Por que adotei uma atitude benevolente em relação a videogames

call of duty 1Primeiro tentei proibir, depois dificultar e, por fim, apenas argumentar com meu filho menor sobre a enorme desvantagem de se perder tempo com videogames online.

Me considero bem progressista quanto ao uso de recursos virtuais na educação dos pequenos. Só que, por vezes, me parece que, ao nível institucional, ainda não sabemos ensiná-los a usar as prodigiosas ferramentas que, ao contrário do que tínhamos, tem hoje ao seu dispor.

Fico, por vezes, pasmo com o fato de ainda estudarem predominantemente com cadernos e livros-texto, raramente recorrendo a publicações virtuais. Até ouvi que há professores que ensinam a desconfiar da wikipedia, onde “qualquer um pode escrever”. Tudo bem. Só que, para permanecer publicado depois de escrutinado por uma comunidade de especialistas, já não é tão fácil. Exemplifiquei que eu, em minha modesta experiência, mesmo consultando frequentemente a imensa enciclopédia colaborativa sobre praticamente tudo sobre o que escrevo, jamais me deparei com qualquer caso em que a informação ali contida

(ao menos a que buscava – pois não se pode, é claro, procurar nela qualquer coisa além de dados e fatos sobre os quais haja amplo consenso; já opiniões, polêmicas por natureza, habitam melhor outros recantos da web)

pudesse ser considerada, de algum modo, refutável. Ou seja: a credibilidade da wikipedia deve ser, ao menos no que tange às primeiras linhas de cada verbete, muito provavelmente superior à da maioria dos livros didáticos. Chutando por baixo.

Também costumo deplorar os jogos violentos em que mais facilmente se engajam. Cheguei até a traduzir uma matéria, praticamente um libelo, sobre o assunto publicada pelo The Guardian.

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Neste último fim de semana, meu filho mais novo confessou passar tanto tempo diante do videogame por que é lá que a maioria de seus amigos se encontram. E que, em períodos anteriores às avaliações escolares, trocam perguntas e respostas sobre os conteúdos que cairão nas provas. É quando os que prestam mais atenção na aula – e, em resultado, tem os melhores cadernos – consultam os mesmos fornecendo respostas aos demais. De tanto responder, acabam apreendendo as respostas sem mais precisar consultar os cadernos. Concluo que é mais divertido e eficaz estudar com headphones diante de um console de videogame, por que socialmente, do que na solidão dos livros e cadernos. Aprendizagem colaborativa virtual por excelência, portanto (!).

Horas depois, no mesmo dia, os surpreendi se comunicando em inglês enquanto jogavam (!!).

(é claro que nem tudo são flores – posto que, na maior parte, do tempo, se xingam mutuamente no mais baixo calão, num linguajar inimaginável em qualquer ambiente escolar…)

Insatisfeito, retruquei que certamente ele e seus amigos conheciam inúmeras outras plataformas (em princípio, toda e qualquer rede social) mais verbais e, portanto, mais adequadas à troca de conhecimentos. Foi quando ele, num tom entre a impaciência e a condescendência por eu perguntar o que lhe parecia tão óbvio,  reiterou que é simplesmente por ser lá que todos estão. Além disso, plataformas como instragram ou snapchat seriam mais afeitas a postagens de cunho meramente social ou auto-promocional.

Foi-se, com isto, toda moral que eu ainda pretendia ter para lhe desestimular o jogo.

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Sobre telas, gente que não vê televisão e, ainda, o Admirável Mundo Novo

train window 1Uma das maiores virtudes de um bom livro é permanecer vivo na mente por mais tempo do que o ordinário do restante que se lê. Assim é comigo. Enquanto ainda não posso devorar Amusing ourselves do death, sigo matutando sob o impacto do futurismo distópico de Huxley. Aqui, especulando sobre o que seria, em nossa civilização, análogo ao soma.

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Frequentemente topo, em conversas que tenho no facebook, com gente que não assiste TV. Fosse eu um antropólogo, entrevistaria tantos destes espécimes quanto conseguisse.  Pois se tratam, praticamente, de selvagens, heroicamente sobrevivendo numa era de (ainda) hegemonia televisiva.

Televisão não quer dizer hoje a mesma coisa que significava quando foi inventada. No início e por um bom tempo, a TV só dava acesso à visualização de conteúdos de pouquíssimas redes e emissoras. Então vieram os canais a cabo e por satélite, bem mais diversos. Hoje, telas adquiridas como aparelhos de TV são amplamente utilizadas para a visualização, bem mais customizável, de séries no Netflix ou vídeos no Youtube. Diante de tais possibilidades, millennials se interessam cada vez menos por conteúdos da TV aberta – preferindo, antes, garimpar conteúdos melhores na internet. Tenho que concordar que não é nada difícil.

Se por um lado a qualidade das grandes telas, propícias à sinestesia, melhorou tremendamente, é preciso também que consideremos outro aspecto importantíssimo de sua evolução, a saber, a miniaturização. Cujo “estado da arte” é hoje o telefone celular.

Tendo surgido despretensiosamente como mera extensão móvel do telefone fixo, o celular logo se revelou um Gargantua de funções ao incorporar, pouco a pouco, recursos de internet. Mais: em memórias cada vez mais generosas, tem hoje residentes, em boa resolução, toda a música que alguém gosta de ouvir, suas imagens favoritas e acesso imediato, por vários meios, a qualquer de seus amigos, colaboradores ou conhecidos. O que mais alguém pode querer para ser feliz ?

Desde que o celular se tornou demasiado interessante para só ficar guardado no bolso, sua onipresença se tornou facilmente constatável em quaisquer ambientes.. Cada nova geração do iPhone é aguardada e celebrada como um título mundial. Já foi até noticiado o caso de um “empresário” que aluga aparelhos caros (e vistosos !), sem linha, a usuários que fingem usá-los em festas. Youtubers são campeões de audiência, e há mesmo quem prefere adormecer olhando para uma tela. A primeira coisa que a maioria dos jovens trata de descobrir ao adentrar um novo ambiente é a senha do wi-fi.

Em nossa civilização, passamos uma parte considerável de nossos dias em deslocamento de um lugar a outro. Estejamos atravessando bairros, cidades, países ou continentes, é predominantemente nestes momentos que vemos o mundo ao redor. Antes, era comum se espreitar o mar sobre decks de navios, ver a paisagem através de janelas de trens, ônibus ou carros, de bicicleta ou a pé, ou até por escotilhas de aviões. Hoje, quase sempre em lugares públicos estamos cercados por pessoas com a atenção drenada pelas pequenas telas de seus dispositivos móveis. É o mesmo em meios de transporte, salas de espera, mesas de bares e restaurantes e, se deixarem, até em salas de aula.

Face a tudo isto, gosto de pensar que o soma, idealizado por Huxley como uma substância capaz de anular toda possível frustração (que garantia, portanto, em seu livro, uma civilização sem tédio), é, em muitos aspectos, análogo ao que temos hoje no telefone celular. Poderia explicar em miúdos, mas seria um insulto à inteligência dos leitores.

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Sobre o que supostamente move a atenção de quem lê blogs; ou In praise of colaborative writing

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Num mundo perfeito, todos teriam blogs. Pouco importa se música, fotos, vídeos, desenhos, receitas, impressões sobre filmes vistos, comidas saboreadas, embates esportivos e, é claro, política, todos tem algo a dizer ou mostrar. Mais interessante do que aquilo que se vê, ouve ou lê na mídia na maioria das vezes. Lamentavelmente, ainda são bem poucos os que percebem (pois só a isto consigo imputar a letargia de escolas, mesmo as de alunos mais abastados, em sua implementação curricular) os enormes benefícios da utilização de blogs para o ensino de redação ou ainda, num sentido mais amplo, configurações mais conectadas e descentralizadas de autoria..

