As novas confissões de um assassino econômico

As atividades humanas são determinadas pelo processo de alterar percepções da realidade.

por John Perkins

(traduzido de um texto originalmente publicado em Evonomics)

 

Meu sucesso como principal economista numa grande firma internacional de consultoria não se deve a lições que apreendi na faculdade. Tampouco se deve à competência de minha equipe de econometristas brilhantes e magos financeiros.

Estas coisa podem ter, por vezes, ajudado. Mas há algo mais que fez isto acontecer. Este algo mais é o mesmo que  alçou George Washington, Henry Ford, Mahatma Gandhi, Madre Teresa, Martin Luther King Jr., Steve Jobs e outros ao auge de seu sucesso.

Este algo mais é disponível para todos nós.

É a habilidade de alterar a realidade objetiva mudando a realidade percebida, o que podemos chamar de Ponte Perceptiva.

Realidade Percebida

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Realidade Objetiva 1            —>         Realidade Objetiva 2

Como descrevi em meu livro As Novas Confissões de um Assassino de Aluguel Econômico, meu trabalho era convencer chefes de estado de países com recursos que nossa empresa cobiçava (tal como petróleo) a aceitar enormes empréstimos do Banco Mundial e suas corporações irmãs. O combinado era que esses empréstimos fossem usados para contratar nossas empresas de engenharia e construção, tais como Bechtel, Halliburton e Stone & Webster, para construir plantas elétricas, portos, aeroportos, estradas e outros projetos de infra-estrutura que trariam grandes lucros para estas empresas e também beneficiariam algumas famílias ricas de cada país (aquelas que possuíam as indústrias e estabelecimentos comerciais). Todos os demais no países sofreriam por que fundos eram redirecionados da educação, saúde e outros serviços sociais para pagar os juros sobre os empréstimos. Ao final, quando o país não pudesse mais amortizar o principal, voltaríamos e, com a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI), “reestruturaríamos” os empréstimos. Isto incluía demandas para que cada país vendesse seus recursos a preços baratos para nossas empresas, com o mínimo de regulamentação ambiental e social, e que privatizasse suas empresas de serviços e outros benefícios sociais oferecendo-os a nossas empresas por preços reduzidos.

Era uma estratégia de usar a realidade percebida para alterar a realidade objetiva. Nestes casos, a Realidade Objetiva 1 era que os países tinham recursos. A Realidade Percebida era que o uso destes recursos como colaterais aos empréstimos para financiar a construção de projetos de infraestrutura traria crescimento econômico e prosperidade para todos os cidadãos. A Realidade Objetiva 2, entretanto, era que crescimento econômico ocorria apenas entre os muito ricos. Uma vez que estatísticas econômicas (GDP) nesses países se inclinam em favor dos ricos, o fato é que apenas nossas empresas e famílias ricas se beneficiavam. O resto da população sofria. Em muitos casos isto levou à instabilidade política, ressentimento e à ascensão de várias formas de radicalismo e terrorismo.

“A realidade é meramente uma ilusão.”

Albert Einstein

 

Sabemos da física quântica e da teoria do caos que consciência, observação e mudanças na percepção possuem um impacto na realidade física que pode crescer exponencialmente.  A psicologia moderna ensina que a realidade percebida governa muito do comportamento humano. Religião, cultura, sistemas legais e econômicos (como, de resto, a maior parte das atividades humanas) são determinados pela realidade percebida. Quando um número suficiente de pessoas aceita estas percepções ou quando elas são codificadas em leis, possuem um imenso impacto na realidade objetiva.

Atividades humanas – individuais, comunitárias ou globais – são comandadas por este processo de alterar percepções humanas da realidade como meio de  alterar realidades objetivas. Um par de casos de empresas norte-americanas ilustra isto.

Caso 1: Ford Motor Company

 

Em 1914 a Realidade Objetiva de Henry Ford era: A) sua empresa vendia carros Modelo T que eram produzidos através do processo de linha de montagem por trabalhadores que recebiam salários padronizados irrisórios; e B) por que a linha de montagem era monótona e operários estavam sob muita pressão para reduzir o tempo de fabricação de um carro de 12 horas e meia para menos de 100 minutos, havia uma enorme taxa de desperdício na força de trabalho da empresa.

Então Ford percebeu uma nova realidade. Aumentou o salário de 2,34 dólares para uma jornada de nove horas para 5 dólares para uma de oito – isto num tempo em que todos os outros fabricantes de carros tentavam reduzir os salários de seu trabalhadores. Além de manter os operários em sua linha de montagem, Ford foi motivado por uma segunda percepção. Ele entendeu que a empresa, seus trabalhadores e os compradores vinham todos de uma mesma população e concluiu que “a menos que uma indústria consiga manter salários altos e preços baixos, ela destrói a si mesma – já que, de outra forma, limita o número de seus clientes.” Ford percebeu que o aumento do poder aquisitivo de seus operários teria um efeito múltiplo, aumentando também o poder aquisitivo de muitos outros.

Caso 2: Adidas e outros varejistas

 

Realidade Objetiva 1: estas empresas criam calçados e vestimentas de luxo que são manufaturados por fábricas terceirizadas na China, no Vietnã e em outros países de sweatshops (*).

A Realidade Percebida por parte da administração destas empresas: A) terceirizar produção libera essas empresas de caras responsabilidades trabalhistas e minimiza salários; B) contratando atletas bem pagos para promover produtos equilibra a publicidade negativa gerada por ativistas que reivindicam melhor pagamento para trabalhadores em sweatshops; e C) estas políticas, que são diametralmente opostas às de Henry Ford, maximizam os lucros.

Realidade Objetiva 2: salários abaixo da linha de subsistência e condições de trabalho precárias em fábricas noutros continentes resultam em maior rotatividade de trabalhadores, doenças e publicidade negativa; B) Por impactar negativamente o crescimento econômico dos consumidores, estas políticas destroem oportunidades para novos mercados que resultariam se operários fossem pagos o suficiente para comprar os produtos que fazem, estimulando, ao mesmo tempo, o efeito multiplicador; e C) nem o lucro corporativo nem o crescimento econômico são maximizados em países em que estas fábricas estão localizadas.

Tive a oportunidade de sublinhar a diferença entre os dois casos acima quando uma rádio de Portland, Oregon (sede da Nike) me entrevistou. O âncora indagou “se você pudesse perguntar a Phil Knight, fundador da Nike, uma única questão, qual seria ?”

Não precisei pensar muito. “Olá Phil, por que você não segue o conselho de Henry Ford ?” Continuei, “Imagine se, como parte de uma campanha publicitária internacional, esses atletas dissessem coisas como “Em vez de X milhões, eu e um punhado de amigos (outras celebridades Nike) tivéssemos concordado que a Nike nos pagasse Y a menos. Executivos da Nike concordaram com cortes similares. O dinheiro extra iria para o pagamento de maiores salários aos trabalhadores que fabricassem produtos Nike ao redor do mundo. Acreditamos que, apenas fazendo isto, ajudaríamos a fazer um mundo melhor e mais pacífico.” Parei.

“Esta é uma ideia incrivel”, disse o âncora.

Tive que acrescentar, “Como você acha que isto repercutiria nas vendas da Nike ? E nas do restante da indústria ?”

“Tudo está na mente.”

George Harrison

 

Os dois exemplos acima ilustram como a Ponte da Percepção funciona. Há incontáveis outros. Que vão dos indivíduos às empresas e diretamente aos governos. Atividades humanas são determinadas pelos modos como percepções impactam a realidade física, tanto consciente como inconscientemente. Aqui está um exemplo dos impactos globais que uma realidade percebida nos anos 50 teve em cada geração subsequente em todo o mundo.

Caso 3: Políticas Governamentais dos EUA no Irã

 

Realidade Objetiva 1: A) Mohammed Mossadegh foi democraticamente eleito Primeiro Ministro do Irã em 1951; B) ele promoveu reformas progressistas incluindo seguridade social, controle dos aluguéis e reforma agrária; C) ele insistiu que empresas petrolíferas estrangeiras pagassem uma parte justa de seu lucro com o petróleo iraniano ao povo do Irã e quando uma delas, hoje conhecida como BP, resistiu, se dispôs a nacionalizar o petróleo.

Realidade Percebida: o governo dos EUA rotulou Mossadegh como comunista, marionete soviético e ameaça à democracia.

Realidade Objetiva 2: A) a CIA derrubou Mossadegh em 1953 e empossou o Xá, um ditador brutal pró-ocidente que “leiloou” o Irã para empresas estrangeiras, inclusive as petrolíferas; B) o descontentamento crescente levou à Revolução Iraniana de 1979; C) o Xá foi derrubado, o Aiatolá Khomeini assumiu o controle, 52 cidadãos e diplomatas dos EUA foram mantidos como reféns por 444 dias, e os EUA e países europeus romperam relações com o Irã e iniciaram sanções contra o mesmo; D) o militarismo islâmico se expandiu rapidamente pelo Oriente Médio nas décadas seguintes; e E) a região inteira foi devastada por guerras e instabilidade política; isto impactou relações entre países distantes do Oriente Médio, incluindo EUA, China, Rússia e grande parte da África e da Europa.

Imaginemos, por outro lado, o quão diferente a situação seria para o Irã, o Oriente Médio, os EUA e grande parte do mundo se a realidade percebida fosse diferente – algo como:

Realidade Percebida: o governo dos EUA apóia as políticas de Mossadegh e anuncia que somente comprará petróleo de empresas que paguem uma parte justa de seus lucros ao povo dos países de onde o extraiam.

A derrubada de Mossadegh pelos EUA resultou numa série de eventos trágicos que poderiam ser considerados danos colaterais. Em minha opinião, tais consequências ocorrem por que as pessoas que tomam decisões não entendem completamente a força da Ponte de Percepção.

Como consultor de empresas, governos, executivos e palestrante em programas de MBA e outros, descobri que dar uma boa, profunda olhada no impacto da realidade percebida na realidade objetiva é um dos mais eficientes processos que indivíduos, negócios e outras instituições podem empregar para atingir seus verdadeiros objetivos. Me espanto com o quanto das realidades percebidas nos negócios foram alteradas desde que eu estava na faculdade no fim dos anos 60.

Fui ensinado que um bom CEO ganha um retorno decente para seus investidores ao mesmo tempo em que garante que sua empresa seja um bom cidadão, i.e., que sirva ao interesse público. Apreendemos a cuidar de nossos empregados dando a eles seguro saúde e aposentadoria, a tratar nossos fornecedores e clientes com profundo respeito e a honrar a ideia de que bons negócios são um jogo de ganha-ganha para todas as partes interessadas. Em muitos casos, CEOs garantiam que suas empresas não apenas pagassem seus impostos justos mas que, além disso, contribuíssem com escolas locais, instalações recreativas e outros serviços.

Tudo isto mudou quando Milton Friedman ganhou, em 1976, o Prêmio Nobel de Economia e afirmou, entre outras coisas, que a única responsabilidade nos negócios era maximizar os lucros, independentemente de custos sociais e ambientais. Esta é uma realidade percebida que passou a definir os negócios. Ela convenceu os executivos corporativos de que eles teriam o direito – alguns diriam até a obrigação – de fazer tudo o que julgassem que maximizaria os lucros, incluindo comprar agentes públicos por meio do financiamento de campanhas políticas, destruir o meio ambiente e devastar todos os recursos dos quais seus negócios dependam.

Tal realidade percebida resultou num sistema econômico global falido, a um passo de consumir a si mesmo até a extinção – ao que alguns economistas chamam de Capitalismo Predatório.

É hora de inverter isto. Que tal:

Realidade Objetiva 1: as geleiras estão derretendo; os oceanos subindo; menos de 5% da população mundial vive nos EUA e consumimos cerca de 30% dos recursos enquanto metade da população mundial vive em pobreza; e a base de recursos que alimentam a economia está em rápido declínio.

Realidade Percebida: A) quando Milton Friedman formulou a maximização dos lucros em 1976, o capital financeiro era visto como escasso enquanto a natureza era considerada abundante, e a habilidade do planeta em absorver poluição e prover recursos naturais era considerada praticamente ilimitada. Desde então, isto mudou;  B) podemos construir uma economia que recompense negócios que limpem a poluição, regenere ambientes devastados e desenvolva novas tecnologias para energia, transporte,  comunicações, comércio e praticamente todo o resto – que recicle em vez de estragar o planeta; e C) a responsabilidade dos negócios é servir ao interesse público ao mesmo tempo em que ganha taxas decentes de retorno para investidores que desenvolvam uma economia como a definida em B) acima.

Realidade Objetiva 2) um sistema econômico que caminha para o desastre é convertido em um que é em si uma fonte renovável.

A história de sucesso dos humanos (como indivíduos e comunidades) gira em torno das relações entre realidade percebida e realidade objetiva. Neste momento crítico da história, é essencial que construamos Pontes de Percepção que nos levem a um mundo que gerações futuras queiram herdar. O entendimento de mudanças simples na percepção trazem alterações monumentais na realidade objetiva. Também achamos que criar um mundo melhor e não apenas possível, mas divertido e inspirador.

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* (nota da tradução): a expressão intraduzível sweatshop (textualmente, oficina de suor) se refere a plantas industriais altamente insalubres existentes no sudeste asiático que produzem, a custos irrisórios (pois ignoram sistematicamente direitos trabalhistas e condições de trabalho), artigos comercializados a preços altos por grifes importantes em mercados afluentes. Um caso célebre ocorreu quando, anos atrás, a Nike ofereceu a seus clientes um calçado esportivo em cujo preço estaria incluído o bordado, junto à marca, de quaisquer palavras que os mesmos quisessem. Se aproveitando da brecha, dois compradores independentes pediram, então, que a empresa bordasse nos calçados, ao lado da marca Nike, a expressão sweatshop – ao que a empresa, é claro, se recusou, gerando, à época, importantes processos judiciais (bem ao gosto dos norte-americanos) nos quais consumidores lesados pela publicidade enganosa exigiam o cumprimento da promessa. Procurando um link que resumisse o caso, encontrei muitos, inclusive um texto de Elio Gaspari. Mas são tantos (inclusive do Guardian (aqui e aqui) e da wikipedia) que ficou difícil selecionar um só. Sugiro, então, aos mais curiosos, que digitem em qualquer buscador as palavras Nike, sweatshop e case. Vale a pena se inteirar da polêmica antes de comprar sua próxima peça de indumentária esportiva.

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Como principal economista de uma grande firma de consultoria internacional, John Perkins assessorou o Banco Mundial, as Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional, o Departamento do Tesouro dos EUA, empresas das  500 maiores da revista Fortune e líderes de países da África, da Ásia, da América Latina e do Oriente Médio. Seu livro mais recente é The New Confessions of an Economic Hit Man (As Novas Confissões de um Assassino de Aluguel Econômico).

