A intérprete de Libras, musa do governo Bolsonaro

Meses atrás, quando se gritava “fora Temer”, dificilmente se ouvia alguém defender o vampiro. Hoje, é bem diferente. Basta aludirmos a qualquer coisa percebida como negativa em relação a Bolsonaro, fato novo ou não,  para que as portas do inferno se abram e soltem no espaço virtual uma leal tropa de choque a chamar os críticos do governo recém empossado de petralhas, comunistas, derrotados, desesperados, ridículos, patéticos… enfim, a lista é imensa. Foi exatamente o que aconteceu dias atrás sob uma de minhas três postagens em sequência sobre a posse presidencial que dominou a mídia durante todo o dia.

Não pretendo, aqui, defender alguma deselegância ou comportamento politicamente incorreto de quem, como eu, pensa mais à esquerda do que aqueles que assumiram o poder. É que, diante de tanta asneira, é difícil permanecer impassível. Até eu, por vezes, tenho que morder a língua para não troçar de simpatizantes do idiota do ano (mais do mesmo aqui). Por isto, não condeno (ao contrário, até acho divertido) quem se utiliza das caixas de comentários sob minhas postagens para lascar um “otário” ou coisa que o valha diante da verborragia chapa branca.

Mas não vim aqui para falar disto. De início, fiquei intrigado sobre por que, de minhas três postagens, a que mais suscitou comentários de ambos os lados, numa verdadeira batalha campal, foi justamente a mais gratuita – a saber, aquela sobre a intérprete de Libras (língua brasileira de sinais) que, na aurora do novo governo, já ocupa a posição de sua musa absoluta. Mais, até, do que a primeira dama (não riam: já há quem ache que, com aquele carisma, será a próxima presidente. Uma espécie de Evita 2.0). Em meio ao bate-boca, poucas frases sobre as duas postagens que considerei mais reflexivas – a saber, que ironizavam, respectivamente, o clima de caça a dissidentes reeditado dos tempos da ditadura e a hábil manobra da prisão do candidato com maiores chances na corrida presidencial.

Dizem que piada explicada perde a graça. Ainda assim, sou forçado a recorrer ao expediente devido à reprimenda moral que recebi por, ao atentar para o lado cômico da já célebre intérprete, estar supostamente menosprezando uma ferramenta de comunicação tão importante para uma minoria (estranhamente, uma das poucas, senão a única, vista com bons olhos pelo novo governo).

Não devo ter sido o único a sublinhar a franca evidência dela em relação a qualquer autoridade ao lado da qual se apresente. Na presente situação, o fato mais relevante é que os monótonos discursos lidos por Bolsonaro em ocasiões importantes (mais sobre a autoria dos mesmos adiante) são inquestionavelmente valorizados pela atuação dramática e, sobretudo, cômica daquela intérprete – o que nos leva, de pronto, a indagar: por que os discursos do presidente precisam necessariamente sair de sua boca ? Ora, não seriam muito mais convincentes se proferidos originalmente pela intérprete, enquadrada no centro do campo visual, e traduzidos para os não fluentes em Libras por meio de legendas ou de uma voz em off ?

Indo mais fundo na leitura do fenômeno. Talvez o que torne a fala daquela intérprete tão cômica sejam os dois níveis em que o discurso é percebido. Num plano mais neutro, está a linguagem de sinais. Noutro, que a distingue tanto de outros colegas de profissão, está sua expressão facial ou, noutras palavras, as engraçadíssimas caras e bocas que faz concomitantemente à tradução.

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Eu já havia escrito este post até aqui quando, tomado por intensa curiosidade, fui “pesquisar” (eufemismo para digitar no google ” quem é a intérprete de libras dos discursos de Bolsonaro ? “) quem seria, afinal, a carismática figura que, no imaginário popular, já está indissoluvelmente colada à imagem do presidente. Depois de ler o texto de apresentação de uma entrevista (que ainda não vi, pois sou, como sabem, avesso a videos) e  uma matéria arrolando comentários politicamente corretos de desaprovação em relação a tiradas engraçadas sobre a intérprete, fiquei sabendo se tratar de Elisângela Castelo Branco, professora da UFRJ, coordenadora do ministério Incluir da Igreja Batista Atitude (RJ) e, aparentemente, uma das maiores autoridades nacionais em Libras. Ao ler tudo aquilo, me senti meio culpado, constrangido até, por achar que zoar de sua atuação e, pior, tentar instigar o mesmo sentimento em terceiros se constituiria numa ofensa a toda a minoria que se beneficia daquela linguagem. Naquela matéria, também fiquei sabendo que justo a expressão facial de Elisângela, que eu achara tão engraçada, era parte indispensável da gramática de Libras (mais do mesmo).

Consoante a isto, estive a ponto de me desculpar publicamente pela suposta piada de mau gosto. Pensei mais, porém, e não encontrei qualquer explicação satisfatória para o fato da expressão facial de Elisângela ser, positivamente, MUITO mais engraçada do que, por exemplo (não é preciso ir longe), as de outros “falantes” de Libras que atuaram na cerimônia. A começar pela primeira dama. Continuo sem resposta mas, ao menos, aliviei minha culpa.

Pensando mais (este velho mau hábito), lembrei do poder destronante do riso que, segundo Bakhtin, serviria, desde tempos medievais, para que os comuns pudessem, por meio da ridicularização, desafiar todo poder absoluto – e, na presente situação, se não seria precisamente isto que está em jogo quando rimos da tradução em gestos dos discursos de Bolsonaro. Pois, neste caso, não estaríamos rindo das caras e bocas de Elisângela e sim dos discursos lidos pelo presidente com sua monotonia habitual. Monotonia, entenda-se, do presidente e não dos discursos – posto que os últimos são prá la de engraçados. Eloquentemente engraçados.

Forçado ? Talvez. Uma contraprova seria submeter os discursos de Bolsonaro a outros intérpretes para verificar se a componente cômica permanece ou não. Há que se considerar, todavia, que Elisângela deve ter sido escolhida justamente por traduzir aqueles discursos convincentemente, i.e., ela definitivamente ACREDITA (como uma Velhinha de Taubaté, lembram ?) no que o presidente diz. E a comicidade é, no caso, mera consequência daquelas asneiras devidamente interpretadas. Pois, convenhamos, Bolsonaro não serve para ler nem boletins meteorológicos,  o que dirá discursos políticos (não é preciso muita sensibilidade para perceber o quão dramaticamente lhe falta o dom da oratória típico dos grandes estadistas).

O que desemboca diretamente na questão acima aludida sobre a autoria de seus discursos.  É claro que, nem em seu caso nem tampouco em qualquer outro, é possível comprovar cabalmente a redação de própria lavra ou de outrem de um pronunciamento político. Fica tudo, então, no campo da conjectura. Ghost writers não deixam vestígios. São segredos guardados a sete chaves e suponho que a revelação dos mesmos seja passível de punição, em alguns regimes, até com execução. Ainda assim, grandes discrepâncias entre a linguagem oral de alguns dignitários e seus discursos escritos engendram dúvidas sobre a autoria dos últimos. Ninguém duvidaria, por exemplo, da autoria do bilhete de suicídio de Getúlio. Ou da de um discurso lido por Churchill ou Fidel. No caso de Bolsonaro, no entanto, a coisa é bem diferente. Basta comparar a coerência (não falo, é claro, do conteúdo ridículo, mas da forma bem trabalhada) dos discursos que lê com a de suas (poucas) falas improvisadas, sejam elas intempestivas ou mais controladas, em entrevistas.  E, a partir disto, também é fácil entender por que não lhe deixaram comparecer a qualquer debate.

O discurso artístico e o discurso sobre a arte

É razoável se supor que, para cada quantum de discurso artístico criado, seja em forma de livro, música, filme, quadro ou escultura, haverá uma quantidade bem maior de discurso sobre a obra, tanto maior quanto mais antiga e/ou consagrada ela for.  Isto por que a resenha sobre objetos artísticos, antes confinada a um seleto círculo de especialistas, acabou por se tornar o café da manhã, o almoço e o jantar de toda uma comunidade acadêmica voltada para a produção de textos analíticos sobre obras de arte em teses de pós-graduação e artigos para periódicos.

Não que todo discurso sobre a arte seja totalmente irrelevante ou supérfluo. Longe disto. Afinal, há textos secundários excelentes, geralmente de fôlego e em linguagem atraente, que iluminam a compreensão sobre um autor, grupo de autores ou mesmo todo um contexto ou uma época. Tais são os tratados de teoria literária de Mikhail Bakhtin (1895-1975) sobre Dostoiévski e Rabelais, ou ainda os livros de Charles Rosen (1927-2012) sobre o estilo clássico e a forma sonata. São também respeitáveis as contribuições de schollars como Alan Tyson ou Robert Winter para periódicos como Beethoven Studies ou ainda as obras de Walter Frisch sobre a música de Brahms. Assim como estes, há muitos outros. Quase sempre, nestes casos, os textos analíticos secundários sobre a obra de epígonos artísticos são de interesse tão universal que acabam fatalmente publicados como livros.

Fora deste círculo de brilhantismo, no entanto, o que há – e em muito maior quantidade – é uma miríade de papers, de diferentes extensões (artigos, os mais curtos; teses, os mais longos), produzidos primordialmente para a promoção de seus autores na carreira acadêmica, que serão lidos não mais do que por aspirantes a posições mais ambiciosas no intuito de melhor rechearem seus próprios textos com citações.

Aqui se faz necessário um disclaimer (antes que comecem as inevitáveis pedradas): é claro que há teses e artigos interessantes e necessários; estes se constituem, no entanto, muito mais em exceções do que na regra.

É sobre tais textos secundários, bem escritos no máximo, ainda que de pouca relevância para a apreciação das obras examinadas, que trato nesta diatribe.

