Como formar um pensamento sem história ? ou Sobre imagens e palavras (i)

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Amoras silvestres que ensejaram a conversa reproduzida na primeira parte deste post.

Este texto pertence à série sobre as razões pelas quais estou no facebook, subsérie conversas que se tem por lá, e poderia se chamar, também (se o título não ficasse muito longo), eu sigo (iii) Luiz Afonso Alencastre Escosteguy.

Nunca encontrei Luiz Afonso pessoalmente. Tive, no entanto, com ele, em caixas de comentários, algumas das mais interessantes conversações mantidas nos últimos tempos. Como, por exemplo, a que segue. Suscitada por uma provocação vinculada à postagem da foto acima. Tudo começou com o seguinte:

A última foto que postei já foi curtida 31 vezes. A divulgação do último post que publiquei, 4. Estes números devem querer dizer alguma coisa. Are images any better than words ?

Ao que Luiz Afonso prontamente retrucou:

Significa apenas que, em geral, as pessoas não entram no FB para ler. FB é entretenimento e não fonte de informação ou de leitura. Tirando os blogs jornalísticos, o acesso a textos perde de longe para o de imagens. Comigo – e com quase todos os que escrevem – acontece o mesmo…

Ocorreu, então, o seguinte diálogo:

Augusto: Ou seja, tudo se resume, no fundo, à velha e boa oposição entre lifecasting e mindcasting. Sonho com o dia em que o facebook e seus concorrentes ofereçam filtros inteligentes capazes de distinguir um do outro. Com os quais será bem mais fácil constituir PLNs.

Luiz Afonso: E tem mais, quanto mais posicionado for o texto, menos lido, menos curtido e menos comentado.

Augusto: (curioso: por que a exposição virtual é tão temida?)

Luiz Afonso: Por que poucos são capazes de sustentar argumentos, ideias ou de serem coerentes. Na maioria são repetidores de manchetes e não passam muito disso.

Augusto: Entendo. Uma civilização de slogans. Posso copiar esta conversa no blog ?

Luiz Afonso: Uma geração perdida. Tenho visto jovens de 20 a 35 anos que sequer conhecem fatos da história que temos por notórios. Como formar um pensamento sem história? Como ser crítico sem história?

Luiz Afonso: Pode, claro!

Augusto: Título provisório para o post: como formar um pensamento sem história ?

Augusto: (outra hora, te falo das raríssimas exceções que conheço ao princípio de que não há CC competente…)

Luiz Afonso: Se não existissem exceções, não seria regra hehehe

Luiz Afonso: Voltando ao teu post, esse foi o maior mal causado pela mídia: o imediatismo da solução pronta nas manchetes. Eliminou, com o passar dos anos, a capacidade das pessoas de irem atrás de mais informações/conhecimentos para fazerem a crítica do que recebem. E ir atrás de informação/conhecimento é ir atrás da história, da história que a mídia esconde. E assim também nas escolas…

Augusto Maurer: Outra coisa: que tipo de imagem posso usar para ilustrar essa conversa ? Pois, afinal, o Milton Ribeiro insiste muito que é bem mais fácil divulgar textos vinculados a imagens do que sem elas.

Luiz Afonso: Augusto Maurer, Sempre uso imagens nos posts. A escolha envolve técnicas de comunicação e, claro, sensibilidade…

Luiz Afonso: AH, e usaria essa imagem para ilustrar o post

imagens X palavras

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Nessa mesma conversa, outros comentaristas também se referiram à primazia da imagem sobre a palavra como uma tendência importante em nossa época. Sempre que me deparo com este tipo de discussão, me vem imediatamente à mente a instigante formulação do Parêntesis de Gutenberg, ao qual já me referi aqui, segundo a qual estaríamos vivendo o ocaso de uma era de predomínio da escrita, delimitada no início pelo advento da imprensa e no fim (suponho) pela omnidisponibilidade de tecnologias visuais, como em tablets ou smartphones. Antes dele, dominavam as narrativas orais. Depois, viriam as visuais.

