Por que restaurantes são tão barulhentos: em prol de espaços gastronômicos mais silenciosos

O facebook é uma ótima caixa de ressonância para testar o apelo de um tema. Em razão da grande repercussão, tanto pela quantidade de curtidas como de comentários, de duas tiradas jocosas que lasquei sobre restaurantes barulhentos, tive a gratificante sensação de não estar só no ressentimento que nutro, nem tanto em relação aos ambientes, mas a muitos de seus frequentadores.

Inventariei duas causas mais frequentemente levantadas para o fato de que tantos espaços dedicados à gastronomia ou mesmo à mera alimentação sejam tão insuportavelmente ruidosos. Enquanto uns apontam que o tratamento acústico de restaurantes visando o conforto auditivo é, na maioria das vezes, absolutamente ignorado, outros concordam que falta a muitos frequentadores destes espaços, por definição compartilhados, um mínimo de decoro e respeito para com os demais clientes.

O melhor engenheiro acústico que conheço, meu amigo Marcos Abreu (minha generosidade (jamais exagero) ao elogiar meus amigos não deve ser, a estas alturas, novidade para ninguém), vai mais longe ao sugerir que as duas coisas (frequentadores excessivamente animados e acústica inadequada) estão relacionadas, da seguinte maneira: a reverberação (não amortecimento de ondas sonoras), decorrente de muitas superfícies sem tratamento acústico apropriado, contribui para a substancial elevação do ruído de fundo ao ponto de que mesmo interlocutores próximos tenham que elevar demasiadamente a voz para se fazerem entender. Se instaura, então, a gritaria, numa espécie de competição para ver quem ganha ao falar mais alto mas na qual todos saem perdendo.

Há bastante literatura sobre o assunto. Marcos me enviou um texto (cujo acesso exige um cadastro – largamente compensado, no entanto, pela qualidade da leitura), publicado originalmente em The Atlantic, no qual a jornalista Kate Wagner esmiúça bem a questão, traçando a história da arquitetura de restaurantes e fornecendo, além disto, vários links para muito do que já foi dito sobre o assunto. Nele, uma frase resume perfeitamente o problema: ” Restaurantes barulhentos são mais lucrativos. ” Por muitas razões, dentre as quais 1) superfícies lisas são mais fáceis de limpar; 2) conjuntos de acessórios e utensílios de mesa (que contribuem para reduzir a reverberação) mais sucintos, além se serem mais baratos, envolvem menos gastos com pessoal e, last but not least, 3) o ruído excessivo induz a um maior consumo de álcool – o qual, evidentemente, gera mais lucro.

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Uma das coisas que acho mais fascinantes em redes sociais é que, por mais que queiramos promover esta ou aquela discussão, não temos qualquer controle sobre quais direções as mesmas irão tomar. Assim, quando quis falar sobre comensais estrepitosos, Marcos acabou se apropriando de minhas postagens para falar dos desígnios de arquitetos e donos de restaurantes. Adoro esta imprevisibilidade.

Por isto, recorro, agora, ao espaço mais monológico do blog para concentrar o foco no problema da falta de decoro de alguns frequentadores de cafés e restaurantes. Não que eu repudie a boa conversa nestes espaços – ao contrário, poucos prazeres se comparam ao de trocar ideias com entes queridos ao redor de uma boa mesa. Notem que os verdadeiros apreciadores destas ocasiões quase sussurram uns aos outros, como se contassem segredos que não quisessem compartilhar com mesas vizinhas. Infelizmente, o comportamento contrário é tão ou mais frequente, como se quisessem tornar tudo o que é dito público para quem mais estiver no recinto, além da fronteira das próprias mesas. É a estes frequentadores que dirijo esta diatribe.

Não creio que o façam conscientemente. Antes, por uma questão de educação (não falo, aqui, de etiqueta ou boas maneiras, mas de formação mesmo). Quem grita em locais públicos desconsidera o fato de que muitos dos que ali estão possam ter especial apreço pelo silêncio, seja para conversar, ler um livro ou, quando for o caso, inebriar os sentidos em reverência à arte do cozinheiro.

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Frequentador solitário contumaz de restaurantes em horário de almoço, sou invariavelmente exposto a conversas alheias. Exceto quando tento ler algo, tal sorte de invasão não costuma me incomodar. Com o tempo, passei até a me divertir com a coisa. Primeiro, desenvolvendo uma tipologia. Famílias não almoçam fora – exceto, é claro, em fins de semana, quando povoam as churrascarias. Tampouco casais, que preferem jantar juntos. Com isto, há, predominantemente, 1) almoços de negócios e 2) almoços de confraternização. Nesta última categoria, são bem comuns as “confrarias” que se reúnem, talvez mensalmente, e que, nesta época, trocam presentes de amigos secretos. Jamais falam de trabalho. Os mais jovens falam de namorados. Os mais velhos, de filhos, netos e viagens. Todos parecem se divertir muito.

(meu pai costumava dizer que, pela idade média de um grupo (masculino) de amigos, se pode muito bem adivinhar do que falam: até os 40 anos, falam com certeza de mulheres; dos 40 aos 60, o assunto mais provável é comida; depois dos 60, trocam dicas de medicamentos)

Os almoços de negócio são de longe os mais problemáticos. Mesmo que não saibamos qual o produto ou serviço que está sendo negociado, sempre se pode adivinhar quem é o vendedor: é aquele que mais fala ou, não raro, o único que fala. Dá para imaginar o desejo do comprador de sair correndo dali na primeira oportunidade. Num almoço de negócios, não necessariamente o vendedor fala daquilo que quer vender mas, mais frequentemente, sobre amenidades, enaltecendo sua pessoa de modo a conquistar a confiança do comprador para transações que virão a se concretizar na frieza de um escritório ou numa troca de emails. Pois nunca vi ninguém assinar um contrato num restaurante. Para o observador, o mais gritante é a dissociação entre o que aquilo quer parecer (um encontro informal entre amigos) e o que realmente é (um pavoneamento visando uma transação comercial). Bem disse outro amigo, Jonatha Arruda, que tais reuniões deveriam se restringir aos espaços empresariais.

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Numa primeira tirada engraçadinha, lembrei que houve um tempo, antes do banimento do fumo em locais públicos fechados (e que, portanto, millennials sequer conheceram), em que restaurantes mantinham salões distintos para fumantes e não fumantes. A seguir, clamei por uma evolução, dentro da mesma linha de segregação benigna, na qual espaços gastronômicos venham a oferecer a seus clientes salas estrepitosas e silenciosas.

 

 

Bullshit Jobs: a Theory, de David Graeber (2018)

Raros livros me impactaram tanto, nos últimos anos, como Bullshit Jobs: a Theory (2018), do antropólogo anarquista David Graeber, atualmente lotado na London School of Economics. O tema que dá nome ao volume – a saber, aqueles trabalhos percebidos como inúteis ou até mesmo nocivos à sociedade por quem os exerce – já é, por si só, fascinante. Como se não bastasse, o livro mais recente de Graeber (autor, entre outros, de Dívida: os primeiros 5000 anos (já traduzido) e The Utopia of Rules (também inédito em português)) ostenta uma densidade lógica (conceito que formulo aqui e ao qual também me refiro aqui) excepcional. Nele, não há sequer um único parágrafo que possa ser tomado por acessório ou colateral à argumentação – o que rende, de saída, qualquer resenha, enquanto recorte, como supérflua. Bem melhor, neste caso, é ler a coisa inteira. Ainda assim, teimoso que sou e impactado que estou, prossigo.

Outra boa razão para se evitar (escrever e ler) esta resenha é que o livro ainda não foi traduzido para o português. Com isto, estas linhas servirão, no máximo, para que alguns entusiasmados se submetam à trabalhosa e demorada importação de um exemplar. Trabalho, portanto, inútil ? Não acho. Quem decidir me acompanhar além deste preâmbulo haverá de concordar.

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Bullshit Jobs: a Theory se originou a partir do ensaio On The Phenomenon of Bullshit Jobs (traduzido por mim aqui) publicado por Graeber em 2013 e reproduzido no prefácio de seu livro de 2018.  Entre uma coisa e outra, o autor realizou uma pesquisa a partir de uma ampla base de dados formada por depoimentos (anônimos por razões óbvias) em resposta a seu ensaio original e ensejados por provocações por ele lançadas através do Twitter (!) – o que, por si só, o situa como, no mínimo, um pesquisador original. Tais depoimentos, citados textualmente e costurados pela voz do autor, constituem a  base da estrutura narrativa da obra de tal forma que, nela, qualquer monotonia potencial da voz onipresente do último é temperada pela variedade e, em certos casos, até humor (pois não há nada mais divertido e verdadeiro do que a auto-ironia) das vozes emprestadas por seus muitos informantes.

