Eu não queria falar sobre xenofobia, mas…

Logo que conheci o blog Opera e Ballet, de Ali Hassan Ayache, simpatizei com sua prática de replicar textos meus e de outros autores e até com sua militância em favor de muitas boas causas musicais. De modo que dei pouca ou nenhuma atenção às diatribes que lá apareceram contra Marin Alsop à frente da OSESP. Até por sempre ter sido favorável a uma melhor distribuição do poder em instituições culturais (dentre elas as orquestras) entre músicos, maestros, ouvintes, críticos e, vá lá, mesmo patrocinadores. Depois, Lady Alsop dispensa defensores: sua competência e reputação (uma de nada serviria sem a outra) falam por si mesmas.

Então, veio, semanas atrás, a mais explicita incitação à xenofobia que já vi no meio musical. Francamente, quem seria neste país qualquer coisa em música não fosse a contribuição de um ou mais estrangeiros ou descendentes de imigrantes ? Ao ler, estupefato, o ataque endereçado, desta vez, à incrível regente italiana Valentina Peleggi, me limitei a repassar a peça difamatória ao amigo Milton Ribeiro, cuja indignação e maestria verbal se encarregaram de publicizar o ocorrido sem que eu precisasse pronunciar uma palavra sequer. Aqui, a excelente réplica do Milton.

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Até dias atrás, quando a bola da vez do Opera e Ballet passou a ser o spalla da OSESP, o italiano Emmanuele Baldini. De pronto, cutuquei o Milton outra vez – que, no entanto, já tinha dito a Baldini que nada diria sobre o ocorrido, a fim de não dar visibilidade a um ataque tão gratuito – com o que o italiano concordou, apenas agregando que ler um troço daqueles doía (acho que ele não se importará de eu ter revelado isto, principalmente em razão do que escreverei daqui em diante). Dada, então, a sábia reticência do Milton, me coube a missão de tecer este pequeno instrumento de desagravo (da última vez em que fiz isto, me chamaram de puxa-saco).

Vou poupá-los de citar a íntegra do post do Opera e Ballet, destacando, tão somente, duas expressões que saltam aos olhos como grandes disparates, só “deglutíveis” por aqueles que não tenham a mínima familiaridade com a música nem tampouco com o contexto envolvido – a saber, o das orquestras sinfônicas no Brasil e no mundo.

Primeiro, Baldini é chamado por Ayache de “spalla mediano”. Qualquer um que já tenha ouvido o violinista jamais partilharia desta opinião. Em seguida, Ayache declara, com a maior cara de pau, que “Baldini acomodou-se como spalla da OSESP”. Ora, dizer isso é tão absurdo como dizer que Messi ou Neymar se acomodaram a jogar no Barcelona. Ou então (já que falamos de italianos) que algum piloto tenha se acomodado a competir pela Ferrari. Percebem, com isto, o absurdo de se afirmar que alguém se acomodou como spalla da OSESP ? Como é possível se considerar um acomodado quem se encontra no topo de sua carreira ?

É preciso dizer, ainda, em favor da presença de estrangeiros entre nós, que, especialmente em casos como os dos italianos Baldini e Pellegi, pinçados por Ayache como exemplares (num tiro que, felizmente, lhe saiu pela culatra…), sua influência tem um alcance que transcende em muito o âmbito de seu trabalho junto à instituição que os acolhe (neste caso, a OSESP, que ela rege e na qual ele toca numa posição de destaque) – já que ambos perseguem, como missão de vida, oportunidades de compartilhamento de seus conhecimentos em festivais, cursos e programas educativos em nosso país. De tal forma que, sem estrangeiros assim, ainda estaríamos, em áreas tais como a música, em plena idade da pedra.

Então, a frase com que Milton termina seu post de desagravo em favor de Valentina também se aplica perfeitamente ao caso de Baldini, que não deveria ser jamais um problema – mas, antes, um motivo de orgulho para São Paulo.

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Acompanhando de longe a intensificação dos ataques xenofóbicos naquele blog, minha amada Astrid formulou, como sempre, a pergunta crucial: a mando de quem Ali escreve ? Quem paga suas contas ?

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As anotações para este post (e para o próximo, sobre o problema da didática da regência) se amontoaram ao redor de meu PC por vários dias, enquanto aderi à resolução de não escrever uma única linha no blog antes de tocar, na última terça-feira (nem parece que já faz tanto tempo !) a primeira sinfonia de Mahler e, ontem, no lançamento do CD de Leonardo Winter.

Dias antes, quando pensamentos enfurecidos acerca dos recentes episódios de xenofobia ainda dominavam minha mente, Valentina disse ” Vi que vocês vão tocar Mahler 1 !! Fantástico !! Se divirta, tem solos incríveis. ”

Obrigado Valentina ! Obrigado, Leonardo ! Obrigado, Mahler !

Para que servem orquestras ? Por que sua existência deve ser garantida pelo estado ?

batutas-14Já ouvi de uma amiga, eminente economista de inclinação liberal, que é papel do estado assumir direitos dos cidadãos desprezados pelo capital privado. Orquestras, como um dos mais conhecidos e onerosos equipamentos culturais, pertencem a esta categoria. Tanto que as poucas mantidas predominantemente por recursos públicos são constante alvo de projetos de enxugamento por parte de partidos que almejam um estado mínimo. Nessas horas é que mais pessoas se perguntam para que servem, afinal, orquestras sinfônicas. Pergunta difícil, que tentaremos responder abaixo, por partes.

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A primeira e talvez principal razão para a existência de orquestras sinfônicas tem a ver com a execução de um repertório, altamente redundante, predominantemente composto durante um período de uns 200 anos por europeus em sua maioria.

Poucos compositores compõem (cada vez menos) ou compuseram sinfonias. Os bons, pelo menos umas 4; os melhores, raramente mais do que 9 (depois de Haydn ou Mozart (cuja produção juvenil deve ser, para efeito de execução pública, descartada), só aqueles dois russos). De sorte que, se ouço falar de algum sinfonista vivo, fico imediatamente curioso, tratando logo de verificar se o mesmo efetivamente se ergue acima dos ombros de um Mahler, Nielsen ou Shostakovich. Costumo me decepcionar.

Neste contexto, não são poucos os que taxam a música sinfônica de ser, além de francamente elitista (refutaremos esta falácia noutra ocasião), limitada a um repertório fechado e redundante. Têm razão no que toca ao reperrtório. Mas isto não quer dizer que orquestras sejam de modo algum obsoletas.

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Uma segunda razão para a manutenção desses conjuntos musicais, dedicados à execução repetida de um repertório composto quase totalmente no passado, até tidos por uns como dinossauros (não falarei, neste post, de extinção, prevista por alguns, de orquestras como hoje as conhecemos (i.e., fixas) em até 30 anos), é que não se pode conceber a plenitude da audição de um bom concerto sinfônico em um bom auditório a não ser pela própria experiência.

Deste modo, ninguém pode conhecer, de fato, uma sinfonia meramente pela reprodução de gravações da mesma. Isto por que, enquanto na plateia de um concerto ouvimos sons produzidos por fontes dispersas em um espaço contínuo que chegam até nós refletidos por múltiplas superfícies, quando escutamos música gravada ouvimos, na maioria das vezes, sons vindos de apenas duas fontes (quando em estéreo) ou, mais raramente, em até 5 canais (como em algumas salas de cinema). Não é a mesma coisa.

É difícil explicar a quem nunca foi a um bom teatro ouvir boa música tocada por uma boa orquestra por que a experiência é bem diferente de ouvir uma gravação da mesma música nos melhores home theaters. Ainda mais hoje, que chegamos instantaneamente à melhor música sinfônica (as melhores obras pelas melhores orquestras com os melhores solistas e maestros) já está há muito disponível online, em plataformas como o youtube. Só que nenhuma gravação de som ou imagem obtida por meio de qualquer tecnologia conhecida substitui a experiência única de ouvir esta mesma música ao vivo em um concerto. Muito se pode falar da degradação histórica da qualidade de experiência auditiva em espetáculos musicais. Da amplificação eletrônica, do fim do silêncio, do encurtamento das formas. Mais tarde, talvez.

Por hora, apenas deixemos sublinhado que há muitos outros aspectos a serem observados na participação como ouvinte em concertos sinfônicos, principalmente se levarmos em conta a evolução dos espetáculos musicais desde seu surgimento até os dias atuais. Mas, como disse ainda há pouco, so much for one post (mais tarde, quem sabe…) Que fique apenas registrada, por enquanto, a enorme importância, em qualquer época, dos ritos de escuta coletiva, sincronicamente compartilhada.

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O que está escrito acima é uma revisão severa da parte aproveitável de algo editado pela última vez mais de um ano atrás (joguei a maior parte fora). O rascunho foi desencadeado pelo fato de eu ter sido incumbido, ainda antes, numa assembleia de músicos da OSPA, de redigir algo que, de algum modo, esclarecesse à opinião pública para que serve, afinal, uma orquestra hoje. Se demorei, no entanto, para retornar à tarefa – mesmo com sua questão norteadora reverberando incessantemente desde então em minha mente (com efeito, é para mim praticamente uma questão de vida), foi por jamais julgar ter elencado motivos suficientes ou suficientemente bons.

Até uns dias atrás. Por meio do seguinte comentário que deixei sob uma postagem no facebook, respondendo a alguém que acreditava que orquestras devem subsistir exclusivamente do que arrecadam na bilheteria de seus concertos:

Orquestras não pertencem, como muitos devem acreditar, à indústria do entretenimento e, portanto, não podem depender de arrecadações de bilheteria. São, sim, sofisticadíssimos equipamentos educativo-culturais, cuja função é ampliar horizontes estéticos. Se tiverem, no entanto, que depender do gosto do público e da mesmice que o mesmo estaria disposto a pagar para ouvir (para isto existem as mídias comerciais), já não servem mais para nada.

Foi, ao que me recordo, a partir deste instante que me ficou absolutamente claro (como não me dei conta disto antes !…) que orquestras não podem nem devem ser populares nem tampouco (portanto) gerar lucros. Para explicar o por que disto, preciso de um outro post, que já prometi acima, sobre a evolução das plateias de espetáculos musicais. Por enquanto, é suficiente dizer que, por sua pouca afinidade natural ao lucro, orquestras devem ter sua existência, como disse minha amiga liberal, garantida pelo estado. Caso contrário, têm suas atividades corrompidas (como pode ser visto em tantos casos próximos e distantes) ao serem utilizadas, em muitas ocasiões, muito aquém de todo seu potencial artístico.

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Atualização em 25/1/2017: Este texto dialoga diretamente com outro, de André Egg, publicado ontem: A importância de orquestras e sua manutenção. Ele vê alguma contradição entre o que eu disse aqui e quase três anos antes em Políticos demais (iii): anotações para uma reforma política. Obrigado, André, por tocar em frente uma discussão tão importante ! Terei que me puxar para oferecer uma réplica à altura.

Réplica de Fernando Rauber Gonçalves à minha diatribe contra Carmina Burana

orff-1Entendo que um blog cumpra melhor sua função tanto mais quanto seja capaz de provocar ressonâncias longas e lentas. Por longas, me refiro à extensão e à profundidade das réplicas provocadas, enquanto que por lentas, falo do maior intervalo de tempo transcorrido entre o enunciado gerador e a(s) réplica(s).

Assim, só posso me regozijar de que minha casual e improvisada diatribe contra Carmina Burana tenha suscitado não apenas os comentários já citados em post anterior, mas, recém o soube, a inauguração de um blog por um dos melhores músicos que conheço. Concertista e improvisador (vide seu ótimo repositório Breviários Lunáticos !), Fernando Rauber Gonçalves é, além de músico e professor, também programador de videojogos (só para terem uma ideia do grau de nerdice do sujeito) e um pensador arguto sobre tudo o que se refira à musica.

Obrigado, então, por me honrar com a réplica transcrita abaixo – e vida longa ao Caleidosinóptico !

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 Brahms e Carmina: sobre modelos comparativos na crítica musical

“Conversa na qual todos concordam só pode ser de bêbados” já dizia um certo professor. Tivesse eu lido além da orelha de “Raízes do Brasil” (aos imberbes: antes da wikipedia a gente lia orelhas de livros para ganhar erudição instantânea) teria uma citação mais erudita sobre a cordialidade brasileira e nossa dificuldade em discordar. Além disso, citações são bom recursos para estabelecer pretensa autoridade discursiva, tanto mais se combinarem autores hors concours das ciências humanas com outros mais obscuros, sugerindo vasto conhecimento (estrangeirismos em línguas diversas também reforçam a ideia de que fazemos parte do universo dos sabidos).

