Por que deixei de atualizar a produção artística em meu currículo

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Faz tempo, já nem sei quanto, que deixei de atualizar, para progredir na carreira acadêmica, minha produção artística – categoria destinada a qualificar e, principalmente, quantificar, em meu caso, as apresentações públicas e gravações de CDs de que participei. Abandonei a compilação de registros destas atividades por não poder contestar um critério avaliatório (que nem sei se ainda vigora) segundo o qual reapresentações de uma mesma obra musical não devem contar, para fins academicométricos de seus executantes, como a apresentação de trabalhos originais e comunicações em eventos acadêmicos. Sob a alegação de que tornar a tocar em público uma mesma partitura seria como apresentar um mesmo trabalho em mais de um evento. Tal premissa ignora por completo o fato de que músicos acabam, por força do ofício, se especializando na execução de um repertório tanto mais redundante quanto maior for a experiência acumulada do mesmo.

Ora, sabemos que, embora todo bom texto lido permaneça em nossa mente independentemente de eventuais releituras, nenhuma obra musical já apreendida pode ser re-executada sem uma quantidade considerável de estudo adicional. E, ao contrário do que uma analogia apressada com a produção textual poderia levar a acreditar, tal prática não se afigura, de modo algum, como uma limitação da atividade artística. Em vez disto, a repetição de um mesmo repertório por um mesmo executante tende a levar a execuções cada vez melhores, de acordo com a experiência acumulada de cada executante. O critério adotado, portanto, irrefutavelmente deprecia a atividade de execução musical em relação à produção textual.

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Este problema, de quantificação relativa de trabalho em atividades distintas relevante para progressão na carreira acadêmica, não deve ser exclusivo da área musical, na qual se resume a um conflito entre performance, que lida com sons, e scholarship, que lida com palavras (agradeço a quem me oferecer traduções satisfatórias para as duas expressões). Desta tensão se origina grande parte das distorções academicométricas verificáveis na área musical.

Vou lhes contar um fato que talvez devesse por bem permanecer esquecido. Há muitos anos, quando eu ainda era mais voluntarioso em prol da universidade, fui incumbido por uma chefia de editar um boletim mensal impresso (isto era, vejam bem, muito antes da web) que desse conta da produção intelectual e artística de nosso departamento. A coisa tinha o formato de uma folha A4 impressa dos dois lados, contendo toda apresentação artística e participação em eventos acadêmicos de alunos e professores do departamento. O propósito era dos mais nobres, persistindo até hoje: a comunicação a mais gente daquilo que fazemos.

Me sentindo poderoso, criei um panfleto que estampava na frente anúncios de apresentações artísticas futuras e, no verso, falas proferidas em congressos, simpósios e encontros. Tinha, portanto, um critério editorial claro: a arte primeiro e o discurso sobre ela depois.

Como esperava, fui chamado pela chefia, que exigiu a inversão daquela ordem de precedência, com conferências e comunicações passadas primeiro e concertos e recitais futuros depois. Noutras palavras, o que me pedia era o discurso sobre a arte antes da mesma. Aproveitei aquele momento privilegiado para me descompatibilizar com a missão da qual fora incumbido.

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A reutilização de ideias em teses e artigos é um resíduo involuntário de um fenômeno que ocupa as autoras de The Slow Professor por muitas páginas, a saber, o da fragmentação exacerbada da vida acadêmica. Questões de vida, por assim dizer, de grandes intelectuais do passado (artistas e cientistas) se encontram distribuídas, na maioria das vezes, em um pequeno número de grandes tomos. Há exceções, é claro. Freud, por exemplo, era um escrevinhador furioso. Mas, grosso modo, o saber a ciência do passado repousam sobre um conjunto relativamente pequeno de títulos seminais. Quantos livros escreveu Darwin ? E cada um dos grandes filósofos ?

Há, no entanto, na academia de hoje, um estímulo à produção de uma grande quantidade de textos que resulta na fragmentação exacerbada, numa profusão de artigos peer-reviewed, da obra de qualquer autor. É nossa opinião (contestável, é claro) de que tal fragmentação dificulta enormemente a contextualização de cada quantum de conhecimento em relação ao discurso maior ao qual cada um deles pertence. Um preço demasiado caro, a nosso ver, a ser pago pela accountability da qual depende cada vez mais o formidável “quem é quem” universitário.

O mais paradoxal é que, em nome da progressiva e inexorável especialização, se produza uma quantidade enorme, sem precedentes, tanto maior quanto for o número de participantes na vida acadêmica e sua disposição para escrever, de documentos dispersos sobre cada coisa; ao invés de, como antes, todo espírito e conhecimento humano repousar sobre uma convergência para textos fundamentais. A totalidade dos textos produzidos pela academia é, portanto, hoje – ao contrário de, como no passado, convergente para um limite – análoga a uma estrutura de simetria radial e expansão fractal que cresce exponencialmente tendendo ao infinito.

Ainda que o sistema de artigos revisados por pares tenha sido desenvolvido com a melhor das intenções, i.e., pretendendo, por meio de uma linguagem padronizada e referencial, abranger todo conhecimento de cada área, degenerou em algo que cresce descontroladamente e no qual toda redundância tende a permanecer oculta – dificultando, com isto (ao invés de, como pretendia, facilitar) a identificação de formulações idênticas.

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Mas deixemos de desenhar cenários distópicos. Até por que, faz pouco tempo, já fui chamado por um crítico arguto de Zé do Apocalipse. Então, antes que me peçam explicitamente algo mais propositivo, vamos a um exemplo bem sucedido daquilo a que a academia se propõe, a saber, o conhecimento colaborativo. Os leitores mais atentos já devem ter adivinhado que estou a falar da wikipedia.

Nem tudo nela é verdade, dirão os mais céticos. Há, no entanto, na wikipedia, salvo se eu estiver enganado, mecanismos bem mais acessíveis de verificação e contestação do que é publicado do que em quaisquer publicações científicas. Muito mais importante do que isto são, no entanto, os fatos de que a wikipedia, consensualmente reconhecida como maior repositório de conhecimento produzido até hoje pela humanidade e, ao mesmo tempo, maior plataforma de escrita colaborativa,

tende, com o passar do tempo, a uma saturação em torno de algo como 3 milhões de verbetes, com sua expansão decrescendo exponencialmente (ou é logaritmicamente ?) desde sua criação – indicando, com isto, uma convergência em direção a um limite correspondente à totalidade do conhecimento humano;

e, last but not least, evidenciando, mais do que quaisquer formatos acadêmicos, o conteúdo em detrimento da autoria individual – o que é por si só suficiente para que a tenhamos como essencialmente diferente de qualquer outro sistema.

Complicado ? Explico.

É que, enquanto na academia a quantidade de papers se multiplica em razão da afirmação de autoria do menor fragmento, aqui chamado de quantum cognitivo (ou, se preferirem uma linguagem mais bakhtiniana, diríamos que há tantos mais enunciados quanto forem os falantes em alternância); já na wikipedia discursos semelhantes tendem a se fundir num mesmo verbete com pouca ou nenhuma ênfase na autoria de quem colaborou para o mesmo.

Outro exemplo: a programação computacional em código aberto, como no caso do sistema operacional Unix, desenvolvido por uma miríade de programadores dedicados ao bem comum que abrem mão de qualquer privilégio de autoria.