É a partir desta rica casuística que Graeber deixa claro, ao longo do primeiro capítulo e por meio de sucessivas definições provisórias aproximativas, o que vem a ser um bullshit job – a saber, todo trabalho percebido com socialmente inútil ou mesmo pernicioso por quem o executa.

A expressão bullshit job traz em si um problema para o tradutor. Num primeiro impulso, somos tentados a traduzi-la simplesmente como “trabalho de merda”. Só que, já no início do livro, a coisa se complica quando o autor faz uma distinção entre um bullshit job e um shit job, demonstrando por que nem todo trabalho que pertence a uma das categorias pertence, necessariamente, também à outra. Com isto, “trabalho de merda” e “merda de trabalho” estão longe de se constituir em traduções satisfatórias por não explicitarem suficientemente a distinção entre as duas categorias.

Nos capítulos subsequentes, estabelece uma tipologia de tais trabalhos (capítulo 2); trata da violência psicológica sofrida por quem neles se vê encurralado (capítulos 3 e 4); explica por que tais trabalhos proliferam (capítulo 5) e por que não objetamos, como sociedade, à proliferação dos mesmos (capítulo 6) e, finalmente, no último capítulo, analisa os efeitos políticos dos bullshit jobs e propõe uma possível solução (no spoilers yet) para tal estado de coisas.

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Mesmo reconhecendo a natureza redutora de toda resenha, é impossível resistir a mencionar em detalhe certas passagens de Bullshit Jobs: a Theory. Como, por exemplo, quando nos é explicado, já nas definições aproximativas iniciais, por que não se pode dizer que um assassino da máfia tenha um bullshit job – uma vez que o mesmo, ainda que admitindo o óbvio prejuízo social inerente a seu trabalho, acredita fazer parte de uma honrada e antiga tradição com finalidades claras.

Outra parte memorável, capaz de dirimir qualquer dúvida sobre o que venha a ser um bullshit job, é a supracitada tipologia do segundo capítulo. Nele, Graeber divide tais trabalhos em cinco categorias:

Lacaios (flunkies). São aqueles postos de trabalho que existem exclusivamente para que alguém (o chefe) se sinta importante. Como exemplo mais emblemático, temos as comitivas que precedem a entrada de autoridades em qualquer recinto. Também não é nenhuma novidade que o poder de quem quer que exerça alguma atividade gerencial é medido pelo número de subordinados ao seu comando. Qualquer semelhança entre a alta incidência de lacaios em ambientes de trabalho contemporâneos e no mundo medieval não é mera coincidência, sendo tratada em profundidade nas partes dedicadas ao “feudalismo gerencial” (managerial feudalism).

Valentões (goons). Usada metaforicamente (i.e., não se referindo apenas a gangsters), a expressão serve para designar pessoas cujo trabalho envolve algum tipo de violência e existe apenas por que alguém as emprega. Exemplos clássicos incluem forças armadas (países só tem exércitos por que outros países os tem), lobistas, especialistas em relações públicas, operadores de telemarketing e advogados corporativos.

Duct tapers. De difícil tradução. Tapa-buracos, talvez. Pertencem a esta categoria todos aqueles que executam remendos ou gambiarras para resolver problemas que simplesmente não deveriam existir mas que, em existindo, emperram o bom funcionamento de um todo maior. Tais trabalhos são particularmente abundantes na indústria da informática.

Box tickers. Igualmente de difícil tradução. O nome se refere àqueles formulários que incluem quadradinhos que devem ser marcados por “tiques” (sinais em forma de “V”). Para Graeber, são todos aqueles empregados que existem exclusiva ou primordialmente para que organizações possam alegar estarem fazendo o que, na verdade, não fazem.

Taskmasters (another category likely to be lost in translation). Se dividem em dois tipos.

Pertencem ao primeiro aqueles que, encarregados de atribuir tarefas a terceiros, acreditam que as mesmas seriam desempenhadas de qualquer maneira, mesmo que não fossem por eles atribuídas. Deste modo, taskmasters do primeiro tipo (supervisores desnecessários) podem ser considerados como o exato oposto de flunkies (subordinados desnecessários).

Taskmasters do segundo tipo são aqueles que inventam tarefas desnecessárias para outros realizarem.

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A distribuição da incidência de bullshit jobs não é homogênea em relação a todos os setores da economia. Tais trabalhos parecem se concentrar mais no setor administrativo intermediário (middle management) e em empresas do setor FIRE (finance, information and real estate (financeiro, informático e imobiliário)).

Tamanha proliferação de cargos inúteis jamais poderia existir sem uma igual abundância de títulos para os mesmos. Numa das passagens mais divertidas, Graeber oferece, em seu site dedicado ao assunto, um Job Title Generator engraçado por si só que dispensa quaisquer comentários.

Um mito bem popular derrubado por Graeber é o de que bullshit jobs seriam peculiares ao setor público. Ao contrário, existem igualmente no privado. Se há uma regra para sua proliferação, parece ter a ver com a maior presença de práticas e conceitos gerenciais em qualquer indústria. São particularmente ilustrativas as análises de sua influência recente na academia e na indústria criativa, particularmente a cinematográfica.

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Forçado, em nome da concisão, a eleger para menção uma única parte dos dois riquíssimos capítulos sobre o sofrimento amargado por detentores de bullshit jobs, minha escolha recai facilmente sobre a exploração de elementos sadomasoquistas inerentes a tais trabalhos. É quando o autor faz uma distinção importantíssima entre as práticas sadomasoquistas recreativas e a ocorrência da mesma sorte de relação em ambientes de trabalho.

Não deve ser nenhuma novidade, mesmo para não adeptos destas práticas, que todo sofrimento físico consentido infligido por dominadores a dominados pode ser interrompido por uma palavra de segurança (como “laranja”). De tal modo que alguém que subitamente não suporte mais a dor de, por exemplo, ter cera quente derramada sobre o corpo pode interromper a “brincadeira” pela simples pronúncia da palavra “laranja”. Só que, em ambientes de trabalho marcados por relações sadomasoquistas, um empregado não pode interromper sem maiores consequências (como o desemprego) qualquer abuso cometido por seu chefe simplesmente dizendo “laranja” (cujo equivalente numa relação de trabalho seria “eu me demito”).

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Quando o ensaio de 2013 no qual Graeber cunhou a expressão bullshit jobs viralizou, uma das reações previsíveis foi um esforço acadêmico-científico para quantificar o fenômeno. Daí emergiram dados alarmantes, ainda que nem um pouco surpreendentes. Na ocasião, se constatou que no Reino Unido nada menos do que 37% dos entrevistados declararam estar aprisionados em bullshit jobs. Replicada na Holanda, a enquete revelou uma realidade ainda mais impressionante: 40% se consideraram na mesma situação. Isto quer dizer quase metade da população – ou, se quiserem, em número suficiente para eleger um presidente ou primeiro ministro numa democracia. Ainda assim, ainda há quem se recuse a ver a coisa como um problema social. A prevalência deste estado de coisas é esmiuçada nos capítulos sobre por que  bullshit jobs proliferam e por que não reagimos, como sociedade, à proliferação dos mesmos.

Aqui, uma dose moderada de spoilers não deverá afugentar potenciais leitores. Suficiente dizer que a manutenção do problema é um pré-requisito para o capitalismo. Como ? Impossível resumir. Até por que os dois capítulos supracitados são uma aula de história, traçando a origem do mito puritano de que “o sofrimento laboral forma o caráter” desde tempos medievais até os dias de hoje, passando por vários filósofos, discutindo a diferença entre “valor” e “valores” e a transição gradual da vigência da teoria do valor-trabalho (labor theory of value) para a aceitação praticamente hegemônica da lei da oferta e da procura, que serve de pilar ao capitalismo.

Tamanha densidade de informações (bibliográficas inclusive) aportadas tornam estes capítulos algo para ser lido e relido – até como mapa para outras leituras.

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Graeber tempera o tom professoral naquilo que mais poderia parecer um tratado (pelo título da obra, de seus capítulos e sub-capítulos) com tiradas engraçadas aqui e ali. Para destacar apenas duas:

Depois de anunciar, nalgum lugar no início do livro, que vê com reservas o fato de ser frequentemente tachado de anarquista (numa compreensível aversão ao aspecto reducionista dos rótulos); se auto-declara, ao fim da obra, um anarquista.

No mesmo último capítulo, depois de deixar claras suas restrições (bem razoáveis) a finalizar uma obra por meio de uma receita ou recomendação para solucionar os problemas nela apontados, preconiza com todas as letras que quaisquer bullshit jobs seriam sumariamente riscados do mapa mediante a implementação de uma renda mínima universal. Ambas as discussões (tanto o disclaimer contra as fórmulas prontas como aquela sobre os possíveis prós e contras de uma renda mínima universal) coroam o volume de uma forma deliciosa, transmitindo ao leitor a plena convicção de que nada do que nele foi lido é supérfluo ou, de algum modo, acessório.