Após essa pequeno desvio cínico (tldr; desconfie de tudo), sigamos para o motivo da discórdia, um texto publicado pelo amigo Augusto Maurer na ocasião da última apresentação de Carmina Burana pela OSPA. Um pouco de contexto: há tempos acompanho certas discussões no Facebook sobre crítica musical, nas quais é notória uma tensão entre universos distintos: músicos profissionais, diletantes com significativa vivência auditiva e, por vezes, um bom conhecimento musical e ouvintes leigos (geralmente centrados em comunicar suas experiências afetivas com a obra/compositor em questão). Há espaço para todos na conversa de bar feicibuquiana, porém é evidente que existe um vácuo de crítica especializada, que exige um conhecimento mais especializado. Em um cenário de crescente desvalorização das artes no país, o engajamento e a educação do público se torna cada vez mais necessário, antes que nos tornemos uma espécie em extinção (teatros não são erguidos, concursos não são respeitados, fundações culturais são desmanteladas, the writing is on the wall …). Por isso, valorizo a iniciativa de discutir uma obra popular, porém tenho necessidade de fazer uns apontamentos em outras direções.

(um intermezzo: este post desemboca na análise musical – dimensão crítica mais técnica – especialmente por conta da natureza da publicação original do Augusto. Desta forma, boa parte da substância desse post é direcionada para músicos profissionais).

Enquanto peça educativa altamente especializada, considero a crítica do Augusto problemática, pois parte de uma premissa comparativa que julgo inadequada. Maurer questiona o mérito composicional da obra de Orff a partir da ideia das “variações em desenvolvimento” de Walter Fritsch, um importante texto de análise musical que demonstra a riqueza do jogo motívico na obra de Brahms, avançando um pouco as ideias de análise motívica de Rudolph Reti e do conceito Schoenberguiano da grundgestalt (motivo básico, de caráter unificador), em uma concepção musical de viés organicista e estruturalista (música enquanto entidade viva, absoluta e autônoma). Por acaso, gastei umas dezenas de horas da minha vida investigando a utilização desse princípio na obra de Camargo Guarnieri, compositor de domínio composicional – os mais chiques fazem biquinho e chamam de mètier – invejável e que, assim como outros compositores do período entreguerras do Século XX, precisou recorrer ao motivicismo como princípio unificador em substituição aos esquemas de organização tonal dos séculos XVII-XIX (leiam Remaking the Past do musicólogo Joseph Strauss).

Antes de discorrer sobre o porquê deste conceito ser inadequada para a obra de Orff, mais um desvio (adoro eles). Maurer considera Orff um compositor “irrelevante” e Carmina uma obra “pueril”. Pela negativa, aprendemos que existem no mínimo duas categorias de compositores: relevantes e irrelevantes (Greimas grita: quatro), o que explica de certa forma a escolha semântico do termo “mérito composicional”. Buscando entender o que seria o tal do mérito composicional, cheguei a duas possibilidades: 1) mérito composicional enquanto medida de artesanato composicional, ou seja, a capacidade de criar com os elementos musicais a sua disposição e 2) mérito composicional enquanto merecimento, qual seja, o de pertencer ao sagrado panteão de compositores dignos de constarem na programação musical de uma orquestra. O ponto 1 será discutido mais adiante e, sobre o ponto 2, Richard Taruskin, na minha história predileta da música (The Oxford History of Music), explica um pouco a origem da cultura conservadora (“museum culture“) ao redor das sociedades de concerto, e sua predileção pela música dos mestres vienenses já em meados do Século XIX:

But we are facing a potentially grim paradox; for “symphonic” music began growing toward its new plateau of popularity and prestige exactly as its production was falling off. What were all those excellent new professional orchestras playing in their immense new concert halls?

The answer is implied in the statement of aims with which Pasdeloup launched his Société des Jeunes Artistes du Conservatoire in 1852: “to present recognized masterpieces alongside music by young composers.” Pasdeloup’s repertoire consisted of the “Viennese classics”—Haydn, Mozart, and Beethoven—plus Mendelssohn and Schumann (shortly destined to join the rest in the ranks of dead composers), with the works of “young composers” admitted only insofar as they were composed in “classical” forms. The early symphonies of Saint-Saëns and Gounod, mentioned above as conservatory produce, were all that Pasdeloup was at first prepared to admit alongside the masterpieces of the Teutonic dead. These were (in the words of David Charlton, a historian of French music) “among the earliest works in ‘classical’ forms by Frenchmen.Audiences found them delightful, especially Gounod’s. ”  [Leia o capítulo inteiro aqui]

Voltando às variações em desenvolvimento e o problema do modelo comparativo. Ao contrário da música tonal da Brahms, a organização harmônica de Carmina Burana não demanda ou mesmo comporta tal forma de desenvolvimento motívico, e seu modalismo assume centro tonais estáticos, calcado nos modos litúrgicos. O termo modalismo em si é tão abrangente que é necessário algumas distinções em relação algumas possíveis referências dos modos litúrgicos na tradição européia:

a) o modalismo monofônico do cantochão (séculos IX-XI)

b) o modalismo medieval polifônico da Escola de Notre Dame e da Ars Nova

c) o modalismo renascentista, expandindo as forças cromáticas com modificações de sensíveis, bemolizações e transposições

Para os propósitos das considerações que se seguem, é importante ter em vista o sistema modal mais puro presente no cantochão, pois esta é a referência predominante em Carmina Burana (os modos litúrgicos porém com suporte harmônico triádico ou simplesmente por quintas). A base melódica do cantochão consiste em células e esquemas melódicos padronizados, que visam ressaltar a característica expressiva dos intervalos do modo (geralmente através de padrões melódicos cadenciais), exatamente a base melódica de Carmina. Partindo dessa premissa (seja por escolha ou por limitação criativa mesmo), Orff constrói bases harmônicas extremamente simples, por ostinati, quintas paralelas ou tríades. Orff também eventualmente utiliza mudanças de centros tonais e algumas tintas de tonalismo. De forma geral, em vez da direcionalidade modulatória da música tonal como eixo composicional central, o que temos é a possibilidade de variação variação rítmica/métrica, guiada de forma prosódica (aliás, é importante lembrar que o texto da obra tem pés poéticos bastante simétricos e regulares, mais um fator limitante para desenvolvimentos motívicos) ou variação das cores modais, pela alternância dos modos construídos a partir de um mesmo centro tonal (ou transposição dos centros).

Vou improvisar aqui, mas acredito que o próprio tematicismo é consequência direta das características do tonalismo: em um sistema de entidades harmônicas de funções altamente previsíveis e padronizadas, a variedade se dá por meio da modulação e da distância tonal, sendo que o tematicismo fornece um princípio unificador, especialmente em formas musicais mais extensas. A história da forma sonata é ilustrativa nesse aspecto, com seu molde inicialmente binário (geralmente com a repetição de material temático idêntico em outra tonalidade, aliás podemos escutar esse princípio monotemático até mesmo em compositores clássicos, tais como nas primeiras sonatas de Haydn). A medida em que mais hierarquias tonais são adicionadas (mais modulações, expandindo a duração das formas musicais), o tematicismo acaba se tornando ainda mais necessário como princípio unificador. Indo em direção aos limites, chegamos por exemplo no aspecto cíclico dos motivos da sonata de Liszt ou nas developing variations em Brahms (e Schoenberg, que criou um novo universo sonoro livre do tonalismo mas carregando a tradição do tematicismo).

Outra diferença: enquanto que Brahms trabalha com um ideal fechado de obra musical idealizada, intelectualizada e que só pode ser esculpida no papel, Orff trabalha com a simplicidade do modalismo – sistema musical predominante no mundo, especialmente nas músicas de tradição oral, ou seja, aquelas que são transmitidas sem o apoio de uma partitura. Portanto, estamos tratando de universos e ontologias musicais distintas, uma delas nos levando a maior complexidade musical, e a outra buscando engajamento e absorção imediata. Extrapolando um pouco, poderia até dizer que uma delas é centrada no indivíduo (subjetividade, criatividade, dinamismo) e a outra na comunidade (convenções, rituais, acordos, estase). Adorno chegou a pensar nas categorias de “música séria” e “música ligeira”, porém acredito que essas barreiras já caíram e o que precisamos discutir é a substância musical de uma obra de acordo com seus próprios critérios e/ou referências próximas (e por isso a análise musical, que foca na lógica interna da obra, ainda é relevante para elucidar essas questões, não como meio único mas como uma ferramente poderosa de crítica).

Situado o universo harmônico e as referências de Orff, quais seriam modelos comparativos melhores para julgar o artesanato composicional de Carmina em um análise comparativa? Difícil encontrar outras obras que trabalhem dentro desse universo modal tão restrito,mas me lembra do caso de Satie, que emprega ambientes (poli)modais similares com centro fixo, porém fugindo das fórmulas melódicas mais tradicionais empregadas por Orff.

Outro exemplo que muito me interessa é a Musica Ricercata de Ligeti, uma obra extremamente didática na qual ambientes modais são construídos de forma progressiva, através do acréscimo de uma nota por movimento. Aqui temos um excelente exemplo de domínio do artesanato composicional e criatividade que poderia melhor ilustrar o argumento do Augusto. Forçando um pouco a barra até poderíamos enxergar como variações em desenvolvimento alguns dos procedimentos adotados por Ligeti, porém eu não gosto de adaptar o contexto do termo, afinal transposições similares poderiam ser feitas para um número enorme de obra musicais (afinal a variação é o componente central da composição), mas é importante chamarmos atenção para os detalhes: o compositor não está trabalhando com os modos litúrgicos, e o resultado sonoro é repleto de “aliterações” que certamente não se encaixariam com a prosódia do texto de Carmina. Ou seja, novamente são ideias estéticos distintos.

Portanto, espero que com essas referências tenha conseguido explicar porque considero a crítica de amigo atrativa na forma mas problemática na substância. Usando um exemplo ad absurdum seria o mesmo que julgar a qualidade de um rap pelo seu (inexistente) contorno melódico (by the way: meu rap preferido). Ainda assim, o recurso da comparação é muito útil, mais por nos ajudar a evidenciar diferentes concepções do que para elencar winners and losers.

O texto de Maurer prossegue discorrendo sobre a repetição, e novamente acho que desliza na questão do modelo comparativo problemática ao comentar sobre o Bolero de Ravel. Curiosamente, é também uma obra de contornos modais – composta para um balé – cujo fator estruturante é de certa forma o timbre, aliás uma ideia que já havia sido tentada por outros meios em Farben(cores) de Schoenberg, da série de cinco peças orquestrais Op.16.

O assunto da repetição me interessa muito, e está implícito no texto do amigo um certo demérito automático da repetição não-variada (e sua possível associação com a chatice). Pois bem, proporção, unidade e diversidade, recorrência e contraste, são parâmetros possíveis para escutas comparadas enquanto princípios estéticos universais. No aspecto da percepção, a teoria psicológica da gestalt ainda é bastante interessante para entendermos certas ideias estéticas (proximidade, separação, simetria).Em uma perspectiva assincrônica – a obra enquanto unidade abstrata fora da experiência auditiva-temporal – toda repetição é mera redundância que não acrescenta informação, mas sendo a música uma arte do tempo, não só do tempo presente mas também do tempo passado (na cumulatividade das experiências auditivas, seja dos ambientes harmônicos gerais ou de obras específicas e dos afetos atribuídos), a repetição também possui uma função importante no processo de moldar e conduzir as expectativas dos ouvintes e de estabelecer referências internas. E isso talvez explique porque Carmina (e o Bolero) é tão popular: é uma das raras obras do repertório sinfônico que podem ser desvendadas e desfrutadas na primeira audição por ouvintes leigos (e um ouvinte precisa começar por algum lugar, mesmo que nos greatest hits). Me esquivei de dar meu juízo subjetivo sobre Carmina, mas, de maneira geral, nada tenho contra a música fácil, como músico rofissional me sinto na obrigação de entender o maior número possível de possibilidades e estilos musicais, reconhecer suas lógicas e executá-las no melhor de minhas possibilidades. Portanto, apesar de sua simplicidade e monotonia (prefiro esse termo do que chatice), que Carmina continue sendo tocada pelas nossas orquestras, lembrando que também cabe aos músicos/maestros introduzir sutis variações nas repetições, dar contorno e forma ao discurso musical.