Bullshit Jobs: a Theory, de David Graeber (2018)

Raros livros me impactaram tanto, nos últimos anos, como Bullshit Jobs: a Theory (2018), do antropólogo anarquista David Graeber, atualmente lotado na London School of Economics. O tema que dá nome ao volume – a saber, aqueles trabalhos percebidos como inúteis ou até mesmo nocivos à sociedade por quem os exerce – já é, por si só, fascinante. Como se não bastasse, o livro mais recente de Graeber (autor, entre outros, de Dívida: os primeiros 5000 anos (já traduzido) e The Utopia of Rules (também inédito em português)) ostenta uma densidade lógica (conceito que formulo aqui e ao qual também me refiro aqui) excepcional. Nele, não há sequer um único parágrafo que possa ser tomado por acessório ou colateral à argumentação – o que rende, de saída, qualquer resenha, enquanto recorte, como supérflua. Bem melhor, neste caso, é ler a coisa inteira. Ainda assim, teimoso que sou e impactado que estou, prossigo.

Outra boa razão para se evitar (escrever e ler) esta resenha é que o livro ainda não foi traduzido para o português. Com isto, estas linhas servirão, no máximo, para que alguns entusiasmados se submetam à trabalhosa e demorada importação de um exemplar. Trabalho, portanto, inútil ? Não acho. Quem decidir me acompanhar além deste preâmbulo haverá de concordar.

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Bullshit Jobs: a Theory se originou a partir do ensaio On The Phenomenon of Bullshit Jobs (traduzido por mim aqui) publicado por Graeber em 2013 e reproduzido no prefácio de seu livro de 2018.  Entre uma coisa e outra, o autor realizou uma pesquisa a partir de uma ampla base de dados formada por depoimentos (anônimos por razões óbvias) em resposta a seu ensaio original e ensejados por provocações por ele lançadas através do Twitter (!) – o que, por si só, o situa como, no mínimo, um pesquisador original. Tais depoimentos, citados textualmente e costurados pela voz do autor, constituem a  base da estrutura narrativa da obra de tal forma que, nela, qualquer monotonia potencial da voz onipresente do último é temperada pela variedade e, em certos casos, até humor (pois não há nada mais divertido e verdadeiro do que a auto-ironia) das vozes emprestadas por seus muitos informantes.

É a partir desta rica casuística que Graeber deixa claro, ao longo do primeiro capítulo e por meio de sucessivas definições provisórias aproximativas, o que vem a ser um bullshit job – a saber, todo trabalho percebido com socialmente inútil ou mesmo pernicioso por quem o executa.

A expressão bullshit job traz em si um problema para o tradutor. Num primeiro impulso, somos tentados a traduzi-la simplesmente como “trabalho de merda”. Só que, já no início do livro, a coisa se complica quando o autor faz uma distinção entre um bullshit job e um shit job, demonstrando por que nem todo trabalho que pertence a uma das categorias pertence, necessariamente, também à outra. Com isto, “trabalho de merda” e “merda de trabalho” estão longe de se constituir em traduções satisfatórias por não explicitarem suficientemente a distinção entre as duas categorias.

Nos capítulos subsequentes, estabelece uma tipologia de tais trabalhos (capítulo 2); trata da violência psicológica sofrida por quem neles se vê encurralado (capítulos 3 e 4); explica por que tais trabalhos proliferam (capítulo 5) e por que não objetamos, como sociedade, à proliferação dos mesmos (capítulo 6) e, finalmente, no último capítulo, analisa os efeitos políticos dos bullshit jobs e propõe uma possível solução (no spoilers yet) para tal estado de coisas.

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Mesmo reconhecendo a natureza redutora de toda resenha, é impossível resistir a mencionar em detalhe certas passagens de Bullshit Jobs: a Theory. Como, por exemplo, quando nos é explicado, já nas definições aproximativas iniciais, por que não se pode dizer que um assassino da máfia tenha um bullshit job – uma vez que o mesmo, ainda que admitindo o óbvio prejuízo social inerente a seu trabalho, acredita fazer parte de uma honrada e antiga tradição com finalidades claras.

Outra parte memorável, capaz de dirimir qualquer dúvida sobre o que venha a ser um bullshit job, é a supracitada tipologia do segundo capítulo. Nele, Graeber divide tais trabalhos em cinco categorias:

Lacaios (flunkies). São aqueles postos de trabalho que existem exclusivamente para que alguém (o chefe) se sinta importante. Como exemplo mais emblemático, temos as comitivas que precedem a entrada de autoridades em qualquer recinto. Também não é nenhuma novidade que o poder de quem quer que exerça alguma atividade gerencial é medido pelo número de subordinados ao seu comando. Qualquer semelhança entre a alta incidência de lacaios em ambientes de trabalho contemporâneos e no mundo medieval não é mera coincidência, sendo tratada em profundidade nas partes dedicadas ao “feudalismo gerencial” (managerial feudalism).

Valentões (goons). Usada metaforicamente (i.e., não se referindo apenas a gangsters), a expressão serve para designar pessoas cujo trabalho envolve algum tipo de violência e existe apenas por que alguém as emprega. Exemplos clássicos incluem forças armadas (países só tem exércitos por que outros países os tem), lobistas, especialistas em relações públicas, operadores de telemarketing e advogados corporativos.

Duct tapers. De difícil tradução. Tapa-buracos, talvez. Pertencem a esta categoria todos aqueles que executam remendos ou gambiarras para resolver problemas que simplesmente não deveriam existir mas que, em existindo, emperram o bom funcionamento de um todo maior. Tais trabalhos são particularmente abundantes na indústria da informática.

Box tickers. Igualmente de difícil tradução. O nome se refere àqueles formulários que incluem quadradinhos que devem ser marcados por “tiques” (sinais em forma de “V”). Para Graeber, são todos aqueles empregados que existem exclusiva ou primordialmente para que organizações possam alegar estarem fazendo o que, na verdade, não fazem.

Taskmasters (another category likely to be lost in translation). Se dividem em dois tipos.

Pertencem ao primeiro aqueles que, encarregados de atribuir tarefas a terceiros, acreditam que as mesmas seriam desempenhadas de qualquer maneira, mesmo que não fossem por eles atribuídas. Deste modo, taskmasters do primeiro tipo (supervisores desnecessários) podem ser considerados como o exato oposto de flunkies (subordinados desnecessários).

Taskmasters do segundo tipo são aqueles que inventam tarefas desnecessárias para outros realizarem.

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A distribuição da incidência de bullshit jobs não é homogênea em relação a todos os setores da economia. Tais trabalhos parecem se concentrar mais no setor administrativo intermediário (middle management) e em empresas do setor FIRE (finance, information and real estate (financeiro, informático e imobiliário)).

Tamanha proliferação de cargos inúteis jamais poderia existir sem uma igual abundância de títulos para os mesmos. Numa das passagens mais divertidas, Graeber oferece, em seu site dedicado ao assunto, um Job Title Generator engraçado por si só que dispensa quaisquer comentários.

Um mito bem popular derrubado por Graeber é o de que bullshit jobs seriam peculiares ao setor público. Ao contrário, existem igualmente no privado. Se há uma regra para sua proliferação, parece ter a ver com a maior presença de práticas e conceitos gerenciais em qualquer indústria. São particularmente ilustrativas as análises de sua influência recente na academia e na indústria criativa, particularmente a cinematográfica.

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Forçado, em nome da concisão, a eleger para menção uma única parte dos dois riquíssimos capítulos sobre o sofrimento amargado por detentores de bullshit jobs, minha escolha recai facilmente sobre a exploração de elementos sadomasoquistas inerentes a tais trabalhos. É quando o autor faz uma distinção importantíssima entre as práticas sadomasoquistas recreativas e a ocorrência da mesma sorte de relação em ambientes de trabalho.

Não deve ser nenhuma novidade, mesmo para não adeptos destas práticas, que todo sofrimento físico consentido infligido por dominadores a dominados pode ser interrompido por uma palavra de segurança (como “laranja”). De tal modo que alguém que subitamente não suporte mais a dor de, por exemplo, ter cera quente derramada sobre o corpo pode interromper a “brincadeira” pela simples pronúncia da palavra “laranja”. Só que, em ambientes de trabalho marcados por relações sadomasoquistas, um empregado não pode interromper sem maiores consequências (como o desemprego) qualquer abuso cometido por seu chefe simplesmente dizendo “laranja” (cujo equivalente numa relação de trabalho seria “eu me demito”).

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Quando o ensaio de 2013 no qual Graeber cunhou a expressão bullshit jobs viralizou, uma das reações previsíveis foi um esforço acadêmico-científico para quantificar o fenômeno. Daí emergiram dados alarmantes, ainda que nem um pouco surpreendentes. Na ocasião, se constatou que no Reino Unido nada menos do que 37% dos entrevistados declararam estar aprisionados em bullshit jobs. Replicada na Holanda, a enquete revelou uma realidade ainda mais impressionante: 40% se consideraram na mesma situação. Isto quer dizer quase metade da população – ou, se quiserem, em número suficiente para eleger um presidente ou primeiro ministro numa democracia. Ainda assim, ainda há quem se recuse a ver a coisa como um problema social. A prevalência deste estado de coisas é esmiuçada nos capítulos sobre por que  bullshit jobs proliferam e por que não reagimos, como sociedade, à proliferação dos mesmos.

Aqui, uma dose moderada de spoilers não deverá afugentar potenciais leitores. Suficiente dizer que a manutenção do problema é um pré-requisito para o capitalismo. Como ? Impossível resumir. Até por que os dois capítulos supracitados são uma aula de história, traçando a origem do mito puritano de que “o sofrimento laboral forma o caráter” desde tempos medievais até os dias de hoje, passando por vários filósofos, discutindo a diferença entre “valor” e “valores” e a transição gradual da vigência da teoria do valor-trabalho (labor theory of value) para a aceitação praticamente hegemônica da lei da oferta e da procura, que serve de pilar ao capitalismo.

Tamanha densidade de informações (bibliográficas inclusive) aportadas tornam estes capítulos algo para ser lido e relido – até como mapa para outras leituras.

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Graeber tempera o tom professoral naquilo que mais poderia parecer um tratado (pelo título da obra, de seus capítulos e sub-capítulos) com tiradas engraçadas aqui e ali. Para destacar apenas duas:

Depois de anunciar, nalgum lugar no início do livro, que vê com reservas o fato de ser frequentemente tachado de anarquista (numa compreensível aversão ao aspecto reducionista dos rótulos); se auto-declara, ao fim da obra, um anarquista.

No mesmo último capítulo, depois de deixar claras suas restrições (bem razoáveis) a finalizar uma obra por meio de uma receita ou recomendação para solucionar os problemas nela apontados, preconiza com todas as letras que quaisquer bullshit jobs seriam sumariamente riscados do mapa mediante a implementação de uma renda mínima universal. Ambas as discussões (tanto o disclaimer contra as fórmulas prontas como aquela sobre os possíveis prós e contras de uma renda mínima universal) coroam o volume de uma forma deliciosa, transmitindo ao leitor a plena convicção de que nada do que nele foi lido é supérfluo ou, de algum modo, acessório.

A observação acima, sobre a obrigatoriedade de cada linha, sublinha também o fato das notas sobre o texto serem tão volumosas quanto interessantes. São 40 páginas de notas (fora a bibliografia) para 285 de texto (fora o prefácio), ensejando fatalmente a especulação sobre se o autor

escreveu as notas à guisa de complementação depois de ter o livro pronto (o que é menos provável); ou, antes,

preferiu relegá-las a um apêndice, como num hipertexto, a fim de não comprometer, com elas, seu apurado fluxo argumentativo.

De qualquer modo, quaisquer que sejam as razões que o levaram a destacar, no final da obra, observações tão interessantes – praticamente um outro livro sobre o livro, é altamente recomendável que as mesmas sejam lidas na íntegra concomitantemente ao texto principal.

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Como já deixei claro, é bem difícil eleger uma ou outra passagem do livro para destaque (dignas, digamos, de terminar uma resenha sobre o mesmo). Ainda assim, sou, como disse acima, teimoso e, como tal, arrisco afirmar que, de tudo o que li em Bullshit Jobs: a Theory, talvez o que mais tenha reverberado, no sentido de permitir uma compreensão superior do universo capitalista, é que

o mesmo é alimentado por uma complexa, sutil e insolúvel rede de ressentimentos mútuos entre classes de trabalhadores – não apenas entre aquelas mais óbvias tais como patrões X empregados ou capitalistas X trabalhadores, mas entre as próprias categorias ocupacionais; e que

o que conhecemos usualmente por economia é, antes do que uma ciência, uma doutrina, com raízes históricas claras e, por vezes, profundo cunho teológico.

Bullshit Jobs e o jugo do feudalismo gerencial; entrevista concedida por David Graeber a The Economist

Populismo, trabalho sem sentido e juventude em pânico: uma entrevista com David Graeber, da London School of Economics, publicada pela revista The Economist

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Jamais depois de Dilbert a verdade foi dita sobre o poder em postos de trabalho desumanos. Mas o sucessor do personagem do cartoon pode ser David Graeber. Em 2013, adquiriu fama viral entre zumbis de cubículos de toda parte depois de publicar um ensaio curto sobre a persistência de trabalhos que não tem qualquer razão social ou econômica de existir, aos quais chamou bullshit jobs. A ampla atenção parece confirmar sua tese.

David Graeber, um antropólogo da London School of Economics, desenvolveu recentemente a ideia num livro. Ele respondeu a cinco perguntas da iniciativa Open Future da revista The Economist, atacando “comitivas feudais de lacaios basicamente inúteis”. Graeber diz que “as pessoas querem sentir que transformam o mundo ao seu redor de modo a fazer alguma diferença positiva”.

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The Economist: O que é um bullshit job ? Poderia dar alguns exemplos ?

David Graeber: Um bullshit job é um trabalho que mesmo a pessoa que o executa secretamente acredita o mesmo é desnecessário e não deveria existir. Que se aquele trabalho, ou mesmo toda a indústria do qual faz parte, desaparecesse, não faria a menor diferença para ninguém ou até mesmo o mundo talvez fosse um lugar ligeiramente melhor.

Algo em torno de 37 a 40% dos trabalhadores, de acordo com pesquisas, dizem que seus trabalhos não fazem diferença alguma. O que há de radical no livro não é a constatação de que muitas pessoas pensem assim, mas o fato de que, na maior parte das vezes, elas estejam largamente certas. Seus trabalhos são realmente tão sem sentido quanto elas realmente pensam.

Apenas acreditando nas palavras das pessoas podemos subestimar o problema, já que, ainda que você ache que o que está fazendo não faz qualquer sentido, deve obviamente haver um quadro mais amplo no qual você realmente está contribuindo para o bem maior ou, ao menos, para o bem maior da organização. Só que ninguém lhe explicou como.

Por outro lado, se você acha que está fazendo alguma coisa para a qual parece haver uma boa razão para ser feita mas, no grande quadro, não há (como, por exemplo, se toda a operação da qual você participa é algum tipo de fraude ou, ainda, se ninguém lê os relatórios que você produz, etc), bem, esta é precisamente a situação na qual menos provavelmente lhe dirão o que está acontecendo.

Se minha pesquisa de algum modo procede, bullshit jobs não se concentram tanto nos serviços mas nas tarefas de escritório, administrativas, gerenciais e de supervisão. Muitos trabalhadores em administração intermediária, relações públicas e recursos humanos, tais como muitos gerentes de marcas, vice presidentes de criação, consultores financeiros e empregados em direito corporativo e marketing, sentem que seu trabalho não faz qualquer sentido.

 

The Economist: O que o fato desses trabalhos sem propósito existirem diz do lugar de trabalho moderno ?