A observação acima, sobre a obrigatoriedade de cada linha, sublinha também o fato das notas sobre o texto serem tão volumosas quanto interessantes. São 40 páginas de notas (fora a bibliografia) para 285 de texto (fora o prefácio), ensejando fatalmente a especulação sobre se o autor

escreveu as notas à guisa de complementação depois de ter o livro pronto (o que é menos provável); ou, antes,

preferiu relegá-las a um apêndice, como num hipertexto, a fim de não comprometer, com elas, seu apurado fluxo argumentativo.

De qualquer modo, quaisquer que sejam as razões que o levaram a destacar, no final da obra, observações tão interessantes – praticamente um outro livro sobre o livro, é altamente recomendável que as mesmas sejam lidas na íntegra concomitantemente ao texto principal.

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Como já deixei claro, é bem difícil eleger uma ou outra passagem do livro para destaque (dignas, digamos, de terminar uma resenha sobre o mesmo). Ainda assim, sou, como disse acima, teimoso e, como tal, arrisco afirmar que, de tudo o que li em Bullshit Jobs: a Theory, talvez o que mais tenha reverberado, no sentido de permitir uma compreensão superior do universo capitalista, é que

o mesmo é alimentado por uma complexa, sutil e insolúvel rede de ressentimentos mútuos entre classes de trabalhadores – não apenas entre aquelas mais óbvias tais como patrões X empregados ou capitalistas X trabalhadores, mas entre as próprias categorias ocupacionais; e que

o que conhecemos usualmente por economia é, antes do que uma ciência, uma doutrina, com raízes históricas claras e, por vezes, profundo cunho teológico.

Bullshit Jobs e o jugo do feudalismo gerencial; entrevista concedida por David Graeber a The Economist

Populismo, trabalho sem sentido e juventude em pânico: uma entrevista com David Graeber, da London School of Economics, publicada pela revista The Economist

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Jamais depois de Dilbert a verdade foi dita sobre o poder em postos de trabalho desumanos. Mas o sucessor do personagem do cartoon pode ser David Graeber. Em 2013, adquiriu fama viral entre zumbis de cubículos de toda parte depois de publicar um ensaio curto sobre a persistência de trabalhos que não tem qualquer razão social ou econômica de existir, aos quais chamou bullshit jobs. A ampla atenção parece confirmar sua tese.

David Graeber, um antropólogo da London School of Economics, desenvolveu recentemente a ideia num livro. Ele respondeu a cinco perguntas da iniciativa Open Future da revista The Economist, atacando “comitivas feudais de lacaios basicamente inúteis”. Graeber diz que “as pessoas querem sentir que transformam o mundo ao seu redor de modo a fazer alguma diferença positiva”.

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The Economist: O que é um bullshit job ? Poderia dar alguns exemplos ?

David Graeber: Um bullshit job é um trabalho que mesmo a pessoa que o executa secretamente acredita o mesmo é desnecessário e não deveria existir. Que se aquele trabalho, ou mesmo toda a indústria do qual faz parte, desaparecesse, não faria a menor diferença para ninguém ou até mesmo o mundo talvez fosse um lugar ligeiramente melhor.

Algo em torno de 37 a 40% dos trabalhadores, de acordo com pesquisas, dizem que seus trabalhos não fazem diferença alguma. O que há de radical no livro não é a constatação de que muitas pessoas pensem assim, mas o fato de que, na maior parte das vezes, elas estejam largamente certas. Seus trabalhos são realmente tão sem sentido quanto elas realmente pensam.

Apenas acreditando nas palavras das pessoas podemos subestimar o problema, já que, ainda que você ache que o que está fazendo não faz qualquer sentido, deve obviamente haver um quadro mais amplo no qual você realmente está contribuindo para o bem maior ou, ao menos, para o bem maior da organização. Só que ninguém lhe explicou como.

Por outro lado, se você acha que está fazendo alguma coisa para a qual parece haver uma boa razão para ser feita mas, no grande quadro, não há (como, por exemplo, se toda a operação da qual você participa é algum tipo de fraude ou, ainda, se ninguém lê os relatórios que você produz, etc), bem, esta é precisamente a situação na qual menos provavelmente lhe dirão o que está acontecendo.

Se minha pesquisa de algum modo procede, bullshit jobs não se concentram tanto nos serviços mas nas tarefas de escritório, administrativas, gerenciais e de supervisão. Muitos trabalhadores em administração intermediária, relações públicas e recursos humanos, tais como muitos gerentes de marcas, vice presidentes de criação, consultores financeiros e empregados em direito corporativo e marketing, sentem que seu trabalho não faz qualquer sentido.

 

The Economist: O que o fato desses trabalhos sem propósito existirem diz do lugar de trabalho moderno ?

David Graeber: Uma coisa que isto mostra é que todo o ideal “enxuto e eficiente” é aplicado muito mais a trabalhadores produtivos do que a cubículos de escritório. Não é nada raro executivos que se orgulham de enxugar e acelerar no chão da fábrica, na distribuição e por aí afora usarem o dinheiro economizado ao menos em parte para ocupar seus escritórios com comitivas feudais de lacaios basicamente inúteis.

Eles tem equipes completas de pessoas que estão lá apenas para, por exemplo, desenhar gráficos para seus relatórios, escrever elogios para revistas internas que ninguém lê ou, em muitos casos, não fazer absolutamente nada além de memes de gatos e jogar no computador o dia inteiro. Mas eles são mantidos lá por que o prestígio e às vezes até o salário de todo gerente é proporcional ao número de pessoas a ele subordinadas.

Quanto mais o lucro de uma empresa é derivado de finanças ao invés de da fabricação ou venda de alguma coisa, mais isto tende a ser verdade. Chamo a isto “feudalismo gerencial”. Mas não é só o setor de finanças, de seguros e imobiliário: há uma infestação similar nos níveis intermediários das indústrias criativas em geral. Eles continuam adicionando posições gerenciais entre as pessoas produzindo coisas e os caras que pagam por isto cuja única função é frequentemente sentar o dia todo tentando vender coisas uns aos outros.

Saúde e educação são igualmente complicadas: gestores agora acham que cada um deve ter seu esquadrão de assistentes que, frequentemente sem ter nada o que fazer, acabam inventando novas formas exóticas de trabalho burocrático para professores, médicos, enfermeiros e afins – os quais tem, então, ainda menos tempo para realmente ensinar ou cuidar de alguém.

 

The Economist: Você nota que muitos trabalhos interessantes que implicam em criatividade e status estão concentrados em cidades afluentes. Você acredita que bullshit jobs contribuíram para o populismo e a polarização ?

David Graeber: Sim. Penso que muito do frequentemente legítimo rancor dirigido à “elite liberal” se baseia no ressentimento que as classes trabalhadoras sentem em relação ao fato de que a primeira efetivamente se apropriou de todos os trabalhos nos quais se pode realmente ser bem pago para fazer o que é tanto divertido como criativo mas que, obviamente, beneficia a sociedade. Se você não pode mandar seu filho para uma boa escola e depois sustentá-lo 2 ou 3 anos durante residências em lugares como Nova Iorque ou São Francisco, esqueça: você está fora.

Para todos os demais, ao menos que você tenha muita sorte, suas chances são largamente limitadas a duas opções. Você pode obter um trabalho basicamente bullshit, que pagará o aluguel mas lhe deixará estragado, com o sentimento de culpa por estar sendo forçado, contra sua vontade, a ser uma fraude e um parasita. Ou você pode obter um trabalho útil, cuidando de pessoas, fazendo, movendo ou conservando coisas que as pessoas querem ou das quais precisam – só que, provavelmente, lhe pagarão tão pouco que você não será capaz de sustentar sua própria família.

Existe uma relação inversa quase perfeita entre o quanto seu trabalho beneficia os outros e sua remuneração. O resultado é uma cultura política tóxica de ressentimento.

Aqueles em um trabalho largamente sem sentido se ressentem de professores ou mesmo mecânicos de automóveis, os quais realmente fazem algo útil, e acham ultrajante que [mecânicos e professores] demandem bons salários, seguro saúde e férias remuneradas. Pessoas da classe trabalhadora, que fazem predominantemente coisas úteis, se ressentem da elite liberal que abocanhou todo o trabalho útil ou benéfico que realmente paga bem e no qual lhe tratam com respeito e dignidade.

