Textos sombrios (ii): o futuro do trabalho

Advertência: devo aqui ruminar mais um pouco na linha pessimista de meu texto anterior, desta vez sobre o que esperar, num futuro não muito distante, de uma civilização cujos indivíduos, principalmente nos últimos 500 anos, passaram cada vez mais a definir sua existência pelo trabalho.

Um ser humano típico, exercendo uma ocupação formal (i.e., com garantias e vínculos reconhecidos), passa, via de regra, durante sua vida, por três idades distintas, a saber, a formativa, na qual se prepara para ingressar no mundo do trabalho; a da produção, quando exerce a ocupação para a qual foi treinado; e a terceira, eufemisticamente chamada de “melhor idade” e geralmente associada à aposentadoria, na qual já não tem a oferecer à sociedade a mesma energia vital de outrora, sendo, portanto, dispensado dos esforços (mas não dos tributos !) exigidos dos mais jovens.

Se a ociosidade é melhor tolerada e aceita em idosos do que em gente mais jovem, tal se deve principalmente a razões econômicas como menor produtividade e custos mais elevados advindos de adoecimento. Tais imperativos são via de regra esquecidos ou ignorados com o uso de expressões como “terceira” ou “melhor” idade, que possuem uma carga semântica, respectivamente, neutra ou francamente mais positiva do que, simplesmente, velhice. Uma espécie de recompensa por uma vida dedicada a não se sabe muito bem o quê. Alguma dúvida, até aqui, sobre o fato de que a linguagem é, sim, ideológica ?

(da mesma forma que me incomodam anúncios de bancos com pessoas sempre sorrindo (quem já viu coisa parecida, i.e., rostos sorridentes num atendimento bancário típico, no mundo real ?), também tenho uma aversão cética em relação à propaganda de planos e serviços de saúde e previdência para idosos no qual os mesmos são retratados invariavelmente felizes. Tal situação não corresponde de  modo algum ao que se vê em instituições, beneficientes ou de luxo, na qual velhos recebem cuidados enquanto lá são deixados para envelhecer e morrer)

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A distinção geralmente aceita entre trabalho (o que se faz para (sobre)viver) e lazer (o que se faz por prazer ou enriquecimento espiritual pessoal) é uma relativamente recente na história da humanidade quando observada numa escala de tempo mais ampla.  Com efeito, desde nossos ancestrais caçadores-coletores, passando pela idade agrícola e até a idade média (deixando, é claro, de lado o trabalho escravo), jornadas de trabalho eram mais curtas, o trabalho facultativo, e não havia uma distinção clara entre o que o ser humano fazia pela própria subsistência ou apenas por prazer. Entre caçadores-coletores, por exemplo, canto, dança e histórias ao redor da fogueira eram uma necessidade tão vital quanto alimentação ou abrigo e, se alguém eventualmente não quisesse participar da caçada, não havia problema algum, pois seria de bom grado alimentado pelo bando (vide Economistas estão obcecados pela “criação de empregos”. E se trabalhássemos menos ?, no final do oitavo parágrafo).

É razoável, portanto, supor que a noção de trabalho como a temos hoje tenha se originado com a divisão de classes nas revoluções comercial e industrial – já que, antes, não fazia qualquer sentido a ideia de exploração do trabalho humano por terceiros. Foi só com a maximização do lucro obtido, primeiro com a comercialização e depois com a fabricação, de bens que passou a ser importante o aproveitamento de toda a força de trabalho, só limitado pelas conquistas trabalhistas. A partir daí a história é conhecida, com reivindicações sindicais e, mais recentemente, proteção da infância e reconhecimento de direitos iguais para mulheres.

Quanto ao lazer, é tolerado indiscriminadamente em idosos (já que “socialmente inúteis”); um pouco menos em crianças (só depois da realização dos deveres escolares) e muito pouco entre adultos. Pelo menos entre adultos trabalhadores, não ricos (rentistas). Notem que tanto adultos como crianças devotam suas melhores horas (aquelas em que estão mais dispostos) ao estudo e ao trabalho, lhes sendo concedidas para o próprio lazer apenas aquelas em que estão, na maioria das vezes, exaustos, só esperando o sono, por sua vez restaurador para uma nova jornada de esforços nos quais, muitas vezes, não percebem qualquer sentido. Mas não vou me deter nos bullshit jobs, tão bem descritos e estudados por David Graeber na obra que resenhei aqui. Graeber dedica seu livro “aos desempregados, que são quem efetivamente cuida dos outros”.