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Comentários anteriores e posteriores à minha diatribe contra Carmina Burana, precedidos por anotações sobre o uso que fazemos de blogs e redes sociais

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Já devo ter dito em algum lugar deste blog (até por que a ideia não é nada original) que, tivesse vivido em nosso tempo, Mikhail Bakhtin (1895-1975) teria se esbaldado analisando os tipos de discurso produzidos na web a partir dos princípios que formulou. Segundo sua teoria, todo discurso, lacônico ou prolixo, se relaciona com outros existentes por meio de nodos que representam a alternância entre falantes. As falas contidas entre um nodo e outro, produzidas por um único autor, são chamadas de discursos monológicos – o “grande romance” como seu mais típico e monumental exemplo; enquanto aqueles constituídos por falas de vários autores, em concordância ou oposição, são considerados dialógicos.

Ora, esta dicotomia cai como uma luva para classificar a algaravia da internet. De tal modo que, enquanto o que se escreve em blogs é essencialmente monológico – com um elevado grau, portanto, de controle autoral – já as plataformas de redes sociais primam por facilitar discursos mais interativos, com falas menores de um maior número de autores (nelas chamados de comentaristas), engendrando discursos dialógicos nos quais o controle do autor (raramente exercido) se limita, quando muito, à remoção de comentários considerados, por quaisquer razões, indesejáveis por quem inicia a conversa.

Desta distinção resulta que, enquanto o texto em (bons) blogs costuma ser mais linear e enxuto, com uma série de silogismos perfeitamente encadeados do início até o fim de cada post, em redes sociais o discurso tende a ser mais errático, interrompido aqui e ali por possíveis linhas de argumentação logo abandonadas, a confundir leituras mais objetivas. Tal é o estado das coisas ao menos até a implementação de uma web semântica, idealizada por Pierre Lèvy, que tratará de identificar e agrupar automaticamente enunciações pertencentes a uma mesma categoria. Até que isto aconteça, todavia, é recomendável a todo sujeito se fazer presente, com finalidades diferentes, tanto em blogs como em redes sociais, utilizando os blogs em busca de maior introspecção ou para a sedimentação de linhas argumentativas mais complexas e as redes sociais como local ideal por definição tanto para a difusão como para a colisão de ideias.

Já disse acima que blogs são mais afeitos ao que é comumente conhecido por “textão”. Com efeito, o textão constitui uma espécie de limite tácito àquilo que podemos postar numa rede sem grande risco de incomodar quem lê. O tamanho do que é considerado textão varia, é claro, de uma pessoa para outra muito em razão do tamanho daquilo com que cada um acha aceitável se deparar em sua timeline, a clamar por atenção. Recentemente, se tornou popular um tipo de disclaimer de textão, como uma tarja de advertência a quem se dispuser a clicar no botão “ler mais” que o facebook, muito convenientemente, disponibiliza logo após as primeiras linhas de qualquer texto parcialmente ocultado por seu algoritmo.

Outra grande distinção entre os blogs e as redes é que as últimas são imensamente mais interativas do que os primeiros, a julgar pela grande diferença entre o número de comentários postados nuns e noutros. Além disto, comparando-se a visitação inicial a cada novo texto postado num blog com o número de curtidas da divulgação do mesmo numa rede social, também se pode inferir que postagens em redes sejam bem mais visualizadas do que aquelas em blogs. Então, se afigura com uma estratégia bastante útil divulgar em redes sociais cada nova postagem em um blog, no intuito de atrair para o último parte do público que vê o que é postado nas primeiras.

Por fim, é preciso ressaltar que a permanência de tudo o que se escreve num blog é muito maior do que a de tudo o que é dito exclusivamente em redes sociais – que são, por natureza, voláteis, i.e., tudo o que nelas se publica tende a ser rapidamente esquecido em favor de postagens mais recentes.

Por tais razões, utilizamos os blogs, primordialmente, para

desenvolver, num discurso monológico, argumentações mais complexas; e, secundariamente,

conferir maior permanência a falas que emergem em redes sociais cujo interesse seja, no entender do blogueiro, mais duradouro. Por isto, transcrevemos, abaixo, dois threads (desculpem o anglicismo, mas não encontrei, até o momento, uma tradução suficientemente boa para a expressão) de comentários, respectivamente, anteriores e posteriores à publicação neste blog, dias atrás, de uma diatribe contra a cantata Carmina Burana, de Carl Orff (1895-1982).

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Notas sobre as transcrições:

1) Em tempos distantes, quando eu frequentava o twitter e sequer conhecia o facebook, tive pela primeira vez a ideia de perpetuar num post, em meu primeiro blog, uma conversa que mantive numa rede social que achara particularmente interessante. Tão logo divulguei a postagem, uma blogueira (sic !) cujas falas na rede social eu citara em meu blog reclamou por ter se sentido indevidamente exposta ao ver o que dissera, de modo espontâneo e casual, descontextualizado e cristalizado num meio mais permanente. Algo parecido, suponho, com a distinção que alguns fazem entre a palavra falada e a escrita. Acatei e removi prontamente. Do mesmo modo, me prontifico a retirar deste post quaisquer comentários que venham a ser considerados por seus autores como indevidamente publicizados. Em ocasiões anteriores, busquei autorizações expressas de todos que pretendia citar. Só que, aqui, como os comentaristas são tantos, optei por publicar e só depois remover falas cujos autores se sintam, por qualquer razão, incomodados. Há comentaristas habituais que sei não se importarem com a ampliação da visibilidade de suas falas. Mas pode bem haver entre eles, igualmente, aqueles que talvez não considerem suas falas em redes sociais como públicas. A estes, I humbly apologize.

2) Logo que constatei a grande profundidade e relevância de alguns comentários para a discussão que iniciara, hesitei em relação a publicar tais threads no blog. Só, no entanto, até o Milton me pedir que o fizesse. Novo impasse: transcrever os threads na íntegra ou, ao contrário, editá-los, deles removendo a conversa mais casual e pinçando só as falas que julgasse mais relevantes ? Tão somente por não ter conseguido estabelecer um critério de corte, escolhi publicá-los na forma bruta, sem edições. Ainda não sei se foi a melhor opção.

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Os comentários seguintes foram postados sob um desabafo que fiz, no facebook, em relação a estar tocando Carmina Burana. Para que os mesmos façam mais sentido, transcrevo também, inicialmente, meu desabafo – praticamente um textão – responsável por desencadear a conversação.

Augusto Maurer Carl Orff é um fenômeno totalmente supérfluo e colateral à história da música, sequer constando em alguns compêndios. Ouvi dizer que era nazista e batia na mulher. Desgraçadamente, uma de suas duas únicas composições (se é que dá prá chamar assim aquelas formas repetitivas de alguém que provavelmente jamais aprendeu a modular de uma tonalidade a outra (que se dane a desculpa de que era modal: já ouvi muita música modal bem inteligente)) caiu definitivamente no gosto popular – empatando somente com, talvez, o Bolero de Ravel. Para seus maiores entusiastas, se confunde com a própria origem do rock sinfônico.

Dito isto, dou por cumprido meu triste dever de participar que, no próximo fim de semana, a OSPA tocará, no auditório Araújo Vianna, a controversa Carmina Burana. Pois, é preciso admitir, a coisa tem seus apreciadores. Méritos ? Não sei.

Magda Sarmento A opinião de quem entende de fato, é para nos fazer pensar, Sidney.

Sidney Lima [emoticon]

Milton Ribeiro Carl Orff recusava-se a falar publicamente sobre seu passado. Era oriundo de uma família da alta burguesia bávara, muito ativa na vida militar alemã… Embora a associação de Orff com o nazismo nunca tenha sido comprovada, Carmina Burana tornou-se muito popular na Alemanha nazista depois de sua apresentação na cidade de Frankfurt, em 1937. Depois da Segunda Guerra Mundial, Orff alegou ter sido membro da resistência, mas não há evidências disso.

Fabio Zanon Uma das maiores desgraças da música do século XX é esse troço ainda permanecer no repertório.

André Luiz López Cardozo  “Não concordo com nada que dizes, mas respeito até o fim teu direito de dize-lo”

Milton Ribeiro Agora, a música é uma TREMENDA BOSTA.

André Luiz López Cardozo não confundam “juízo de gosto” com “juízo de valor”

Augusto Maurer Exatamente ! Nunca disse não gostar de Carmina Burana – e sim que, por qualquer critério técnico, ela não vale nada !

Ricardo Branco Eu acho esta música chatissima. Começa legal, a Fortuna Imperatrix Mundi, mas depois é um estupor.
Quando levei um pessoal não muito afeito à música de concerto ouvi-la e dishe-lhes depois que a desgostava, quase apanhei.

Fabio Zanon Isso acontece porque o nível de exigência auditiva só se compara a um rock de quinta categoria. Melodia modal (sempre o mesmo modo, sempre usado da mesma maneira), ritmo fácil, máximo de 3 acordes, muita repetição, bateria fazendo bastante barulho, a mesma melodia não importa a letra. Os Beatles são Bach comparando com isso.

Milton Ribeiro Perfeito !

Augusto Maurer É preciso, então, suponho, vê-la em perspectiva: comparada ao resto do repertório sinfônico, é mesmo uma bosta; mas, talvez, para quem nunca (ou quase nunca) ouça orquestras, deve impressionar.

Fabio Zanon Porque a orquestra sinfônica é um dos pináculos da criação humana. 100 pessoas tocando harmoniosamente no mesmo ritmo fica bonito até com música ruim.

Adroaldo Bauer Corrêa Bem mais recentemente ganhou letra em homenagem crítica ao provecto marido da Marcela. Prepare-se pra eventual interação de platéia incontida e pouco reverente.

Augusto Maurer Compartilha, Adroaldo Bauer Corrêa ! Em nome da ilustração do público.

Adroaldo Bauer Corrêa Fá-lo-ei, Augusto Maurer.

Augusto Maurer (mesóclise de dar inveja ao marido da Marcela…)

Ricardo Branco Eu acho que justamente a repetição, pouca variação e barulheira agrada ao público em geral.

Fabio Zanon Precisamente, igual a rock de quinta, sertanejo universitário, funk etc.

Milton Ribeiro O Sar…to…ri..! BUM!

Augusto Maurer Obrigado, amigos ! Nada como dizer algo polêmico para ter, instantaneamente, a atenção de algumas das pessoas mais inteligentes que conheço !

Augusto Maurer (notem que, quando devidamente provocados, escreveram, colaborativa e espontaneamente, o melhor anti-release que já vi. Por essas e outras estou no face…)

Gabriela Vilanova Maestro, tenho acompanhado seus artigos no jornal e que bom saber notícias suas. Foi com o senhor que fiz meu primeiro festival onde tocamos a oitava de Beethoven. Muita emoção pra quem tem 13anos!!! Eu era violinista na época. Toco na Ospa há 8 anos! Abraço

Fabio Zanon O maestro Osvaldo bem aponta que é a obra mais conhecida do autor. Ainda bem, porque as desconhecidas são ainda piores. Assisti uma vez a Der Mond e acho que preferiria ficar uma hora na cadeira do dentista.

Martin Muehle Conforme o Prof. Celso Loureiro Chaves, Carmina Burana teria similaridades questionáveis com obra As Bodas de Stravinsky composta anteriormente….

Osvaldo Colarusso é um xerox não autenticado de Les Noces

Fabio Zanon Se a gente considerar um Fiat 147 um xerox de um Camaro…

Milton Ribeiro Fabio Zanon HAHAHAHAHAHAHAHA

Angelo Metz Acho que é o unico assunto em que eu e Celso concordamos na vida. hehehehe

Ricardo Branco Olha, de fato tem algumas lembranças. Não sou músico, tampouco toco instrumento. Gosta das bodas, muito. Seria uma versão muito piora da?

Martin Muehle Ou seja, um plágio descomunal

Charlles Adriano Campos Sempre odiei Carmina Burana. Acho de uma breguice sem igual.

Carlos Sell Com certeza algo ficou em falta na minha educação musical! Eu adoro essa peça desde a infância, praticamente cresci ouvindo a interpretação do Seiji Ozawa! Mas enfim, o mundo é diverso né? Abraço!