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Não conheço a origem das teses e artigos científicos, nem tampouco tenho paciência para buscar tal erudição. Quer me parecer, no entanto, que a disseminação  generalizada do texto acadêmico que temos hoje seja como uma praga que fugiu ao controle.  Escrever (e publicar) já foi um privilégio exclusivo de quem (1) soubesse escrever bem e/ou  (2) tivesse algo original ou, ao menos, interessante a dizer. Só que, nalgum momento, pareceu às elites universitárias que talvez fosse uma boa ideia exigir de aspirantes a melhores posições acadêmicas que escrevessem intensamente, quase compulsivamente.

Aqui nos deparamos com um desequilíbrio fundamental, a saber, o de que existem muito mais pesquisadores (assim são chamados) do que, propriamente, objetos de estudo carentes de textos elucidativos. Isto foi suficiente para instaurar uma corrida, entre orientandos e orientadores, pela identificação de temas passíveis de uma boa tese ou de um bom artigo. E nesta busca, um lugar óbvio para o qual olharam (especialmente pesquisadores em arte) foi o imenso manancial de discurso artístico produzido em todas as épocas.

Só que tal expediente não se afigurou, na prática, tão simples, posto que campos de estudo sobre epígonos como Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Brahms ou Schoenberg (para citar uns poucos) já estavam saturados com textos consagrados do eminente círculo de schollars supracitado. A solução foi se voltar, então, para obras de artistas novos ou novíssimos menos conhecidos. E se garantiu, com isto, a perpetuação do exercício acadêmico da escrita. Para desespero dos bibliotecários – que são, em última instância, aqueles que devem lidar com o excesso textual.

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Sei. A visão acima será certamente descartada como o delírio de um outsider pela academia, a qual se perpetua sem a necessária autocrítica, ignorando por vezes mesmo contribuições valiosas de insiders argutos – como, por exemplo,  Maggie Berg e Barbara Seeber no sensacional The Slow Professor – challenging the culture of speed in the academy.

Vejamos, então, a coisa sob outro prisma: o do artista que tem a obra dissecada em textos secundários sobre a mesma. Antes, porém, algumas palavras sobre os limites da análise.

Torno a dizer que, é claro, não falo aqui dos impressionantes insights de um Rosen, Tyson ou Frisch (que, é preciso dizer, não caberiam na extensão de um artigo ou mesmo de uma tese de dimensões normais – sendo, na maioria das vezes, a investigação de uma vida inteira). Falo, sim, do tipo de achado normalmente resultante da aplicação de alguma técnica consolidada de análise musical. Pois há muitas: Schenker, Meyer, Reti, semiótica e por aí afora.

Ministrando, décadas atrás, disciplinas de análise musical a alunos de graduação, passei pelo constrangimento de ter que lhes revelar, ao fim do curso, que nenhuma técnica conhecida de análise pode nos dizer sobre uma música qualquer coisa que já não saibamos depois de ouvi-la.

Os mais céticos hão de dizer que há um certo exagero nisto, visando o efeito fácil – com o que, admito, tenho que concordar. Tomemos, então, um caso extremo: o da análise semiótica, formulada por Jean-Jacques Nattiez. Na década de 90 do século passado, Nattiez falou num congresso da Associação de Pesquisa e Pós-Graduação em Música na UFRGS. Sua concorrida conferência foi sobre uma análise em andamento da Catedral Submersa, de Claude Debussy. Disse que tinha submetido seus dados a uma especialista em computação para o processamento numérico. Desconfiado, achei aquilo tudo muito estranho. Como se quisessem descobrir algo novo sobre a célebre música através de um equipamento, sei lá, como um espectógrafo de massa (utilizado para identificar átomos de elementos constituintes da matéria). Ao final, a cereja do bolo: Nattiez informou à reverente plateia que a especialista ainda não havia lhe retornado os resultados. O que não o impediu, no entanto (pensei com meus botões), de cruzar o Atlântico, provavelmente não de graça, para nos falar daquilo. Curiosamente, não nutro hoje, mais de 20 anos depois, a menor curiosidade para saber o que descobriu sobre a maravilhosa peça de Debussy.

Fecho parênteses, voltando à questão de especular sobre a preferência de um autor entre ter sua obra minuciosamente analisada por e para um reduzido número de especialistas ou, ao contrário, ter a mesma amplamente vista, lida ou escutada por um grande público atento, ainda que leigo.

A “licença para prescindir do público” foi talvez pela primeira vez formulada e concedida, ao menos em música, no manifesto Who cares if you listen ?, de Milton Babbit (1916-2011), compositor e professor da Universidade de Princeton, publicado em 1958 pela revista High Fidelity. No célebre ensaio, Babbitt defende a tese de que a universidade se constitui no lugar ideal para o compositor criativo, uma vez que somente nela fica o mesmo livre de qualquer compromisso com a aceitação pública de sua obra.

Lasco, no entanto, o palpite de que a grande maioria dos pintores, escultores, escritores, compositores e cineastas deva preferir, inquestionavelmente, a segunda opção.

Fazendo, ainda, as vezes de advogado do diabo, caberia perguntar se a profusão de textos secundários disponíveis em teses e periódicos sobre o discurso artístico não contribuiriam de forma decisiva para o entendimento e, quando fosse o caso, realização (como na música), do mesmo. Não tenho resposta. Por isto mesmo, quero conhecer o contraditório – a saber, o valor de textos analíticos secundários para uma melhor realização e/ou compreensão de discursos artísticos.

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P.S.: comecei a ler, meses atrás, o grande livro de Michael Benson sobre 2001: Uma Odisséia no Espaço. Ainda que nem todo filme mereça um livro a seu respeito, com certeza qualquer obra de Kubrick justificaria o volume. Por isto, será interessante rever mais uma vez o épico espacial do cineasta após concluída a leitura (que interrompi para ler outras coisas mas, oportunamente, devo retomar) para saber de que modo a obra secundária afetou minha apreciação da primária.

Apelos por menos informação surgem onde ela é tudo o que importa

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À medida em que a população de livros e periódicos continua a explodir, bibliotecários reclamam que o espaço nas prateleiras está acabando e que os custos estão fora de controle. Ao mesmo tempo, autores e estudiosos dizem que a multiplicidade de publicações medíocres torna impossível peneirar as que contém ideias novas.  A proliferação de livros e periódicos parece ter reduzido o acesso à informação ao invés de aumentá-lo, e algumas universidades estão pensando em maneiras de encorajar seus corpos docentes a publicar menos, não mais.

” Há gente que publicou 400 manuscritos durante sua vida, e alguns muito mais do que isto “, disse Marcia Angel, editora do New England Journal of Medicine. ” É difícil acreditar que alguém possa realizar trabalho realmente importante nesta escala. “

O excesso de informação é mais grave nos campos científicos, onde o número de periódicos publicados mundialmente excede hoje 40.000. Em razão dos periódicos se destinarem a públicos tão pequenos, os preços podem ser astronômicos. Para citar um exemplo extremo, uma assinatura anual de um periódico de física nuclear publicado na Holanda custa 3.885 dólares e inclui mais de 11.000 páginas.

Por sua vez, alguns jovens pesquisadores de Harvard, da Universidade da California em Berkeley e de outras universidades renovaram esforços para que escolas fundamentassem decisões sobre carreiras mais no desempenho em aulas e na quantidade de fundos de pesquisa que membros de seus corpos docentes tenham colhido do que no número de livros e artigos que publicaram. Um relatório divulgado pela Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching em 1986 também recomendou que professores sejam avaliados mais por seu ensino do que por sua habilidade em publicar.

Limites à Publicação

Em fevereiro de 1988, a Harvard Medical School editou novas diretrizes para progressões docentes, recomendando que fossem requeridos não mais do que 5 trabalhos publicados para candidatos a professor assistente, 7 para professores associados e 10 para titulares. Candidatos anteriores, na tentativa de impressionar julgadores, submetiam o máximo que podiam.

O crescente número de periódicos ocorre numa época em que cientistas confiam cada vez menos neles. As últimas ideias em ciência são tipicamente trocadas muito antes de sua publicação formal, em conferências e através de cópias  de papers distribuídos antecipadamente por máquinas de fax e redes de computadores.

Richard M. Dougherty, diretor da biblioteca da Universidade de Michigan e presidente da American Library Association, disse que bibliotecários tem sido forçados a cancelar assinaturas montando às centenas de milhares de dólares de periódicos científicos raramente usados. Mas o cancelamento de assinaturas parece causar apenas uma espiral mortal, na qual editores precisam cobrar mais para compensar listas de envio menores.

Henry H. Barschall, professor aposentado de física na Universidade de Wisconsin, estudou o custo/benefício de 200 periódicos de física e descobriu que, em geral, os mais caros são menos propensos a serem citados em outros periódicos e presumivelmente menos passíveis de serem lidos. ” Quando me tornei ativo como pesquisador em física 40 anos atrás, costumava ler tudo o que saía “, disse. ” Hoje, isto é impossível. Ninguém pode ler tudo o que é publicado em seu campo. “

Armazenamento de Livros

Conquanto periódicos possam ser relegados ao microfilme, bibliotecas ainda precisam criar espaço para o fluxo contínuo de livros. E apesar de que a informação seja crescentemente disponível através de redes de computadores, bibliotecários dizem que o acesso a estas redes é caro e mantenedores de bibliotecas frequentemente preferem trabalhar com material impresso. A maioria das bibliotecas de pesquisa teve recentemente que construir instalações de armazenamento remotas onde materiais mais antigos e menos usados repousassem até serem convocados para uso. A Universidade da California em Berkeley possui mais de três milhões de volumes no acervo; a Universidade de Michigan, mais do 900.000 e a Columbia, 400.000. Em Harvard, bibliotecários tiveram recentemente que tomar a difícil decisão de começar a transferir livros de suas prateleiras na Widener Library para um local de armazenamento a 45 minutos do campus para dar espaço a novos livros.