Todos detestam a classe política, a qual vem (em minha opinião, com bastante razão) como um bando de trapaceiros. Mas todos os outros ressentimentos tornam difícil para qualquer um se associar com outros e fazer alguma coisa a respeito. Em grande parte, nossas sociedades se uniram a partir da inveja e do ressentimento: não inveja dos ricos mas, em muitos casos, inveja daqueles que são vistos como de algum modo moralmente superiores ou, ainda, ressentimento daqueles que se proclamam moralmente superiores mas que são vistos como hipócritas.

 

The Economist: As pessoas tendem a se ajustar emocionalmente às circunstâncias. Então, há alguma razão para se acreditar que seríamos dramaticamente mais satisfeitos num mundo sem labuta ?

David Graeber: O que me surpreendeu foi o quão difícil era para tanta gente se ajustar ao que pareciam problemas menores: basicamente, tédio e sensação de falta de propósito na vida. Por que não podiam simplesmente dizer “Ok, então estou ganhando algo por nada. Torçamos para que o chefe não note !”

Mas a grande maioria descreveu a si própria como totalmente miserável. Relataram depressão, ansiedade, doenças psicossomáticas que desapareceriam magicamente no momento em que ganhassem o que consideravam trabalho de verdade e horríveis dinâmicas sadomasoquistas de lugares de trabalho.

Minha conclusão é que psicologicamente, não é exatamente que as pessoas queiram trabalhar mas, antes, que elas querem sentir que estão transformando o mundo ao redor delas de modo a produzir algum tipo de diferença positiva para outras pessoas. De certo modo, é isto que as torna humanas. Tire isto delas e elas começam a se despedaçar. Então, não se trata só de labuta.

Conforme disse Dostoievsky em algum lugar:  se você quiser destruir psicologicamente um prisioneiro por completo, basta fazê-lo cavar um buraco e tornar a tapa-lo, repetidamente, durante todo o dia (em alguns gulags de fato tentaram isto como forma de tortura – o que funcionou, tornado as pessoas completamente loucas). Creio que pessoas suportem até trabalho enfadonho desde que saibam que há uma boa razão para executá-lo.

Como antropólogo, sei que o lazer não é um problema por si só. Há muitas sociedades onde pessoas trabalham no máximo de duas a três horas por dia e encontram todo tipo de coisas interessantes para fazer com seu tempo. Pessoas podem ser infinitamente criativas se lhes derem tempo para pensar.

 

The Economist: Pessoas no Ocidente tem mais liberdade de escolher suas carreiras do que em qualquer época da história humana. O liberalismo merece algum crédito por isto e, neste caso, não seriam as próprias pessoas responsáveis por seus bullshit jobs ?

David Graeber: Bem, se você falar com jovens recém saídos da faculdade, não ouvirá muitos deles dizendo: “Ah, o mundo se descortina diante de mim… então o que seria melhor eu fazer ?”

Você certamente ouviu muito nos anos 70, 80 e 90: “O que eu realmente quero ?” Já hoje, nem tanto. A maioria dos formados está em pânico sobre como irá pagar seus empréstimos estudantis e o verdadeiro dilema que você ouve é: “Posso obter um emprego que vá realmente me pagar o suficiente para viver (que dirá ter uma família algum dia) e pelo qual não me sinta totalmente envergonhado ?”

É a mesma armadilha que descrevi acima: como se pode viver uma vida que beneficie os outros ou, ao menos, não prejudique ninguém de um modo óbvio e, ainda assim, conseguir cuidar de uma família ou de quem se ama. E durante todo o tempo há este mantra a que chamo “repreensão de direitos”, que vem igualmente da esquerda e da direita. É uma injúria moral dirigida aos jovens como sendo presunçosos e estragados por se acharem meritórios de todas as coisas que a geração de seus pais (que são os que geralmente censuram) tinha como asseguradas.

Então eu não culparia ninguém por fazer o melhor possível nesta situação. A questão para mim é: por que esta situação não é vista como um problema social maior ? Quero dizer que, se você contar todas as pessoas que estão num emprego real em suporte a bullshit jobs, tais como faxineiros, recepcionistas e motoristas que não sabem que a empresa para a qual trabalham serve basicamente pare se esquivar de impostos ou coisa parecida, bem como a bullshitização do trabalho verdadeiro; então talvez metade do trabalho que é realizado é totalmente desnecessário.

Pensem em que tipo de cultura, música, ciência e ideias resultariam se todas essas pessoas fossem liberadas para fazer coisas que realmente achem importantes. Então se o problema é um de responsabilidade pessoal, eu diria: que se dê a todos o suficiente para viver, como algum tipo de renda básica universal, e que se diga “Ok, agora vocês estão totalmente livres para decidir por si mesmos como podem contribuir para o mundo.”

Então poderíamos dizer com certeza que pessoas seriam responsáveis por aquilo que fazem. É claro que muito do que é feito não faria qualquer sentido. Mas é difícil se imaginar que 40 ou 50% da força de trabalho seja composta por inúteis, conquanto seja esta precisamente a situação que temos hoje. E se, com tudo isto, ainda assim tivermos como resultado apenas um ou dois novos Miles Davises, Einsteins, Freuds ou Shakespeares, eu diria que teríamos recuperado bem mais do que nosso investimento.

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Viajar é superestimado ?

Este blog tem especial predileção por pautas polêmicas. Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers Sapiens e Homo Deus, é um dos atuais campeões mundiais da polêmica. Uma de suas ideias mais controversas é a de que o hábito de viajar a passeio é superestimado. Abracemos, então, mais esta.

Antes de proceder à defesa desta ideia, aparentemente tão na contramão do que a maioria parece acreditar e praticar, é importante que se faça uma distinção entre viagens turísticas e aquelas empreendidas por motivos acadêmicos ou de trabalho.

Quando alguém viaja a estudo ou a trabalho, tem o propósito de expandir seu horizonte de atuação. Como ganho colateral, acaba por conhecer outros lugares e, com sorte, experimentar situações às quais dificilmente teria acesso de outro modo.

Não é, todavia, o que costuma ocorrer em viagens turísticas. Nesses casos, o viajante quase sempre busca, por meio de deslocamentos temporários a sítios distantes durante suas férias, um descolamento de seu dia-a-dia, por vezes (por que não dizer ?) da mesmice de um bullshit job à espera de uma sonhada aposentadoria. Se sobreviver ao emprego e a aposentadoria for mais do que uma miragem, poderá afirmar, em idade madura, ser um sujeito viajado – e as fotos destas viagens estarão, por certo, entre suas melhores memórias. Também é quase um clichê, citado por Harari, a situação do casal em crise que busca revitalizar a relação por meio de uma viagem a algum lugar exótico, quanto mais diferente melhor, como se isto fosse por si só suficiente para superar as dificuldades enfrentadas pelos cônjuges no cotidiano laboral.

Suponho que Harari também faça esta distinção – até por ser, ele mesmo, um scholar provavelmente requisitado para conferências ao redor de todo o planeta.

Assim, temos, de um lado,

viagens de estudo ou trabalho, que guardam alguma relação com o saber e/ou fazer habitual do viajante. Incluem-se nestes casos todos os programas de graduação e pós-graduação (atualmente sob a mira do governo brasileiro), bem como apresentações artísticas – não se realizando, necessariamente, durante férias laborais ou acadêmicas; e, de outro,

viagens com finalidades exclusivamente turísticas, empreendidas em períodos de férias, nas quais o viajante investe, na maior parte das vezes, recursos poupados durante um ou mais anos de trabalho.

Um e outro dos viajantes hipotéticos acima descritos poder ser acolhidos em diferentes lugares de modo totalmente distinto. Pois, ao mesmo tempo em que turistas são usualmente bem-vindos em quase toda parte, restrições mais duras são impostas a cada potencial imigrante.  Duvidam ? Anos atrás, um casal de amigos viajou à Europa. Ao chegar, foram enviados a filas separadas. Ele, então jornalista, passou sumariamente pela imigração,  enquanto ela, violinista, foi, como potencial trabalhadora, submetida a um rigoroso interrogatório. A única diferença aparente entre ambos é que ela portava, a tiracolo, um estojo com seu instrumento.

É preciso desenhar ? Como cidadão estrangeiro visitante, cada um é tratado em razão do que puder gastar ou ganhar. That simple.

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Quem viaja pode buscar diferentes coisas. Há quem preze mais um clima diferente. Outros hão de preferir parques, museus, festas, restaurantes ou hotéis. Em qualquer caso, se tratam de experiências nas quais se gasta dinheiro. O único modo de se viajar ganhando dinheiro é a trabalho ou, ao menos para despesas, a estudo. Então, penso que, quando Harari deplora viagens, fala, obviamente, das turísticas, i.e., daquelas nas quais se gasta mais dinheiro do que se ganha.