David Graeber: Uma coisa que isto mostra é que todo o ideal “enxuto e eficiente” é aplicado muito mais a trabalhadores produtivos do que a cubículos de escritório. Não é nada raro executivos que se orgulham de enxugar e acelerar no chão da fábrica, na distribuição e por aí afora usarem o dinheiro economizado ao menos em parte para ocupar seus escritórios com comitivas feudais de lacaios basicamente inúteis.

Eles tem equipes completas de pessoas que estão lá apenas para, por exemplo, desenhar gráficos para seus relatórios, escrever elogios para revistas internas que ninguém lê ou, em muitos casos, não fazer absolutamente nada além de memes de gatos e jogar no computador o dia inteiro. Mas eles são mantidos lá por que o prestígio e às vezes até o salário de todo gerente é proporcional ao número de pessoas a ele subordinadas.

Quanto mais o lucro de uma empresa é derivado de finanças ao invés de da fabricação ou venda de alguma coisa, mais isto tende a ser verdade. Chamo a isto “feudalismo gerencial”. Mas não é só o setor de finanças, de seguros e imobiliário: há uma infestação similar nos níveis intermediários das indústrias criativas em geral. Eles continuam adicionando posições gerenciais entre as pessoas produzindo coisas e os caras que pagam por isto cuja única função é frequentemente sentar o dia todo tentando vender coisas uns aos outros.

Saúde e educação são igualmente complicadas: gestores agora acham que cada um deve ter seu esquadrão de assistentes que, frequentemente sem ter nada o que fazer, acabam inventando novas formas exóticas de trabalho burocrático para professores, médicos, enfermeiros e afins – os quais tem, então, ainda menos tempo para realmente ensinar ou cuidar de alguém.

 

The Economist: Você nota que muitos trabalhos interessantes que implicam em criatividade e status estão concentrados em cidades afluentes. Você acredita que bullshit jobs contribuíram para o populismo e a polarização ?

David Graeber: Sim. Penso que muito do frequentemente legítimo rancor dirigido à “elite liberal” se baseia no ressentimento que as classes trabalhadoras sentem em relação ao fato de que a primeira efetivamente se apropriou de todos os trabalhos nos quais se pode realmente ser bem pago para fazer o que é tanto divertido como criativo mas que, obviamente, beneficia a sociedade. Se você não pode mandar seu filho para uma boa escola e depois sustentá-lo 2 ou 3 anos durante residências em lugares como Nova Iorque ou São Francisco, esqueça: você está fora.

Para todos os demais, ao menos que você tenha muita sorte, suas chances são largamente limitadas a duas opções. Você pode obter um trabalho basicamente bullshit, que pagará o aluguel mas lhe deixará estragado, com o sentimento de culpa por estar sendo forçado, contra sua vontade, a ser uma fraude e um parasita. Ou você pode obter um trabalho útil, cuidando de pessoas, fazendo, movendo ou conservando coisas que as pessoas querem ou das quais precisam – só que, provavelmente, lhe pagarão tão pouco que você não será capaz de sustentar sua própria família.

Existe uma relação inversa quase perfeita entre o quanto seu trabalho beneficia os outros e sua remuneração. O resultado é uma cultura política tóxica de ressentimento.

Aqueles em um trabalho largamente sem sentido se ressentem de professores ou mesmo mecânicos de automóveis, os quais realmente fazem algo útil, e acham ultrajante que [mecânicos e professores] demandem bons salários, seguro saúde e férias remuneradas. Pessoas da classe trabalhadora, que fazem predominantemente coisas úteis, se ressentem da elite liberal que abocanhou todo o trabalho útil ou benéfico que realmente paga bem e no qual lhe tratam com respeito e dignidade.

Todos detestam a classe política, a qual vem (em minha opinião, com bastante razão) como um bando de trapaceiros. Mas todos os outros ressentimentos tornam difícil para qualquer um se associar com outros e fazer alguma coisa a respeito. Em grande parte, nossas sociedades se uniram a partir da inveja e do ressentimento: não inveja dos ricos mas, em muitos casos, inveja daqueles que são vistos como de algum modo moralmente superiores ou, ainda, ressentimento daqueles que se proclamam moralmente superiores mas que são vistos como hipócritas.

 

The Economist: As pessoas tendem a se ajustar emocionalmente às circunstâncias. Então, há alguma razão para se acreditar que seríamos dramaticamente mais satisfeitos num mundo sem labuta ?

David Graeber: O que me surpreendeu foi o quão difícil era para tanta gente se ajustar ao que pareciam problemas menores: basicamente, tédio e sensação de falta de propósito na vida. Por que não podiam simplesmente dizer “Ok, então estou ganhando algo por nada. Torçamos para que o chefe não note !”

Mas a grande maioria descreveu a si própria como totalmente miserável. Relataram depressão, ansiedade, doenças psicossomáticas que desapareceriam magicamente no momento em que ganhassem o que consideravam trabalho de verdade e horríveis dinâmicas sadomasoquistas de lugares de trabalho.

Minha conclusão é que psicologicamente, não é exatamente que as pessoas queiram trabalhar mas, antes, que elas querem sentir que estão transformando o mundo ao redor delas de modo a produzir algum tipo de diferença positiva para outras pessoas. De certo modo, é isto que as torna humanas. Tire isto delas e elas começam a se despedaçar. Então, não se trata só de labuta.

Conforme disse Dostoievsky em algum lugar:  se você quiser destruir psicologicamente um prisioneiro por completo, basta fazê-lo cavar um buraco e tornar a tapa-lo, repetidamente, durante todo o dia (em alguns gulags de fato tentaram isto como forma de tortura – o que funcionou, tornado as pessoas completamente loucas). Creio que pessoas suportem até trabalho enfadonho desde que saibam que há uma boa razão para executá-lo.

Como antropólogo, sei que o lazer não é um problema por si só. Há muitas sociedades onde pessoas trabalham no máximo de duas a três horas por dia e encontram todo tipo de coisas interessantes para fazer com seu tempo. Pessoas podem ser infinitamente criativas se lhes derem tempo para pensar.

 

The Economist: Pessoas no Ocidente tem mais liberdade de escolher suas carreiras do que em qualquer época da história humana. O liberalismo merece algum crédito por isto e, neste caso, não seriam as próprias pessoas responsáveis por seus bullshit jobs ?

David Graeber: Bem, se você falar com jovens recém saídos da faculdade, não ouvirá muitos deles dizendo: “Ah, o mundo se descortina diante de mim… então o que seria melhor eu fazer ?”

Você certamente ouviu muito nos anos 70, 80 e 90: “O que eu realmente quero ?” Já hoje, nem tanto. A maioria dos formados está em pânico sobre como irá pagar seus empréstimos estudantis e o verdadeiro dilema que você ouve é: “Posso obter um emprego que vá realmente me pagar o suficiente para viver (que dirá ter uma família algum dia) e pelo qual não me sinta totalmente envergonhado ?”

É a mesma armadilha que descrevi acima: como se pode viver uma vida que beneficie os outros ou, ao menos, não prejudique ninguém de um modo óbvio e, ainda assim, conseguir cuidar de uma família ou de quem se ama. E durante todo o tempo há este mantra a que chamo “repreensão de direitos”, que vem igualmente da esquerda e da direita. É uma injúria moral dirigida aos jovens como sendo presunçosos e estragados por se acharem meritórios de todas as coisas que a geração de seus pais (que são os que geralmente censuram) tinha como asseguradas.

Então eu não culparia ninguém por fazer o melhor possível nesta situação. A questão para mim é: por que esta situação não é vista como um problema social maior ? Quero dizer que, se você contar todas as pessoas que estão num emprego real em suporte a bullshit jobs, tais como faxineiros, recepcionistas e motoristas que não sabem que a empresa para a qual trabalham serve basicamente pare se esquivar de impostos ou coisa parecida, bem como a bullshitização do trabalho verdadeiro; então talvez metade do trabalho que é realizado é totalmente desnecessário.

Pensem em que tipo de cultura, música, ciência e ideias resultariam se todas essas pessoas fossem liberadas para fazer coisas que realmente achem importantes. Então se o problema é um de responsabilidade pessoal, eu diria: que se dê a todos o suficiente para viver, como algum tipo de renda básica universal, e que se diga “Ok, agora vocês estão totalmente livres para decidir por si mesmos como podem contribuir para o mundo.”

Então poderíamos dizer com certeza que pessoas seriam responsáveis por aquilo que fazem. É claro que muito do que é feito não faria qualquer sentido. Mas é difícil se imaginar que 40 ou 50% da força de trabalho seja composta por inúteis, conquanto seja esta precisamente a situação que temos hoje. E se, com tudo isto, ainda assim tivermos como resultado apenas um ou dois novos Miles Davises, Einsteins, Freuds ou Shakespeares, eu diria que teríamos recuperado bem mais do que nosso investimento.

* * *

Você trabalha mais do que 39 horas por semana ? Seu emprego pode estar lhe matando

Longas jornadas, stress e inatividade física são ruins para nosso bem-estar – ainda assim estamos trabalhando mais duro do que nunca. Não é hora de voltarmos atrás ?

Publicado originalmente por Peter Fleming em The Guardian em 15 de janeiro de 2018

Quando um grupo de estagiários chegou recentemente ao Barclays, de Nova Iorque, descobriram um memorando em seu correio eletrônico. Era de seu supervisor no banco, assim intitulado: “Bem-vindos à selva”. A mensagem continuava: “Recomendo que tragam um travesseiro para o escritório. Torna o sono sob a mesa de trabalho bem mais confortável… O estágio é realmente um compromisso de nove semanas à escrivaninha… Um estagiário pediu a um de nossos funcionários um fim-de-semana de folga para uma reunião familiar – ele foi mandado embora. Também foi instruído a devolver seu celular e a limpar sua mesa.”

Embora o memorando não autorizado tenha sido concebido como uma piada, ninguém riu quando ele vazou na mídia. Ainda era fresca a lembrança de Moritz Erhardt, o estagiário londrino de 21 anos que morreu depois de trabalhar 72 horas sem interrupção no Bank of America. Parecia que o Barclays também estava levando a “ética de trabalho” a extremos mórbidos.

Depois de 30 anos de desregulamentação neoliberal, o “das nove às cinco” mais parece uma relíquia de uma era passada. Empregos são infinitamente estressantes e crescentemente precários. O trabalho excessivo se tornou norma em muitas empresas – algo esperado e mesmo admirado. Tudo o que fazemos fora do escritório – não importa o quão gratificante – é silenciosamente menosprezado. Relaxamento, hobbies, criar crianças ou ler um livro são desqualificados como preguiça. Tal o poder da mitologia do trabalho.

Se esperava que a tecnologia nos libertasse do sacrifício diário. Só que, com frequência, ela tornou as coisas piores: em 2002, menos de 10% dos empregados liam emails de trabalho fora do expediente. Hoje, com a ajuda de tablets e smartphones, são 50%, frequentemente antes de se levantar da cama.

Alguns observadores sugerem que trabalhadores atuais não “desligam” nunca. Como nossos telefones celulares, apenas passamos a stand by no fim do dia, quando rastejamos para a cama exaustos. Esta implacável falta de alegria é especialmente evidente quando o assunto é férias. Nos EUA, uma das economias mais ricas do mundo, empregados tem sorte se conseguem tirar duas semanas por ano.

Você pode até pensar que esta atividade frenética esteja diretamente ligada a nossa preservação biológica e que não sobreviveríamos sem ela. Como se escrever emails idiotas num escritório apertado fosse semelhante a caçar e colher em eras anteriores… Felizmente, uma mudança generalizada está em curso. O custo do trabalho excessivo não pode mais ser ignorado. Stress duradouro, ansiedade e inatividade prolongada foram expostos como assassinos potenciais.

Pesquisadores do Columbia University Medical Center usaram recentemente rastreadores de atividade para monitorar 8000 trabalhadores com mais de 45 anos. Os resultados foram chocantes. O período médio de inatividade em cada dia acordado era de 12,3 horas. Empregados sedentários por mais de 13 horas por dia eram duas vezes mais propensos a morrer prematuramente do que aqueles que eram inativos por 11,5 horas. Os autores concluíram que permanecer sentado num escritório tinha um efeito similar ao hábito de fumar – devendo, portanto, ser objeto de advertência sanitária.

Quando pesquisadores no University College de Londres observaram 85.000 trabalhadores, homens e mulheres de meia-idade em sua maioria, encontraram uma correlação entre trabalho excessivo e problemas cardiovasculares, especialmente arritmia cardíaca e fibrilação atrial, o que aumenta em cinco vezes o risco de um infarto.

Sindicatos também estão cada vez mais preocupados com o trabalho excessivo, especialmente no que tange ao impacto sobre as relações pessoais e à doença física e mental. Vejam o caso do sindicato IG Metall na Alemanha. Semana passada, 15.000 trabalhadores (que fazem peças automotivas para empresas como Porsche) convocaram uma greve demandando uma semana de trabalho de 28 horas sem redução salarial ou de condições. Não se trata de indolência, dizem, mas de auto proteção: não querem morrer antes da hora. A ciência está do seu lado: uma pesquisa da Australian National University descobriu recentemente que trabalhar qualquer coisa mais do que 39 horas por semana é um risco ao bem-estar.

Há algum nível saudável ou aceitável de trabalho ? De acordo com o pesquisador norte-americano Alex Soojung-Kim Pang, a maioria dos empregados atuais são produtivos por cerca de quatro horas por dia: o resto é preenchimento de tempo e uma quantidade enorme de preocupação. Pang argumenta que o dia de trabalho poderia ser facilmente reduzido sem comprometer padrões de subsistência e prosperidade.

Outros estudos corroboram esta observação. O governo sueco, por exemplo, financiou um experimento no qual enfermeiras de home care trabalharam seis horas por dia recebendo salários de oito horas. O resultado ? Menos faltas por doença, menos stress e um salto na produtividade.

É claro que tudo isto é muito encorajador. Mas quase todos estes estudos focalizam o problema sob um ponto de vista numérico – a quantidade de tempo gasto trabalhando a cada dia, ano após ano. Temos que ir adiante e começar a encarar as condições do trabalho pago. Se um trabalho é miserável e demasiado estressante, até umas poucas horas do mesmo podem se tornar um pesadelo existencial. Alguém que gosta de trabalhar em seu carro no fim-se-semana, por exemplo, pode muito bem achar intolerável fazer a mesma coisa numa fábrica, mesmo por um período mais curto. Toda a liberdade, criatividade e engenhosidade são sugadas da atividade. O que era para ser um momento de descontração voluntária de torna um fardo imposto de fora para dentro.

Por que isto é importante ?

Por que existe um perigo de que meramente reduzir horas de trabalho não mude muito, em termos de saúde, enquanto empregos intrinsecamente privarem de liberdade. Para que empregos conduzam a nosso bem-estar mental e fisiológico, muito menos trabalho é definitivamente essencial. Da mesma forma que trabalhos de um tipo melhor, onde hierarquias sejam menos autoritárias e tarefas sejam mais variadas e façam mais sentido.

Infelizmente, o capitalismo não possui um bom histórico em termos de criar empregos assim. Mais de um terço dos trabalhadores britânicos acham seus empregos sem sentido, de acordo com uma enquete de YouGov. E se o moral é tão baixo, não importa quantos vales-academia, programas de atenção plena e cestas de frutas orgânicas os empregadores lhes dem. Mesmo o empregado mais comprometido sentirá que algo fundamental está faltando. Uma vida.