Tal contexto utópico é o oposto perfeito do modelo experimentado na cultura de broadcasting em que estamos imersos – na qual, por definição, as vozes de poucos se fazem ouvir em prejuízo das vozes silenciadas da maioria. Em quaisquer meios, reverberam apenas as vozes de uns poucos políticos, religiosos, autores (ocultos por trás de atores e personagens) e anunciantes (invariavelmente grandes empresas, pois o limiar inferior de anúncio em toda grande mídia exclui, por definição, todo pequeno anunciante. Tal desequilíbrio (determinado, por assim dizer, por… investimento publicitário, na propagação de vozes de diferentes grupos) ocorre igualmente na política, na religião, na mídia e em toda a parte onde interesses colidam.

Então, só para, de vez em quando, fazer algo útil (já que, ultimamente, venho sendo, como pode ver quem acompanha o que é postado neste blog, taxado de inútil, improdutivo ou ocioso (como se o último fosse um defeito !)), deixo, neste post e noutros vindouros, à guisa de sugestão, anotações sobre hábitos que conspiram para a manutenção de um blog, senão bom, ao menos legível.

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Tenho por bem, ao publicar, me ater a recomendações de outros mais experientes do que eu. Consoante a isto, ao longo dos anos aprendi que

posts com figurinhas são mais visitados do que aqueles em texto puro; por isto, sempre que termino de escrever algo novo (invariavelmente um texto puro), procuro na web as imagens que melhor o possam ilustrar;

leitores evitam títulos em língua estrangeira. Tão somente por isto, parei de insistir em iniciar títulos de postagens com expressões em inglês como, por exemplo, on conducting ou on writing. Assim, sem desistir por completo das categorias em inglês (que acho bem úteis para fins de catalogação), passei, no entanto, a lhes posicionar, a conselho de meu editor, não mais no início mas no final dos títulos de cada post;

textos com vocativos claros (isto é, que falam inequivocamente de uma pessoa (tais como as cartas abertas a um secretário de estado, a um gestor de uma fundação estatal ou, ainda, mais recentemente, em defesa da diretora de uma unidade de uma universidade federal) despertam nos leitores muito mais interesse do que aqueles aludindo exclusivamente a questões abstratas, teóricas, hipotéticas ou, simplesmente, impessoais. Ou, como bem disse um amigo, “as pessoas querem é ver sangue”. Tanto reconheci tal evidência que declarei, há tempos, chistosamente, que, doravante, só escreveria cartas abertas.

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Ainda há muito a aprender. Talvez não devesse, ao escolher um título ou um tema, dar tanta importância aos preceitos acima. Pois, mais do que quaisquer índices de visitação absoluta, me parece muito mais importante, para qualquer coisa postada na web, a quantidade e a relevância dos comentários por ela ensejados. Tanto que, de uns tempos para cá, venho cada vez mais trazendo para a permanência do blog threads de comentários deixados no facebook sob postagens de divulgação de novidades por aqui. Até por que, muitas vezes, suplantam em precisão e profundidade tudo o que foi dito no caput. Tenho para mim esta como sendo uma das principais virtudes de todo discurso produzido na web – que é, por natureza, colaborativo.

Dois livros para se entender a indústria fonográfica

Nos últimos 25 anos tenho me mantido, mais por força do hábito do que por determinação, um leitor de catálogos e manuais. Isto quer dizer que li, nas últimas décadas, muito pouca ficção, invariavelmente a pedido de amigos. Fora isto, os poucos volumes dos quais cheguei às última páginas tiveram a ver com algum interesse bem específico. Quase técnico. Como, por exemplo, a história da indústria fonográfica, desde sua expansão a partir de meados do século 20 até seu colapso frente ao avanço da internet.

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Já faz tempo que li a indispensável tese de Marcia Tosta Dias, publicada pela Boitempo em 2000, Os donos da voz; indústria fonográfica no Brasil e mundialização da cultura, abrangendo a história das gravadoras no Brail desde os tempos dos festivais e da bossa nova. Fundado sobre extensos de depoimentos primários de alguns de seus principais atores, como o executivo André Midani ou o produtor Pena Schmidt. O livro é um rico compêndio de dados sobre a indústria do disco no Brasil e no mundo. Fartos quadros de fusões e curvas de faturamento dão uma boa ideia de como este importante setor da economia (já repararam como os negócios mais lucrativos são justo aqueles ligados à beleza, ao entretenimento ou ao lazer, tidos por vezes como supérfluos ?) se comportou por mais de meio século.

André Midani

André Midani

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Pena Schmidt

Lendo Os Donos da Voz, fiquei meio incomodado com a predominância, sei lá se por hábito acadêmico ou o que, de muitas páginas dedicadas à explicitação de um referencial teórico/ideológico (Adorno, se não me falha a memória) que, conquanto importante de algum modo para a autora, é perfeitamente dispensável para o leitor em busca do que é prometido no título. Impaciente, queria chegar logo à parte que tratava da indústria da música no Brasil. Pois, ora, se quisesse ler sobre o frankfurtiano, comprava um livro sobre ele.

Também senti falta de um índice onomástico no lugar de uma bibliografia (outro vestígio inequívoco da origem acadêmica do texto), além de um certo sabor de história inacabada devido ao fato do volume não contemplar a então novíssima cena virtual e as reações da indústria frente à nova ameaça da pirataria. Não devemos, no entanto, culpar a autora por esta omissão – já que tudo aquilo era, então, ainda muito novo. Em que pesem estas arestas a serem aparadas da transposição da tese acadêmica para um relato destinado ao leitor comum, o trabalho permanece, no entanto, essencial para se entender como a economia afetou a história da música brasileira num período áureo.

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Ano passado, recomendações pelo facebook de Maria Estrella e Zeca Azevedo me levaram até Como a música ficou grátis (Intrínseca, 2015), do jornalista Stephen Witt. Como o livro de Dias, este também ostenta um subtítulo (como se editores no fundo duvidem que títulos destinados a públicos mais específicos chamem, de algum modo, a atenção de seus leitores em potencial…): O fim de uma indústria, a virada do século e o paciente zero da pirataria.

Em favor do livro de Witt (ah, maldito estigma da comparação…) está o ritmo da narrativa. Ao contrário de Dias, intercala, com a maestria de um bom roteirista, fragmentos de narrativas de vários atores, todos eles centrais na história da indústria fonográfica, mas cujas trajetórias pessoais, todavia, jamais se tocaram. Como resultado, dá um sentido (ou, como talvez prefiram alguns, provê um contexto) para fatos que, de outro modo, pareceriam desconexos.

A base de consulta de Witt é ampla: dezenas de entrevistas e milhares de páginas de documentos examinados. Os quais, no entanto, não nos são mostrados sequencialmente, tal qual armazenados em arquivos. Ao invés, o texto salta dinamicamente de uma narrativa para outra a cada capítulo, começando com a história de Karlheinz Brandenburg e seu círculo, responsáveis por desenvolverem, no Instituto Fraunhofer (Erlangen, Alemanha), o algoritmo de compactação utilizado até hoje no formato mp3.