Apesar de que materiais armazenados sejam geralmente recuperáveis em horas, pesquisadores reclamam que remover livros de estantes nas quais possam ser manuseados ou neles se possa tropeçar acidentalmente impede a pesquisa. A Association of Research Libraries, em Washington, previu que todas as suas 119 bibliotecas associadas terão locais de armazenamento remotos nos próximos cinco anos.

Surpreendentemente, a única biblioteca que ainda não sofreu com a elevação do custo de periódicos e o encurtamento do espaço em estantes é a Biblioteca do Congresso, que acumula mais de 88 milhões de itens em três prédios. A biblioteca recebe 31.000 novos livros a periódicos por dia e guarda 7.000 deles. Por meio do armazenamento de muitos textos em microfilmes e discos óticos, bibliotecários esperam alargar o espaço em estantes até o final do século, de acordo com a porta-voz Nancy Bush. ” Temos tudo o que o New York Times publicou numa única gaveta “, diz.

A Biblioteca do Congresso é também a única que não paga pela maior parte de suas publicações seriais. Muitos dos periódicos estrangeiros vem de intercâmbios internacionais, e editores domésticos precisam enviar cópias gratuitas à biblioteca ao reivindicar direitos autorais.

Um resultado do excesso de livros e periódicos é que bibliotecários se tornaram mais discriminatórios, microfilmando materiais essenciais e cancelando assinaturas dos que não são. ” Acho que, pela primeira vez, estamos nos tornando bons consumidores “, diz Michael A. Keller, bibliotecário universitário associado em Yale. ” Estamos tentando indicar aos criadores de toda essa informação que temos a responsabilidade de escolher. “

Para que tanto excesso ?; ou Da ignorância voluntária

Certa vez um cunhado meu, renomado economista acadêmico da UFRJ, em vias de se aventurar no mundo empresarial, no segmento de alimentos, me perguntou qual eu escolheria dentre uma pizzaria de menu sucinto, com uns poucos sabores, e outra que oferecesse uma grande variedade de opções. Para sua decepção, escolhi recorrentemente aquela que oferecia menos pizzas diferentes, alegando que o excesso de opções não servia mais do que para distrair os clientes – o que representava, para mim, uma sobrecarga desnecessária no processo de escolha, o qual, num estabelecimento decente, não precisa ir além de alguns clássicos como napolitana, margarita, calabresa ou anchovas. Vá lá, tomates secos com rúcula. Mas gourmetizações de toda sorte, com salmão, bacalhau, mel, queijo brie  e afins, além das famigeradas pizzas de coração de galinha e estrogonofe (eca !), são, para mim, um engodo.

Meu cunhado professor de economia acabou abrindo uma pastelaria, com não sei quantos tipos de pastel e que existiu no Leblon por não sei quanto tempo. Do episódio de sua indagação filosófica sobre a variedade do cardápio e sua frustração ante minha preferência, testada de vário modos, por um menu mais sucinto, permaneço até hoje com a impressão de que, para a economia tradicional (aquela que adota o mercado como régua ideal para tudo), mais opções de consumo é sempre desejável. Este texto tem por finalidade afirmar o contrário.

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E já que começamos falando em comida, olhemos mais de perto como se comporta a gastronomia em relação à variedade.

A cozinha clássica é fundada sobre um repertório bem delimitado, tendendo ao finito, de combinações de ingredientes. Assim, podemos pensar em muitas sopas, cujas bases se constituem em batatas (o caldo verde), ervilhas, aspargos, abóbora, repolho (kapuzta) ou beterrabas  (bortsh), entre outras. É claro que as carnes e os temperos podem variar em cada versão familiar, mas ai do cozinheiro que, inadvertidamente, ousar misturar quaisquer dos ingredientes acima, mascarando suas identidades.

O mesmo ocorre com o sushi, cuja versão original exclui inovações ocidentais como o acréscimo de cream cheese, morangos ou coisa que o valha. Então, não é por acaso que reality shows culinários, tais como o Mastercheff, repousam sobre a criação, pelos aspirantes, de combinações inusitadas de velhos ingredientes. Nestes programas, os processos culinários são quase sempre ofuscados pela originalidade da mistura.

O segmento onde a multiplicação capitalista da oferta se manifesta com mais veemência é o da moda – que, além de induzir alguns a possuir uma grande variedade de peças de vestuário, os leva a trocar de guarda-roupa de tempos em tempos, sob o preço de, caso contrário, parecerem de algum modo ultrapassados. O caso mais emblemático deste estado de coisas é o de mulheres que precisam ostentar um vestido novo a cada festa. O fato de que homens não estejam, geralmente, submetidos ao mesmo “código” de vestuário permanece um dos grandes mistérios dos estereótipos de gênero.

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Desgraçadamente, a música, o cinema e a literatura foram as modalidades artísticas melhor absorvidas pela praga da indústria do entretenimento – principal responsável, ainda que de modo espúrio, alheio à própria vontade, pelo surgimento, entre as obras de arte, da noção do supérfluo, irrelevante ou descartável.

Não sendo um leitor “profissional”, como um crítico, nem sequer compulsivo, interessado pela maioria das novidades editoriais, divido minhas leituras em dois grandes grupos. De um lado, títulos consagrados, de ficção ou não, contemporâneos ou datados, “históricos”; noutras palavras, o que se convencionou chamar de grande literatura. De outro, livros escritos por amigos.

Muitas vezes abandono leituras antes de chegar ao fim. Em favor de meus amigos literatos, posso dizer que não lembro de, em tempos recentes, ter abandonado a leitura de alguma de suas obras, e que isto tem mais a ver com a qualidade de seus livros do que com nossa amizade. Por extensão, concluo que exista, para além de meu círculo de amizade, uma vastidão de novos autores interessantes cuja obra jamais chegarei a conhecer. Isto pode ser tido como um dos grandes males do excesso de autoria em que somos imersos. Ou não. Não sei ao certo.

Toda a literatura restante é por mim relegada a um imenso limbo com o qual não travarei, no restante de meus dias, qualquer contato – sem me sentir, com isto, de modo algum irremediavelmente ignorante por isto nem tampouco culpado por tal atitude. Tal ignorância é  ruim ou indesejável ? Também não sei. Torno a isto ainda neste post

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O tempo disponível durante uma existência humana para a fruição de livros, filmes e música é limitado, variando de acordo com cada indivíduo e sua etapa  de vida. É, no entanto, evidente que, mesmo no caso de bibliófilos, cinéfilos e melômanos vorazes, ninguém tem tempo para conhecer tudo o que já foi produzido. Daí a pergunta:

qual a importância de alguém, mesmo um “especialista”, conhecer, de fato, tudo o que está a seu alcance ?

Tudo bem que redes de recomendação dependam, para seu bom funcionamento, de curadores oniscientes. Mas e se nossa biblioteca, playlist ou coleção de filmes vistos mais de uma vez se estendesse a um conjunto dramaticamente menor de opções do que a totalidade de tudo o que se filma, compõe ou escreve, seríamos, necessariamente, mais estúpidos e/ou menos felizes ?

Eis, outra vez, a pergunta que não quer calar. Retórica, é claro, apenas à guisa de provocação.

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Duas “novidades” da indústria do entretenimento são as séries televisivas e as plataformas de streamming de música e filmes.

Dizem que até há séries boas. O que, todavia, não é suficiente para eu me interessar por elas. O problema é o tipo de contrato que se estabelece entre uma série e seu espectador. Para melhor entendê-lo, tomemos, por contraste, a experiência de se assistir a um filme comum. Nele, podemos, ao cabo de umas poucas horas, impregnar no imaginário uma história com começo, meio e fim. Mesmo naqueles com finais abertos, antíteses dos whodunits policiais. Já em séries somos convidados a reencontrar, ciclicamente, as mesmas personagens a postergar indefinidamente um gran finale que jamais acontece. Pois séries apresentam, invariavelmente, dois tipos de desfecho, a saber,

enquanto a série em questão tiver bons índices de audiência, se pode apostar com segurança numa nova temporada, com os mesmos heróis e situações requentados;

se, ao contrário, a série não der muito Ibope, é abortada ao fim da temporada corrente, ainda que, para alguns aficionados, com um amargo gosto de quero mais.

Nas duas hipóteses, séries se constituem, no máximo, em esforços bem sucedidos para preencher com estímulos externos o tempo disponível para entretenimento de cada um. O preenchimento de todo o tempo e de todos os espaços disponíveis, ainda que com coisas e conteúdos descartáveis, é um dos pilares do consumismo.

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Quanto às plataformas de streamming, o maior problema é sua notória hostilidade a conteúdos perenes mais antigos. A revista Newsweek já se ocupou da escassez de títulos clássicos no Netflix. Em meio à profusão de lançamentos que em poucos meses serão esquecidos, é impossível encontrar, por exemplo, um único Hitchcock. A exclusão é a mesma até se considerarmos cinematografias mais recentes. Quando quis mostrar a um de meus filhos Fargo, uma Comédia de Erros, dos irmãos Cohen, não encontrei o filme no Now nem tampouco no Netfix.

Ao mesmo tempo, já não dispomos de uma rede decente de videolocadoras. É, pois, possível se afirmar que, dados os atuais meios de exibição, a memória cinematográfica está morrendo. Ou, quando muito, foi relegada a círculos especializados.

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E chegamos, por fim, à música. A esmagadora maioria do que se produz hoje pertence a um segmento, o pop, para o qual careço de conhecimento e, portanto, competência para apreciar. Por isto, tenho que me debruçar sobre coisas mais antigas tais como o jazz ou a música sinfônica.

A sinfonia é um território pouco populoso, evitado por compositores casuais, dada a grande complexidade tanto da escrita para o conjunto de instrumentos (a orquestra sinfônica) para o qual é composta como das formas nas quais se realiza.

