A arte da discórdia

As redes sociais vem se tornando cada vez mais o lugar por excelência para o ódio. Fraturas maniqueístas entre bons e maus, mocinhos e bandidos e tantas outras que podem ser resumidas como os que concordam comigo e os outros que de mim discordam cada vez mais determinam a adição e a exclusão de amigos e seguidores – resultando, na maioria das vezes, em bolhas nas quais likeminded people chovem no molhado reforçando convicções próprias e troçando ou trolando membros de campos ideológicos opostos. Como ação persuasiva e/ou transformadora, tal sorte de interação não passa, portanto, de uma colossal perda de tempo.

Justamente no duplo intuito de refinar minhas posições e, ao mesmo tempo, tentar influenciar aqueles que pensam de modo diferente, mantenho, entre meus interlocutores virtuais, muitos que assumem posições diversas ou mesmo diametralmente opostas às minhas, por vezes até se comportando como trolls, em questões tanto políticas como estéticas. Mas só isto não é suficiente. Pois, para se lograr estabelecer um diálogo minimamente proveitoso com campos adversários, é preciso aderir a um conjunto bem específico de práticas e princípios, do qual tratarei neste texto.

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Nativos digitais começam a bater boca (devo dizer bater teclas ?) na web muito antes de terem experimentado a dinâmica de uma discussão presencial. Entendemos, no entanto, que debates cara-a-cara possuem uma inegável função formativa no que tange a duas regras pétreas que deveriam nortear qualquer embate verbal, a saber,

jamais falar mais alto do que o outro; e

jamais interromper uma fala do outro antes que ele lhe tenha passado a palavra.

Os dois expedientes acima, que podem ser agrupados sob o pobre expediente de tentar ganhar uma  discussão “no grito”, são, lamentavelmente, bastante comuns. Examinemos, pois, um pouco melhor cada um deles.

O erguimento de uma das vozes num debate é uma clara tentativa de fazer prevalecer um argumento por meio do silenciamento, relativo ou absoluto, da outra. Em ambientes virtuais ou editoriais, equivale à utilização, por uma das partes, de canais aos quais tenha acesso privativo ou preferencial, tais como blogs, colunas de opinião ou páginas editoriais. Até mesmo no contexto mais horizontal de perfis em redes sociais, a exclusão de comentários indesejáveis ou o bloqueio de interlocutores configura o mesmo tipo de silenciamento de adversários, por permitir que a voz do dono de cada perfil reine absoluta.

Felizmente, há um antídoto contra estas práticas supressoras, conhecido como direito de resposta, segundo o qual deve ser assegurado a quem quer que se sinta atingido ou ofendido por algo que tenha sido publicado em qualquer canal com alguma audiência a oportunidade de se manifestar livremente no mesmo espaço em sua própria defesa. Grande parte do prestígio e credibilidade de um meio advém de sua política de franquear o próprio espaço à difusão de contraditórios.

Já os nodos de alternância de vozes em um discurso são essenciais para a compreensão do mesmo, independentemente da extensão de cada fala. Isto por que, tipicamente, argumentos defendidos por bons debatedores são compostos por vários silogismos encadeados. Logo, interromper uma fala sob qualquer pretexto é, portanto, um violento atentado à ética do bom debate.

É bem verdade que, diante de oradores mais prolixos, um oponente arguto tende a se impacientar a cada falsa premissa proferida. É nessas ocasiões que muitos irrompem intempestivamente em meio a falas não concluídas, deixando quem estava com a palavra perplexo, quando não ultrajado. Em sua versão jurídica, amplamente difundida pelo cinema, tais interrupções assumem invariavelmente a forma da interjeição “Eu protesto, meritíssimo !”

Para prevenir tais incidentes lógicos, recomendamos aos mais afoitos o uso sistemático de blocos de notas, onde todas as objeções podem ser cuidadosamente anotadas para utilização em falas futuras, bem mais estruturadas e, portanto, eficazes.

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Outra regra de ouro do bom debate é

jamais rebaixar um adversário diante de uma audiência, desviando a atenção da mesma de seus argumentos por meio de acusações pessoais conhecidas como ataques ad hominem.

É quando se tenta desqualificar as ideias de outrem por meio de afirmações tais como “fulano é um mentiroso” ou “beltrano só diz merda”. Ataques ad hominem também são conhecidos como a falácia do envenenamento do poço.

A falácia do envenenamento do poço é tão ineficaz quanto inócua. Inócua por que, mesmo que desacreditemos o enunciador de uma ideia, a mesma pode ser facilmente defendida por outrem logo em seguida – seu efeito, neste caso, tão fugaz como a tomada de um peão oferecido em sacrifício numa partida de xadrez.

