O que é um panóptico

Publicado em 1º de fevereiro de 2013, quando se completam 778 dias de prisão de Julian Assange – sem que qualquer acusação legal tenha sido feita até a presente data – e após 228 anos da idealização do panóptico por Jeremy Bentham, este livro foi composto em Adobe Garamond, 11/13,2, e impresso em papel Pólen Soft 80g/m2 na Yangraf para a Boitempo Editorial, em janeiro de 2013, com tiragem de 10 mil exemplares

Este é o prolixo colofão (texto diminuto, impresso ao pé da última página de um livro, contendo informações sobre o mesmo enquanto objeto físico, independentemente de seu conteúdo) aposto à edição brasileira de Cypherpunks – liberdade e o futuro da internet. Nunca tinha visto nada similar, nem de longe, que agregasse, assim anonimamente, naquele espaço outrossim meramente técnico, tanto significado ao conteúdo de uma obra.

De pronto me pus a imaginar quem, numa cadeia editorial, dispondo de tantos espaços autorais (como orelhas, contracapa, prefácio, apêndices e afins), ousaria perverter tanto aquele lugar normalmente dedicado a informações gráficas neutras, de ordem exclusivamente técnica. Divagação, todavia, inútil. De modo que, em seguida, tratei de descobrir do que se trata, afinal, um panóptico.

Em poucas palavras, panóptico é um modelo arquitetônico prisional, idealizado pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham em 1785, no qual todas as celas podem ser permanentemente observadas a partir de uma torre localizada no eixo central de um prédio cilíndrico, atendendo ao princípio de máxima vigilância com esforço mínimo.

Um detalhe importante do panóptico de Bentham é que, devido a persianas ou venezianas que revestem as janelas da torre de vigilância, não é possível a cada preso, ainda que podendo ser permanentemente vigiado, saber efetivamente quando o está sendo. A autocensura decorrente desta condição é tida como o principal efeito disciplinador do panóptico.

Por razões que não vem ao caso, o modelo não se popularizou. O único panóptico que já foi construído nos EUA está em ruínas – e a ideia estaria definitivamente sepultada não fosse sua apropriação por Michel Foucault, em Vigiar e Punir (1975), para descrever a sociedade disciplinar. Desde então, muitos a vem adotando, particularmente teóricos das novas tecnologias, como Pierre Lévy e Howard Rheingold (e, inclusive, o próprio Assange) como metáfora perfeita para a vigilância invisível da internet por seus controladores.

Cypherpunks – Liberdade e o Futuro da Internet (2013); ou O elogio do hacker

Algumas leituras são prazerosas. Outras, necessárias. Como Cypherpunks – Liberdade e o Futuro da Internet (Boitempo, 2013). No caso, o que não ajuda é o formato do texto, a saber, a transcrição de uma conversa mantida por Julian Assange com Jacob Appelbaum, Andy Müller-Maguhn e Jéremie Zimmermann em 20 de março de 2012 na embaixada equatoriana em Londres, na qual o primeiro tinha exílio político.

Conquanto o leitor possa lamentar a falta de uma voz autoral a garantir a elegância e uma certa unidade ao texto, o estilo caótico de ata de assembleia é largamente compensado pela densidade das ideias expressas e informações trazidas pelos quatro heróis da liberdade online. Numa percepção apressada, poderíamos argumentar que a recusa de Assange em escrever um livro se deva ao fato dele não ser um escritor mas, antes, um programador. Tal ideia, no entanto, rapidamente se dissipa ante a leitura de alguns blocos monológicos do ativista, particularmente o final do livro. Noutras palavras, Assange não escreveu o livro sozinho por que não quis – a presença dos outros ilustres co-autores se justificando, acima de tudo, para conferir ao relato a diversidade que tanto defende, principalmente quando manifesta, aqui e ali, como franca discórdia.

A conversa gira em torno da liberdade e do poder emancipador sem precedentes franqueados pela internet, bem como das ameaças a que estão sujeitos. São discutidas, com farta documentação, a criptografia, a militarização do ciberespaço, a vigilância, a censura, a cultura hacker e outros tantos desdobramentos temáticos. De vez em quando, despontam categorizações importantes, tais como as 3 liberdades fundamentais, a saber,

liberdade de circulação,

liberdade de comunicação e

liberdade de interação econômica;

a distinção entre

vigilância tática, que predominava antes da internet, na qual apenas um grupo de notórios suspeitos tinham suas comunicações interceptadas; e

vigilância estratégica, facultada pela web, na qual todas as comunicações são interceptadas e armazenadas, constituindo imensos bancos de dados para análise e garimpo de informações relevantes por órgãos de inteligência;

os “Quatro Cavaleiros do Info-Apocalipse”, em nome dos quais são impostas todas as legislações de exceção que envolvem quebra de privacidade individual, que são

lavagem de dinheiro,

drogas,

terrorismo e

pornografia infantil;

ou, ainda, as várias camadas da pirâmide da censura, da qual somente é visível

a ponta, pública, constituída por calúnias, assassinato de jornalistas, câmeras apreendidas por militares e assim por diante; sob a mesma, existem, invisíveis,

a autocensura;

o aliciamento econômico ou clientelista para que pessoas escrevam sobre isto ou aquilo;

a economia pura, que determina sobre o que vale a pena ou não escrever;

o preconceito dos leitores, ocasionado pelo nível de instrução limitado e que resulta numa massa fácil de manipular, tanto pela disseminação de informações falsas como pela falta de condições de entender verdades sofisticadas;

a distribuição, que consiste na falta de acesso a informações – como, por exemplo, no caso de línguas desconhecidas.

* * *

Na discussão sobre criptografia, nos inteiramos de que é precisamente aí (e não na colossal capacidade de armazenamento) que reside o grande trunfo do WikiLeaks, i.e., na garantia do anonimato conferido a cada whistleblower (denunciante). Com efeito, nem Assange conhece a identidade de quem envia documentos à organização que criou. E sobre a segurança do anonimato, deve ser dito que a identidade de Bradley Manning, responsável pelo maior vazamento de documentos militares da história, só foi revelada depois que o mesmo se referiu a seu feito num chat.

A criptografia também se provou um valioso recurso em se tratando de se esquivar à vigilância estratégica, já que, sem o software necessário, é impossível decodificar quaisquer mensagens criptografadas interceptadas.

É nos capítulos dedicados à vigilância que ficamos sabendo que, enquanto com os recursos anteriores à internet, órgãos de inteligência precisavam se limitar a interceptar as comunicações apenas entre indivíduos suspeitos, hoje é possível a qualquer estado comprar, pela bagatela de dez milhões de dólares (sem ironia: comparem este valor com a maioria dos orçamentos governamentais), sistemas capazes de interceptar e armazenar indefinidamente TODAS as comunicações, por voz ou texto, de uma cidade ou mesmo de um país.

A vigilância, inclusive sobre interações econômicas, é enormemente facilitada pela centralização de informações num pequeno número de empresas, quase todas norte-americanas. Pensem no Google, no Twitter, no Facebook ou nas poucas bandeiras dos cartões de crédito mais usados. Por exemplo. Se você comprar uma passagem aérea por meio de qualquer transação bancária, inclusive com cartão de crédito, dados sobre seu deslocamento pretendido estarão imediatamente disponíveis a órgãos de inteligência interessados antes mesmo que você saia do lugar. Tente, ao contrário, comprar uma passagem internacional em dinheiro vivo.  Neste caso, se você estiver tentando cruzar fronteiras de um país com fortes restrições migratórias, provavelmente será submetido a revistas e interrogatórios rigorosos. Paranoia ? Não creio. Isto ocorreu a um dos autores, cidadão norte-americano, ao tentar ingressar em seu país pelo Canadá.