Ricardo Branco Como leigo, eu acho que música uma arte ímpar. Às vezes, ela nos pega por algum , remete a situações que nem mais lembramos. Talvez não gostemos pelos mesmos motivos, sei lá

Paulo Paranhos Jr. gosto de ler o que meu amigo e colega Augusto Maurer escreve. Seus textos sempre me fazem ter que ler e reler pra eu ter certeza do que ele quis dizer…e isso faz meu cérebro criar mais ligações neuronais….

Paulo Paranhos Jr. e,particularmente, também acho meio chata essa música.

Damián Keller Nada como a mediocridade composicional para se transformar em referência da educação musical.

Wilfried Berk Carl Orff na wikipedia

Norberto Flach E daquelas músicas para festa com foguetório, gostas?

Omar Gianlupi Carlo Gianlupi, ler os papos cabeças.

Rodrigo Nassif Essa Carmina é de Passo Fundo , que nem eu?

Júlio César Apollo Há música para músicos e estetas e há música para as pessoas comuns do povo. Levar o povo ao concerto é algo que Orf faz com sua música brega e chata muito melhor do que Bach, Haydn ou Josquim. Que o digam o Sr. Rieu e os Lima.

Augusto Maurer Não concordo com esta categorização da música segundo seu suposto público alvo. Até por que, em nome dele, todo o pop foi cometido. Por isso, prefiro pensar em música boa ou ruim. Segundo critérios bem objetivos e demonstráveis. Coisas como ambição formal ou amplitude harmônica. De modo que não concordo com máximas simplistas do tipo “gosto não se discute”. Se discute, sim. E quanto mais se comparar, melhor.

Fabio Zanon Tem milhares de pessoas que dedicam suas vidas à música de Bach ou Haydn. Eles têm algumas das obras que definem a cultura ocidental e são consenso entre músicos e público há 200 anos. Orff tem somente uma música que ainda é executada, que cria lá seu efeito. Bach é um universo em música. Bach vende milhões de discos e downloads. Orff não.

Júlio César Apollo Fabio Zanon, todos sabemos disso. Mas proponho um desafio, um concerto maravilhoso e digno com a Arte da Fuga e um outro com Carmina Burana. Qual venderia mais ingressos? Eu tenho dúvidas, mas suspeito qual seria o resultado. Ah, e tem pessoas que dedicam-se à Josquim também que foi um dos maiores.

Júlio César Apollo Augusto Maurer, eu também acho que gosto se discute e que qualidade é perfeitamente demonstrável. Mas basta olhar em volta e ver e ouvir a diversidade musical. Tem público para tudo. E uma grande e competente orquestra mantida com dinheiro de todos os gaúchos deve tocar para todos os gaúchos.

Augusto Maurer Se venda de ingresso e preferência do público fossem critério estético, a arte não existiria. Imaginem, por exemplo, um futuro distópico onde só houvesse gente como, sei lá, Rieux ou os Lima. Ou Romero Brito.

Fabio Zanon Júlio César Apollo, você pegou um exemplo particularmente extremo. A Arte da Fuga nem é música para se tocar em público, é de um músico para outro. Idem Josquin. Isso é música de nicho. Mas, vamos combinar, se formos pensar em música para grandes plateias, levanta-defunto, tem milhares de composições decentes de gente decente. Qualquer Abertura 1812 é um monumento à sutileza comparada a Orff. Na verdade, não vejo problema em que ela seja apresentada ocasionalmente. O negócio é o que o Colarusso falou, ela é o tipo de música que se programa tropegamente, sem ensaiar direito, para atrair artificialmente um público que não vai voltar nunca pra ouvir outra coisa. Acho até que mereceria ser encenada, da forma como Orff a concebeu (só que não tão cafona e datado quanto este vídeo):

Júlio César Apollo Conheço o vídeo, acho chato até o Hermann Prey que gosto está meio sem graça.

Júlio César Apollo Entretanto as moças com os seios nus no laguinho ficou carimbada na minha mente.

Angela Maria Bordini Nogueira Até onde sei Carmina Burana vem da Idade Média. Carl Off juntou os temas e letras. Há letras ótimas. Aquela das moças convidando os moços pra namorar, por exemplo. Minha professora ( século passado) de Português Medieval- galego português- dizia que as moças levantavam as saias e cantavam em frente às igrejas 🙂 Mas aquela língua ninguém entende bem, não ė ?

Milton Ribeiro Sim, o que cantado é de muito alto nível, o que é desmanchado pela música.

Milton Ribeiro Aquele O Fortuna tem a seguinte tradução:

Oh, sorte
És como a lua
Estado variável
Sempre crescendo
Ou decrescendo
Vida detestável
Primeiro oprime
Depois alivia
A mente só por diversão
Pobreza
Poder
Dissolvem como gelo
Destino monstruoso
E vazio
Tu, Roda da Sorte
És malevolente
Bondade em vão
Que sempre leva a nada
Obscura
E velada
Também me amaldiçoaste
Agora – por diversão
Trago o dorso nu
E entrego à tua perversidade O destino da saúde
E virtude
Agora me é contrária
Dás (afeto)
E tiras (afeto)
mantendo sempre escravizado
Então agora
Sem demora
Tange a corda vibrante
Porque a sorte
Extermina o forte
Chorais todos comigo

Milton Ribeiro Roubei a tradução na rede, tá?

Angela Maria Bordini Nogueira Depois vou procurar o encarte da gravação aqui. As traduções são boas. E quem quiser gostar que goste. Sou simples. Gosto até de alguns funks :))

Angela Maria Bordini Nogueira Hoje não tenho mais interesse em ouvir Carmina Burana. Mas já gostei.

Milton Ribeiro Angela Maria Bordini Nogueira, defina “simples”. 🙂 Acho que tu não és simples na acepção que utilizaste.

Angela Maria Bordini Nogueira Receptiva, menos crítica. Não tenho a cultura musical de vocês.

Milton Ribeiro Sim, porque literariamente tu és sofisticadíssima.

Angela Maria Bordini Nogueira Imagine, sou não.

Milton Ribeiro Ok, vamos brigar. 🙂 É SIM!

Angela Maria Bordini Nogueira Só quero agradecer o que aprendi de música clássica com você: ) Grata.

Maria de Abreu E o que dizer desta união, hein, hein???

Herta Elbern Pois não é que a “forma repetitiva” ajudou a reforçar o coro!

Júlio César Apollo Esse povo que canta fora Temer ficou sempre quietinho quando a dilma e o lula saquearam a nação.

Herta Elbern Paz e amor, bicho!

Harold Emert Sinto equal de voce Augusto tocando Wagner…mas a musica e fantastica…Waget era antes De Hitler mas tocando sua musica menos o meistersinger sinto o cheiro De Nazismo..mas os Grandes como Levine e baremboim judeus tambem nao pensam assim …

Ricardo Melo Dá-le, Augusto!

Herta Elbern Flávio Leite! Concordas?

Cristina Maria Capparelli Gerling Todo ser humano passa meses na barriga da mãe ouvindo uma percussão em altíssimo volume que regula o coração e outras funções básicas da sobrevivência, assim quando o humano nasce fica com saudade daquela barulheira toda. Só isso explica a atração por músicas como Carmina Burana, Bolero e roque pauleira desenfreado. Sim, tem seus momentos mas é barulheira destinada a nos levar ao transe coletivo.

Augusto Maurer Ótima análise, Cristina ! Nunca a tinha ouvido Carmina ou rock sob este prisma.

Cristina Maria Capparelli Gerling Veja se te interessa: “Lost in time” but still moving to the beat

Nelson Fiedler Tenho gostado bastante das novas vertentes do tech house . E principalmente das novas criacoes em cima da linha hip house . Acho q a musicalidade nesta 2a decada do 3 milenio esta a caminho de ser comparada aos anis 80 …o q acha ? Abracos neo

Nelson Fiedler Quanto ao Orff concordo com vc

André Luiz López Cardozo sentimentos e sensações atávicas, pertencentes ao coletivo, são despertadas por essa cantata, com certeza, Cristina Caparelli…

Claudia Antonini Bem, entendo o debate mas não curto o preconceito que ironicamente o permeia. Não pensem que eu não percebo perfeitamente que é uma música menos sofistica, menos complexa, que tem “empréstimos” de outros compositores, etc, não é uma caixinha de jóias. Eu também gosto de música complexa e sofisticada, mas, nem por isso, deixo de gostar de ópera, outro gênero sobre o qual abundam preconceitos. Por outro lado, também acho legal o transe coletivo de um espetáculo de som, luz e dança e entendo que a Carmina Burana permite este tipo de vivência. Me divirto assim como faria numa experiência catártica dentro de uma bateria da Escola de samba ou de um show antigo dos Titãs no qual se pulava durante 3 horas e depois se ficava surdo por 3 dias. Acho, alem disso, que como trilha ela funciona muito ou não teria sido usada em tantos filmes legais. Excalibur (1981) de John Boorman, Assassinos por natureza (1994) de Oliver Stone, Detroit Rock City (1999) de Adam Rafkin, e A Filha do General (1999) de Simon West, são alguns deles. São filmes excelentes. Também fico pensando em como ter uma experiência de potência catártica neste tipo de espetáculo sem a potência de uma orquestra de boa dimensão. Enfim, muitos mas…

Claudia Antonini Angela Maria Bordini Nogueira

Fabio Zanon Não é o problema de se valorizar somente música complexa ou sofisticada. Schubert não é sempre complexo, Verdi não é sempre sofisticado, Tchaikovsky não é sempre sutil, Liszt não é sempre de bom gosto, Villa-Lobos nem sempre é intelectualizado, música minimalista nem sempre e musical, mas é música genuína. Carmina Burana é uma música cuidadosamente planejada para ser tosca, é a única obra escrita sob o regime nazista que ainda se toca (claro, se considerarmos Richard Strauss um conservador independente). Alex Ross diz que a sua utilização em inúmeros filmes e comerciais é prova de que ela não contém nenhuma “mensagem diabólica”; o problema é que talvez ela não contenha “mensagem” alguma.

Angela Maria Bordini Nogueira Claudia Antonini, procurei algo mais sobre Carmina Burana. Um dos links ė do filologia. com. -com ênfase nas letras . Aqui : Carmina Burana. A cantata cênica em latim medieval

Angela Maria Bordini Nogueira O outro link ė o pqpbach : Carl Orff (1895-1982) = Carmina Burana (Osawa)

Claudia Antonini Boa essa Angela. O “Olímpo” erudito se manifesta, kkkk.

Angela Maria Bordini Nogueira Exibem tb outras análises boas em inglês. O que me incomoda um pouco é que pessoas que mal conhecem música clássica partem para avaliações no estilo : “ė brega, ė chata,” somente porque Carmina Burana é bem conhecida.

Claudia Antonini É o Olimpo do preconceito minha cara! Convivi muito com isso, sei bem do que falo.

Angela Maria Bordini Nogueira Claudia, não vou discutir Olimpo. Não sei analisar melodia.

Angela Maria Bordini Nogueira Tenho de sair agora .

Claudia Antonini Quedate tranquila, é só uma velha constatação.

Carlos Sell Claudia Antonini, colocaste em palavras aquilo que penso!

Gary Dranch Carmina Burana has to be seen in context of the self-conscious, neo-classicism medievalism “awakening” work full of theatrical pageantry. Scholars love the bawdy texts and illusions to Goliards, and choreographers go wild with antiphonal orgiastic and repetitive chanting as inspiration to wild Bacchanales. So, I would urge you to take a more wholistic look at this 20th century masterpiece. I agree, from the music “pit”, having performed it at least 4 times, it would seem that the sum of the parts is greater than the whole!

Claudia Antonini Exactly!

Fabio Zanon I agree there is nothing quite like it, whence the fascination it can exercise. I still keep the Jochum recording I got when I was 15, but frankly the perspective of hearing it again could only be contemplated if I were payed for it. If I am after orgiastic music, nowadays I’d go to Turangalila or something of the kind.

Augusto Maurer Na atual conjuntura cultural, minimalista, tenho saudade de terminar o ano sinfônico solenemente, em alto estilo, com uma oitava de Mahler ou, vá lá, nona de Beethoven. Não devo, no entanto, reclamar, pois sempre pode ficar pior do que está. Ou, pelo menos, assim dizem os mais cautelosos.

