Comentários mais relevantes aos textos academicométricos

teses 6Quem lê este blog sabe que gosto de resgatar da efemeridade do facebook comentários que ampliem o horizonte das conversa que cultivo. Consoante a isto, transcrevo aqui, antes de me mover para outras esferas temáticas (pois, como diletante, gozo do privilégio do interesse errático), algumas reflexões mais demoradas, em meu entender bem relevantes, muitas delas testemunhos em primeira pessoa.

Ao contrário, no entanto, de como fiz em compilações de comentários anteriores, optei por, no interesse do realce de alguns deles mais… logicamente densos (vide primeiro post academicométrico), excluir toda aquela deliciosa conversa casual que se instala, razão de eu estar no facebook, na qual amigos riem e brincam como crianças. No meio da algazarra, algumas ideias, mais reflexivas, se destacam. É a elas que este post é dedicado.

Antes, porém, de, finalmente, transcrever os comentários já há muitas linhas prometidos, agradeço aos generosos comentaristas, com os quais tanto apreendi e ri. Fiquei sabendo do que já deveria há muito saber, a saber, que todas as teses defendidas e aprovadas já são universalmente acessíveis online (obrigado, Francisco Marshall !); que boas teses podem atingir, por vezes, centenas ou mesmo milhares de acessos (obrigado, Milton Ribeiro !) ou até mesmo serem traduzidas para idiomas exóticos (obrigado, Ricardo Branco !).

Ainda que aclamada por muitos como modo ideal de compartilhamento de novos conhecimentos produzidos, as teses e, de um modo mais geral, a literatura científica ostentam índices de popularidade alarmantes. Há, por exemplo, quem sustente, como aqui, que cada artigo publicado em um periódico científico é lido por, em média, dez pessoas e que 82% dos cerca de um milhão e meio de artigos revisados por pares publicados anualmente não são citados sequer uma vez. Isto deve querer dizer alguma coisa.

Quando Miltton Ribeiro divulgou, em seu perfil no facebook, meu primeiro texto sobre academicometria (o segundo está aqui), disse o seguinte:

Cada vez que vejo fotos sorridentes e orgulhosas de quem se “mestrou” ou doutorou, fico pensando em quantos lerão aquele trabalho. Hoje soube que, se 4 pessoas abrirem o trabalho numa biblioteca, a coisa será uma espécie de best seller. Ou seja, a universidade não fala com ninguém. Bem, sei lá. Texto do provocador Augusto Maurer.

sob sua postagem se desenrolou, então, o seguinte thread (posso traduzir como penca ?) de comentários.

Fernanda Melo Uma vez, numa aula de metodologia, um dos alunos falou exatamente isso “por que vocês estão tão preocupados, ninguém lê o que a gente escreve!”. Quase apanhou. Não se pode atacar as ilusões das pessoas com tanta crueza.

Francisco Marshall Engraçadinho, mas não é verdade. Teses são a base da produção de conhecimento, muitas viram livros, outros tantos são, sim, lidas e citadas. Tese ruim é que não vai longe.

Milton Ribeiro A da Elena foi baixada 600 vezes, […]

Fernanda Melo Eu acho que o problema nem é tanto (ou apenas) qualidade, e sim a restrição dos temas.

Laura Backes Olha, tenho minhas implicâncias com o academicês, só que mais no nível do medalha medalha medalha que rola pra incrementar os lattes e afins. O processo mesmo da feitura de teses e dissertações levam adiante o pensamento além dos achismos do livre pensar, mesmo que esse processo ajude só o próprio aluno. No livre pensar (o delicioso vagabundear pelas ideias que existe alheio à academia) tem que ser muito bom prá produzir de forma continuada e potente.
Eu que sou módica preciso da mão da academia pra me disciplinar e me colocar em conexão com o que está além de mim.
Ah! Curiosa fui olhar no lume – site que compartilha a produção acadêmica da Ufrgs – e minha dissertação tem lá mais de mil visualizações e mais de quinhentos downloads. E nem é tão relevante assim.

Augusto Maurer Obrigado pelo comentário tão extenso e profundo ! Concordo com quase tudo, principalmente com o fato da digitalização ter facilitado em muito a visualização (meu mestrado foi no tempo do microfilme). Só não acho que o achismo seja um privilégio exclusivo dos meios menos controlados de auto-publicação, como blogs e redes sociais, estando a comunidade científico-acadêmica, por meio de seus protocolos, totalmente isenta deles (os achismos). É preciso se falar mais, sim, e muito, de peer-reviewing !

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Já quando postei, dias atrás no facebook, o seguinte:

Tecnologias mudam mas rápido do que ritos institucionais.

Quando eu estava na faculdade, se quisesse conhecer o teor de um artigo, era preciso, após identificá-lo, aguardar semanas para tê-lo em mãos depois de solicitá-lo no glorioso serviço de comutação bibliográfica da biblioteca central da UFRGS. Tudo isto para vir a constatar, tempos depois, que muitos deles eram totalmente irrelevantes para minha curiosidade naquele momento (dava vontade de citar só de teimosia, para justificar a trabalheira passada !)

A coisa ficou relativamente mais fácil (e rápida !) ao tempo de meu mestrado, quando podia ler teses e artigos microfilmados na biblioteca do Lincoln Center.

Hoje, a maior parte do que pesquisadores produzem já se encontra disponível online.

Enquanto isto, os formatos acadêmicos (artigos e dissertações) permaneceram, salvo se eu estiver enganado, praticamente intactos. Alguém mais percebe este descompasso ?

fique mais impactado com os seguintes comentários:

Marcos Abreu Bah, nem me lembra disso. Eu precisava revirar bibliografias, mandar por fax ou carta para a biblioteca da UFSC, que, ou tinha lá os artigos, ou fazia pedidos para o Comut, depois de receber as cópias em xerox lá em Florianópolis, todos os textos eram remetidos para Porto Alegre. Isso demorava um bom tempo. Meses as vezes. O bom é que guardei e uso ainda todo esse material. Pilhas e pilhas de papes selecionados. Preciso digitalizar isso tudo.

Marcos Abreu Ah, e acrescentando. A maioria desses textos, ainda não está digitalizada e alguns são bem difíceis de encontrar.

Dorcas Weber Certamente!!!!! Questionei o formato de tese, ao entregar a minha. Me foi solicitado que seguisse as normas de formatação (editoração)da universidade e que fossem entregues 7 exemplares, sendo UM deles impresso e o restante em CD. Confesso que não sei para onde foi a versão impressa, contudo os exemplares em CD foram entregues à biblioteca, à banca e uma versão em PDF foi também disponibilizada virtualmente. Bem, neste contexto questionei se a editoração não deveria estar adequada às midias nas quais minha tese poderia ser lida. Afinal, para que servem as margens direita e esquerda distintas em um PDF lido em um tablet ou notebook? Porque usar tamanho A4 quando o material não é impresso e usar a barra de rolagem é algo aborrecedor? Porque usar notas de fim ou rodapé se podemos coloca Popups? Enfim, meu questionamento manteve-se apenas no questionamento. Penso que este seria um bom tema ser discutido em uma tese, que tal?

Augusto Maurer Seria uma tese tremendamente útil à comunidade acadêmica ! Resta saber a que comitê de pós-graduação submetê-la.

Alexandre Eisenberg Exato! E no Brasil ainda por cima se exige os subtítulos “introdução”, “metodologia”, “justificativa”, etc., para facilitar a vida do orientador. Imagine um compositor tendo que dizer a cada momento de sua obra, introdução, exposição, etc…

Augusto Maurer Isto me lembra de um tipo de relatório, incentivado por certos órgãos de fomento e mencionado em The Slow Professor, em que cada instante de cada pesquisa deve ser detalhadamente documentado. As autoras ironizam, falando de um relatório que diz: “às 9;00, escrevi uma frase; às 9:30, a deletei”. Accountability elevada ao grau máximo. E assim, graças à fragmentação exacerbada do tempo, dá-se a impressão de ter feito alguma coisa sem ter feito nada.

Augusto Maurer A formatação padronizada conspira contra a fluidez de qualquer discurso.

Alexandre Eisenberg Augusto Maurer , c’est ça!