Ineficaz por que bons adversários são essenciais à valorização de qualquer embate. Gregos antigos já sabiam disto ao manifestarem especial apreço pelo diálogo como instrumento de aquisição de conhecimento. Além disto, é principalmente pela oposição, seja de uma ideia, habilidade ou força, que percebemos alguma qualidade maior ou melhor. Afinal, o que seria de Senna sem Prost, de Ali sem Frazier, de Borg sem McEnroe, de Lula sem Bolsonaro ou do Grêmio sem o Inter ?

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Sobre brigas nas quais nos metemos na internet, passei a respeitar, desde que o ouvi de um amigo, o seguinte princípio:

jamais responder a qualquer provocação, por mais ultrajante que pareça, no ato.

Meu amigo pratica, como método, o hábito de, sempre que incomodado por qualquer coisa com a qual tenha tomado contato por meio de redes sociais, não reagir de imediato. Pois não há nada que uma boa noite de sono não resolva. Na maioria das vezes, nem se lembra, ao acordar pronto para outra, da suposta ofensa recebida no dia anterior – prova maior de que aquilo não era, de modo algum, importante. Se, no entanto, aquilo continua a lhe incomodar mesmo depois do sono restaurador, parte, aí sim, para a elaboração de uma resposta à altura, bem pensada e, como tal, fulminante na maioria das vezes.

Se fosse para dar um nome a esta prática, talvez o mais indicado seria regra da cabeça quente – segundo a qual nossas respostas tendem a ser melhores quanto maior for o tempo decorrido deste o fato ultrajante gerador.

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Finalmente, vale citar quatro regras, deitadas pelo filósofo Daniel Dennett (nascido em 1942) e compiladas por Maria Popova em seu brilhante site brainpickings, dando conta de uma ética e estratégia a ser adotada em debates com oponentes qualificados. Segundo Popova, Dennett faz uma pergunta muito apropriada que testa algumas das tendências e dinâmicas básicas da cultura atual onde todo mundo é um crítico, a saber,

Quão generoso você deve ser ao criticar visões de um oponente ?

Ao que responde:

Como compor um comentário crítico satisfatório:

Você deve tentar re-expressar a posição de seu alvo tão clara, vívida e justamente a ponto de ele dizer “Obrigado, eu gostaria de ter dito isto desta maneira.”

Você deve listar qualquer ponto de acordo (especialmente se não forem objeto de consenso geral ou amplo).

Você deve mencionar qualquer coisa que tenha apreendido com seu alvo.

Só então lhe será permitido dizer qualquer palavra de refutação ou crítica.

Para Popova, tal código de ética seria por si só suficiente para transformar o ambiente infernal dos comentários online. Dennett vai adiante, notando que esta estratégia psicológica logra transformar o oponente numa audiência mais receptiva à crítica ou dissenso, tendo como resultado o avanço da discussão.

Daniel Dennett foi descrito por Marvin Minsky, pioneiro da inteligência artificial, como o maior filósofo vivo e o próximo Bertrand Russell.

 

 

Direito de resposta concedido pelo que foi publicado neste blog dois dias atrás

O texto abaixo, uma réplica ao que foi postado neste blog em 20 de dezembro último, foi encaminhado ao Sul21 juntamente com uma solicitação de direito de resposta.

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Falta amor, interpretação de texto e humildade no mundo acadêmico

Sou leitora assídua do Sul21 e admiro as discussões propostas pelo veículo, especialmente pertinentes nesses tempos tão conturbados que temos testemunhado. No entanto, fui surpreendida com uma postagem do músico Augusto Maurer, meu colega no Departamento de Música do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicada dia 20/12 sob o título: “Por que irei, logo mais, numa assembléia no Instituto de Artes ocupado da UFRGS”. Ele se diz motivado por uma suposta “peça difamatória” anônima que recebeu, que na realidade se trata da “Carta de Repúdio e Esclarecimento” do movimento OcupaTudoIA[1], publicada na página do coletivo no Facebook e encaminhada por mim ao grupo de professores(as) do Instituto de Artes a pedido de uma colega. Esse encaminhamento apenas aconteceu por nossas mãos porque aquele grupo de e-mails também havia sido o canal elencado para difundir relatos depreciativos sobre os quais os estudantes gostariam de responder, no que, aparentemente, não foram atendidos. Augusto ataca o texto dos estudantes, porém sequer indica o link onde o documento original poderia ser lido, apesar de divulgar sua posição não só no blog, mas em seu perfil na rede social. Também divulgou seu artigo a todo corpo docente do Instituto de Artes, contudo retirou o nome da professora que ele dá a entender estar por trás do texto do movimento estudantil e da influência manipuladora a que ele se refere: a mesma que encaminhou a mensagem, ou seja, eu. Por este motivo, esta resposta por mim concebida representa somente a minha opinião.

O autor nos choca já na abertura, dizendo que não frequenta reuniões departamentais “há uns 20 anos”, registro público de atitude displicente em relação ao seu comprometimento profissional, e ainda justifica-se com o argumento de que julga como “obsoleto protocolo” a maneira em que se dão os diálogos nos referidos encontros. Somado ao fato do colega ter um a dois alunos de clarinete por ano, é possível supor quão significativo é seu envolvimento na Universidade onde é servidor docente concursado.

