Por que toleramos abusos cometidos por elites governantes; ou Onde falha o Jogo do Ultimato

É um grande equívoco considerar Yuval Noah Harari um historiador, ainda que sua formação deponha neste sentido. Pois seus escritos o definem muito mais como um filósofo que usa e abusa da história a fim de argumentar em favor de sua visão de mundo. Talvez por isto leitores mais rigorosos reputem suas narrativas como sensacionalistas, sem o devido rigor histórico. Ou não. Posso mudar de ideia, pois estou apenas a um terço da leitura de seu segundo livro, Homo Deus.

Para quem, como eu, estava entusiasmado com sua obra inaugural, Sapiens, o progresso através das páginas de Homo Deus pode ser um tanto decepcionante, posto que a maioria das ideias que ali se encontram já foram minuciosamente formuladas em seu primeiro livro. Isto tão somente até percebermos que, enquanto Sapiens pretende ser um um livro de história e, como tal, dedicado à ausculta do passado; Homo Deus retoma as mesmas ideias – só que, desta vez, no intuito de especular sobre o futuro.

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Uma das questões mais recorrentes a todo brasileiro contemporâneo mais ou menos informado é por que, afinal, apesar do abuso generalizado perpetrado por nossa classe política contra o povo, este último teima em permanecer, conquanto perplexo, absolutamente inerte. Não pretendo, aqui, conclamar nenhum levante armado nem tampouco alguma ruptura radical. Quero, tão somente, chamar a atenção para uma possível explicação para este estado de coisas segundo a concepção teórica de Harari. Para tanto, preciso que me acompanhem ao longo de uma linha argumentativa nada breve. A ela.

A hipótese de Harari para o fato do homo sapiens ter subjugado todas as demais espécies – levando, inclusive, muitas delas à extinção – difere da noção mais comumente aceita pelo senso comum de que a inteligência e a capacidade para a confecção de ferramentas são as competências que mais nos diferenciam de outros animais. Sustenta, ao contrário, que o que assegurou o domínio hegemônico de nossa espécie sobre as demais foi a capacidade de colaborar em grande escala e com flexibilidade em torno de objetivos comuns. Indo adiante, afirma que só desenvolvemos isto em razão de outra capacidade – a saber, a de criar realidades imaginárias compartilhadas por milhões de indivíduos, tais como religiões, nações ou dinheiro.

Grande parte dos capítulos iniciais de Homo Deus é dedicada à discussão de que

outras espécies de animais tem sensações, emoções e, quiçá, consciência análogas às humanas; e que

assim como outros animais, humanos tampouco são providos de alma.

Ao discutir a colaboração flexível em larga escala entre humanos, Harari a distingue da colaboração possível entre bandos com menos de 150 indivíduos por meio de dois experimentos, familiares a economistas e cientistas sociais, os quais, por conveniência, citamos extensivamente.

[…] o Jogo do Ultimato, um dos mais famosos experimentos em economia comportamental. Este experimento é em geral conduzido com duas pessoas. Uma delas ganha cem reais, que tem de dividir com o outro participante do jeito que quiser. Pode ficar com tudo, dividir ao meio ou entregar ao outro a maior parte. O outro pode ter uma de duas atitudes: aceitar a divisão sugerida ou rejeitá-la totalmente. Se rejeitá-la, ninguém fica com nada.

As teorias econômicas clássicas afirmam que humanos são máquinas de calcular racionais. Elas sugerem que a maioria das pessoas vai ficar com 99 reais e oferecer ao outro participante 1 real. Prosseguem sugerindo que o outro participante vai aceitar a oferta. Uma pessoa racional à qual se ofereça um real sempre dirá sim. Que lhe importa que outro jogador fique com 99 reais ?