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Vale muito, também, ler os comentários deixados neste blog sob os posts referidos acima. Só não os transcrevi por que, além já gozarem, no blog, de permanência bem maior do que os deixados no facebook, “limpar” e editar comentários dá um trabalho enorme (tanto maior por se tratar de um discurso mais fragmentado, i.e., com grande alternância entre falantes).

Sinto que esta conversa será longa. Pois muito ainda há que ser dito por tantas partes. Melhor, então, que seja espaçada. Enquanto isto, preciso fazer estas provocações chegarem ao maior número possível de pessoas que, como orientadores ou orientados, já estiveram envolvidas com sua feitura. Any help welcome.

Por que deixei de atualizar a produção artística em meu currículo

teses 3Faz tempo, já nem sei quanto, que deixei de atualizar, para progredir na carreira acadêmica, minha produção artística – categoria destinada a qualificar e, principalmente, quantificar, em meu caso, as apresentações públicas e gravações de CDs de que participei. Abandonei a compilação de registros destas atividades por não poder contestar um critério avaliatório (que nem sei se ainda vigora) segundo o qual reapresentações de uma mesma obra musical não devem contar, para fins academicométricos de seus executantes, como a apresentação de trabalhos originais e comunicações em eventos acadêmicos. Sob a alegação de que tornar a tocar em público uma mesma partitura seria como apresentar um mesmo trabalho em mais de um evento. Tal premissa ignora por completo o fato de que músicos acabam, por força do ofício, se especializando na execução de um repertório tanto mais redundante quanto maior for a experiência acumulada do mesmo.

Ora, sabemos que, embora todo bom texto lido permaneça em nossa mente independentemente de eventuais releituras, nenhuma obra musical já apreendida pode ser re-executada sem uma quantidade considerável de estudo adicional. E, ao contrário do que uma analogia apressada com a produção textual poderia levar a acreditar, tal prática não se afigura, de modo algum, como uma limitação da atividade artística. Em vez disto, a repetição de um mesmo repertório por um mesmo executante tende a levar a execuções cada vez melhores, de acordo com a experiência acumulada de cada executante. O critério adotado, portanto, irrefutavelmente deprecia a atividade de execução musical em relação à produção textual.

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Este problema, de quantificação relativa de trabalho em atividades distintas relevante para progressão na carreira acadêmica, não deve ser exclusivo da área musical, na qual se resume a um conflito entre performance, que lida com sons, e scholarship, que lida com palavras (agradeço a quem me oferecer traduções satisfatórias para as duas espressões). Desta tensão se origina grande parte das distorções academicométricas verificáveis na área musical.

Vou lhes contar um fato que talvez devesse por bem permanecer esquecido. Há muitos anos, quando eu ainda era mais voluntarioso em prol da universidade, fui incumbido por uma chefia de editar um boletim mensal impresso (isto era, vejam bem, muito antes da web) que desse conta da produção intelectual e artística de nosso departamento. A coisa tinha o formato de uma folha A4 impressa dos dois lados, contendo toda apresentação artística e participação em eventos acadêmicos de alunos e professores do departamento. O propósito era dos mais nobres, persistindo até hoje: a comunicação a mais gente daquilo que fazemos.

Me sentindo poderoso, criei um panfleto que estampava na frente anúncios de apresentações artísticas futuras e, no verso, falas proferidas em congressos, simpósios e encontros. Tinha, portanto, um critério editorial claro: a arte primeiro e o discurso sobre ela depois.

Como esperava, fui chamado pela chefia, que exigiu a inversão daquela ordem de precedência, com conferências e comunicações passadas primeiro e concertos e recitais futuros depois. Noutras palavras, o que me pedia era o discurso sobre a arte antes da mesma. Aproveitei aquele momento privilegiado para me descompatibilizar com a missão da qual fora incumbido.

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A reutilização de ideias em teses e artigos é um resíduo involuntário de um fenômeno que ocupa as autoras de The Slow Professor por muitas páginas, a saber, o da fragmentação exacerbada da vida acadêmica. Questões de vida, por assim dizer, de grandes intelectuais do passado (artistas e cientistas) se encontram distribuídas, na maioria das vezes, em um pequeno número de grandes tomos. Há exceções, é claro. Freud, por exemplo, era um escrevinhador furioso. Mas, grosso modo, o saber a ciência do passado repousam sobre um conjunto relativamente pequeno de títulos seminais. Quantos livros escreveu Darwin ? E cada um dos grandes filósofos ?

Há, no entanto, na academia de hoje, um estímulo à produção de uma grande quantidade de textos que resulta na fragmentação exacerbada, numa profusão de artigos peer-reviewed, da obra de qualquer autor. É nossa opinião (contestável, é claro) de que tal fragmentação dificulta enormemente a contextualização de cada quantum de conhecimento em relação ao discurso maior ao qual cada um deles pertence. Um preço demasiado caro, a nosso ver, a ser pago pela accountability da qual depende cada vez mais o formidável “quem é quem” universitário.

O mais paradoxal é que, em nome da progressiva e inexorável especialização, se produza uma quantidade enorme, sem precedentes, tanto maior quanto for o número de participantes na vida acadêmica e sua disposição para escrever, de documentos dispersos sobre cada coisa; ao invés de, como antes, todo espírito e conhecimento humano repousar sobre uma convergência para textos fundamentais. A totalidade dos textos produzidos pela academia é, portanto, hoje – ao contrário de, como no passado, convergente para um limite – análoga a uma estrutura de simetria radial e expansão fractal que cresce exponencialmente tendendo ao infinito.

Ainda que o sistema de artigos revisados por pares tenha sido desenvolvido com a melhor das intenções, i.e., pretendendo, por meio de uma linguagem padronizada e referencial, abranger todo conhecimento de cada área, degenerou em algo que cresce descontroladamente e no qual toda redundância tende a permanecer oculta – dificultando, com isto (ao invés de, como pretendia, facilitar) a identificação de formulações idênticas.

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Mas deixemos de desenhar cenários distópicos. Até por que, faz pouco tempo, já fui chamado por um crítico arguto de Zé do Apocalipse. Então, antes que me peçam explicitamente algo mais propositivo, vamos a um exemplo bem sucedido daquilo a que a academia se propõe, a saber, o conhecimento colaborativo. Os leitores mais atentos já devem ter adivinhado que estou a falar da wikipedia.

Nem tudo nela é verdade, dirão os mais céticos. Há, no entanto, na wikipedia, salvo se eu estiver enganado, mecanismos bem mais acessíveis de verificação e contestação do que é publicado do que em quaisquer publicações científicas. Muito mais importante do que isto são, no entanto, os fatos de que a wikipedia, consensualmente reconhecida como maior repositório de conhecimento produzido até hoje pela humanidade e, ao mesmo tempo, maior plataforma de escrita colaborativa,

tende, com o passar do tempo, a uma saturação em torno de algo como 3 milhões de verbetes, com sua expansão decrescendo exponencialmente (ou é logaritmicamente ?) desde sua criação – indicando, com isto, uma convergência em direção a um limite correspondente à totalidade do conhecimento humano;

e, last but not least, evidenciando, mais do que quaisquer formatos acadêmicos, o conteúdo em detrimento da autoria individual – o que é por si só suficiente para que a tenhamos como essencialmente diferente de qualquer outro sistema.

Complicado ? Explico.

É que, enquanto na academia a quantidade de papers se multiplica em razão da afirmação de autoria do menor fragmento, aqui chamado de quantum cognitivo (ou, se preferirem uma linguagem mais bakhtiniana, diríamos que há tantos mais enunciados quanto forem os falantes em alternância); já na wikipedia discursos semelhantes tendem a se fundir num mesmo verbete com pouca ou nenhuma ênfase na autoria de quem colaborou para o mesmo.

Outro exemplo: a programação computacional em código aberto, como no caso do sistema operacional Unix, desenvolvido por uma miríade de programadores dedicados ao bem comum que abrem mão de qualquer privilégio de autoria.

Isto lhes parece pouco importante ? O conflito intrínseco entre a expansão fractal do discurso acadêmico de um lado e a convergência da wikipedia ou do software de código aberto de outro ainda vai dar muito o que falar. Principalmente depois da implementação da web semântica pelo grupo de pesquisadores liderados por Pierre Lévy. Resta só saber o que virá antes, se a web semântica ou a explosão da bolha fractal do discurso acadêmico-científico. Se a primeira acontecer antes, pode até ajudar a evitar a segunda.