Ok, aceito os merecidos protestos de quem tem em alta estima grandes orquestras, suas salas de concerto ou museus. Sobre esta ressalva, só tenho duas coisas a dizer:

1) mesmo que outrora tenha havido um abismo cognitivo entre ouvir uma orquestra numa sala ou ver um quadro num museu e, ao contrário, “conhecê-los” só por meio de reproduções sonoras ou visuais (impressas,  projetadas ou, mais recentemente, digitalizadas), há de se convir que este hiato vem encurtando dramaticamente com novas tecnologias; e

2) mesmo sem ser, eu próprio, um viajante contumaz, ouso supor que a frequência a museus e salas de concerto seja restrita a poucos viajantes e, mesmo nestes casos, nem sempre ocupando uma parte (tempo turístico) substancial de cada viagem de lazer. Estou enganado ? Algum cientista social (além, é claro, de Harari) já pensou nisto ? Quem sabe, até, em termos quantitativos ?

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Por que a ideia de Pátria de Chuteiras é nociva ao Brasil; impressões sobre a Copa do Mundo de 2018 e sua cobertura pela TV

Dia desses, um amigo, cujo anonimato devo proteger, postou no facebook algo mais ou menos assim:

Bélgica 2 X 0 Brasil. Viva ! Acabou o feriado. Agora podemos voltar à realidade.

De pronto, compartilhei. Não foi, no entanto, nenhuma surpresa para mim quando a postagem original, que já tinha sido curtida por várias pessoas em minha timeline, foi removida. Por razões óbvias.

Desenhando: secar a seleção brasileira em copas do mundo acabou se tornando, desde tempos imemoriais, no mínimo um ato de lesa-pátria. Eu mesmo tive uma experiência estranha quando, em companhia de amigos e familiares, torci contra o Brasil no primeiro jogo da copa da Rússia. Vi algumas das pessoas mais queridas e inteligentes que conheço torcendo apaixonadamente pela seleção brasileira sem, no entanto, conseguir me envolver com aquilo. Jamais havia me sentido tão claramente como um peixe fora d’água ou, se preferirem, como que oriundo de outro planeta.

O primeiro jogo desta copa que assisti quase por inteiro foi o contra a Bélgica. Ironicamente, aquele em que o Brasil – pelo qual, confesso, torci – foi eliminado. Eu já havia capitulado à paixão futebolística sincera de meus filhos e amigos e, mesmo sem ligar a mínima para a seleção, queria a alegria daqueles que amo. Não preciso dizer que fui chamado de pé frio.

Depois disto – e de saber de xingamentos sofridos por meu amigo após sua postagem comemorativa à desclassificação – me tornei curioso pelo complexo de razões que podem levar os indiferentes à euforia que toma conta de grande parte dos brasileiros em tempos de copa do mundo a serem tratados, por vezes, com párias.

Talvez torcer por um time de futebol e, de quatro em quatro anos, pela seleção brasileira seja para tantos uma emoção tão espontânea por se tratar, antes de mais nada, de um ritual familiar. Herdamos a paixão futebolística de nossos pais. Quando estes as tem, é claro. Como a religião. Só que meu pai só me levou ao estádio uma ou duas vezes e à missa, nenhuma. No caso do estádio, suponho que procurasse desempenhar do melhor modo possível a função paterna segundo o que preconiza o senso comum. Já sua recusa em frequentar missas tinha uma razão mais insólita: tendo estudado em um internato, no qual atendia, como cantor, a missas diárias, lá pelas tantas calculou que já tinha ido a mais missas do que a maioria das pessoas religiosas durante uma vida inteira e, portanto, estava quites com deus. Lhe sou grato por ambas as coisas.

Mas aí  veio a copa de 70, no México. A seleção do “milagre brasileiro”, apenas seis anos depois do golpe militar, com ídolos inesquecíveis como Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho e tantos outros. A apoteose do “futebol arte”. Aqui, um pouco de história. Os anos de chumbo, nos quais tivemos, além do tricampeonato de futebol, os quatro primeiros títulos de fórmula 1 com Fittipaldi e Piquet, foram dominados pela ideia de “Brasil melhor em tudo”, perfeitamente sintetizada no lema “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Como um ultimato. Não havia qualquer espaço para ceticismo ou questionamentos. Era pegar ou largar.

Foi neste clima que entregaram lá em casa, dias antes da competição e a mando de um próspero comerciante amigo de meu pai, nossa primeira TV a cores. Era para ser um empréstimo, é claro, retornável após a copa. Como se fosse uma crueldade extrema alguém privar os próprios filhos de torcer pelos canarinhos com imagens coloridas. Só que meu pai, submetido ao constrangimento, se apressou em comprar o aparelho. Eu tinha, à época, 11 anos de idade, insuficientes para entender os horrores do regime.

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Muita coisa mudou no futebol desde então. Principalmente a remuneração dos jogadores. Hoje, um astro do futebol recebe por mês, sem exagero algum, mais do que a maior parte das pessoas conseguem ganhar durante uma vida inteira de trabalho. Defensores deste estado de coisas hão de dizer que tal se deve à ação da “mão invisível do mercado”. Pode até ser. O que não torna, no entanto, o salário de um Neymar ou coisa que o valha moralmente aceitável.

A profissionalização exacerbada é boa para os investidores e ruim para o esporte. E o futebol, por sua vez, há muito deixou de ser um esporte para se tornar um negócio. Os altos salários, patrocínios maciços, passes milionários, ingressos caros e cobiçadas licenças televisivas falam por si só. Cabe, aqui, olhar para os antigos (ou nem tanto), para os quais a atividade física era uma prerrogativa do homem comum.  Hoje, ao contrário, enquanto 22 atletas correm em campo, milhões de obesos consomem cerveja sentados em sofás diante de telas de TV.

Mais. O que foi, no início, um esporte de equipe, acabou se tornando mais um circo de celebridades, com seleções que podem ser consideradas como Neymar + 10, Messi + 10, Cavani + 10, Cristiano Ronaldo + 10, Kane + 10 e por aí afora. Duvidam ? Então tentem enumerar o escrete destas seleções. Menos a do Brasil, é claro, cujos jogadores devem ser do conhecimento do torcedor nacional médio. Ou nem tanto. Prova disto é que o Jornal Nacional se dedicou a levar ao ar, em dias anteriores à copa, longas matérias biográficas sobre cada um dos atletas convocados por Tite enfatizando a infância pobre de muitos deles, seu sucesso no futebol europeu e, invariavelmente, entrevistas com as mães dos jogadores.

Também não devem ter passado despercebidos a nenhum espectador atento os comerciais de patrocinadores da seleção alusivos à sua derrota. Pois quem investe pesado não pode se dar ao luxo de não contemplar todas as possibilidades – mais ou menos como empreiteiras que, na impossibilidade de antever com precisão quem ganhará cada eleições, doam somas polpudas às campanhas de vários candidatos. Assim, Brahma, Coca-Cola e Itaú levaram ao ar anúncios motivacionais, do tipo “levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, imediatamente após a eliminação do Brasil pela Bélgica. Estes comerciais não podem ter sido concebidos, produzidos e veiculados tão pouco tempo após a derrota – devendo, portanto, estarem prontos ou, no mínimo, encaminhados desde o início da copa. A produção do da Brahma foi particularmente rápida e enxuta, consistindo exclusivamente num áudio sobreposto a uma imagem estática de uma lata de cerveja.

Seria, pois, particularmente didático para estudiosos de mídia a divulgação, talvez num documentário, dos comerciais abortados certamente produzidos para o caso de conquista da copa pelo Brasil. Assim como, reciprocamente, deveriam ser dados ao conhecimento público os comerciais da derrota em caso de êxito da seleção. Muito teríamos a apreender, com isto, sobre o nefasto – tanto pela mentira como pelo desperdício de recursos que nele prevalecem – mundo da publicidade. Mas isto, é claro, só num mundo perfeito, em que tais planos B não fossem guardados como segredos de estado.

Ainda sobre o comportamento insidioso da mídia no mundial, vale sublinhar a matéria de encerramento do último Fantástico, censurando a onda de humor sobre as frequentes quedas de Neymar. Ainda que não seja novidade nenhuma a Globo se arvorando a ditar do que podemos ou não rir ou, em última análise, a determinar o que é politicamente correto, em mais uma tentativa canhestra e inglória, tão cara à mídia e aos políticos, de controlar a internet. Ora bolas, se Neymar aceita ter vencimentos superiores a 10 milhões por mês, então não vejo mal nenhum que o mesmo seja objeto de piadas generalizadas. Pois ao menos esta alegria é capaz de dar aos torcedores frustrados.