Na visão dos autores, que defendem uma internet livre e anônima para todos, um dos maiores problemas consiste na assimetria de tratamento dado às informações, de um lado, dos mais ricos e poderosos e, de outro, dos usuários comuns – perfeitamente sintetizada no título do penúltimo capítulo: Privacidade para os fracos, transparência para os poderosos.  A ética hacker  distingue claramente informações privadas daquelas que são ou deveriam ser públicas – sendo, inclusive, tal discernimento a principal razão para a lentidão na divulgação do enorme volume de mensagens comprometedoras interceptadas entre o então juiz Sérgio Moro e procuradores da operação Lava Jato.

Como contramedidas possíveis face à presente distopia de governos e atores privados cada vez mais vigilantes, os autores propõem, entre outras coisas, o domínio, por parte de usuários comuns, de recursos criptográficos; a disseminação de software livre, que pode ser compreendido e alterado por qualquer indivíduo; o uso de navegadores não rastreáveis, como o Tor; e uma arquitetura mais descentralizada para a internet.

* * *

Talvez a maior importância da leitura desta conversa não seja a fartura de dados objetivos sobre (me desculpem a expressão) a merda em que estamos imersos. E, o que é pior, sem saber ! Pois, ao usarmos a internet, seduzidos por conveniências sem precedentes, sequer temos ideia do volume de informações que voluntariamente confiamos a quem, em última análise, quer nos controlar ou nos vender algo.

Penso, outrossim, que o maior valor do livro seja reabilitar, perante o leitor, a figura do hacker – tão vilipendiada, recentemente, pelos atores centrais ao Morogate, seus protetores e, de resto, parte significativa da mídia. De fato, para a maioria das pessoas, um hacker não passa de um criminoso, dedicado a capturar senhas e subtrair saldos de contas bancárias alheias ou, no máximo, desestabilizar governos por meio de táticas terroristas. É nisto que o discurso oficial quer que acreditemos.

Não sou ingênuo a ponto de afirmar que hackers assim, movidos primordialmente por interesses pecuniários, não existam. São, no entanto, uma minoria absolutamente irrelevante. Até por que há fraudes bem mais rentáveis ou, ainda, as populares malas de dinheiro. E não consta, até hoje, que nenhum hacker tenha sido flagrado com 51 milhões em espécie num apartamento. E quanto àquele vilão que desvia quantias milionárias para contas múltiplas em paraísos fiscais apenas conectando um pen drive a um servidor ? Se você acredita nisto, deve estar vendo muita televisão.

O hacker, tão invocado quando se trata de explicar o inexplicável, é, em sua ocorrência mais comum, um sujeito de inteligência superior e índole utópica que age altruisticamente, de modo anônimo e colaborativo, na tentativa de prover a seus semelhantes um mundo melhor. É o cara que frequenta a campus party, defende o software livre e milita contra a propriedade intelectual, quebrando sistemas fechados e se apropriando de códigos-fonte, sempre em nome do interesse da parte mais numerosa e vulnerável do mundo digital. Noutras palavras, um herói da democracia. Ainda que tantos poderosos, quando pegos de cuecas, se ponham a gritar tratar-se do bandido.

 

Por uma web semântica

Hoje, ao abrir o facebook, me deparei com duas postagens independentes, por pessoas que talvez nem se conheçam entre si, mas que propagavam, essencialmente, uma mesma mensagem. Foram elas

e

postadas, respectivamente, por Elena Romanov e Manuelai Camargo. Ambas expressam uma realidade, conquanto sutil, bem importante e atual – o que me levou, de pronto, a ponderar sobre o quão benéfico seria, para a aglutinação e posterior discussão de ideias, um modo automático de detecção de conteúdos relacionados, capaz de aproximar estranhos entre si que partilhem preocupações comuns.

Tal objetivo é perseguido pelo filósofo e cientista da informação (os rótulos são meus) Pierre Lévy, professor da Universidade de Paris 8, nascido na Tunísia. Sem conhecer detalhadamente o estado atual de seu grupo de pesquisa, sei apenas que almeja uma internet inteligente, capaz de operar automaticamente com significados sem intervenção humana. Sem sombra de dúvida um importante passo a ser dado em relação à inteligência artificial.

Os mais céticos e/ou argutos hão de dizer: ” Ora, mas isto já existe ! “, alegando que os hashtags (#) apostos a enunciações – utilizados, primordialmente, para medir trending topics – dão conta desta tarefa. Só que esta constatação apressada não leva em conta que hashtags são atribuídos por humanos pretendendo incluir seus pitacos num todo maior. E mesmo que usuários de redes sociais se abstivessem de rotular suas falas, deixando aos próprios algoritmos a tarefa de caçar palavras comuns capazes de relacionar o que cada um diz a uma “conversa” maior, tal expediente seria ainda muito limitado em relação à utopia vislumbrada por Lévy. Vejam, por exemplo, os dois “memes” acima, obviamente relacionados.

Neles, ainda que se esteja falando da mesma coisa, não há qualquer palavra comum a ambos capaz de relacioná-los automaticamente. Pois notem que, enquanto o primeiro menciona uma expressão calabouço, plenisignificante – a saber, anti-intelectualismo – o segundo a caracteriza perfeitamente por meio de uma série de exemplos sem, no entanto, recorrer a mesma sequer uma vez.

Então, até que uma verdadeira ferramenta algorítmica esteja disponível, preocupações importantes como esta caminharão paralelamente por um longo tempo, sem que seus portadores se conectem, até que, por obra do acaso ou alguém que a priorize, se torne um movimento que venha a realizar alguma ação concreta contra esta tendência tão nefasta.

* * *

Pierre Lévy já esteve no Brasil várias vezes, tendo, inclusive, participado do Fronteiras do Pensamento e sido entrevistado no programa Roda Viva. Há uma miríade de vídeos disponíveis com suas falas – razão pela qual eleger um, para fins ilustrativos, constituiria não mais do que um recorte arbitrário e reducionista. Por isto, deixo o grau de aprofundamento em seu pensamento a critério da vossa curiosidade – sugerindo apenas que pesquisem, além de seu nome, o conceito de web semântica que lhe é tão caro.

Por que custarão a surgir algoritmos capazes de lidar com escrita criativa (exceto, talvez, a poesia…)

Uma das interações mais desejadas por donos de blogs é ensejar reações brilhantes em outros blogs. Tanto melhores quanto for a inteligência dos interlocutores.

Como Fernando Rauber Gonçalves. Apresentá-lo como um pianista capaz de tocar com plena desenvoltura um concerto de Bartók diz muito pouco dele. Provavelmente a maior parte dos que o ouvem desconheça seu repositório de improvisações ao teclado ou, desde mais recentemente, o blog onde ventila e defende grandes ideias. Além disto tudo (que não é pouco !), Fernando se dedica à programação de jogos – tendo, inclusive, participado de competições de programadores.