Os economistas clássicos provavelmente nunca saíram de seus laboratórios e salas de conferência para se aventurar no mundo real. A maior parte daqueles que jogam o Jogo do Ultimato rejeita ofertas muito baixas por que as considera “injustas”. Preferem perder um real a serem vistos como babacas. Como é assim que funciona o mundo real, poucas pessoas fazem ofertas muito baixas e oferecem trinta ou quarenta reais ao outro jogador.

A partir deste resultado, Harari conclui que

sapiens não se comportam segundo uma lógica matemática fria, e sim de acordo com uma cálida lógica social.

Mais adiante, continua:

Em um experimento recente, o primatologista Frans de Waal pôs dois macacos-prego em duas jaulas adjacentes, de modo que cada um pudesse ver o que o outro estava fazendo.  De Waal e seus colegas puseram pequenas pedras em cada jaula e treinaram os macacos a lhes darem essas pedras. Toda vez que um macaco entregasse uma pedra recebia comida em troca. No começo, a recompensa era um pedaço de pepino. Os dois macacos gostaram muito e comeram os pepinos com satisfação. Depois de algumas rodadas, De Waal passou à fase seguinte do experimento. Dessa vez, quando o primeiro macaco cedeu uma pedra, ganhou uma uva. Uvas são muito mais saborosas que pepinos. No entanto, quando o segundo macaco deu uma pedra, recebeu uma fatia de pepino. Esse macaco, até então muito feliz com seu pepino, ficou enfurecido. Pegou-o e por um instante olhou incrédulo para ele; depois jogou-o com raiva nos cientistas e começou a saltar e a guinchar ruidosamente. Ele não era nenhum otário.

Esse hilariante experimento (que você pode ver no YouTube), assim como o Jogo do Ultimato, gerou uma crença de que os primatas possuem uma moralidade natural e que a igualdade é um valor universal e atemporal. As pessoas são igualitárias por natureza, e sociedades em que prevalece a desigualdade não podem funcionar bem devido ao ressentimento e à insatisfação.

Mas as coisas são realmente assim ? Essas teorias podem funcionar com chimpanzés, macacos-prego e pequenos bandos de caçadores-coletores. Também funcionam bem no laboratório, onde são testadas em pequenos grupos de pessoas. Entretanto, quando se observa o comportamento de massas humanas, revela-se uma realidade completamente diferente. A maior parte dos reinos e impérios humanos foi extremamente desigual, mas muitos foram surpreendentemente estáveis e eficientes.

Depois de ilustrar a última assertiva com a desigualdade reinante tanto no Egito dos faraós como na Prússia de Frederico II, Harari pergunta:

Por que os camponeses egípcios e os soldados prussianos agiram de modo tão diferente do que poderíamos esperar com base no Jogo do Ultimato e no experimento com macacos-prego ? Por que o comportamento de um grande número de pessoas é fundamentalmente diferente daquele apresentado por um agrupamento menor. O que veriam os cientistas se realizassem o experimento do Jogo do Ultimato com dois grupos de um milhão de pessoas cada, em que tivessem que dividir 100 bilhões ? Provavelmente eles testemunhariam uma dinâmica estranha e fascinante. Por exemplo, como um milhão de pessoas não são capazes de tomar decisões coletivamente, cada grupo teria de fazer brotar uma pequena elite governante. E se uma elite oferecesse à outra 10 bilhões, reservando para si 90 bilhões ? Os líderes do segundo grupo poderiam muito bem aceitar essa oferta injusta, injetar a maior parte dos 10 bilhões em suas contas em bancos suíços, enquanto contornavam a rebelião de seus seguidores com uma combinação de punição e recompensa. A liderança poderia ameaçar punir severa e imediatamente os dissidentes, ao passo que prometeria aos submissos e pacientes uma recompensa duradoura no pós-vida. Era isso que acontecia na Egito antigo e na Prússia do século 18, e é assim que as coisas ainda funcionam em vários países do mundo.

Harari conclui, então, que

[…] toda cooperação humana em grande escala baseia-se em última análise na nossa crença em ordens imaginadas. […] Sapiens usam com frequência marcas visuais, como um turbante, uma barba ou um terno formal para sinalizar: “Pode confiar em mim, acredito na mesma história em que você acredita”.