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Estudiosos de Oxford estimaram, já em 2013, a probabilidade de extinção, nos 20 anos seguintes, das principais profissões que conhecemos hoje. A lista (compilada por Harari em Homo Deus e citada aqui), encabeçada por operadores de telemarketing e corretores de seguros, é impressionante.

Face a esta realidade onipresente, não surpreende que agremiações de classes ocupacionais, reeditando o movimento ludista (trabalhadores que, no início da revolução industrial, quebraram máquinas num gesto desesperado para tentar manter seus empregos), tentem garantir a manutenção de suas profissões, as quais vão se tornando obsoletas face a avanços tecnológicos irreversíveis. Como, por exemplo, carteiros numa era de comunicações digitais; taxistas em meio a aplicativos de transporte; vendedores de lojas concorrendo com o comércio eletrônico; caminhoneiros (que já tiveram sindicatos poderosos, como mostrou recentemente Martin Scorcese em O Irlandês) em estradas cada vez mais povoadas por veículos autônomos; caixas em bancos e postos de cobrança de estacionamento em shopping centers e operadores em qualquer atividade outrora existente que, em tempos recentes, foi contemplada com o auto atendimento.

Quando o declínio progressivo da quantidade de postos de trabalhos em razão da automação crescente e da proliferação do do it yourself e do self service, não tardará o dia em que, em razão da necessidade minguante de trabalhadores, a divisão de classes, ainda hegemônica, entre patrões (proprietários) e trabalhadores (empregados), será rendida totalmente obsoleta. Harari estima que, numa futura sociedade voltada para o lazer, uma das únicas profissões ainda em demanda será a de programador de jogos. Tal contexto já foi bastante explorado em obras de ficção – como no filme de animação Wall-e (2008), rara distopia para o público infantil, onde uma humanidade ociosa e obesa migra para outro planeta, deixando para trás uma Terra suja e esgotada, povoada por robôs faxineiros.

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Alguém já observou, com muita propriedade, que atividades como a caça ou a pesca, que nos primórdios da história humana eram consideradas uma espécie de trabalho (ainda que, como dissemos acima, não havia uma distinção clara entre trabalho e lazer como a que temos hoje) são atualmente exercidas por muitos francamente como lazer. Ao mesmo tempo, sem entrarmos no mérito da questão sobre se cada uma das atividades abaixo arroladas se constitui ou não, no entender de Graeber, num bullshit job, é difícil imaginar algum prazer (exceto, é claro, o da gratificação econômica) experimentado pelo operador de uma máquina numa linha de produção industrial; por vendedores no comércio varejista ou e por burocratas dedicados ao tráfego de informações, seja em papel ou por meios digitais, em bancos, tribunais, cartórios ou repartições de toda sorte. Notem que uma parte considerável da população economicamente ativa exerce, em nome da própria subsistência, alguma destas atividades.

Reconhecer tal estado de coisas implica, necessariamente, num impasse em se tratando de educar indivíduos para o assim chamado mundo da produção. Como educar filhos para viver num mundo em que a sobrevivência (mais: a própria identidade individual) ainda depende fundamentalmente do trabalho quando não temos razões para acreditar que, num futuro não muito distante, o trabalho ainda existirá como fator hegemônico de definição da existência humana ?

Neste cenário, ainda tido pela maioria como pessimista mas cada vez mais aceito por muitos como realista, há quem se atreva a propor utopias capazes de lidar com o problema do desemprego generalizado. Uma destas vertentes é a da renda mínima universal (UBI, para universal basic income), que prevê o aporte pelo estado de uma quantia substancial a cada cidadão, suficiente para lhe garantir uma existência digna, independentemente do mesmo pertencer ou não à força de trabalho. O holandês Rutger Bregman é um dos principais representantes atuais desta corrente, esmiuçada em detalhe em sua obra Utopia para Realistas, de 2016.

Também digna de nota é a candidatura à presidência dos EUA, ainda neste ano, de Andrew Yang, que defende a concessão pelo governo de mil dólares mensais a cada cidadão. Antes, no entanto, de saudarmos a renda mínima como um projeto de esquerda e nos entusiasmarmos com a plataforma de Yang, é preciso que se diga que ele a vê, antes de tudo, como um modo ideal de estimular – pasmem ! – o empreendedorismo. Vem, meteoro.