Isto lhes parece pouco importante ? O conflito intrínseco entre a expansão fractal do discurso acadêmico de um lado e a convergência da wikipedia ou do software de código aberto de outro ainda vai dar muito o que falar. Principalmente depois da implementação da web semântica pelo grupo de pesquisadores liderados por Pierre Lévy. Resta só saber o que virá antes, se a web semântica ou a explosão da bolha fractal do discurso acadêmico-científico. Se a primeira acontecer antes, pode até ajudar a evitar a segunda.

 

Por que desisti de escrever uma tese

Seria um baita lugar-comum iniciar este texto com um alerta de textão. Não. Definitivamente, não. Qualquer coisa com mais do que três ou quatro parágrafos começa assim. Prefiro, em vez disto, começar com outro tipo de disclaimer. Informando os leitores de que já perdi a conta do número de vezes que tentei, sem êxito, ser aceito em programas de doutorado, em áreas que incluem a música, a educação musical e a informática na educação. As razões para minha frustração em tais tentativas já foram exaustivamente esmiuçadas, de sorte que não pretendo (relaxem, portanto) remoê-las neste post. Outrossim, esta ressalva tem por finalidade exclusiva deixar claro que, abaixo, tudo pode não passar, como muitos certamente pensarão, de um discurso de ressentimento. Por isto, ofereço a estes e aos leitores desavisados a oportunidade de abandonarem a leitura por aqui.

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Você ainda está aí ? Então talvez eu deva começar dizendo que, até hoje, não sei se minhas malfadadas tentativas de frequentar mais um curso de pós-graduação (sim, pois, ao fim dos anos 80, sobrevivi a um curso de mestrado) em verdade me protegeram, ainda que contra minha vontade naquele momento , de embarcar no colossal exercício retórico que é redigir e defender uma tese. Sim, há teses criativas, que agregam muito a seus campos de conhecimento. Mas que, suponho, infelizmente sejam uma minoria. Pois, grosso modo, teses são, muito mais do que comunicações de descobertas relevantes, um rito de passagem na vida acadêmica que, mais do que qualquer coisa, exercitam ao máximo a capacidade de se manter, por vezes contra a própria vontade ou intuição, a concentração em uma temática única, quanto mais específica melhor, empreendendo leituras exaustivas e redundantes, ao bel prazer de orientadores, e redigindo um documento que, na maioria das vezes, repousará, encadernado e com lombadas impressas em dourado, nas prateleiras das bibliotecas universitárias.

Vale lembrar uma matéria que saiu no New York Times, por volta de quando eu cursava meu mestrado, na qual a bibliotecária-chefe de Harvard conclamava a comunidade acadêmica a escrever menos (sic !). Outra: um amigo, professor do Instituto de Letras da UFRGS, declarou, em tom jocoso, que, consultando a ficha de empréstimo de sua tese na biblioteca da faculdade em que lecionava, constatou se tratar de um best-seller, já que, em muitos anos, QUATRO (!) pessoas haviam tomado o volume emprestado.

Outro caso que me impressionou foi o de um colega que, ao submeter a um comitê de pós-graduação um mui relevante projeto de tese no qual procurava relacionar as características acústicas de um espaço de prática instrumental ao progresso de quem nele estudava (uma ideia original), foi dissuadido, com base na alegação de que o corpo docente não estaria apto a orientar tal tipo de estudo. Ao mesmo tempo, foi persuadido a criar  um método para o ensino de seu instrumento baseado na utilização de cantigas infantis. Ou seja, um tremendo lugar-comum, como, provavelmente, muitos métodos já existentes. E assim, um pesquisador promissor foi induzido a uma relativa mediocridade em nome de um suposto nivelamento. Histórias como estas devem ser bem comuns. Tem a ver com uma espécie de fidelidade devida às linhas de pesquisa ostentadas por orientadores. É claro que este tipo de sacrifício é amplamente compensado por prestígio e vantagens financeiras na carreira acadêmica.

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Faz tempo que quero examinar com mais atenção as fragilidades do discurso acadêmico. Este post é, então, provavelmente, o primeiro de uma série que pretende dialogar com acadêmicos que pensem o contrário.

Falo da insaciável matriz de publicações dedicadas a legitimar o enorme volume de produção textual da academia. De imediato, salta aos olhos de qualquer observador o mito da primazia de enunciação. Significa que, aos olhos da academia, a autoria de uma ideia pertence ao primeiro a enunciá-la. Ora, nada é capaz de garantir (ao menos antes da implementação da web semântica) que alguma coisa dita num documento já não tenha sido dita alhures. Ainda assim, toda a hierarquia acadêmica está alicerçada sobre um conjunto de enunciações presumivelmente originais. Sobre textos, tidos como basais, se engendra, então, uma complexa malha de citações, na qual discípulos pagam tributo a seus mentores. Citações por terceiros se transformam em capital intelectual, rendendo pontuação aos autores dos textos citados no formidável ranking conhecido por currículo LATTES. Exagero ? Experimentem não citar, em suas teses, seus orientadores.

Anos atrás, foi amplamente noticiado o escândalo das citações cruzadas (eu te cito; tu me citas), descoberto internacionalmente e responsável pela cassação dos índices qualitativos de vários periódicos científicos brasileiros. Nem vale a pena falar, aqui, de artigos aceitos para publicação que foram escritos por geradores automáticos de texto.

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A especialização galopante hoje observável em toda área acadêmica se opõe diametralmente ao ideal (renascentista ?) do homem universal, i.e., do ser crítico e curioso, obcecado por uma ampla gama de interesses, mais comumente personificado na figura de Leonardo da Vinci. De modo que não é nenhum exagero dizer que não haveria lugar para o mesmo na universidade de hoje. Ao menos, é claro, que abdicasse, em nome do aprofundamento necessário à especialização, de todas exceto uma de suas áreas de interesse. De tal modo que o artista não mais poderia ser o inventor ou o cientista, e vice-e-versa.

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Um pouco acima, me referi à anedota de uma tese lida (ou consultada) por apenas quatro pessoas poder ser considerada um best-seller. Não exagero. Pois quem, além de autores, orientadores e bancas de defesa, efetivamente lê cada palavra escrita numa tese ? Na verdade, só as leem por força do ofício os que são pagos para tanto. De resto, quem mais já empreendeu, espontaneamente, a leitura de alguma tese ? Podem rir, mas já tentei. Não passando, no entanto, das primeiras páginas. Pois teses não são, de modo algum, reader friendly. Sim, sei que não se destinam a isto. Acompanhem, mesmo assim, um pouco mais o argumento.

A pouca popularidade das teses como objetos de leitura tem a ver, fundamentalmente, com o tipo de texto que nelas mais comumente encontramos. No entanto, para falar disto devemos, antes, formular uma variável, mensurável em qualquer tipo de texto, que poderia ser definida como sua densidade lógica.

Contrariamente às teses, textos tais como livros, matérias de jornais ou revistas e posts em blogs precisam ser convidativos à leitura por si só. Qualquer autor sabe disto, se esforçando para suprir seus escritos com elementos atrativos para que a leitura não seja abandonada por aqueles que a ela se aventurem. Com isto, é possível ao analista quantificar ideias ou silogismos encadeados presentes em tudo o que se lê. É a esta quantificação de conteúdo que chamamos densidade lógica. Talvez não seja possível atribuir, de forma unívoca, um coeficiente que dê conta da densidade lógica de qualquer coisa que é escrita. Mas, dado um par de textos para comparação, não restará qualquer dúvida, para leitores experientes, sobre qual deles será o mais logicamente denso.