 

Por que desisti de escrever uma tese

Seria um baita lugar-comum iniciar este texto com um alerta de textão. Não. Definitivamente, não. Qualquer coisa com mais do que três ou quatro parágrafos começa assim. Prefiro, em vez disto, começar com outro tipo de disclaimer. Informando os leitores de que já perdi a conta do número de vezes que tentei, sem êxito, ser aceito em programas de doutorado, em áreas que incluem a música, a educação musical e a informática na educação. As razões para minha frustração em tais tentativas já foram exaustivamente esmiuçadas, de sorte que não pretendo (relaxem, portanto) remoê-las neste post. Outrossim, esta ressalva tem por finalidade exclusiva deixar claro que, abaixo, tudo pode não passar, como muitos certamente pensarão, de um discurso de ressentimento. Por isto, ofereço a estes e aos leitores desavisados a oportunidade de abandonarem a leitura por aqui.

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Você ainda está aí ? Então talvez eu deva começar dizendo que, até hoje, não sei se minhas malfadadas tentativas de frequentar mais um curso de pós-graduação (sim, pois, ao fim dos anos 80, sobrevivi a um curso de mestrado) em verdade me protegeram, ainda que contra minha vontade naquele momento , de embarcar no colossal exercício retórico que é redigir e defender uma tese. Sim, há teses criativas, que agregam muito a seus campos de conhecimento. Mas que, suponho, infelizmente sejam uma minoria. Pois, grosso modo, teses são, muito mais do que comunicações de descobertas relevantes, um rito de passagem na vida acadêmica que, mais do que qualquer coisa, exercitam ao máximo a capacidade de se manter, por vezes contra a própria vontade ou intuição, a concentração em uma temática única, quanto mais específica melhor, empreendendo leituras exaustivas e redundantes, ao bel prazer de orientadores, e redigindo um documento que, na maioria das vezes, repousará, encadernado e com lombadas impressas em dourado, nas prateleiras das bibliotecas universitárias.

Vale lembrar uma matéria que saiu no New York Times, por volta de quando eu cursava meu mestrado, na qual a bibliotecária-chefe de Harvard conclamava a comunidade acadêmica a escrever menos (sic !). Outra: um amigo, professor do Instituto de Letras da UFRGS, declarou, em tom jocoso, que, consultando a ficha de empréstimo de sua tese na biblioteca da faculdade em que lecionava, constatou se tratar de um best-seller, já que, em muitos anos, QUATRO (!) pessoas haviam tomado o volume emprestado.

Outro caso que me impressionou foi o de um colega que, ao submeter a um comitê de pós-graduação um mui relevante projeto de tese no qual procurava relacionar as características acústicas de um espaço de prática instrumental ao progresso de quem nele estudava (uma ideia original), foi dissuadido, com base na alegação de que o corpo docente não estaria apto a orientar tal tipo de estudo. Ao mesmo tempo, foi persuadido a criar  um método para o ensino de seu instrumento baseado na utilização de cantigas infantis. Ou seja, um tremendo lugar-comum, como, provavelmente, muitos métodos já existentes. E assim, um pesquisador promissor foi induzido a uma relativa mediocridade em nome de um suposto nivelamento. Histórias como estas devem ser bem comuns. Tem a ver com uma espécie de fidelidade devida às linhas de pesquisa ostentadas por orientadores. É claro que este tipo de sacrifício é amplamente compensado por prestígio e vantagens financeiras na carreira acadêmica.

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Faz tempo que quero examinar com mais atenção as fragilidades do discurso acadêmico. Este post é, então, provavelmente, o primeiro de uma série que pretende dialogar com acadêmicos que pensem o contrário.

Falo da insaciável matriz de publicações dedicadas a legitimar o enorme volume de produção textual da academia. De imediato, salta aos olhos de qualquer observador o mito da primazia de enunciação. Significa que, aos olhos da academia, a autoria de uma ideia pertence ao primeiro a enunciá-la. Ora, nada é capaz de garantir (ao menos antes da implementação da web semântica) que alguma coisa dita num documento já não tenha sido dita alhures. Ainda assim, toda a hierarquia acadêmica está alicerçada sobre um conjunto de enunciações presumivelmente originais. Sobre textos, tidos como basais, se engendra, então, uma complexa malha de citações, na qual discípulos pagam tributo a seus mentores. Citações por terceiros se transformam em capital intelectual, rendendo pontuação aos autores dos textos citados no formidável ranking conhecido por currículo LATTES. Exagero ? Experimentem não citar, em suas teses, seus orientadores.

Anos atrás, foi amplamente noticiado o escândalo das citações cruzadas (eu te cito; tu me citas), descoberto internacionalmente e responsável pela cassação dos índices qualitativos de vários periódicos científicos brasileiros. Nem vale a pena falar, aqui, de artigos aceitos para publicação que foram escritos por geradores automáticos de texto.

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A especialização galopante hoje observável em toda área acadêmica se opõe diametralmente ao ideal (renascentista ?) do homem universal, i.e., do ser crítico e curioso, obcecado por uma ampla gama de interesses, mais comumente personificado na figura de Leonardo da Vinci. De modo que não é nenhum exagero dizer que não haveria lugar para o mesmo na universidade de hoje. Ao menos, é claro, que abdicasse, em nome do aprofundamento necessário à especialização, de todas exceto uma de suas áreas de interesse. De tal modo que o artista não mais poderia ser o inventor ou o cientista, e vice-e-versa.

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Um pouco acima, me referi à anedota de uma tese lida (ou consultada) por apenas quatro pessoas poder ser considerada um best-seller. Não exagero. Pois quem, além de autores, orientadores e bancas de defesa, efetivamente lê cada palavra escrita numa tese ? Na verdade, só as leem por força do ofício os que são pagos para tanto. De resto, quem mais já empreendeu, espontaneamente, a leitura de alguma tese ? Podem rir, mas já tentei. Não passando, no entanto, das primeiras páginas. Pois teses não são, de modo algum, reader friendly. Sim, sei que não se destinam a isto. Acompanhem, mesmo assim, um pouco mais o argumento.

A pouca popularidade das teses como objetos de leitura tem tem a ver, fundamentalmente, com o tipo de texto que nelas mais comumente encontramos. No entanto, para falar disto devemos, antes, formular uma variável, mensurável em qualquer tipo de texto, que poderia ser definida como sua densidade lógica.

Contrariamente às teses, textos tais como livros, matérias de jornais ou revistas e posts em blogs precisam ser convidativos à leitura por si só. Qualquer autor sabe disto, se esforçando para suprir seus escritos com elementos atrativos para que a leitura não seja abandonada por aqueles que a ela se aventurem. Com isto, é possível ao analista quantificar ideias ou silogismos encadeados presentes em tudo o que se lê. É a esta quantificação de conteúdo que chamamos densidade lógica. Talvez não seja possível atribuir, de forma unívoca, um coeficiente que dê conta da densidade lógica de qualquer coisa que é escrita. Mas, dado um par de textos para comparação, não restará qualquer dúvida, para leitores experientes, sobre qual deles será o mais logicamente denso.

Assim, é a densidade lógica que torna os posts de um blog mais interessantes do que os de outro, o mesmo valendo também para textos impressos de qualquer espécie. A densidade lógica independe do meio. De modo que, tanto em meios virtuais como impressos, haverá textos mais rasos e mais densos. As teses não fogem a isto. Só que, dado o protocolo do texto acadêmico, que implica tanto numa ampla revisão bibliográfica como na necessidade de expressão unívoca mesmo daquilo que é mais óbvio, a densidade lógica (i.e., a quantidade de ideias ou argumentos numa dada extensão de texto) costuma ser tremendamente mais baixa em teses e artigos acadêmicos do que em publicações que precisam conquistar seus leitores.

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Pronto, falei. Espero, com isto, não ter ofendido os muitos amigos que tenho que se dedicam honestamente à vida acadêmica. E antes que eles comecem a debandar de meu círculo de relações, me apresso em reconhecer o brilhantismo e a originalidade de algo que porventura tenham escrito. Este post é, como quase tudo que escrevo, um convite à contestação. Que deve se dar, idealmente, por meio de menções às honrosas exceções do universo acima descrito – a saber, teses que tenham se tornado fundamentais a seus campos de conhecimento, as quais, insisto, estão longe de ser a maioria.