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Karlheinz Brandenburg

A seguir, passa a narrar a história da pirataria musical, constituída principalmente por anônimos, a partir da biografia de um de seus principais atores, Dell Glover, funcionário de uma fábrica de CDs da Polygram em Kings Mountain (Carolina do Norte, EUA) que, tendo progredido por anos a fio de empacotador e gerente, conseguiu vazar mais de dois mil CDs antes de seus lançamentos até ser pego por autoridades. Peça importantíssima para grandes redes piratas como a Scene ou seu subgrupo RNS, Dell foi um dos principais informantes de Witt, revelando, entre outras coisas, não conhecer pessoalmente, a não ser por conversas telefônicas mediante pseudônimos, o “dono” da rede a quem se reportava.

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Dell Glover

A perseguição por agentes policiais e braços jurídicos das gravadoras aos compartilhadores piratas mais eficientes foi sempre desastrada. Conseguindo chegar não mais do que a usuários finais, resultou principalmente em perseguições a estudantes e donas de casa enquanto responsáveis por redes ou servidores permaneciam, via de regra, impunes. Na maioria das vezes, incógnitos. Quando logravam prender alguém, como aquele australiano doido, dono do Megaupload, em sua casamata, se tratava de uma exceção, altamente celebrada e publicizada. Como, por exemplo, no insólito caso de Alan Ellis, dono do exitosíssimo site Oink (de compartilhamento via torrent), encarcerado pelo governo britânico.

Alan Ellis

Alan Ellis

Um dos raros piratas que efetivamente chegaram a cumpriram pena, Ellis se tornou notório por jamais ter utilizado, em benefício próprio ou para seu sustento, qualquer centavo das volumosas doações que seu site recebia, as quais mantinha – talvez por achar que, assim, melhor as protegeria contra qualquer confisco ou congelamento judicial – distribuídas em dez contas bancárias distintas.

Do lado da indústria, acompanhamos a trajetória de grandes executivos. Como Doug Morris, que esteve à frente, entre outras, da Warner, da Universal e da Sony.

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Doug Morris

Lendo o livro de Witt, sucumbimos à evidência de que o gênero que moveu a indústria nos últimos dez ou vinte anos foi, sem sombra de dúvida, o rap. Mais que a irreverência, acionistas de grandes gravadoras reconheciam em letras de muitos rappers o incitamento a sentimentos indesejáveis, como a violência ou o sexismo. Os mesmos eram, no entanto, tolerados em virtude de serem, entre todos os artistas dos elencos das gravadoras, os que mais rentabilidade apresentavam nas últimas décadas..

A certa altura, Witt dedica alguns parágrafos a esmiuçar o tipo de contrato tradicionalmente oferecido pela indústria fonográfica. Funcionava mais ou menos assim. Tendo escolhido um artista, a gravadora investia antecipadamente os elevados montantes requeridos para a produção, gravação e fabricação dos discos, descontando, depois, dos artistas, tais valores dos royalties que deveriam receber sobre as vendas. Por vezes, dados os custos extravagantes de algumas produções, músicos não recebiam praticamente nada pelas vendas de álbuns bem populares. Cabe, aqui, comparar este tipo de contrato – a saber, do acesso aos meios de produção por seus proprietários mediante o comprometimento de parte substancial da produção futura – com o tipo de acordo tacitamente outrora celebrado entre, de um lado, senhores feudais e, de outro, os servos que aravam suas terras.

Não é, pois, de se estranhar que, ao ensejo do impacto de novas tecnologias, tal tipo de contrato tenha sido abandonado. Com efeito, é bem mais provável que este tipo de contrato – muito mais do que, como muitos ainda acreditam, a pirataria – tenha “matado” a indústria fonográfica. De uns tempos prá cá, as poucas gravadoras corporativas (i.e., não indie) que sobrevivem, além de não mais investir na produção de qualquer artista (um investimento, como mostra Witt, de alto risco – já que, dos muitos nomes do elenco de qualquer gravadora, somente uns poucos podem ser considerados, efetivamente, como lucrativos), passaram, ao invés de pagar royalties por vendas de álbuns a artistas, a cobrar (sic !) dos mesmos parte de valores obtidos com a venda de ingressos para seus shows.

Temos, com isto, uma mudança radical do foco de atuação de uma indústria minguante procurando se reinventar para sobreviver. Pois quem antes vendia mídias físicas gravadas agora vende experiência presencial. Isto, aliás, ajuda a entender todos aqueles smartphones que se erguem hoje sobre as cabeças do público em muitos espetáculos.

O livro de Witt tem um epílogo desconcertante. Conta o autor que, tendo sucumbido definitivamente ao streamming, resolveu se livrar de vários HDs que guardara ao se desfazer de sucessivos computadores, alguns já ilegíveis, contendo milhares de álbuns baixados ao longo de várias décadas. Procurando uma empresa especializada neste tipo de serviço, foi conduzido pelo proprietário de uma delas até um recinto onde havia uma máquina de pregar. O sujeito, então, após se recusar a receber qualquer valor devido ao ínfimo porte do trabalho a ser realizado, efetuou com a pistola alguns disparos contra os HDs para, em seguida, os abandonar numa caixa ao lado que já continha a sucata de muitos outros.

* * *

A tragédia da indústria fonográfica é seu fracasso sistemático em repetidas tentativas de abranger a qualidade e a diversidade. Pois a índole do capital é a devora do menor pelo maior, tendendo à existência de um número cada vez menor de conglomerados cada vez maiores, no que poderíamos chamar de um efeito espuma – na qual, com o tempo, há um número cada vez menor de bolhas maiores. Com negócios lucrativos – como foram, por muito tempo, as grandes gravadoras – não é diferente.

Alguns selos indie –  clássicos, inclusive – até perduram por algum tempo. Mas nenhum catálogo físico (como os HDs pregados de Witt) é ou será capaz de resistir ao apelo avassalador da internet e do streamming. Há coisas que, como a fotografia digital, vieram para sepultar outras. Ao menos quando competitividade comercial estiver em questão.

Como praticamente toda história, esta começou a ser contada a partir de seu final – com o qual temos, obrigatoriamente, maior familiaridade. Resta, então, para completar a narrativa do parêntesis da indústria fonográfica, esperar que alguém escreva o grande livro sobre o recém falecido George Martin, inventor da coisa. Quando poderemos ter, finalmente, uma perspectiva mais completa de como a economia afetou a música durante os últimos cinquenta anos.

George Martin

George Martin

De espectadores a participantes (ii): mais sobre o fim da genialidade

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No último post de 2015, tergiversei sobre o fim da genialidade. Ali, sustentei que, historicamente, todo gênio é imediatamente reconhecido por seus contemporâneos. Minha generalização foi tão apressada quanto desastrosa, como muito bem apontou Andrei (por favor se apresente melhor !) no seguinte comentário, a propósito dos gênios postumamente reconhecidos:

“É inerente à noção de genialidade o fato de que ela é prontamente reconhecida em todo gênio por seus contemporâneos.”

Na realidade diversos gênios foram reconhecidos apenas postumamente, vide Bach, Poe, Kafka e tanto outros.

Face ao mesmo, me vi forçado a reformular o argumento para dada a pluralidade exacerbada de enunciações (artísticas ou científicas) facultada pelos meios de divulgação atuais, é hoje praticamente impossível distinguir o gênio dentre seus contemporâneos – cabendo, portanto, tal tarefa exclusivamente à posteridade. Premissa que leva, de imediato, à indagação sobre quem será reconhecido, no futuro, como gênio de nossa época.

Uma ótima metáfora para nosso tempo é o ruído branco, a saber, aquele som, semelhante a um chiado, resultante da soma de todos os sons possíveis, no qual se tornam indistinguíveis quaisquer sons “puros” componentes do ruído resultante. Se, sob o domínio dos broadcasting media (aí incluído o “mercado” editorial), a reprodução maciça de enunciados era um privilégio de poucos, é hoje impossível a qualquer inteligência, humana ou artificial, mapear a totalidade de falas que habitam concomitantemente o espaço virtual. Ao menos antes da realização da web semântica perseguida por Lévy.