Na sequência, o autor desencadeia seu raciocínio baseado na incompetência em interpretar corretamente o texto dos estudantes, atribuindo a eles falas que, na verdade, teriam sido ditas pela diretora da nossa unidade, afirmando que estariam pedindo a cabeça da professora “numa bandeja”, e que ela seria uma aliada do governo golpista. No entanto, a Carta evoca episódio de reunião do Conselho Universitário da UFRGS, na qual a diretora teria finalizado o seu discurso com “[…] parece que o governo golpista de Michel Temer encontrou aliados dentro da Universidade” – numa tentativa de associar as Ocupações a ações danosas à Universidade.

Seu artigo está repleto de inverdades, mas o que mais estarrece é a maneira arrogante como despreza a capacidade cognitiva do corpo discente e duvida da autoria colaborativa do documento publicado por eles. Embora critique a habilidade verbal dos estudantes, é ele quem subverte radicalmente o sentido do conteúdo lido, vindo a assumir em sua página pessoal que: “De fato, atribuí equivocadamente palavras da profª Lucia aos ocupantes (as letras do email difamatório eram incrivelmente miúdas…)”. Portanto, num segundo momento, atribui seu equívoco às letras miúdas do e-mail, cujo teor segue classificando como difamatório e de autoria duvidosa.

Completo desconhecedor da essência da Ocupação dos estudantes da sua própria unidade de trabalho, aliás, com a qual parece ter pouca familiaridade, expressa, de forma sarcástica, profundo desrespeito e preconceito pela genuína mobilização estudantil. Confunde a característica colaborativa e coletiva dos posicionamentos dos Ocupantes com a covardia do anonimato; faz uso de artifício sórdido ao citar uma letra faltante em palavra rabiscada numa lousa qualquer para depreciar a habilidade de comunicação verbal do coletivo, afirmando que a Carta dos Ocupantes possui uma “redação impecável”, correspondente às “melhores bancas jurídicas ou agências publicitárias” e que, portanto, fica difícil “acreditar que tenha vindo lá de dentro”.  Sabendo agora que ele pensava em mim quando se referia a um ghost-writer, registro aqui que dispenso veementemente os elogios. E os repasso, por direito natural, aos estudantes Ocupantes responsáveis pela redação do documento. Pensando bem… deixo esses predicados junto à verborragia de seu autor, visto que elogios vindos de um professor universitário que se refere dessa maneira debochada e preconceituosa àqueles que dão sentido de existência a uma instituição de ensino, não merecem qualquer crédito. Pudera eu ter sido mais presente nas mobilizações estudantis, mas meu apoio se limitou à divulgação dos eventos coletivos, idas a protestos e manifestações, bem como realização de uma oficina sobre cultura de paz e contribuições de Paulo Freire. Por estar envolvida com a defesa de minha tese de doutorado realizada na etapa final das Ocupações, acabei apenas levando frutas e doces (por mais paradoxal que seja esta combinação, mas, afinal, a luta não tem que ser amarga!) aos jovens Ocupantes.

Mais deprimente ainda é o fato de o músico ter presenciado a assembleia sobre o balanço da Ocupação, e mesmo depois de ter testemunhado mais de duas horas o encontro de vozes em sua diversidade de pensamentos, num ambiente de solidariedade, de congregação de diferentes segmentos do meio acadêmico, de respeito ao outro e de reflexões ricamente fundamentadas, em nada mudou sua postura pedante. Reunião esta, a propósito, que não contou com qualquer contribuição crítica de sua parte, pois permaneceu calado durante todo o tempo, indo embora antes do final. Parafraseando o jornalista Leonardo Sakamoto, falta amor, interpretação de texto e humildade no mundo acadêmico. Já entre Ocupantes e participantes ativos da assembleia, os sentimentos de empatia e de esperança inundaram a todas e todos.

Por fim, resta-me dizer que foi uma honra e uma satisfação ter participado das Ocupações como docente mobilizada, num verdadeiro turbilhão de acontecimentos, tendo presenciado e vivenciado convergências e divergências naturais a um movimento inédito, pulsante e apaixonado em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, mas, acima de tudo, em defesa de um Brasil mais justo. Nossos coletivos seguirão mobilizados, envolvendo todos os segmentos da comunidade acadêmica – estudantes, servidores(as) docentes e técnico-administrativos e terceirizados(as), pois como foi dito no balanço final da assembleia da Ocupação do IA, somos todxs sementes.

Luciane Cuervo

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[1] Disponível em: https://www.facebook.com/ocupatudo.ia.1/posts/161660160977767

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Foto tirada no início da ocupação, em 3 de novembro, por Caroline Lütckmeier.