Fabio Zanon Da próxima vez que decidirem fazer um show com música de Tom Jobim lembre que poderia ser Orff de novo…

Augusto Maurer Quem dera tocar Jobim mais amiúde !

Fabio Zanon Exatamente.

Gary Dranch Or as the French say, “Vive la différence!”Norberto Flach Ah, lembrei que uma vez ouvi uma versão com a Gundula Janowitz e o Fischer-Dieskau. Com esse time, qualquer obra sobe no ranking.

Fabio Zanon É a gravação do Jochum. A Janowitz já não tinha mais agudos pra cantar Dulcissima, soa bem estrangulado para os meus ouvidos.

Norberto Flach Fabio Zanon, é a cruel mazela endocrinológica de que padecem as sopranos. Mas àquela que cantou as Vier letzte Lieder daquele jeito, tudo se perdoa e condescende.

Fabio Zanon Isso é bem verdade.

Gary Dranch Try to imagine Fischer-Dieskau singing Jobim?

Norberto Flach For his voice and way of singing, maybe Inútil Paisagem (Useless Landscape).

* * *

Os próximos comentários foram postados sob a primeira divulgação que fiz no facebook da diatribe contra Carmina Burana que publiquei neste blog.

Augusto Maurer Obrigado por contribuírem com a apaixonada discussão, Magda Sarmento, Sidney Lima, Milton Ribeiro, Fabio Zanon, André Luiz López Cardozo, Ricardo Branco, Adroaldo Bauer Corrêa, Osvaldo Colarusso, Gabriela Vilanova, Martin Muehle, Angelo Metz, Charlles Adriano Campos, Carlos Sell, Paulo Paranhos Jr., Damián Keller, Wilfried Berk, Norberto Flach, Omar Gianlupi, Rodrigo Nassif, Júlio César Apollo, Angela Maria Bordini Nogueira, Maria de Abreu, Herta Elbern, Ricardo Melo, Harold Emert, Cristina Maria Capparelli Gerling, Nelson Fiedler, Claudia Antonini e Gary Dranch !

Andy Serrano fiz o primeiro comentário 🙂
fala pro Milton aprovar lá… kkkkkkk

Augusto Maurer Obrigado por deixar teu comentário lá. Feliz aniversário atrasado !

Milton Ribeiro É o Augusto que aprova.

Augusto Maurer (não sendo fake, sempre aprovo)

Wilfried Berk Irrelevante? Discordo ! Suas óperas die Kluge e der Mond são únicas. Contudo, a sua maior contribuição se situa na área da pedagogia musical, com o Método Orff de ensino musical, baseado na percussão e no canto. Orff criou um centro de educação musical para crianças e leigos em 1925, no qual trabalhou até a data do seu falecimento. Zelação !

Augusto Maurer Ah, a educação musical, este interregno onde tudo prospera… Mas não conheço o trabalho pedagógico de Orff suficientemente bem para criticá-lo. De qualquer modo, pelo sim ou pelo não, jamais confiaria qualquer parte da educação de um filho a alguém com uma biografia como a sua – ainda que não autorizada. Obrigado por enriquecer a discussão, Wilfried !

Wilfried Berk Se informa melhor, antes de malhar o cara …

Fabio Zanon Educador musical é uma coisa, compositor é outra, e o indivíduo Carl Orff outra ainda. Villa-Lobos é um dos maiores compositores de música para criancas na história e não teve filhos. Qual o problema? O método Orff obviamente tem seu mérito. Entretanto Orff não dava muita atenção para sua própria filha. Mas o que isso tem a ver com Carmina Burana? Eu queria saber por que tanta gente se sente tão ofendida quando alguém levanta um argumento para se criticar uma obra de arte. Eu não concordo com o argumento do Augusto; não acredito na linearidade do desenvolvimento musical, pois por este argumento cada obra só poderia ser validada caso fosse igualmente ou mais complexa que todas as outras já compostas. Mas é um argumento para se justificar sua aversão por uma música que nos dá vários motivos para ter aversão, ao mesmo tempo que dá vários motivos para um vasto público se empolgar. A propósito, eu vi Der Mond and vivo e achei uma experiência ainda mais tediosa que Carmina Burana.

Augusto Maurer Belo argumento, Fabio Zanon ! Fico apenas curioso para entender o seguinte: se não for pelo retrocesso no desenvolvimento musical, o que torna a audição de Carmina Burana tão entediante para alguns ?

Augusto Maurer (nunca consegui ouvir música da mesma forma depois de descobrir os primeiros movimentos da Eroica e da Espansiva. Ou qualquer primeiro movimento de Brahms. Aquele ímpeto modulatório vertiginoso, difícil de se encontrar em outras obras, e seu sofisticado uso da incerteza tonal como gerador de forma fizeram com que eu as ouvisse repetidamente, cada qual a seu tempo, a ponto de não restar espaço algum para que eu ouvisse outras coisas. Por muito tempo, não reconheci nada como tão estimulante. Questão de gosto ?)

Norberto Flach Augusto Maurer, as tuas preferências podem ter até razões biológico-evolutivas. Quem sabe? Aquela coisa de gostar de uns sons e não gostar de outros pode ser o que diferencia os entes mais evoluídos dos mais primitivos. Já eu estou entre os indecisos, que ainda não decidiram se gostam tanto assim de Webern, e se constrangem um pouco de gostar de U2.

Augusto Maurer Não conheço U2 e, talvez por ignorância, não gosto da música da segunda escola de Viena (embora reconheça sua importância “filosófica”). Quanto a ouvidos mais “primitivos ou evoluídos”, all I have to say, my dear Norberto Flach, is “bullshit”. Obrigado por participar desta lambança !

Fabio Zanon Augusto Maurer, acho que é entediante por já termos ouvido processos semelhantes utilizados de maneira muito mais rica em outros contextos. Ouvintes que têm um repertório menor se impressionam pela novidade, pela massa sonora, inegavelmente empolgante, da Carmina. Quando tinha 15 anos me empolguei, comprei o disco, vi uma vez ao vivo, mas não dá pra escutar várias vezes, porque a música não tem nada para oferecer numa segunda ou terceira audição, a menos que o ouvinte esteja interessado em reproduzir o efeito de transe irracional a que a obra induz, que é muito similar ao de um show de heavy metal. Para nós, especialmente para você, que já ouviu de tudo tocando na orquestra, essa novidade passa rapidamente. O que sobra é somente essa impressão de que tem alguém repetindo a mesma coisa 20 vezes e gritando cada vez mais alto. E isso é feito de uma maneira completamente calculada. Orff não é um compositor incapaz, que escreve assim porque não saberia escrever de outro jeito. Talvez ele conseguisse escrever uma sinfonia acadêmica sem muito problema, ou boas canções populares; certamente conhecia o métier de orquestrador, a peça é organizada de um jeito eficiente. Com um olho na aprovação por parte de um ambiente belicista e confrontacional da Alemanha prestes a invadir seus vizinhos, ele decidiu criar um efeito catártico com uma espécie de ritual medieval semi-pagão kitsch, que envolve o ouvinte pela repetição e pela pela amplidão do espaço sonoro. concordo com uma outra pessoa que disse que não existe nada parecido. Realmente não existe, não tem como fazer Carmina nº 2. Orff tentou e ficou uma paródia de si mesmo, Catulli Carmina.

Andy Serrano “que envolve o ouvinte pela repetição”. Curti. Foi exatamente esta minha tese ao comentar o post lá no blog. Dentro de minha visão empírica sobre o assunto, obviamente.

Augusto Maurer Que aula, Fabio Zanon ! Nunca li nada, ao mesmo tempo, tão verdadeiro e sucinto sobre Orff e Carmina Burana. Obrigado por aceitar a provocação !

Régis Antônio Coimbra Prefiro Brahms ou, dito de outro modo, não me imagino procurando Carmina Burana para ouvir – embora já tenha cantado (fazia parte do Coral da UFRGS que deu uma reforçada no Coro da OSPA… gostei mais do Ein Deutesches Requiem, do Brahms, que cantei no mesmo tipo de situação… regido pelo Kurt Redel). No entanto, Carmina Burana tem seu lugar…

A repetição literal pode ser entendida como uma citação às formas medievais. Pronto. E podia ser preguiça – como no caso de Rossini que, não por isso, deixo de amar de tanto ver, na infância, em desenhos do Pica-Pau (Endy Panda e outros personagens do Walter Lantz).

Robson Pereira “I know, it’s only rock and roll/ But I like it”

Augusto Maurer Também gosto de rock, mas não consigo levar Carmina Burana a sério. Muito menos como rock. A única coisa da qual gosto na obra é como ela divide opiniões. Obrigado por se manifestar ! Adorei teu texto sobre a tentação e o perigo das explicações mais simples ! http://www.sul21.com.br/…/a-magia-das-falas…/

Milton Ribeiro Parece rock sinfônico mesmo!

Augusto Maurer Ah, o crossover… Mas deixemos, por hora, de lado esta estranha paixão de alguns.

Fabio Zanon Taí, Orff está num patamar parecido ao de Rick Wakeman. Tomem isso como elogio.

Fabio Zanon Não colocaria jamais Bolero de Ravel no mesmo saco. Aquilo está num patamar de qualidade composicional completamente diferente, é um estudo de orquestração da maior perfeição. Não se julga o Bolero sem levar em conta Ravel como um todo.

Milton Ribeiro Concordo. Como leigo, ouço o Bolero como um admirável ensaio timbrístico. Na minha opinião, não há nada de primarismo ali.

Augusto Maurer Verdade. Exagerei no caso do Bolero. Obrigado por me chamarem à razão !

Norberto Flach E A Valsa? Sinto-me pronto a começar uma guerra mundial toda vez que ouço.

Milton Ribeiro Adoro La Valse….

Augusto Maurer … moi aussi !

Augusto Maurer (estranho o silêncio dos admiradores de Pollock, Rothko, Basquiat and the like…)

Fabio Zanon Sou um deles. Assim como sou de, digamos, Radulescu. Mas não existe Pollock nº 2, uma vez feito, acaba em si.

Osvaldo Colarusso Apesar de não ser um fã de Carmina Burana creio que deve haver alguma qualidade intrínseca que ainda não percebi. Mas que deve existir eu acredito que sim. Uma obra que chamou a atenção de músicos que respeito demais como James Levine, Seiji Ozawa, Herbert Kegel e Eugen Jochun deve ter sim alguma qualidade. Agora compará-la com Bolero é injusto. Bolero de Ravel é uma obra prima. Não é difícil encontrar suas inúmeras qualidades. Uma obra muito popular não tem obrigação de ser ruim.

Augusto Maurer Verdade, Osvaldo Colarusso: muitas vezes, o gosto popular está certo !

Wilfried Berk Falem mal, mas falem de Carl Orff …

Osvaldo Colarusso Karl Orff não conheço. Só conheço Carl Orff….

Wilfried Berk

Wilfried Berk Carmina Burana na wikipedia

Zeca Azevedo Texto EXCELENTE como sempre, Augusto Maurer, uma verdadeira aula. No meu caso, antes de julgar e condenar a obra mais famosa de Orff por suas limitações formais em comparação a outras peças musicais (acho que não seria capaz de realizar tal tarefa), eu rejeitei a obra pelo efeito que ela provoca ou quer provocar nos ouvintes. ”Carmina Burana”, por sua ”grandiosidade” fabricada, transforma (ou quer transformar) grupos de indivíduos em massas humanas indistintas que respondem de maneira uniforme a estímulos sonoros (como fazem os hinos). É música que não pede engajamento individual, mas sim engajamento coletivo da forma mais nociva. Não há espaço para sutileza ou para fraturas existenciais no triunfalismo de Orff, que apela para o pior tipo de humanismo, aquele que se ufana, que se orgulha de si mesmo de forma irrefletida (Sartre fala sobre esse tipo de humanismo em ”O Existencialismo é um Humanismo”). É o tipo de sentimento incentivado e manipulado pelos nazistas, a ideia de que o indivíduo tem que abandonar suas idiossincrasias em nome de ”algo maior”. Até onde posso perceber, Carmina Burana é o nazismo em forma de música.

Fernando Rauber Gonçalves Vou escrever uma resposta depois com calma, mas acho que tua crítica parte de uma premissa inadequada: você julga um suposto mérito de uma composição a partir das ideias do organicismo musical germânico em uma obra que não faz parte dessa tradição. Portanto, seu texto é bullshit, teu ponto deveria ser a comparação com outras obras (neo)modais.