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Ainda que as ideias acima martelem em minha mente já há alguns anos, o fato de eu ter finalmente começado a abordá-las pode ter a ver com eu me encontrar em meio à leitura de um livro do qual certamente voltarei a falar, a saber, The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Academy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber (University of Toronto Press, 2016), que me foi recomendado pelo Éder Silveira.

The Slow Professor 1* * *

P.S.: Nunca antes algo permaneceu tanto tempo latente como rascunho antes de ser publicado neste blog como o texto acima, pelo simples temor de que não fosse bem recebido por grandes amigos. Se, finalmente, decidi publicá-lo, foi principalmente por duas razões, a saber

pelo Milton ter me assegurado que eu não falava de pessoas, mas de um sistema;

e por descobrir, com alegria e também graças ao Milton, que estou longe de ser o único a me preocupar com a questão. Vejam, prá começo de conversa, o que é dito aqui. Sinto que encontrei minha turma. Aguardo reações fortes. Prometo tornar ao assunto. Que a peleia seja proveitosa !

Sobre o fim das grandes formas, ao término de um livro e à espera de outro

huxley 2

Aldous Huxley

Livros, ainda. Alguns se conectam ao longo dos séculos ou,  mais recentemente, das décadas, dada a evidente aceleração histórica de nossa época. Como, por exemplo, alguns de Shakespeare (que devem se conectar com muitos !), escritos entre os séculos 14 e 15; o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, da primeira metade do século 20 e, de apenas meio século após, Amusing ourselves do death, de Neil Postman.

Recentemente, tive minha atenção voltada para o último por conta de um excelente artigo do filho de seu já finado autor publicado no Guardian. Tendo rapidamente descoberto que ainda não havia sido traduzido para o português, tratei logo de importá-lo. No tempo que ainda me falta para finalmente tê-lo em mãos, procedi, então, ao preenchimento de outra enorme lacuna de leitura: o clássico Admirável Mundo Novo (Brave New World), de 1932.

Notem que, nos casos acima, as referências vão muito além de meras citações – sendo, outrossim, essenciais à conceituação das obras que se referem a outras. O próprio nome do clássico de Huxley, estampado já em sua epígrafe, vem de uma passagem de A Tempestade, de Shakespeare. Tratam-se, pois, de textos que, como diria Bakhtin, dialogam entre si. Curioso que estou de saber como o livro de Postman dialoga com o o de Huxley, me consolo, enquanto ele, todavia, não chega, anotando ideias desencadeadas pela leitura da clássica distopia de Huxley.

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Podemos entender nosso tempo como uma era de morte das formas longas. No filme cult dos anos 70 “Jonas que terá 25 anos no ano 2000”, de Alain Tanner, o protagonista imaginava diariamente, ao pedalar para o trabalho, as longas “preleções” (chautauquas) que daria os filho que estava para nascer. Nelas, deitava clara sua visão de mundo – o que não é pouco !

Duas décadas e meia mais tarde,  ouço de um experiente psicólogo que a melhor maneira de se comunicar com adolescentes é por meio de falas curtas. Percebem a diferença abissal entre as duas formas de discurso ? De um lado, chautauquas. De outro, máximas proverbiais. Ou, como no livro de Huxley, a educação hipnopédica, que consistia no condicionamento moral dos indivíduos pela repetição, várias vezes ao dia por meses a fio (qualquer semelhança com frequência e período de exibição de anúncios publicitários não deve ser mera coincidência…), de bordões, repetidos como mantras, durante seus períodos de sono, reforçando o que seria ou não socialmente desejável.

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Postman 1

Neil Postman

Antes de ler o livro de Postman, sei, em grande parte por meio do artigo de seu filho no Guardian, que a tese de fundo de Amusing ourselves to death é a ideia de uma civilização fundada sobre a diversão e a gratificação – e, portanto, não mais sobre a reflexão e a permanência. Consideremos a máxima, cuja autoria me foge à memória, de que é a morte que define a vida. Haveriam, assim, vidas esquecidas (a maioria) e, em quantidade bem menor, lembradas. No último caso, invariavelmente por seu legado – que pode ser, por sua vez, material (afeito à posse) ou intelectual (científico ou artístico; afeito à autoria e avesso à propriedade). Tomemos, então, o seguinte referencial

antes, não que educava mais para querer ser lembrado por algum tipo de legado (material ou não; todo empresário visa, ao final, a uma herança, assim como todo artista quer, acima das circunstâncias temporais, deixar uma obra legada para a posteridade);

hoje, não estamos envolvidos por uma cultura na qual a maioria trabalha, antes de tudo, em nome do máximo de entretenimento e bem estar material que possa, porventura, conquistar. Em vida ou, quando muito, para seus sucessores biológicos.

Neste último cenário, as grandes formas narrativas (tais como grandes romances, novelas, contos, ensaios, sinfonias, concertos, música de câmera, ópera, filmes (notem que não falo em séries !) e outros) perdem importância e espaço para enunciações mais sucintas (tais como singles, tweets, posts em redes sociais, mensagens instantâneas e afins). O fim do conceito de álbum é um dos sintomas mais precoces disto.

O fim das grandes formas discursivas também pode ter a ver com a evolução das tecnologias. Queira-se ou não, foi só depois do surgimento da internet qua a autoria quase universal teve que privilegiar (pelo excesso discursivo, como já dissemos) falas mais curtas. Compare-se, por exemplo, a extensão média dos enunciados em redes sociais (postagens no facebook, twitter e outras plataformas de mensagem textuais e visuais) com a de romances, novelas, contos, artigos e notícias da era anterior, de hegemonia do texto impresso.

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Insisto na importância, para toda edição de qualquer livro, da escolha dos tipos mais adequados. Vejam, por exemplo, uma comparação entre edições de Admirável Mundo Novo da Globo, da qual já reclamei aqui, e da Abril, encadernada – a qual descobri escondida em minha modesta biblioteca só depois que terminei de ler o volume novo que recém adquirira.

Não me senti um idiota por ter gasto com um livro que já tinha – mas por ter desnecessariamente enfrentado uma leitura mais penosa tão somente por ignorar que dispunha de uma edição com tipos bem mais amigáveis. Ainda que o espaço entre linhas seja, no volume da Globo, bem mais confortável e elegante. Os dois livros em números: o da Globo tem 306 páginas de 29 linhas; o da Abril, 310 de 32.

Não sei vocês, mas eu pagaria de bom grado por um pouco mais de papel. Não só no tamanho da folha como na gramatura (o papel da Abril é, como podem ver abaixo, mais transparente). Pois nenhuma leitura que não seja confortável pode ser prazerosa.

À esquerda, página da edição da Globo; à direita, da Abril.

Respeitável Público, de Henrique Schneider, e considerações sobre o problema da leitura numa época de escrita excessiva

Livros. Ontem, tentei explicar a meus filhos que um dos maiores problemas de nossa era de excesso de conteúdo é que, ao contrário de como costumava ser logo antes do surgimento da internet – quando, sob a  hegemonia dos broadcasting media, tínhamos  uma coleção mais ou menos delimitada suficientemente ampla de textos máximos cuja totalidade representava tacitamente tudo o que de mais notável já fora produzido pelo espírito humano; vivemos hoje numa época em que a quantidade de textos disponíveis se multiplicou exponencialmente, de tal modo que é impossível a qualquer um ler, ao longo de uma vida, tudo o que a humanidade escreveu de importante até agora.

Então, se antes, com alguma dedicação, se podia, ao longo de toda uma vida, ler quase tudo o que de mais sublime a humanidade já produziu; hoje, seguramente, não. Até por que, para começar, teríamos enorme dificuldade em discriminar o essencial do excessivo numa era de expansão exacerbada da autoria (age of nearly universal authorship, significando que nunca antes tantos escreveram tanto).

Foi quando Astrid me disse que um leitor dedicado é capaz de ler um livro por dia; um profissional (i.e., que divide a leitura com outras ocupações), um a cada 3 ou 4 dias.