Texto sombrios (i): sobre competição X colaboração

” Esta guerra só terminará quando restar apenas um homem. “

(livre adaptação de uma frase proferida pela personagem vivida por Bennedict Cumberbatch no filme 1917)

Tenho andado meio prá baixo. Tanto que o nome deste texto bem poderia ser “vem, meteoro”. Mas não quero incomodar eventuais leitores com queixumes da vida ou cansaço e apatia típicos da idade que avança. Antes, prefiro examinar o contexto profundo, bem abaixo do manto de reveses casuais, efêmeros, que por vezes oculta condições muito mais pervasivas e permanentes capazes de abalar nossa confiança na civilização em que estamos imersos. Falo, é claro, do paradigma entre competição e colaboração no qual pode ser enquadrada qualquer dinâmica comportamental coletiva.

Sempre que alguém, indivíduo ou instituição, deseja enaltecer o caráter benigno de um grupo, se refere à natureza colaborativa do mesmo. A batidíssima metáfora de engrenagens trabalhando em prol de um bem maior, utilizada indiscriminadamente para descrever o funcionamento de empresas, universidades, clubes, órgãos públicos e agremiações de toda sorte. Exploradores do trabalho alheio se referem eufemisticamente a seus subordinados como “colaboradores”. Coaches gostam de comparar o funcionamento de empresas saudáveis ao de uma orquestra. O próprio Harari afirma que a espécie humana se distingue de outros hominídeos pela capacidade de colaborar em larga escala.

As meias verdades. Pois por trás de toda iniciativa elogiada como colaborativa existe, conquanto nem sempre aparente, uma hierarquia competitiva – bastando, geralmente, para vê-la, olhar um pouco mais de perto.

Embora a colaboração domine o discurso politicamente correto, é a competição que regula virtualmente tudo do que participamos. Se por vezes não a reconhecemos, é por estarmos demasiado acostumados a ela. A competição está perfeitamente naturalizada em nossa cultura. Mal apreendemos a falar e já somos deixados, por vários anos, à mercê de uma escolarização que preza, acima de tudo e por mais que alguns assim não o admitam, um sistema de notas e conceitos que premia os melhor adaptados e detecta qualquer desvio. Tal sistema se propaga pela educação superior, tornando-se mais complexo (currículos, head hunters e “bancos de talentos”), estreitando o funil e culminando nos concursos públicos (cada vez menos) e demais processos seletivos. Uma realidade global da qual é impossível fugir.

A competição é saudada pelos mais jovens como um poderoso fator de progresso individual. Por meio dela – e só por meio dela ! – se pode chegar a lugares melhores do que aqueles em que estão os outros. Ora, é claro que ninguém quer que os outros se danem, desejando para eles, ao menos, um estado de bem estar social. Saúde, segurança, educação, moradia e comida na mesa. Com todos acima da linha de miséria, não há problemas de consciência capazes de inibir quaisquer sonhos de grandeza por parte dos mais ambiciosos. A grande fantasia meritocrática capitalista que, todavia, num mundo de recursos finitos, simplesmente não existe. Ou seja, para que uns sejam mais ricos e poderosos, é preciso, necessariamente, que a maioria dos demais seja mais pobre e submissa. Simples assim.

Redistribuição pressupõe colaboração ao invés de competição. Só que, para tal troca de paradigma, não bastaria nascermos de novo. Seria necessário que, antes, a própria espécie se enxergasse diferente. O amor parental, por exemplo. Por mais “de esquerda” que um pai seja, inevitavelmente reconhecerá o mundo como um lugar cruel, desejando para seus filhos posições privilegiadas –  isentas, na medida do possível, do sofrimento impingido à maioria, não medindo esforços ou tendo o sono tranquilo até atingir tal objetivo. São compatíveis com esta visão formulações filosóficas ultra radicais como o antinatalismo e o Movimento pela Extinção Humana Voluntária (VHEMT), que preconizam o fim da humanidade por meio da renúncia à procriação, a partir da constatação histórica de que o mundo, apesar de todo progresso tecnológico, vem se tornando um lugar cada vez mais hostil à vida. Embora o VHEMT seja, originariamente, de índole ambientalista, seu discurso se aplica perfeitamente à constatação da falta generalizada de empatia entre os homens (salvo, é claro, no caso muito particular da empatia entre semelhantes).