Por fim, há que se mencionar a profusão de feriados decretados por entidades públicas e privadas em dias de jogo da seleção brasileira, as quais tem seus expedientes normais alterados para que alunos, servidores e clientes possam assistir aos jogos sem maiores impedimentos, como se isto fosse, acima de tudo, um dever cívico.

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Propositalmente, não bati na tecla de por que o êxito desportivo é nocivo a uma nação como a nossa. Pois é amplamente disseminada, tanto em artigos como em redes sociais, a discutível ideia de que termos o melhor futebol do mundo (ou o melhor carnaval, “o maior espetáculo da terra”) funciona como um grande estímulo ao conformismo. Ou de por que a “pátria de chuteiras” seria o verdadeiro “ópio do povo” (expressão cunhada por Karl Marx, em Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, para se referir à religião). Pois, afinal, se temos tudo isso, para que nos preocuparmos com nosso baixo IDH ou a qualidade de nossos políticos e governantes ?

Ao ver pela primeira vez a curiosa composição, do acampamento de um morador de rua ostentando orgulhosamente uma bandeira brasileira, que sintetiza perfeitamente o que sinto em relação à copa e cuja foto ilustra este post, tive a ideia para o texto que, todavia, relutei em finalizar – pela mesma razão que levou meu amigo a remover a postagem comemorativa à desclassificação. Ao voltar ao locar para tirar a foto, o tamanho da bandeira havia aumentado – e se tivesse ficado algum tempo à espera, certamente teria fotografado, ao lado do cafofo, algum carro de luxo com aquelas bandeirinhas presas às janelas. Tive, no entanto, que deixar o local às pressas, perseguido pelo morador, que gritava, em tom ameaçador, para que eu não usasse a foto na “porcaria da eleição”.

Contra a especialização

Nos últimos dias, exercitei obsessivamente um brevíssimo, porém altamente exposto, solo de clarineta que toquei duas vezes, felizmente sem intercorrências fatídicas (pois tocar é sempre uma loteria: por mais que se esteja preparado, na hora é sempre como chutar a gol: nunca se sabe quando vamos estufar a rede ou lançar a pelota pela linha de fundo ou, no máximo, acertar a trave). Acho, portanto, justificável que, durante esses dias, não tenha dado atenção alguma a este blog, nem tampouco tirado fotos da orquestra em ação – outra atividade à qual me dedico com grande prazer.

Agora, livre temporariamente de responsabilidades musicais, torno com alegria a escrever e fotografar. Admito que este comportamento disperso, com a atenção fragmentada entre atividades díspares entre si, por maior que seja minha afinidade com cada uma delas, é totalmente contrário ao cânone da boa conduta profissional dominante em nossa sociedade. Contextos altamente competitivos, acirrados pela ideia do mercado como medida ideal de todo esforço humano, impelem indivíduos a se dedicarem ao máximo – e, portanto, exclusivamente – a qualquer coisa na qual queiram ter sua competência reconhecida.  É a cultura da especialização como via única para a otimização da eficiência e consequente maximização do crescimento e do lucro.

Vivemos num mundo de especialistas e, pior, tendemos a confiar mais, para a realização de qualquer tarefa, em quem a ela se dedique exclusivamente. O capitalismo espera que ninguém perca tempo com qualquer coisa que não seja aquilo que saiba fazer melhor. Assim, por exemplo, músicos que queiram triunfar neste ambiente devem praticar o máximo que puderem, abrindo mão de quaisquer outras paixões, tais como o cultivo de plantas, a culinária, a fotografia, a escrita ou outras “dispersões”.

Não há dúvida que a especialização exacerbada é benéfica para o mundo corporativo. Nele, empreendimentos resistem ou declinam em razão de superarem outras iniciativas com as quais competem. Nesta arena, o trabalho de indivíduos mais dedicados ou especializados costuma ser determinante.

Mas tal estado de coisas é, afinal, bom para o ser humano ? O que é melhor: uma vida de dedicação a algo no que se possua notória excelência; ou, ao contrário, uma existência voltada para um conjunto de atividades nas quais se obtenha mais gratificação ?

É aí que economistas, políticos e gestores de um lado e psicólogos, antropólogos e afins de outro divergem. Não resta dúvida de que a especialização incensada por lideranças nos últimos quinhentos anos produziu e continua produzindo um crescimento sem precedentes na história humana. É cada vez maior, no entanto, o grupo de estudiosos a sustentar que caçadores-coletores pré-históricos, que não viam necessidade de produzir mais do que o necessário para a própria subsistência e podiam, com isto, se dedicar mais a atividades lúdicas, eram mais felizes.

Esta última afirmação é polêmica, principalmente por que a cultura capitalista, por meio da mola mestra da publicidade, já naturalizou, entre os segmentos incluídos, a noção que a felicidade está intrinsecamente associada ao consumo e ao acúmulo de bens materiais (caçadores-coletores não acumulavam – até por que isto não fazia, para eles, sentido algum).

Quem acompanha este blog sabe que venho me dedicando, nos últimos meses, a traduzir e difundir artigos publicados em Evonomics que procuram desmistificar a ideia de que a exacerbação do trabalho e a especialização crescente constituam uma espécie de virtude, sendo até parte da natureza humana (esta última um arcabouço semântico do qual muitas ideologias, econômicas e religiosas, buscam tirar proveito). Uma antologia destes textos pode ser lida aqui, aqui, aqui e aqui.

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É preciso uma boa dose de coragem para se interpor ao cânone da especialização que faz com que a maioria se dobre à escravidão de uma ocupação única. Por isto, não canso de enaltecer a juventude de espírito de um amigo que, aos 50 anos, abandonou uma carreira consolidada como profissional de informática para se tornar jornalista e, aos 60, virou livreiro.

Também refleti muito sobre a preocupação de uma amiga de que seu filho visse o êxito num concurso público como panaceia para tudo em sua vida. Restrições à ideia de que uma vida de dedicação ao estado e, em última instância, ao povo são comuns entre os que conhecem o serviço público por dentro, com todos os seus vícios e limitações. Por outro lado, não deixo de ser simpático à noção de que empregos públicos, que garantem alguma estabilidade sem a ameaça de demissão iminente ao menor desvio do máximo de produtividade exigido pelo mercado, são benéficos à plenitude existencial do ser humano – que, desde que não se descuide de suas responsabilidades mínimas, pode “respirar” e se dedicar melhor à matriz de seus interesses, quase nunca restrita a uma única atividade.

De resto, vale lembrar que o homem universal de Leonardo da Vinci não teria, hoje, a menor vez.

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Depois de haver escrito o post acima, me dei conta de que a pirâmide acadêmica, com seus progressivos níveis de pós-graduação, é co-responsável (juntamente com o mercado) pela manutenção do mito que atribui maior importância a alguém quanto maior seja o estreitamento do foco sobre seu objeto de interesse. Neste cenário, agências de fomento governamentais incentivam o estudo de temas cada vez mais restritos e específicos, como se a proximidade do olhar fosse por si só capaz de melhor revelar a verdade.

 

Pare de reclamar de tudo no facebook !

Desde que, anos atrás, comecei a interagir no facebook, tenho a plataforma como uma fonte privilegiada de informações. Pois, no excesso digital, é bom poder contar com recomendações estratégicas de pessoas confiáveis para filtrar o que lemos, vemos e ouvimos. Só que nem tudo nele é necessariamente instrutivo ou edificante. Há, é claro, os trolls, cuja personificação mais atual e emblemática são o MBL e os bolsominions, os quais são profilaticamente excluídos por muitos amigos, mas que mantenho só para ser lembrado que há vida discursiva (não me atrevo a dizer inteligente) fora das bolhas nas quais se constituem nossas redes.

Preocupantemente, vem se tornando cada vez mais populares as postagens breves e avulsas (i.e., não vinculadas a nenhum link) nas quais o vivente se limita a soltar o verbo para desabafar em relação a, digamos, pequenos reveses e frustrações do cotidiano. Eu mesmo devo confessar que já fiz isto em mais de uma ocasião – como, por exemplo, quando reclamei da música que tinha que ouvir compulsoriamente na academia de ginástica. Ao me dar conta de que, com este tipo de comentário, não mais do que poluía timelines alheias, comecei a tentar reprimir este impulso. Ainda que o mesmo seja, por vezes, mais forte do que eu.

Não falo aqui, é claro, de expressões de descontentamento de cunho político, com uma clara finalidade ativista, destinadas primariamente a provocar uma reação de contrariedade que possa vir a se refletir em instâncias concretas tais como as urnas em pleitos vindouros. Falo, antes, do pequeno desabafo, sobre o sapo que tivemos que engolir ou algo que tenha ficado atravessado na garganta mas que, uma vez repartido (e para isto as redes são ótimas !), podemos simplesmente esquecer e partir prá outra.