Então, podemos grosseiramente afirmar que lemos, na maioria das vezes, mais ou menos na mesma “velocidade lógica” em que vemos um filme, ou seja, na medida em que, em nome da “apropriação” de uma narrativa, suportamos frustrar nossa expectativa de um desfecho dramático por uma ou duas horas. Ou, no caso da música (sem entrar na controversa seara da complexidade harmônica – nem que só para não despertar os ânimos mais exaltados), de formas mais ambiciosas. Na prática, falo da duração da maior forma não repetida que é ouvida em cada música. Naquela chamada de “popular” (jazz, inclusive), se costuma ter como extraordinária qualquer coisa com 5 ou mais minutos de duração (“a 5+, 6+, 7+ or longer track”); na “clássica” ou “erudita”, nada que não tenha lá seus 12 ou 15 minutos. Coisas de 3 minutos ou menos ? Desconfiem sempre. Tal preconceito, que orgulhosamente professo, tem me ajudado a discriminar muito lixo dentre tudo o que há, na era de excesso em que estamos, para ser ouvido.

Em todos os casos, a leitura de um livro implica num tipo de foco mais prolongado. Uma sorte de atenção praticamente desconhecida na cultura mobile, cujos feeds se atualizam à razão de até muitas vezes por minuto.

(já devo ter dito aqui, mais de uma vez, que, no contexto atual, Bakhtin de esbaldaria com sua teoria do discurso articulado pela alternância de falantes)

Distopias com a proscrição de livros existem às pencas. As melhores que conheço são as novelas Admirável mundo novo, de Huxley,  e Fahrenheit 451, de Bradbury, filmada por Truffaut. Enquanto na primeira o banimento da leitura se dá pelo condicionamento, na última se deve a uma proibição. Por ser, de algum modo, menos violento (não, havendo, por exemplo, a poderosa figura da queima de livros), o primeiro é muito mais perverso e eficaz do que o segundo.

Quem me conhece a mais tempo sabe que, por volta de quando tinha 30 anos, me tornei um “leitor de catálogos e manuais”. A alcunha, criada pelo Milton, não poderia ser mais precisa, pois venho lendo, por décadas, tão somente textos longos referentes a alguma preocupação bem específica de índole técnica ou acadêmica. Com isto, os poucos textos de ficção que li nos últimos 20 ou 30 anos foram quase sempre presentes de amigos que escrevem bem. Muito bem. Tenho sorte quanto a isto. Então, costumo ler (talvez, sei lá, por medo de não saber o que dizer ao lhes reencontrar), contos ou novelas que me chegam carinhosamente às mãos (ou à vistas, se quiserem) como presentes de seus autores. Como Respeitável Público, de Henrique Schneider (Dublinense, 2015).

* * *

respeitável público 1Lendo Respeitável Público, se descobre rapidamente por que seu autor já teve ao menos uma história roteirizada para o cinema. É que suas descrições de lugares, ações e personagens grudam na memória como as melhores cenas de um filme. Os diálogos são, mais do que precisos, cirúrgicos, desprovidos de quaisquer acessórios. Dignos, no mínimo, de bons dramaturgos.

Li em poucos dias (mais, é claro, do que nas poucas horas levadas por Astrid para devorá-lo). Livros e filmes, de assimilação lenta por definição, tem que ter, como bons pratos, um certo after taste. Há, na novela de Schneider, twists (nós) dramáticos claros, de diferentes intensidades, ao longo de toda a narrativa, guarnecidos por capítulos adjacentes como cenas de um filme bem montado. Como em muita boa música (mostly jazz & late romantic) e, de resto, em toda boa literatura policial, o uso inteligente das cadências deceptivas. Tanto que arrisco até o palpite de que tais injunções foram planejadas pelo autor, como em algumas composições de Beethoven, bem antes do próprio detalhamento do texto. Como, no entanto, não queremos oferecer spoilers, é suficiente por hora dizer que o principal contraste de tensão dramática existente entre dois pontos da obra, para os quais toda a narrativa converge, é entre os acontecimentos (ou cadências deceptivas, se quiserem) que culminam, respectivamente, nas páginas 110 e 126 do volume. Curioso ? Leia o livro, então !

* * *

Ainda que irrelevante para a atribuição de qualidade ao teor do livro acima resenhado, o que será dito em seguida é, a meu ver (no second meanings, please !), de crucial importância para garantir alguma audiência a tudo o que ainda é impresso em papel. Tem a ver com tipografia. Parece pouco importante ? Vamos, então, a alguns fatos.

qualquer texto impresso é lido com mais facilidade (e, portanto, maior prazer) quanto maior for a fonte tipográfica utilizada na composição do volume;

a iluminação, tanto de telas como de papéis impressos, também contribui, em razão direta, para a legibilidade de um texto;

indivíduos com mais idade tendem a ser mais preparados e/ou predispostos para a leitura do aqueles mais jovens, notadamente nativos digitais; tragicamente, no entanto, a visão humana se deteriora com o avançar do tempo.

Em razão disto, o tamanho e o contraste de uma fonte tipográfica são fatores cruciais para a maior ou menor leitura de qualquer coisa que se imprima. Especialmente no caso de livros, que demandam uma atenção mais persistente. Os quais, por cansarem mais a vista em razão da demora na leitura, demandam tipos visualmente mais confortáveis.

Por que tudo isto ? Tão somente para sublinhar que, no caso do volume que acabo de ler da Dublinense, contribuiu para a manutenção de meu propósito de enfrentar o (ótimo) texto até o final, tanto quanto sua qualidade intrínseca, também o fato de ter sido impresso num ótimo papel com letras suficientemente grandes e “pesadas” – como se impressas em negrito (ou bold) para vistas mais cansadas. Tipos serifados, como Times Roman, também são bem mais legíveis, quando impressos em papel, do que, por exemplo, o que utilizamos aqui.

Editores: jamais subestimem os benefícios de uma boa composição tipográfica !

Pois não devo ser o único a padecer de pouca paciência com fontes rarefeitas e tipos pequenos demais. Agora mesmo, sofro com as minúsculas letras de uma outrossim belíssima edição da Globo de Admirável mundo novo – lacuna de leitura à qual prazeirosamente hora me dedico. Para melhor ler Amusing ourselves to death, de Postman, assim que  chegar.

Comparação entre os tipos utilizados em volumes publicados pela Dublinense (acima) e pela Globo (abaixo)

A polêmica do ano: o Nobel de Literatura para Bob Dylan

bob-dylan-2Uma das melhores coisas das festas natalinas é encontrar familiares, parentes e amigos de cuja presença raramente desfrutamos, apesar de estarmos, hoje, muito mais conectados. No meu caso, a grande alegria desses festejos se traduz em encontrar os primos com quem passei todas as férias de verão de minha infância e juventude em Capão da Canoa.

De sorte que foi numa dessas festas que meu primo André me explicou por que toda música popular depende da repetição e que meu primo Robson proferiu a frase que não para de reverberar, desde então, em minha mente (ah, a vaidade…): ” – Então, Guto (são os únicos que me chamam assim), foste o polemista do ano ? “

É claro que tomei aquilo por um grande elogio. Voltei para casa encafifado. Abri o administrador do blog e percorri os títulos de tudo o que escrevi em 2016 em busca de tudo o que pudesse ser classificado como polêmico, tendo encontrando, no entanto, entre os posts mais recentes, além da diatribe contra Carmina Burana (que gerou, além de um ilustradíssimo thread de comentários, até um contraditório mais extenso que deu origem a um blog (!)), pouca coisa que pudesse rotular de ostensivamente polêmica – como, por exemplo, a diatribe contra o crossover (de 5 de setembro de 2015) e um post sobre a permanência das músicas tonal e atonal (de 21 de maio de 2014), sendo que o último foi o quarto texto a ser publicado aqui – sugerindo, com isto, que a busca por grandes polêmicas vem sendo uma tônica no impromptu desde a sua criação.

Não tendo achado, assim, no blog, evidência suficiente, a meu ver, para que eu pudesse ser tido por amigos queridos como polemizador contumaz, pensei em minha atividade em redes sociais (restrita, em meu caso, ao facebook) e aí sim, devo admitir: busco, antes de tudo, o contraditório veemente e qualificado. Tanto que já me acostumei a ser rebatido por interlocutores dos mais respeitáveis.

Feliz, então, com o elogio natalino, me dei conta de que, na urgência da interação cotidiana em rede, deixara de transportar, em 2016, para a permanência mais reflexiva do blog aquela que talvez tenha sido a principal polêmica do ano, a saber, o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan. Logo que anunciada, a láurea causou tanto a indignação de bibliófilos quanto o regozijo dos especialistas em canção popular. Mais do que qualquer mérito literário de Dylan estava em jogo, antes de tudo, a própria noção da letra de canção como campo literário.