Assim, é a densidade lógica que torna os posts de um blog mais interessantes do que os de outro, o mesmo valendo também para textos impressos de qualquer espécie. A densidade lógica independe do meio. De modo que, tanto em meios virtuais como impressos, haverá textos mais rasos e mais densos. As teses não fogem a isto. Só que, dado o protocolo do texto acadêmico, que implica tanto numa ampla revisão bibliográfica como na necessidade de expressão unívoca mesmo daquilo que é mais óbvio, a densidade lógica (i.e., a quantidade de ideias ou argumentos numa dada extensão de texto) costuma ser tremendamente mais baixa em teses e artigos acadêmicos do que em publicações que precisam conquistar seus leitores.

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Pronto, falei. Espero, com isto, não ter ofendido os muitos amigos que tenho que se dedicam honestamente à vida acadêmica. E antes que eles comecem a debandar de meu círculo de relações, me apresso em reconhecer o brilhantismo e a originalidade de algo que porventura tenham escrito. Este post é, como quase tudo que escrevo, um convite à contestação. Que deve se dar, idealmente, por meio de menções às honrosas exceções do universo acima descrito – a saber, teses que tenham se tornado fundamentais a seus campos de conhecimento, as quais, insisto, estão longe de ser a maioria.

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Ainda que as ideias acima martelem em minha mente já há alguns anos, o fato de eu ter finalmente começado a abordá-las pode ter a ver com eu me encontrar em meio à leitura de um livro do qual certamente voltarei a falar, a saber, The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Academy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber (University of Toronto Press, 2016), que me foi recomendado pelo Éder Silveira.

The Slow Professor 1

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P.S.: Nunca antes algo permaneceu tanto tempo latente como rascunho antes de ser publicado neste blog como o texto acima, pelo simples temor de que não fosse bem recebido por grandes amigos. Se, finalmente, decidi publicá-lo, foi principalmente por duas razões, a saber

pelo Milton ter me assegurado que eu não falava de pessoas, mas de um sistema;

e por descobrir, com alegria e também graças ao Milton, que estou longe de ser o único a me preocupar com a questão. Vejam, prá começo de conversa, o que é dito aqui. Sinto que encontrei minha turma. Aguardo reações fortes. Prometo tornar ao assunto. Que a peleia seja proveitosa !

Por que irei, logo mais, numa assembléia no Instituto de Artes ocupado da UFRGS

Não gosto de reuniões, nem tampouco de assembleias. Principalmente por causa do obsoleto protocolo de uso da palavra nas mesmas, absurdamente serial para o tempo em que vivemos. Tanto que não vou às plenárias departamentais há uns 20 anos. Até por que a universidade pública brasileira é um paraíso autogestionário onde, felizmente, estou cercado de pares bem mais aptos do que eu.

Hoje, no entanto, irei numa no Instituto de Artes da UFRGS. Entre seus professores, servidores e alunos. Os últimos ocupam o prédio do IA há várias semanas. Durante a ocupação, atividades essenciais para graduandos, como bancas e recitais, foram mantidas por algum tempo e, num dado momento, suspensas por completo. Obrigando, inclusive, alguns alunos a obterem, para o cumprimento de exigências para suas formaturas, salas de concerto fora do IA.

A última, soube agora, é que ocupantes pedem a renúncia à direção do IA da Profª Lucia Becker Carpena, sob alegações, entre outras, de que

Lucia seria golpista, favorável ao governo Temer. O que só pode ser coisa de gente desconectada, que não vê o intenso engajamento de Lucia com as grandes causas, em especial as que tenham a ver com educação; ou, ainda, de que se posicionaria como

defensora da lei da mordaça.

Ou seja: praticamente o diabo em pessoa.

Chama a atenção, também, que Lucia seja a pessoa mais citada na peça difamatória que recebi: seu nome aparece em vários parágrafos. Ou seja: ela (ou se preferirem, sua cabeça numa bandeja) é inegavelmente a pauta do encontro.

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Também não gosto de quem tente se esconder por trás de coletivos anônimos. Assim, preciso descobrir quem de fato redigiu o email (não conto nem sob tortura de quem o recebi – mas aposto que foi enviado à maioria pela mesma pessoa). Enfim, instruído por seja qual for ghost writer, custo a acreditar que o email que me foi “repassado” tenha sido redigido por qualquer dos ocupantes do IA. Que, nos primeiros dias da ocupação, escreveram “tercerização” (ou “tercerizados”, não lembro ao certo) numa lousa – assim mesmo, sem o i depois do segundo e. Já o longo email onde um coletivo anônimo pede a cabeça de Lucia, ao contrário, é de uma redação impecável. Digna, no mínimo, das melhores bancas jurídicas ou agências publicitárias. Difícil, portanto, acreditar que tenha vindo de lá de dentro.

Não entrarei, por hora, no mérito do constrangimento a que outros professores foram (ou não, como dizem os ocupantes anônimos) submetidos.

Só acho que, ao pedir a cabeça de Lucia como diretora do IA, seus ocupantes, conquanto cobertos de razão em sua pauta mais genérica de reivindicações, estão mirando no alvo errado. O golpe está francamente em curso em várias frentes e, enquanto muitos protestam no Congresso Nacional ou na Praça da Matriz, os ocupantes do IA, encastelados no prédio da Senhor dos Passos, serão logo esquecidos e, portanto, mais facilmente subjugados. A menos que, antes disto, ajustem a mira para alvos mais realistas.

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Conheço Lucia há uns 30 anos, desde que fomos colegas também como alunos do IA. É inegável que, naquele tempo, universitários tivessem muito mais perspectiva de um futuro auspicioso do que agora. De modo que não é nenhum exagero se afirmar que se vive hoje no Brasil um cenário educacional distópico, tanto ou mais sombrio do que conforme imaginado em The Wall, do Pink Floyd, ou, ainda, em O Inimigo da Classe, de Peter Stein (Klassenfeind, Alemanha, 1983).

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Cena de Klasenfeind, de Petet Stein (Alemanha, 1983)

De qualquer modo, penso que o IA tenha sorte de ter à frente, como diretora, alguém como Lucia. Pois, mesmo na utópica autonomia da universidade, conheço poucos tão capazes, idôneos e dedicados. Ela ainda quer ser diretora do IA ? (pois não tem a menor obrigação disto) Então, agradeçam aos deuses do saber por terem mais sorte do que juízo e a deixem trabalhar em paz !

E, é claro, me poupem de mais emails difamatórios.

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Foto: Guilherme Santos (Sul21)

(ontem, enquanto ouvíamos, numa prova, a brilhante classe de alunos de Lucia junto a um cravo (pois o do IA está… indisponível) que há na excelente sala de música existente no complexo do multipalco do Theatro São Pedro, ouvíamos, de vez em quando, as detonações dos rojões de gás do choque da BM  na praça em frente. Nunca imaginei que veria a BM dispersar com gás manifestantes da Susepe. Que tempos !)

Como formar um pensamento sem história ? ou Sobre imagens e palavras (i)

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Amoras silvestres que ensejaram a conversa reproduzida na primeira parte deste post.

Este texto pertence à série sobre as razões pelas quais estou no facebook, subsérie conversas que se tem por lá, e poderia se chamar, também (se o título não ficasse muito longo), eu sigo (iii) Luiz Afonso Alencastre Escosteguy.