Augusto Maurer Concordo, Fernando Rauber Gonçalves: todo referencial comparativo é altamente ideológico, i.e., podemos enaltecer ou depreciar tremendamente qualquer coisa, dependendo daquilo com a qual a comparamos (esta é, afinal, a verdadeira razão de ser de qualquer estética comparada !). Por isto, pergunto: com o que devemos comparar Carmina Burana para fazermos justiça à obra e seu autor ?

Fernando Rauber Gonçalves Na minha opinião, a tradição germânica é guiada pela ideia do organicismo, com essa ênfase no jogo motívico e numa concepção bastante intelectualizada e elaborada. Em contraposição, temos uma tradição latina (a música francesa, italiana, portuguesa, espanhola) que dá mais ênfase ao ritmo e a melodia e entendo esses dois espectros como tradeoffs da complexidade musical, duas vertentes distintas da tradição europeia.

Fernando Rauber Gonçalves Por exemplo, qual teu posicionamento sobre a obra de Satie?

Augusto Maurer Satie foi, como Cage ou, digamos, o sujeito do Ballet Mechanique (Antheil), não mais do que um provocador. Uma influência a ser considerada mais do que o autor de uma obra relevante. Forçou os limites dos conceitos, mas não produziu nada para a posteridade equiparável aos legados de um Debussy, um Stravinsky ou, ainda, da segunda escola de Viena ou mesmo do círculo de Darmstadt.

Augusto Maurer Como Miles: um inovador, certamente, mas jamais dono de um legado como os de Evans ou Monk.

Augusto Maurer É como comparar, por exemplo, Duchamp com Dali – respectivamente, um anão e um gigante.

Fernando Rauber Gonçalves E Liszt? E sobre a ópera italiana? Estou lhe provocando com exemplos que fogem da tradição germânica 🙂

Augusto Maurer … fora de minha área de competência. Tenho, particularmente, pouca paciência com Liszt e a ópera italiana …

Fernando Rauber Gonçalves Enfim, é esse o ponto que quero escrever na minha resposta, sobre a questão dos parâmetros comparativos e sobre a multiplicidade de concepções no julgamento estético/composicional. Óbvio que Orff não é um compositor inovador ou essencial, e que Carmina é uma obra desigual, porém tem momentos suficientes de acerto que justificam sua popularidade.

Augusto Maurer … “momentos de acerto” me soam obscenamente parecidos com as “músicas de trabalho” destacadas num “álbum”, dentre todas aquelas outras faixas fadadas ao esquecimento. Acho que o Ricardo Branco já se referiu a isto ao afirmar que, depois da empolgação inicial com “Fortuna Imparatrix Mundi”, todo o resto de Carmina Burana não passa de uma colossal chatice.

Augusto Maurer … o que me remete diretamente ao lúcido comentário de Osvaldo Colarusso: será que Levine, Osawa, Kegel, Jochun e outros efetivamente optaram por gravar a cantata de Orff, ou assim foram persuadidos por seus produtores por razões mercadológicas ? Who knows ? Jamais saberemos. Por isso mesmo, o fascínio das especulações a respeito. Posso até imaginar um diálogo, de um drama metalinguístico, entre um desses maestros, ávidos por perpetuar mais uma versão de Beethoven, Brahms ou Mahler, e seu produtor, convencido da alta conveniência de se lançar, antes, mais uma versão de Carmina Burana…

Fernando Rauber Gonçalves Interessante que tu tragas a chatice, vou buscar trabalhar esse conceito na minha resposta, sob a perspectiva do ouvinte leigo e do músico treinado.

Júlio César Sosnoski Segundo o jornalista Norman Lebrecht, que teve amplo acesso ao mercado da gravação por meio de pessoas que trabalharam no mercado, e mesmo através dos próprios produtores. Era bem difícil persuadir regentes já de carreiras sólidas a gravar qualquer coisa com as quais não concordassem…

Fernando Rauber Gonçalves Do ponto de vista analítico, também existem outros referências mais pertinentes para a obra de Orff também, creio que a partir das análises estruturalistas da semiologia musical pode inclusive descobrir porque certos jogos motívico aparentemente simplórios de Orff “grudam” tão bem no ouvido.

Darian Weber Pergunto onde está convencionado que para reger essa obra, o maestro tenha que estar em um altar, tão alto que quase não dá pra ver a orquestra?

Augusto Maurer Isto não tem a ver com a obra, Darian Weber, mas com a mitologia do maestro. Outros fatores, outra discussão. Bem oportuna, sem dúvida ! Mais tarde, talvez.

Augusto Maurer … e, antes que eu me esqueça, bem-vindos a esta ilustrada conversa, Osvaldo Colarusso, Zeca Azevedo, Fernando Rauber Gonçalves e Darian Weber. Me sinto mui honrado com seus comentários !

Darian Weber Orff com esta obra e como disse o nobre amigo Fernando Rauber…teria sido um Michel Teló por ter composto uma peça tão ” grudenta”?

carmina-burana-3

Por que Carmina Burana é, conquanto popular, musicalmente irrelevante

frisch-1Semana passada, deflagrei uma longa e acalorada discussão no facebook ao afirmar peremptoriamente que Carl Orff era um compositor irrelevante e Carmina Burana, sua peça mais popular, uma composição, no máximo, pueril. Como sempre, toda menção comparativa à ordem de grandeza de compositores célebres (suponho que com outros artistas aconteça o mesmo; por exemplo, por que Van Gogh, os impressionistas ou qualquer dos últimos pintores figurativos parecem tão superiores, digamos, a Pollock, Rothko ou Basquiat). Pelo menos, foi assim quando me referi a Mendelssohn, Tchaikovsky e Rachmaninoff como compositores secundários.

Desta vez, aludi de passagem à popular tese de que Orff era nazista e batia na mulher. O que causou, no entanto, mais indignação foi minha denúncia da construção um tanto quanto simplória da famosa cantata. Procurei antecipar as refutações mais óbvias ressalvando que já ouvira muita música modal bem mais interessante. Em vão. Pois até de interlocutores supostamente ilustrados ouvi a réplica de que toda depreciação de Carmina Burana não passaria de ranço elitista contra, suponho (nunca entendi muito bem este tipo de argumento), manifestações artísticas mais populares.

Como sempre nestes casos, não tardou a se fazer reverberar, por algum comentarista ofendido, a conhecida máxima de que “gosto não se discute”. Pronto. Fisgaram a isca. De modo que pude encher a boca para sentenciar que gosto se discute, sim – e que quanto mais compararmos, melhor. E que se destas comparações emerge o fato de que algumas obras são notoriamente melhores do que outras, tal se deve a critérios absolutamente objetivos. Sendo, portanto, uma grande asneira “validar” a qualidade de qualquer coisa segundo sua aceitação popular, como querem os defensores da premissa de que “gosto não se discute”. Pois, na formação do gosto popular, interferem fatores tais como publicidade, simplicidade/complexidade, conhecimento/ignorância ou sinestesia, entre outros – os quais não são, todavia, objetos deste texto.

Antes, tinha em mente, ao iniciar estas linhas (o texto, essa nau sem rumo !), tentar explicar, em termos objetivos, por Carl Orff não atingiu nem de longe a estatura de um Mahler, Stravinsky ou Shostakovich (só para citar uns poucos grandes que viveram no mesmo século).

Para se entender por que Carmina Burana, como peça sinfônica, não chega aos pés de qualquer marco sinfônico, é preciso recorrer a um conceito formulado por Walter Frisch em Brahms and the Principle of Developing Variation (California Studies in 19th Century Music, University of California Press, 1984). A expressão se refere à técnica composicional utilizada mais emblematicamente por Brahms, segundo a qual todo tecido musical é gerado por meio de repetições variadas (i.e., ligeiramente alteradas) e sucessivas de materiais pertencentes a um mesmo conjunto. Ou, se quiserem, grupo temático.

Assim, podemos dizer que o Bolero de Ravel, com sua repetição obsessiva de um mesmo par de melodias inalteradas, apenas reiteradas por instrumentos diferentes, é o caso mais emblemático de recusa sistemática ao princípio composicional formulado por Frisch. Ao contrário, a realização plena de formas longas conforme praticadas pelos principais representantes da tradição sinfônica pressupõe um domínio absoluto dos procedimentos modulatórios conforme derivados por Schoenberg da música do período de prática comum (i.e., do barroco ao romantismo tardio) em Structural Functions of Harmony (Norton, 1954).

Do mesmo modo, não precisamos ouvir muitos compassos de Carmina Burana para perceber que, ao contrário do que ocorre, digamos, na oitava sinfonia de Mahler, os mesmos materiais (desde pequenas células de poucos compassos até frases ou seções inteiras) são repetidos intactos imediatamente – quase sempre três vezes ao longo de toda a célebre cantata. Imaginem, agora, a monotonia do mesmo expediente replicado por cerca de uma hora, tempo de duração aproximado das duas obras comparadas neste parágrafo. Sem chance alguma, portanto, para a de Orff.

Não que outras obras, a seu modo admiráveis, não repousem sobre as mesmas formas simples, até simplórias ou minimalistas, dos universos medieval (olhando para o passado) ou pop (considerando o futuro). Acontece que, face aos monumentos da grande tradição sinfônica, utilizar a palheta orquestral para algo de contornos tão ostensivamente esquemáticos como Carmina Burana se configura como um dos casos mais escandalosos de desperdício de meios de que se tem notícia no âmbito da criação artística. Noutras palavras, não faz o menor sentido lançar mão da instrumentação utilizada por epígonos do eixo melhor representado por Beethoven, Brahms e Mahler para expressar formas que, despojadas de todas as repetições literais, não durariam mais do que uns poucos minutos. É como orquestrar para naipes completos de cordas, madeiras, metais e percussão, além de coro e solistas, canções com não mais do que dois ou três acordes.

(um modo relativamente fácil de se verificar o grau de ambição formal de uma obra seria submetendo o ouvido crítico à audição de uma versão reduzida para o teclado da mesma, na qual toda cor instrumental é, a priori, suprimida)

Então, em que pese a enorme popularidade da obra mais conhecida de Orff, me poupem dos frágeis argumentos que sustentam que a mesma advenha de algum suposto mérito composicional. E me poupem, igualmente e sobretudo, da validação de qualquer coisa meramente pelo gosto popular. Pois daí para se aceitar a primazia do mercado na valoração de todas as coisas é um tapa. O triunfo do relativismo absoluto em qualquer matéria estética. Prefiro, outrossim, pensar que, como civilização, ainda não despencamos tanto.

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Da diferença essencial entre (i) blogs e redes sociais e (ii) orquestras e universidades públicas; on conducting (xii)

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Isto não é um instrumento musical !

Sou um blogueiro procrastinador. O motivo é bem simples. Blogs são o derradeiro reduto do direito de expressão de seus donos quando outros espaços não se interessam por seus discursos, pouco importando quantas pessoas leiam as postagens neles publicadas. Só que, pela própria natureza do funcionamento de cada tipo de plataforma, redes sociais são imensamente mais interativas do que blogs. Basta ver a proporção existente entre postagens e comentários em cada ambiente. Enquanto blogs são mais afeitos a longos discursos monológicos e geram relativamente poucos comentários, em redes sociais postagens lacônicas podem desencadear, dependendo da temática (i.e., se for mais ou menos polêmica ou ultrajante), enormes sucessões de reações que podem se estender, em muitos casos, por vários dias após a postagem original.

Talvez por isto eu me sinta muito mais compelido a compartilhar inquietações na algaravia do facebook do que no conforto do discurso mais controlado em meu blog. Pois a conversa em si me interessa muito mais do que meus pensamentos depurados em palavras bem acabadas.

Por outro lado, o discurso dos blogs é muito mais permanente do que aquele das redes sociais. Pois é nitidamente mais fácil recuperar ideias lançadas no passado em um blog do que em timelines do facebook. Por isto, gosto de pensar no blog como uma espécie de back up do facebook, para onde exporto, a fim de conferir maior permanência, ideias mais relevantes recortadas de plataformas mais efêmeras.