O marco do primeiro movimento da Eroica (terceira das nove sinfonias de Beethoven), com seus 15 minutos de duração. Ora, são raros os compositores, de agora ou de qualquer época, capazes de sustentar por tanto tempo o interesse em torno de um todo inteligível (i.e., que permita ao ouvinte reconhecer, a cada instante da audição, em que parte do “percurso” se encontra).

Mesmo neste campo rarefeitamente  povoado, que inclui não mais do que umas poucas centenas de obras, é bem questionável até que ponto vale a pena conhecer tudo “em extensão” ao invés de, ao contrário, se ouvir repetidamente algumas poucas obras seminais.

No jazz não é diferente. De que vale se ouvir tantos pianistas, por melhores que sejam, depois de ouvir tudo o que se conhece de Bill Evans ? É claro que toda curiosidade é por si só virtuosa, nada invalidando a nem sempre prazerosa tarefa de se conhecer algo novo, já que a taxa de gratificação da escuta exploratória é sempre muito baixa. Coisa para especialistas, que precisam ter uma visão “plana” de campo para poder oferecer recomendações confiáveis.

Assim, frequentemente me pego reouvindo aqueles três álbuns de Oliver Nelson com Eric Dolphy, contemporâneos menos célebres do Kind of Blue, que nunca foram superados por qualquer coisa que tenha vindo antes ou depois.

Essas coisas me remetem sempre a uma asserção de Paulo Moreira, numa audição comentada sobre Bill Evans no Instituto Ling, segundo a qual todas as possibilidades parecem já terem sido experimentadas – não havendo, portanto, qualquer espaço para o surgimento de novos gênios e restando aos criadores atuais não mais do que exercitar, em releituras e interpretações, as descobertas de um punhado de inovadores históricos. Pessimismo ? Acho que não. Realismo, talvez.

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E como tudo tende à repetição, com novas elaborações sobre velhos temas, recorrentes, admito já ter me ocupado neste blog, ainda que como temas colaterais, com o excesso autoral, a importância da curadoria (aqui e aqui), a falta de memória do streamming, reality shows (aqui e aqui), o fim da genialidade (aqui e aqui) e os três álbuns de Oliver Nelson com Eric Dolphy, dos quais devo tornar a falar em breve.

 

Por que custarão a surgir algoritmos capazes de lidar com escrita criativa (exceto, talvez, a poesia…)

Uma das interações mais desejadas por donos de blogs é ensejar reações brilhantes em outros blogs. Tanto melhores quanto for a inteligência dos interlocutores.

Como Fernando Rauber Gonçalves. Apresentá-lo como um pianista capaz de tocar com plena desenvoltura um concerto de Bartók diz muito pouco dele. Provavelmente a maior parte dos que o ouvem desconheça seu repositório de improvisações ao teclado ou, desde mais recentemente, o blog onde ventila e defende grandes ideias. Além disto tudo (que não é pouco !), Fernando se dedica à programação de jogos – tendo, inclusive, participado de competições de programadores.

Tenho particular afeição ao blog de Fernando por muitas razões. Primeiro, por que me sinto lisonjeado com o fato de que sua criação teve como causa imediata disseminar uma resposta ao que pareceu, a ele e talvez a muitos, uma crítica pueril a Carmina Burana que eu publicara.

Mas isto foi há bastante tempo. Neste verão, Fernando me homenageou outra vez ao treinar por vinte horas uma rede neural para escrever como se fosse eu, a partir do corpo de textos publicados neste blog, dando a meu alter ego algorítmico o simpático nome Augustus Mahler.

Entendam melhor o contexto. Em posts anteriores, muito me dediquei à hipótese de Harari de que, em 30 anos ou menos, haverá massas de inempregáveis, dada a progressiva transferência de todas a tarefas a robôs e algoritmos que as executam muito melhor do que humanos. O experimento de Fernando buscou – e encontrou ! – o estado da arte em termos do que uma inteligência artificial, residente numa rede neural, é capaz de emular discursos de diferentes autores.

Ao saber do propósito da coisa, fui ao “blog” de Augustus Mahler com curiosa cautela, para descobrir com alívio que, por enquanto, redes neurais ainda não são capazes de lidar com a dimensão semântica do discurso. Pois as locuções, coletadas pela rede, por mim usadas aqui ou ali, não fazem qualquer sentido quando permutadas – demonstrando, com isto, que escritores ainda não são dispensáveis.

Por que, então, é tão mais fácil emular compositores do que escritores ? Ora, por que a música não possui tanta coerção semântica quanto a linguagem, podendo evocar, no máximo (e não sem certo auxílio de gêneros híbridos como o teatro, o cinema e a ópera…), estados emocionais genéricos como alegre, triste, irado, veloz, estático e afins – como, por exemplo, nos nomes dos movimentos da sinfonia Os Quatro Temperamentos de Nielsen (a saber: sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático).

E fica por aí. A música, embora possa sugerir com eloquência sensações sobre, por exemplo, o clima, é absolutamente impotente em se tratando de dizer com exatidão coisas como o dia, a hora, a temperatura e a localização exata, bem como descrever convincentemente pessoas ou lugares.

Por tal limitação, é, pois, razoável considerar a música como isenta de qualquer dimensão semântica. É por isto que algoritmos emuladores de estilos pessoais de composição são tão mais avançados do que seus congêneres contemporâneos dedicados a simular discursos.

O mais engraçado é que, embora possa facilmente identificar no discurso de Augustus Mahler fragmentos de meu próprio, sua leitura me faz lembrar daquelas mensagens escritas por robôs, que caem nas caixas de spam, anunciando remédios, relógios rolex, jogos de azar e pornografia. Não lhes parece ?

 

Os blogs estão morrendo ?

Hossein Derakshan

Semana passada, Idelber Avelar, que dispensa apresentações, compartilhou um post de um blogueiro iraniano, Hossein Derakshan, que permaneceu ca. 6 anos preso pelo regime de seu país. Conversando com Milton Ribeiro, vim a saber se tratar de um post clássico.  Conferi. Lá pelo rodapé, se informava que sua tradução para o português fora publicada por uma revista mineira em 2015.

Nele, Derakshan lamenta a transformação sofrida pela internet durante o tempo em que permaneceu na prisão. Por volta do início dos anos 2000, a rede mundial se apresentava como um ecossistema de blogs, conectados e dialogando entre si por meio de uma malha de hyperlinks – imunes, deste modo, a qualquer controle por parte de alguma força ou poder central. O que encontrou, no entanto, ao sair da prisão, foram redes sociais de propriedade de grandes players tecnológicos dedicadas a prover seus usuários com feeds ou timelines sequenciais, determinadas por algoritmos especializados em auscultar e satisfazer as supostas preferências de cada usuário de modo a induzi-los a permanecer cada vez mais tempo nestas plataformas ao invés de, como antes, saltarem livremente de blog em blog.

Deste modo, seu célebre post, intitulado “Salve a Internet”, bem poderia se chamar “A morte da blogosfera” ou, mais genericamente, “A morte do hyperlink“. Numa de suas conclusões mais desoladas, Derakshan chega a equiparar  o  facebook à televisão.

Logo que passei rapidamente os olhos pelo texto, me deparei com algo que me pareceu, inicialmente, uma vulnerabilidade do argumento. Repetidas leituras não tardaram a me convencer, entretanto, de que o autor estava, na maior parte do tempo, coberto de razão. Posto ser inegável que a internet, inicialmente uma promessa de libertação da dominação imposta pelos broadcasting media, pouco a pouco se tornou um lugar onde poucos e gigantescos players formatam a informação que a maioria consome. De sorte que, temporariamente, abandonei o propósito de examinar um pouco mais de perto premissas que, de início, me pareceram superficiais ou apressadas. Ao mesmo tempo, me tornei um fã de Derakshan e, de imediato, um combatente em sua cruzada por uma internet mais democrática.

* * *

Uma partícula de seu texto permaneceu, no entanto, reverberando em minha mente. Mais exatamente, quando diz, em tom de espanto, que, ao retomar, num surto de entusiasmo, à atividade blogueira ao sair da prisão em 2014, tudo o que sua super motivada escrita angariou, ao ser divulgada no facebook, foram três curtidas. O que o levou a concluir que, comparativamente a índices anteriores a seu encarceramento em 2008, sua audiência teria minguado drasticamente. Em seguida, culpa as redes sociais em geral e o facebook em particular pelo suposto declínio, em razão de uma suposta seletividade maligna de seu algoritmo.

Notem que, no parágrafo acima, uso o adjetivo suposto(a) duas vezes: primeiro em conexão com o declínio de audiência presumido pelo número de curtidas; depois, associado a alguma seletividade ideológica do algoritmo do facebook. Vejamos, então, por partes.

Ora, qualquer exame rápido das estatísticas de visitação de um blog é capaz de mostrar que o número de visualizações de um post supera em muito o número de curtidas da divulgação do mesmo em redes sociais. Deve ter a ver com a velocidade do feed, que faz com que muitas vezes não tenhamos tempo de curtir o compartilhamento por outrem de páginas que abrimos e lemos, na íntegra ou, na maioria das vezes, em parte.

Sobre a tal seletividade maligna do algoritmo. Ok, acredito em fantasmas e também em muitas teorias conspiratórias. Mas daí para se dizer que o facebook ou congêneres censuram deliberadamente os conteúdos que mostram em razão de posições políticas implícitas nos mesmos, menos. Bem menos. É claro que isto corresponderia ao ideal de muitos vilões de distopias da ficção científica.  Acredito, sim, que algoritmos possam identificar com alguma precisão a índole ideológica de textos compartilhados. Só que dificilmente isto se daria por algum tipo de análise semântica residente em alguma inteligência artificial. Não, ao menos, antes da implementação prática da web semântica sonhada por Pierre Lévy.