Nunca encontrei Luiz Afonso pessoalmente. Tive, no entanto, com ele, em caixas de comentários, algumas das mais interessantes conversações mantidas nos últimos tempos. Como, por exemplo, a que segue. Suscitada por uma provocação vinculada à postagem da foto acima. Tudo começou com o seguinte:

A última foto que postei já foi curtida 31 vezes. A divulgação do último post que publiquei, 4. Estes números devem querer dizer alguma coisa. Are images any better than words ?

Ao que Luiz Afonso prontamente retrucou:

Significa apenas que, em geral, as pessoas não entram no FB para ler. FB é entretenimento e não fonte de informação ou de leitura. Tirando os blogs jornalísticos, o acesso a textos perde de longe para o de imagens. Comigo – e com quase todos os que escrevem – acontece o mesmo…

Ocorreu, então, o seguinte diálogo:

Augusto: Ou seja, tudo se resume, no fundo, à velha e boa oposição entre lifecasting e mindcasting. Sonho com o dia em que o facebook e seus concorrentes ofereçam filtros inteligentes capazes de distinguir um do outro. Com os quais será bem mais fácil constituir PLNs.

Luiz Afonso: E tem mais, quanto mais posicionado for o texto, menos lido, menos curtido e menos comentado.

Augusto: (curioso: por que a exposição virtual é tão temida?)

Luiz Afonso: Por que poucos são capazes de sustentar argumentos, ideias ou de serem coerentes. Na maioria são repetidores de manchetes e não passam muito disso.

Augusto: Entendo. Uma civilização de slogans. Posso copiar esta conversa no blog ?

Luiz Afonso: Uma geração perdida. Tenho visto jovens de 20 a 35 anos que sequer conhecem fatos da história que temos por notórios. Como formar um pensamento sem história? Como ser crítico sem história?

Luiz Afonso: Pode, claro!

Augusto: Título provisório para o post: como formar um pensamento sem história ?

Augusto: (outra hora, te falo das raríssimas exceções que conheço ao princípio de que não há CC competente…)

Luiz Afonso: Se não existissem exceções, não seria regra hehehe

Luiz Afonso: Voltando ao teu post, esse foi o maior mal causado pela mídia: o imediatismo da solução pronta nas manchetes. Eliminou, com o passar dos anos, a capacidade das pessoas de irem atrás de mais informações/conhecimentos para fazerem a crítica do que recebem. E ir atrás de informação/conhecimento é ir atrás da história, da história que a mídia esconde. E assim também nas escolas…

Augusto Maurer: Outra coisa: que tipo de imagem posso usar para ilustrar essa conversa ? Pois, afinal, o Milton Ribeiro insiste muito que é bem mais fácil divulgar textos vinculados a imagens do que sem elas.

Luiz Afonso: Augusto Maurer, Sempre uso imagens nos posts. A escolha envolve técnicas de comunicação e, claro, sensibilidade…

Luiz Afonso: AH, e usaria essa imagem para ilustrar o post

imagens X palavras

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Nessa mesma conversa, outros comentaristas também se referiram à primazia da imagem sobre a palavra como uma tendência importante em nossa época. Sempre que me deparo com este tipo de discussão, me vem imediatamente à mente a instigante formulação do Parêntesis de Gutenberg, ao qual já me referi aqui, segundo a qual estaríamos vivendo o ocaso de uma era de predomínio da escrita, delimitada no início pelo advento da imprensa e no fim (suponho) pela omnidisponibilidade de tecnologias visuais, como em tablets ou smartphones. Antes dele, dominavam as narrativas orais. Depois, viriam as visuais.

Então, de acordo com os estudiosos que o endossam, não haveria um problema maior no fato observável de que gerações mais recentes tenham cada vez menos familiaridade com a linguagem escrita, pois estaríamos no limiar de uma nova era de comunicação essencialmente visual. Faz sentido. Pois nativos digitais passam cada vez mais tempo se relacionando com telas. Seja interativamente ou apenas vendo, na melhor das hipóteses, podcasts e vlogs de algum youtuber ou, na pior, séries de TV. Não mencionei os jogos tão somente por que estes merecem um olhar mais dedicado.

No intuito de se estabelecer a importância relativa entre som e imagem em canais e meios de comunicação, um observador arguto poderia idealizar o experimento de, primeiro, ver televisão sem som e, depois, ouvir seu som sem ver a imagem para, então, decidir em qual dos dois modos consegue entender melhor o que se passa no programa transmitido. Alguém, dada a atual farra da ciência institucional, deve nalgum momento obter algum subsídio para uma pesquisa nestes moldes. Enquanto isto não acontece, podemos tergiversar, por exemplo, sobre se não seria bem mais fácil entender o cinema sem áudio do que sem imagens – enquanto a TV seria, por sua vez, bem mais incompreensível sem audio do que sem imagem. Fora, é claro, em transmissões de partidas de futebol. Sei lá. É só um palpite.

Cabe, ainda, observar que, enquanto praticamente toda postagem compatível com a categoria de mindcasting é fortemente apoiada sobre algum tipo de linguagem verbal, seja ela escrita ou não, já aquelas reconhecíveis como lifecasting se valem com frequência bem maior de recursos exclusivamente visuais. Como provam todas as postagens de selfies, foodporn e afins. Então, se for assim – e se os defensores do Parêntesis de Gutenberg tiverem razão – rumamos para uma era obscurantista na qual todo conhecimento só estaria ao alcance de uns poucos iniciados, porquanto letrados. Só nas piores distopias, como em Farenheit 451, se imaginou um porvir tão tenebroso.

Melhor não pensar nisso. Principalmente por que, até lá, dá para ter muitas conversas como essas que só as redes sociais ensejam. Curioso. Mesmo sem ter jamais encontrado Luiz Afonso pessoalmente, sei, graças às redes, que nutrimos as mesmas paixões pela escrita e pela cozinha. Mantidas as devidas nuances. Pois, enquanto me dou melhor com panelas, ele é um exímio assador. Alguém duvida ?

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Torta de pernil de cordeiro feita por Luiz Afonso.

 

 

Adeus à classe de clarone de Henri Bok em Roterdã

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Explico a quem não sabe o que é um clarone, como é mais conhecida a clarineta baixo. É, como diz o nome, o instrumento maior (e, portanto, de som mais grave) da família das clarinetas (ou clarinetes, se preferirem). É um instrumento mais caro, complexo e de execução bem mais especializada do que as populares clarinetas, fartamente encontradas em quaisquer bandas. Há, no entanto, só uns poucos que dominam o clarone em cada nação. Dentre estes, invariavelmente discípulos de seus dois únicos grandes mestres reconhecidos em todo o planeta. Dois holandeses. Henri Bok e Harry Sparnaay. O problema do clarone no jazz é ainda mais exclusivo, com o caso único de Eric Dolphy.

Já tivemos a felicidade de ter Bok entre nós, dando aulas no Instituto de Artes da UFRGS e como solista junto a uma ou mais de nossas orquestras – e tenho o privilégio de trabalhar, na OSPA, com Marcelo Piraino, que foi seu aluno no Conservatório de Roterdã. Uma das tantas vantagens de se trabalhar com gente assim é ficar sabendo de coisas importantes antes dos outros. Tanto boas como ruins. Como a notícia de que a classe do instrumento no prestigioso conservatório será extinta após a aposentadoria de Bok.