Por isto, não creio que a identificação dos gênios de hoje seja meramente um problema de julgamento histórico. Sustento, ao contrário, que a genialidade, como elevação do espírito de poucos indivíduos em relação à grande maioria dos de seu tempo, pode, sim, se encontrar em processo de extinção. Para melhor entender como isto ocorreria, é útil nos debruçarmos sobre o mito do homem universal.

Olhando de perto a biografia de tantos gênios, notamos que, frequentemente, sua área de curiosidade transcende os limites de uma única disciplina, transitando, por vezes, até entre os domínios da ciência e da arte. Como o artista e inventor Leonardo da Vinci, o escritor e fotógrafo Lewis Carroll ou o físico e músico Albert Einstein. Até na literatura a amplitude de excelência comparece, mais emblematicamente na figura de um Sherlock Holmes. De pouco importa se Einstein tocasse bem ou mal o violino; se as fotos de Carroll fossem motivadas por uma paixão clandestina que hoje seria vista como franca pedofilia; ou, ainda, se a inquietude de espírito de Holmes pudesse ser atribuída ao vício, hoje proibido, em cocaína. O que tais biografias, reais ou ficcionais, sugerem é que, para as mentes mais agudas, é por vezes difícil se restringir àquilo que convencionamos chamar de ofício. Algo de que a maioria costuma se ocupar por toda a vida e de que deriva o próprio sustento, sem ter tempo para se dedicar mais seriamente (ao menos perante os outros) a qualquer outra atividade. Pois reza o senso comum que, além da profissão (que, até poucos séculos atrás, já foi hereditária), todo foco de interesse restante seja reconhecido, quando muito, como um hobby (mas deixemos de lado, por hora, o fim das profissões – tema complexo a merecer um texto totalmente a ele dedicado).

Por muito tempo, o mito do homem universal enquanto excelente em várias ocupações, idealmente realizado em da Vinci, foi tido como uma exceção numa civilização na qual todo indivíduo não tinha outra possibilidade a não ser optar, por força da competição, por algo no que se especializar. Acreditamos que tal estado de coisas esteja profundamente enraizado em determinantes econômicos. Mas isto não nos interessa tanto.

Interessa, sim, deter o olhar sobre fatores tecnológicos que fizeram com que o mito do homem universal, antes apenas pouquíssimos entre muitos, se tornasse, hoje, muito mais a regra do que a exceção. Interessa, também, notar

como os limiares para que algo fosse reconhecido como arte se alteraram em contextos mais recentes; e

como o conhecimento e o imaginário deixaram de ser propriedade de umas poucas mentes para se tornarem objetos compartilhados por inteligências coletivas, ou líquidas.

A arte sempre foi definida e categorizada por técnicas específicas – sendo, portanto, sua tipologia determinada não pelo conteúdo mas, invariavelmente, pela técnica utilizada pelo artista. Deste modo, temos, como grandes categorias, o desenho, a pintura, a escultura, a literatura, o teatro, a fotografia ou a música, entre outras, ficando dicotomias como figurativo/abstrato ou tonal/atonal (associadas ao conteúdo), por exemplo, como classificações secundárias.

Ora, até pouco tempo atrás (mais precisamente até os grandes avanços tecnológicos da segunda metade do século 20) toda técnica devia ser longamente praticada até a obtenção de um domínio razoável a ponto de ser exercido para a criação de uma obras mais perenes. Por isso, é razoável dizer que as tecnologias computacionais vieram no sentido de facilitar toda e qualquer atividade, facultando, com isto, pela primeira vez, a figura do artista de pronta entrega. Ou alguém seria capaz de dizer que a fotografia com filmes é tão fácil como a digital ? Ou que o projeto arquitetônico era de domínio tão simples antes do CAD ? Ou que fazer um filme antes era tão fácil como fazer um video agora ? Ou, ainda, que era tão fácil escrever antes da recursividade dos editores de texto ?

Mencionei, no post anterior, o fato de vivermos numa era de autoria quase universal. Para que tal condição, facultada por novos meios, existisse, foi necessário uma redução dos patamares antes associados à estatura artística. Da sinfonia ao rap, do grande romance ao tweet ou do óleo ao rabisco, o que vemos em todas as áreas é o encurtamento das formas, a simplificação da complexidade e a legitimização da colagem. Isto não é bom nem ruim mas, simplesmente, uma etapa evolutiva. Fruto, provavelmente, da fragmentação de todo discurso entre múltiplos autores. O que nos permite especular sobre o retorno, talvez, num futuro distante, das grandes formas.

O que quero dizer com isto é que, se antes, por força do tempo necessário ao ao domínio técnico de qualquer arte ou ofício, o mito do homem universal era um privilégio de poucos, hoje, dada a universalização de acesso aos meios, a condição de homem criativo plural se encontra ao alcance de todos. Então, num mundo em que qualquer um pode escrever e publicar, todo portador de um smarphone é um fotógrafo em potencial e um sampler faz de qualquer um um músico, penso, sim, que é bem menos provável do que antes a emergência de sujeitos que venham a ser reconhecidos, por contemporâneos ou pela posteridade, como intelectos privilegiados em nossa época.

* * *

Sempre me agradou bastante a formulação do Parêntesis de Gutenberg, à qual já aludi por diversas vezes, que preconiza o fim da escrita. Mesmo que a previsão esteja errada (oxalá !), a ideia (de um parêntesis histórico) não deixa de ser interessante. A ponto de poder ser facilmente transposta para outras coisas. De tal modo que gosto de pensar que, num futuro melhor, poderemos não ter mais a publicidade, os broadcasting media, as profissões, a representação política e toda centralização (verticalização) administrativa, pública e privada, dentre tantas outras coisas que já se encontram naturalizadas como necessárias e inerentes ao funcionamento da sociedade. Daí a magnitude da tarefa de como imaginar um mundo sem elas. Mais horizontal. Por essas e outras, teimo em manter este blog.

 

De espectadores a participantes ou Que fim levaram os gênios ?

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Das tantas notícias que me capturaram a atenção nos últimos dias, nenhuma repercutiu tanto como a de que existem cerca de 800 engenheiros envolvidos no desenvolvimento da câmera do iPhone. Outra evidência de que a liderança da Apple no mercado de dispositivos eletrônicos deriva, principalmente, de um reconhecimento, por parte de seus gestores, de que toda excelência advém de um esforço coletivo. Ou team effort, como devem dizer.

A gênese e a natureza plural de todo conhecimento hoje resulta de uma evolução com períodos claramente definidos por dois marcos históricos, a saber, a invenção da imprensa e o surgimento da internet.

Antes de Gutenberg, todo conhecimento secular (salvo, portanto, aquele preservado em manuscritos herméticos) era transmitido oralmente, tendo, então, pouco ou nenhum sentido qualquer ideia de autoralidade. Aprendia-se dos antepassados, pouco importando, nas vezes em que palavras não fossem atribuídas a algum profeta, quem enunciara algo pela primeira vez.

Com a imprensa de tipos móveis há, pela primeira vez na história da civilização humana, a possibilidade de que um texto fixo, atribuído a um único autor, seja copiado sem alterações em quantidades maciças. Deste momento em diante, passa a importar quem teve palavras publicadas, ficando o mundo dividido entre autores e leitores. Este estado de coisas, que perdurará por cerca de meio milênio (até o surgimento da web), pode ser descrito como uma era de gênios e espectadores. Uma época em que o imaginário humano é dominado por insights de um punhado de criadores hegemonicamente reconhecidos. É a era de um Shakespeare, Einstein, Beethoven ou Freud. É abissal a distância entre o intelecto de um desses gigantes, designados como gênios, e o de homens comuns que lhes são contemporâneos. Para Mikhail Bakhtin (1895-1975), se trata do período de domínio do grande enunciado monológico.