Ora, se substituirmos, nos parágrafos acima, as duas elites governantes a dividir os 100 bilhões por políticos e grandes empresários, teremos uma metáfora perfeita do atual cenário nacional. E os milhões por eles governados não terão,  conforme Harari e ao contrário do sugerido pelo Jogo do Ultimato, nenhuma resistência a serem tidos como babacas ou otários.

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Anteriormente no mesmo livro, Harari explica que a história não instrumenta quem a conhece a prever o futuro – algo que reputa como impossível – mas contribui para que se evite repetir erros cometidos no passado. Oxalá fosse mais lido entre nós !

The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Academy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber

The Slow Professor 1

The Slow Professor – Challenging the Culture of Speed in the Adademy, de Maggie Berg e Barbara K. Seeber (University of Toronto Press, 2016), é um daqueles livros impossíveis de serem lidos a não ser quando já temos em mente resenhá-los. O título atua como um imã sobre quem quer que já tenha experimentado algum tipo de desconforto ou insatisfação com quaisquer aspectos da vida acadêmica de algum modo associados à cultura da velocidade a que aludem.

Não é difícil para qualquer professor e/ou pesquisador experimentado se identificar com tal cultura. Até por isto, optamos por, em vez definir no que consiste esta cultura, deixar ao leitor que intua seu sentido por meio de situações, relatadas no livro e transcritas alguns parágrafos abaixo, que ilustram exemplarmente sua atual banalização em ambientes acadêmicos.

O título, apelativo, me fisgou de pronto. Tanto que, mal soube da existência do livro através de uma postagem de Éder Silveira no facebook, tratei logo de lhe adquirir e ler, sublinhando e anotando furiosamente, despudoradamente anunciando esta resenha muito antes de ter iniciado a leitura. Por que tanta certeza sobre meu entusiasmo acerca do que sequer havia lido ? Ora, por que, no instante em que li o irresistível título, tive a plena convicção de que encontrara, finalmente, minha turma.

As ideias de slow teaching e slow research, desdobramentos no campo acadêmico de princípios observados por adeptos ao movimento conhecido por Slow Food, são solenemente explicitadas, logo no prefácio da obra, por meio de um partisaníssimo The Slow Professor Manifesto. Para se referir à cultura de velocidade acadêmica a que aludem no título, as autoras recorrem a dois conceitos fundamentais, intraduzíveis, a saber, o de

corporatization (corporatização ?) da academia e o de

collegiality (colegialidade ?).

Em sua argumentação, observam que, no âmbito acadêmico e numa linha de tempo recente, um crescimento do primeiro parâmetro correspondeu a um declínio do segundo.

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Para leitores mais velozes, poderia encerrar a resenha por aqui. Vale a pena, no entanto, esmiuçar um pouco o pequeno volume, de menos de cem páginas. Pois, para estimularem a leitura do livro, suas autoras acordaram desde cedo manter o texto sucinto.

Os nomes dos capítulos de The Slow Professor dão uma ótima ideia de seu conteúdo. São eles “Gestão Temporal e Falta de Tempo”, “Pedagogia e Prazer”, “Pesquisa e Compreensão” e “Colegialidade e Comunidade”. Alguns deles foram escritos individualmente por uma das autoras. Outros, bem como a introdução e a conclusão, são frutos de um processo de escrita colaborativa entre as duas. Há, em todo o livro, fartas referências à colaboração híbrida que lhe deu origem.

Numa primeira leitura (pois se trata, sem dúvida, de uma obra de referência), The Slow Professor pode parecer uma imensa revisão bibliográfica. Pois tudo o que já foi dito sobre o assunto está lá. Cabe aqui, no entanto, um parêntesis. Sempre reputei revisões bibliográficas como as partes mais enfadonhas dos (poucos) documentos acadêmicos que li. Mas aqui não ! Não sei se pelo critério de corte, pela qualidade das citações e menções ou por ambos, The Slow Professor é, de longe, a melhor revisão bibliográfica que conheço. Pretendo voltar a ela muitas vezes em busca de inspiração e orientação para leituras a empreender.