Tenho particular afeição ao blog de Fernando por muitas razões. Primeiro, por que me sinto lisonjeado com o fato de que sua criação teve como causa imediata disseminar uma resposta ao que pareceu, a ele e talvez a muitos, uma crítica pueril a Carmina Burana que eu publicara.

Mas isto foi há bastante tempo. Neste verão, Fernando me homenageou outra vez ao treinar por vinte horas uma rede neural para escrever como se fosse eu, a partir do corpo de textos publicados neste blog, dando a meu alter ego algorítmico o simpático nome Augustus Mahler.

Entendam melhor o contexto. Em posts anteriores, muito me dediquei à hipótese de Harari de que, em 30 anos ou menos, haverá massas de inempregáveis, dada a progressiva transferência de todas a tarefas a robôs e algoritmos que as executam muito melhor do que humanos. O experimento de Fernando buscou – e encontrou ! – o estado da arte em termos do que uma inteligência artificial, residente numa rede neural, é capaz de emular discursos de diferentes autores.

Ao saber do propósito da coisa, fui ao “blog” de Augustus Mahler com curiosa cautela, para descobrir com alívio que, por enquanto, redes neurais ainda não são capazes de lidar com a dimensão semântica do discurso. Pois as locuções, coletadas pela rede, por mim usadas aqui ou ali, não fazem qualquer sentido quando permutadas – demonstrando, com isto, que escritores ainda não são dispensáveis.

Por que, então, é tão mais fácil emular compositores do que escritores ? Ora, por que a música não possui tanta coerção semântica quanto a linguagem, podendo evocar, no máximo (e não sem certo auxílio de gêneros híbridos como o teatro, o cinema e a ópera…), estados emocionais genéricos como alegre, triste, irado, veloz, estático e afins – como, por exemplo, nos nomes dos movimentos da sinfonia Os Quatro Temperamentos de Nielsen (a saber: sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático).

E fica por aí. A música, embora possa sugerir com eloquência sensações sobre, por exemplo, o clima, é absolutamente impotente em se tratando de dizer com exatidão coisas como o dia, a hora, a temperatura e a localização exata, bem como descrever convincentemente pessoas ou lugares.

Por tal limitação, é, pois, razoável considerar a música como isenta de qualquer dimensão semântica. É por isto que algoritmos emuladores de estilos pessoais de composição são tão mais avançados do que seus congêneres contemporâneos dedicados a simular discursos.

O mais engraçado é que, embora possa facilmente identificar no discurso de Augustus Mahler fragmentos de meu próprio, sua leitura me faz lembrar daquelas mensagens escritas por robôs, que caem nas caixas de spam, anunciando remédios, relógios rolex, jogos de azar e pornografia. Não lhes parece ?

 

Excedentes; ou Sobre como a indústria do entretenimento vem se acomodando à era digital

Talvez um dos maiores efeitos da internet sobre a indústria tenha a ver com o manejo de excedentes. Neste texto, estamos especialmente interessados nas transformações sofridas com o advento da rede pela indústria do entretenimento – a saber, aquela dedicada à reprodução de conteúdos (textos, sons e imagens) em meios físicos (papel impresso, fita magnética ou discos de vinil e acrílicos). Mas vamos por partes.

Toda indústria almeja ao lucro por meio da produção em grande escala de bens altamente padronizados distribuídos a consumidores, até relativamente pouco tempo atrás, tão somente pelo comércio varejista e segundo uma demanda artificialmente turbinada pela publicidade – atividade, aliás, intrinsecamente anti ecológica, responsável por uma larga parcela do valor agregado de tudo o que é anunciado, mas que foge a nosso foco atual. Quero enfatizar, apenas, que, por definição, toda indústria produz mais do que o necessário; então, a propaganda entra em ação em seu intuito original de fomentar artificialmente a demanda por tudo o que é produzido.

As máquinas de fabricar CDs são emblemáticas do excesso industrial. Pelo menos até pouco tempo atrás, quando a fabricação de exemplares de um CD era encomendada, o contrato costumava prever uma quantidade adicional indeterminada, a qual o contratante se comprometia a adquirir, denominada “quebra de máquina” e correspondendo aos itens ainda fabricados depois que a máquina tivesse sido desligada.

Padronização e excesso sempre foram marcas da indústria enquanto a comercialização de produtos dependeu exclusivamente da rede de comércio varejista – fundada, por sua vez, sobre a existência dispersa de uma grande quantidade de estoques, estrategicamente localizados em relação aos mercados consumidores e constituídos por itens ao mesmo tempo duplicados e variados. O abastecimento dessa rede varejista era suficiente para manter a indústria bem ocupada. Quanto maior a duplicação e menor a variedade, maior o lucro – daí o alto apreço pela padronização.

Notem, ainda, que a padronização é inversamente proporcional ao valor do bem produzido. Comparem, por exemplo, os relativamente poucos modelos produzidos por uma empresa automobilística se comparados à miríade de fórmulas distribuídas por cada empresa farmacêutica. Ou então as poucas plantas de imóveis num condomínio em relação à vasta variedade de objetos feitos por um mesmo fabricante do setor de móveis e decorações.

Voltaremos ao problema da padronização mais tarde, ao tratarmos da indústria do entretenimento e sua inegável predileção por celebridades, best sellers e blockbusters.

Sobre a variedade. Certa vez um amigo, respeitado professor de economia e interessado em expandir sua área de atuação (acabou abrindo uma pastelaria) me perguntou, movido por legítima curiosidade científica, qual pizzaria eu escolheria entre duas, uma de cardápio sucinto e a outra, prolixo. Para seu desconcerto, optei sem hesitar pela primeira. Aquilo pareceu contrariar tudo o que pensava sobre comportamento de consumidores. Depois que justifiquei minha escolha como tendo a ver com algo como não precisar perder tempo lendo ou olhando um menu repleto de itens desnecessários, meu amigo desistiu prontamente da enquete, provavelmente me classificando como um consumidor atípico. Estive na inauguração de sua pastelaria, lá pelos anos 80. Não sei que fim levou, nem tampouco me lembro de como era o cardápio.

O que pretendo, com isto, é enfatizar o enorme descompasso inerente à grande padronização exigida pela indústria e a prática comum do varejo, que é a de submeter todo consumidor a uma variedade acachapante, a partir do mito de que a sinestesia resultante do excesso de opções funcionaria como um estímulo ao consumo. Por que me refiro a isto como um mito ? Por várias razões.

Um dos pilares da publicidade é o suposto empoderamento de consumidores por meio do enaltecimento de sua prerrogativa de escolha – ocultando, com isto, que os mesmos não passam de alvos destinados a pagar o máximo que puder ser cobrado por tudo aquilo que é produzido excessivamente. Algum economista já disse que, segundo o credo neoliberal, somos aquilo que compramos; e que, portanto, a exclusão social se dá mais acentuadamente pela perda do poder aquisitivo do que por qualquer outro motivo. Vale examinar melhor estas afirmações. Noutra feita, talvez.

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Tudo o que foi dito acima se refere, evidentemente, à era do varejo, anterior à internet. Nas últimas décadas, a rede mundial se tornou tão pervasiva que toda indústria precisou a ela se adaptar para assegurar a manutenção da distribuição de tudo o que produz. Progressivamente, o comércio varejista foi cedendo lugar a dois novos modos de distribuição que podem ser descritos, respectivamente, como streamming e e-commerce. Como categorizador compulsivo, tratarei, nos próximos parágrafos, dos tipos de bens mais afeitos a um e ao outro, com especial ênfase no primeiro, prontamente abraçado pela parte da indústria mais conhecida como de entretenimento, conteúdo ou, ainda que imprecisamente, cultural (detesto arcabouços semânticos).