* * *

O novo livro de Peter Fleming, A Morte do Homo Economicus: Trabalho, Débito e o Mito da Acumulação Infinita (The Death of Homo Economicus: Work, Debt and the Myth of Endless Accumulation), foi publicado pela Pluto Press.

Há algum problema que trabalhar menos não resolva ?

A solução para praticamente tudo: Trabalhar menos

Publicado por Rutger Bregman em Evonomics

Traduzido por Augusto Maurer

Se você tivesse perguntado ao maior economista do século 20 qual seria o maior desafio do século 21, ele não precisaria pensar duas vezes.

Lazer.

No verão de 1930, bem quando a Grande Depressão adquiria força, o economista britânico John Maynard Keynes proferiu uma conferência curiosa em Madri. Ele havia aventado novas ideias com alguns de seus alunos em Cambridge e decidiu torná-las públicas numa palestra breve chamada “Possibilidades Econômicas para nossos Netos.”

Noutras palavras, para nós.

Na época de sua visita, Madri era uma confusão. Desemprego crescia descontroladamente, o fascismo se alastrava e a União Soviética estava ativamente recrutando apoiadores. Poucos anos depois, uma guerra civil devastadora eclodiria. Como, então, podia o lazer ser a maior mudança ? Naquele verão, Keynes parecia vir de outro planeta.

 “Estamos sofrendo um ataque de pessimism econômico,” escreveu. “É comum pessoas dizerem que a época de enorme progresso econômico que caracterizou o século 19 chegou ao fim…” E não sem razão. A pobreza era devastadora. Tensões internacionais cresciam e se precisaria da máquina mortal da Segunda Guerra Mundial para soprar vida novamente à indústria global.

Falando numa cidade à beira do desastre, o economista britânico arriscou uma predição contraintuitiva. Por volta de 2030, disse Keynes, a humanidade seria confrontada com o maior desafio jamais encarado: o que fazer com um mar de tempo livre. A menos que políticos cometam erros desastrosos (austeridade durante uma crise econômica, por exemplo), ele antecipou que dentro de um século o padrão de vida ocidental seria no mínimo o quádruplo do que era em 1930.

A conclusão ? Em 2030, estaremos trabalhando apenas 15 horas por semana.

Um futuro preenchido com lazer

Keynes não foi o primeiro nem tampouco o último a antecipar um futuro inundado por lazer. Um século e meio antes, o “pai fundador” americano Benjamin Franklin já havia previsto que quatro horas de trabalho por dia seriam, eventualmente, suficientes. Além daquilo, a vida seria toda “lazer e prazer”. E Karl Marx similarmente ansiava por um dia em que todos tivessem tempo “para caçar pela manhã, pescar à tarde, criar gado ao entardecer, criticar depois de jantar […] sem jamais se tornar um caçador, um pescador, um vaqueiro ou um crítico.”

Mais ou menos ao mesmo tempo, o pai do liberalismo clássico, o filósofo britânico John Stuart Mill, argumentava que o melhor uso de mais riqueza é mais lazer. Mill se opunha ao “elogio do trabalho” proclamado por seu maior adversário Thomas Carlyle (um grande defensor da escravidão, também, como acontece), o justapondo com seu próprio “elogio do lazer”. De acordo com Mill, tecnologia deveria ser usada para frear a semana de trabalho tanto quanto fosse possível. “Haverá mais tempo do que nunca para todos os tipos de cultura mental e progresso moral e social,” escreveu, “bem como para aprimorar a Arte de Viver.”

Ainda assim, a Revolução Industrial, que propeliu o explosivo crescimento econômico do século 19, trouxe exatamente o oposto de lazer. Enquanto um fazendeiro inglês no ano 1300 tinha que trabalhar ca. 1500 horas por ano para viver, um operário de fábrica na era de Mill precisava dedicar o dobro de tempo simplesmente para sobreviver. Em cidades como Manchester, uma semana de trabalho de 70 horas, sem férias nem fins de semana, era a regra até com crianças. “O que querem os pobres com feriados ?” ponderou uma duquesa inglesa ao fim do século 19. “Eles devem trabalhar !” Muito tempo livre é simplesmente um convite à maldade.

No entanto, por volta de 1850 um tanto da prosperidade criada pela Revolução Industrial começava a apelar às classes inferiores. E tempo é dinheiro. Em 1855, as mansões de Melbourne, Australia, foram as primeiras a assegurar um dia de oito horas.

Pelo fim do século, a semana de trabalho em alguns países já havia caído para menos de 60 horas. O dramaturgo nobelizado George Bernard Shaw predisse em 1900 que, naquela taxa, empregados em 2000 trabalhariam só duas horas por dia.

Empregados resistiram, naturalmente. Quando, em 1926, um grupo de 32 proeminentes empresários americanos foi perguntado sobre o que achavam de uma semana de trabalho mais curta, 2 acharam que a ideia tinha méritos. De acordo com os outros 30, mais tempo livre apenas resultaria em mais crime, dívida e degeneração. E não foi ninguém menos do que Henry Ford – titã da indústria, fundador da Ford Motors Company e criador do Modelo T – o primeiro a implementar, no mesmo ano, uma semana de 5 dias.

Chamaram-no de louco. Depois, seguiram seus passos.

Um capitalista “tingido na lã” e a mente brilhante por trás da linha de produção, Henry Ford descobriu que uma semana mais curta na verdade incrementava a produtividade de seus empregados. Tempo de lazer, observou, era um “frio fato econômico”. Um trabalhador mais descansado é um trabalhador mais eficiente. Além disto, um operário confinado em uma fábrica do amanhecer ao entardecer, sem tempo livre para viagens em estradas e passeios recreativos, jamais compraria um de seus carros. Como disse a um jornalista, “É tempo de nos livrarmos da noção de que tempo de lazer para trabalhadores é “tempo perdido” ou privilégio de classe.”

Em uma década, os céticos foram vencidos. A Associação Nacional de Indústria, que 20 anos antes advertia que uma semana de trabalho mais curta arruinaria a economia, então orgulhosamente se gabava de que os Estados Unidos tinham a mais curta semana de trabalho do mundo. Em suas recém-encontradas horas de lazer, trabalhadores logo estavam dirigindo seus Ford diante de cartazes da ANI que proclamavam, “Não há outro jeito igual ao americano.”

O Fim do Trabalho

Toda evidência pareciam sugerir que as grandes mentes, de Marx a Mill a Keynes a Ford, deviam estar corretas.

Em 1933, o senado norte-americano aprovou legislação introduzindo uma semana de trabalho de 30 horas. Apesar de lei ter sucumbido na Casa dos Representantes sob intensa pressão da indústria, uma semana menor permaneceu sendo a principal demanda dos sindicatos. Depois da Segunda Guerra Mundial, o tempo de lazer aumentou constantemente. Em 1956, o vice-presidente Richard Nixon prometeu aos americanos que eles não teriam que trabalhar mais do que 4 dias por semana “num futuro não muito distante”.

A audaciosa predição de Keynes se tornou um truísmo. Em meados dos anos 60, o relatório de uma comissão do senado projetou que por volta de 2000 a semana de trabalho seria de apenas 14 horas, com pelo menos 7 semanas de férias por ano. A corporação RAND, um think tank influente, vislumbrou um futuro no qual somente 2% da população seria capaz de produzir tudo que a sociedade precisasse. O trabalho seria em breve reservado à elite.

Conforme os 60 progrediram, alguns pensadores começaram a manifestar preocupações. O cientista político Sebastian de Grazia, ganhador do Pulitzer, disse à Associated Press que “Há razão para se temer […] que tempo livre, tempo livre obrigatório, traga o pulso constante do aborrecimento, da indolência, da imoralidade e da crescente violência pessoal.” E em 1974, o Departamento do Interior dos EUA soou o alarme ao declarar que “Lazer, tido por muitos como epítome do paraíso, pode muito bem se tornar o maior problema do futuro.”

Apesar destas preocupaçõoes, parecia haver pouca dúvida sobre o curso que a história definitivamente tomaria. Por volta de 1970, sociólogos falavam confiantemente no iminente “fim do trabalho”. A humanidade estava no limiar de uma verdadeira revolução do lazer.

O sonho esquecido

E a história tomou outro curso.

Nos anos 80, reduções da semana de trabalho tiveram ima interrupção dramática. O crescimento econômico não estava se traduzindo em lazer, mas em mais coisas. Em países como Austrália, Áustria, Noruega, Espanha e Inglaterra, a semana de trabalho deixou totalmente de ser reduzida. Nos Estados Unidos, efetivamente cresceu. Setenta anos depois que o país sancionou a lei das 40 horas semanais de trabalho, três quartos da força de trabalho trabalhava mais do que 40 horas semanais.

Mesmo cidadãos da Holanda – a nação com a menor semana de trabalho no mundo – sentiram o peso crescente do trabalho, tempo extra, assistência e educação desde os anos 80. Três quartos da força de trabalho holandesa se sentiam sobrecarregados por pressões de tempo, um quarto trabalhava habitualmente além do tempo e um em cada oito sofria sintomas de burnout.

Além do mais, trabalho e lazer vem se tornando progressivamente mais difícil de dissociar. Um estudo conduzido na Harvard Business School mostra que, graças à tecnologia moderna, executivos e profissionais na Europa, Ásia e América do Norte dedicam hoje de 80 a 90 horas semanais, “tanto trabalhando quanto monitorando trabalho ou permanecendo acessível.” E de acordo com pesquisa britânica, o smartphone faz o empregado médio trabalhar mais 460 horas por ano – quase três semanas.

É seguro dizer que as predições das grandes mentes não se tornaram exatamente realidade. Estamos muito atrás da profecia de Keynes. Por volta do ano 2000, países como França, Holanda e os Estados Unidos já eram cinco vezes mais ricos do que em 1930. Ainda assim ao adentrarmos o século 21 nossos maiores desafios não são lazer e tédio, mas fadiga e incerteza.

A solução para (quase) tudo

Recentemente, um amigo me perguntou: “O que trabalhar menos efetivamente resolveria ?”

Prerefi formular de outra forma: “Existe algo que trabalhar menos não resolva ?”

Stress ? Incontáveis estudos mostraram que pessoas que trabalham menos são mais satisfeitas com as próprias vidas. Numa recente enquete conduzida entre mulheres trabalhadoras, pesquisadores alemães chegaram a quantificar o “dia perfeito”. “a maior porção de minutos (106) irá para “relações íntimas”. Em último lugar na lista constava “trabalho” (36) e “deslocamento” (33). Os pesquisadores se limitaram a observar que que “no intuito de maximizar o bem-estar é provável que trabalho e consumo venham a ter menos importância em atividades diárias do que hoje.”

Acidentes ? Tempo extra é letal. Dias de trabalho mais longos levam a mais erros: cirurgiões cansados são mais propensos a cochilos e soldados que descansam pouco os olhos erram alvos mais facilmente. De Chernobyl ao ônibus espacial Challenger, está provado que diretores que trabalham demais são os que mais cometem erros fatais em desastres. Não é por coincidência que o setor financeiro, que deflagrou o maior desastre da última década, esteja absolutamente afundando em tempo extra.

Mudanças climáticas ? Um movimento mundial por uma semana de trabalho menor poderia cortar a emissão de gás carbônico neste século pela metade. Países com semanas de trabalho mais curtas tem indicadores ecológicos melhores.

Desemprego ? Obviamente, se pode simplesmente cortar um emprego em partes menores. O mercado de trabalho não é um jogo de cadeiras musical em que todos podem ocupar quaisquer assentos e tudo o que temos que fazer é trocar de lugar. Não obstante, pesquisadores na Organização Internacional do Trabalho concluíram que o trabalho compartilhado – no qual dois trabalhadores em tempo parcial dividem a carga de trabalho tradicionalmente associada a um trabalhador em tempo integral – é um grande avanço em direção a resolver a última crise. Particularmente em tempos de recessão com altíssimo desemprego e produção superando a demanda, empregos compartilhados podem ajudar a suavizar o impacto.

Emancipação das mulheres ? Países com semanas de trabalho mais curtas consistentemente lideram rankings de igualdade de gênero. O objetivo central é atingir uma distribuição mais igualitária do trabalho. Só quando os homens assumirem sua porção de cozinha, limpeza e outros trabalhos domésticos é que as mulheres serão livres para participar efetivamente da economia mais ampla. Noutras palavras, a emancipação feminina é um assunto de homens. Estas mudanças, entretanto, não dependem exclusivamente das escolhas de homens individuais; a legislação tem um papel importante a cumprir. Em lugar algum a diferença de tempo de licença maternidade/paternidade entre mulheres e homens é tão pequena como na Suécia, um país com um sistema verdadeiramente decente vigente para cuidado infantil e licença paternidade.

População envelhecendo ? Uma parte crescente da população mais velha quer continuar trabalhando mesmo depois de ter idade para se aposentar. Mas onde “trintões” se consomem em trabalho, responsabilidades familiares, hipotecas e luta pela aposentadoria mesmo que o trabalho ainda lhes faça bem à saúde. Então, além de distribuir empregos mais igualmente entre os sexos, também precisamos distribuí-lo entre as gerações. Trabalhadores jovens que recém estão entrando no mercado de trabalho podem muito bem continuar trabalhando até seus 80 anos. Em compensação, podem estar trabalhando não as 40 horas, mas talvez 30 ou 20 horas por semana. “No século 20 tivemos a redistribuição da riqueza,” observou um grande demógrafo. “Neste século, a grande redistribuição será em termos de horas de trabalho.”

Desigualdade ? Os países com as maiores disparidades em riqueza são precisamente aqueles com as mais longas jornadas de trabalho. Enquanto os pobres estão trabalhando por mais tempo e tendo que aderir a jornadas maiores, os ricos estão achando “mais caro” reduzir jornadas à medida em que seus lucros caem.

No século 19, era típico pessoas ricas delicadamente se recusarem a arregaçar as mangas. Trabalho era para camponeses. Quanto mais se trabalhasse, mais pobre se era. Desde então, vantagens sociais surgiram. Hoje, trabalho excessivo e pressão são símbolos de status. Reclamar do excesso de trabalho é muitas vezes uma tentativa de se sobressair como importante ou interessante. Tempo consigo mesmo é de pronto equiparado ao desemprego e à indolência, certamente em países em que a desigualdade na distribuição de riqueza se ampliou.

Não é preciso que seja desta forma. Podemos cortar uma grande parte de nossa semana de trabalho. Isto não apenas faria toda a sociedade bem mais saudável, com também poria um fim a indizíveis pilhas de trabalho inútil e mesmo tarefas perigosas (uma pesquisa recente descobriu que 37% dos trabalhadores britânicos achavam que tinham “trabalhos idiotas” [bullshit jobs]). Uma renda mínima universal seria a melhor forma de dar a todos a oportunidade de realizar mais trabalho incrivelmente importante, conquanto não remunerado, -tais como cuidar de crianças ou idosos.

A boa vida

Quando eu contei às pessoas, durante a escrita de meu livro, que estava abordando o maior desafio do século, obtive rapidamente sua atenção. Estava escrevendo sobre terrorismo ? Mudança Climática ? Terceira Guerra Mundial ?