Mais: é preciso admitir que há um certo gozo em blasfemar no facebook, pouco ou nada importando contra o que.  É como se, desfiando nossas pequenas frustrações diante dos olhos de amigos, as exorcizássemos – já que, sem as redes, na maioria das vezes ficaríamos com aquilo remoendo, a prejudicar nossa preciosa concentração, até encontrarmos alguém disposto a escutar nossas lamúrias. O que, na solidão inerente à vida offline contemporânea, pode levar muitas horas ou, em alguns casos, vários dias.

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Dito isto, não me tomem muito a sério. Ou nada a sério. Pois, dentre as coisas mais divertidas que aparecem no feed, figuram com certeza as incontáveis manifestações de solidariedade ou repúdio às queixas postadas. Consoante a isto, não vou excluir (nem quero reprimir) aqueles mais reclamões – entre os quais prontamente me incluo.

Longe de mim, além disto, pregar a higiene virtual com base numa moral prescritiva. Afinal, as redes estão aí para cada um usar do jeito que quiser. E, convenhamos, nelas já vi diatribes divertidíssimas – bem melhores, sem dúvida, do que a maior parte da comédia televisiva. Tomem, então, este breve post como uma exortação ao xingamento.

Por que a publicidade do Uber é, mais do que enganosa, perversa

Ontem, me surpreendi ao me deparar no facebook com uma imagem de um anúncio do Uber, seguida de um comentário, em tom de desabafo, cuja essência se resumia à popular piada:

”  – O que você faz ?

– Sou músico.

– Sim. Mas o que você faz para viver ? “

O anúncio era este:

A anedota, autoexplicativa, tem a ver com a noção, cada vez mais propagada, de que a música é, antes de uma profissão, uma ocupação, não obrigatoriamente remunerada. Faz sentido. Ao externar, mais tarde, minha indignação, ouvi até de músicos profissionais que o anúncio do Uber traduzia perfeitamente uma realidade há muito vigente.

Mesmo sob risco de ser taxado de paranoico ou afeito a teorias conspiracionistas, não consigo aceitar o anúncio supracitado como algo simplesmente natural. Até por que, por força do ofício, acabo conhecendo muita gente que, apesar do espírito dos tempos, ainda estuda música no intuito de fazer dela sua ocupação principal. Acho, portanto, a noção implícita no anúncio bem perversa e insidiosa.

Já defendi, noutros posts, a ideia de que as profissões, como hoje as conhecemos, estão fadadas à obsolescência, na impossibilidade de se determinar quais das ocupações remuneradas hoje existentes sobreviverão num futuro próximo ou distante. Consoante a isto, a retórica, adotada pelo  Uber, de justificar seus serviços pela possibilidade de sustento, por parte de seus afiliados, de outras ocupações preferenciais, ainda que mais dificilmente remuneradas, não deveria me causar nenhuma surpresa. Só que não. Uma coisa são profissões surgirem e desaparecerem ao sabor das tecnologias de cada época. Outra, bem diferente, é um sistema ideológico (o capitalismo, no caso) tomar a si o privilégio de ditar quais ocupações devam se perpetuar ou, ao contrário, serem decretadas obsoletas ante novas tecnologias e, portanto, extintas.

Tentando enxergar um pouco mais além do próprio umbigo, se pode dizer que o maior problema do anúncio da Uber não é tanto o preconceito em relação a uma atividade profissional, a do músico, mas a ideia de que o mercado pode, por meio de uma empresa, deliberar sobre quais ocupações devam ser remuneradas e quais outras devam, ao contrário, ser relegadas exclusivamente a províncias de diletantes.

Como disse pouco acima, o conjunto de profissões existentes em cada momento da história é peculiar a cada época. Deste modo, profissões como as de músico, fotógrafo ou (por que não ?) até mesmo as de médico ou advogado venham a se tornar, numa era de algoritmos, obsoletas (vide Harari). Não cabe, no entanto, à publicidade, enquanto braço privilegiado do capitalismo, tentar moldar ou simplesmente interferir nestes desígnios. A mensagem implícita no outdoor do Uber é, portanto, no mínimo, mistificadora e, francamente, mal intencionada. Como tal, deveria ser denunciada e proscrita pelos órgãos responsáveis pela regulamentação da ética publicitária.

Duvido, no entanto, que isto aconteça. Não por que não existam tais órgãos reguladores mas, tão somente, por que a mentira continua sendo a principal matéria-prima de toda propaganda. Uma das melhores e mais hilárias que conheço é um spot da BandNews no qual é dito que “propaganda é cultura e entretenimento”. Me dobro de rir cada vez que ouço. Mas deve ter quem acredite.

Além disto, há outro aspecto envolvido, mais sutil. Quando o Uber justifica que alguém dirija para sustentar outra atividade preferencial, fica implícito que dirigir não seja, necessariamente, o que o motorista gostaria de estar fazendo em primeiro lugar. Mesmo que isto seja verdade na maioria das vezes, e até mesmo que seja impossível determinar se alguém que declare gostar de algum trabalho efetivamente goste do mesmo (o que deve acontecer com bastante frequência), prefiro pensar que estou sendo transportado por alguém que goste de dirigir para terceiros.

Mais. É do credo capitalista o princípio de que quem empreende gosta, necessariamente, do que faz – ou seria incapaz de fazer direito. Ora, a retórica de todos os aplicativos de serviços autônomos enfatiza que todo prestador de serviços (que, como todo empresário, assume riscos mas, ao contrário da maioria dos mesmos, não explora a força de trabalho alheia) é, em última análise, também um empreendedor (já falei disto aqui).

O furo deste argumento é que, enquanto qualquer empresário pode crescer e se esforça para isto (o mito do crescimento constante é, com efeito, a grande mola propulsora do capitalismo (vide, outra vez, Harari)), o progresso de um motorista de Uber é limitado pelo esgotamento de seu tempo disponível. Desenhando, não há para ele, atingido o limite de sua força produtiva, qualquer possibilidade de crescimento.

Ao mesmo tempo, é o único responsável pela amortização, manutenção e reposição de seu meio de produção, a saber, seu próprio veículo. Um contrato, a nosso ver, nada glamoroso – fato compreensivelmente omitido da publicidade do aplicativo.

Se, ainda assim, estiver difícil de entender o que há de tão errado com o anúncio do Uber estampado lá em cima, recorramos a uma redução ao absurdo, da seguinte maneira: se a propaganda do aplicativo estampasse os dizeres “Dirijo para me dedicar à advocacia”, certamente a OAB já teria montado num porco. Não sou, no entanto, tão ingênuo a ponto de esperar que a Ordem dos Músicos do Brasil se manifeste em termos semelhantes.

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P.S.: depois de publicar o texto acima, li, nos comentários sob uma das muitas postagens indignadas do polêmico anúncio do Uber (compreensivelmente por músicos ultrajados) o seguinte:

” […] Para conseguir ganhar algum dinheiro dirigindo para Uber, tem que passar 10 horas dentro do carro, 6 a 7 dias por semana. Vai se dedicar à música quando? “

Bingo ! Em pouquíssimas palavras, estabelece que a dedicação a outra atividade, ao menos como prescreve a famosa teoria das dez mil horas minimamente necessárias à proficiência em qualquer coisa, é impossível a quem transporte passageiros, seja de Uber, taxi ou o escambau – sendo, portanto, o anúncio em questão acintosamente enganoso, como queríamos demonstrar.

Mensagens demais

Um amigo disse no facebook dias atrás que tinha mais de 12.000 emails não lidos. Para sua (e minha !) surpresa, muitos contestaram em comentários que tinham muito mais. Não sou tão radical. Tomo ciência de cada email que recebo. É claro que não leio a grande maioria. Mas arquivo cada um deles em pastas segundo seus emitentes, para rápida referência futura, se necessária. Dentre as principais categorias de emails irrelevantes, se destacam os publicitários, as solicitações de adesão a petições, os de corretores imobiliários e, é claro, a maior parte das “circulares” institucionais. As últimas são uma verdadeira praga. Por alguma razão, burocratas distribuem todo e qualquer documento que lhes cai em mãos (e que poderia simplesmente estar disponível em portais) para uma legião de (em seu entender) possíveis interessados – geralmente alguma classe de servidores como, por exemplo, professores de um instituto ou departamento acadêmico.

Antes da internet, a triagem do lixo postal era bem mais fácil. Podíamos identificar comunicações de interesse pessoal por meio de critérios simples tais como, por exemplo, ler tudo o que fosse manuscrito ou datilografado e descartar tudo o que fosse impresso, sendo a mala direta, antes da revolução digital, o legítimo precursor do spam.