Então. O que mais difere os produtos típicos das indústrias editorial e fonográfica em relação às demais commodities é que, enquanto a maioria dos objetos de uso, sejam eles permanentes, consumíveis ou descartáveis (tais como alimentos, remédios, veículos, imóveis, utensílios, eletrodomésticos, eletroeletrônicos e o escambau) tem um valor enormemente variável, determinado tanto por sua utilidade como pelo prestígio relativo do fabricante (ambos manipulados pela publicidade); livros e discos possuem um “valor de prateleira” muito mais homogêneo, tendo pouco a ver com o conteúdo e muito mais com o meio físico no qual são prensados ou impressos. Assim, CDs custam praticamente o mesmo independentemente da música que contém, bem como livros tem seu preço largamente determinado pelo número de páginas, com coeficientes diferenciais relativos à qualidade do papel ou da encadernação.

Se antes todos os produtos, tanto da indústria de commodities como do entretenimento, eram vendidos em lojas, a internet impôs uma fratura em relação ao tipo de comercialização. Da seguinte maneira. Enquanto objetos físicos – que precisam chegar, por meio de intermediários, do fabricante ao consumidor – se tornaram a província por excelência do e-commerce, com seus estoques reduzidos e a possibilidade de supply on demand; conteúdos peculiares à indústria do entretenimento passíveis de conversão em bits, tais como textos, sons e imagens, iniciaram um processo de migração para sistemas de streamming.

Aqui, devo frustrar quem espera de mim alguma declaração peremptória do tipo “o futuro do livro e do disco”. Por várias razões.

Primeiro por que, como já disse aqui, plataformas de streamming são fortemente condicionadas por custos de servidores, os quais ainda impõem a seus proprietários demandas mínimas para que qualquer coisa seja disponibilizada – virtualmente excluindo, com isto, qualquer possibilidade de distribuição de conteúdos de interesse mais restrito.

Segundo, por que o ato de ler um texto impresso de extensão superior ao que cabe numa tela ainda é tanto prazeroso (um mérito subjetivo) quanto prático (este, inegavelmente objetivo) – já que o manuseio de um livro, devidamente anotado, é muito mais recursivo do que, por exemplo, avançarmos e recuarmos ao longo de um texto digital por meio de comandos em um teclado.

É preciso, no entanto, reconhecer que, assim como as melhores lojas de discos já fecharam suas portas, o varejo de livros também vive um significativo encolhimento.  Sintomas ? As duas lojas de partituras musicais (um setor editorial bem específico) de Nova Iorque já encerraram atividades. Grandes lojas de discos tiveram o mesmo destino. Vejam os casos da Tower Records (EUA) e da Modern Sound (RJ), bem como outrora pujantes seções de CDs em mega livrarias que, com o passar do tempo, minguaram ou simplesmente sumiram.

* * *

E chegamos, finalmente, à questão do colecionismo. Mídias  impressas ou prensadas (notem que a distinção entre estas duas palavras não existe em inglês) são particularmente afeitas às coleções – pois além de caberem perfeitamente, em razão da alta padronização de tamanhos, em prateleiras fáceis de serem projetadas; também cabem melhor no bolso de colecionadores, já que seu valor inicial (não falo, é claro, de itens raros, fora de catálogo) costuma, como já foi dito acima, ser bem acessível.

Coleções respeitáveis podem conter muito mais livros do que uma pessoa pode ler em toda a sua vida, ou discos que seria capaz de ouvir. Por isso mesmo, sua índole pode ser um mistério para os não colecionadores. Reza uma anedota (bem velha, a julgar pela menção à fita de áudio) que um audiófilo toca cada disco não mais do que três vezes: a primeira, para conhecer; a segunda, para gravar; a terceira, para se despedir.

Exageros à parte, há coleções monumentais, que desafiam qualquer lógica, mas que nos interessam enquanto emblemáticas do excesso inerente às indústrias editorial e fonográfica em tempos anteriores à internet. É bem fácil se intuir que executivos destas indústrias, ao conferir seu imprimatur a qualquer conteúdo, estivessem plenamente cientes da enorme quantidade de cópias daqueles discos e livros que não seriam vendidas – destinadas, portanto, a morrer, inicialmente, nas prateleiras das lojas de lançamentos; depois, nos saldões e, finalmente, arrematadas em lotes por sebos ou algum “colecionador” excêntrico.

O prédio da Strand Book Store, na Broadway

Um destes casos emblemáticos é a Strand Book Store, no Greenwich Village, em Nova Iorque, da qual já falei aqui. Com um estoque estimado em 8 milhões de livros, é tida como o maior sebo do mundo. Só que o que mais chama a atenção de quem a adentra não são, como em outros sebos, os livros usados. Pois na Strand a primeira coisa que se oferece ao olhar do cliente são, como numa livraria de “lançamentos”, impecáveis pilhas de exemplares novos de um mesmo livro, luxuosamente encadernados, de arte em sua maioria, por uma fração de seus preços iniciais. Como a Strand consegue isto ? Simples. Há (ou, pelo menos, havia) em Nova Iorque uma animada cultura de resenhas. Existe mesmo uma publicação periódica, o New York Book Review, inteiramente a ela dedicada. Isto quer dizer que qualquer editor em língua inglesa com alguma pretensão ao mercado livreiro deve distribuir aos críticos novaiorquinos dezenas, senão centenas, de exemplares de cortesia (ou, como são conhecidos por lá, complimentary copies) de qualquer novidade – a maioria dos quais, no entanto, sequer é aberta e acaba sendo adquirida pela Strand a preços de banana.

Vista do interior da Strand Book Store

Outro caso, bem mais próximo, é o de um acumulador, residente em São Paulo, que adquire lotes de discos de vinil de empresas que se retiram do mercado. Embora promova um sério trabalho de catalogação, seus armazéns contém quantidades imponderáveis de itens repetidos, chegando a um total impressionante de mais de 4 milhões e meio de LPs. Daí as aspas em torno da palavra “colecionador” aí em cima. Qual seu propósito ? Sinceramente, não sei. Supondo que seu imenso acervo seja preservado após sua morte, deve permanecer como um colossal monumento ao excesso ambientalmente obsceno inerente à indústria.

O “conecionador” Zero Freitas, de São Paulo, diante de uma pequena fração de seu acervo

A arte da discórdia

As redes sociais vem se tornando cada vez mais o lugar por excelência para o ódio. Fraturas maniqueístas entre bons e maus, mocinhos e bandidos e tantas outras, que podem ser resumidas como os que concordam comigo e aqueles que de mim discordam, cada vez mais determinam a adição e a exclusão de amigos e seguidores – resultando, na maioria das vezes, em bolhas nas quais likeminded people chovem no molhado reforçando convicções próprias e ridicularizando membros de campos ideológicos opostos. Como ação persuasiva e/ou transformadora, tal sorte de interação não passa de uma colossal perda de tempo.