Então, é muito mais provável que o caráter ideológico de cada postagem seja determinado não pela leitura e interpretação automáticas de cada texto (imaginem o tempo e a capacidade de processamento que isto consumiria !) e sim pela mera quantificação aritmética de quem curte ou repudia cada publicação. Sabendo-se a inclinação política de cada usuário (o que não deve ser nada difícil), fica igualmente fácil, então, atribuir um rótulo ideológico àquilo que cada um curtiu ou execrou. Mais uma teoria conspiracionista ? Pode até ser. Só que bem mais verossímil, no entanto, do que robôs super inteligentes interpretando o que dizemos.

Postas estas ressalvas, cabe admitir que, conforme acredita Darekshan, seus posts escritos de 2014 em diante podem, de fato, estarem sendo lidos por um número significativamente menor de pessoas do que aqueles escritos antes de 2008. Nem tanto, todavia, em razão da recente centralização da internet em torno das plataformas de redes sociais (que ainda discutiremos neste post) mas, simplesmente, pelo crescimento exponencial da quantidade de blogs existentes desde seu surgimento até os dias que correm.

Até o momento, não obtive nenhum retorno de minha solicitação, pelo facebook, de um gráfico que desse conta deste crescimento. Mas as informações contidas na wikipedia falam bem alto. Quando surgiram, por volta de 1999, havia ca. 50 blogs; no final de 2000, já chegavam a poucos milhares; menos de três anos depois, saltaram para algo entre 2,5 e 4 milhões; hoje estima-se que existam em torno de 112 milhões e que 120 mil seja criados diariamente. Como eu disse, são números eloquentes.

Pensem agora na disputa entre todos estes sites na economia da atenção. Nos primeiros anos da blogosfera, todo autor era uma espécie de celebridade, representando posições independentes e/ou dissidentes em relação aos broadcasting media. Darekshan deixa isto bem claro ao afirmar que “Blogs valiam ouro e blogueiros eram como estrelas de rock quando eu fui preso em 2008.” Ora, é perfeitamente natural, então, que, com a pulverização do número de blogs de lá para cá, quando todo internauta se tornou um blogueiro em potencial, a audiência de cada blog tenha ficado restrita, salvo raras exceções (os tais blogueiros que são como pop stars), a um número progressivamente menor de leitores.

Meu amigo Milton Ribeiro costuma dizer, acho que como consolo a blogueiros neófitos, que a audiência espantosamente mais numerosa de seus blogs se deve fundamentalmente ao fato de já estarem no ar há bastante tempo; ouso duvidar disto, afirmando que seus blogs desfrutam de uma base privilegiada de leitores principalmente em razão dele ter começado quando ainda havia menos, muito menos blogs disputando a atenção de leitores. Quem tem razão ? O futuro dirá. Se daqui a dez ou vinte anos blogs que começaram hoje tiverem a audiência da qual Milton desfruta agora, ele terá razão. Se, no entanto, ostentarem números bem mais modestos, terei eu. Tanto faz, pois nem sei se haverá blogs até lá.

Não acho, no entanto, que o declínio assombroso da audiência dos blogs reflita alguma espécie de caduquice do meio mas, antes, uma irrefutável comprovação da realização de seu ideal – que é, ao menos segundo o que acredito, a possibilidade utópica de que todo e qualquer indivíduo tenha seu próprio lugar de expressão independente e omniacessível, para muito além dos limites de seu círculo pessoal. Já que, a rigor, qualquer um no domínio da linguagem e de alguma habilidade tecnológica (o primeiro é bem mais difícil do que o segundo) pode ter, a custos irrisórios ou inexistentes, seu próprio cantinho no ciberespaço. Outrossim, o anacrônico desejo, explícito ou não, de se tornar uma voz que se erga sobre as demais é, em 2017, absolutamente demodé.

Aqui, devemos falar sobre a incompreensível mania, que não obstante alimenta os sonhos de muitos, de tornar a atividade blogueira algo rentável ou até uma profissão em si. O que é tão óbvio e mesmo ridículo para qualquer um que entenda minimamente a economia da atenção num contexto saturado como o ecossistema de blogs em crescimento exponencial, não parece ser, no entanto, para alguns visionários ou, simplesmente, oportunistas. Por isto, me divirto todos os dias com as dicas monetizadoras de um site chamado Viver de blog, cujo nome é autoexplicativo. Tenho ganas de conhecê-lo. Seus cases de sucesso, ao menos. Só ainda não tive paciência.

Teimoso que sou, continuo achando que quem quer ser um broadcaster e investe num blog está apostando suas fichas no lugar errado. Pois blog são, idealmente e antes de mais nada, células expandidas e interconectadas pertencentes a uma rede neural – cujo poder (no caso, o conhecimento armazenado) reside, antes, distribuído na extensão da rede do que em quaisquer de suas células em particular. Se a proeminência de algumas delas sobre as demais se exacerbar, enfraquecem as conexões, morre a rede e, com isto, todo o conhecimento nela armazenado.

* * *

Como sugeri acima, não acredito que redes sociais sequenciais como o facebook estejam matando na internet sistemas distribuídos como a blogosfera. Tampouco acredito que o facebook conspire contra a ecologia dos blogs ao não facilitar, em suas postagens, a inclusão de hyperlinks. Ao contrário, não apenas o facebook se constitui na mais poderosa ferramenta que conheço para a difusão de publicações em blogs, como facilita tremendamente a inserção de hyperlinks. Como ? – devem estar a me perguntar. A resposta é simples: nos comentários. Então, fica a dica. Se vocês estiverem se sentindo muito limitados por não poderem incluir em cada postagem no facebook mais do que um único hyperlink (o qual será generosamente destacado pelo algoritmo, inclusive com a possibilidade de seleção de uma imagem ilustrativa), basta incluir quaisquer outros no thread de comentários sob a postagem, à razão de um comentário para cada hyperlink que você queira destacar, que o facebook se encarregará do resto, mais facilmente do que em qualquer editor de blog.

É claro que a propalada seletividade do facebook não é nenhum segredo – seu vestígio mais emblemático sendo a configuração default “mais importantes” no canto superior do site, em “feed de notícias” – contra cuja persistência vitupera repetidamente meu amigo Marcos Abreu, mas que pode, no entanto, ser facilmente comutada para “mais recentes”. Por meio deste singelo ajuste, nos tornamos imunes ao intrometido algoritmo que insiste em mostrar o que ele julga “mais importante”.

Mas não é só isso. Autores como Harari bravejam contra a profusão de gatinhos fofos que somos obrigados a ver, volta e meia, na timeline. A resposta a este ranço é um tanto quanto óbvia, pois se os tais gatinhos insistem em aparecer diante de nossos olhos, detemos a responsabilidade exclusiva por convidar ou aceitar amigos que os postam. Não precisaria falar mais disto, mas nunca é demais lembrar que:

1) praticamente todas as postagens em redes sociais pertencem a uma das duas seguintes categorias:

lifecasting – postagens que dão conta do cotidiano de cada um, no intuito de glamourizá-lo, mas que são quase sempre irrelevantes para os outros. Ex.: pratos de comida sem as respectivas receitas; e

mindcasting – postagens, sob a forma de textos na primeira pessoa ou links compartilhados, que trazem em si algum fato ou ideia e buscam angariar apoio, sob a forma de concordância, ou desaprovação para os mesmos.

É, portanto, por meio de postagens de mindcasting que as melhores discussões se materializam em redes sociais.

2) redes sociais podem (ia escrever “e devem” mas, pensando bem, isto fica a critério de cada um) ser configuradas por usuários como personal learning networks (PLNs) – que é uma forma de descrever aquelas redes que congregam perfis notabilizados por compartilharem conteúdo informativo ou crítico.

Ora, configurando nossas redes como PLNs, por meio da análise criteriosa de quem admitimos em nossos timelines, privilegiamos a inclusão de sujeitos mais comprometidos com o mindcasting do que com o lifecasting e asseguramos, com isto, a manutenção de um, vá lá (dando algum crédito a Derakshan), canais de TV altamente customizados, informativos e provocativos.

* * *

PS: Depois que terminei de escrever este post, Jean Scherf postou no facebook, em resposta a minha enquete, o seguinte gráfico:

Comentários mais relevantes aos textos academicométricos

teses 6

Quem lê este blog sabe que gosto de resgatar da efemeridade do facebook comentários que ampliem o horizonte das conversa que cultivo. Consoante a isto, transcrevo aqui, antes de me mover para outras esferas temáticas (pois, como diletante, gozo do privilégio do interesse errático), algumas reflexões mais demoradas, em meu entender bem relevantes, muitas delas testemunhos em primeira pessoa.

Ao contrário, no entanto, de como fiz em compilações de comentários anteriores, optei por, no interesse do realce de alguns deles mais… logicamente densos (vide primeiro post academicométrico), excluir toda aquela deliciosa conversa casual que se instala, razão de eu estar no facebook, na qual amigos riem e brincam como crianças. No meio da algazarra, algumas ideias, mais reflexivas, se destacam. É a elas que este post é dedicado.

Antes, porém, de, finalmente, transcrever os comentários já há muitas linhas prometidos, agradeço aos generosos comentaristas, com os quais tanto apreendi e ri. Fiquei sabendo do que já deveria há muito saber, a saber, que todas as teses defendidas e aprovadas já são universalmente acessíveis online (obrigado, Francisco Marshall !); que boas teses podem atingir, por vezes, centenas ou mesmo milhares de acessos (obrigado, Milton Ribeiro !) ou até mesmo serem traduzidas para idiomas exóticos (obrigado, Ricardo Branco !).

Ainda que aclamada por muitos como modo ideal de compartilhamento de novos conhecimentos produzidos, as teses e, de um modo mais geral, a literatura científica ostentam índices de popularidade alarmantes. Há, por exemplo, quem sustente, como aqui, que cada artigo publicado em um periódico científico é lido por, em média, dez pessoas e que 82% dos cerca de um milhão e meio de artigos revisados por pares publicados anualmente não são citados sequer uma vez. Isto deve querer dizer alguma coisa.