Sim, vocês leram certo. O próprio Bok ficou sabendo da extinção de sua classe não através da direção do conservatório, como era de se esperar, mas por meio de seus próprios alunos. Ao receber a notícia, comentei com Marcelo que Bok deveria ter, naturalmente, algum discípulo favorito em mente para sucedê-lo. Soube, então, que pretendia ter seu trabalho continuado em Roterdã por Luis Eugênio Afonso, mais conhecido como Montanha, claronista da OSESP e do quarteto de clarinetas Sujeito a Guincho.

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Saí do ensaio em que soube disto triste. E pensativo. O fim programado de uma classe brilhante e única como a de Bok não é um fenômeno isolado. Antes, tem a ver com a crise pela qual passam instituições musicais no mundo todo. Pois, enquanto enxugam o corpo docente de um dos principais conservatórios europeus, autoridades de Atlanta  banem do ensino público toda prática musical em bandas e orquestras, dispensando (suponho) centenas de professores de música. Enquanto isto, orquestras, que já foram chamadas de dinossauros, ainda tem, segundo os mais alarmistas, uma expectativa de existir, como hoje as conhecemos, por, no máximo, uns trinta anos.

As formas pelas quais organizações importantes se adaptam a esta nova realidade variam bastante, constituindo matéria para muitos posts. Até por que meus estimados editores (i.e., os que pagam pelos servidores que permitem a existência deste blog) querem que eu escreva mais seguido – o que só consigo, é claro, escrevendo coisas mais curtas. Pensando bem, não seria má ideia uma enquete sobre o tamanho ideal de um post.

clarone 2

Não existem atalhos para proteger crianças de jogos violentos

O texto abaixo é uma tradução do que foi escrito por Nathan Ditum e publicado originalmente em The Guardian em 31 de março de 2015.

Call of Duty 2

Eis mais uma razão para que todos se interessem por videogames. Obrigado, diretores de escola de Cheshire, por enviarem uma carta, sutil como um tijolo, ameaçando pais de envolvimento com a polícia e serviços sociais se seus filhos tiverem acesso a videogames violentos ! Trata-se de um enorme desserviço.

A mensagem é, na verdade, totalmente equivocada – especialmente se considerando que quase todas as escolas que integram a Nantwich Education Partnership são primárias, abrangendo uma faixa etária particularmente vulnerável, e que a carta também aborda redes sociais. Ora, que a carta trata dos perigos de jogos e da internet como se descrevesse um lugar distante de monstros digitais e predadores sexuais. “Call of Duty, Great Theft Auto, Dogs of War e outros jogos similares são todos inapropriados para crianças”, diz, mais preocupada em defender crianças desses títulos tóxicos sem, aparentemente, perceber que um deles não é real (ao menos, é claro, que os diretores de Cheshire estejam se referindo ao clone de Rambo chamado Dogs of War lançado em 1989 para os consoles Amiga e Atari SX – o que, provavelmente, não é o caso).

A parte sobre social media não é mais racional (o acesso “estimula comportamentos sexuais precoces” e “os torna vulneráveis ao aliciamento para a exploração sexual e à violência extrema”). A verdadeira falha da carta é, no entanto, ser indicativa da ignorância generalizada e indiferença que, ao nosso ver, constituem o cerne do problema.

A situação é frustrante por que, embora destrutivamente pesada e parecendo, por vezes, um cão latindo para fogos de artifício, a carta carece de foco. Pais devem, sim, assumir a responsabilidade final sobre aquilo com o que seus filhos se envolvem, e é correto afirmar que a indiferença generalizada é pior para todos. Como pai de alguém com 12 anos de idade, estou em meio ao processo de tomar essas decisões duras, em parte por que muitos outros pais parecem satisfeitos em deixar seus filhos jogarem o que quiserem. Este senso de injustiça pode tornar a resistência aos pleitos de seus filhos particularmente difícil.

Reconheço que o argumento “mas todos os meus amigos…” é tão velho quanto a humanidade (o pai de Freddy deixa ele usar o machado o tempo todo). É, no entanto, um problema real, i.e., um sintoma de pais não sabendo e/ou pouco se importando com o que seus filhos jogam. E a má notícia, aqui, para a Nantucky Education Partnership e demais fãs da moral prescritiva licenciosa, é que classificações etárias não são suficientes.

Em sua parte mais centrada na agressividade passiva, a carta diz: “se seus filhos obtiverem permissão para ter acesso inapropriado a qualquer jogo ou conteúdo associado indicado para maiores de 18 anos, somos orientados a procurar a polícia e os serviços sociais, pois isto é considerado negligência”. A referência é, aqui, presumivelmente a classificação etária PEGI, fornecida pela Pan European Gaming Information que, desde 2012, é o órgão responsável pela classificação de jogos em todo o Reino Unido.

Ainda que tornem ilegal a venda de jogos a crianças abaixo da idade apropriada, as classificações PEGI apenas propiciam aos pais diretrizes não-obrigatórias sobre o que seus filhos devem ou não jogar – razão pela qual as ameaças contidas na carta soam tão exageradas. Por isso, temos que reconhecer que este tipo de aconselhamento – como, de resto, qualquer outro oferecido por sistemas de classificação – tem sua utilidade apenas como uma forma de orientação demasiado genérica.

Uma mesma classificação 18 foi conferida, por exemplo, a todos os jogos mencionados na carta. Tenho, no entanto, sérias dúvidas sobre se meus filhos devem ou não jogar alguns deles. Call of Duty é uma série que retrata violência militar e oferece aos jogadores um conhecimento enciclopédico sobre armas reais de fabricantes licenciados. Grand Theft Auto V é um jogo no qual é possível contratar uma prostituta. Mas a mesma classificação 18 foi dada a The Last of Us, um terror apocalíptico que, sim, inclui horror violento que muitos pais julgariam inapropriado que seus filhos vissem – mas também elementos de ambiguidade moral com os quais fico, pessoalmente, satisfeito que meu filho de 12 anos se envolva. “Não sei se devo atirar !” gritou ele ao se deparar pela primeira vez no jogo com outro humano desesperado – um senso de ambivalência e consequência que jamais teria jogando Call of Duty.

Finalmente, contrastemos estes jogos para maiores de 18 anos com outro, popular e amigável, classificado para maiores de 3 anos, a saber, Fifa 15. Trata-se de um jogo sobre futebol sem conteúdo sexual, mas que inclui um compulsivo jogo de trocas chamado Ultimate Team o qual, afirmo, teve uma influência muito mais sinistra sobre o senso de valor e espírito esportivo de meu filho do que qualquer outra coisa mais obviamente inapropriada.

Onde quero chegar ? Pais precisam, sim, assumir responsabilidade. Mas, para tanto, não há atalhos. Precisamos mais do que cartas histéricas e classificações etárias. Precisamos compreender a complexidade dos jogos como existem hoje, e tomar decisões sobre o que queremos que nossos filhos experimentem com base no que são capazes de absorver e – algo até agora ausente em toda esta polêmica – as pessoas que queremos que se tornem.

Call of Duty 3

On education (ii): sobre cartas de recomendação

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De tantos em tantos anos, invariavelmente algum aluno me pede uma carta de recomendação para algum programa acadêmico (o que costumo considerar um ato de coragem). Desta vez, fiquei curioso com o fato de que levei praticamente o mesmo tempo (i.e., ca. duas semanas) para redigir a carta do que costumo levar, em média, para publicar cada novo post em meu blog. Mesmo que cartas de recomendação sejam bem mais sucintas do que a maioria de meus posts. Interessante.