Justamente no duplo intuito de refinar minhas posições e, ao mesmo tempo, tentar influenciar aqueles que pensam de modo diferente, mantenho, entre meus interlocutores virtuais, muitos que assumem posições diversas ou mesmo diametralmente opostas às minhas, por vezes até se comportando como trolls, em questões tanto políticas como estéticas. Mas só isto não é suficiente. Pois, para se lograr estabelecer um diálogo minimamente proveitoso com campos adversários, é preciso aderir a um conjunto bem específico de práticas e princípios, do qual trato neste texto.

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Nativos digitais começam a bater boca (devo dizer bater teclas ?) na web muito antes de terem experimentado a dinâmica de uma discussão presencial. Entendemos, no entanto, que debates cara a cara possuem uma inegável função formativa no que tange a duas regras pétreas que deveriam nortear qualquer embate verbal, a saber,

jamais falar mais alto do que o outro; e

jamais interromper uma fala de outrem antes que o mesmo lhe tenha passado a palavra.

Os dois expedientes acima, que podem ser agrupados sob o pobre expediente de tentar ganhar uma  discussão “no grito”, são, lamentavelmente, bastante comuns. Examinemos, pois, um pouco melhor cada um deles.

O erguimento de uma das vozes num debate é uma clara tentativa de fazer prevalecer um argumento por meio do silenciamento, relativo ou absoluto, da outra. Em ambientes virtuais ou editoriais, equivale à utilização, por uma das partes, de canais aos quais tenha acesso privativo ou preferencial, tais como blogs, colunas de opinião ou páginas editoriais. Até mesmo no contexto mais horizontal de perfis em redes sociais, a exclusão de comentários indesejáveis ou o bloqueio de interlocutores configura o mesmo tipo de silenciamento de adversários, por permitir que a voz do dono de cada perfil reine absoluta.

Felizmente, há um antídoto contra estas práticas supressoras, conhecido como direito de resposta, segundo o qual deve ser assegurado a quem quer que se sinta atingido ou ofendido por algo que tenha sido publicado em qualquer canal com alguma audiência a oportunidade de se manifestar livremente no mesmo espaço em sua própria defesa. Grande parte do prestígio e credibilidade de um meio advém de sua política de franquear o próprio espaço à difusão de contraditórios.

Já os nodos de alternância de vozes em um discurso são essenciais para a compreensão do mesmo, independentemente da extensão de cada fala. Isto por que, tipicamente, argumentos defendidos por bons debatedores são compostos por vários silogismos encadeados. Logo, interromper uma fala sob qualquer pretexto é, portanto, um violento atentado à ética do bom debate.

É bem verdade que, diante de oradores mais prolixos, um oponente arguto tende a se impacientar a cada falsa premissa proferida. É nessas ocasiões que muitos irrompem intempestivamente em meio a falas não concluídas, deixando quem estava com a palavra perplexo, quando não ultrajado. Em sua versão jurídica, amplamente difundida pelo cinema, tais interrupções assumem invariavelmente a forma da interjeição “Eu protesto, meritíssimo !”

Para prevenir tais incidentes lógicos, recomendamos aos mais afoitos o uso sistemático de blocos de notas, onde todas as objeções podem ser cuidadosamente anotadas para utilização em falas futuras, bem mais estruturadas e, portanto, eficazes.

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Outra regra de ouro do bom debate é

jamais rebaixar um adversário diante de uma audiência, desviando a atenção da mesma de seus argumentos por meio de acusações pessoais conhecidas como ataques ad hominem.

É quando se tenta desqualificar as ideias de outrem por meio de afirmações tais como “fulano é um mentiroso” ou “beltrano só diz merda”. Ataques ad hominem também são conhecidos como a falácia do envenenamento do poço.

A falácia do envenenamento do poço é tão ineficaz quanto inócua. Inócua por que, mesmo que desacreditemos o enunciador de uma ideia, a mesma pode ser facilmente defendida por outrem logo em seguida – seu efeito, neste caso, tão fugaz como a tomada de um peão oferecido em sacrifício numa partida de xadrez.

Ineficaz, também, por que bons adversários são essenciais à valorização de qualquer embate. Gregos antigos já sabiam disto ao manifestarem especial apreço pelo diálogo como instrumento de aquisição de conhecimento. Além disto, é principalmente pela oposição, seja de uma ideia, habilidade ou força, que percebemos alguma qualidade maior ou melhor. Afinal, o que seria de Senna sem Prost, de Ali sem Frazier, de Borg sem McEnroe, de Lula sem Bolsonaro ou do Grêmio sem o Inter ?

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Sobre brigas nas quais nos metemos na internet, passei a respeitar, desde que o ouvi de um amigo, o seguinte princípio:

jamais responder a qualquer provocação, por mais ultrajante que pareça, no ato.

Meu amigo pratica, como método, o hábito de, sempre que incomodado por qualquer coisa com a qual tenha tomado contato por meio de redes sociais, não reagir de imediato. Pois não há nada que uma boa noite de sono não resolva. Na maioria das vezes, nem lembramos, ao acordar, de supostas ofensas recebidas no dia anterior – prova maior de que aquilo não era, de modo algum, importante. Se, no entanto, aquilo continua a nos incomodar mesmo depois do sono restaurador, partimose, aí sim, para a elaboração de uma resposta à altura, bem pensada e, como tal, fulminante na maioria das vezes.

Se fosse para dar um nome a esta prática, talvez o mais indicado seria regra da cabeça quente – segundo a qual nossas respostas tendem a ser melhores quanto maior for o tempo decorrido desde o fato ultrajante gerador.

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Finalmente, vale citar quatro regras, deitadas pelo filósofo Daniel Dennett (nascido em 1942) e compiladas por Maria Popova em seu brilhante site brainpickings, dando conta de uma ética e estratégia a ser adotada em debates com oponentes qualificados. Segundo Popova, Dennett faz uma pergunta muito apropriada que testa algumas das tendências e dinâmicas básicas da cultura atual onde todo mundo é um crítico, a saber,

Quão generoso você deve ser ao criticar visões de um oponente ?

Ao que responde:

Como compor um comentário crítico satisfatório:

Você deve tentar re-expressar a posição de seu alvo tão clara, vívida e justamente a ponto de ele dizer “Obrigado, eu gostaria de ter dito isto desta maneira.”

Você deve listar qualquer ponto de acordo (especialmente se não forem objeto de consenso geral ou amplo).

Você deve mencionar qualquer coisa que tenha apreendido com seu alvo.

Só então lhe será permitido dizer qualquer palavra de refutação ou crítica.

Para Popova, tal código de ética seria por si só suficiente para transformar o ambiente infernal dos comentários online. Dennett vai adiante, notando que esta estratégia psicológica logra transformar o oponente numa audiência mais receptiva à crítica ou dissenso, tendo como resultado o avanço da discussão.

Daniel Dennett foi descrito por Marvin Minsky, pioneiro da inteligência artificial, como o maior filósofo vivo e o próximo Bertrand Russell.

 

 

Quais as implicações da concessão de cidadania a robôs

Dentre as muitas notícias pela quais passei os olhos recentemente, talvez a que tenho causado o impacto mais duradouro seja uma que veio da Arábia Saudita, dando conta da concessão de cidadania daquele país a um robô. Não resisti ao título. Na matéria, do ótimo site Big Think, fiquei sabendo se tratar de um androide de feições femininas, modelado a partir de Audrey Hepburn (sic !), turbinado com inteligência artificial (AI), capaz de auto aprendizagem e produzido por uma empresa de Hong Kong (Hanson Robotics).