A caridade, por exemplo. Na maioria das vezes, se gasta muito mais para ostentar publicamente uma atitude de compaixão pelos mais necessitados do que, propriamente, ajudando os últimos. É só comparar todos os custos (do salão de beleza às vestimentas, à alimentação, à segurança, aos equipamentos, à publicidade, à energia, às emissões de carbono…) envolvidos na realização de eventos tais como banquetes filantrópicos ou shows beneficientes com os valores efetivamente arrecadados nos mesmos para ajuda humanitária. Quanto mais poderia ser direcionado para as causas contempladas simplesmente não se realizando tais eventos ?

Por aqui termina a parte “vem, meteoro” deste texto. A seguir, observações e especulações sobre a naturalização da competição em nosso imaginário e o que torna uma espécie eminentemente competitiva ou, ao invés, colaborativa. A irresistível busca de um modelo matemático (esta mania tão cara aos economistas).

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Ao contrário do pensamento “de esquerda”, que brota espontaneamente e de forma independente de incontáveis autores, o ideário “de direita” sempre foi uma construção fomentada por think tanks tais como a Atlas Foundation ou a Mount Pèlerin Society, mantidas, por sua vez, o mais anonimamente possível por bilionários com a finalidade de influenciar governos e mercados e, em última instância, fazer a cabeça de gente como Kim Kataguiri ou Fernando Holiday.

Dentre os argumentos mais caros ao campo de pensamento acima está a ideia de que a suprema eficácia da mão invisível do mercado se baseia em processos competitivos presentes na natureza, da sobrevivência dos melhores espécimes ao aperfeiçoamento genético. Jogada sem dúvida astuta, já que a simples invocação do nome de Darwin em apoio a qualquer argumento é por si só capaz de intimidar os contraditórios mais ousados – os quais são, por sua vez, relegados, ante os menos atentos, a uma posição francamente anti acadêmica, quase terraplanista. E assim, muito embora economia nada tenha a ver com biologia, está feita a mistura de alhos com bugalhos, cuspida aos sete cantos pelos mais pobres de espírito.

Mas voltemos ao binômio competição X colaboração na natureza. Embora elementos da duas possam ser concomitantemente reconhecidos na vida de muitas espécies, a colaboração é mais comumente associada às colônias de insetos enquanto a competição, aos grandes predadores. Tanto entre espécies (a aniquilação das presas) como intra espécie (a primazia ou, em última instância, sobrevivência do mais apto (o melhor caçador, no caso)).

Temos, então, ao menos duas variáveis determinantes do caráter mais competitivo ou colaborativo de uma espécie – a saber, número e tamanho. Pois insetos que colaboram em colônias são pequenos e numerosos enquanto predadores, grandes e, via de regra, solitários. Salvo, é claro, os pequenos bandos. É só comparar a vasta área de domínio de felinos numa savana com a enorme densidade demográfica de minúsculos formigueiros ou colmeias.

Deste modo, se pode afirmar com bastante segurança que quanto maior o indivíduo de uma espécie, maior a probabilidade de se tratar de um predador; e que, inversamente, quanto menor, mais chance de pertencer a um coletivo colaborativo. A esta altura, não faltará quem se lembre de inofensivos elefantes, bovinos, girafas ou baleias – mas, ora bolas, o que seria de qualquer regra não fossem as exceções ? Tratemos, pois, de refinar a equação: talvez o pequeno tamanho de uma espécie seja mais determinante de seu caráter colaborativo do que o grande porte de um comportamento competitivo. Ou, noutras palavras, que, em se tratando de determinar um comportamento colaborativo, o tamanho do bando seja muito mais importante do que o do indivíduo.

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Sem chegar, assim, a nada muito conclusivo (pensando bem, é melhor deixar a modelagem matemática para os economistas), esqueçamos um pouco o binômio competição X colaboração no reino animal para nos debruçarmos sobre o aparente paradoxo da espécie humana, de comportamento colaborativo (pelo menos assim quer Harari, ao nos distinguir de outras espécies, inclusive humanoides, pela capacidade única de colaboração em larga escala), não obstante seu porte avantajado, de um grande macaco, típico de predadores.

Além disso, a relação do homem com as outras espécies, já que a mera criação e/ou exploração de outros animais, seja para abate, produção em vida de outros alimentos e commodities (leite, ovos, mel, lã, etc.) ou tração, se configura, ainda que nem sempre em predação, em inquestionável dominação.