Seu desapontamento era evidente quando eu introduzia o tema do lazer. “Todo mundo não vais estar colado na TV o tempo todo ?”

Eu era lembrado dos severos sacerdotes e homens de venda do século 19 que acreditavam que as plebes não seriam capazes de lidar com o voto, ou um salário decente, ou, pelo menos, o prazer; e que defendiam a semana de 70 horas como um instrumento eficiente na luta contra o álcool. Ironicamente, foi precisamente em cidades sobrecarregadas de trabalho, industriais, que mais e mais pessoas buscaram refúgio na garrafa.

Hoje vivemos numa era diferente, mas a história é a mesma: em países “sobretrabalhadores” como Japão, Turquia e, é claro, os Estados Unidos, pessoas assistem a uma quantidade absurda de televisão. Até cinco horas por dia nos EUA, o que equivale a nove anos de uma vida inteira. Crianças norte-americanas passam diante da TV a metade do tempo em que frequentam a escola. Lazer verdadeiro não é um luxo nem tampouco um vício. É tão vital para nosso cérebro como vitamina C para nosso corpo. Não há no mundo quem pense, em seu leito de morte, “tivesse eu ao menos passado mais algumas horas no escritório ou sentado em frente à TV”.

Certamente nadar num mar de tempo livre não será fácil. Uma educação do século 21 deve preparar gente não só para se juntar à força de trabalho mas, também (e mais importantemente), para vida.  “Uma vez que os homens não estarão cansados em seu tempo livre,” escreveu o filósofo Bertrand Russel em 1932, “eles não pedirão apenas diversões passivas e insípidas.”

Podemos  lidar com a vida boa, se ao menos tivermos tempo.

* * *

Rutger Bregman é historiador e escritor. Ele escreve para a plataforma holandesa de jornalismo online The Correspondent. É autor de Utopia for Realists: How We Can Build the Ideal World. Twitter: @rcbregman

Este ensaio foi adaptado do livro mais recente de Rutger, Utopia for Realists: The Case for a Universal Income, Open Borders and a 15-hour Workweek

Publicado originalmente aqui.

Economistas estão obcecados pela “criação de empregos”. E se trabalhássemos menos ?

O aumento da automação não reduziu a carga de trabalho. Por que não ? E se reduzisse ?

Por  Peter Gray

Em 1930, o economista britânico John Maynard Keynes previu que, pelo fim do século, a jornada média de trabalho semanal seria de 15 horas. A automação já havia começado a substituir muitos postos de trabalho no início do século 20, e Keynes previu que a tendência se aceleraria até o ponto onde tudo do que as pessoas precisariam para uma vida satisfatória poderia ser produzido com um mínimo de trabalho humano, tanto físico como mental. Keynes provou estar certo quanto ao aumento da automação. Hoje temos máquinas, computadores e robôs que podem fazer rapidamente o que anteriormente humanos faziam laboriosamente, e o aumento da automação não dá sinal de se tornar mais lento. Mas ele estava errado quanto ao declínio do trabalho.

Ao mesmo tempo em que antigos empregos foram substituídos por máquinas, novos surgiram. Alguns destes novos empregos resultam diretamente de novas tecnologias e podem ser justamente designados como benéficos à sociedade além de simplesmente manterem as pessoas empregadas (Autor, 2015). Empregos em tecnologia da informação são exemplos óbvios disto, bem como trabalhos atendendo a novos domínios da diversão, tais como projeto e produção de jogos computacionais. Mas também temos um sempre crescente número de trabalhos que parecem completamente inúteis ou mesmo nocivos. Como exemplos, temos administradores e assistentes administrativos em número ainda maior processando papéis que não precisam ser processados; advogados corporativos e seus subordinados ajudando grandes empresas a pagar menos impostos do que devem; incontáveis pessoas nas indústrias financeiras fazendo sabe-se lá que travessuras; lobistas usando todos os meios possíveis para corromper ainda mais nossos políticos; e executivos publicitários e de vendas empurrando coisas das quais ninguém precisa ou realmente quer.

Um fato triste é que muitas pessoas despendem hoje porções enormes de suas vidas em trabalhos que sabidamente não beneficiam a sociedade (vejam Graeber, 2013). Isto leva a um cinismo tal que pessoas começam mesmo a parar de pensar que empregos sirvam supostamente para beneficiar a sociedade. Temos, por exemplo, o espetáculo de políticos em ambos os lados do espectro lutando para manter fábricas de munições abertas em seus estados para preservar os empregos mesmo quando os próprios militares alegam que as armas produzidas pelas fábricas já não são mais úteis. E também temos políticos e especialistas argumentando que a mineração de combustíveis fósseis e fábricas emitentes de carbono devem ser mantidas em nome dos empregos, que se dane o ambiente.

O verdadeiro problema, é claro, é econômico. Descobrimos como reduzir a quantidade de trabalho necessária para produzir tudo de que precisamos e realisticamente queremos, mas não descobrimos como distribuir estes recursos exceto através de salários recebidos pela semana de 40 (ou mais) horas de trabalho. Na verdade, a  tecnologia teve o efeito de concentrar mais e mais a riqueza nas mãos de uma sempre menor parcela da população, o que constitui o problema da distribuição. Além disto, como um legado da revolução industrial, temos um etos cultural que diz que pessoas devem trabalhar pelo que ganham, e por isto evitamos qualquer plano sério de compartilhar riqueza por outros meios que não em troca de trabalho.

Eu digo, então, abaixo a ética do trabalho; viva a ética da brincadeira ! Somos feitos para brincar, não para trabalhar. Brilhamos mais quando brincamos. Deixemos nossos economistas pensarem sobre como criar um mundo que maximize a brincadeira e minimize o trabalho. Parece um problema solúvel. Estaríamos todos melhor se pessoas em empregos inúteis e nocivos estivessem, ao invés, brincando – e todos compartilhássemos o trabalho necessário e os benefícios dele advindos.

O que é trabalho ?

A palavra trabalho possui, é claro, uma série de significados diferentes e superpostos. Tal como usado por Keynes, e como eu usei nos parágrafos precedentes, se refere à atividade que desempenhamos apenas ou principalmente por que sentimos que devemos fazê-la para sustentar a nós e nossas famílias economicamente. Trabalho também pode se referir a qualquer atividade que experimentamos como desagradável, mas que sentimos que devemos fazê-la quer nos beneficie financeiramente ou não. Um sinônimo para trabalho, segundo esta definição, é labuta, e por esta definição trabalhar é o oposto de brincar. Ainda outra definição é a de que trabalho é qualquer atividade que tenha algum efeito positivo no mundo, seja ela experimentada como agradável ou não. Por esta definição, trabalho e brincadeira não são necessariamente distintos. Algumas pessoas de sorte consideram seu trabalho, no qual ganham suas vidas, como brincadeira. Fariam aquilo mesmo que não precisassem para ganhar a vida. Este não é o significado de trabalho como uso neste ensaio, mas é um sentido que vale a pena ter em mente por que nos lembra de  que muito do que hoje chamamos trabalho, por que vivemos dele, poderia ser chamado de brincadeira num mundo em que nossa vida fosse garantida de outras maneiras.

O trabalho é uma parte essencial da natureza humana ? Não.

Muita gente se surpreende ao saber que, na escala de tempo da história biológica humana, o trabalho é uma invenção nova. Surgiu com a agricultura, quando as pessoas tinham que passar longas horas arando, plantando, capinando e colhendo; e então se expandiu mais com a indústria, quando pessoas passavam incontáveis horas tediosas ou odiosas montando coisas ou trabalhando em minas. Mas a agricultura esteve conosco por apenas dez mil anos e a indústria por muito menos tempo. Antes disto, por centenas de milhares de anos, éramos todos caçadores-coletores. Pesquisadores que observaram e viveram com grupos que sobreviveram como caçadores-coletores em tempos modernos relataram regularmente que esses grupos gastavam pouco tempo fazendo o que, em nossa cultura, seria categorizado como trabalho (Gowdy, 1999; Gray, 2009; Ingold, 1999).

De fato, estudos quantitativos revelaram que o caçador-coletor adulto médio gastava cerca de 20 horas por semana caçando e coletando, e algumas horas a mais em outras tarefas relativas à subsistência tais como confeccionar ferramentas e preparar refeições (para referências, vejam Gray, 2009). Parte de seu tempo acordado restante era passado descansando, mas a maior parte do mesmo era devotada a atividades lúdicas e agradáveis, tais como fazer música, criar arte, dançar, jogar, contar histórias, conversar e brincar com amigos e visitar amigos e familiares em bandos vizinhos. Mesmo a caça e a coleta não eram consideradas trabalho; eram feitas com entusiasmo, sem raiva. Por que estas atividades eram divertidas e empreendidas com grupos de amigos, sempre havia muita gente que queria caçar e colher; e por que a comida era compartilhada com todo o bando, qualquer um que, num determinado dia (ou semana, ou mais) não quisesse caçar ou colher não era pressionado a fazê-lo.

Alguns antropólogos relataram que pessoas por eles estudadas sequer tinham uma palavra para designar trabalho; ou, quando tinham uma, se referia ao que fazendeiros, ou mineiros ou outros não caçadores-coletores com quem tinham contato faziam. O antropólogo Marshal Sahlins (1972) celebrizou-se por se referir aos caçadores-coletores como a sociedade afluente original – afluente não por que tivessem muito, mas por que suas necessidades eram tão pequenas e por que podiam satisfazê-las com relativamente pouco esforço – tendo, portanto, muito tempo para brincar.

Evolutivamente, dez mil anos é um período de tempo quase insignificante. Desenvolvemos nossa natureza humana básica muito antes do surgimento da agricultura e da indústria. Somos, por natureza, todos caçadores-coletores, predestinados a apreciar nossas atividades de subsistência e a ter muito tempo livre para criar nossas ocupações alegres que transcendam a própria subsistência. Agora que podemos fazer toda nossa agricultura e indústria com tão pouco trabalho, podemos reconquistar a liberdade da qual desfrutávamos durante a maior parte de nossa história evolutiva tão logo tenhamos resolvido o problema da distribuição.

Precisamos trabalhar para sermos ativos e felizes ? Não.

Alguns se preocupam com a ideia de que a vida com pouco trabalho seria uma vida de preguiça e depressão psicológica. Pensam que seres humanos precisam trabalhar para ter um sentido de propósito na vida ou simplesmente para se levantar da cama pela manhã. Apontam para como pessoas frequentemente se deprimem ao perder o emprego; ou para como algumas pessoas simplesmente vegetam quando voltam para casa depois do trabalho; ou, ainda, para como alguns, ao se aposentarem, não sabem o que fazer e começam a se sentir inúteis. Mas estas observações ocorrem todas num mundo em que o desemprego significa fracasso na mente de muitos; no qual trabalhadores voltam para casa física ou mentalmente exaustos a cada dia; no qual o trabalho é glorificado e a brincadeira denegrida; e no qual uma vida de trabalho, da escola fundamental à aposentadoria, leva muitos a se esquecerem de como brincar.

Vejam as crianças pequenas, que ainda não começaram a ir à escola e portanto ainda não tiveram sua curiosidade e capacidade lúdica suprimidas em nome do trabalho. São preguiçosas ? Não. São quase permanentemente ativas quando não estão dormindo. Estão sempre se envolvendo com alguma coisa, motivadas pela curiosidade, e em suas brincadeiras criam histórias, constroem coisas, fazem arte e filosofam (sim, filosofam) sobre o mundo ao seu redor. Não há razões para supor que os impulsos para estas atividades declinem com a idade. Declinam por causa da escola, que valoriza o trabalho e deprecia a brincadeira, a qual é extirpada das pessoas. E então trabalhos e carreiras tediosos continuam a lhes extirpar tudo o que é lúdico. Estes impulsos não declinam em caçadores-coletores com a idade – como também não declinariam em nós mesmos não fosse por todo o trabalho que nos é imposto.

Escolas foram inventadas principalmente para nos ensinar a obedecer a figuras de autoridade (patrões) incondicionalmente e a realizar tarefas tediosas de modo adequado. Em outras palavras, foram inventadas para suprimir nossas tendências naturais a explorar e brincar e nos preparar para aceitar uma vida de trabalho. Num mundo que valorizasse a brincadeira ao invés do trabalho, não precisaríamos de tais escolas. Ao invés, permitiríamos a cada pessoa o lúdico, a criatividade e esforços naturais para encontrar sentido na vida que floresce.

O trabalho, praticamente por definição, é alguma coisa que não queremos fazer. Ele interfere com nossa liberdade. Ao ponto de, por precisarmos trabalhar, não sermos livres para escolher nossas atividades e encontrar significado em nossas próprias vidas. A ideia de que pessoas precisem trabalhar para serem felizes está fortemente correlacionada à visão paternalista de que as pessoas não sabem lidar com a liberdade (vejam Danaher, 2016). Esta visão lúgubre da natureza humana foi promovida por séculos e reforçada em escolas no intuito de manter uma força de trabalho plácida.

Descobertas culturais valiosas, criações e invenções dependem do trabalho ? Não.

Pessoas amam descobrir e criar. Somos naturalmente curiosos e lúdicos e descoberta e criação são, respectivamente, produtos da curiosidade e de brincadeiras. Não há razão para se acreditar que menos trabalho e mais tempo para fazermos o que quiséssemos determinaria menos conquistas na ciência, na arte e em outros campos criativos.

As formas específicas que nossa inventividade assume dependem em parte de condições culturais. Entre caçadores-coletores nômades, onde bens materiais em quantidade maior do que alguém pudesse carregar constituíam um estorvo, descobertas eram geralmente sobre o ambiente físico e biológico imediato, dos quais dependiam, e produtos criativos eram tipicamente de natureza efêmera – canções, danças, jogos, histórias, ornamentação corporal e afins. Hoje e sempre desde o advento da agricultura, produtos criativos podem assumir todas estas formas além de invenções materiais que transformam nossos modos básicos de viver.

Quase todos os grandes cientistas, inventores, artistas, poetas e escritores falam de suas realizações como brincadeiras. Einstein, por exemplo, falou de seus progressos em matemática e física teórica como “brincadeira combinatorial”. Ele os fazia por diversão, não por dinheiro, enquanto se sustentava como funcionário de um escritório de patentes. O historiador cultural holandês Johan Huizinga, em seu livro clássico Homo Ludens, argumentou, convincentemente, que a maioria das realizações culturais que enriqueceram vidas humanas – em arte, música, literatura, poesia, matemática, filosofia e mesmo jurisprudência – são derivadas do impulso para brincar. Ele mostrou que conjuntos maiores de tais realizações ocorreram em tempos e lugares nos quais um número significativo de adultos era liberado do trabalho – estando, portanto, livre para brincar num ambiente em que o lúdico era valorizado. Um dos principais exemplos é a antiga Atenas.

Degeneraríamos moralmente sem trabalhar ? Não.

O poeta e filósofo do século 18 Friedrich Schiller escreveu: “O homem só é totalmente humano quando brinca.” Concordo; e parece tão claro tanto para mim quanto para Schiller que parte de nossa humanidade, que floresce no lúdico, é preocupante para nossos pares humanos.