Foi assim que decidi copiar aqui as palavras extremamente lúcidas proferidas por Graziela Bortz, entre outros comentários interessantes, acerca de um ótimo artigo do  crítico Ali Hassan Ayache (que eu ainda não conhecia !) a propósito da necessidade e supostos benefícios de alguém como Marin Alsop à frente da OSESP. Sob o mesmo, Graziela expressou, de modo ao mesmo tempo conciso e abrangente, tudo o que sempre achei sobre os modos de gestão diametralmente opostos de orquestras e universidades públicas. Sem mais delongas, eis o que ela disse:

[…] orquestra é um monumento artístico como muitos outros, um veículo de expressão artística como muitos outros, que deve, sim, ser mantida como patrimônio cultural importantíssimo. A estrutura precisa, e em alguns lugares isso tem acontecido, ser modernizada. Eu toquei em orquestra, o Augusto ainda toca (tocamos juntos no passado) e ambos dividimos também, como você, Damián, a experiência muito diferente que é a de trabalhar em universidade. Nesta última, a despeito de todos os problemas que enfrentamos, creio que possamos concordar nisso, temos imensamente mais autonomia. Por que? O Augusto disse a palavra-chave: conselhos. Nós somos representados nos órgãos colegiados. Por mais imperfeito que seja esse modelo de democracia, ainda é uma democracia. A orquestra está anos-luz disso. O maestro continua se cercando de puxa-sacos que muitas vezes até são músicos bons, muitas vezes não, e maltratando aqueles sem grandes habilidades na arte do cinismo. É um jogo horroroso de egos que nada tem a ver com técnica ou conhecimento musical, que favorece o crescimento do ego e mata o desenvolvimento da alma, da arte e do espírito de colaboração. Não é preciso ser assim, nós sabemos; vivenciamos outra maneira de gerir o trabalho no cotidiano. Acontece que maestros normalmente são escolhidos e nomeados por políticos, ainda que indiretamente (por um conselho que tem tudo menos músicos da própria orquestra). Lembre-se que, no passado, foram os professores universitários que escolheram esse tipo de gestão, a tal da autonomia universitária. É por isso que temos brigado tanto por mantê-la. Faz toda a diferença em nossas vidas e na de toda a comunidade universitária.

Um pouco adiante na mesma conversa, Graziela exemplificou brilhantemente com as consequências nefastas da concentração de poder em mãos de políticos numa orquestra prá lá de conhecida como a OSESP. Vale muito a pena a leitura.

[…] nesse caso, são oportunidades das quais os políticos fazem uso por deterem o poder de escolha nas mãos, a escolha de nomear os conselheiros (quando tem conselho!), de nomear o líder artístico (sic), os cargos administrativos, e por aí vai. A associação de músicos da Osesp que ousou questionar os contratos de gravações no passado foi 100% demitida na época em que o Neschling era o diretor artístico! E o conselho fez alguma coisa? Claro que não, foi nomeado por ele em comum acordo com os políticos. Isso não acontece na universidade, por razões diversas: nossos contratos são de funcionários públicos e, portanto, estáveis, e nós, professores, somos os conselhos (de membros eleitos pela comunidade). Diferença básica, modelo de autonomia. Tem seus problemas, como mencionei antes, mas não esse, de abuso de autoridade. O perigo é misturar isso com a arte em si. E é disso que estamos falando, e creio que concordamos, que é preciso modernizar o modelo de gestão. O que creio que torna difícil a mudança é que alguns músicos preferem se beneficiar da aproximação do poder, enquanto a maioria (silenciosa, covarde – covardia esta muitas vezes compreensível, pelo medo de perder o emprego) se ferra pelas decisões aleatórias que vêm de cima.

Se tirei meu blog da hibernação para repercutir estas palavras, foi tão somente por pensar que a discussão é altamente pertinente. Mesmo que instituições como orquestras estejam, como as políticas, entre as mais inerciais – i.e, são altamente resistentes a mudanças – e, portanto, como costuma dizer um grande amigo, só devem evoluir depois de alguns séculos (se ainda existirem). Exagero ou não, nada deve mudar antes de minha aposentadoria. Atestando, portanto, neste caso, a total falta de interesses pessoais em minha defesa do que aqui foi ventilado.

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Existe esta naturalização das ideias de que, enquanto em universidades professores são eleitos como líderes por seus pares (i.e., de baixo para cima), em orquestras diretores artísticos (leia-se maestros) são indicados por políticos (de cima para baixo) à revelia de seus quadros estáveis. Ora, tal se deve exclusivamente ao fato de que, para a grande maioria (dos políticos, inclusive), regentes não são percebidos como músicos temporariamente investidos de uma atribuição especial (a regência), mas como pertencentes a uma categoria autônoma e hermética. Uma outra casta, se quiserem, diferente da dos músicos. Deste modo, qualquer evolução da orquestra em direção a um modelo mais democrático passa, obrigatoriamente, pela derrubada deste mito.

Uma analogia bem útil: a carreira de regente orquestral, como a do político, não deveria existir. Isto quer dizer que, num “mundo perfeito”, do mesmo modo que governantes e legisladores deveriam ser não mais do que cargos honoríficos temporariamente ocupados por cidadãos comuns que não abdicassem de suas ocupações originais (sem aposentadorias especiais), também o pódio orquestral deveria ser ocupado, em regime de revezamento, por músicos talentosos que não abdicassem de sua responsabilidade de execução de um instrumento. Tão simples e tão distante do que temos hoje. Ou, como diz meu amigo, é algo para daqui a uns 300 anos.

Caixinhas (i) ou para ouvir Bill Evans (ii)

jazz audience 26Caixinhas é como chamamos aquelas embalagens contendo vários CDs abarcando ciclos composicionais maiores do que a música que cabe em apenas um disco. Em música clássica (na ausência de um termo melhor, prefiro clássico a erudito simplesmente por ter 25% menos sílabas), caixinhas contém geralmente ciclos integrais de sinfonias, quartetos, trios, sonatas e afins de um mesmo compositor, capturados em gravações realizadas ao longo de largos períodos de tempo.

Em música popular, não vi muitas caixinhas a não ser de jazzistas importantes, contendo na maioria das vezes vários takes alternativos de cada música, na maioria versões descartadas à época dos lançamentos originais em LPs e, depois, CDs. Caixinhas de discos de jazz contém, então, sempre versões improvisadas diferentes de umas poucas músicas gravadas durante curtos períodos de tempo. Mais. Grandes jazzistas retornam, em diferentes momentos de suas carreiras, a uns mesmos poucos temas. Há muito mais o que falar sobre isto. Mais tarde, talvez.

Caixinhas decorrem de certo modo da não existência, na indústria fonográfica, de objetos de diferentes valores distribuídos através de um mesmo meio. Explico. A indústria automotiva oferece carros dos mais diversos valores. O mesmo sucede no setor imobiliário. No fonográfico, no entanto, há pouca ou nenhuma diferença entre os valores de comercialização de discos de variadíssimo valor artístico. É, pois, tão somente por meio do agrupamento em coleções de CDs com várias horas de música que esta indústria que luta contra sua própria extinção logra oferecer objetos mais caros a  fãs e colecionadores ávidos.

Também não esperem topar com muitas caixinhas que não sejam de obras terminadas. Pois Investidores apostam mais em coisas de artistas mortos. Sejam sinfonias de Beethoven ou canções da Legião Urbana. Do mesmo modo, coleções monumentais como, por exemplo, dos Beatles devem ser bem mais populares do que dos Rolling Stones e outros que ainda estejam na estrada. Mas é só uma suposição. Não conheço este mercado.

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Foi tomado por esta atração irresistível que todo fã sente por bocados colecionáveis da obra de uns poucos ídolos que topei dia desses, ao mesmo tempo (!) com duas coleções de improvisadores pelos quais nutro especial apreço, a saber, a integral dos sets gravados em um dia pelo trio de Bill Evans com Scott LaFaro no Village Vanguard em 1961 (3 CDs) e todas as 49 faixas deixadas por Clifford Brown com o quinteto de Max Roach (4 CDs).

Acabo de ouvir na íntegra os sets gravados pelo trio de Evans no Vanguard em 25 de junho de 1961, apenas dez dias antes da trágica morte de LaFaro com apenas 25 anos num acidente automobilístico.

Clifford Brown também morreu num acidente automobilístico com 25 anos.

Designers de caixinhas de CDs costumam caprichar no visual. Pois deve ser, por vezes, bem difícil persuadir audiófilos a replicar em CDs itens já existentes em suas coleções de LPs. Nesta hora, embalagens luxuosas, incluindo amplas referências, rico material gráfico e até latas personalizadas, fazem toda a diferença.

Já conhecia de longa data os highlights, editados num único CD, dos sets do trio de Evans no Vanguard em 61. Uma das tantas vantagens de se descobrir, décadas depois, em raras e quase inaudíveis (pois os microfones estavam posicionados para captar o som dos instrumentos e não a voz dos músicos) falas de Evans, preservadas nestas integrais, uma fina ironia acerca da franca indiferença do público de então à sua música. Situação bem diferente, como já apontamos anos atrás, daquela quando do retorno de seu trio ao mesmo santuário em 1980.

Da breve e fértil colaboração de Clifford Brown falarei outra hora.

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A insólita história de Florence Foster Jenkins, ou A comédia e a tragédia da falta de noção

florence 1Todo melômano conhece a voz e a história de Florence Foster Jenkins (1868-1944), imortalizada como a pior cantora lírica a ganhar alguma notoriedade, na Nova Iorque da década de 1940. Filha de um rico banqueiro, foi desde cedo desencorajada nos estudos de canto pelo próprio pai mas, uma vez herdeira de sua fortuna, desfrutou de amplos recursos – e liberdade ! – para tornar pública sua absoluta falta de qualquer talento – se tornando, assim, a maior piada da história do som gravado. Pois gravou, sim, ao menos dois discos. Oferecia um recital anual, cujos ingressos vendia pessoalmente a fim de evitar os jornalistas, e cujos lucros revertiam sempre para instituições de caridade. Consta que seu seu único recital no Carnegie Hall foi nada menos do que memorável, com incontáveis celebridades na plateia, inclusive uma atriz que precisou ser removida às pressas por não conseguir conter o riso.

Sua interessantíssima biografia serviu de trama ao musical Souvenir na Broadway em 2005, o espetáculo Gloriosa com Marília Pera no Brasil em 2009 e, mais recentemente, dois filmes: Margueritte, produção franco-belga-tcheca de 2015, e Florence Foster Jenkins (Inglaterra, 2016 – no Brasil Florence: quem é esta mulher).

Embora o pianista Cosmé McMoon, que aparece no filme inglês, tenha realmente existido e acompanhado Florence desde que a conheceu até sua última apresentação, não há qualquer evidência de que a cantora tenha mantido ao longo de toda sua carreira sua suposta ingenuidade por força da proteção de um marido poderoso – que, curiosamente, em ambos os filmes mantém amantes do círculo de relações da esposa.

Intrigou-me em Margueritte por que os membros da claque eram estrangeiros. Primeiro, achei que, por serem desconhecidos dos nativos, melhor poderiam denotar verdade em comportamentos falsos (como o aplauso imerecido). Só depois vim a entender que, justamente por serem reconhecidos como forasteiros, melhor poderiam induzir nativos a duvidar de seus próprios julgamentos diante dos de estranhos supostamente mais informados.

Em ambos os filmes (bem como no verbete da wikipedia dedicado à cantora) se aventa a hipótese, de cores inegavelmente dramáticas, de que a mesma teria morrido em decorrência de uma depressão resultante de ter finalmente se dado conta da razão de sua imensa popularidade.

Vi primeiro Margueritte, reputado por muitos como bem superior a Florence. Certamente por já conhecer a bizarra voz e imensa cara de pau (ou, para dar o benefício da dúvida, total falta de noção) de Florence, fui ao cinema em busca de risadas. Vi, no entanto, uma tragédia, magistralmente anunciada. A cena final (salte um par de linhas se não quiser ler o spoiler) – do marido correndo para tentar impedir que Margueritte ouvisse, por uma primeira e derradeira vez, uma gravação de sua própria voz – é, desde já, antológica.

Tendo, até então, visto apenas o divertido trailler de Florence Foster Jenkins, me resignei com a tristeza da tragédia de Margueritte achando que as risadas viriam inevitavelmente com o filme inglês. Nova decepção. Nele, também a trágica história de alguém protegido da consciência da própria miséria que sucumbe ao impacto da perda da inocência.