Para equilibrar a aridez enciclopédica e burocrática inerente às revisões bibliográficas, as autoras pontuam o texto, aqui e ali, com relatos, por vezes anedóticos, que bem ilustram o absurdo a que não raro chegamos. Como os seguintes.

Tendo perguntado a uma aluna se lera a uma bibliografia exigida, uma das autoras obteve como resposta: “ – Parte dela. “

Tratando da fragmentação exacerbada do tempo acadêmico, da descontinuidade do ritmo produtivo e criativo – e de como ambos estes fenômenos podem interagir perniciosamente, falam de relatórios exageradamente detalhados, como os já exigidos por muitos órgãos de fomento, que, numa situação extrema, poderiam conter relatos como “ às 9:00, escrevi uma frase; às 9:30, a deletei… ”.

Mencionam uma colega docente que, tendo recém publicado DOIS livros, se preocupava com o fato de que, no ano vindouro, teria a agregar a seu currículo APENAS participações em congressos.

Outros trechos que sublinhei, transcritos abaixo, dão perfeitamente conta, se considerados em seu conjunto, de caracterizar o que seria a cultura de velocidade na academia.

” … a persistente percepção de professores como uma classe “folgada”, dada ao prazer, produziu uma cultura de culpa e sobrecarga de trabalho. “

” Flexibilidade de horário pode se traduzir em trabalhar o tempo todo, particularmente por que o trabalho acadêmico, por sua própria natureza, jamais se dá por concluído. Nossas respostas aos trabalhos dos alunos sempre podem ser mais detalhadas; nossa leitura de literatura especializada sempre pode ser mais atual; nossos livros sempre podem ser mais exaustivos. “

” … explica a um estudante de pós-graduação que reclama que seu supervisor nunca está disponível que provavelmente lhe falta tempo; que ele provavelmente está demasiado ocupado atendendo a reuniões, preparando orçamentos, gerenciando e avaliando pessoal e fazendo todas essas coisas que professores fazem hoje ao invés de pensar. “

” A falácia da accountability (outro termo intraduzível), definida como a crença de que o processo de relatar uma atividade na forma apropriada de algum modo garante que algo de real valor foi adequadamente feito. “

” … a corporatização levou à padronização do aprendizado e a um senso de urgência […] “ ou, como diz um dos autores citados, ” à passagem da ignorância ao esclarecimento em um espaço determinado de tempo (um que seja o mais curto e padronizado possível). ” “

” a danosa concepção, no atual ethos acadêmico, de excelência como um estado de ‘ não ficar parado ‘. “

” Dividir nosso tempo em intervalos cada vez menores e mais precisos não é uma solução a longo prazo. “

” […] o número de páginas que lemos em uma hora varia amplamente, dependendo do que se está lendo e com que propósito. “

” […] pesquisa (a criação de conhecimento) e aprendizado (a criação de conhecimento dentro de alguém) precisa ser medida de um modo totalmente diferente do modo como medimos o trabalho industrial […] o que precisamos é de thinkology em vez de technology. “

” O prazer é, como o movimento Slow Food deixou claro, inimigo do mundo corporativo. “

” Ensino e aprendizado são cada vez mais vistos como aspectos meramente colaterais da descoberta e da pesquisa aplicada. “

” Ser ético pode verdadeiramente significar ser, por vezes, ineficiente. “

” Pensar pertence mais a uma economia de desperdício do que, propriamente, a uma economia restrita de cálculo […] “

” Horácio recomenda que se espere nove anos entre escrever e publicar. ” (!)

” Alunos de pós-graduação, dada a escassez de financiamento e falta de perspectivas de trabalho futuro, são particularmente vulneráveis à cultura da velocidade […] “, passando a sofrer de um mal que um dos autores citados define, apropriada e divertidamente, como publicatio praecox.