Em nosso mundo preenchido pelo trabalho, caímos muito frequentemente numa cova onde a responsabilidade pelos afazeres supera nossa consideração pelos outros. O trabalho prejudica o tempo e a energia – e às vezes a própria motivação – que seriam devotados a ajudar vizinhos necessitados, a limpar o meio ambiente ou a promover causas voltadas à melhora do mundo para todos. O fato de que tantas pessoas já se engajam em tais causas humanitárias apesar das pressões do trabalho é evidência de que pessoas querem ajudar os outros e fazer do mundo um lugar melhor. A maioria de nós faria mais por nossos pares humanos não fosse o desperdício de tempo e energia, bem como tendências à ganância e à submissão ao poder, que o trabalho cria.

Bandos de caçadores-coletores que, como eu disse, viviam uma vida lúdica são famosos entre antropólogos por sua ânsia pelo compartilhamento e pela ajuda mútua. Outro termo para estas sociedades é sociedades igualitárias – são as únicas sociedades sem hierarquias sociais jamais encontradas. Seu etos, fundado sobre o lúdico, é um que proíbe qualquer pessoa de possuir mais status ou bens do que qualquer outra. Num mundo sem trabalho (ou, pelo menos, sem tanto trabalho) seríamos todos menos preocupados com subir em alguma escada para, em última análise, lugar nenhum; e mais comprometidos com a felicidade de outros – que são, afinal, parceiros de brincadeiras (playmates).

Então, ao invés de tentar tão obstinadamente proteger empregos, por que não resolvemos o problema da distribuição, reduzimos o trabalho e nos permitimos brincar mais ?

Boa pergunta.

* * *

Originalmente publicado no blog Freedom to Learn, de Peter Gray, em Psychology Today, em 9 de outubro de 2017.

Peter Gray é professor pesquisador no Boston College e autor de Free to Learn (Basic Books, 2013) e Psychology (Worth Publishers), um livro-texto atualmente em sua sétima edição. Conduziu e publicou pesquisas em psicologia comparativa, evolucionária, educacional e de desenvolvimento. Estudou na Columbia University e recebeu um Ph.D. em ciências biológicas da Rockfeller University. Seu principal interesse atual são os modos naturais da aprendizagem infantil e o valor da brincadeira durante toda a vida.

 

Refefências

 

Autor, D. H. (2015). Why are there still so many jobs? The history and future of workplace automation.  Journal of Economic Perspectives, 29 (3), 3-30.

 

Danaher (2016).  Will life be worth living in a world without work?  Technological unemployment and the meaning of life.  A ser publicado em Science and Engineering Ethics. Disponível online em http://philpapers.org/archive/DANWLB.pdf.

 

Gowdy, J. (1999). Hunter-gatherers and the mythology of the market. In R.B. Lee & R. Daly (Eds.), The Cambridge encyclopedia of hunters and gatherers, 391-398. Cambridge: Cambridge University Press.

 

Graeber, D. (2013)  On the phenomenon of bullshit jobs.  Strike! Magazine, Aug. 17, 2013.

 

Gray, P. (2009). Play as a foundation for hunter-gatherer social existenceAmerican Journal of Play, 1, 476-522.

 

Gray, P. (2014). The play theory of hunter-gatherer egalitarianism. In D. Narvaez, K. Valentino, A. Fuentes, J. McKenna, & P. Gray (Eds.), Ancestral landscapes in human evolution: culture, childrearing and social wellbeing (pp. 190-213). New York: Oxford University Press.

 

Huizinga, J. (1955; primeira edição alemã publicada em 1944). Homo Ludens: A study of the play-element in culture. Boston: Beacon Press.

 

Ingold, T. (1999). On the social relations of the hunter-gatherer band. In R. B. Lee & R. H. Daly (Eds.), The Cambridge encyclopedia of hunters and gatherers, 399-410. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

 

Keynes, J. M. (1930/1963). Economic possibilities for our grandchildren.  Reimpresso em John Maynard Keynes, essays in persuasion.  New York: Norton.

 

Sahlins, M. (1972). Stone age economics. Chicago: Aldine-Atherton.

Excedentes; ou Sobre como a indústria do entretenimento vem se acomodando à era digital

Talvez um dos maiores efeitos da internet sobre a indústria tenha a ver com o manejo de excedentes. Neste texto, estamos especialmente interessados nas transformações sofridas com o advento da rede pela indústria do entretenimento – a saber, aquela dedicada à reprodução de conteúdos (textos, sons e imagens) em meios físicos (papel impresso, fita magnética ou discos de vinil e acrílicos). Mas vamos por partes.

Toda indústria almeja ao lucro por meio da produção em grande escala de bens altamente padronizados distribuídos a consumidores, até relativamente pouco tempo atrás, tão somente pelo comércio varejista e segundo uma demanda artificialmente turbinada pela publicidade – atividade, aliás, intrinsecamente anti ecológica, responsável por uma larga parcela do valor agregado de tudo o que é anunciado, mas que foge a nosso foco atual. Quero enfatizar, apenas, que, por definição, toda indústria produz mais do que o necessário; então, a propaganda entra em ação em seu intuito original de fomentar artificialmente a demanda por tudo o que é produzido.

As máquinas de fabricar CDs são emblemáticas do excesso industrial. Pelo menos até pouco tempo atrás, quando a fabricação de exemplares de um CD era encomendada, o contrato costumava prever uma quantidade adicional indeterminada, a qual o contratante se comprometia a adquirir, denominada “quebra de máquina” e correspondendo aos itens ainda fabricados depois que a máquina tivesse sido desligada.

Padronização e excesso sempre foram marcas da indústria enquanto a comercialização de produtos dependeu exclusivamente da rede de comércio varejista – fundada, por sua vez, sobre a existência dispersa de uma grande quantidade de estoques, estrategicamente localizados em relação aos mercados consumidores e constituídos por itens ao mesmo tempo duplicados e variados. O abastecimento dessa rede varejista era suficiente para manter a indústria bem ocupada. Quanto maior a duplicação e menor a variedade, maior o lucro – daí o alto apreço pela padronização.

Notem, ainda, que a padronização é inversamente proporcional ao valor do bem produzido. Comparem, por exemplo, os relativamente poucos modelos produzidos por uma empresa automobilística se comparados à miríade de fórmulas distribuídas por cada empresa farmacêutica. Ou então as poucas plantas de imóveis num condomínio em relação à vasta variedade de objetos feitos por um mesmo fabricante do setor de móveis e decorações.

Voltaremos ao problema da padronização mais tarde, ao tratarmos da indústria do entretenimento e sua inegável predileção por celebridades, best sellers e blockbusters.

Sobre a variedade. Certa vez um amigo, respeitado professor de economia e interessado em expandir sua área de atuação (acabou abrindo uma pastelaria) me perguntou, movido por legítima curiosidade científica, qual pizzaria eu escolheria entre duas, uma de cardápio sucinto e a outra, prolixo. Para seu desconcerto, optei sem hesitar pela primeira. Aquilo pareceu contrariar tudo o que pensava sobre comportamento de consumidores. Depois que justifiquei minha escolha como tendo a ver com algo como não precisar perder tempo lendo ou olhando um menu repleto de itens desnecessários, meu amigo desistiu prontamente da enquete, provavelmente me classificando como um consumidor atípico. Estive na inauguração de sua pastelaria, lá pelos anos 80. Não sei que fim levou, nem tampouco me lembro de como era o cardápio.

O que pretendo, com isto, é enfatizar o enorme descompasso inerente à grande padronização exigida pela indústria e a prática comum do varejo, que é a de submeter todo consumidor a uma variedade acachapante, a partir do mito de que a sinestesia resultante do excesso de opções funcionaria como um estímulo ao consumo. Por que me refiro a isto como um mito ? Por várias razões.

Um dos pilares da publicidade é o suposto empoderamento de consumidores por meio do enaltecimento de sua prerrogativa de escolha – ocultando, com isto, que os mesmos não passam de alvos destinados a pagar o máximo que puder ser cobrado por tudo aquilo que é produzido excessivamente. Algum economista já disse que, segundo o credo neoliberal, somos aquilo que compramos; e que, portanto, a exclusão social se dá mais acentuadamente pela perda do poder aquisitivo do que por qualquer outro motivo. Vale examinar melhor estas afirmações. Noutra feita, talvez.

* * *

Tudo o que foi dito acima se refere, evidentemente, à era do varejo, anterior à internet. Nas últimas décadas, a rede mundial se tornou tão pervasiva que toda indústria precisou a ela se adaptar para assegurar a manutenção da distribuição de tudo o que produz. Progressivamente, o comércio varejista foi cedendo lugar a dois novos modos de distribuição que podem ser descritos, respectivamente, como streamming e e-commerce. Como categorizador compulsivo, tratarei, nos próximos parágrafos, dos tipos de bens mais afeitos a um e ao outro, com especial ênfase no primeiro, prontamente abraçado pela parte da indústria mais conhecida como de entretenimento, conteúdo ou, ainda que imprecisamente, cultural (detesto arcabouços semânticos).

Então. O que mais difere os produtos típicos das indústrias editorial e fonográfica em relação às demais commodities é que, enquanto a maioria dos objetos de uso, sejam eles permanentes, consumíveis ou descartáveis (tais como alimentos, remédios, veículos, imóveis, utensílios, eletrodomésticos, eletroeletrônicos e o escambau) tem um valor enormemente variável, determinado tanto por sua utilidade como pelo prestígio relativo do fabricante (ambos manipulados pela publicidade); livros e discos possuem um “valor de prateleira” muito mais homogêneo, tendo pouco a ver com o conteúdo e muito mais com o meio físico no qual são prensados ou impressos. Assim, CDs custam praticamente o mesmo independentemente da música que contém, bem como livros tem seu preço largamente determinado pelo número de páginas, com coeficientes diferenciais relativos à qualidade do papel ou da encadernação.

Se antes todos os produtos, tanto da indústria de commodities como do entretenimento, eram vendidos em lojas, a internet impôs uma fratura em relação ao tipo de comercialização. Da seguinte maneira. Enquanto objetos físicos – que precisam chegar, por meio de intermediários, do fabricante ao consumidor – se tornaram a província por excelência do e-commerce, com seus estoques reduzidos e a possibilidade de supply on demand; conteúdos peculiares à indústria do entretenimento passíveis de conversão em bits, tais como textos, sons e imagens, iniciaram um processo de migração para sistemas de streamming.

Aqui, devo frustrar quem espera de mim alguma declaração peremptória do tipo “o futuro do livro e do disco”. Por várias razões.

Primeiro por que, como já disse aqui, plataformas de streamming são fortemente condicionadas por custos de servidores, os quais ainda impõem a seus proprietários demandas mínimas para que qualquer coisa seja disponibilizada – virtualmente excluindo, com isto, qualquer possibilidade de distribuição de conteúdos de interesse mais restrito.

Segundo, por que o ato de ler um texto impresso de extensão superior ao que cabe numa tela ainda é tanto prazeroso (um mérito subjetivo) quanto prático (este, inegavelmente objetivo) – já que o manuseio de um livro, devidamente anotado, é muito mais recursivo do que, por exemplo, avançarmos e recuarmos ao longo de um texto digital por meio de comandos em um teclado.

É preciso, no entanto, reconhecer que, assim como as melhores lojas de discos já fecharam suas portas, o varejo de livros também vive um significativo encolhimento.  Sintomas ? As duas lojas de partituras musicais (um setor editorial bem específico) de Nova Iorque já encerraram atividades. Grandes lojas de discos tiveram o mesmo destino. Vejam os casos da Tower Records (EUA) e da Modern Sound (RJ), bem como outrora pujantes seções de CDs em mega livrarias que, com o passar do tempo, minguaram ou simplesmente sumiram.

* * *

E chegamos, finalmente, à questão do colecionismo. Mídias  impressas ou prensadas (notem que a distinção entre estas duas palavras não existe em inglês) são particularmente afeitas às coleções – pois além de caberem perfeitamente, em razão da alta padronização de tamanhos, em prateleiras fáceis de serem projetadas; também cabem melhor no bolso de colecionadores, já que seu valor inicial (não falo, é claro, de itens raros, fora de catálogo) costuma, como já foi dito acima, ser bem acessível.

Coleções respeitáveis podem conter muito mais livros do que uma pessoa pode ler em toda a sua vida, ou discos que seria capaz de ouvir. Por isso mesmo, sua índole pode ser um mistério para os não colecionadores. Reza uma anedota (bem velha, a julgar pela menção à fita de áudio) que um audiófilo toca cada disco não mais do que três vezes: a primeira, para conhecer; a segunda, para gravar; a terceira, para se despedir.

Exageros à parte, há coleções monumentais, que desafiam qualquer lógica, mas que nos interessam enquanto emblemáticas do excesso inerente às indústrias editorial e fonográfica em tempos anteriores à internet. É bem fácil se intuir que executivos destas indústrias, ao conferir seu imprimatur a qualquer conteúdo, estivessem plenamente cientes da enorme quantidade de cópias daqueles discos e livros que não seriam vendidas – destinadas, portanto, a morrer, inicialmente, nas prateleiras das lojas de lançamentos; depois, nos saldões e, finalmente, arrematadas em lotes por sebos ou algum “colecionador” excêntrico.

O prédio da Strand Book Store, na Broadway

Um destes casos emblemáticos é a Strand Book Store, no Greenwich Village, em Nova Iorque, da qual já falei aqui. Com um estoque estimado em 8 milhões de livros, é tida como o maior sebo do mundo. Só que o que mais chama a atenção de quem a adentra não são, como em outros sebos, os livros usados. Pois na Strand a primeira coisa que se oferece ao olhar do cliente são, como numa livraria de “lançamentos”, impecáveis pilhas de exemplares novos de um mesmo livro, luxuosamente encadernados, de arte em sua maioria, por uma fração de seus preços iniciais. Como a Strand consegue isto ? Simples. Há (ou, pelo menos, havia) em Nova Iorque uma animada cultura de resenhas. Existe mesmo uma publicação periódica, o New York Book Review, inteiramente a ela dedicada. Isto quer dizer que qualquer editor em língua inglesa com alguma pretensão ao mercado livreiro deve distribuir aos críticos novaiorquinos dezenas, senão centenas, de exemplares de cortesia (ou, como são conhecidos por lá, complimentary copies) de qualquer novidade – a maioria dos quais, no entanto, sequer é aberta e acaba sendo adquirida pela Strand a preços de banana.

Vista do interior da Strand Book Store

Outro caso, bem mais próximo, é o de um acumulador, residente em São Paulo, que adquire lotes de discos de vinil de empresas que se retiram do mercado. Embora promova um sério trabalho de catalogação, seus armazéns contém quantidades imponderáveis de itens repetidos, chegando a um total impressionante de mais de 4 milhões e meio de LPs. Daí as aspas em torno da palavra “colecionador” aí em cima. Qual seu propósito ? Sinceramente, não sei. Supondo que seu imenso acervo seja preservado após sua morte, deve permanecer como um colossal monumento ao excesso ambientalmente obsceno inerente à indústria.

O “conecionador” Zero Freitas, de São Paulo, diante de uma pequena fração de seu acervo

A maior parte da riqueza não resulta de trabalho árduo. Foi acumulada como resultado do ócio e da improdutividade.

É hora de chamar a crise imobiliária do que ela realmente é: a maior transferência de riqueza jamais vista.