Quando Miltton Ribeiro divulgou, em seu perfil no facebook, meu primeiro texto sobre academicometria (o segundo está aqui), disse o seguinte:

Cada vez que vejo fotos sorridentes e orgulhosas de quem se “mestrou” ou doutorou, fico pensando em quantos lerão aquele trabalho. Hoje soube que, se 4 pessoas abrirem o trabalho numa biblioteca, a coisa será uma espécie de best seller. Ou seja, a universidade não fala com ninguém. Bem, sei lá. Texto do provocador Augusto Maurer.

sob sua postagem se desenrolou, então, o seguinte thread (posso traduzir como penca ?) de comentários.

Fernanda Melo Uma vez, numa aula de metodologia, um dos alunos falou exatamente isso “por que vocês estão tão preocupados, ninguém lê o que a gente escreve!”. Quase apanhou. Não se pode atacar as ilusões das pessoas com tanta crueza.

Francisco Marshall Engraçadinho, mas não é verdade. Teses são a base da produção de conhecimento, muitas viram livros, outros tantos são, sim, lidas e citadas. Tese ruim é que não vai longe.

Milton Ribeiro A da Elena foi baixada 600 vezes, […]

Fernanda Melo Eu acho que o problema nem é tanto (ou apenas) qualidade, e sim a restrição dos temas.

Laura Backes Olha, tenho minhas implicâncias com o academicês, só que mais no nível do medalha medalha medalha que rola pra incrementar os lattes e afins. O processo mesmo da feitura de teses e dissertações levam adiante o pensamento além dos achismos do livre pensar, mesmo que esse processo ajude só o próprio aluno. No livre pensar (o delicioso vagabundear pelas ideias que existe alheio à academia) tem que ser muito bom prá produzir de forma continuada e potente.
Eu que sou módica preciso da mão da academia pra me disciplinar e me colocar em conexão com o que está além de mim.
Ah! Curiosa fui olhar no lume – site que compartilha a produção acadêmica da Ufrgs – e minha dissertação tem lá mais de mil visualizações e mais de quinhentos downloads. E nem é tão relevante assim.

Augusto Maurer Obrigado pelo comentário tão extenso e profundo ! Concordo com quase tudo, principalmente com o fato da digitalização ter facilitado em muito a visualização (meu mestrado foi no tempo do microfilme). Só não acho que o achismo seja um privilégio exclusivo dos meios menos controlados de auto-publicação, como blogs e redes sociais, estando a comunidade científico-acadêmica, por meio de seus protocolos, totalmente isenta deles (os achismos). É preciso se falar mais, sim, e muito, de peer-reviewing !

* * *

Já quando postei, dias atrás no facebook, o seguinte:

Tecnologias mudam mas rápido do que ritos institucionais.

Quando eu estava na faculdade, se quisesse conhecer o teor de um artigo, era preciso, após identificá-lo, aguardar semanas para tê-lo em mãos depois de solicitá-lo no glorioso serviço de comutação bibliográfica da biblioteca central da UFRGS. Tudo isto para vir a constatar, tempos depois, que muitos deles eram totalmente irrelevantes para minha curiosidade naquele momento (dava vontade de citar só de teimosia, para justificar a trabalheira passada !)

A coisa ficou relativamente mais fácil (e rápida !) ao tempo de meu mestrado, quando podia ler teses e artigos microfilmados na biblioteca do Lincoln Center.

Hoje, a maior parte do que pesquisadores produzem já se encontra disponível online.

Enquanto isto, os formatos acadêmicos (artigos e dissertações) permaneceram, salvo se eu estiver enganado, praticamente intactos. Alguém mais percebe este descompasso ?

fique mais impactado com os seguintes comentários:

Marcos Abreu Bah, nem me lembra disso. Eu precisava revirar bibliografias, mandar por fax ou carta para a biblioteca da UFSC, que, ou tinha lá os artigos, ou fazia pedidos para o Comut, depois de receber as cópias em xerox lá em Florianópolis, todos os textos eram remetidos para Porto Alegre. Isso demorava um bom tempo. Meses as vezes. O bom é que guardei e uso ainda todo esse material. Pilhas e pilhas de papes selecionados. Preciso digitalizar isso tudo.

Marcos Abreu Ah, e acrescentando. A maioria desses textos, ainda não está digitalizada e alguns são bem difíceis de encontrar.

Dorcas Weber Certamente!!!!! Questionei o formato de tese, ao entregar a minha. Me foi solicitado que seguisse as normas de formatação (editoração)da universidade e que fossem entregues 7 exemplares, sendo UM deles impresso e o restante em CD. Confesso que não sei para onde foi a versão impressa, contudo os exemplares em CD foram entregues à biblioteca, à banca e uma versão em PDF foi também disponibilizada virtualmente. Bem, neste contexto questionei se a editoração não deveria estar adequada às midias nas quais minha tese poderia ser lida. Afinal, para que servem as margens direita e esquerda distintas em um PDF lido em um tablet ou notebook? Porque usar tamanho A4 quando o material não é impresso e usar a barra de rolagem é algo aborrecedor? Porque usar notas de fim ou rodapé se podemos coloca Popups? Enfim, meu questionamento manteve-se apenas no questionamento. Penso que este seria um bom tema ser discutido em uma tese, que tal?

Augusto Maurer Seria uma tese tremendamente útil à comunidade acadêmica ! Resta saber a que comitê de pós-graduação submetê-la.

Alexandre Eisenberg Exato! E no Brasil ainda por cima se exige os subtítulos “introdução”, “metodologia”, “justificativa”, etc., para facilitar a vida do orientador. Imagine um compositor tendo que dizer a cada momento de sua obra, introdução, exposição, etc…

Augusto Maurer Isto me lembra de um tipo de relatório, incentivado por certos órgãos de fomento e mencionado em The Slow Professor, em que cada instante de cada pesquisa deve ser detalhadamente documentado. As autoras ironizam, falando de um relatório que diz: “às 9;00, escrevi uma frase; às 9:30, a deletei”. Accountability elevada ao grau máximo. E assim, graças à fragmentação exacerbada do tempo, dá-se a impressão de ter feito alguma coisa sem ter feito nada.

Augusto Maurer A formatação padronizada conspira contra a fluidez de qualquer discurso.

Alexandre Eisenberg Augusto Maurer , c’est ça!

* * *

Vale muito, também, ler os comentários deixados neste blog sob os posts referidos acima. Só não os transcrevi por que, além já gozarem, no blog, de permanência bem maior do que os deixados no facebook, “limpar” e editar comentários dá um trabalho enorme (tanto maior por se tratar de um discurso mais fragmentado, i.e., com grande alternância entre falantes).

Sinto que esta conversa será longa. Pois muito ainda há que ser dito por tantas partes. Melhor, então, que seja espaçada. Enquanto isto, preciso fazer estas provocações chegarem ao maior número possível de pessoas que, como orientadores ou orientados, já estiveram envolvidas com sua feitura. Any help welcome.

Por que deixei de atualizar a produção artística em meu currículo

teses 3

Faz tempo, já nem sei quanto, que deixei de atualizar, para progredir na carreira acadêmica, minha produção artística – categoria destinada a qualificar e, principalmente, quantificar, em meu caso, as apresentações públicas e gravações de CDs de que participei. Abandonei a compilação de registros destas atividades por não poder contestar um critério avaliatório (que nem sei se ainda vigora) segundo o qual reapresentações de uma mesma obra musical não devem contar, para fins academicométricos de seus executantes, como a apresentação de trabalhos originais e comunicações em eventos acadêmicos. Sob a alegação de que tornar a tocar em público uma mesma partitura seria como apresentar um mesmo trabalho em mais de um evento. Tal premissa ignora por completo o fato de que músicos acabam, por força do ofício, se especializando na execução de um repertório tanto mais redundante quanto maior for a experiência acumulada do mesmo.

Ora, sabemos que, embora todo bom texto lido permaneça em nossa mente independentemente de eventuais releituras, nenhuma obra musical já apreendida pode ser re-executada sem uma quantidade considerável de estudo adicional. E, ao contrário do que uma analogia apressada com a produção textual poderia levar a acreditar, tal prática não se afigura, de modo algum, como uma limitação da atividade artística. Em vez disto, a repetição de um mesmo repertório por um mesmo executante tende a levar a execuções cada vez melhores, de acordo com a experiência acumulada de cada executante. O critério adotado, portanto, irrefutavelmente deprecia a atividade de execução musical em relação à produção textual.

* * *

Este problema, de quantificação relativa de trabalho em atividades distintas relevante para progressão na carreira acadêmica, não deve ser exclusivo da área musical, na qual se resume a um conflito entre performance, que lida com sons, e scholarship, que lida com palavras (agradeço a quem me oferecer traduções satisfatórias para as duas expressões). Desta tensão se origina grande parte das distorções academicométricas verificáveis na área musical.

Vou lhes contar um fato que talvez devesse por bem permanecer esquecido. Há muitos anos, quando eu ainda era mais voluntarioso em prol da universidade, fui incumbido por uma chefia de editar um boletim mensal impresso (isto era, vejam bem, muito antes da web) que desse conta da produção intelectual e artística de nosso departamento. A coisa tinha o formato de uma folha A4 impressa dos dois lados, contendo toda apresentação artística e participação em eventos acadêmicos de alunos e professores do departamento. O propósito era dos mais nobres, persistindo até hoje: a comunicação a mais gente daquilo que fazemos.

Me sentindo poderoso, criei um panfleto que estampava na frente anúncios de apresentações artísticas futuras e, no verso, falas proferidas em congressos, simpósios e encontros. Tinha, portanto, um critério editorial claro: a arte primeiro e o discurso sobre ela depois.

Como esperava, fui chamado pela chefia, que exigiu a inversão daquela ordem de precedência, com conferências e comunicações passadas primeiro e concertos e recitais futuros depois. Noutras palavras, o que me pedia era o discurso sobre a arte antes da mesma. Aproveitei aquele momento privilegiado para me descompatibilizar com a missão da qual fora incumbido.