Enquanto não me sentava ao computador para deitar, de uma sentada só, a carta que me foi solicitada, devo ter ruminado algo sobre cartas de recomendação diante de meu filho Pedro (14), posto que o mesmo de pronto indagou

  • se professores mentiam ou exageravam ao recomendar alunos (!); e
  • com que frequência um professor era solicitado a emitir cartas de recomendação.

Tais questões dizem respeito à própria existência e natureza desta forma de documento.

* * *

É bem comum – principalmente, suponho, entre universidades norte-americanas – a existência de formulários padronizados para cartas de recomendação nos quais o recomendante é solicitado a plotar o recomendado em faixas específicas de curvas de distribuição, preenchendo lacunas em frases como “o candidato está entre os n % mais isso ou aquilo”. Devo dizer que sou acometido de tremenda má vontade sempre que tenho que preencher um destes. Como se a classificação de cada aluno entre os 5, 10, 25 ou 50 % mais aptos nesta ou naquela categoria pudesse dizer muito sobre o mesmo. Ou se sequer fosse possível enquadrar cada aluno desta forma. Por isto, prefiro muito mais as formas livres de carta de recomendação à suas versões mais formatadas.

A própria existência da carta de recomendação como um formato recorrente entre instituições acadêmicas atesta, acima de tudo, que a academia não confia em seus amplos e complexos instrumentos de aferição que ela mesma desenvolve. De um simples histórico escolar a bases complexas como o LATTES. De sorte que, quanto mais elevado o nível de ensino avaliado, mais sofisticadas as ferramentas academicométricas empregadas. Ora, então por que raios qualquer corpo docente precisaria de cartas de recomendação (subjetivas e, portanto, “exageráveis” por definição) diante da quantidade de informações disponíveis para traçar perfis de quaisquer candidatos em bases como, por exemplo, a do CNPq, acima citada ? É evidente, então, que a própria academia não confia (em situações cruciais como, por exemplo, seleções de candidatos a programas de pós-graduação) naquilo que criou.

Assumamos, então, que uma grande parte da academia – a saber, aquelas artes e ciências cujos produtos sejam dados ao conhecimento de forma predominantemente escrita; falamos aqui da complexa rede de papers e teses que regulam, via de regra, o prestígio e o acesso acadêmicos – não possa confiar, efetivamente, em indicadores de estatura e desempenho derivados predominantemente de documentação escrita.

Sob tal premissa, é bem mais fácil, então, do que se aferir desempenho nestas áreas, verificar qualquer alegação de excelência em artes de performance unicamente por força de sua reprodutibilidade. Como no drama ou na música. Pois nenhum carteiraço resiste ao exame atento de um vídeo (pois, com as atuais facilidades de edição, mixagem ou mesmo afinação, gravações de som não mais são confiáveis como registros fidedignos em tempo real de execuções ao vivo.

Talvez por isso me pareça tão mais fácil para um professor de instrumento musical (ou canto) auscultar a proficiência de qualquer aluno. Pois nada me tira a convicção de que ouvir alguém tocar ou cantar diz muito mais do músico ou cantor do que a leitura de um texto pode dizer com certeza de seu autor. É claro que não falo, aqui, de dúvidas que possam eventualmente pairar sobre a autenticidade da autoria de um texto qualquer. O que quero dar a entender tem mais a ver a instantaneidade do processo da execução musical em relação ao processo mais atemporal, não linear, da gestação de um texto. Ou, ao menos, como imagino a julgar pelos meus.

É, pois, feliz por

  • conhecer o desempenho de meus alunos predominantemente através da escuta ao invés de, como é mais comum, por meio da leitura,
  • não precisar me ater, ao menos desta vez, a um ridículo formulário padronizado conforme acima descrito e, last but not least,
  • não ter que emitir cartas de recomendação com muita frequência,

que escrevi, a respeito de meu aluno Pedro (28), o seguinte:

Pedro Schneider is an outstanding student from the music program at Instituto de Artes of Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre, RS, Brasil), where I’ve been his clarinet teacher for the last two years, and, previously, at the extension program from the same university.

Highly creative and focused, Pedro has a solid background in keyboard, acquired previously to his engagement as a clarinet major. Currently, he successfully manages to combine an academic path in classical music training with an already ongoing career in popular music.

Had I ever listened to my musical genre prejudices, I would never had accepted Pedro as a student, for he came from a music world which a reputed as very limited, namely, hip-hop culture and rap music. I was, nevertheless, fortunately frustrated on my low expectation about his achievements as a classical major, for, even having joined the class at a much lower level of proficiency than other students (at the clarinet, I mean, for he was already an accomplished pianist by that time), his progress in the newly chosen instrument became, very soon, much faster than the average of the class.

As a musician, Pedro seems to be very mature, taking decisions and making choices mostly based on his artistic convictions rather than on mainstream trends. He has the advantage point of being, besides to an accomplished player and composer, also a curious and attentive listener, even of music beyond the limits of his favorite listening zone.

For all above, I strongly recommend him to attend the One Beat trainning program to which he is currently applying.

On education (i), in praise of PLNs (i) ou, ainda, eu sigo (i) Jay Rosen

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Jay Rosen (jornalismo, NYU) é um professor blogueiro (Pressthink) que não fala muito frequentemente mas que, quando fala, se estende com extrema minúcia sobre cada pormenor do que aborda. Como é típico de grandes pensadores. Resulta, então, que seus longos posts são, na maioria das vezes, capitais para quem quer que pretenda entender o fluxos e hierarquias da informação jornalística hoje. É dele, por exemplo a distinção entre lifecasting e mindcasting, ou então entre jornalistas graduados antes e depois dos atentados de 11 de setembro. But so much for the guy. Só falei dele de passagem por que, dia desses, comentou no facebook (ele sempre dialoga em redes sociais sobre temas que o intrigam antes de postar seus textos super estruturados) ter abordado a escola de sua filha em razão de um professor de ciências ter se referido ao aquecimento global como apenas uma hipótese entre muitas plausíveis ao invés de, como deveria, como um fato comprovável. Na carta, pergunta se a escola tinha ciência de que tal visão era ensinada por um de seus professores.

Algum tempo antes disso, Rosen já questionara o sistema educacional de modo mais amplo numa brilhantemente conduzida entrevista com sua própria filha, na qual tenta descobrir por que não eram normalmente oferecidas às meninas as mesmas oportunidades de aprendizagem de programação para as quais meninos são fortemente incentivados. Oxalá a maioria dos pais estivesse tão preocupada com a educação de seus filhos. Pois há farta documentação aqui, aqui, ou aqui sobre como pais costumam não estar nem aí para o que ensinam a seus filhos em escolas. Suponho e temo que a situação em escolas particulares e públicas não seja muito diferente. Que fique bem que claro que me refiro, aqui, não a conteúdos (seriais) pertencentes a grades curriculares e sim àquilo em que acredita, efetivamente, cada professor (pois, numa contexto ideal, eu adoraria poder adicionar a minhas redes sociais todos os professores de meus filhos…)

Complicado ? Por partes, então. Quando Rosen se preocupa com como é ensinada a ideia do aquecimento global (i.e., se como apenas uma possibilidade entre muitas ou, ao contrário, como um fato consumado), o que está implícito é a preocupação com uma ideia abstrata, descolada da vida cotidiana, porquanto afetará somente humanos de um futuro impalpável, ainda que não muito distante, a saber, o planeta que será deixado aos humanos descendentes dos atuais. Na melhor das hipóteses. Científica. Ou, nas piores (religiosas), o céu, o inferno ou, ainda, 72 virgens que cada um teria após a própria morte.