 Por Laurie Macfarlane

traduzido de Evonomics, originalmente publicado em Open Democracy.

13 de novembro de 2017

Uma das maiores afirmações do capitalismo é que as pessoas são recompensadas de acordo com seu esforço e produtividade. Outra é que a economia não é um jogo de soma zero. A beleza de uma economia capitalista, somos ensinados, é que pessoas que trabalham duro podem enriquecer sem tornar outros mais pobres.

Mas como isto se traduz na moderna Grã-Bretanha, berço do capitalismo e de muitos de seus primeiros teóricos ? Semana passada, o Office for National Statistics (ONS) divulgou novos dados rastreando como a riqueza evoluiu no tempo. No papel, o Reino Unido de fato se tornou muito mais rico em décadas recentes. A riqueza líquida mais do que triplicou desde 1995, aumentando ca. 7 trilhões de libras. Isto é equivalente a um aumento médio de quase 100.000 libras por pessoa. Dados impressionantes. Mas de onde veio toda essa riqueza, e quem dela se beneficiou ?

Mais de 5 trilhões de libras, ou três quartos de todo o crescimento, é contabilizado como aumento no valor das moradias – outro nome para o estoque imobiliário do Reino Unido. O Office for National Statistics explica que “isto se deve em grande parte mais ao aumento do preço dos imóveis do que a uma mudança no volume de moradias”. Isoladamente isto não é surpreendente. Sempre nos falam da importância de “colocar um pé na escada da propriedade”. O mercado imobiliário é há muito visto como uma fonte perene de riqueza.

Mas o preço de uma propriedade é feito de dois componentes distintos: o preço do prédio em si, e o preço do terreno onde a estrutura foi construída. Neste ano o ONS separou estes dois componentes pela primeira vez, e os resultados são surpreendentes.

Em apenas duas décadas o valor de mercado da terra quadruplicou, aumentando a riqueza registrada em mais de quarto trilhões de libras. A força motriz por trás dos preços crescentes dos imóveis – e da riqueza crescente do Reino Unido – rapidamente elevou o preço da terra.

Para os que possuem propriedades, isto proporcionou enormes benefícios. De acordo com a Resolution Foundation, proprietários de moradias nascidos nos anos 40 e 50 do século passado ganharam sem trabalhar uma fortuna de 80.000 libras somente entre 1993 e 2014. No início dos anos 2000, o crescimento do valor dos imóveis foi tão grande que 17% dos adultos em idade de trabalho ganharam mais com suas casas do  que com seu trabalho.

Semana passada The Times reportou que somente durante os últimos três meses, “baby boomers” converteram 850 milhões de libras de riqueza imobiliária em dinheiro usando produtos de “equity release” (*) – o índice mais elevado desde que começou a ser monitorado. Um terço utilizou o dinheiro para comprar carros, ao passo que mais de um quarto o usou para custear férias. Outros estão escolhendo comprar mais propriedades: o Chartered Institute of Housing descreveu como o mercado de comprar para alugar está sendo alimentado por imóveis antigos usando sua riqueza imobiliária para comprar mais propriedade e a alugando para aqueles que não conseguem colocar um pé da escada da propriedade. É aqui que encontramos o lado negro do boom imobiliário.

À medida que os preços dos imóveis continuaram a subir e a lacuna entre preços de imóveis e rendimentos de trabalho cresceram, o custo da propriedade imobiliária se tornou progressivamente proibitivo. Enquanto em meados dos anos 90 famílias de baixa e média renda podiam oferecer uma entrada como novos compradores depois de economizarem por cerca de 3 anos, hoje as mesmas famílias levam 20 anos para economizar para uma entrada. Muitos se viram progressivamente sem outra escolha a não ser alugar. Para aqueles aprisionados no mercado de aluguel, a proporção de vencimentos gastos com custos de moradia subiu de em torno de 10% em 1980 para 36% hoje. Ao contrário do que acontece com proprietários de imóveis, a maioria não possui riqueza em ativos resgatáveis para custear carros novos e férias.

Na Grã-Bretanha, temos que encarar a verdade sobre os trilhões de libras de riqueza acumulada por meio do mercado imobiliário em décadas recentes: esta riqueza veio direto dos bolsos daqueles que não possuem propriedades.

Quando o valor de um imóvel sobe, a capacidade produtiva total da economia não se altera por que nada foi produzido: a elevação se constitui meramente no aumento do valor do terreno em que o imóvel foi erguido. Sabemos desde os dias de Adam Smith e David Ricardo que a terra não é uma fonte de riqueza mas de aluguel – um meio de extrair riqueza dos outros. Ou, como diz Joseph Stiglitz, “obter uma fatia maior da torta ao invés de aumentar o tamanho da torta”. A verdade é que muito da riqueza acumulada em décadas recentes foi ganha às expensas daqueles que verão mais de seus rendimentos devorados por aluguéis mais altos e maiores pagamentos de hipotecas. Esta riqueza não foi “criada” – ela foi roubada de gerações futuras.

Preços de imóveis são agora em média quase oito vezes os salários anuais, i.e., mais do que o dobro do valor de 20 anos atrás. É improvável que preços de imóveis ultrapassem rendimentos de trabalho na mesma proporção pelos próximos 20 anos. As últimas décadas geraram uma transferência de riqueza única que não deve se repetir. Enquanto os principais beneficiários disto foram as gerações mais velhas, eventualmente isto será passado às próximas via herança ou transferência. O “Banco de Mamãe e Papai” já se tornou o nono maior credor hipotecário. O resultado não é apenas uma crescente fratura entre gerações, mas uma divisão de classes entrincheirada entre aqueles que possuem propriedade (ou alegam possuí-la) e aqueles que não as possuem.

Contabilidade confusa e economia irresponsável ensejaram este roubo. As contas nacionais governamentais registram a elevação do valor imobiliário como novas riquezas, ignorando os custos impostos sobre outros na sociedade – particularmente os jovens e aqueles por nascer. Ainda assim economistas saúdam a inflação do preço imobiliário como um sinal de força econômica.

O resultado é um mundo bem diferente daquele descrito em livros-texto econômicos. A maior parte da “riqueza” de hoje não é o resultado do empreendedorismo e do trabalho árduo – mas foi acumulada por meio do ócio e da improdutividade. Longe do jogo de soma positiva que o capitalismo pretende ser, temos um sistema no qual a maior parte da riqueza é ganha às expensas dos outros. Como John Stuart Mill escreveu já em 1848:

“Se alguns de nós enriquecemos durante o sono, de onde acreditamos que essa riqueza vem ? Ela não se materializa a partir do ar. Ela não vem sem custar a alguém, outro ser humano. Ela vem dos frutos do trabalho de outros, os quais eles não recebem.”

A crise imobiliária britânica é uma bagunça complicada. Consertá-la requer um plano de longo prazo e uma abordagem totalmente nova das políticas. Enquanto, todavia, isto não acontece, vamos chamá-la daquilo que realmente é: a maior transferência de riqueza jamais vista.

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Laurie Macfarlane é Editor de Economia em Open Democracy e Associate Fellow no Institute for Innovation and Public Purpose do University College de Londres. Antes disto, foi Economista Senior na New Economics Foundation. É co-autor do livro Rethinking the Economics of Land and Housing, aclamado pela crítica.

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(*) Equity release é um meio de se reter o uso de um imóvel ou outro objeto que tenha algum valor como capital, obtendo ao mesmo tempo uma soma ou um fluxo regular de rendimento utilizando o valor da casa.

A “pegadinha” é que o provedor do rendimento deve ser ressarcido num estágio futuro, usualmente quando o proprietário do imóvel morre. Portanto, equity release é particularmente útil para pessoas de idade que não pretendem ou não podem deixar um grande espólio a herdeiros ao morrerem.

A quem interessa o saldo positivo da balança comercial ou o crescimento da produção industrial ?

Uma das principais diferenças entre governos de esquerda e de direita talvez seja a ênfase publicitária que dão aos índices econômicos e de desenvolvimento. Isto é compreensível e esperado, já que a empatia dos primeiros é primordialmente pelo povo enquanto a dos últimos, pelo capital empreendedor.

Assim, enquanto antes do impeachment de Dilma as joias da coroa da propaganda oficial eram as taxas de desemprego, fome e analfabetismo, hoje o que o Planalto mais apregoa são dados revestidos de otimismo em relação à balança comercial, à produção industrial e às bolsas de valores. Aqueles hoje no poder só não falam mais de inflação e taxas de juros e câmbio por que a evolução de tais índices econômicos derivativos já vinham bem desde antes da deposição de Dilma – não podendo, portanto, ser utilizados como propaganda do governo atual em detrimento do anterior.

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De uns tempos para cá, já se tornou um lugar comum vermos nos noticiários escândalos de corrupção contrabalanceados por notícias auspiciosas em relação à balança comercial, à produção industrial e às bolsas de valores, como se tais índices fossem automaticamente bons para o país. Será ? Quando o país vende mais do que compra; quando a indústria produz mais ou quando sobem os preços especulativos das ações, isto é bom para quem ? Como a parte da população que não aufere ganhos de capital (i.e., a maioria) se beneficia com isto ? Ora, tais supostos avanços não fazem a menor diferença na vida das hordas de famintos, analfabetos e desempregados abaixo da linha de pobreza. Então, é preciso pensar antes de comemorar.

A euforia do crescimento econômico serve, principalmente, para mascarar o desempenho sofrível de índices de desenvolvimento humano em razão do desmonte de direitos trabalhistas e da rede previdenciária, bem como da desoneração progressiva, por parte do estado, de serviços anteriormente prestados.

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Um pouco desta ciranda de índices é revelada num interessante artigo, ainda que proselitista (pró-PT), publicado no jornal Nexo. Nele, tomamos conhecimento, entre outras coisas, de um obscuro coeficiente desenvolvido pelo estatístico italiano Corrado Gini para quantificar a desigualdade na distribuição de renda. Observando seu desempenho, notamos que, ainda que o mesmo tenha recuado consistentemente sob os governos de Lula e Dilma, o Brasil ainda está entre os lugares mais desiguais do mundo. E tudo indica que, a persistir a orientação econômica de nossos governos, a desigualdade tende a se acirrar.

Ainda é muito cedo para avaliarmos o impacto da breve Era Temer no conjunto destes índices. Só que, depois das eleições de 2018, talvez seja tarde demais – pois se leva, geralmente, muitos anos, ou vários mandatos presidenciais, para se estabelecer ou reverter qualquer tendência na evolução destes números. Os meses que nos separam do pleito são, então, decisivos para que a nação opte pela primazia do trabalho sobre o capital ou vice-e-versa. Ou, ainda, se legaremos a nossos filhos um país mais igualitário ou, como parece estar se delineando, de escravos e milionários.

A Ascensão do Neoliberalismo foi a Causa Principal da Desigualdade Extrema ?

Colapso financeiro, desastre ambiental e mesmo a ascensão de Donald Trump – o neoliberalismo contribuiu para tudo isto.

traduzido de um artigo publicado por George Monbiot em Evonomics

Imaginem se o povo da União Soviética jamais tivesse ouvido falar em comunismo. A ideologia que domina nossas vidas não tem, para a maioria de nós, um nome. Mencione-a numa conversa e terá como resposta um dar de ombros. Mesmo que seus interlocutores tenham ouvido o termo antes, terão que lutar para lhe definir. Neoliberalismo: você sabe o que significa ?

Seu anonimato é tanto um sintoma quanto a causa de seu poder. Teve um papel central numa notável variedade de crises: o colapso financeiro de 2007-2008; a evasão de poder e riqueza, dos quais os Panama Papers nos oferecem um mero vislumbre; o lento colapso da saúde e da educação públicas; o ressurgimento da pobreza infantil; a solidão epidemica; o colapso dos ecossistemas e a ascensão de Donald Trump. Mas respondemos a estas crises como se elas surgissem isoladas, aparentemente sem nos darmos conta de que todas foram catalisadas ou exacerbadas pela mesma filosofia coerente; uma filosofia que tem – ou teve – um nome. Que poder pode ser maior do que o de operar sem um nome ?

O neoliberalismo se tornou tão onipresente que frequentemente não o reconhecemos como uma ideologia. Parecemos aceitar a proposição de que esta fé utópica, milenar, descreve uma força neutra; uma espécie de lei biológica, como a teoria darwiniana da evolução. Mas a filosofia emergiu como uma tentativa consciente de remodelar a vida humana e deslocar o lugar do poder.

O neoliberalismo vê a competição como a característica dominante das relações humanas. Ele define cidadãos como consumidores, cujas escolhas democráticas são melhor exercidas por meio de compras e vendas, num processo que premia o mérito e pune a ineficiência. Ele sustenta que “o mercado” aufere benefícios que jamais poderiam ser alcançados através de planejamento.

Tentativas de limitar a competição são tratadas como inimigas da liberdade. Impostos e regulamentação devem ser minimizados e serviços públicos, privatizados. A organização do trabalho e a negociação coletiva por sindicatos são retratados como distorções de mercado que impedem a formação de uma hierarquia natural de vencedores e perdedores. A desigualdade é redefinida como virtuosa: uma recompensa pela utilidade e uma geradora de riqueza, que se espalha para enriquecer a todos. Esforços para criar uma sociedade mais igualitária são tanto improdutivos como moralmente corrosivos. O mercado garante que todos recebem o que merecem.

Internalizamos e reproduzimos estas crenças. Os ricos persuadem a si mesmos de que adquiriram sua riqueza através de mérito, ignorando as vantagens – tais como educação, herança e classe – que possam ter lhes ajudado a assegurá-la. Os pobres começam a maldizer a si próprios por seus fracassos, mesmo quando pouco podem fazer para alterar as ciscusntâncias.

Esqueça o desemprego estrutural: se você não tem trabalho é por que não é empreendedor. Esqueça o custo impossível da habitação: se seu cartão de crédito estourou, você é irresponsável e imprevidente. Esqueça se seus filhos não têm mais um pátio na escola: se eles engordam, é culpa sua. Num mundo governado por competição, os que ficam para trás são definidos e auto-definidos como perdedores.

Entre os resultados, conforme Paul Verhaeghe documenta em seu livro What About Me ?, temos epidemias de maus tratos auto-infligidos, desordens alimentares, depressão, solidão, ansiedade de performance e fobia social. Talvez não surpreenda que a Grã-Bretanha, na qual a ideologia neoliberal foi mais rigorosamente aplicada, seja a capital européia da solidão. Hoje, somos todos neoliberais.

O termo neoliberalismo foi cunhado num encontro em Paris em 1938. Entre os delegados havia dois homens que vieram a definir a ideologia: Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Ambos exilados da Austria, viam a social democracia, exemplificada pelo New Deal de Franklin Roosevelt e pelo gradual desenvolvimento do estado de bem-estar social britânico, como manifestações de um coletivismo que ocupavam o mesmo espectro que o nazismo e o comunismo.

Em O Caminho da Servidão, publicado em 1944, Hayek argumentou que o planejamento governamental, por esmagar o individualismo, levaria inexoravelmente ao controle totalitário. Como o livro de Mises Burocracia, O Caminho da Servidão foi amplamente lido. Chegou à atenção de algumas pessoas muito ricas, que viram na filosofia uma oportunidade de se livrarem de regulamentações e impostos. Quando, em 1947, Hayek fundou a primeira organização que disseminaria a doutrina do neoliberalismo, a Mont Pelerin Society, foi sustentado financeiramente por milionários e suas fundações.