* * *

A reutilização de ideias em teses e artigos é um resíduo involuntário de um fenômeno que ocupa as autoras de The Slow Professor por muitas páginas, a saber, o da fragmentação exacerbada da vida acadêmica. Questões de vida, por assim dizer, de grandes intelectuais do passado (artistas e cientistas) se encontram distribuídas, na maioria das vezes, em um pequeno número de grandes tomos. Há exceções, é claro. Freud, por exemplo, era um escrevinhador furioso. Mas, grosso modo, o saber a ciência do passado repousam sobre um conjunto relativamente pequeno de títulos seminais. Quantos livros escreveu Darwin ? E cada um dos grandes filósofos ?

Há, no entanto, na academia de hoje, um estímulo à produção de uma grande quantidade de textos que resulta na fragmentação exacerbada, numa profusão de artigos peer-reviewed, da obra de qualquer autor. É nossa opinião (contestável, é claro) de que tal fragmentação dificulta enormemente a contextualização de cada quantum de conhecimento em relação ao discurso maior ao qual cada um deles pertence. Um preço demasiado caro, a nosso ver, a ser pago pela accountability da qual depende cada vez mais o formidável “quem é quem” universitário.

O mais paradoxal é que, em nome da progressiva e inexorável especialização, se produza uma quantidade enorme, sem precedentes, tanto maior quanto for o número de participantes na vida acadêmica e sua disposição para escrever, de documentos dispersos sobre cada coisa; ao invés de, como antes, todo espírito e conhecimento humano repousar sobre uma convergência para textos fundamentais. A totalidade dos textos produzidos pela academia é, portanto, hoje – ao contrário de, como no passado, convergente para um limite – análoga a uma estrutura de simetria radial e expansão fractal que cresce exponencialmente tendendo ao infinito.

Ainda que o sistema de artigos revisados por pares tenha sido desenvolvido com a melhor das intenções, i.e., pretendendo, por meio de uma linguagem padronizada e referencial, abranger todo conhecimento de cada área, degenerou em algo que cresce descontroladamente e no qual toda redundância tende a permanecer oculta – dificultando, com isto (ao invés de, como pretendia, facilitar) a identificação de formulações idênticas.

* * *

Mas deixemos de desenhar cenários distópicos. Até por que, faz pouco tempo, já fui chamado por um crítico arguto de Zé do Apocalipse. Então, antes que me peçam explicitamente algo mais propositivo, vamos a um exemplo bem sucedido daquilo a que a academia se propõe, a saber, o conhecimento colaborativo. Os leitores mais atentos já devem ter adivinhado que estou a falar da wikipedia.

Nem tudo nela é verdade, dirão os mais céticos. Há, no entanto, na wikipedia, salvo se eu estiver enganado, mecanismos bem mais acessíveis de verificação e contestação do que é publicado do que em quaisquer publicações científicas. Muito mais importante do que isto são, no entanto, os fatos de que a wikipedia, consensualmente reconhecida como maior repositório de conhecimento produzido até hoje pela humanidade e, ao mesmo tempo, maior plataforma de escrita colaborativa,

tende, com o passar do tempo, a uma saturação em torno de algo como 3 milhões de verbetes, com sua expansão decrescendo exponencialmente (ou é logaritmicamente ?) desde sua criação – indicando, com isto, uma convergência em direção a um limite correspondente à totalidade do conhecimento humano;

e, last but not least, evidenciando, mais do que quaisquer formatos acadêmicos, o conteúdo em detrimento da autoria individual – o que é por si só suficiente para que a tenhamos como essencialmente diferente de qualquer outro sistema.

Complicado ? Explico.

É que, enquanto na academia a quantidade de papers se multiplica em razão da afirmação de autoria do menor fragmento, aqui chamado de quantum cognitivo (ou, se preferirem uma linguagem mais bakhtiniana, diríamos que há tantos mais enunciados quanto forem os falantes em alternância); já na wikipedia discursos semelhantes tendem a se fundir num mesmo verbete com pouca ou nenhuma ênfase na autoria de quem colaborou para o mesmo.

Outro exemplo: a programação computacional em código aberto, como no caso do sistema operacional Unix, desenvolvido por uma miríade de programadores dedicados ao bem comum que abrem mão de qualquer privilégio de autoria.

Isto lhes parece pouco importante ? O conflito intrínseco entre a expansão fractal do discurso acadêmico de um lado e a convergência da wikipedia ou do software de código aberto de outro ainda vai dar muito o que falar. Principalmente depois da implementação da web semântica pelo grupo de pesquisadores liderados por Pierre Lévy. Resta só saber o que virá antes, se a web semântica ou a explosão da bolha fractal do discurso acadêmico-científico. Se a primeira acontecer antes, pode até ajudar a evitar a segunda.

 

Por que desisti de escrever uma tese

Seria um baita lugar-comum iniciar este texto com um alerta de textão. Não. Definitivamente, não. Qualquer coisa com mais do que três ou quatro parágrafos começa assim. Prefiro, em vez disto, começar com outro tipo de disclaimer. Informando os leitores de que já perdi a conta do número de vezes que tentei, sem êxito, ser aceito em programas de doutorado, em áreas que incluem a música, a educação musical e a informática na educação. As razões para minha frustração em tais tentativas já foram exaustivamente esmiuçadas, de sorte que não pretendo (relaxem, portanto) remoê-las neste post. Outrossim, esta ressalva tem por finalidade exclusiva deixar claro que, abaixo, tudo pode não passar, como muitos certamente pensarão, de um discurso de ressentimento. Por isto, ofereço a estes e aos leitores desavisados a oportunidade de abandonarem a leitura por aqui.

* * *

Você ainda está aí ? Então talvez eu deva começar dizendo que, até hoje, não sei se minhas malfadadas tentativas de frequentar mais um curso de pós-graduação (sim, pois, ao fim dos anos 80, sobrevivi a um curso de mestrado) em verdade me protegeram, ainda que contra minha vontade naquele momento , de embarcar no colossal exercício retórico que é redigir e defender uma tese. Sim, há teses criativas, que agregam muito a seus campos de conhecimento. Mas que, suponho, infelizmente sejam uma minoria. Pois, grosso modo, teses são, muito mais do que comunicações de descobertas relevantes, um rito de passagem na vida acadêmica que, mais do que qualquer coisa, exercitam ao máximo a capacidade de se manter, por vezes contra a própria vontade ou intuição, a concentração em uma temática única, quanto mais específica melhor, empreendendo leituras exaustivas e redundantes, ao bel prazer de orientadores, e redigindo um documento que, na maioria das vezes, repousará, encadernado e com lombadas impressas em dourado, nas prateleiras das bibliotecas universitárias.

Vale lembrar uma matéria que saiu no New York Times, por volta de quando eu cursava meu mestrado, na qual a bibliotecária-chefe de Harvard conclamava a comunidade acadêmica a escrever menos (sic !). Outra: um amigo, professor do Instituto de Letras da UFRGS, declarou, em tom jocoso, que, consultando a ficha de empréstimo de sua tese na biblioteca da faculdade em que lecionava, constatou se tratar de um best-seller, já que, em muitos anos, QUATRO (!) pessoas haviam tomado o volume emprestado.

Outro caso que me impressionou foi o de um colega que, ao submeter a um comitê de pós-graduação um mui relevante projeto de tese no qual procurava relacionar as características acústicas de um espaço de prática instrumental ao progresso de quem nele estudava (uma ideia original), foi dissuadido, com base na alegação de que o corpo docente não estaria apto a orientar tal tipo de estudo. Ao mesmo tempo, foi persuadido a criar  um método para o ensino de seu instrumento baseado na utilização de cantigas infantis. Ou seja, um tremendo lugar-comum, como, provavelmente, muitos métodos já existentes. E assim, um pesquisador promissor foi induzido a uma relativa mediocridade em nome de um suposto nivelamento. Histórias como estas devem ser bem comuns. Tem a ver com uma espécie de fidelidade devida às linhas de pesquisa ostentadas por orientadores. É claro que este tipo de sacrifício é amplamente compensado por prestígio e vantagens financeiras na carreira acadêmica.

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Faz tempo que quero examinar com mais atenção as fragilidades do discurso acadêmico. Este post é, então, provavelmente, o primeiro de uma série que pretende dialogar com acadêmicos que pensem o contrário.

Falo da insaciável matriz de publicações dedicadas a legitimar o enorme volume de produção textual da academia. De imediato, salta aos olhos de qualquer observador o mito da primazia de enunciação. Significa que, aos olhos da academia, a autoria de uma ideia pertence ao primeiro a enunciá-la. Ora, nada é capaz de garantir (ao menos antes da implementação da web semântica) que alguma coisa dita num documento já não tenha sido dita alhures. Ainda assim, toda a hierarquia acadêmica está alicerçada sobre um conjunto de enunciações presumivelmente originais. Sobre textos, tidos como basais, se engendra, então, uma complexa malha de citações, na qual discípulos pagam tributo a seus mentores. Citações por terceiros se transformam em capital intelectual, rendendo pontuação aos autores dos textos citados no formidável ranking conhecido por currículo LATTES. Exagero ? Experimentem não citar, em suas teses, seus orientadores.

Anos atrás, foi amplamente noticiado o escândalo das citações cruzadas (eu te cito; tu me citas), descoberto internacionalmente e responsável pela cassação dos índices qualitativos de vários periódicos científicos brasileiros. Nem vale a pena falar, aqui, de artigos aceitos para publicação que foram escritos por geradores automáticos de texto.

