos de quase tragédias das quais escapamos por muito pouco. Ainda não fui assaltado, mas já fugi de um tiroteio. E estive num palco da OSPA que desabou no Jardim Botânico durante um temporal, felizmente sem vítimas. Só que, num incidente análogo, o colapso de um palco durante uma rave em Esteio (RS) matou um DJ. Pode-se especular que a estrutura que colapsou na festa era maior do que aquela no concerto; ou, ainda, que o palco do último caiu em dois momentos distintos, permitindo uma evacuação rápida entre um e outro. O que não tira, no entanto, a sensação de estarmos vivos por detalhes.

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A julgar pelo que temos visto, não se pode esperar muito dos atuais congressistas. Ainda assim, devemos cobrar de nossos representantes (enquanto existirem), contra todos os lobbies, uma inversão no espírito das leis de modo a considerar o risco à integridade da vida humana mais do que o investimento de empreendedores e patrocinadores. Tarefa difícil, porém necessária.

 

 

Por que a ideia de Pátria de Chuteiras é nociva ao Brasil; impressões sobre a Copa do Mundo de 2018 e sua cobertura pela TV

Dia desses, um amigo, cujo anonimato devo proteger, postou no facebook algo mais ou menos assim:

Bélgica 2 X 0 Brasil. Viva ! Acabou o feriado. Agora podemos voltar à realidade.

De pronto, compartilhei. Não foi, no entanto, nenhuma surpresa para mim quando a postagem original, que já tinha sido curtida por várias pessoas em minha timeline, foi removida. Por razões óbvias.

Desenhando: secar a seleção brasileira em copas do mundo acabou se tornando, desde tempos imemoriais, no mínimo um ato de lesa-pátria. Eu mesmo tive uma experiência estranha quando, em companhia de amigos e familiares, torci contra o Brasil no primeiro jogo da copa da Rússia. Vi algumas das pessoas mais queridas e inteligentes que conheço torcendo apaixonadamente pela seleção brasileira sem, no entanto, conseguir me envolver com aquilo. Jamais havia me sentido tão claramente como um peixe fora d’água ou, se preferirem, como que oriundo de outro planeta.

O primeiro jogo desta copa que assisti quase por inteiro foi o contra a Bélgica. Ironicamente, aquele em que o Brasil – pelo qual, confesso, torci – foi eliminado. Eu já havia capitulado à paixão futebolística sincera de meus filhos e amigos e, mesmo sem ligar a mínima para a seleção, queria a alegria daqueles que amo. Não preciso dizer que fui chamado de pé frio.

Depois disto – e de saber de xingamentos sofridos por meu amigo após sua postagem comemorativa à desclassificação – me tornei curioso pelo complexo de razões que podem levar os indiferentes à euforia que toma conta de grande parte dos brasileiros em tempos de copa do mundo a serem tratados, por vezes, com párias.

Talvez torcer por um time de futebol e, de quatro em quatro anos, pela seleção brasileira seja para tantos uma emoção tão espontânea por se tratar, antes de mais nada, de um ritual familiar. Herdamos a paixão futebolística de nossos pais. Quando estes as tem, é claro. Como a religião. Só que meu pai só me levou ao estádio uma ou duas vezes e à missa, nenhuma. No caso do estádio, suponho que procurasse desempenhar do melhor modo possível a função paterna segundo o que preconiza o senso comum. Já sua recusa em frequentar missas tinha uma razão mais insólita: tendo estudado em um internato, no qual atendia, como cantor, a missas diárias, lá pelas tantas calculou que já tinha ido a mais missas do que a maioria das pessoas religiosas durante uma vida inteira e, portanto, estava quites com deus. Lhe sou grato por ambas as coisas.

Mas aí  veio a copa de 70, no México. A seleção do “milagre brasileiro”, apenas seis anos depois do golpe militar, com ídolos inesquecíveis como Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho e tantos outros. A apoteose do “futebol arte”. Aqui, um pouco de história. Os anos de chumbo, nos quais tivemos, além do tricampeonato de futebol, os quatro primeiros títulos de fórmula 1 com Fittipaldi e Piquet, foram dominados pela ideia de “Brasil melhor em tudo”, perfeitamente sintetizada no lema “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Como um ultimato. Não havia qualquer espaço para ceticismo ou questionamentos. Era pegar ou largar.

Foi neste clima que entregaram lá em casa, dias antes da competição e a mando de um próspero comerciante amigo de meu pai, nossa primeira TV a cores. Era para ser um empréstimo, é claro, retornável após a copa. Como se fosse uma crueldade extrema alguém privar os próprios filhos de torcer pelos canarinhos com imagens coloridas. Só que meu pai, submetido ao constrangimento, se apressou em comprar o aparelho. Eu tinha, à época, 11 anos de idade, insuficientes para entender os horrores do regime.

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Muita coisa mudou no futebol desde então. Principalmente a remuneração dos jogadores. Hoje, um astro do futebol recebe por mês, sem exagero algum, mais do que a maior parte das pessoas conseguem ganhar durante uma vida inteira de trabalho. Defensores deste estado de coisas hão de dizer que tal se deve à ação da “mão invisível do mercado”. Pode até ser. O que não torna, no entanto, o salário de um Neymar ou coisa que o valha moralmente aceitável.