Impressionado, vi na íntegra o vídeo que ilustrava a matéria, no qual o robô Sofia foi entrevistado no Future Investment Initiative, evento dedicado a inovações tecnológicas realizado em Riyadh, a capital saudita. A argúcia e o humor revelados em diferentes falas do androide me levaram de pronto a julgar se tratar de uma fraude, com a máquina devidamente programada para reagir a determinadas “jogadas ensaiadas”. Infelizmente, uma rápida pesquisa demonstrou se tratar da mais crua realidade.

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No conforto da contemporaneidade, estamos acostumados a considerar a premissa da inteligência artificial capaz de competir com vantagem ou, pelo menos, em igualdade de condições com a humana como uma possibilidade ameaçadora apenas num futuro vagamente distante. Se a eloquente demonstração de Sofia para investidores sauditas não escondeu nenhuma armação (tal como, por exemplo, um script previamente definido para a realização da entrevista), tal futuro, imaginado por Asimov e, mais recentemente, por Harari, já chegou.

A existência de robôs capazes de apreenderem sozinhos não constitui, por si só, uma ameaça mas, antes, um prodigioso avanço tecnológico em prol da raça humana. Assusta, no entanto, que humanos estejam dispostos a conceder a tais máquinas poderes e direitos até então exclusivos de humanos. Neste cenário, não há como não sentir um calafrio ante as imensas e insondáveis possibilidades inauguradas com uma concessão de cidadania a um robô. Pois, se não for apenas uma jogada de marketing, com restrições em letras miúdas que não chegam aos noticiários, tal concessão implica, por exemplo, que robôs podem, a partir de agora, votar e, pior, concorrer em eleições.

Ora, dados os elevados custos atuais destas máquinas, ainda não passa de uma fantasia supor que androides unidos consigam, de algum modo, interferir, como votantes, em resultados de eleições. Mas e quando robôs forem mais baratos e numericamente tão importantes quanto humanos ? Certamente um problema futuro a ser resolvido. Mais preocupante, no entanto, é a possibilidade de robôs como candidatos políticos. Pois, a julgar pela desenvoltura e pelo atrevimento demonstrados por Sofia diante da plateia saudita encantada, é fácil supor que uma máquina provida de inteligência artificial já seria plenamente capaz de “derrotar” nossos rasos políticos em debates eleitorais.

Isto não é, por si só, um problema, na medida em que os atuais atores políticos (presidentes, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores) já atendem invariavelmente antes a interesses escusos que financiam suas campanhas do que aos de quem os elegeu. Só que robôs políticos não cometeriam erros humanos – atendendo, com isto, ainda mais eficientemente os interesses de seus proprietários. Oligointeresses, neste caso, já que é bem difícil imaginar robôs que não pertençam a elites.

Mas o problema não termina aí. Pesquisando sobre Sofia, logo descobrimos que o clone cibernético da bonequinha de luxo apreende através daquilo que ouve. Ou, noutras palavras, do que lhe é ensinado. Isto quer dizer que sua conduta será sempre ideologicamente compatível com a moral e a ética implícitas no discurso orientador de sua “formação”. Prestem atenção, por exemplo, em sua fala jocosa, conclamando os empresários a expressarem sua simpatia pelo projeto por meio de cheques encaminhados após sua palestra. Tal exortação denota claramente a ideologia segundo a qual pesquisas científico-tecnológicas são de responsabilidade da iniciativa privada.

Notem, ainda, a rapidez da pergunta “devolvida” ao entrevistador, antes até que o mesmo concluísse sua fala (um robô impaciente ?…), procurando claramente plantar dúvidas sobre atributos que definem humanos como tais.

Não sei de vocês, mas eu tenho medo de robôs filósofos, que venham um dia a escrever os livros que lemos.

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Update 1: a escritora de ficção científica Nikelen Witter recomendou, em comentário sob uma postagem de divulgação deste texto, o filme Ex-Machina (2015), sobre a mesma temática instigante dos robôs empoderados. Verei o quanto antes. Só não incluo o link para o verbete do mesmo na wikipedia por que a sinopse é um tremendo spoiler.

Update 2: Zeca Azevedo, ao compartilhar este post: “Um robô que diz estar feliz quando se vê cercado de gente “esperta, rica e poderosa” é mais uma ameaça (porque é certamente um instrumento de manutenção do status quo) do que um avanço.” Na mosca !

 

Pare de reclamar de tudo no facebook !

Desde que, anos atrás, comecei a interagir no facebook, tenho a plataforma como uma fonte privilegiada de informações. Pois, no excesso digital, é bom poder contar com recomendações estratégicas de pessoas confiáveis para filtrar o que lemos, vemos e ouvimos. Só que nem tudo nele é necessariamente instrutivo ou edificante. Há, é claro, os trolls, cuja personificação mais atual e emblemática são o MBL e os bolsominions, os quais são profilaticamente excluídos por muitos amigos, mas que mantenho só para ser lembrado que há vida discursiva (não me atrevo a dizer inteligente) fora das bolhas nas quais se constituem nossas redes.

Preocupantemente, vem se tornando cada vez mais populares as postagens breves e avulsas (i.e., não vinculadas a nenhum link) nas quais o vivente se limita a soltar o verbo para desabafar em relação a, digamos, pequenos reveses e frustrações do cotidiano. Eu mesmo devo confessar que já fiz isto em mais de uma ocasião – como, por exemplo, quando reclamei da música que tinha que ouvir compulsoriamente na academia de ginástica. Ao me dar conta de que, com este tipo de comentário, não mais do que poluía timelines alheias, comecei a tentar reprimir este impulso. Ainda que o mesmo seja, por vezes, mais forte do que eu.

Não falo aqui, é claro, de expressões de descontentamento de cunho político, com uma clara finalidade ativista, destinadas primariamente a provocar uma reação de contrariedade que possa vir a se refletir em instâncias concretas tais como as urnas em pleitos vindouros. Falo, antes, do pequeno desabafo, sobre o sapo que tivemos que engolir ou algo que tenha ficado atravessado na garganta mas que, uma vez repartido (e para isto as redes são ótimas !), podemos simplesmente esquecer e partir prá outra.

Mais: é preciso admitir que há um certo gozo em blasfemar no facebook, pouco ou nada importando contra o que.  É como se, desfiando nossas pequenas frustrações diante dos olhos de amigos, as exorcizássemos – já que, sem as redes, na maioria das vezes ficaríamos com aquilo remoendo, a prejudicar nossa preciosa concentração, até encontrarmos alguém disposto a escutar nossas lamúrias. O que, na solidão inerente à vida offline contemporânea, pode levar muitas horas ou, em alguns casos, vários dias.

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Dito isto, não me tomem muito a sério. Ou nada a sério. Pois, dentre as coisas mais divertidas que aparecem no feed, figuram com certeza as incontáveis manifestações de solidariedade ou repúdio às queixas postadas. Consoante a isto, não vou excluir (nem quero reprimir) aqueles mais reclamões – entre os quais prontamente me incluo.

Longe de mim, além disto, pregar a higiene virtual com base numa moral prescritiva. Afinal, as redes estão aí para cada um usar do jeito que quiser. E, convenhamos, nelas já vi diatribes divertidíssimas – bem melhores, sem dúvida, do que a maior parte da comédia televisiva. Tomem, então, este breve post como uma exortação ao xingamento.