Se a tecnologia agilizou tremendamente as coisas ao viabilizar mensagens instantâneas e representou um inegável ganho ambiental por praticamente sepultar a comunicação impressa; trouxe, por outro lado, um vasto excedente de comunicações desnecessárias decorrentes da própria facilidade (alta praticidade e baixo custo) dos novos meios. Há hoje uma intensa pressão social para que estejamos cada vez mais conectados. Se não nos abstivermos ativamente do bombardeio de mensagens, poucas delas imprescindíveis ou importantes, teremos a atenção desviada para seu fluxo incessante durante todo o tempo em que estivermos acordados.

Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que ninguém podia ser acessado nos intervalos em que não estivesse ao alcance de um telefone fixo. Com os celulares, este privilégio acabou. Ainda assim, a verborragia era limitada pelo custo elevado tanto de chamadas de voz como de mensagens de texto. Com a internet, este custo foi abolido e, pior do que isto, os famigerados grupos de mensagens difusas não endereçadas a destinatários específicos se tornaram uma realidade onipresente. Ao ponto, até, de a mera recusa pessoal de utilizar plataformas como o whatsup ser considerada francamente anti social. Já experimentei isto mais de uma vez. Também não é raro eu ter que explicar por que jamais habilitei meu smartphone para acessar a internet.

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Sei que o desabafo acima mais parece ranço saudosista. Que o futuro é conectado, dirão. E que a internet móvel é o novo normal. Mas não consigo parar de pensar que, no novo regime de conexão quase universal, algo de muito especial acabou se perdendo na economia da atenção. Algo que pode ser mais ou menos formulado como a impossibilidade de pensamento profundo num regime de interrupções frequentes.

Na única e memorável vez em que estive com Howard Rheingold, que reputo como um dos pais da internet, ele confessou que até um entusiasta como ele dos novos meios precisava de momentos offline, nem que fosse só passeando com seus cães, tão somente para preservar a capacidade de pensar. É, também, amplamente conhecida a noção, formulada por Domenico de Masi, de que pouco ou nada de importante acontece a cada dia, sendo o frenético fluxo de notícias veiculado pela mídia altamente redundante. Somos, no entanto, induzidos pela indústria de notícias e, mais recentemente, pelas redes sociais a acreditar que perderemos algo imprescindível ao nos desconectarmos temporariamente.

Ainda hoje, relutava em escrever ou não este post quando, providencialmente, surgiu em meu feed este interessante artigo em prol do ócio criativo. Por essas e outras, sigo tentando, ao custo de muita disciplina e por vezes sem êxito algum, deliberadamente ignorar, durante intervalos de tempo, o que a mídia e as redes queiram insistentemente me mostrar. Chamem a isto como quiserem. Eu chamo de higiene mental.

 

A perversa retórica de que a salvação reside no empreendedorismo

Já disse noutro post que tenho o incurável hábito de assistir ao Jornal Nacional tão somente para auscultar a linha editorial da Rede Globo e, residualmente, para ficar a par do mais recente pacote de maldades do governo federal bem como das últimas peripécias do circo judiciário.

Ouvindo de longe, ontem, apenas o áudio do Jornal Nacional, fui tomado de curiosidade por uma matéria que, supostamente, fomentava o empreendedorismo. Algo sobre abraçar novas carreiras. De um modo tortuoso, a tônica do discurso me pareceu, de imediato, a banalização do desemprego. Achei aquilo muito sintomático,  pois justo quando o alto empresariado obtém o aval do estado, respaldado pelo poder legislativo, para se desonerar de responsabilidades trabalhistas, seu principal arauto (afinal, quem sustenta, por meio de anúncios, a grande mídia ?) toma a si a tarefa de persuadir a população de que sua emancipação e felicidade não dependem da segurança do recebimento de um salário mensal e outros benefícios tidos como supérfluos por defensores das virtudes do mercado – tais como férias remuneradas, décimo-terceiro salário e aposentadoria – mas, tão somente, de arriscadas e improváveis incursões de nanicos no mundo dos negócios. Pois, para o credo liberal, o mundo ideal é povoado não por assalariados mas por pequenos empreendedores. O governo federal estimula essa ideia por meio do Sebrae. Até orquestras, como a OSESP, já contratam músicos como empreendedores individuais.  Ainda assim, quase vomitei ao ver o JN incentivar a audiência a abraçar carreiras autônomas no mesmo dia em que o governo anunciou um novo plano de demissões voluntárias.

Na supra-citada matéria, mostraram um site que já tinha mais de 11 mil seguidores. Ora, curtidas em redes sociais não equivalem de modo algum a intenções de compra. Com efeito, se tivéssemos que pagar por cada coisa que curtimos, seríamos bem mais criteriosos ao pressionar o ícone da mãozinha com o polegar erguido. A dona do mesmo site nos informa sobre alguém que, pelo volume de fotos postadas, já pode ser considerado como o fotógrafo oficial do site. Se a TV fosse interativa, perguntaria de pronto quanto pagou por cada foto. O que mais me irrita nisto tudo é pensar que esta retórica emancipatória possa encontrar, entre a audiência, olhos e ouvidos crédulos. Se fosse na internet, seria automaticamente descartada como algum vírus ou spam. Na tela da TV adquire, no entanto, o benefício da validação.

Indo adiante, é preciso acrescentar que, conquanto muitas iniciativas comercias já tenham se apropriado com êxito de recursos virtuais, a esmagadora maioria dos sites ainda é exclusivamente voltada para a comunicação entre seus mantenedores e visitantes. A web ainda é, portanto, eminentemente um meio de informação. Se, no entanto, os responsáveis por cada site ou blog passassem a tentar vender alguma coisa, arrisco afirmar que, em sua grande maioria, perderiam um volume considerável de leitores.

Sei. Há sites como um prosaico “Viver de blog”, que “ensina” técnicas para potencialização da audiência e monetização do conteúdo. Insisto, ainda assim, que o maior potencial da rede, largamente subaproveitado, reside na comunicação, com especial importância para a educação e a política. Só que ambas precisam mudar radicalmente para desfrutar deste benefício e, ao menos no que se refere à política, tal não é do interesse da classe governante, indiscutivelmente devido à horizontalidade inerente aos protocolos virtuais.

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Como disse acima, o empreendedorismo nanico (na ausência de expressão melhor) já foi banalizado como parte do pensamento liberal, tanto no que tange ao estado mínimo quanto na crença na suprema legitimidade do mercado como mediador de todas as relações humanas.

Uma das coisas que apreendemos, no entanto, lendo Harari, é que nenhuma ideia é naturalizada sem uma poderosa combinação de interesses e esforços, ainda que escusos, a contribuir para sua aceitação. No caso do empreendedorismo individual, é possível identificar, além de campanhas como as da Globo, auto-justificadas com a eloquência de atos falhos, inúmeros interesses em ação.

Primeiro, há que se reconhecer que organizações colaboram para isto. Vejam, por exemplo, o caso da campanha publicitária In doers we trust, lançada pelo provedor de serviços free lance Fiverr, que chegou à minha atenção por meio de uma matéria publicada no New Yorker, crítica em relação à atual onda de empreendedorismo individual, que narra a história de uma mulher, em busca de alguns dólares a mais, que entrou em trabalho de parto enquanto dirigia uma espécie de Über. A esta matéria deve ser creditada a expressão gig economy, traduzível como “economia de bicos”, que bem define a situação à qual governos liberais e empresários mancomunados presentemente querem relegar a sociedade.

Outras organizações, mais antigas, que promovem a desregulamentação trabalhista e a supremacia do mercado, são mencionadas num interessantíssimo artigo publicado pelo The Guardian. Sintomaticamente, magnatas que dirigem estas organizações insistem em permanecer no anonimato, como se a mera publicização de sua relação com tais organizações fosse por si só suficiente para minar seu propósito de promoção da livre iniciativa.

Por aqui, se popularizou, anos atrás, a denominação jocosa de PDV (plano de demissão voluntária) para as acessíveis vans asiáticas adquiridas por ex-funcionários públicos para a venda de cachorros-quentes com os recursos oferecidos pelo governo estadual em troca da auto-exoneração precoce.

Além disso, há hoje um aquecido mercado para palestras de autoajuda, por coachs a afins (que, em sua maioria, jamais abriram um CNPJ), destinadas a indivíduos em busca de estímulo para se lançarem a empreendimentos individuais. Nestes rituais, se promove a ideia de que há um mercado ávido pela iniciativa a ser empreendida por cada um,  dependendo apenas de sua vontade, se vendendo a ideia de que abrir uma empresa é tão fácil quanto montar uma banda de garagem e deliberadamente omitindo o fato de que poucas dentre as empresas abertas efetivamente prosperam.