Então, de acordo com os estudiosos que o endossam, não haveria um problema maior no fato observável de que gerações mais recentes tenham cada vez menos familiaridade com a linguagem escrita, pois estaríamos no limiar de uma nova era de comunicação essencialmente visual. Faz sentido. Pois nativos digitais passam cada vez mais tempo se relacionando com telas. Seja interativamente ou apenas vendo, na melhor das hipóteses, podcasts e vlogs de algum youtuber ou, na pior, séries de TV. Não mencionei os jogos tão somente por que estes merecem um olhar mais dedicado.

No intuito de se estabelecer a importância relativa entre som e imagem em canais e meios de comunicação, um observador arguto poderia idealizar o experimento de, primeiro, ver televisão sem som e, depois, ouvir seu som sem ver a imagem para, então, decidir em qual dos dois modos consegue entender melhor o que se passa no programa transmitido. Alguém, dada a atual farra da ciência institucional, deve nalgum momento obter algum subsídio para uma pesquisa nestes moldes. Enquanto isto não acontece, podemos tergiversar, por exemplo, sobre se não seria bem mais fácil entender o cinema sem áudio do que sem imagens – enquanto a TV seria, por sua vez, bem mais incompreensível sem audio do que sem imagem. Fora, é claro, em transmissões de partidas de futebol. Sei lá. É só um palpite.

Cabe, ainda, observar que, enquanto praticamente toda postagem compatível com a categoria de mindcasting é fortemente apoiada sobre algum tipo de linguagem verbal, seja ela escrita ou não, já aquelas reconhecíveis como lifecasting se valem com frequência bem maior de recursos exclusivamente visuais. Como provam todas as postagens de selfies, foodporn e afins. Então, se for assim – e se os defensores do Parêntesis de Gutenberg tiverem razão – rumamos para uma era obscurantista na qual todo conhecimento só estaria ao alcance de uns poucos iniciados, porquanto letrados. Só nas piores distopias, como em Farenheit 451, se imaginou um porvir tão tenebroso.

Melhor não pensar nisso. Principalmente por que, até lá, dá para ter muitas conversas como essas que só as redes sociais ensejam. Curioso. Mesmo sem ter jamais encontrado Luiz Afonso pessoalmente, sei, graças às redes, que nutrimos as mesmas paixões pela escrita e pela cozinha. Mantidas as devidas nuances. Pois, enquanto me dou melhor com panelas, ele é um exímio assador. Alguém duvida ?

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Torta de pernil de cordeiro feita por Luiz Afonso.

 

 

On education (ii): sobre cartas de recomendação

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De tantos em tantos anos, invariavelmente algum aluno me pede uma carta de recomendação para algum programa acadêmico (o que costumo considerar um ato de coragem). Desta vez, fiquei curioso com o fato de que levei praticamente o mesmo tempo (i.e., ca. duas semanas) para redigir a carta do que costumo levar, em média, para publicar cada novo post em meu blog. Mesmo que cartas de recomendação sejam bem mais sucintas do que a maioria de meus posts. Interessante.

Enquanto não me sentava ao computador para deitar, de uma sentada só, a carta que me foi solicitada, devo ter ruminado algo sobre cartas de recomendação diante de meu filho Pedro (14), posto que o mesmo de pronto indagou

  • se professores mentiam ou exageravam ao recomendar alunos (!); e
  • com que frequência um professor era solicitado a emitir cartas de recomendação.

Tais questões dizem respeito à própria existência e natureza desta forma de documento.

* * *

É bem comum – principalmente, suponho, entre universidades norte-americanas – a existência de formulários padronizados para cartas de recomendação nos quais o recomendante é solicitado a plotar o recomendado em faixas específicas de curvas de distribuição, preenchendo lacunas em frases como “o candidato está entre os n % mais isso ou aquilo”. Devo dizer que sou acometido de tremenda má vontade sempre que tenho que preencher um destes. Como se a classificação de cada aluno entre os 5, 10, 25 ou 50 % mais aptos nesta ou naquela categoria pudesse dizer muito sobre o mesmo. Ou se sequer fosse possível enquadrar cada aluno desta forma. Por isto, prefiro muito mais as formas livres de carta de recomendação à suas versões mais formatadas.