Nos ocupemos, pois, apenas da relação do homem com outros homens. Conquanto a tradição humanista prefira pensar no homem como essencialmente colaborativo em relação a seus pares, toda sociedade humana é hierarquizada, premiando com posições de maior remuneração, liderança ou prestígio aqueles indivíduos reconhecidos, mediante sofisticados instrumentos antropométricos, como melhores ou mais aptos. Isto vale tanto para as democracias liberais, onde empreendedores mais ousados triunfam e políticos mais astutos são eleitos, como para as sociedades mais igualitárias, nas quais todavia persiste a  distinção entre líderes e classes trabalhadoras.

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Tornando à instigante frase que serve de epígrafe a este post, entendemos que a humanidade somente escapará da auto aniquilação quando conseguir abrir mão de sua índole competitiva. Antes disso, porém, é preciso que cada indivíduo se posicione em relação a reconhecer a competição como um fato biológico, inerente à condição humana, como querem os adeptos à economia de mercado; ou se, antes, se trata de uma construção exclusivamente ideológica, invocada para agregar naturalidade e ares de “respaldo científico” à ideia de exploração do homem pelo homem.

O que acontece quando você acredita em Ayn Rand e na Teoria Econômica Moderna ?

A realidade do interesse próprio irrestrito

por Denise Cummins,

publicado em Evonomics em 17 de fevereiro de 2016,

e originalmente aqui

 

“Ayn Rand é minha heroína”, me diz mais um aluno. “Seus textos me libertaram. Me ensinaram a confiar em mim e em mais ninguém”.

Quando vejo as faces jovens do outro lado de minha mesa, me pergunto por que a popularidade de Ayn Rand entre os jovens continua a crescer. Trinta anos após sua morte, as vendas de seus livros chegam a centenas de milhares todos os anos – tendo triplicado desde a crise de 2008. Entre seus devotos há celebridades altamente influentes, tais como Brad Pitt and Eva Mendes, e políticos como o ex-presidente da Câmara dos Representantes Paul Ryan e o ex-candidato à presidência Ted Cruz.

O cerne da filosofia de Rand – que também constitui o tema abrangente de suas novelas – é que o interesse próprio irrestrito é bom e o altruísmo destrutivo. Ela acredita que isto é a expressão definitiva da natureza humana, o princípio norteador pelo qual se deve viver a vida. Em Capitalismo: O Ideal Desconhecido, Rand diz:

Coletivismo é a premissa tribal dos selvagens primitivos que, não aptos a conceber os direitos individuais, acreditam que a tribo é uma referência suprema e onipotente, à qual pertencem as vidas de seus membros, e que pode sacrificá-las quando bem quiser.

Segundo esta lógica, controles religiosos e políticos que dificultam a busca do interesse próprio individual devem ser removidos. (Talvez seja digno de nota que a cena de sexo inicial entre os protagonistas do livro de Rand “O Manancial” (The Fountainhead) seja um estupro no qual “ela lutou como um animal”).

O vício de origem da “objetividade” filosófica de Rand é o simples fato de que humanos tem uma tendência a cooperar e a cuidar dos outros, conforme observado por muitos antropólogos que estudam caçadores-coletores. Essas tendências pró sociais eram problemáticas para Rand por que tais comportamentos obviamente depunham contra o interesse próprio “natural” e portanto não deveriam existir. Ela resolveu esta contradição afirmando que humanos nasciam como uma tabula rasa, ou página em branco (como muitos de seu tempo supunham), e tendências pró sociais, particularmente o altruísmo, eram “doenças” que nos eram impostas pela sociedade, mentiras insidiosas que nos faziam trair a realidade biológica. Por exemplo, em sua matéria jornalística de 9 de maio de 1934, Rand argumentou:

Por exemplo, quando discutindo o instinto social – importa se ele existiu nos primeiros selvagens ? Supondo que os homens nascessem sociais (e até isto é uma dúvida) – significa que eles tivessem que permanecer assim ? Se o homem começou como um animal social – todo progresso e civilização não se destina a torná-lo um indivíduo ? Não é esse o único progresso possível ? Se OS homens são os mais elevados de todos os animais, não é O homem a próxima etapa ?