Enquanto muitos especulavam sobre se ele aceitaria ou não o prêmio, Dylan permaneceu em silêncio. Até fazer lerem, na cerimônia de entrega do prêmio, uma carta cuja principal tese é a de que ele, como Shakespeare (sic !), jamais aspirara ao status de literatura para aquilo que fazia. Peças teatrais e canções, num e noutro caso. Penso que a analogia não seja válida, por uma razão muito simples: embora tenhamos hoje uma noção relativamente clara, ainda que empiricamente deduzida, sobre no que consiste, afinal a literatura, não tenho tanta certeza assim de que houvesse, nos tempos de Shakespeare, o mesmo entendimento. O que era literatura para o inglês comum daquela época ? Por certo algo bem diferente (se é que, nos primórdios da autoria individual, significasse alguma coisa) do que significa para alguém do nosso tempo.

* * *

Conheço pouco as canções de Dylan para lhes aferir o valor. Se levou o prêmio, é por que fez alguma coisa antes de qualquer outro (poderiam, por gentileza, me dizer o que ? Esta não é uma pergunta retórica). Pois reconheço mais sua voz do que seus versos. O que não ocorre com, pelo menos, letristas que também sejam poetas maiores. Então, em minha ignorância quanto a seus textos, o trato, doravante, mais como dono de uma voz (intérprete) do que como um autor (songwriter). Sei que esta simplificação é grosseira e que devo, portanto, estar enganado.

Consoante a isto, me espanto com a concessão da icônica láurea literária ao autor de, antes de qualquer outra coisa, uma vasta coleção de canções. Não, o álbum (primeiro o LP; depois o CD) não é, salvo um ou outro tíitulo conceitual mais experimental, uma unidade discursiva. No máximo, uma unidade de distribuição comercial. Um pacote, se quiserem. Ainda que integrado por um punhado de canções, conquanto autônomas, que tenham sido compostas em um mesmo contexto criativo ou executadas pelos mesmos músicos. Como poemas em um livro, dirão – com o que terei que concordar. Só que dificilmente, suponho, alguém lê um livro de poemas linearmente, como se todos os seus versos fizessem parte de um encadeamento obrigatório. Então, podemos dizer que, num volume de poemas, a extensão monológica (definida no próximo parágrafo) se limita, na maioria das vezes, a cada página.

Não pensem vocês que minha decepção com a nobelização de Dylan tenha a ver, de algum modo, com a abolição da impressão encadernada como província exclusiva da expressão literária. Tal argumento é purista e raso. Minha estranheza em relação à nobelização de Dylan se deve, antes, a um parâmetro que poderia ser descrito como extensão monológica. A expressão é autoexplicativa. Tem a ver como o tamanho da narrativa autoral. Autores criam romances, novelas, contos ou poemas. E, mais recentemente, posts e tweets. Então, da mesma forma que não consigo equiparar movimentos de 10 ou 15 minutos com singles de 3 ou 4, ainda me causa bastante estranheza a atribuição de excepcionalidade a qualquer coisa menor do que grandes blocos monológicos. Pois, até o desconcertante Nobel de Dylan, estávamos (eu, pelo menos) acostumados a reconhecer algum gênio apenas em obras monumentais de gigantes como Mann, Proust, Dostoievski ou mesmo dramaturgos como Shaw ou Shakespeare, que dominaram as grandes formas (o grande romance, o drama em vários atos). Reconheço até a dimensão literária das obras de poetas maiores como um Pessoa, um Whitman ou um Drummond. Só que, do poema autônomo para a letra de uma canção (embora muitas vezes o primeiro tenha sido apropriado como o segundo), há uma enorme distância. De tal modo que acho bem mais difícil pensar em autores de letras de canções populares no mesmo patamar criativo de donos das melhores narrativas e da melhor lírica de seus tempos. Mas não devo reclamar, no entanto, se as definições das categorias são tão variáveis. Ao contrário. Nem me surpreender se, num futuro não muito distante, o nobel de literatura for concedido a alguém cuja produção verbal esteja restrita só à internet ou (por que não ?) a meios não escritos. Quem sabe até textos colaborativos.

Ainda assim, se for para reconhecer, como fez a Academia Sueca, a canção como literatura, sou mais Chico Buarque. De ignorante que sou. Já vocês, que conhecem música popular bem melhor o que eu, devem ter outros favoritos cujos discos levariam para uma ilha deserta muito antes dos de Dylan (que, é claro, também tem grandes méritos !).

Também não deve ter passado despercebido a nenhum bibliófilo que o único livro já escrito por Dylan não passe, como li nalgum lugar, de “prosa lisérgica”. Sem qualquer curiosidade por conhecer o original, preferi, no entanto, entender a descrição, conquanto preconceituosa, antes como referência a alguma liberdade linguística, como em Joyce ou em Guimarães Rosa. Só que, ainda que por puro preconceito, escolheria mil vezes, dentre aqueles livros dignos de serem levados para a ilha deserta, Ulysses e O Grande Sertão: Veredas a Tarântula.

Então, como dizia o Manolo: ” – Que venga el toro ! ” (quiçá esta virtuosa polêmica não fique restrita apenas a este post !)

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(prometi a mim mesmo, ao iniciar este post e em nome da paciência de meus leitores, não me referir outra vez ao fascinante Parêntesis de Gutenberg)

(pensando melhor, há um germe de polêmica em praticamente tudo o que escrevo por aqui. Desde a escassez ou a abundância do talento para a regência orquestral até a volatilidade das profissões ou a obsolescência da publicidade e da representação política. Pois polemizar é, acima de tudo, atiçar os espíritos críticos)

Sobre o que supostamente move a atenção de quem lê blogs; ou In praise of colaborative writing

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Num mundo perfeito, todos teriam blogs. Pouco importa se música, fotos, vídeos, desenhos, receitas, impressões sobre filmes vistos, comidas saboreadas, embates esportivos e, é claro, política, todos tem algo a dizer ou mostrar. Mais interessante do que aquilo que se vê, ouve ou lê na mídia na maioria das vezes. Lamentavelmente, ainda são bem poucos os que percebem (pois só a isto consigo imputar a letargia de escolas, mesmo as de alunos mais abastados, em sua implementação curricular) os enormes benefícios da utilização de blogs para o ensino de redação ou ainda, num sentido mais amplo, configurações mais conectadas e descentralizadas de autoria..

Tal contexto utópico é o oposto perfeito do modelo experimentado na cultura de broadcasting em que estamos imersos – na qual, por definição, as vozes de poucos se fazem ouvir em prejuízo das vozes silenciadas da maioria. Em quaisquer meios, reverberam apenas as vozes de uns poucos políticos, religiosos, autores (ocultos por trás de atores e personagens) e anunciantes (invariavelmente grandes empresas, pois o limiar inferior de anúncio em toda grande mídia exclui, por definição, todo pequeno anunciante. Tal desequilíbrio (determinado, por assim dizer, por… investimento publicitário, na propagação de vozes de diferentes grupos) ocorre igualmente na política, na religião, na mídia e em toda a parte onde interesses colidam.

Então, só para, de vez em quando, fazer algo útil (já que, ultimamente, venho sendo, como pode ver quem acompanha o que é postado neste blog, taxado de inútil, improdutivo ou ocioso (como se o último fosse um defeito !)), deixo, neste post e noutros vindouros, à guisa de sugestão, anotações sobre hábitos que conspiram para a manutenção de um blog, senão bom, ao menos legível.

* * *

Tenho por bem, ao publicar, me ater a recomendações de outros mais experientes do que eu. Consoante a isto, ao longo dos anos aprendi que

posts com figurinhas são mais visitados do que aqueles em texto puro; por isto, sempre que termino de escrever algo novo (invariavelmente um texto puro), procuro na web as imagens que melhor o possam ilustrar;

leitores evitam títulos em língua estrangeira. Tão somente por isto, parei de insistir em iniciar títulos de postagens com expressões em inglês como, por exemplo, on conducting ou on writing. Assim, sem desistir por completo das categorias em inglês (que acho bem úteis para fins de catalogação), passei, no entanto, a lhes posicionar, a conselho de meu editor, não mais no início mas no final dos títulos de cada post;

textos com vocativos claros (isto é, que falam inequivocamente de uma pessoa (tais como as cartas abertas a um secretário de estado, a um gestor de uma fundação estatal ou, ainda, mais recentemente, em defesa da diretora de uma unidade de uma universidade federal) despertam nos leitores muito mais interesse do que aqueles aludindo exclusivamente a questões abstratas, teóricas, hipotéticas ou, simplesmente, impessoais. Ou, como bem disse um amigo, “as pessoas querem é ver sangue”. Tanto reconheci tal evidência que declarei, há tempos, chistosamente, que, doravante, só escreveria cartas abertas.