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A especialização galopante hoje observável em toda área acadêmica se opõe diametralmente ao ideal (renascentista ?) do homem universal, i.e., do ser crítico e curioso, obcecado por uma ampla gama de interesses, mais comumente personificado na figura de Leonardo da Vinci. De modo que não é nenhum exagero dizer que não haveria lugar para o mesmo na universidade de hoje. Ao menos, é claro, que abdicasse, em nome do aprofundamento necessário à especialização, de todas exceto uma de suas áreas de interesse. De tal modo que o artista não mais poderia ser o inventor ou o cientista, e vice-e-versa.

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Um pouco acima, me referi à anedota de uma tese lida (ou consultada) por apenas quatro pessoas poder ser considerada um best-seller. Não exagero. Pois quem, além de autores, orientadores e bancas de defesa, efetivamente lê cada palavra escrita numa tese ? Na verdade, só as leem por força do ofício os que são pagos para tanto. De resto, quem mais já empreendeu, espontaneamente, a leitura de alguma tese ? Podem rir, mas já tentei. Não passando, no entanto, das primeiras páginas. Pois teses não são, de modo algum, reader friendly. Sim, sei que não se destinam a isto. Acompanhem, mesmo assim, um pouco mais o argumento.

A pouca popularidade das teses como objetos de leitura tem a ver, fundamentalmente, com o tipo de texto que nelas mais comumente encontramos. No entanto, para falar disto devemos, antes, formular uma variável, mensurável em qualquer tipo de texto, que poderia ser definida como sua densidade lógica.

Contrariamente às teses, textos tais como livros, matérias de jornais ou revistas e posts em blogs precisam ser convidativos à leitura por si só. Qualquer autor sabe disto, se esforçando para suprir seus escritos com elementos atrativos para que a leitura não seja abandonada por aqueles que a ela se aventurem. Com isto, é possível ao analista quantificar ideias ou silogismos encadeados presentes em tudo o que se lê. É a esta quantificação de conteúdo que chamamos densidade lógica. Talvez não seja possível atribuir, de forma unívoca, um coeficiente que dê conta da densidade lógica de qualquer coisa que é escrita. Mas, dado um par de textos para comparação, não restará qualquer dúvida, para leitores experientes, sobre qual deles será o mais logicamente denso.

Assim, é a densidade lógica que torna os posts de um blog mais interessantes do que os de outro, o mesmo valendo também para textos impressos de qualquer espécie. A densidade lógica independe do meio. De modo que, tanto em meios virtuais como impressos, haverá textos mais rasos e mais densos. As teses não fogem a isto. Só que, dado o protocolo do texto acadêmico, que implica tanto numa ampla revisão bibliográfica como na necessidade de expressão unívoca mesmo daquilo que é mais óbvio, a densidade lógica (i.e., a quantidade de ideias ou argumentos numa dada extensão de texto) costuma ser tremendamente mais baixa em teses e artigos acadêmicos do que em publicações que precisam conquistar seus leitores.

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Pronto, falei. Espero, com isto, não ter ofendido os muitos amigos que tenho que se dedicam honestamente à vida acadêmica. E antes que eles comecem a debandar de meu círculo de relações, me apresso em reconhecer o brilhantismo e a originalidade de algo que porventura tenham escrito. Este post é, como quase tudo que escrevo, um convite à contestação. Que deve se dar, idealmente, por meio de menções às honrosas exceções do universo acima descrito – a saber, teses que tenham se tornado fundamentais a seus campos de conhecimento, as quais, insisto, estão longe de ser a maioria.

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Ainda que as ideias acima martelem em minha mente já há alguns anos, o fato de eu ter finalmente começado a abordá-las pode ter a ver com eu me encontrar em meio à leitura de um livro do qual certamente voltarei a falar, a saber, The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Academy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber (University of Toronto Press, 2016), que me foi recomendado pelo Éder Silveira.

The Slow Professor 1

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P.S.: Nunca antes algo permaneceu tanto tempo latente como rascunho antes de ser publicado neste blog como o texto acima, pelo simples temor de que não fosse bem recebido por grandes amigos. Se, finalmente, decidi publicá-lo, foi principalmente por duas razões, a saber

pelo Milton ter me assegurado que eu não falava de pessoas, mas de um sistema;

e por descobrir, com alegria e também graças ao Milton, que estou longe de ser o único a me preocupar com a questão. Vejam, prá começo de conversa, o que é dito aqui. Sinto que encontrei minha turma. Aguardo reações fortes. Prometo tornar ao assunto. Que a peleia seja proveitosa !

Sobre o fim das grandes formas, ao término de um livro e à espera de outro

huxley 2
Aldous Huxley

Livros, ainda. Alguns se conectam ao longo dos séculos ou,  mais recentemente, das décadas, dada a evidente aceleração histórica de nossa época. Como, por exemplo, alguns de Shakespeare (que devem se conectar com muitos !), escritos entre os séculos 14 e 15; o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, da primeira metade do século 20 e, de apenas meio século após, Amusing ourselves do death, de Neil Postman.

Recentemente, tive minha atenção voltada para o último por conta de um excelente artigo do filho de seu já finado autor publicado no Guardian. Tendo rapidamente descoberto que ainda não havia sido traduzido para o português, tratei logo de importá-lo. No tempo que ainda me falta para finalmente tê-lo em mãos, procedi, então, ao preenchimento de outra enorme lacuna de leitura: o clássico Admirável Mundo Novo (Brave New World), de 1932.

Notem que, nos casos acima, as referências vão muito além de meras citações – sendo, outrossim, essenciais à conceituação das obras que se referem a outras. O próprio nome do clássico de Huxley, estampado já em sua epígrafe, vem de uma passagem de A Tempestade, de Shakespeare. Tratam-se, pois, de textos que, como diria Bakhtin, dialogam entre si. Curioso que estou de saber como o livro de Postman dialoga com o o de Huxley, me consolo, enquanto ele, todavia, não chega, anotando ideias desencadeadas pela leitura da clássica distopia de Huxley.

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Podemos entender nosso tempo como uma era de morte das formas longas. No filme cult dos anos 70 “Jonas que terá 25 anos no ano 2000”, de Alain Tanner, o protagonista imaginava diariamente, ao pedalar para o trabalho, as longas “preleções” (chautauquas) que daria os filho que estava para nascer. Nelas, deitava clara sua visão de mundo – o que não é pouco !

Duas décadas e meia mais tarde,  ouço de um experiente psicólogo que a melhor maneira de se comunicar com adolescentes é por meio de falas curtas. Percebem a diferença abissal entre as duas formas de discurso ? De um lado, chautauquas. De outro, máximas proverbiais. Ou, como no livro de Huxley, a educação hipnopédica, que consistia no condicionamento moral dos indivíduos pela repetição, várias vezes ao dia por meses a fio (qualquer semelhança com frequência e período de exibição de anúncios publicitários não deve ser mera coincidência…), de bordões, repetidos como mantras, durante seus períodos de sono, reforçando o que seria ou não socialmente desejável.

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Neil Postman

Antes de ler o livro de Postman, sei, em grande parte por meio do artigo de seu filho no Guardian, que a tese de fundo de Amusing ourselves to death é a ideia de uma civilização fundada sobre a diversão e a gratificação – e, portanto, não mais sobre a reflexão e a permanência. Consideremos a máxima, cuja autoria me foge à memória, de que é a morte que define a vida. Haveriam, assim, vidas esquecidas (a maioria) e, em quantidade bem menor, lembradas. No último caso, invariavelmente por seu legado – que pode ser, por sua vez, material (afeito à posse) ou intelectual (científico ou artístico; afeito à autoria e avesso à propriedade). Tomemos, então, o seguinte referencial

antes, não que educava mais para querer ser lembrado por algum tipo de legado (material ou não; todo empresário visa, ao final, a uma herança, assim como todo artista quer, acima das circunstâncias temporais, deixar uma obra legada para a posteridade);

hoje, não estamos envolvidos por uma cultura na qual a maioria trabalha, antes de tudo, em nome do máximo de entretenimento e bem estar material que possa, porventura, conquistar. Em vida ou, quando muito, para seus sucessores biológicos.

Neste último cenário, as grandes formas narrativas (tais como grandes romances, novelas, contos, ensaios, sinfonias, concertos, música de câmera, ópera, filmes (notem que não falo em séries !) e outros) perdem importância e espaço para enunciações mais sucintas (tais como singles, tweets, posts em redes sociais, mensagens instantâneas e afins). O fim do conceito de álbum é um dos sintomas mais precoces disto.

O fim das grandes formas discursivas também pode ter a ver com a evolução das tecnologias. Queira-se ou não, foi só depois do surgimento da internet qua a autoria quase universal teve que privilegiar (pelo excesso discursivo, como já dissemos) falas mais curtas. Compare-se, por exemplo, a extensão média dos enunciados em redes sociais (postagens no facebook, twitter e outras plataformas de mensagem textuais e visuais) com a de romances, novelas, contos, artigos e notícias da era anterior, de hegemonia do texto impresso.

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Insisto na importância, para toda edição de qualquer livro, da escolha dos tipos mais adequados. Vejam, por exemplo, uma comparação entre edições de Admirável Mundo Novo da Globo, da qual já reclamei aqui, e da Abril, encadernada – a qual descobri escondida em minha modesta biblioteca só depois que terminei de ler o volume novo que recém adquirira.

Não me senti um idiota por ter gasto com um livro que já tinha – mas por ter desnecessariamente enfrentado uma leitura mais penosa tão somente por ignorar que dispunha de uma edição com tipos bem mais amigáveis. Ainda que o espaço entre linhas seja, no volume da Globo, bem mais confortável e elegante. Os dois livros em números: o da Globo tem 306 páginas de 29 linhas; o da Abril, 310 de 32.

Não sei vocês, mas eu pagaria de bom grado por um pouco mais de papel. Não só no tamanho da folha como na gramatura (o papel da Abril é, como podem ver abaixo, mais transparente). Pois nenhuma leitura que não seja confortável pode ser prazerosa.

À esquerda, página da edição da Globo; à direita, da Abril.