Ode a meu amigo livreiro

Me tornei um leitor maduro. Explico. Até pouco tempo atrás, tinha lido quase todo meu “repertório” acumulado até pouco antes de completar 30 anos, quando me tornei, segundo aquele a quem dedico este post, “um leitor de catálogos e manuais” (não canso de repetir esta definição que adoro) e, ultimamente, nem isto. Bem, mais exatamente, até o Milton se tornar livreiro – fato decisivo, como veremos adiante, para modificar, espero que de modo duradouro, meu hábito de leitura. Antes, porém, breves considerações sobre trocas de carreiras.

É complicado, para aqueles que , como dizem, já cruzaram o Cabo de Boa Esperança (para não usar termos infelizes como Terceira ou Melhor Idade), redesenhar suas vidas. Primeiro, por já não se poder contar mais com a disposição da juventude. Ou, mais precisamente, é necessário se conciliar a disposição mental (que parece crescer com a experiência) com o declínio da disposição física. Depois, há circunstâncias peculiares a cada campo ocupacional, as quais se dividem em duas categorias – a saber, a confiança de terceiros na capacidade de trabalho e atualização de quem se aproxima da aposentadoria e a própria incerteza decorrente da instabilidade do cenário ocupacional (desgraçadamente conhecido por mercado de trabalho), típica dos dias que correm.

Tais fatos servem para realçar a juventude mental e a ousadia de meu amigo que, depois de, aos 50 anos, deixar uma bem sucedida carreira em tecnologia da informação (é assim que chamam ?) para virar jornalista e, novamente aos 60, largar tudo (bem, quase tudo: ele ainda publica assiduamente em seus blogs) para se tornar livreiro. Não canso de repetir sua história, quase como um mantra de autoajuda para aplacar a insegurança congelante dos mais jovens.

A principal razão de eu considerar seu movimento de virar livreiro um de extrema ousadia é que, mesmo tendo amado a literatura desde (deve haver uma expressão melhor equivalente a “a mais tenra idade”…), Milton comprou uma livraria exatamente quando muitas começam a fechar suas portas, a começar pelas maiores. Tal se deve à suposta “morte dos livros” ensejada pelas mídias digitais e preconizada pelos mais alarmistas. Ora, é claro que o livro não vai morrer, como sustentam sensacionalmente os filósofos do Parêntesis de Gutenberg. Não é possível, no entanto, se acreditar que a leitura de livros e impressos em geral seja hoje tão hegemônica como em tempos anteriores. Bem mais sensato é reconhecer que livros vem se tornando, pouco a pouco, um território de especialistas. É contra esta tendência que se posiciona o intenso ativismo bibliófilo. É também esta tendência que faz da decisão de alguém se tornar livreiro hoje uma de extrema ousadia, exclusiva dos que não nasceram para coisas pequenas.

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So much for the context. Tratemos de nos ater ao prometido no kaput, namely, de como a súbita disponibilidade de um amigo livreiro me tornou um leitor, senão melhor, ao menos mais contumaz. (este é um daqueles posts de desfecho previsível, mas vamos lá)

Semana passada, ouvi de um psicólogo que, ao contrário do que reza o senso comum, as livrarias não estão fechando devido à leitura em meios digitais, mas por causa da Amazon. Em suporte ao argumento, citou um par de livros (o CID (código internacional de doenças) e um outro) que, orçados em grandes livrarias, custavam em torno da terça ou da quarta parte no gigante do comércio online.  Ao externar seu espanto, ouviu de um livreiro resignado o conselho “compre sem hesitar !”. Nossa conversa enveredou, então, pela análise dos fatores econômicos e logísticos por trás de tal discrepância mas que foge, no entanto, ao (vá lá: escopo, de uma precisão semântica indispensável, é um baita clichê…) deste texto.

Antes do Milton comprar a Bamboletras, eu já tinha encomendado lá alguns livros, movido pela facilidade de poder contatar pelo facebook Lu Vilella, sua proprietária anterior. Não foi, no entanto, só pela conveniência que intensifiquei minha relação com a livraria após sua aquisição. Pois é igualmente fácil, além de muito mais barato, comprar livros pela internet e recebê-los pelo correio. De fato, sigo usando o expediente para importar um que outro volume, cuja aquisição por meio de livrarias físicas seria demasiado trabalhosa e demorada, além de onerosa.