A prevalência atual, em ambientes acadêmicos, de uma publish or perish culture também é mencionada.

A certa altura, citam um texto no qual alguém chega mesmo a sugerir que alunos de pós-graduação assumam parte das tarefas do trabalho docente no que tange, por exemplo, ao peer review de artigos (!). Sabemos a utilização de alunos como força-tarefa para desonerar docentes de suas atribuições está longe de ser uma ideia remota.

E assim, por meio de exemplos frequentes no dia a dia de qualquer professor, tecem um claro panorama daquilo em que consiste a cultura de velocidade na academia – tida como decorrente, acima de tudo, de um posicionamento cada vez mais empresarial das instituições de ensino superior, o qual se traduz, no cotidiano acadêmico, na crescente pressão por resultados regulares e a curto prazo.

O estudo não se limita, no entanto, a apontar, em tom de denúncia, a condição doente em que a universidade se encontra. Em uma de suas partes, as autoras adotam um caráter mais prescritivo, declaradamente de auto-ajuda, sob a forma de comportamentos a serem adotados por quem quer que queira combater ativamente a cultura de velocidade que se enraizou tão profundamente no mundo acadêmico. Só que, a pretexto de não oferecer um spoiler (pois quero que leiam o livro !), não vou me referir à receita nesta resenha.

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Gostei muito de achar, entre os autores citados, pensadores recentes da cena digital como Sherry Turkle (Alone Together, 2011) e o guru dos netskeptics Nicholas Carr (The Shallows: what the internet is doing to our brains, 2010). Exatamente por isto, estranhei não encontrar, no excelente “inventário de campo” produzido por Berg & Seeber, um texto que considero fundamental à cultura colaborativa, a saber, Where good ideas come from, de Steven Johnson (2010).

Mas isto é o de menos. Com ou sem menção à hipótese de Johnson, The Slow Professor é um livro que não pode faltar à cabeceira de qualquer professor e/ou pesquisador universitário que leve seu métier minimamente à sério. Quem se anima a traduzir ?

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Maggie Berg e Barbara K. Seeber

Sobre máquinas impossíveis (ii)

Como em todo primeiro de abril, não pude deixar de pensar em minha categoria favorita das grandes farsas, a saber, a das tecnológicas. Em agosto último, dediquei um post inteiramente ao assunto – tendo, no entanto, deixado de lado a mais monumental das fabricações já cometidas por aqui. Se trata de um engenho, construído na zona norte de Porto Alegre, pela empresa RAR Energia, que alegadamente funciona alimentado apenas pela força da gravidade. Ou, como é mais conhecido, um mecanismo de moto perpétuo. Que viola, portanto, o princípio da conservação de energia.

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Moto perpétuo da RAR em Porto Alegre

A máquina foi montada, aparentemente a um elevado custo (conforme as únicas fotos existentes), em um armazém de uma região industrial por uma empresa estabelecida. Compreensivelmente, não se ouviu mais falar dela. Imagino o mico de seus criadores perante demolidores de mitos tão logo a notícia da coisa tenha se espalhado. A RAR é uma potência empresarial em nosso estado, fabricando desde caminhões em Caxias do Sul até queijos finos em Vacaria. O próprio Raul Anselmo Randon, patriarca do grupo,  teria desenvolvido um robô de virar queijos para automatizar o processo de maturação dos mesmos. Sem dúvida, portanto, um grande empreendedor.