Hoje, a disponibilidade cada vez maior da internet, tendendo ao universal, democratizou, de um modo sem qualquer precedente, o acesso aos meios de publicação. Se antes dela a circulação da palavra era controlada exclusivamente por poucos detentores de meios de comunicação, a visibilidade já não é mais um privilégio concedido a poucos por algum executivo, mas uma opção ao alcance de todos. Emblemático desta passagem, para um estado de autoria quase universal, é, por exemplo, a preferência dos mais novos por “canais” de videos pessoais (vlogs) em relação aos de TV aberta ou a cabo.

Convencionaremos, pois, chamar o períodos compreendidos entre a invenção da imprensa e o surgimento da internet e o que vem depois do último, respectivamente, de eras dos gênios e dos commons.

É inerente à noção de genialidade o fato de que ela é prontamente reconhecida em todo gênio por seus contemporâneos. Há, na obra de todo gênio, uma absoluta supremacia, de ordem técnica ou formal, em relação aos mais proeminentes de seus pares. Quando poucos eram reconhecidos como grandes autores (escritores, poetas, pintores, escultores, compositores…) suas obras estavam, tecnicamente, enormemente acima das possibilidades do homem comum, ainda que educado, contemporâneo.

Já foi muito bem dito que, após o advento da web, vivemos num período que pode ser designado como de autoria quase universal. Se antes a escrita era uma especialização exercida por poucos (escritores, jornalistas, juristas e afins), hoje qualquer um pode, em tese, enviar um SMS ou, pior, postar algo num grupo ou, pior ainda, site. Para o homem comum, a escrita passou da esfera íntima à pública. É claro que, para que isto acontecesse, foi necessária uma tremenda relativização da expectativa de qualidade em toda escrita. Quem são os gênios de hoje ? Não sabemos. Simplesmente por que há autores demais. E isto não é nada ruim. Apenas novo.

(mais tarde comentarei sobre a implicação do novo protocolo de commons sobre aquele que é um dos pilares da academicometria, a saber, o do pressuposto da primazia de enunciação)

Para que fosse possível haver mais autores, foi, antes, preciso que a autoria fosse também reconhecida a níveis menos olímpicos do que o dos gênios. Tal distensão das exigências da autoria se refletiu não só em certo empobrecimento da linguagem como, principalmente, no encurtamento das formas, de sorte que o óleo, o grande romance e a sinfonia deram lugar ao rabisco, à canção pop, ao post ou ao tweet. Ainda há lugar para gênios nesta algaravia ?

 

Sobre o aplauso, o silêncio e fotos de turma

De tempos em tempos se reacende o interesse pelo fenômeno do aplauso disruptivo, ou seja, todo aquele que rompe o silêncio entre as partes de uma obra musical. Uma das últimas celebridades a se manifestar em favor da liberdade do ouvinte para aplaudir quando quiser foi Esa-Pekka Salonen. Aproveitando o ensejo, o provocativo escritor e crítico inglês Norman Lebrecht republicou um irônico libelo, de um colega americano de quase trinta anos atrás, de índole diametralmente oposta ao que dissera o maestro sueco. Estava reinstaurada a polêmica.

Lancei-a no facebook e não deu outra: em poucas horas, minha provocação captou a atenção de diversos músicos, escritores, críticos e ouvintes, dentre eles dois regentes que (é importante sublinhar !) são até hoje e foram, muito antes de subirem ao pódio, mundialmente reconhecidos como virtuoses em seus instrumentos, que imediatamente não apenas se posicionaram contra ou a favor (i.e., indiferentes) em relação aos aplausos disruptivos mas foram, muitas vezes, adiante, agregando nuance. Como, por exemplo, da diferença entre o aplauso voluntário e o ruído acidental que interrompem uma audição. Ou a própria ideia de silêncio, cada vez mais ausente na música que se ouve hoje. Mas deixemos, por enquanto, com a palavra nossos doutos comentaristas.

Fabio Zanon: Acho odiosa a ideia de controlar a reação das pessoas. Acho inclusive anti-natural não aplaudir depois do 1o movimento da 2a de Mahler, do scherzo da Patética, etc. Tem músicas que toco em que uma vez em cinco apresentações escuto aplauso espontâneo no meio do movimento. Ora bolas, ninguém tem obrigacão de saber quando termina uma obra de Ponce. Se o compositor odiasse interrupção, faria como Beethoven ou Mendelssohn, emendaria um movimento no outro.

Augusto Maurer: 1 a favor X 0 contra. Obrigado e grande abraço, Fabio Zanon !

Jose Serrano Aguston: Não é uma questão de “controlar”. Se sempre existiu um protocolo que hoje está sendo quebrado, não é por falta de “controle”, mas falta de educação. Educação é uma forma de controle pelo entendimento, em vez da coerção.

AM: Faz sentido, primo. Afinal, os poucos que aplaudem na hora errada são invariavelmente ouvintes casuais, pouco ou nada habituados ao protocolo tácito das plateias contumazes. Educação, portanto, é tudo. Abração !

Lavard Skou Larsen: Aplausos só 10 segundos depois que a obra inteira terminou! Assisti a concertos aqui na Europa em que nem no fim se aplaude, e não são concertos sacros ou com motivos especiais.
Tem muitos músicos que preferem silêncio total.

Breno Freire: Existe ai um principio a ser observado. O da relativa “democracia musical”. Penso que é horrível querer manipular o comportamento espontâneo das pessoas, bem como definir a roupa que você deve trajar para assistir um concerto. Em contrapartida, existe a banalização do aplauso. Penso que muito mais do que espontâneo, existe uma inércia comportamental. Os cânones que reproduzimos no nosso dia-a-dia, também reproduzimos dentro das salas de concerto. Se não existe discernimento, a contemplação é reduzida ao efêmero.
O aplauso deixa de ser uma reverência, e muitas vezes acho que não é necessário, em qualquer ocasião. Nós, enquanto artistas, ficamos envaidecidos, mas será que o aplauso é realmente necessário. Respondo seu questionamento, com outro.
Eu sou a favor do “ouça, pense e então aplauda ( se a atmosfera te leva a essa necessidade de se manifestar).

AM:Obrigado, amigos ! E por que não uma postura educativa, embutida, talvez, nos avisos de desligar celulares antes de cada concerto ou, quem sabe, até com sinais luminosos, como em estúdios de rádio ou gravação, acesos nos momentos em que o silêncio da audiência é necessário. Pois, se já tem até ópera legendada, imagino que luzinhas vermelhas, como as que indicam saídas de emergência, muito mal não hão de fazer. Outra vez, muito obrigado pela visita ! Obviamente, citarei seus valiosos comentários em meu blog.

André O Paz: Também acho meio arcaica essa idéia de que “é preciso saber quando aplaudir” porque me passa muito essa mensagem de que “é preciso saber apreciar”. Como disse o Fabio Zanon, ninguém tem obrigacão de saber quando termina uma obra de Ponce. Vou além e digo que ninguém tem obrigacão de saber quando termina qualquer obra.
Porém, ampliando a abrangência, acho que tem muito aplauso fácil, e essa questão permeia toda produção. Como diz o Marcelo Fruet: é preciso saber jogar tomate também. Palmas não são obrigatórias.