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Ao contrário dos dois filmes, que abraçam a ideia de uma suposta ingenuidade de Florence em relação ao próprio talento, a wikipedia duvida desta hipótese, a retratando como perfeitamente ciente de sua aguda limitação e da própria comicidade como razão única de seu sucesso. Segundo a plataforma colaborativa, FFJ tinha plena consciência de sua voz miserável, bem como do efeito hilariante produzido em ouvintes experimentados quando de sua audição, não sendo, portanto, de modo algum aceitável a hipótese de que a cantora de algum modo ignorasse ou não percebesse tais peculiaridades. Corroboram esta hipótese, supostamente, não só o fato de Florence ter ativamente mantido, por meio do estrito controle sobre a venda de ingressos, os críticos afastados de seus recitais – mas de também ter, ao menos ocasionalmente, muito provavelmente ouvido seus próprios discos.

Até o momento da postagem deste texto, não tenho nenhuma opinião formada acerca de se Florence Foster Jenkins, como sugerem os dois filmes, não tinha a menor noção de sua incompetência tragicamente cômica ou se (como parece querer fazer crer a wikipedia), ao contrário, tinha plena consciência das limitações da própria voz, deliberadamente tirando proveito de sua comicidade. Por isto, pergunto: Florence foi ou não um caso exacerbado de falta de noção ? Ouça e decida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estreia da Big Band do Instituto de Artes da UFRGS

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Foto: Eduardo Gutterres

Dias atrás, assistimos, Astrid e eu, à apresentação de estreia da big band do Instituto de Artes da UFRGS. Antes de comentar o que ouvimos na ocasião, cabe uma pequena nota de esclarecimento. Todo músico experiente sabe que a principal dificuldade enfrentada por qualquer coletivo musical é se encontrar periodicamente para ensaiar. A tal ponto de se poder afirmar com segurança que, portanto, a probabilidade de permanência de qualquer grupo é inversa e exponencialmente proporcional ao número de seus integrantes.

Muitos grupos acadêmicos contrariam esta lógica existindo por muito tempo tão somente por força da obrigatoriedade curricular de participação de alunos nos mesmos. Tal não é o caso da big band do IA – que, apesar de ostentar o nome da instituição sob a qual se abriga, não possui qualquer vinculação com os cursos de música lá oferecidos, tendo surgido de modo espontâneo exclusivamente em razão da vontade de seus membros. Então, só pelo fato de ter ensaiado e realizado com êxito uma apresentação de estreia, esses jovens músicos já mostraram claramente a que vieram, nos restando torcer para que tornem a se apresentar regularmente e com frequência. Posto isto, falemos do recital.

Confesso ter saído de casa preparado para ouvir algo meio verde, como na maior parte dos espetáculos de estreia. Como se, por este motivo, a apresentação devesse ser guarnecida por uma tarja de advertência. Minha (baixa) expectativa foi frustrada logo de início, pois a rapaziada ganhou o (numeroso !) público abrindo o concerto com Superstition, de Stevie Wonder. A partir dali, ficou claro que a noite seria de festa.

A big band do IA possui uma formação inusual, com duas guitarras elétricas encorpando a seção rítmica (constituída quase sempre apenas por um trio de piano, contrabaixo e bateria, além de percussão). Tal distinção lhe confere uma “pegada” mais sólida, bem distinta daquela ouvida em precursoras da era do swing, que é percebida pelo ouvinte casual como um som mais “moderno”. Sem falar nas portas que tal formação abre para o repertório. Senão, como imaginar hits como o tema de Hawai 5.0 ou o já mencionado Superstition com um conjunto de instrumentação mais “clássica” ?

Todo o concerto foi empolgante, transcorrendo num clima que variava do solene ao festivo, com apenas duas ressalvas. Primeiro, o arranjo de Over de Rainbow (música do filme O Mágico de OZ), escolhido (soube depois) burocraticamente, apenas para aumentar a duração do espetáculo. De uma rasura constrangedora, o mesmo destoava flagrantemente do altíssimo nível dos demais arranjos, notadamente aqueles assinados por Nikolas Gomes (baixista da banda e aluno do IA) e Julio “Chumbinho” Herrlein (professor do IA).

Depois, senti uma tremenda falta de amplificação, sobretudo dos instrumentos de sopro e do piano, os quais, sem um gás que seria facilmente suprido por uma combinação adequada de microfones, console de mixagem, amplificadores de potência e caixas acústicas, soavam, por vezes, irremediavelmente abafados pelo contrabaixo. Como soube depois, os próprios músicos da banda tinham consciência desta deficiência, decorrente da falta de recursos dos mesmos para arcar com o alto custo deste tipo tão necessário de parafernália. Espero que, no futuro, consigam atrair a atenção de algum apoiador para este fim.

O que me surpreendeu mais positivamente foi a grande coesão do grupo recém-formado. Mais do que tocarem juntos (toco numa orquestra sinfônica e, portanto, sei como isto é difícil), tinham uma perfeita noção de equilíbrio, apesar da falta de amplificação, respeitando o espaço alocado a cada momento para naipes e solistas. Mérito compartilhado, sem dúvida, pelo regente Guilherme Rodrigues (aluno do IA), sempre claro e seguro.

Por fim, não poderia deixar de mencionar o que pareceu a ouvintes mais experimentados que lá estavam uma das maiores atrações da noite: o trompetista Gabriel Ugamba (aluno do IA), praticamente um autodidata, com suas improvisações eletrizantes, nas quais não hesitava em assumir riscos – e sair muito bem deles ! Não é pouca coisa. Mais: é ótimo saber que há entre nós outros grandes improvisadores ao trompete além do Jorginho.

De resto, cabe, aqui, ecoar as palavras emocionadas proferidas antes do espetáculo pela chefe do Departamento de Música e idealizadora do curso de graduação em música popular da UFRGS Luciana Prass, a saber, ” – Vida longa à Big Band do IA ! “

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Foto: Eduardo Gutterres

A morte de Boulez e o lugar do ouvinte

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A morte de Pierre Boulez trouxe à tona uma sorte de inquietação que eu tinha mas que já havia há muito apaziguado, que tem a ver com o que é esperado de um ouvinte de suas obras ou, até, com a interessante questão de até que ponto sua música, e congêneres, efetivamente pressupõem a existência de ouvintes.

Pois, até o início do século passado, toda música, pública ou privada, pressupunha a existência de alguém que, voluntariamente, a ouvisse. O que equivale a dizer que tudo o que era composto, executado e ouvido, seja em mosteiros, cortes ou salas de concerto, tinha, necessariamente, um que de sedutor, visando um tipo de gratificação que resultasse, no mínimo, num desejo de tornar a ouvir aquilo ou algo semelhante.

Já faz tempo que compositores conquistaram a prerrogativa de criar música que não tivesse, necessariamente, qualquer compromisso com a gratificação e/ou a aprovação pública. Tal estado de coisas foi muito bem colocado por Milton Babbitt num manifesto que acabou por definir a universidade como o lugar ideal do compositor criativo. A partir do documento, cai por terra qualquer obrigação que um compositor anteriormente tivesse com a satisfação do público, devendo o mesmo prestar contas tão somente à própria consciência e a mais ninguém. Tal noção, a saber, de que a música possa ou mesmo deva prescindir de qualquer aprovação pública, está arraigada a grande parte do que vem sendo produzido até hoje.

Assim que soube do passamento de Boulez, me dei conta, ao ler alguns obituários, em sua maioria laudatórios e uns poucos mais ácidos em relação à obra do mito que se foi, de que, embora esteja ciente da importância das ideias musicais do mesmo durante as últimas décadas, pouco ou nada escutei de sua obra. Então, dentre a profusão de músicas que, juntamente com tantos obituários, povoaram minha timeline desde ontem, escolhi aleatoriamente ouvir sua sonatina para flauta e piano. Nenhuma surpresa. Difícil esperar que algum ouvinte (salvo compositores ou entusiastas da originalidade a qualquer preço – mas aí é outra história) queira, espontaneamente, tornar a ouvir aquilo.

Confesso que não suportei ouvir por muito tempo o que me pareceu, no máximo, uma realização de caos sonoro fixada em partitura. Para fugir dos “grilhões” impostos pela tonalidade e formas por ela engendradas, compositores do século 20 recorreram a expedientes variados. Enquanto serialistas recorreram a uma hierarquização arbitrária dos sons – primeiro em relação às alturas (segunda escola de Viena) e, depois disto, estendendo o mesmo princípio a outros parâmetros sonoros (durações e intensidades), outros, chamados estocásticos, recorreram a métodos probabilísticos para lograr resultados que, na prática, soavam incrivelmente semelhantes à música produzida pelos primeiros.

De um modo ou de outro, o cânone obedecido por toda vanguarda imediatamente posterior ao romantismo tardio era não soar, em hipótese alguma, tonal. O que, em nosso entender, só reforçava, pela própria negação, a enorme força da tonalidade em música. Noutras palavras, o nome do jogo foi, para alguns e por certo tempo, procurar novas ordens que emulassem, para os ouvintes, a desordem. Esta distinção é crucial pois, se durante todo o período de prática comum da música tonal a organização formal de uma peça musical era perfeitamente audível e, portanto, aparente, já nas obras daqueles compositores que se tornaram conhecidos como a segunda escola de Viena (Schoenberg, Berg e Webern) os elementos organizadores se tornaram ocultos – como se as formas tivessem se tornado criptografadas, deliberadamente inacessíveis ao ouvinte. Isto é particularmente notável, por exemplo, nos movimentos da ópera Wozzeck, de Alban Berg.

Que se faça uma experiência. Que recepção teria qualquer obra do mítico Boulez se atribuída a qualquer compositor obscuro ? Ou, ainda, até que ponto partes da mesma poderiam ser permutadas ou alteradas deliberadamente sem que qualquer ouvinte, mesmo dos mais treinados, se desse conta de que a obra tenha sido violentamente mutilada ? Isto seria algo impensável no repertório do chamado “período de prática comum”.

Curiosamente, os “pais” da música serial (principal vertente da negação da tonalidade que obcecou tantas das melhores mentes musicais do século 20) flertaram com a música tonal em diferentes momentos de suas vidas. Schoenberg, inventor do primeiro método serial, conhecido como dodecafonismo (a não repetição de qualquer altura antes que as outras 11 da escala cromática tenham sido escutadas), já havia logrado um dos mais perfeitos entendimentos jamais formulados (vide os livros resultantes de anotações de suas aulas em Princeton) da música tonal muito antes de formular a técnica atonal que o consagrou; já Boulez, que estendeu o sistema criado por Schoenberg para as alturas a outros parâmetros musicais, se consagrou como um dos mais importantes regentes de música tonal bem depois de ter inventado o serialismo integral. Ambos chegaram, então, cada um a seu tempo, a uma compreensão extremamente privilegiada do tipo de música, por eles próprios definida como tonal (já que, afinal, antes disto, não fazia qualquer sentido a distinção entre tonal e atonal pela própria inexistência, até então, da segunda categoria), da qual mais quiseram se distanciar enquanto compositores.

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Dentre as anotações soltas para este texto, encontro uma na qual identifico, na música do período de prática comum, um delicado equilíbrio entre o grau de ambição (complexidade) de uma música e sua inteligibilidade, ou perspectiva de compreensão por parte daqueles a quem convencionamos chamar de ouvintes treinados.

Só que, durante o último século, houve uma nítida fratura entre, de um lado, a música mais informada, que se tornou mais complexa e para ouvintes mais especializados nas mãos dos compositores seriais (primeiro os da segunda escola de Viena; depois os do círculo de Boulez, que aderiram ao cânone do serialismo integral) e, de outro, uma simplificação exacerbada, traduzida inicialmente nas formas curtas e contornos tonais básicos do pop e, mais recentemente, na abolição de qualquer melodia que define o rap.

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Talvez o conceito chave mais importante para “signatários” do manifesto de Babbitt seja o abandono deliberado da noção de prazer estético a ser fruído por ouvintes. Consoante a isto, já ouvi de um grande amigo, exímio compositor e guitarrista com uma compreensão musical privilegiada, ante minha predileção por isto ou aquilo, que nenhuma música almeja à gratificação do ouvinte – não sendo, portanto, nenhuma mamadeira (sic !). Pela inteligência e estima que lhe reputo, suponho que possa ter alguma razão. Não obstante, teimo em perseguir, em minha escuta, toda sorte de gratificação. Sou, está claro, incuravelmente hedonista.

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