Resta saber se, no episódio do moto perpétuo do braço energético de suas empresas, foi cúmplice ou vítima da pegadinha ou, até, um crédulo visionário. Ainda que a enorme geringonça seja bem difícil de se fazer sumir sem deixar vestígios que comprometam a ilibada reputação do grupo empresarial – poderiam, ao menos, nem que só por decoro, ter retirado o site do ar. Enquanto isto, até que repórteres investigativos se deem ao trabalho de levantar o que foi feito da sucata da coisa, temos que nos contentar com a bizarra notícia de que a a ideia (que não pode ser chamada de farsa antes que se comprove sua má fé) foi comprada por norte-americanos. Pois as fotos mais recentes existentes no site da empresa (uma espécie de fotolog) dão conta da construção do curioso engenho em um galpão numa área rural de Illinois. O que nos permite, então, especular divertidamente sobre o que teria acontecido por lá quando os gringos inevitavelmente se deram conta de ter se metido numa fragorosa roubada. Chamem, se quiserem, de a vingança de Pasadena.

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Moto perpetuo da RAR em Illinois (EUA)

A farsa do moto perpétuo da RAR correu mundo, como demonstra este vídeo em espanhol dedicado a seu desmascaramento. O caso também é comentado aqui, aqui e aqui.

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Wendelstein 7-X Stellarator, ilustração

Não pensem, com isto, que tudo o que parece se interpor a leis da física como as conhecemos seja, necessariamente, uma farsa. Grandes experimentos e investimentos estão aí para provar o contrário. Como, por exemplo, a colossal máquina denominada Wendelstein 7-X Stellarator, construída pelo acima de qualquer suspeita Instituto Max Planck, de Munique, em Greifswald (Alemanha). Trata-se do maior, mais ambicioso e promissor reator de fusão nuclear já construído. Como é sabido, todos os reatores nucleares hoje em operação comercial ou militar produzem energia a partir da fissão (divisão) de átomos, tendo como subproduto o indesejável lixo radioativo que precisa ser armazenado por milhares de anos até se tornar inofensivo para a saúde humana e do ambiente. O reator Wendelstein é o maior avanço até agora na geração de energia por meio da fusão nuclear – um processo limpo, que não deixa como resíduo qualquer lixo radioativo. Consegue isto por meio da reconstituição, em laboratório, do plasma de que são feitas as estrelas. Coisa pouca, como podem ver.

Logo que ouvi falar do Wendelstein 7-X Stellarator, pensei se tratar de mais uma pegadinha. Antes do Google, minha dúvida teria persistido por muito mais tempo. Mas não. As fotos da coisa e as credenciais do respeitabilíssimo Instituto Max Planck estão em toda a parte na internet para provar que o Stellarator de fato existe. Se e quando poderá gerar energia de uma forma contínua e economicamente viável, ainda é cedo demais para se saber.

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Wendelstein 7-X Stellarator em Greifswald (Alemanha)

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Não se pode, no entanto, ter a mesma certeza em relação aos relatos de sucesso de experimentos envolvendo o EMdrive – conceito inovador de propulsão por meio de radiação eletromagnética emitida do próprio objeto impulsionado. Ou seja, algo tão absurdo como, estando embarcado em um veleiro, tentar movimentá-lo em meio a uma calmaria soprando em suas velas, numa flagrante violação da terceira lei de Newton (princípio da ação e reação). Tanto que é conhecido por muitos como o “motor impossível”. Farsa decifrada, portanto.

Só que não. Diversos protótipos do EMdrive foram construídos e testados desde 2001, ano de sua primeira formulação por Roger Shawyer, por grupos independentes, inclusive da prestigiosa NASA, de acordo com o princípio da validação em ciência pela reprodutibilidade dos experimentos. Em todos os testes realizados, níveis mínimos de impulso foram detectados. Céticos, no entanto, ainda refutam a eficácia do método de propulsão com base na terceira lei de Newton e prováveis erros de medição. Permanece, então, a dúvida sobre se o EMdrive é uma alternativa possível para as viagens espaciais ou, ao contrário, não passa de mais um engodo, por vezes chamado de pseudociência, a alimentar a imaginação dos mais crédulos.

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EMdrive

Enquanto isto, é bem mais verossímil a tecnologia de propulsão iônica, explicada neste vídeo sobre a polêmica do EMdrive, ainda experimental e provavelmente inspirada no conto Vento Solar, de Arthur Clarke.