A profissionalização exacerbada é boa para os investidores e ruim para o esporte. E o futebol, por sua vez, há muito deixou de ser um esporte para se tornar um negócio. Os altos salários, patrocínios maciços, passes milionários, ingressos caros e cobiçadas licenças televisivas falam por si só. Cabe, aqui, olhar para os antigos (ou nem tanto), para os quais a atividade física era uma prerrogativa do homem comum.  Hoje, ao contrário, enquanto 22 atletas correm em campo, milhões de obesos consomem cerveja sentados em sofás diante de telas de TV.

Mais. O que foi, no início, um esporte de equipe, acabou se tornando mais um circo de celebridades, com seleções que podem ser consideradas como Neymar + 10, Messi + 10, Cavani + 10, Cristiano Ronaldo + 10, Kane + 10 e por aí afora. Duvidam ? Então tentem enumerar o escrete destas seleções. Menos a do Brasil, é claro, cujos jogadores devem ser do conhecimento do torcedor nacional médio. Ou nem tanto. Prova disto é que o Jornal Nacional se dedicou a levar ao ar, em dias anteriores à copa, longas matérias biográficas sobre cada um dos atletas convocados por Tite enfatizando a infância pobre de muitos deles, seu sucesso no futebol europeu e, invariavelmente, entrevistas com as mães dos jogadores.

Também não devem ter passado despercebidos a nenhum espectador atento os comerciais de patrocinadores da seleção alusivos à sua derrota. Pois quem investe pesado não pode se dar ao luxo de não contemplar todas as possibilidades – mais ou menos como empreiteiras que, na impossibilidade de antever com precisão quem ganhará cada eleições, doam somas polpudas às campanhas de vários candidatos. Assim, Brahma, Coca-Cola e Itaú levaram ao ar anúncios motivacionais, do tipo “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, imediatamente após a eliminação do Brasil pela Bélgica. Estes comerciais não podem ter sido concebidos, produzidos e veiculados tão pouco tempo após a derrota – devendo, portanto, estarem prontos ou, no mínimo, encaminhados desde o início da copa. A produção do da Brahma foi particularmente rápida e enxuta, consistindo exclusivamente num áudio sobreposto a uma imagem estática de uma lata de cerveja.

Seria, pois, particularmente didático para estudiosos de mídia a divulgação, talvez num documentário, dos comerciais abortados certamente produzidos para o caso de conquista da copa pelo Brasil. Assim como, reciprocamente, deveriam ser dados ao conhecimento público os comerciais da derrota em caso de êxito da seleção. Muito teríamos a apreender, com isto, sobre o nefasto – tanto pela mentira como pelo desperdício de recursos que nele prevalecem – mundo da publicidade. Mas isto, é claro, só num mundo perfeito, em que tais planos B não fossem guardados como segredos de estado.

Ainda sobre o comportamento insidioso da mídia no mundial, vale sublinhar a matéria de encerramento do último Fantástico, censurando a onda de humor sobre as frequentes quedas de Neymar. Ainda que não seja novidade nenhuma a Globo se arvorando a ditar do que podemos ou não rir ou, em última análise, a determinar o que é politicamente correto, em mais uma tentativa canhestra e inglória, tão cara à mídia e aos políticos, de controlar a internet. Ora bolas, se Neymar aceita ter vencimentos superiores a 10 milhões por mês, então não vejo mal nenhum que o mesmo seja objeto de piadas generalizadas. Pois ao menos esta alegria é capaz de dar aos torcedores frustrados.

Por fim, há que se mencionar a profusão de feriados decretados por entidades públicas e privadas em dias de jogo da seleção brasileira, as quais tem seus expedientes normais alterados para que alunos, servidores e clientes possam assistir aos jogos sem maiores impedimentos, como se isto fosse, acima de tudo, um dever cívico.

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Propositalmente, não bati na tecla de por que o êxito desportivo é nocivo a uma nação como a nossa. Pois é amplamente disseminada, tanto em artigos como em redes sociais, a discutível ideia de que termos o melhor futebol do mundo (ou o melhor carnaval, “o maior espetáculo da terra”) funciona como um grande estímulo ao conformismo. Ou de por que a “pátria de chuteiras” seria o verdadeiro “ópio do povo” (expressão cunhada por Karl Marx, em Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, para se referir à religião). Pois, afinal, se temos tudo isso, para que nos preocuparmos com nosso baixo IDH ou a qualidade de nossos políticos e governantes ?

Ao ver pela primeira vez a curiosa composição, do acampamento de um morador de rua ostentando orgulhosamente uma bandeira brasileira, que sintetiza perfeitamente o que sinto em relação à copa e cuja foto ilustra este post, tive a ideia para o texto que, todavia, relutei em finalizar – pela mesma razão que levou meu amigo a remover a postagem comemorativa à desclassificação. Ao voltar ao locar para tirar a foto, o tamanho da bandeira havia aumentado – e se tivesse ficado algum tempo à espera, certamente teria fotografado, ao lado do cafofo, algum carro de luxo com aquelas bandeirinhas presas às janelas. Tive, no entanto, que deixar o local às pressas, perseguido pelo morador, que gritava, em tom ameaçador, para que eu não usasse a foto na “porcaria da eleição”.