Concluo, então, que, mais do que qualquer facilidade, o que ainda me leva a frequentar livrarias (bom, na verdade, apenas uma) é a qualidade da experiência. Não gosto de garimpar em estantes: o excesso de oferta tem para um geminiano um efeito sinestésico paralisante. Não troco por nada, isto sim, a possibilidade de conversar com o próprio livreiro ou seus ilustrados colaboradores. Gente que conhece minhas preferências de leitura e, como tal, é capaz de emitir recomendações confiáveis. O livreiro como curador. Ou, se quiserem, personal booker. E isto é praticamente impossível em grandes livrarias.

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Aos 20 anos, podíamos nos dar ao luxo de ler qualquer coisa que nos caísse nas mãos. Pois o tempo era uma commodity abundante e, portanto, não reputávamos leituras supérfluas como tempo perdido. Aos 60, é bem diferente. Começamos a ver o tempo como mais escasso e, logo, precioso. É por isto que, na maturidade, só consagramos tempo a leituras precedidas por fortes recomendações. Imperiosas, eu diria.

Tão logo me dei conta desta nova realidade, pensei que, doravante, só teria olhos para a não ficção até que, apenas mais recentemente, comecei a me reconciliar também com a ficção, com a qual tive tão pouco contato. Clássicos dos quais sempre ouvira falar sem jamais conhecer por experiência própria. Ainda que não saiba explicar por que bons livros fazem tanto bem, devo o hábito de sua leitura indubitavelmente ao Milton. Vida longa a ele e a sua aconchegante livraria !

Por que deixei de ser escoteiro

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Sempre amei as atividades das tardes de sábado e noites de quarta do Grupo Escoteiro George Black. Mais ainda os acampamentos e acantonamentos. Se hoje consigo me virar bem na maioria das coisas práticas, devo isto, indubitavelmente, a minha vida escoteira. De modo que eu estaria disposto a recomendar o movimento para qualquer jovem em idade escolar, não fossem dois senões, esmiuçados a seguir.

Eu havia me saído bem em todas as provas para me tornar de escoteiro noviço e de segunda classe, colecionando as respectivas insígnias, quando, prestes encarar os últimos ritos para me tornar um escoteiro de primeira classe, meus chefes abandonaram repentinamente sua disposição, demonstrada em ocasiões anteriores (i.e., nas provas de noviço e segunda classe), de fazer, na prova de religião, vista grossa a minhas convicções ateias. E, posto que a prova deveria ser “assinada” pelo líder religioso que eu seguisse (no caso, o pároco da igreja onde eu fora batizado, o qual sequer me conhecia), jamais logrei passar naquela prova. Aí começou meu desinteresse pelo movimento.

Paralelamente, a curiosidade me levou, alertado por boatos, a pesquisar (naquele tempo não havia a wikipedia nem a web !) em outras fontes a polêmica biografia de Lord Baden-Powell, o grande mentor do movimento. Nessas leituras, fiquei sabendo que o fundador, reverenciado por milhares, talvez milhões, de escoteiros, escotistas (chefes de escoteiros) e simpatizantes ao redor do planeta como um educador visionário foi também o principal responsável pela dizimação de tribos inteiras em campanhas militares colonialistas britânicas no continente africano. Para não entrar em muitos detalhes, basta pesquisar sobre a Guerra dos Boers.

Aquilo foi demais para mim.

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Update: copio abaixo, pela relevância, uma contribuição deixada por André Serrano sob a divulgação deste post no facebook (por natureza, muito mais interativo do que este blog). Se tiverem tempo, não deixem de abrir o link ao fim do comentário.

” chamei a atenção de alguns chefes sobre as verdades que estão vindo à tona… parecem fazer pouco caso dos fatos… acho que preferem a negação a terem de dar o braço a torcer de que continuam a ajudar a glorificar um homem que não tem nenhum merecimento.
a falta destas informações era total, na nossa época.
por isso os chefes estão, por mim pelo menos, perdoados.
mas não perdoo os chefes de hoje, pela recusa de pesquisar sobre as verdades… chega a ser contra o próprio movimento essa negação, esse pacto com a mentira, esse faltar com a palavra pra sí próprio.
“sempre alerta”?!!! sei……
aqui vai UM dos vários links:
http://www.theatlantic.com/…/christopher…/272683/