Das máquinas impossíveis, ou Sobre a credulidade

A credulidade é o motor da religião e da política. Até não é nenhum exagero afirmar que ambas vivam, de fato, da credulidade popular. A credulidade também é a principal responsável pela validação de todo boato ou teoria conspiratória.

Quando perguntei no facebook quais os maiores boatos dos quais já se ouviu falar, o mais engraçado (obrigado, Ricardo Anderson !) que levantei foi sobre um show gratuito dos Rolling Stones em Pelotas.

Aqui, estamos interessados num tipo particular de boato, de natureza tecnológica, que tem a ver com a busca, validação ou implementação – de boa ou má índole – de engenhos cientificamente impossíveis. Como nos casos abaixo.

Por volta dos anos 70 – muito antes, portanto, da internet ! – circulavam revistas com resenhas e projetos eletrônicos. Como Áudio ou Nova Eletrônica. Nelas, invariavelmente saía, na edição do mês de abril, uma pegadinha patrocinada pelo enigmático Dr. Lirpa. Uma das mais famosas foi uma agulha e uma cápsula fonográficas acopladas a um minúsculo veículo autopropelido sobre rodas que transmitia o sinal captado por ondas de rádio. O conjunto percorria em círculos o sulco de um LP imóvel. O toque de genialidade é conferido pelas bolinhas coloridas nas antenas.

Lirpa 1Custei a escrever este post, pois não achei na web qualquer registro das criações do Dr. Lirpa. Foi quando recorri a alguns amigos nerds de plantão. José Agustoni doara toda sua coleção de Nova Eletrônica à UFRGS. Marcos Abreu foi quem me socorreu com fotos de seus exemplares de arquivo. Notem que Lirpa era, além de excelente maquetista, também um ótimo desenhista.

Lirpa 3Me pergunto que fim teria levado em tempos de CAD. Como comentário a minha postagem de seu resgate das engenhocas de Lirpa, Marcos também anexou, como comentário, esta ótima releitura do engenhoso pickup fonográfico.

A bicicleta que condensava água a partir do vapor do ar enquanto o ciclista pedalava fez sucesso entre eco entusiastas de toda sorte. Até o Huff Post caiu, tanto em sua edição inglesa como na norte-americana.

ecobike 2ecobike 1Quando menos se espera, acontece perto da gente. Ao que tudo indica, um próspero e conhecido empreendedor investiu pesado na construção, na zona norte de Porto Alegre, de uma máquina de moto perpétuo. Mais especificamente, um gerador de energia a partir da força gravitacional. Sério. Confiram neste site e neste video (uma cópia do site; ainda não entendi o por que do raggae tocando de fundo aos slides…). Felizmente, a farsa (ou a estupidez), que chegou a ganhar o mundo, já foi desmascarada em mais de um site de demolidores de mitos. Como aqui, aqui e aqui.

A mais monumental das máquinas impossíveis, posto que foi efetivamente implementada e (a julgar pelo imperdível filme de época no final do post) testada, consumindo amplos recursos, foi um trem propelido a jato, que chegou a andar experimentalmente na união soviética nos anos 30. Assim que descobri, postei comentando que a coisa não deveria fazer uma curva a mais do que uns 60 km/h sem sair dos trilhos. Notem que as turbinas ficavam na frente e NA PARTE MAIS ALTA do veículo. Sorte que não chegaram a testar com passageiros.

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Procedimentos; ou Trial, error and statistics: that’s what medicine is all about

Aos meus amigos médicos

tomógrafo 1Com deve fazer todo diabético de tempos em tempos, fui ontem a uma clínica me submeter a exames oftálmicos periódicos. Já ao chegar, notei que as coisas andavam meio confusas por lá. Pois uma paciente que já havia retornado a sua casa precisou ser chamada às pressas de volta à clínica para realizar um exame restante sobre o qual, aparentemente, ninguém lhe dissera nada. Tendo inferido daí que, naquele dia, a bruxa devia andar à solta por ali, respirei fundo e ri sem que notassem. Tornaremos a isto.