FZ: Existe o aplauso fácil e existe o aplauso difícil. na minha cidade, Jundiaí, se não tocar música legal e se não tocar direito, o pessoal não chama de volta, não…

AM: Povo educado !

AM: Mais. Acredito que o franco conflito existente, como vimos acima, quanto à expectativa de aplauso entre as partes de um todo se deva muito mais à mudança de paradigma, de que tanto falo, de plateias silenciosas (acústicas) a barulhentas (amplificadas). Não tem a ver só com gênero musical. Tem a ver, também, com espaços de audição. Tem a ver com categorias caducas como erudito ou popular. Muitos ouvintes de hoje talvez jamais tenham ouvido algo unplugged, livre de qualquer amplificação eletrônica.

Milton Ribeiro: Eu sou contra o aplauso entre os movimentos, mas considero que há músicas que quase nos forçam a tanto, tornando natural a ejaculação precoce, como escreveu o Zanon. Mas acho inaceitável o aplauso sistemático entre os movimentos. Desconcentra o ouvinte — que é minha perspectiva. Na lamentável Porto Alegre, até o Secretário da Cultura faz cara de embevecido, aplaude entre os movimentos e ainda aponta para seu coração, deixando os músicos motivadíssimos… Sua ejaculação (precoce) é tão clara quanto a de um ator pornô. Chegamos ao fundo do poço e começamos a cavar. Bem, prefiro discutir a previsibilidade dos programas. [emoticon smile]

AM: [emoticon smile]

Joao Geraldo Segala: O aplauso me incomoda no geral, mais ainda aquela galera que vai só pra gritar bravo e aplaudir de pé. Eu realmente aprecio um recital/concerto/o-que-for onde se constrói um ritual de apreciação que tem várias regras de conduta. Começa (ou deveria começar) por as pessoas chegarem na hora, não comerem coisas, etc, e certamente tem a ver com quando e como aplaudir. Sobre quando, enche o saco aquela barulheira no meio da peça. Estou muito mais interessado (ou, melhor dizendo, estou exclusivamente interessado) em saber como o intérprete quer me propor aquela janela de tempo de sua performance, não havendo espaço para participação da platéia batendo palmas entre movimentos ou, que se dirá, no meio de um movimento. Já sobre como, eu não me sinto na obrigação sequer de aplaudir, e só o faço se realmente gostei da interpretação. No fundo, o resultado desta prática é que cada vez vou a menos concertos e, os que vou, são aqueles que fazem a diferença pra mim.

MR: Eu também fico louco com os porto-alegrenses que gritam e só faltam pular de alegria após a execução das obras. Aqui, o “Bravo” é quase um vitupério aos artistas, sinal apenas de que suaram e fizeram as devidas caras de torturados durante seus solos.

Júlio César Apollo: Ué, mas as óperas não param para que possamos aplaudir no final das árias?

AM: A ópera é, antes de um gênero vocal, um protocolo entre ouvintes, com suas convenções solidamente arraigadas, geralmente tendo pouco a ver com coisas musicais.

AM: As exclamações de “bravo”, mais do que congratular os músicos, equipara, por um breve instante, o ouvinte anônimo ao célebre solista. É o solo do anônimo.

FZ: Tudo é protocolo. E, como músico, prefiro ouvir vaias a um público apático, que aplaude só para mostrar que terminou. Isso é irrelevante. Não seria melhor a gente focar em melhorar aquilo que faz diferença? Por exemplo, garantir que ninguém abre bala ou remexe o saco plástico durante a apresentacão; ar condicionado silencioso; poltronas à prova de rangido; isolamento do ruído externo; e, principalmente, buscar o melhor tratamento acústico possível para as salas que temos. O maior inimigo do concerto não é o aplauso fora de hora; é a pobreza das condicões acústicas e o ruído na sala de espetáculos que me fazem preferir ouvir um CD. Não por acaso a Sala São Paulo aumentou o público da cidade; agora a gente vai lá na certeza de que terá um som envolvente; melhor que o do hi-fi. Nós crescemos ouvindo sinfonias em LPs e tínhamos de virar o disco; qual o problema em aplaudir entre os movimentos? Se ajuda as pessoas a controlar a ansiedade e a inquietude, sou a favor. Essa obrigação de ficar uma hora imóvel é o que faz as pessoas conversarem, ficarem inquietas, etc.

JCA: Muito bom.

JCA: Vou publicar teu texto em meu perfil.

Zeca Azevedo: Concordo com o Fabio Zanon.

* * *

Costumo estimar a relevância de um texto postado na internet relacionando seu tamanho ao do thread de comentários que engendra. A julgar pela sucessão de enunciados acima, o tema do aplauso disruptivo é vibrante.

Não canso de enaltecer a web por facultar a todos, como nunca antes, a instauração de redes que contemplem os mais diversos e elevados interesses. Foi pensando nisto que me dei conta de que, na grande maioria das fotos de turma tiradas durante os tempos de colégio, me lembro de apenas uns poucos rostos, com os quais não lembro de ter mantido presencialmente, durante anos de vida escolar, quaisquer conversas minimamente tão interessantes como a transcrita acima, que tive, contrariando toda expectativa derivada do senso comum, com interlocutores que sequer conheço pessoalmente ou com quem estive apenas em raras ocasiões – como, por exemplo, alguns dos que aparecem na foto abaixo, de uma turma particularmente singular.

 

Anotações sobre a crítica musical de Bernard Shaw (ii): goatbleat

Dentre as melhores partes da crítica musical de Bernard Shaw está, certamente, ao final de uma longa crônica, publicada em 10 de janeiro de 1890 e se dirigindo (em tom aforístico, como lhe era de costume) a cantores e atores, em que cunha a formidável expressão goatbleat. Traduzindo, o que o Bassetto diz é mais ou menos o seguinte:

[…] Eu não era então acostumado ao hoje felizmente obsoleto método vocal chamado goatbleat (berro de bode); […]

[…] Não são raros os casos de cantores e falantes experientes perderem toda a confiança em seus velhos métodos em novas e alarmantes condições acústicas. Quando isto acontece, começam a berrar francamente, […] Atores e cantores que tenham vozes pequenas devem lembrar que seu problema é se fazerem ouvidos e, de modo algum, soarem alto (loud). Loudness é o pior defeito de qualidade que qualquer voz, grande ou pequena, pode ter.

* * *

Dia desses, intrigado, perguntei a um de meus filhos por que preferia, aos canais de TV a cabo que lhe eram disponíveis, invariavelmente videos postados no youtube. De pronto, me respondeu que pela liberdade de escolha de conteúdos. Fez sentido.

A princípio, desdenhei o tempo gasto vendo outros (que depois me inteirei se chamarem youtubers) postarem em vlogs recortes de seu dia-a-dia ou, simplesmente, partidas de videogames comentadas (!). Confrontado com as enormes quantidades de seus seguidores, questionei os números declarados. A discussão parou por aí. Mas isso foi meses atrás.

Anteontem, ele quis (!) que eu visse uns videos que ele garimpara, independentemente de recomendações, apenas buscando por palavras-chave. Tive que dar o braço a torcer: não via nada tão engraçado na TV há tempos. O que ele me mostrou ? Talvez as melhores realizações até hoje, mais de 100 anos depois (!), da metáfora imaginada por Shaw. Confiram:

Mais sobre notações metronômicas, or in praise of social networking or, still, on conducting (x)

metronome 1Após dias de imersão exclusiva em modo músico, culminando ontem com a execução da suíte orquestral de 1919 do balê O Pássaro de Fogo, de Igor Stravinsky, torno ao modo blogueiro até que um próximo desafio instrumental se apresente. Tenham, pois, paciência se gosto de textos colaborativos, nos quais tento enquadrar num contexto e dar mais permanência à melhores conversas que tenho.