Atrações locais que “abrem” megashows de celebridades globais recebem alguma remuneração por isto ou, como parece mais lógico, pagam para fazê-lo ?; ou Sobre títulos bombásticos e limitações do streamming

Acompanhando de longe os últimos megashows a acontecerem em minha cidade, me ocorreu perguntar se atrações locais que “abrem” espetáculos de celebridades globais efetivamente recebem algum tipo de remuneração para fazê-lo ou, efetivamente, como me parece bem mais lógico, pagam para estar ali, com toda aquela infraestrutura emprestada e provavelmente a maior audiência que hão de encarar em suas carreiras. Não, a pergunta não é retórica. E por mais preconceito que possa denotar, me apresso em esclarecer que, de acordo com a teoria da qualidade distribuída, ou dispersa, não é de todo improvável que, circunstancialmente, artistas desconhecidos fora de seus nichos locais tenham muito mais qualidade, num sentido amplo, do que as celebridades que guarnecem. Retornaremos a isto em seguida.

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Admito. Títulos bombásticos, ultrajantes, constituem um grande atrativo – razão pela qual a eles recorro com frequência, mesmo sabendo que quem a eles reage mais prontamente muitas vezes sequer lê o texto ao abrigo dos mesmos. Isto é fácil de provar. Num exemplo recente, compartilhei um excelente artigo publicado em Evonomics cujo bem escolhido título rezava How America Hates Socialism without Knowing Why (Como os EUA odeiam o socialismo sem saber por que). A peça estabelece uma arguta correlação entre o grau de confiança no país (i.e., em seus homens públicos, segundo dados da Transparência Internacional) e o apreço de seus cidadãos pelo socialismo. Para meu espanto, um troll comentou, sob a postagem: Parece que a América já está tendo acesso a história e sabendo o que foi o socialismos ao longo destes cento e alguns anos(sic). Normalmente, não reajo a este tipo de provocação. Só que, neste caso, minha curiosidade foi maior e tive que perguntar se o comentarista lera, de fato, o artigo.  É claro que não obtive resposta alguma.

Numa situação mais remota, fui chamado de idiota prá baixo ao postar um texto sob o descaradamente apelativo título Por que gosto de assistir ao jornalismo da Globo. Até agora não sei quantos dos que protestaram com indignação efetivamente leram o que escrevi.

Não quero dizer, com isto, que leio todas as letras miúdas sob os mais chamativos títulos que desfilam na timeline. Até por que o expediente de ler apenas as manchetes em busca de conteúdos que nos interessam é pelo menos tão antigo quanto os jornais impressos – não tendo, aliás, as manchetes outra função senão a de permitir que evitemos a leitura de conteúdos que se nos afigurem como menos relevantes. Só que, para tentar evitar pagar micos, me abstenho de comentar textos que não tenha lido, tão somente a partir de seus títulos.

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Como falávamos acima, a probabilidade de um frequentador contumaz de megashows se deparar ao acaso com shows de abertura de algum modo superiores às celebridades que os sucedem no palco não é, ao contrário do que empresários acreditam, totalmente nula. Até por que muitas bandas hoje célebres mas então obscuras devem ter sido descobertas ao abrirem shows de artistas consagrados. Se este tipo de evento inesperado, “fora da curva”, de fato existe como possibilidade concreta, tal se deve à consistência da teoria da qualidade dispersa, ou distribuída, à qual não cansamos de aludir neste blog, que pode ser mais ou menos formulada como:

Deve haver, oculta sob o manto da diversidade, muito mais qualidade do que qualquer que já tenha sido revelada pela indústria do entretenimento, posto que esta , em sua seletividade predatória, é incapaz de acessar, por meio de seus radares centralizados, o que de melhor existe como fruto da criatividade e expressão artística humanas.

Num paradigma anterior, astros predestinados a algum sucesso nas gravadoras e no showbusiness eram frutos de escolhas arbitrárias, orientadas por perspectivas de mercado, de produtores todo-poderosos. O binômio mais emblemático deste estado de coisas é a exitosa associação entre George Martin e os Beatles – o primeiro, um executivo fonográfico incumbido pela indústria de descobrir sons que, prensados em discos de vinil, constituíssem objetos de desejo imediato do maior número possível de consumidores, e os últimos, um conjunto de jovens menestréis como qualquer outro em terras britânicas. Sei que esta última afirmação tende a angariar, entre defensores irredutíveis dos méritos do quarteto de Liverpool, contraditórios veementes sempre que reiterada neste espaço. Rogo-lhes, ainda assim, que deixem temporariamente de lado a eterna questão do caráter único ou banal da música dos Beatles para, ao menos desta vez, se fixarem na transformação dos meios de acesso ao estrelato desde aquele tempo até agora – esta sim central à presente argumentação.

Desde então,  o showbusiness, adaptativo como qualquer indústria, vem procurando incorporar, sintonizado ao espírito dos tempos, procedimentos de avaliação distribuída, típicos das comunidades virtuais, nos quais a maioria da audiência é quem decide quem vai adiante e quem é eliminado em muitos reality shows. Devemos, no entanto, frisar que isto é o máximo que já se conseguiu até agora em se tratando da tão propalada mas tão pouco implementada televisão interativa. Ao mesmo tempo, muitos concursos televisivos, sejam de canto, dança ou culinária, ainda se mantém fiéis ao formato tradicional de júris compostos por um punhado de celebridades.

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Em nome da concisão (bem como da inteligência dos leitores), não choveremos no molhado falando, aqui, das recentes e radicais transformações sofridas pela indústria do entretenimento nas últimas décadas. Suficiente, então, sublinhar que, para se adaptar à perda do monopólio sobre os meios de produção (estúdios caros e fábricas de LPs e CDs), investidores migraram para o setor de distribuição por meio de streamming.

O streamming (i.e., a transmissão de sons e imagens, residentes em servidores, pela internet) sepultou, ao menos entre consumidores menos especializados, o até então robusto comércio de música e cinema gravados em mídias físicas como CDs e DVDs. Proprietários destes serviços se desoneraram completamente da tarefa de produzir conteúdos para transmissão, cabendo agora a cada artista – de uma base, portanto, supostamente ampla e diversa – produzir seus próprios conteúdos, os disponibilizando para streamming por valores bem mais acessíveis do que, comparativamente, o jabá anteriormente pago pelas gravadoras para a execução repetida de música por estações de rádio. Cabe, ao mesmo tempo, a cada artista a divulgação e a criação de uma demanda por todo conteúdo por ele disponibilizado “na nuvem”.

Como em todo negócio da era digital, provedores de streamming apostam acima de tudo na venda de acesso. Para tanto, competem entre si para oferecer a seus assinantes a maior base possível de conteúdos disponíveis. Daí o custo irrisório de se “subir” qualquer coisa para a nuvem – praticamente destinado apenas a cobrir gastos operacionais de inclusão e manutenção de conteúdos em servidores.

Por mais, no entanto, que o capital cumulativo tenha assumido, ao se adaptar e migrar para a economia digital, aspectos distribuídos das comunidades virtuais, jamais encontrou um modo de se desvincular de sua natureza – que é a de favorecer inevitavelmente as celebridades, como veremos a partir de duas críticas recentemente veiculadas a dois gigantes da distribuição de conteúdos digitais: Spotify e Netflix.