Adiante em sua linha indagatória, Rosen se pergunta, então, como se comportaria, na mesma escola e sob as mesmas condições de vigilância pedagógica, um professor hipotético de ciências em relação às teorias antagônicas evolucionista e criacionista. Muito apropriadamente. Pois, neste caso, a crença professada por cada docente tem tudo a ver com outra ideia abstrata (projetada, desta vez, não num futuro próximo mas num passado remotíssimo), a saber, as hipóteses inconciliáveis de que o ser humano seja obra do ato de um criador ou, ao contrário, resultante da evolução das espécies através de mutações.

Ambos os casos (o aquecimento global e o binômio criacionismo/evolucionismo), torno a sublinhar, expressam preocupações para bem além (bem antes e bem depois) do âmbito da vida de qualquer habitante atual do planeta. São, no entanto, distintas ideias sobre de onde viemos e para onde vamos que norteiam escolhas religiosas e determinam, portanto, como cada um conduz sua própria vida. Ou seja, importam. Apesar do aparente descaso da maioria dos pais.

Se crenças professadas não fossem importantes, não haveria tantas escolas confessionais – as quais parecem, ao menos no Brasil, dominantes entre as privadas. Senão, terroristas fundamentalistas, geralmente paupérrimos em relação a seus principais adversários nacionais, também não investiriam, talvez tanto como em equipamentos e campos de treinamento militares, igualmente em escolas onde jovens amadurecem a vontade de sacrificar a própria vida pela causa.

* * *

Então, temos que a maioria dos pais não se preocupa com o que seus filhos efetivamente aprendem (isto é, passam a acreditar) na escola. Curiosamente, são não raro mais preocupados do que os próprios filhos com aquilo que os mesmos virão a cursar no ensino superior. É bem fácil explicar isto. É que, quanto mais avançamos do jardim de infância em direção ao maior grau acadêmico almejável, mais se acentua a desgraçada e promíscua relação da educação com as ocupações profissionais conhecidas na contemporaneidade. Senão, como explicar o declínio histórico, nos currículos escolares, de disciplinas filosóficas ou artísticas (mais afeitas à ideologia) em favor de outras mais técnicas (i.e., mais voltadas para a aquisição de habilidades profissionais) ?

Este cenário é problemático por que, face à enorme velocidade do progresso tecnológico em nossa civilização, chega a ser leviano se pressupor a existência, num futuro próximo, de qualquer profissão atualmente conhecida (porquanto totalmente dependente de tecnologias existentes). Por exemplo. Tenho enorme curiosidade sobre o que se passa na cabeça de alunos de uma escola particular de propaganda e marketing que há em frente à minha casa. O fato de cursarem (e de seus pais pagarem !) uma faculdade assim implica numa crença de que, num futuro próximo (ou seja, ao longo da vida profissional de cada estudante atual), competências para anunciar qualquer produto ainda sejam necessárias à economia. Só que, cada vez mais, usuários tenderão a procurar, através de algoritmos de busca, aqueles produtos e serviços que melhor contemplem suas necessidades ao invés de se deixar bombardear, como hoje, por mensagens publicitárias. Arrisco, até, afirmar que, num futuro não muito distante, toda mensagem publicitária, como hoje a conhecemos, tenderá a ser tomada por usuários/consumidores esclarecidos como indesejável – depondo, portanto, muito mais contra do que a favor do objeto apregoado.

Então, não faz qualquer sentido se ensinar, hoje, a arte e a ciência da persuasão, como se tornou conhecida na era de vigência dos meios de broadcasting, ao invés das maneiras por meio das quais um sujeito pode efetuar melhores escolhas. Tal problema não se restringe, no entanto, apenas às escolas superiores de publicidade, mas à educação como um todo. Noutras palavras, toda escola, do alto de sua obsolescência, persiste na transmissão de conteúdos curriculares serializados quando deveria se ocupar de ensinar um novo conjunto de competências, agrupadas por Howard Rheingold sob a conveniente categoria 21st Century Literacies, que inclui attention, participation, collaboration, network awareness, global consciousness, design, narrative (storytelling), procedural (game) literacy e critical consumption of information, entre outras.

* * *

Faz pouco tempo que perguntei numa rede social, à guisa de provocação (pois muitos dos amigos que tenho por lá são professores), quem ainda precisaria de escola depois de aprender a “sintonizar” sua própria PLN. Aprender a configurar e usar uma PLN costuma ser um dos primeiros resultados do reconhecimento de sua importância. Isto passa obrigatoriamente por se ter uma noção clara da transformação que se deu no instante os meios de publicação migraram, predominantemente, do papel impresso para a nuvem. A principal distinção entre o que está impresso num livro e o que é imediata e universalmente recuperável de servidores por meio de cada vez mais poderosos engenhos de busca é que, enquanto a informação residente em livros era validada única ou principalmente pela reputação de seus autores e editores, aquela que pode ser recuperada na nuvem se encontra mesclada com outras tantas, muitas vezes imprecisas ou simplesmente falsas – precisando, portanto, ser garimpada e validada por cada usuário. A migração da informação das mídias  impressas para as virtuais também implicou em enormes mudanças, ainda inestimáveis, em seu controle e propriedade. Exemplos disso são a atualíssima discussão sobre novas modalidades de direito autoral e a dificuldade que mesmo os estados mais poderosos do mundo vem encontrando em manter certos fatos, por quaisquer motivos, sob sigilo. Biografias como as de Assange ou Snowden são exemplares neste sentido.

Estudiosos da educação insistem cada vez mais no fato de que jovens de hoje são refratários à escola tão somente por que conseguem achar o que procuram ou aquilo de que julgam precisar (aí incluídos conhecimentos que seus pais até há bem pouco tempo obtinham em bancos escolares) muito mais facilmente na internet do que na escola. A qual, por sua vez, como qualquer instituição, demora a reagir à nova realidade – insistindo em transmitir conteúdos ao invés de ensinar como buscá-los e validá-los.

Pois as PLNs de que tanto falo são nada mais, nada menos do que coleções de perfis que seguimos em redes sociais com o intuito de nos mantermos bem informados –  funcionando, muitas vezes, como sentinelas a nos alertar sobre fatos ou eventos dos jamais saberíamos – ou, quando muito, demoraríamos para descobrir – exclusivamente por por canais de mídia convencionais, também conhecidos como meios de broadcasting.

Mas como podemos, afinal, configura uma boa PLN ? Por conveniência, podemos designar vários tipos de perfis como pertencentes a distintas categorias.

O cerne ideológico, por assim dizer, de qualquer PLN é composto, principalmente, por pensadores importantes de áreas específicas do pensamento, tais como Jay Rosen (jornalismo, NYU), Howard Rheingold (cibercultura, Berklee e Stanford), Howard Jenkyns (cibercultura, MIT), Lawrence Lessig (direito autoral e transparência política, Harvard) ou Pierre Lévy (filosofia do virtual, linguística e inteligência artificial, Otawa e Paris 8).

Ora, é óbvio que estar conectado em rede com as publicações de constelações de didatas eminentes como os acima é muito mais vantajoso, em termos acadêmicos, do que se submeter ao conjunto das aulas de qualquer programa acadêmico em particular. Isto por que é típico de todo corpo docente, virtual ou presencial, ter tanto suas estrelas como seu, por assim dizer, peso morto. Ao eleger qualquer programa, todo aluno escolhe, então, as estrelas (muitas vezes seus orientadores) e, em contrapartida, simplesmente atura o contrapeso.