Comentava hoje, ao acordar, que estava gostando de deixar o computador ligado para receber notificações de novas falas em conversas interessantes em curso na rede. Nos intervalos necessários ao estudo, discutia os andamentos mais adequados para a música a ser tocada nas próximas horas com parceiros importantes que teria no concerto. Embora ainda não tenha ouvido a gravação, quero acreditar que o teor da conversa afetou positivamente a performance, pois tocamos a passagem mais crítica num andamento muito mais próximo (?) a um consenso acordado entre protagonistas por meio de conversas em redes sociais do que, nitidamente, naquele proposto insistentemente pelo regente desde o primeiro ensaio. Estou errado ? Se estiver, me desculparei adiante.

metronome plastic 2Enquanto isto, vejam, abaixo, alguns dos melhores trechos da conversa. Tudo começou quando, depois do primeiro ensaio, na semana passada, para o concerto de ontem, postei no facebook o seguinte desabafo:

Até entendo, embora não aceite, que alguém queira – e para tanto talvez encontre mesmo alguma desculpa esfarrapada (como, por exemplo, um metrônomo defeituoso ou algo do gênero) – se desviar dos andamentos prescritos por um Beethoven ou, vá lá, Mendelssohn. Foge, no entanto, totalmente à minha compreensão por que alguém decide (decide ?) desprezar ostensivamente as indicações metronômicas de um Stravinsky (sic !). #aindaimpactado

metronome plastic small redMinha perplexidade inicial era com a lentidão do andante final (solo de fagote), em franca oposição à indicação metronômica impressa na partitura. Fui, no entanto, traído pela linguagem demasiado compacta, pois entenderam que eu me referia, sobretudo, à veloz Variação do Pássaro de Fogo. Mas tanto as ideias discutidas, a pesquisa ampla e metódica e os melhores vídeos encontrados (ainda não vi, mas aposto que qualquer coisa curada pelo Artur Elias é nada menos que gloriosa), fazem desta conversa a melhor que tive enquanto me preparava para o concerto vindouro. A qual começara, despretensiosamente, como comentário à recomendação de um video no youtube (de uma versão para piano da Dança Infernal de Katschei, ao que lembro), mais ou menos assim:

AE: En passant, Augusto Maurer, Leonardo Winter, . Vinicius Prates, Gustavo Fontana e a quem mais interessar possa :

uma pesquisa exaustiva no youtube não conseguiu localizar nem uma ÚNICA gravação na qual Variação do Pássaro seja tocada no
andamento impresso (76).

A Filarmônica de Moscou nesta excelente versão com Yuri Simonov (vídeo abaixo) faz 20 pontos de metrônomo abaixo: 56 (e soa lindo!).

O próprio Stravinsky regendo: ca 66.

Duas produções de ballet, uma russa e uma inglesa, também.

O que reforça minha opinião :

1 é praticamente impossível tocar limpo no andamento impresso

2 soa melhor e mais virtuosístico num andamento que permita tocar limpo

Além disso, parece que nenhuma bailarina gosta (ou consegue) fazer tão rápido, idem!

AM: Concordo. A variação fica melhor num tempo mais seguro; quando falei de lentidão excessiva, me referi ao Andante final. Como resolvemos isto ? Acordamos um tempo previamente com o maestro ou deixamos ao sabor do momento ?

AE: Pois é. Eu creio que a argumentação acima é praticamente irrefutável. Por outro lado, é não apenas um direito dele construir sua própria interpretação; mas também é fundamental que ele se sinta livre para exercer a espontaneidade musical, que faz a música ter vida. E isso não é uma questão de argumentação. Eu gostaria de ter a CHANCE de poder tocar todas as notas, mas não gostaria que ele se sentisse constrangido e isso viesse a prejudicar a intensidade do momento.

Versão curta: não sei.

metronome electronic 1Já no palco, pronto para executar a obra, ouvi de Leonardo Winter (flautim), acerca da acalorada disputa entre os melhores tempos para Stravinsky, que a vida continuava depois daquele concerto. Pura verdade. Bem como a conversa. Chegando em casa, Artur Elias (primeira flauta) e Vinicius Prates (segunda flauta) escreveram, ainda mobilizados pela experiência, o seguinte:

VP: Nossa! Que gravação!!! Fiquei tonto só de pensar que tantas notas simultâneas podem ser tocadas por apenas uma pessoa. Deve ser música pra quem tem 7 ou 8 dedos em cada mão. Obrigado por compartilhar! Com relação aos tempos comentados acima, gostaria de expressar minha humilde opinião em meio aos comentários (até agora) de dois jedis. Recentemente durante meu mestrado, em uma aula eu e o Leonardo Winter discutíamos a respeito de andamento X execução de Notas Soltas para flauta solo de Bruno Kiefer, obra objeto de minha pesquisa. A partitura pede semínima acima de 100, se não me engano (não tenho a peça em mãos enquanto escrevo). Não é tão rápido quanto o Passaro nem tão difícil, mas, devido ao tempo justo, traz consigo algumas dificuldades. Lembro que naquela ocasião meu professor relatou uma conversa que teve com outro compositor (não lembro quem) em que este o disse que muitos compositores indicam andamentos rápidos na partitura não preocupados com a precisão matemática do pulso mas sim com a intensão de não fazer com que o interprete atrase no tempo. Em outras palavras, fazer com que o músico leve a música sempre pra frente. Em minhas palavras e interpretação da lição, o compositor está mais preocupado com o caráter justo do que com o tempo justo. Sabemos que muitas vezes caráter e tempo caminham lado a lado (se não sempre). Mas penso que uma subdivisão em figuras minúsculas e articuladas também pode contribuir para o caráter justo, vivo, independente da marcação metronômica. Talvez isso explique os andamentos mais lentos na maioria das gravações disponíveis. Acredito que o caráter saltitante esteja presente em todas as versões, independente do tempo mais largo. Por outro lado, o tempo preciso me parece trazer outro tipo de expressividade, apesar de talvez prejudicar tecnicamente um ou outro ponto. Aquilo que o maestro disse muito bom: é como desarmar uma bomba! Ou seja,é uma certa aflição pela qual o músico talvez tenha que passar como parte integrante e colaborativa da execução de uma peça tão complexa. Quem sabe se isso não intencional na escrita poética do compositor? Ou quem sabe, e provavelmente, eu viajei de mais? Fato é que meus colegas e o maestro estão fazendo um trabalho brilhante. Parabéns! Bravi Tutti!!!

AM: Gostei da tese de que composer’s metronomic markings are bullshit. E da parte dos jedis. Lembrarei disto na próxima discussão sobre indumentária.

VP: Prefiro composer’s metronomic markings can be bullshit. Acho que assim me comprometo menos, kkkkkkkk

AM: Exatamente ! Cada caso é um caso.

AE: Exemplo interessante, Vinicius Prates. Eu toquei as “Notas Soltas” algumas vezes, numa vida passada – nunca no andamento impresso (não conseguia!) mas sempre com rigor – e intensidade – se não me falha a memória, o público parecia curtir muito essa composição aparentemente árida!

Observações soltas

– é MUITO comum, na música dos gigantes sinfônicos russos, indicações metronômicas que beiram a crueldade, por assim dizer… Vide Prokofiev e Schostakovitch, além de Stravinsky.

– A percepção de andamento “dentro da cabeça”, apenas ouvindo a música internamente, é bem diferente da percepção do tempo quando a música está sendo realmente tocada – e mais ainda se for uma formação grande

– Nenhum debate sobre andamentos pode ser completo sem mencionar Celibidache, o alquimista da regência! Para ele, andamento, músicos, a SALA e o momento são interdependentes.