* * *

Ainda há muito a aprender. Talvez não devesse, ao escolher um título ou um tema, dar tanta importância aos preceitos acima. Pois, mais do que quaisquer índices de visitação absoluta, me parece muito mais importante, para qualquer coisa postada na web, a quantidade e a relevância dos comentários por ela ensejados. Tanto que, de uns tempos para cá, venho cada vez mais trazendo para a permanência do blog threads de comentários deixados no facebook sob postagens de divulgação de novidades por aqui. Até por que, muitas vezes, suplantam em precisão e profundidade tudo o que foi dito no caput. Tenho para mim esta como sendo uma das principais virtudes de todo discurso produzido na web – que é, por natureza, colaborativo.

A arte e o espírito dos tempos; uma livre-associação histórica e outra científica

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Nenhuma manifestação artística está dissociada do espírito de seu tempo. O bordão é prá lá de batido. Sobre a música que parece hermética a ouvidos despreparados como os meus cabe acrescentar ao que já disse a propósito da morte de Boulez o seguinte.

Muito também já deve ter sido dito que o aspecto caótico e/ou estéril de muita música produzida por vanguardas do século vinte se deva, em grande parte, a um descrédito generalizado na humanidade motivado pelos dois grandes conflitos mundiais que marcaram a história de sua primeira metade. Então, é como se todas as construções monumentais anteriores do espírito humano – como, por exemplo, as grandes sinfonias de um Mahler ou Beethoven – tivessem que ser implodidas para que, sobre seus destroços, pudesse se erguer alguma nova espécie de ordem.

Geralmente, fico com um pé atrás, desconfiado deste tipo de interpretação “holística”, interdisciplinar. Prefiro, neste caso, pensar que a abolição da tonalidade como fator estruturante hegemônico se deva, antes, ao tremendo desconforto de quem quer que viesse a se arriscar a compor qualquer coisa depois dos grandes mestres clássicos e românticos. Pois, afinal, deve ser bem mais fácil erguer algo novo num cenário de terra arrasada do que, propriamente, sobre os ombros de gigantes. Só que tal tipo de ruptura forçada, ex-machina, fere o princípio, tão bem evocado por Nina Paley, de que todo trabalho criativo é derivativo. Mas aí estou caindo, eu também, na tentação das fáceis e mirabolantes, conquanto impressionantes, interpretações transdisciplinares, tão caras aos filósofos.

Outra implicação, um pouco mais sutil, é aquela entre a música e o progresso científico de cada época. Pois se pode dizer que as formas musicais explícitas mais antigas emulavam, em arte, uma ciência que era fundada, sobretudo, em fenômenos observáveis a olho nú ou, no máximo, por meio de instrumentos óticos, tais como a mecânica newtoniana, a microbiologia celular ou a astronomia dos corpos celestes observáveis. A partir do surgimento da física quântica, a ciência passa a se debruçar sobre hipóteses sobre a constituição da matéria (átomos e partículas subatômicas) cuja validade só viria a ser comprovada décadas depois, por meio de dispendiosos aceleradores de partículas construídos por consórcios multinacionais, bem depois da morte dos visionários que primeiro as postularam. É, pois, razoável supor que, de algum modo, a tal “ordem oculta” a regular a música a que aludi no post anterior procure, deliberadamente ou não, emular tal estado de coisas.

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* * *

O fato deste texto breve ter permanecido adormecido, como um rascunho, por mais de um dia é praticamente uma admissão (óbvia para o leitor; nem tanto para mim) de sua incompletude. Pois não consigo me livrar da ideia de que tudo o que é escrito deve ter, necessariamente, um fecho digno. Nem que só por teimosia, ainda hei de dominar a estética do fragmento, da coisa interrompida – condição essencial para a existência de um legítimo discurso coletivo, em que cada cada enunciado se encaixe idealmente como parte de um todo maior. Até lá, perseguirei obsessivamente frases de fechamento. Foi nesta pilha que acordei pensando em perguntar de que modo o espírito de nosso tempo afeta a arte que se faz hoje. Sem ter, ainda, opinião formada a esse respeito, imagino que este próprio parágrafo possa ser uma pista para a resposta.

De espectadores a participantes (ii): mais sobre o fim da genialidade

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No último post de 2015, tergiversei sobre o fim da genialidade. Ali, sustentei que, historicamente, todo gênio é imediatamente reconhecido por seus contemporâneos. Minha generalização foi tão apressada quanto desastrosa, como muito bem apontou Andrei (por favor se apresente melhor !) no seguinte comentário, a propósito dos gênios postumamente reconhecidos:

“É inerente à noção de genialidade o fato de que ela é prontamente reconhecida em todo gênio por seus contemporâneos.”

Na realidade diversos gênios foram reconhecidos apenas postumamente, vide Bach, Poe, Kafka e tanto outros.

Face ao mesmo, me vi forçado a reformular o argumento para dada a pluralidade exacerbada de enunciações (artísticas ou científicas) facultada pelos meios de divulgação atuais, é hoje praticamente impossível distinguir o gênio dentre seus contemporâneos – cabendo, portanto, tal tarefa exclusivamente à posteridade. Premissa que leva, de imediato, à indagação sobre quem será reconhecido, no futuro, como gênio de nossa época.

Uma ótima metáfora para nosso tempo é o ruído branco, a saber, aquele som, semelhante a um chiado, resultante da soma de todos os sons possíveis, no qual se tornam indistinguíveis quaisquer sons “puros” componentes do ruído resultante. Se, sob o domínio dos broadcasting media (aí incluído o “mercado” editorial), a reprodução maciça de enunciados era um privilégio de poucos, é hoje impossível a qualquer inteligência, humana ou artificial, mapear a totalidade de falas que habitam concomitantemente o espaço virtual. Ao menos antes da realização da web semântica perseguida por Lévy.

Por isto, não creio que a identificação dos gênios de hoje seja meramente um problema de julgamento histórico. Sustento, ao contrário, que a genialidade, como elevação do espírito de poucos indivíduos em relação à grande maioria dos de seu tempo, pode, sim, se encontrar em processo de extinção. Para melhor entender como isto ocorreria, é útil nos debruçarmos sobre o mito do homem universal.

Olhando de perto a biografia de tantos gênios, notamos que, frequentemente, sua área de curiosidade transcende os limites de uma única disciplina, transitando, por vezes, até entre os domínios da ciência e da arte. Como o artista e inventor Leonardo da Vinci, o escritor e fotógrafo Lewis Carroll ou o físico e músico Albert Einstein. Até na literatura a amplitude de excelência comparece, mais emblematicamente na figura de um Sherlock Holmes. De pouco importa se Einstein tocasse bem ou mal o violino; se as fotos de Carroll fossem motivadas por uma paixão clandestina que hoje seria vista como franca pedofilia; ou, ainda, se a inquietude de espírito de Holmes pudesse ser atribuída ao vício, hoje proibido, em cocaína. O que tais biografias, reais ou ficcionais, sugerem é que, para as mentes mais agudas, é por vezes difícil se restringir àquilo que convencionamos chamar de ofício. Algo de que a maioria costuma se ocupar por toda a vida e de que deriva o próprio sustento, sem ter tempo para se dedicar mais seriamente (ao menos perante os outros) a qualquer outra atividade. Pois reza o senso comum que, além da profissão (que, até poucos séculos atrás, já foi hereditária), todo foco de interesse restante seja reconhecido, quando muito, como um hobby (mas deixemos de lado, por hora, o fim das profissões – tema complexo a merecer um texto totalmente a ele dedicado).