Um compositor amigo meu, desconhecido das multidões (alguém que jamais tocará num megashow) mas que cultiva, há muitos anos, um público consistente e cativo de apreciadores de sua música, se queixou de que, por milhares de execuções da mesma no Spotify, obteve como remuneração não mais do que centavos. Levei a queixa a outro amigo, versado nos meandros da indústria, que de pronto me respondeu que, para se faturar alguma quantia significativa no Spotify, é preciso ter sua música executada milhões de vezes. O que prova que, para se fazer sucesso no Spotify e afins, é preciso ser uma celebridade. Como queríamos demonstrar.

Ao mesmo tempo, a Newsweek publicou recentemente uma matéria denunciando a falta de filmes clássicos na Netflix. Era de se esperar que a exacerbação da seletividade das plataformas de streamming, manifesta na exclusão de conteúdos importantes, fosse mais acentuada na distribuição de filmes do que na de música, posto que o armazenamento de imagens em movimento ocupa muito mais espaço em servidores do que o de sons. O que, no entanto, mais nos interessa, neste caso, é que serviços de streamming não são, ao contrário do que muitos pretendem fazer acreditar, a melhor solução para a distribuição imediata de conteúdos diversificados.

Moral da história: desconfiem sempre de grandes iniciativas capitalistas (big players) apregoando oferecer amplo acesso à diversidade. Nisto, os commons, não lucrativos por definição, permanecem imbatíveis.

 

Por que manter perfis fechados em redes sociais e um absurdo elogio ao pensamento único

Até a semana passada, nunca havia me preocupado com as implicações de ter no facebook um perfil aberto, que pode ser lido por todos, ao invés de fechado, que pode ser visto só por amigos. O velho dilema entre manter, em redes sociais, um discurso público ou privado. Para ter um maior controle sobre o conjunto daqueles com que me disponho a conversar, ou mesmo por puro conservadorismo, optei, ao entrar no facebook anos atrás, por um perfil fechado por default. Em que pese, em tal ato, a flagrante contradição entre manter um perfil mais reservado e defender, ao mesmo tempo e em nome da eficácia argumentativa, a ruptura das bolhas discursivas.

Como dizia, me intriguei ao ver dois amigos, desconhecidos entre si, anunciarem, praticamente ao mesmo tempo, sua intenção de deixar a plataforma devido ao mal estar sentido em razão de ataques (presumo que contraditórios desqualificados) sofridos no facebook. A princípio estranhei um pouco, pois jamais me importei com vitupérios deixados aqui ou ali por pessoas de viés ideológico diametralmente oposto ao meu – os quais alguns preferem chamar de trolls – que insisto, no entanto, em manter na timeline tão somente pela diversão e instrução que me propiciam. No mínimo, ajudam a sentir a temperatura do mundo lá fora.

Ao anunciar, todavia, uma possível intenção de abrir meu perfil, fui alertado por outro amigo que deveria, antes, estar preparado, pois visões contrárias viriam com tudo, da pior forma possível. Demovido, assim, do propósito de “dar a cara ao tapa” mais do que já dou, tratei de entender um pouco melhor a diferença entre interações (curtidas e, principalmente, comentários) que se produzem sob perfis fechados e abertos. Felizmente, há um contexto experimental privilegiado para isto – a saber, as postagens de divulgação do que escrevo neste blog, de um lado em meu perfil fechado e, de outro, no perfil aberto do Sul 21.

O contraste entre o teor e o tom predominantes nos dois ambientes é gritante. Há, de fato, em meu perfil fechado, entre uma grande maioria de manifestações de apoio e concordância ao que digo, um ou outro comentário de cordial discórdia, quase sempre no intuito de contribuir com o aprimoramento do argumento. Costumo agradecer. Pois, na economia da atenção, o maior prêmio possível é o contraditório qualificado. E há, claro, vez que outra, algum troll vociferando, para meu deleite e dos demais leitores. Também agradeço. Pois o que seria do circo sem palhaços ?

Já uma comunidade bem diferente se amontoa nos comentários sob as postagens de divulgação de meus textos, quase sempre provocações com endereço certo, no perfil aberto do Sul 21. Lá coexistem tanto manifestações de solidariedade como francos ataques às ideias defendidas no blog. Dentre os últimos o que mais chama atenção é a pobreza de linguagem, por vezes apelando ao baixo calão, e os ataques ad hominem (a falácia do envenenamento do poço, que me é tão cara). Não sofro, no entanto, com isto. Antes, me divirto. Além disto, tais bravatas ajudam, na maioria das vezes, a perceber quando consegui mexer num vespeiro.

Pensando bem, talvez meus amigos tenham razão ao aconselhar a manutenção de um perfil fechado. Pois ver desaforos, num perfil aberto mais impessoal, só quando estamos dispostos a isto é uma coisa. Outra, bem desagradável, deve ser ter que se deparar com a legião de trolls sempre que entramos na rede para, ao fim e ao cabo, nos pormos a par do que acontece no mundo. Nestas horas, olhares amigáveis não tem preço.

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Ainda que este post possa ser rapidamente classificado como de netiqueta, tratando antes de tudo da higiene virtual, não há como não tergiversarmos sobre um tema que, sutilmente, o perpassa (sempre quis usar esta palavra !) – a saber, a tolerância e, mais do que ela, o apreço ao contraditório. Com isto em mente, devo confessar meu choque ao me deparar, na timeline, com a reprodução de uma coluna de David Coimbra em ZH (perguntado, me apressei em dizer que não assino o tabloide) que se constituía num dos mais flagrantes elogios ao pensamento único que eu jamais vira. Não vou conspurcar este espaço com uma transcrição integral, mas alguns trechos da peça do moço, pelo qual ZH optou ao demitir Verissimo, realmente valem a pena. A começar pelo título:

Chega de provocar o debate. Por que ofender as pessoas ?

É claro que estas frases funcionaram como um imã para a leitura do texto que seguia, cujas passagens mais obscurantistas são:

” … as pessoas se tornaram sensíveis demais, hoje em dia. É muito difícil não ferir suscetibilidades. Mas me rendo. Não escrevo para fazer mal às outras pessoas. Então, se percebo que alguns ficarão tristes se escrever algo, não escrevo algo. *

Não é a reação furiosa, a crítica feroz ou a movimentação de algum grupo que me faz parar. Ao contrário: quando me atacam, a minha tendência é revidar com mais força. O que me deixa chateado é deixar alguém chateado. ”

” … no suscetível mundo do século 21, tudo é, exatamente, contra ou a favor, sim ou não, branco ou preto. Assim, o cristão que hoje se sente ofendido amanhã vai ofender e a resposta virá e a tréplica se dará também e isso nunca mais vai acabar.

Estamos muito perto das hélices. O mundo está ficando perigoso. Você, que tem a cabeça arejada, que é libertário, que é culto, que luta contra os preconceitos, pare de lutar. Pare de protestar. Pare de “provocar o saudável debate”, porque o saudável debate não é mais saudável. Nós não estamos avançando. As pessoas só avançam quando seguem juntas.

Sei que fascismo é um termo bem desgastado no atual debate político. Mas se a conclamação imediatamente acima não for fascista, então não sei mais o que é.

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* Será que se eu disser que seus textos me entristecem e chateiam, David Coimbra deixa de escrever ?