A própria existência da carta de recomendação como um formato recorrente entre instituições acadêmicas atesta, acima de tudo, que a academia não confia em seus amplos e complexos instrumentos de aferição que ela mesma desenvolve. De um simples histórico escolar a bases complexas como o LATTES. De sorte que, quanto mais elevado o nível de ensino avaliado, mais sofisticadas as ferramentas academicométricas empregadas. Ora, então por que raios qualquer corpo docente precisaria de cartas de recomendação (subjetivas e, portanto, “exageráveis” por definição) diante da quantidade de informações disponíveis para traçar perfis de quaisquer candidatos em bases como, por exemplo, a do CNPq, acima citada ? É evidente, então, que a própria academia não confia (em situações cruciais como, por exemplo, seleções de candidatos a programas de pós-graduação) naquilo que criou.

Assumamos, então, que uma grande parte da academia – a saber, aquelas artes e ciências cujos produtos sejam dados ao conhecimento de forma predominantemente escrita; falamos aqui da complexa rede de papers e teses que regulam, via de regra, o prestígio e o acesso acadêmicos – não possa confiar, efetivamente, em indicadores de estatura e desempenho derivados predominantemente de documentação escrita.

Sob tal premissa, é bem mais fácil, então, do que se aferir desempenho nestas áreas, verificar qualquer alegação de excelência em artes de performance unicamente por força de sua reprodutibilidade. Como no drama ou na música. Pois nenhum carteiraço resiste ao exame atento de um vídeo (pois, com as atuais facilidades de edição, mixagem ou mesmo afinação, gravações de som não mais são confiáveis como registros fidedignos em tempo real de execuções ao vivo.

Talvez por isso me pareça tão mais fácil para um professor de instrumento musical (ou canto) auscultar a proficiência de qualquer aluno. Pois nada me tira a convicção de que ouvir alguém tocar ou cantar diz muito mais do músico ou cantor do que a leitura de um texto pode dizer com certeza de seu autor. É claro que não falo, aqui, de dúvidas que possam eventualmente pairar sobre a autenticidade da autoria de um texto qualquer. O que quero dar a entender tem mais a ver a instantaneidade do processo da execução musical em relação ao processo mais atemporal, não linear, da gestação de um texto. Ou, ao menos, como imagino a julgar pelos meus.

É, pois, feliz por

  • conhecer o desempenho de meus alunos predominantemente através da escuta ao invés de, como é mais comum, por meio da leitura,
  • não precisar me ater, ao menos desta vez, a um ridículo formulário padronizado conforme acima descrito e, last but not least,
  • não ter que emitir cartas de recomendação com muita frequência,

que escrevi, a respeito de meu aluno Pedro (28), o seguinte:

Pedro Schneider is an outstanding student from the music program at Instituto de Artes of Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, RS, Brasil), where I’ve been his clarinet teacher for the last two years, and, previously, at the extension program from the same university.

Highly creative and focused, Pedro has a solid background in keyboard, acquired previously to his engagement as a clarinet major. Currently, he successfully manages to combine an academic path in classical music training with an already ongoing career in popular music.

Had I ever listened to my musical genre prejudices, I would never had accepted Pedro as a student, for he came from a music world which a reputed as very limited, namely, hip-hop culture and rap music. I was, nevertheless, fortunately frustrated on my low expectation about his achievements as a classical major, for, even having joined the class at a much lower level of proficiency than other students (at the clarinet, I mean, for he was already an accomplished pianist by that time), his progress in the newly chosen instrument became, very soon, much faster than the average of the class.

As a musician, Pedro seems to be very mature, taking decisions and making choices mostly based on his artistic convictions rather than on mainstream trends. He has the advantage point of being, besides to an accomplished player and composer, also a curious and attentive listener, even of music beyond the limits of his favorite listening zone.