Por muito tempo, o mito do homem universal enquanto excelente em várias ocupações, idealmente realizado em da Vinci, foi tido como uma exceção numa civilização na qual todo indivíduo não tinha outra possibilidade a não ser optar, por força da competição, por algo no que se especializar. Acreditamos que tal estado de coisas esteja profundamente enraizado em determinantes econômicos. Mas isto não nos interessa tanto.

Interessa, sim, deter o olhar sobre fatores tecnológicos que fizeram com que o mito do homem universal, antes apenas pouquíssimos entre muitos, se tornasse, hoje, muito mais a regra do que a exceção. Interessa, também, notar

como os limiares para que algo fosse reconhecido como arte se alteraram em contextos mais recentes; e

como o conhecimento e o imaginário deixaram de ser propriedade de umas poucas mentes para se tornarem objetos compartilhados por inteligências coletivas, ou líquidas.

A arte sempre foi definida e categorizada por técnicas específicas – sendo, portanto, sua tipologia determinada não pelo conteúdo mas, invariavelmente, pela técnica utilizada pelo artista. Deste modo, temos, como grandes categorias, o desenho, a pintura, a escultura, a literatura, o teatro, a fotografia ou a música, entre outras, ficando dicotomias como figurativo/abstrato ou tonal/atonal (associadas ao conteúdo), por exemplo, como classificações secundárias.

Ora, até pouco tempo atrás (mais precisamente até os grandes avanços tecnológicos da segunda metade do século 20) toda técnica devia ser longamente praticada até a obtenção de um domínio razoável a ponto de ser exercido para a criação de uma obras mais perenes. Por isso, é razoável dizer que as tecnologias computacionais vieram no sentido de facilitar toda e qualquer atividade, facultando, com isto, pela primeira vez, a figura do artista de pronta entrega. Ou alguém seria capaz de dizer que a fotografia com filmes é tão fácil como a digital ? Ou que o projeto arquitetônico era de domínio tão simples antes do CAD ? Ou que fazer um filme antes era tão fácil como fazer um video agora ? Ou, ainda, que era tão fácil escrever antes da recursividade dos editores de texto ?

Mencionei, no post anterior, o fato de vivermos numa era de autoria quase universal. Para que tal condição, facultada por novos meios, existisse, foi necessário uma redução dos patamares antes associados à estatura artística. Da sinfonia ao rap, do grande romance ao tweet ou do óleo ao rabisco, o que vemos em todas as áreas é o encurtamento das formas, a simplificação da complexidade e a legitimização da colagem. Isto não é bom nem ruim mas, simplesmente, uma etapa evolutiva. Fruto, provavelmente, da fragmentação de todo discurso entre múltiplos autores. O que nos permite especular sobre o retorno, talvez, num futuro distante, das grandes formas.

O que quero dizer com isto é que, se antes, por força do tempo necessário ao ao domínio técnico de qualquer arte ou ofício, o mito do homem universal era um privilégio de poucos, hoje, dada a universalização de acesso aos meios, a condição de homem criativo plural se encontra ao alcance de todos. Então, num mundo em que qualquer um pode escrever e publicar, todo portador de um smarphone é um fotógrafo em potencial e um sampler faz de qualquer um um músico, penso, sim, que é bem menos provável do que antes a emergência de sujeitos que venham a ser reconhecidos, por contemporâneos ou pela posteridade, como intelectos privilegiados em nossa época.

* * *

Sempre me agradou bastante a formulação do Parêntesis de Gutenberg, à qual já aludi por diversas vezes, que preconiza o fim da escrita. Mesmo que a previsão esteja errada (oxalá !), a ideia (de um parêntesis histórico) não deixa de ser interessante. A ponto de poder ser facilmente transposta para outras coisas. De tal modo que gosto de pensar que, num futuro melhor, poderemos não ter mais a publicidade, os broadcasting media, as profissões, a representação política e toda centralização (verticalização) administrativa, pública e privada, dentre tantas outras coisas que já se encontram naturalizadas como necessárias e inerentes ao funcionamento da sociedade. Daí a magnitude da tarefa de como imaginar um mundo sem elas. Mais horizontal. Por essas e outras, teimo em manter este blog.

 

De espectadores a participantes ou Que fim levaram os gênios ?

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Das tantas notícias que me capturaram a atenção nos últimos dias, nenhuma repercutiu tanto como a de que existem cerca de 800 engenheiros envolvidos no desenvolvimento da câmera do iPhone. Outra evidência de que a liderança da Apple no mercado de dispositivos eletrônicos deriva, principalmente, de um reconhecimento, por parte de seus gestores, de que toda excelência advém de um esforço coletivo. Ou team effort, como devem dizer.

A gênese e a natureza plural de todo conhecimento hoje resulta de uma evolução com períodos claramente definidos por dois marcos históricos, a saber, a invenção da imprensa e o surgimento da internet.

Antes de Gutenberg, todo conhecimento secular (salvo, portanto, aquele preservado em manuscritos herméticos) era transmitido oralmente, tendo, então, pouco ou nenhum sentido qualquer ideia de autoralidade. Aprendia-se dos antepassados, pouco importando, nas vezes em que palavras não fossem atribuídas a algum profeta, quem enunciara algo pela primeira vez.

Com a imprensa de tipos móveis há, pela primeira vez na história da civilização humana, a possibilidade de que um texto fixo, atribuído a um único autor, seja copiado sem alterações em quantidades maciças. Deste momento em diante, passa a importar quem teve palavras publicadas, ficando o mundo dividido entre autores e leitores. Este estado de coisas, que perdurará por cerca de meio milênio (até o surgimento da web), pode ser descrito como uma era de gênios e espectadores. Uma época em que o imaginário humano é dominado por insights de um punhado de criadores hegemonicamente reconhecidos. É a era de um Shakespeare, Einstein, Beethoven ou Freud. É abissal a distância entre o intelecto de um desses gigantes, designados como gênios, e o de homens comuns que lhes são contemporâneos. Para Mikhail Bakhtin (1895-1975), se trata do período de domínio do grande enunciado monológico.

Hoje, a disponibilidade cada vez maior da internet, tendendo ao universal, democratizou, de um modo sem qualquer precedente, o acesso aos meios de publicação. Se antes dela a circulação da palavra era controlada exclusivamente por poucos detentores de meios de comunicação, a visibilidade já não é mais um privilégio concedido a poucos por algum executivo, mas uma opção ao alcance de todos. Emblemático desta passagem, para um estado de autoria quase universal, é, por exemplo, a preferência dos mais novos por “canais” de videos pessoais (vlogs) em relação aos de TV aberta ou a cabo.

Convencionaremos, pois, chamar o períodos compreendidos entre a invenção da imprensa e o surgimento da internet e o que vem depois do último, respectivamente, de eras dos gênios e dos commons.

É inerente à noção de genialidade o fato de que ela é prontamente reconhecida em todo gênio por seus contemporâneos. Há, na obra de todo gênio, uma absoluta supremacia, de ordem técnica ou formal, em relação aos mais proeminentes de seus pares. Quando poucos eram reconhecidos como grandes autores (escritores, poetas, pintores, escultores, compositores…) suas obras estavam, tecnicamente, enormemente acima das possibilidades do homem comum, ainda que educado, contemporâneo.

Já foi muito bem dito que, após o advento da web, vivemos num período que pode ser designado como de autoria quase universal. Se antes a escrita era uma especialização exercida por poucos (escritores, jornalistas, juristas e afins), hoje qualquer um pode, em tese, enviar um SMS ou, pior, postar algo num grupo ou, pior ainda, site. Para o homem comum, a escrita passou da esfera íntima à pública. É claro que, para que isto acontecesse, foi necessária uma tremenda relativização da expectativa de qualidade em toda escrita. Quem são os gênios de hoje ? Não sabemos. Simplesmente por que há autores demais. E isto não é nada ruim. Apenas novo.

(mais tarde comentarei sobre a implicação do novo protocolo de commons sobre aquele que é um dos pilares da academicometria, a saber, o do pressuposto da primazia de enunciação)

Para que fosse possível haver mais autores, foi, antes, preciso que a autoria fosse também reconhecida a níveis menos olímpicos do que o dos gênios. Tal distensão das exigências da autoria se refletiu não só em certo empobrecimento da linguagem como, principalmente, no encurtamento das formas, de sorte que o óleo, o grande romance e a sinfonia deram lugar ao rabisco, à canção pop, ao post ou ao tweet. Ainda há lugar para gênios nesta algaravia ?