Com sua ajuda, começou a criar o que Daniel Stedman Jones descreve em Masters of the Universe como “uma espécie de internacional neoliberal”: uma rede transatlântica de acadêmicos, empresários, jornalistas e ativistas. Os apoiadores ricos do movimento custearam uma série de think tanks que redefiniriam e promoveriam a ideologia. Entre eles estavam o American Enterprise Institute, a Heritage Foundation, o Cato Institute, o Institute of Economic Affairs, o Centre for Policy Studies e o  Adam Smith Institute. Eles também patrocinaram posições e departamentos acadêmicos, particularmente nas universidades de Chicago e Virginia.

Conforme evoluiu, o neoliberalismo se tornou mais visível. A concepção de Hayek de que governos deveriam regular a competição para prevenir a formação de monopólios deu lugar, entre apóstolos americanos como Milton Friedman, à crença de que o poder monopolístico poderia ser visto como uma recompensa pela eficiência.

Algo mais aconteceu durante esta transição: o movimento perdeu seu nome. Em 1951, Friedman se contentava em descrever a si próprio como um neoliberal. Mas logo depois disto, o termo começou a desaparecer – estranhamente, mesmo quando a ideologia se tornou mais nítida e o movimento mais coerente. O nome perdido não foi substituído por nenhum termo alternativo.

De início, apesar de seu financiamento generoso, o neoliberalismo permaneceu à margem. O consenso de pós-guerra era quase universal: as prescrições econômicas de John Maynard Keynes foram amplamente aplicadas. Pleno emprego e alívio da pobreza eram objetivos comuns tanto dos EUA como em grande parte da Europa ocidental. As maiores taxas de impostos eram altas e governos buscavam ganhos sociais sem embaraço, desenvolvendo novos serviços públicos e redes de seguridade.

Mas nos anos 70, quando as políticas keynesianas começaram a se desintegrar e crises econômicas eclodiram em ambos os lados do Atlântico, ideias neoliberais começaram a se popularizar. Como salienta Friedman, “quando chegou o tempo de mudar… havia uma alternativa pronta para ser abraçada”. Com a ajuda de jornalistas e conselheiros políticos simpáticos à ideia, elementos de neoliberalismo, especialmente no que tange a prescrições para política monetária, foram adotados pela administração de Jimmy Carter nos EUA e pelo governo de Jim Callaghan na Grã-Bretanha.

Depois que Margaret Thatcher e Ronald Reagan assumiram o poder, veio o restante do pacote: reduções maciças de impostos para os ricos, desmantelamento dos sindicatos, desregulamentação, privatização, terceirização e competição nos serviços públicos. Através do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, do Tratado de Maastricht e da Organização Mundial do Comércio, políticas neoliberais foram impostas, muitas vezes sem consentimento democrático, em grande parte do mundo. Mais notória foi sua adoção entre partidos que outrora pertenceram à esquerda: trabalhistas (na Inglaterra) e democratas (nos EUA), por exemplo. Como observa Stedman Jones, “é difícil pensar em outra utopia que tenha sido tão completamente realizada”.

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Pode parecer estranho que uma doutrina que prometa escolha e liberdade tenha sido promovida com o slogan “não há alternativa”. Todavia, como disse Hayek  numa visita ao Chile de Pinochet (uma das primeiras nações nas quais o programa foi abrangentemente aplicado),  “minha preferência pessoal se inclina mais para uma ditadura liberal do que para um governo democrático sem liberalismo”. A liberdade que neoliberais oferecem, que parece tão sedutora quando expressa em termos gerais, acaba se revelando uma liberdade para os grandes, não para os pequenos.

Se livrar de sindicatos e negociações coletivas significa ter liberdade para cortar salários. Se livrar de regulamentação significa ter liberdade para envenenar rios, expor trabalhadores ao perigo, cobrar taxas de juros desiguais e criar instrumentos financeiros exóticos. Se livrar de impostos significa ficar livre da distribuição de riqueza que tira pessoas da pobreza.

Conforme Naomi Klein documenta em The Shock Doctrine, teóricos neoliberais defendem o uso de crises para impor políticas impopulares enquanto as pessoas estão distraídas – como, por exemplo, após o golpe de Pinochet, a guerra do Iraque e o furacão Katrina, descrito por Friedman como “uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional em Nova Orleans”.

Quando políticas neoliberais não podem ser impostas domesticamente, são impostas internacionalmente, por meio de tratados comerciais que incorporam “assentamentos de disputa entre investidores e estado”: tribunais no exterior nos quais empresas podem pressionar pela remoção de proteções sociais e ambientais. Quando parlamentares votaram para restringir a venda de cigarros, proteger fontes de água de companhias de mineração, congelar custos de energia ou impedir firmas farmacêuticas de enganar o estado, corporações recorreram, muitas vezes com sucesso. A democracia é reduzida a um teatro.

Outro paradoxo do neoliberalismo é que a competição universal depende de quantificação e comparação universais. O resultado é que trabalhadores, desempregados e serviços públicos de toda natureza estão sujeitos a regimes rígidos e mesquinhos de avaliação e monitoramento, projetados para identificar os vencedores e punir os perdedores. Então, a doutrina proposta por Von Mises que nos livraria do pesadelo burocrático do planejamento central na verdade criou um.

O neoliberalismo não foi urdido como um esquema auto-sustentável, mas rapidamente se tornou um. O crescimento econômico foi significativamente mais lento na era neoliberal (desde 1980 na Grã-Bretanha e nos EUA) do que nas décadas anteriores; mas não para os muito ricos. A desigualdade na distribuição tanto de renda como de riqueza, depois de 60 anos de declínio, subiu rapidamente nesta era, devido ao enfraquecimento dos sindicatos, às reduções de impostos, ao aumento dos aluguéis, à privatização e à desregulamentação.

A privatização e mercantilização de serviços públicos como os de energia, água, trens, saúde, educação, rodovias e prisões permitiu que empresas colocassem postos de pedágio diante de ativos essenciais e cobrassem aluguel, tanto de cidadãos como de governos, por seu uso. Aluguel é outra palavra para rendimento não auferido. Quando você paga um preço inflacionado por uma passagem de trem, apenas uma parte da tarifa reembolsa os operadores pelo dinheiro gasto em combustível, salários, estoques rotativos e outros desembolsos. O restante reflete o fato de que somos todos reféns.

Aqueles que possuem e operam os serviços privatizados ou semi-privatizados no Reino Unido fazem fortunas estupendas investindo pouco e cobrando muito. Na Rússia e na Índia, oligarcas adquiriram ativos estatais em liquidações. No México, Carlos Slim obteve o controle sobre o serviço de quase todos os telefones fixos e móveis e logo se tornou o homem mais rico do mundo.

Financialização, como observa Andrew Sayer em Why We Can’t Afford the Rich, teve um impacto similar. “Como o aluguel,” argumenta, “juros são… rendimentos obtidos sem trabalho que aumentam o capital sem esforço algum”. Conforme pobres se tornam mais pobres e ricos, mais ricos, ricos adquirem controle crescente sobre outro ativo crucial: o dinheiro. Surpreendentemente, o pagamento de juros é uma transferência de dinheiro dos pobres para os ricos. À medida em que o valor da propriedade e a remoção de custeio estatal sobrecarregam as pessoas com dívidas (pensem na substituição de bolsas estudantis por empréstimos estudantis), bancos e seus executivos lavam as mãos.

Sayer argumenta que as últimas quatro décadas se caracterizaram pela transferência de riqueza não só do pobre para o rico, mas entre os tipos de riqueza: daqueles que fazem dinheiro produzindo novos bens ou serviços para aqueles que fazem dinheiro controlando ativos existentes e colhendo aluguel, juros ou ganhos de capital. O rendimento obtido foi suplantado pelo rendimento não auferido.

Políticas neoliberais são assediadas em toda a parte por fracassos do mercado. Não apenas os bancos são grandes demais para quebrar, como também as empresas hoje encarregadas de prover serviços públicos. Como aponta Tony Judt em Ill Fares the Land, Hayek esqueceu que não se pode permitir que serviços nacionais essenciais entrem em colapso – o que significa que a competição não pode seguir seu curso. Empresas ficam com os lucros; o estado, com os riscos.

Quanto maior o fracasso, mais extrema se torna a ideologia. Governos usam crises neoliberais como desculpa e oportunidade para cortar impostos, privatizar serviços públicos remanescentes, desmontar a rede de seguridade social, afrouxar a regulamentação sobre empresas e regular ainda mais os cidadãos. O estado que odeia a si próprio hoje crava seus dentes em todo órgão do setor público.

Talvez o mais perigoso impacto do neoliberalismo não seja as crises econômicas que causou, mas sua crise potencial. À medida em que o domínio do estado é reduzido, nossa possibilidade de mudar o curso de nossas vidas por meio do voto também diminui. Ao invés, diz a teoria neoliberal, as pessoas podem exercer escolha gastando. Mas alguns têm mais para gastar do que outros: na grande democracia de consumidores ou acionistas, votos não são igualmente distribuídos. O resultado é o desempoderamento dos pobres e da classe média. À medida em que partidos de direita e da esquerda anterior adotam políticas neoliberais similares, desempoderamento se transforma em privação de emancipação. Um grande número de pessoas foram excluídas da política.

Chris Hedges diz que “movimentos fascistas erguem suas bases não dos politicamente ativos, mas dos politicamente inativos – os “perdedores”que sentem, com frequência corretamente, não ter voz ou papel a desempenhar no establishment político. Quando o debate político não mais nos diz respeito, nos tornamos sensíveis, ao invés, a slogans, símbolos e sensações. Para os admiradores de Trump, por exemplo, fatos e argumentos parecem irrelevantes.

Judt explicou que desde que a espessa malha de interações entre as pessoas e o estado foi reduzida a nada além de  autoridade e obediência, a única força a nos ligar ao estado ficou sendo o poder. É mais provável que o totalitarismo temido por Hayek emerja quando governos, tendo perdido a autoridade moral que emana do provimento de serviços públicos, sejam reduzidos a “engavetamentos, ameaças e, por fim, coerção de pessoas à obediência.”

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Como o comunismo, o neoliberalismo é o deus que fracassou. Só que a doutrina zumbi cambaleia, e uma das razões para isto é seu anonimato. Ou melhor, um aglomerado de anonimatos.

A doutrina invisível da mão invisível é promovida por apoiadores invisíveis. Bem devagar, começamos a descobrir os nomes de alguns deles. Descobrimos que o Institute of Economic Affairs, que argumentou vigorosamente na mídia contra uma maior regulamentação da indústria do tabaco, foi secretamente bancado pela British American Tobacco desde 1063. Descobrimos que Charles and David Koch, dois dos homens mais ricos do mundo, fundaram o instituto que estabeleceu o movimento Tea Party. Descobrimos que Charles Koch, ao fundar um de seus think tanks, disse que “para evitar críticas indesejadas, o modo como a organização é controlada e dirigida não deve ser amplamente divulgado”.

As palavras usadas pelo neoliberalismo frequentemente ocultam mais do que elucidam. “O mercado” soa como um sistema natural que deve nos afetar igualmente, como a força da gravidade ou a pressão atmosférica. Mas ele é repleto de relações de poder. O que “o mercado quer” tende a significar o que empresas e seus donos querem. “Investimento”, como observa Sayer, significa duas coisas bem diferentes. Uma é o custeio de atividades produtivas e socialmente úteis, outra é a aquisição de ativos existentes para cultivá-los para aluguel, juros, dividendos e ganhos de capital. Usar a mesma palavra para atividades diferentes “camufla as fontes de riqueza”, nos levando a confundir a extração de riquezas com a criação das mesmas.

Um século atrás, novos ricos foram desacreditaddos por aqueles que herdaram suas fortunas. Empreendedores buscavam aceitação social se passando por pensionistas. Hoje, a relação se inverteu: pensionistas e herdeiros se travestem de empreendedores. Reivindicam terem obtido rendimentos que jamais auferiram.

Estes anonimatos e confusões se articulam com a a falta de nome e de lugar do capitalismo moderno: o modelo de franquia que assegura que trabalhadores não saibam para quem labutam; empresas registradas sob uma rede de regimes secretos offshore tão complexa que nem a polícia consegue descobrir que proprietários se beneficiam; acordos tributários que enganam governos; produtos financeiros que ninguém entende.

O anonimato do neoliberalismo é ferozmente guardado. Aqueles influenciados por Hayek, Mises e Friedman tendem a rejeitar o termo, sustentando – com alguma justiça – que o mesmo é hoje usado apenas pejorativamente. Mas não oferecem substituto. Alguns descrevem a si próprios como liberais clássicos ou libertários, mas estas descrições são tanto confusas como auto-apagáveis, à medida em que sugerem que não há nada de novo em O Caminho da Servidão, Burocracia e na obra clássica de Friedman, Capitalismo e Liberdade.

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Por tudo isto, há algo admirável sobre o projeto neoliberal, ao menos em seus estágios iniciais. Era uma filosofia distinta e inovadora promovida por uma rede coerente de pensadores e ativistas com um plano claro de ação. Era paciente e persistente. O Caminho da Servidão se tornou a rota para o poder.

O triunfo do neoliberalismo também reflete a falência da esquerda. Quando a economia do laissez-faire levou à catástrofe em 1929, Keynes desenvolveu uma teoria econômica abrangente para substituí-la. Quando a gestão de demanda keynesiana chegou ao limite nos anos 70, havia uma alternativa pronta. Mas quando o neoliberalismo se desintegrou em 2008 não havia nada. É por isto que os zumbis caminham. A esquerda e o centro não produziram nenhuma estrutura geral de pensamento econômico para os anos 80.

Toda invocação de Lord Keynes é uma admissão de fracasso. Propor soluções keynesianas para crises do século 21 é ignorar três problemas óbvios. É difícil mobilizar pessoas em torno de velhas ideias; as falhas expostas nos anos 70 persistem até hoje; e, mais importante, elas (as soluções keynesianas) não têm nada a dizer sobre nosso maior dilema: a crise ambiental. O keynesianismo funciona estimulando a demanda por consumo para promover crescimento econômico. Demanda por consumo e crescimento econômico são os motores da destruição ambiental.

O que a história tando do keynesianismo como do neoliberalismo mostra é que não é suficiente se opor a um sistema falido. Uma alternativa coerente precisa ser proposta. Pois para trabalhistas, democratas e a esquerda mais ampla, a tarefa central deve ser desenvolver um programa Apolo econômico – uma tentativa consciente de projetar um novo sistema, adaptado às demandas do século 21.

Originalmente publicado aqui.

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George Monbiot é autor dos best-sellers Feral: rewilding the land, sea and human life, The Age of Consent: A Manifesto for a New World Order e Captive State: The Corporate Takeover of Britain, bem como dos livros de viagem investigativos Poisoned Arrows, Amazon Watershed and No Man’s Land. Seu ultimo livro é How Did We Get Into This Mess?: Politics, Equality, Nature, publicado por Verso Books.

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NT: Para esta tradução, contei com a inestimável ajuda de Denise Bottmann.