For all above, I strongly recommend him to attend the One Beat trainning program to which he is currently applying.

on conducting (ii): o método Ricci; on writing: sobre os benefícios da irregularidade

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Tivemos, nos últimos dias, a oportunidade de ensaiar e tocar quatro récitas de uma ópera de Puccini em forma de concerto sob a batuta de Enrique Ricci. Não é a primeira vez que a OSPA se apresenta dirigida pelo maestro argentino, naturalizado espanhol. Antes, Ricci já esteve à frente da orquestra numa Cavalleria Rusticana, também em forma de concerto, e, anteriormente, em Turandot, encenada no Teatro Solis de Montevideo.

Gosto de maestros polêmicos que, como Ricci, dividem opiniões de músicos. Dono de um estilo bem pessoal, não há como lhe ser indiferente. Pois os mesmos atributos pelos quais sua regência é aclamada por muitos se constituem, no entender de outros, em suas principais limitações, a saber, os fatos de que, enquanto rege,

  • parece aderir a uma sólida versão imaginária da obra que executa, e
  • raramente ou quase nunca indica com precisão os pontos de entrada de cada instrumento ou naipe.

Tais características, particularmente no gênero da ópera, obrigam a orquestra a uma atenção muito maior do que a habitual à concepção pelo regente no pódio da obra em questão – a qual precisa ser, por vezes, praticamente adivinhada. Deste esforço e concentração adicionais empreendidos, tidos por alguns como extenuantes ou mesmo irritantes, resulta algo intangível que é percebido pelo ouvinte menos avisado como uma intensificação emocional da performance.

Que lição tiramos disso ? Ora, que por vezes só temos a ganhar ao evitar os grandes consensos e unanimidades. Ao menos em áreas tão nebulosas como os fatores que determinam a qualidade na regência orquestral tais como, por exemplo, a importância ou a qualidade do gesto – tão importantes para alguns e, ao mesmo tempo, absolutamente irrelevantes para outros. Viva a diversidade dos egos musicais.

* * *

Tornando a atualizar este blog depois de quase três semanas, é inevitável que me depare com questões frequentemente levantadas por quem quer que já tenha se dedicado, de um modo ou de outro, à escrita, tais como:

  • qual a frequência de publicação ideal, em blogs ou outros meios, sob o ponto de vista da qualidade da escrita ?
  • até que ponto a frequência de publicação ideal no blog de um autor coincide com a expectativa de seus leitores ?
  • até que ponto a regularidade, respectivamente, na escrita e na publicação são benéficas ou, ao contrário, nocivas à qualidade do texto acabado ?
  • até que ponto textos devem ser publicados na ordem cronológica em que são imaginados, ou, ao contrário, aleatoriamente, na medida em que diferentes ideias implicam em tempos diferentes de amadurecimento ?

O problema não é novo. O excelente blog brainpickings, de uma das melhores curadoras da web, Maria Popova, reúne receitas e aforismos de grandes escritores, acostumados à disciplina e às crises da rotina criativa. Preguiçoso, me interesso pouco pelo que dizem. Do alto de meu atrevimento, afirmo que toda regularidade, quer na escrita em si, quer na publicação, conspira contra a qualidade do texto. Ao contrário, não vejo vantagem alguma em se manter qualquer regularidade ou hábito literário a menos que se tenha algo irresistível ou urgente a dizer. O que, na maioria das vezes, só acontece de quando em quando, independentemente da vontade de qualquer autor, quase sempre intercalado entre eventos e experiências significativos vividas por cada um. De tal modo que a crônica cotidiana ou periódica tende, invariavelmente, a um certo marasmo e previsibilidade.

É também notório que grandes formas implicam em maiores tempos de maturação. Senão, por que raramente alguém dirige mais do que alguns punhados de bons filmes, compõe mais do que uma dezena de sinfonias memoráveis ou escreve mais do que três ou quatro grandes romances ?

Então, que se dane todo e qualquer método. E que vivam os editores que aceitem tal estado de coisas.

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