O herói de sua novela mais popular, A Revolta de Atlas (Atlas shrugged), personifica este “mais elevado de todos os animais”. John Galt é um cruel capitão da indústria que luta contra regulamentações governamentais sufocantes que ficam no caminho do comércio e do lucro. Numa revolta, ele e outros industriais interrompem a produção em suas fábricas, trazendo a economia mundial a seus pés. A mensagem é “Vocês precisam de nós mais do que nós de vocês”.

Para muitos leitores de Rand, a filosofia da suprema autoconfiança voltada para a busca do supremo interesse próprio parece ser uma versão idealizada de ideais norte-americanos centrais: liberdade da tirania, trabalho duro e individualismo. Promete um mundo melhor se simplesmente for permitido às pessoas buscarem seu interesse próprio sem considerar o impacto de suas ações nos outros. Afinal, os outros também estão simplesmente buscando seu interesse próprio.

A teoria econômica moderna é baseada exatamente nesses princípios. Um agente racional é definido como um um indivíduo com interesse próprio. Um mercado é uma coleção de tais agentes racionais, cada um dos quais perseguindo seu interesse próprio. Justiça não é levada em conta. Num recente episódio de  Planet Money, David Blanchflower, um professor de economia de Dartmouth e ex-membro do Banco Central da Inglaterra, riu quando um de seus anfitriões perguntou “isto é justo ?”

“Economia não tem nada a ver com justiça”, disse, “isto não me preocupa”.

Economistas acham alternadamente alarmante e divertido um grande corpo de resultados de estudos experimentais mostrando que as pessoas não agem de acordo com os princípios da teoria da escolha racional. Somos muito mais cooperativos e propensos à confiança do que é previsto na teoria, e retalhamos veementemente quando outros agem com egoísmo. De fato, estamos dispostos a pagar um preço elevado pela oportunidade de punir pessoas que pareçam estar quebrando regras implícitas de justiça em transações econômicas.

O que aconteceria, então, se as pessoas agissem de acordo com a filosofia de “objetividade” de Rand ? Se nos permitíssemos de fato ignorar a todos, exceto a nosso interesse próprio ?

Um exemplo da indústria

Em 2008, Eddie Lampert, CEO da Sears, decidiu reestruturar a empresa de acordo com os princípios de Rand.

Lampert dividiu a empresa em mais de 30 unidades individuais, cada uma com sua própria administração e avaliada separadamente quanto aos lucros e perdas. A ideia era promover competição entre as unidades, a qual produziria, segundo Lampert, lucros maiores. Ao invés disto, eis o que aconteceu, conforme descrito por Mina Kimes, repórter de Bloomberg Business:

Defensor declarado da economia de livre mercado e fã da novelista Ayn Rand, ele criou o modelo por que esperava que a “mão invisível do mercado” conduzisse a resultados melhores. Se os líderes da empresa fossem instruídos a agir com egoísmo, argumentou, administrariam suas divisões de uma maneira racional, alavancando o desempenho geral.

Ao invés disto, as divisões se voltaram umas contra as outras – e a Sears e a Kmart, as marcas abrangentes, sofreram. Entrevistas com mais de 40 ex-executivos, muitos dos quais instalados nos mais altos postos da companhia, desenharam um retrato de um negócio devastado por lutas internas à medida que suas divisões competiam por menos recursos.

Uma visão do fiasco foi oferecida por Lynn Stuart Parramore num artigo de 2013 em Salon:

A coisa endoidou. Executivos começaram a minar outras unidades por que sabiam que seus bonuses estavam vinculados à performance de cada unidade. Começaram a focar exclusivamente no desempenho econômico de suas unidades às expensas da marca Sears em geral. Uma unidade, Kenmore, começou a vender produtos de outras empresas e a posicioná-los com mais evidência do que os produtos da Sears. Unidades competiam por espaço em anúncios e circulares da Sears. […] Unidades não mais eram incentivadas a fazer sacrifícios, como oferecer descontos, para atrair consumidores à loja.

A Sears se tornou um lugar miserável para se trabalhar, com lutas internas abundantes e disputas escandalosas. Empregados, focados somente em fazer dinheiro em suas próprias unidades, deixaram de ter qualquer lealdade à companhia ou apostar em sua sobrevivência.