Na categoria dos agregadores de notícia se encontram perfis como The Guardian, Huffington Post, Gramophone, Classic FM, BBC ou NPR. O que torna qualquer agregador mais ou menos afeito à timeline de cada um é a frequência como que contemplem cada elenco de interesses individuais. Dentre os citados acima, os dois primeiros são noticiários genéricos especialmente dedicados à política e à cultura (a digital em particular); o 3º e o 4º são voltados à música clássica e os dois últimos pertencem a importantes redes públicas de broadcasting. Todos são notáveis pela excelente qualidade de sua curadoria (que, em sites jornalísticos, é exercida por por seus editores).

E assim chegamos à classe dos grandes curadores da web, dos quais sigo atentamente os excelentes brainpickings (da grande curadora individual Maria Popova, dona de um olhar privilegiado sobre tópicos culturais em geral e a literatura em particular), big think (de índole filosófica), Mashable (sobre tecnologias e suas implicações a amenidades como culinária) e o curiosíssimo Longreads (voltado à cada vez mais restrita categoria das formas (escritas) mais longas).

Trato da categoria dos blogs por último por vários motivos.

Primeiro, por que ela pode abranger todas as categorias acima. Posto que, hoje, todo filósofo, professor, curador ou afim que se preze é, também, antes de tudo um blogueiro. Quanto mais especializados forem os interesses de cada leitor, mais ele dependerá de uma rede de blogueiros com os quais compartilhá-los.

Segundo, por que blogueiros, mais do que agregadores ou curadores, são provedores de contexto. Adoram polêmicas. Metendo-se, amiúde, com gosto em escaramuças que resultam não raro em hilárias ações judiciais. Alguns parecem até se divertir com isto.

Terceiro, por que blogs são, essencialmente, dialógicos. Ao contrário de outros tipos de jornalistas (como gostam ver a si próprios, embora os meios de broadcasting não gostem de vê-los como tais), blogueiros se leem uns aos outros mutuamente. Imagino, até, que a maioria dos leitores de blogs sejam, eles próprios, blogueiros. Inclusive, sempre que me deparo com alguém enunciando competentemente algo interessante (que reputo, portanto, como um formador de opinião em potencial), imediatamente indago se tem ou já cogitou ter um blog. O potencial da universalização dos blogs é inestimável. Na educação, por exemplo, blogs facilitam a aprendizagem colaborativa, descentralizada. Com sua universalização entre alunos, professores não precisariam, por exemplo, aplicar nem tampouco corrigir provas ou exames.

Notem que, de todas as categorias acima, a dos blogueiros é a, por definição, mais numerosa. O que torna bem mais difícil a escolha de quem seguir. Por isso, o melhor procedimento a ser adotado é sempre o de acompanhar um elenco dinâmico de blogueiros, adicionando e excluindo perfis a qualquer momento em razão do maior ou menor interesse de suas postagens.

Suponhamos, agora, que determinado sujeito leia as postagens de uma PLN como a descrita acima. Ora, como poderia o mesmo tanto efetivamente ler como sequer querer ler qualquer outra coisa além de tudo isto ? Entendem, então, por que considero toda escola curricular caduca ?

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A propósito do Dia das Bruxas, certas áreas onde mulheres ainda encontram mais dificuldades do que homens

"BRAVE"   (Pictured) THE WITCH ©2012 Disney/Pixar. All Rights Reserved.

Quem vai ao Google hoje vê uma bruxa tirando feitiços de um caldeirão. Para celebrar o Dia das Bruxas, não há nada melhor do inventariar situações em que o desfavorecimento feminino seja mais evidente. Como em ambientes tecnológicos e artísticos, por exemplo.

(curioso como, muito antes de escolhermos certos temas, são eles que nos escolhem, por meio de um bombardeio, nas PLNs, de referências convergentes, como as abaixo)

Não tinha ideia de como se dá o aprendizado da programação (de computadores) até ler a entrevista que Jay Rosen (jornalismo, NYU) fez com sua filha de 17 anos que vem tendo aulas de programação. De imediato, relacionei ao caso da filha de Howard Rheingold, que apresenta num filme para o Google o ambiente da empresa em que trabalha. Mesmo que não se trate, exatamente, nestes casos, de meninas comuns, não podemos deixar de pensar em que oportunidades de aprendizado de programação são oferecidas a meninas em nossas escolas.

Ainda esses dias a Folha traduziu do New York Times e republicou uma matéria sobre o apagamento histórico de biografias de mulheres pioneiras em áreas tecnológicas. Muito bem pesquisada e ilustrada. Ali, descobrimos o inexplicável sumiço, da história da tecnologia, de Ada Lovelace, matemática e escritora inglesa que viveu entre 1815 e 1852 e, entre outras coisas, escreveu o primeiro algoritmo computacional. O mesmo bias sexista se faz presente hoje em áreas tão distantes entre si como, por exemplo, o esporte ou os brinquedos.

Já no campo das artes, é notória predominância masculina em pódios orquestrais. Mais. Embora rigorosos processos seletivos já tenham equilibrado a presença dos gêneros em orquestras de todo o mundo, há, ainda, lamentavelmente, casos de orquestras totalmente masculinas. Como as filarmônicas de Berlim ou Viena, as quais, respectivamente, rejeitaram, no fim dos anos 80, o ingresso de uma clarinetista, protegida de Herbert von Karajan; e, no ano passado, de uma flautista. Cabe ressaltar que, em ambos os casos, as orquestras reprovaram, por maioria, o ingresso de virtuoses notórias como suas primeiras integrantes mulheres. Coincidência ? Acho que não.

E há mesmo, pasmem, quem trate de justificar, como o eminente finlandês Jorma Panula, para espanto das próprias alunas, que mulheres são biologicamente inaptas à regência orquestral. Sério. Pior. Ouvi testemunhos incríveis sobre isto, longe de qualquer consenso, de músicos e maestros acima de qualquer suspeita. Dentre os mais engraçados (posto que mais preconceituosos) argumentos que normalmente ouço em resposta à pergunta (que tenho mesmo por questão de pesquisa ou linha indagatória) de por que são tão raras as mulheres no pódio, se destacam:

” Então por que não há, afinal, mais mulheres regendo ? “

Esse, ao mesmo tempo tautológico e fenomenológico, simplesmente devolve a pergunta sem respondê-la, .  ao mesmo tempoessa é simples – ótima, no entanto para uma aula de história. Basta lembrar, para começar, que a atividade de regência nasceu ao mesmo tempo do que a militarização industrial das nações…)

” São incapazes de certos gestos mais enérgicos, até violentos, usualmente atribuídos ao gênero masculino. “

Questionável. Tanto no que se refere à capacidade do gesto quanto à necessidade do mesmo.

” Umas poucas que sucedem o fazem sob o preço de se masculinizarem. “

Esse, prefiro nem comentar. Quando o ouço, basta pensar em Alondra.

Alondra 3

* * *

P.S.: uma variante bem interessante para a questão norteadora ” Por que mulheres são tão raras no pódio orquestral ? “ seria ” Por que mulheres, diante de orquestras, são bem mais frequentes como solistas do que como regentes ? “. Um verdadeiro portal para estudos sobre celebridades.