A propósito, eu ouvi um Romeu e Julieta sob a sua direção – foi uma experiência inesquecível e irrepetível.

Ao que não me furtei de deixar escapar:

AM: Notações metronômicas são para humanos mortais. Não se aplicam, portanto, a Celibidache, que pode tudo.

metronome korg blueAinda depois do concerto, Vinicius postou em seu facebook o seguinte:

Tem certas coisas que quando a gente toca, na hora que termina pensamos que nem criança: “de novo, de novo, de novo!” Foi assim comigo hoje com o Pássaro de Fogo. Emocionado com o concerto.

Espero que esta conversa se prolongue para além dos limites deste post.

metronome yamaha* * *

PS: Procurando figurinhas de metrônomos para ilustrar o post, me deparei com este artigo (do Smithsonian) sobre a bizarra tese do metrônomo defeituoso de Beethoven, à qual me refiro aqui e já em meu primeiro blog. Marquei prá ler. Pois deve ser, no mínimo, divertido.

metronome 2

 

Como formar um pensamento sem história ? ou Sobre imagens e palavras (i)

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Amoras silvestres que ensejaram a conversa reproduzida na primeira parte deste post.

Este texto pertence à série sobre as razões pelas quais estou no facebook, subsérie conversas que se tem por lá, e poderia se chamar, também (se o título não ficasse muito longo), eu sigo (iii) Luiz Afonso Alencastre Escosteguy.

Nunca encontrei Luiz Afonso pessoalmente. Tive, no entanto, com ele, em caixas de comentários, algumas das mais interessantes conversações mantidas nos últimos tempos. Como, por exemplo, a que segue. Suscitada por uma provocação vinculada à postagem da foto acima. Tudo começou com o seguinte:

A última foto que postei já foi curtida 31 vezes. A divulgação do último post que publiquei, 4. Estes números devem querer dizer alguma coisa. Are images any better than words ?

Ao que Luiz Afonso prontamente retrucou:

Significa apenas que, em geral, as pessoas não entram no FB para ler. FB é entretenimento e não fonte de informação ou de leitura. Tirando os blogs jornalísticos, o acesso a textos perde de longe para o de imagens. Comigo – e com quase todos os que escrevem – acontece o mesmo…

Ocorreu, então, o seguinte diálogo:

Augusto: Ou seja, tudo se resume, no fundo, à velha e boa oposição entre lifecasting e mindcasting. Sonho com o dia em que o facebook e seus concorrentes ofereçam filtros inteligentes capazes de distinguir um do outro. Com os quais será bem mais fácil constituir PLNs.

Luiz Afonso: E tem mais, quanto mais posicionado for o texto, menos lido, menos curtido e menos comentado.

Augusto: (curioso: por que a exposição virtual é tão temida?)

Luiz Afonso: Por que poucos são capazes de sustentar argumentos, ideias ou de serem coerentes. Na maioria são repetidores de manchetes e não passam muito disso.

Augusto: Entendo. Uma civilização de slogans. Posso copiar esta conversa no blog ?

Luiz Afonso: Uma geração perdida. Tenho visto jovens de 20 a 35 anos que sequer conhecem fatos da história que temos por notórios. Como formar um pensamento sem história? Como ser crítico sem história?

Luiz Afonso: Pode, claro!

Augusto: Título provisório para o post: como formar um pensamento sem história ?

Augusto: (outra hora, te falo das raríssimas exceções que conheço ao princípio de que não há CC competente…)

Luiz Afonso: Se não existissem exceções, não seria regra hehehe

Luiz Afonso: Voltando ao teu post, esse foi o maior mal causado pela mídia: o imediatismo da solução pronta nas manchetes. Eliminou, com o passar dos anos, a capacidade das pessoas de irem atrás de mais informações/conhecimentos para fazerem a crítica do que recebem. E ir atrás de informação/conhecimento é ir atrás da história, da história que a mídia esconde. E assim também nas escolas…

Augusto Maurer: Outra coisa: que tipo de imagem posso usar para ilustrar essa conversa ? Pois, afinal, o Milton Ribeiro insiste muito que é bem mais fácil divulgar textos vinculados a imagens do que sem elas.

Luiz Afonso: Augusto Maurer, Sempre uso imagens nos posts. A escolha envolve técnicas de comunicação e, claro, sensibilidade…

Luiz Afonso: AH, e usaria essa imagem para ilustrar o post

imagens X palavras

* * *

Nessa mesma conversa, outros comentaristas também se referiram à primazia da imagem sobre a palavra como uma tendência importante em nossa época. Sempre que me deparo com este tipo de discussão, me vem imediatamente à mente a instigante formulação do Parêntesis de Gutenberg, ao qual já me referi aqui, segundo a qual estaríamos vivendo o ocaso de uma era de predomínio da escrita, delimitada no início pelo advento da imprensa e no fim (suponho) pela omnidisponibilidade de tecnologias visuais, como em tablets ou smartphones. Antes dele, dominavam as narrativas orais. Depois, viriam as visuais.

Então, de acordo com os estudiosos que o endossam, não haveria um problema maior no fato observável de que gerações mais recentes tenham cada vez menos familiaridade com a linguagem escrita, pois estaríamos no limiar de uma nova era de comunicação essencialmente visual. Faz sentido. Pois nativos digitais passam cada vez mais tempo se relacionando com telas. Seja interativamente ou apenas vendo, na melhor das hipóteses, podcasts e vlogs de algum youtuber ou, na pior, séries de TV. Não mencionei os jogos tão somente por que estes merecem um olhar mais dedicado.

No intuito de se estabelecer a importância relativa entre som e imagem em canais e meios de comunicação, um observador arguto poderia idealizar o experimento de, primeiro, ver televisão sem som e, depois, ouvir seu som sem ver a imagem para, então, decidir em qual dos dois modos consegue entender melhor o que se passa no programa transmitido. Alguém, dada a atual farra da ciência institucional, deve nalgum momento obter algum subsídio para uma pesquisa nestes moldes. Enquanto isto não acontece, podemos tergiversar, por exemplo, sobre se não seria bem mais fácil entender o cinema sem áudio do que sem imagens – enquanto a TV seria, por sua vez, bem mais incompreensível sem audio do que sem imagem. Fora, é claro, em transmissões de partidas de futebol. Sei lá. É só um palpite.

Cabe, ainda, observar que, enquanto praticamente toda postagem compatível com a categoria de mindcasting é fortemente apoiada sobre algum tipo de linguagem verbal, seja ela escrita ou não, já aquelas reconhecíveis como lifecasting se valem com frequência bem maior de recursos exclusivamente visuais. Como provam todas as postagens de selfies, foodporn e afins. Então, se for assim – e se os defensores do Parêntesis de Gutenberg tiverem razão – rumamos para uma era obscurantista na qual todo conhecimento só estaria ao alcance de uns poucos iniciados, porquanto letrados. Só nas piores distopias, como em Farenheit 451, se imaginou um porvir tão tenebroso.

Melhor não pensar nisso. Principalmente por que, até lá, dá para ter muitas conversas como essas que só as redes sociais ensejam. Curioso. Mesmo sem ter jamais encontrado Luiz Afonso pessoalmente, sei, graças às redes, que nutrimos as mesmas paixões pela escrita e pela cozinha. Mantidas as devidas nuances. Pois, enquanto me dou melhor com panelas, ele é um exímio assador. Alguém duvida ?

torta de pernil de cordeiro

Torta de pernil de cordeiro feita por Luiz Afonso.