Todos conhecemos o fim da história: o preço das ações da Sears despencou e a companhia parece fadada à falência. A moral da história, nas palavras de Parramore:

O que Lampert não enxergou é que humanos tem uma inclinação natural a trabalhar pelo benefício mútuo de uma organização. Eles gostam de cooperar e colaborar, e frequentemente trabalham mais produtivamente quando possuem objetivos comuns. Tire tudo isto e você criará uma companhia de destrói a si mesma.

 

Um exemplo de Honduras

Em 2009, Honduras viveu um golpe de estado quando o exército hondurenho derrubou o presidente Manuel Zelaya a mando da suprema corte do país. O que se sucedeu foi sucintamente resumido pelo advogado hondurenho Oscar Cruz:

O golpe de 2009 liberou a voracidade dos grupos com real poder neste país. Lhes concedeu pleno poder de tomarem posse de tudo. Começaram a reformar a constituição e muitas leis – as ZEDE (zonas de empleo y desarollo económico) vem neste contexto – e tornaram a constituição uma ferramenta para torná-los mais ricos.

Como parte deste processo, o governo hondurenho promulgou em 2013 uma lei que criou zonas de livre comércio autônomas governadas por empresas em vez de pelos estados nos quais existiam. Qual, então, o resultado ? O escritor Edwin Lyngar descreveu férias em Honduras em 2015 como uma experiência que o transformou de apoiador de Ayn Rand em crítico feroz da mesma. Em suas palavras:

Os maiores exemplos de libertarianismo em ação são as centenas de homens, mulheres e crianças à beira das estradas em Honduras. O governo não conserta as estradas; então, estes empreendedores desesperados tapam os buracos com pás de resíduos e detritos. Depois,  ficam próximos aos buracos tapados pedindo gorjetas aos motoristas agradecidos. Este é a utopia furada da inovação do setor privado libertário.

Ele descreveu as condições de vida deste modo:

No continente, há dois tipos de vizinhança: favelas que parecem se estender infinitamente e bairros de classe média onde toda casa é sua própria cidadela. Em San Pedro Sula, a maioria das casas é rodeada por altos muros de pedra encimados por arame farpado [concertina wire, no original] ou cercas elétricas. Quando passei por estas fortificações parecidas com castelos, tudo no que pude pensar foi em quão conveniente aquela cidade seria durante um apocalipse zumbi.

Sem esforço coletivo, grandes projetos de infraestrutura como a construção e o reparo de rodovias definham. Um residente “mostrou o local para um novo aeroporto que poderia ser o maior da América Central se ao menos pudesse ser construído, mas o setor privado não tem andar de cima.”

Uma ida a uma pizzaria local foi assim descrita:

Atravessamos os portões da muralha e passamos por um homem em calças casuais com uma pistola num coldre pendendo a esmo em sua cintura. Bem-vindo a um paraíso libertário de Ayn Rand, onde sua pizza de pepperoni extra grande também tem que ter um guarda armado.

Este é o resultado inevitável do interesse próprio descontrolado à solta nos mercados desregulados.

Ainda assim entusiastas de Ayn Rand argumentam que interesse próprio não regulamentado é o “jeito americano” [American way], que a interferência do governo sufoca o individualismo e o livre comércio. Nos perguntamos se estas mesmas pessoas defenderiam a ideia de remover todos os árbitros de eventos esportivos. O que seria do MMA, do futebol, do rugby ou do hóquei sem estes juízes enfadonhos constantemente se atravessando no meio da competição e do interesse próprio ?

Talvez outro modo de encarar isto seja perguntar por que nossa espécie de hominídeo é a única ainda existente no planeta, apesar de terem havido muitas outras no curso de nossa evolução. Uma explicação é que fomos mais inteligentes, cruéis e competitivos do que os que foram extintos. No entanto, a arqueloologia antropológica conta uma história diferente. Nossa própria sobrevivência enquanto espécie dependeu da cooperação, e humanos são excelentes em esforços cooperativos. Mais do que acumulando conhecimento, habilidades e bens, os primeiros humanos os trocaram livremente entre grupos culturais.

Quando pessoas se comportam de maneiras que violam os axiomas da escolha racional, não estão agindo como idiotas. Estão oferecendo a pesquisadores um vislumbre das tendências pró sociais que permitiram a nossa espécie sobreviver e prosperar, tanto nos primórdios como hoje.

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Dr. Denise D. Cummins é psicóloga pesquisadora, autora e membro da Association for Psychological Science. Seu livro mais recente é Good Thinking: Seven Powerful Ideas That Influence the Way We Think