Durante uma angiografia de retina com contraste, não pude deixar de notar – e comentar ! – que, pela primeira vez, não sentira, durante a injeção do contraste, o forte enjôo, acompanhado de ânsia de vômito iminente, experimentado em todas as vezes anteriores em que me submeti ao incômodo procedimento. Foi quando a técnica responsável pela realização do mesmo inadvertidamente confessou (ah, as armadilhas da vaidade…) que eu não sentira nenhum desconforto em razão dela ter injetado o contraste mais vagarosamente do que em vezes anteriores (!). Disfarcei meu espanto em surpresa positiva. Em seguida, comentei que em todas as outras vezes o exame fora realizado por duas técnicas – uma para fotografar as retinas e a outra para injetar o contraste – e não por apenas uma como ontem. Foi quando ela sorriu sem graça e confessou estarem enfrentando problemas transitórios de pessoal – ao que prontamente retruquei que, neste caso, o exame deveria ser realizado sempre por somente uma técnica. Por algum argumento de ordem corporativo/trabalhista, tendo a ver com direitos adquiridos, ela não deve ter gostado de minha constatação.

Já disse, um pouco acima, que, ontem, naquela clínica, a bruxa parecia estar à solta. Talvez por isto, não pude deixar de notar que, após a triagem habitual (chamada por ordem de ficha, questionário sobre alergias e carga medicamentosa, assinatura de termo de desresponsabilização da clínica por eventuais efeitos colaterais e pagamento da taxa adicional ao convênio (sim, o IPERGS anda assim), fui conduzido a uma nova sala de espera para dilatar as pupilas, onde estaria esperando até agora não fosse o fato de eu ter observado e assinalado, depois de quase uma hora, que ninguém havia dilatado, até então, minhas pupilas. Sem perder a pose o o rebolado, a técnica a quem me dirigi disfarçou, então, seu espanto para prontamente pingar em meus olhos aquele colírio ardente.

Por que não me surpreendo ? Com certeza por acreditar, faz já algum tempo, que a medicina é feita, acima de tudo, de tentativas, erros e estatísticas. Com efeito, boa parte de toda pesquisa acadêmica na área se trata de estabelecer se correlações entre sintomas e comportamentos são ou não, afinal, espúrias. Todo médico e alguns pacientes mais esclarecidos sabem disto. Só que a maioria dos últimos prefere atribuir aos primeiros, provavelmente pela fragilidade da condição da própria doença, um poder e uma onisciência equivalentes aos observados na prática de religiões. O que é perfeitamente compreensível.

A sequência de episódios caóticos acima relatados me fez lembrar de quando consultei um otorrinolaringologista de minha inteira confiança, amigo pessoal, que, ao testar meu limiar auditivo e espantado com a persistência de minha surdez mesmo quando já havia aumentado drasticamente o volume do sinal de teste, ergueu finalmente os olhos de seu painel de controle para, olhando em minha direção pela primeira vez, dizer, com a maior naturalidade e sem denotar qualquer surpresa: ” – Agora, vamos repetir o teste com os fones ! ”

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Lembro que, durante minha infância, era comum bons médicos diagnosticarem quadros exclusivamente a partir de entrevistas com pacientes, aparelhos “primitivos” como estetoscópios e otoscópios (é assim que chamam aquelas canetas com lupas e luzes que nos enfiam nos ouvidos ?) ou, no máximo, um hemograma. Ano passado, fui submetido a uma ressonância magnética (com todos os medos daí decorrentes) tão somente para investigar a origem de uma queixa de dor nas costas. Sem ser contra a tecnologia (muito antes o contrário !), noto que algo na medicina inquestionavelmente mudou. Se para melhor ou pior, me abstenho de opinar.

estetoscópio 1