Como formar um pensamento sem história ? ou Sobre imagens e palavras (i)

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Amoras silvestres que ensejaram a conversa reproduzida na primeira parte deste post.

Este texto pertence à série sobre as razões pelas quais estou no facebook, subsérie conversas que se tem por lá, e poderia se chamar, também (se o título não ficasse muito longo), eu sigo (iii) Luiz Afonso Alencastre Escosteguy.

Nunca encontrei Luiz Afonso pessoalmente. Tive, no entanto, com ele, em caixas de comentários, algumas das mais interessantes conversações mantidas nos últimos tempos. Como, por exemplo, a que segue. Suscitada por uma provocação vinculada à postagem da foto acima. Tudo começou com o seguinte:

A última foto que postei já foi curtida 31 vezes. A divulgação do último post que publiquei, 4. Estes números devem querer dizer alguma coisa. Are images any better than words ?

Ao que Luiz Afonso prontamente retrucou:

Significa apenas que, em geral, as pessoas não entram no FB para ler. FB é entretenimento e não fonte de informação ou de leitura. Tirando os blogs jornalísticos, o acesso a textos perde de longe para o de imagens. Comigo – e com quase todos os que escrevem – acontece o mesmo…

Ocorreu, então, o seguinte diálogo:

Augusto: Ou seja, tudo se resume, no fundo, à velha e boa oposição entre lifecasting e mindcasting. Sonho com o dia em que o facebook e seus concorrentes ofereçam filtros inteligentes capazes de distinguir um do outro. Com os quais será bem mais fácil constituir PLNs.

Luiz Afonso: E tem mais, quanto mais posicionado for o texto, menos lido, menos curtido e menos comentado.

Augusto: (curioso: por que a exposição virtual é tão temida?)

Luiz Afonso: Por que poucos são capazes de sustentar argumentos, ideias ou de serem coerentes. Na maioria são repetidores de manchetes e não passam muito disso.

Augusto: Entendo. Uma civilização de slogans. Posso copiar esta conversa no blog ?

Luiz Afonso: Uma geração perdida. Tenho visto jovens de 20 a 35 anos que sequer conhecem fatos da história que temos por notórios. Como formar um pensamento sem história? Como ser crítico sem história?

Luiz Afonso: Pode, claro!

Augusto: Título provisório para o post: como formar um pensamento sem história ?

Augusto: (outra hora, te falo das raríssimas exceções que conheço ao princípio de que não há CC competente…)

Luiz Afonso: Se não existissem exceções, não seria regra hehehe

Luiz Afonso: Voltando ao teu post, esse foi o maior mal causado pela mídia: o imediatismo da solução pronta nas manchetes. Eliminou, com o passar dos anos, a capacidade das pessoas de irem atrás de mais informações/conhecimentos para fazerem a crítica do que recebem. E ir atrás de informação/conhecimento é ir atrás da história, da história que a mídia esconde. E assim também nas escolas…

Augusto Maurer: Outra coisa: que tipo de imagem posso usar para ilustrar essa conversa ? Pois, afinal, o Milton Ribeiro insiste muito que é bem mais fácil divulgar textos vinculados a imagens do que sem elas.

Luiz Afonso: Augusto Maurer, Sempre uso imagens nos posts. A escolha envolve técnicas de comunicação e, claro, sensibilidade…

Luiz Afonso: AH, e usaria essa imagem para ilustrar o post

imagens X palavras

* * *

Nessa mesma conversa, outros comentaristas também se referiram à primazia da imagem sobre a palavra como uma tendência importante em nossa época. Sempre que me deparo com este tipo de discussão, me vem imediatamente à mente a instigante formulação do Parêntesis de Gutenberg, ao qual já me referi aqui, segundo a qual estaríamos vivendo o ocaso de uma era de predomínio da escrita, delimitada no início pelo advento da imprensa e no fim (suponho) pela omnidisponibilidade de tecnologias visuais, como em tablets ou smartphones. Antes dele, dominavam as narrativas orais. Depois, viriam as visuais.

Então, de acordo com os estudiosos que o endossam, não haveria um problema maior no fato observável de que gerações mais recentes tenham cada vez menos familiaridade com a linguagem escrita, pois estaríamos no limiar de uma nova era de comunicação essencialmente visual. Faz sentido. Pois nativos digitais passam cada vez mais tempo se relacionando com telas. Seja interativamente ou apenas vendo, na melhor das hipóteses, podcasts e vlogs de algum youtuber ou, na pior, séries de TV. Não mencionei os jogos tão somente por que estes merecem um olhar mais dedicado.

No intuito de se estabelecer a importância relativa entre som e imagem em canais e meios de comunicação, um observador arguto poderia idealizar o experimento de, primeiro, ver televisão sem som e, depois, ouvir seu som sem ver a imagem para, então, decidir em qual dos dois modos consegue entender melhor o que se passa no programa transmitido. Alguém, dada a atual farra da ciência institucional, deve nalgum momento obter algum subsídio para uma pesquisa nestes moldes. Enquanto isto não acontece, podemos tergiversar, por exemplo, sobre se não seria bem mais fácil entender o cinema sem áudio do que sem imagens – enquanto a TV seria, por sua vez, bem mais incompreensível sem audio do que sem imagem. Fora, é claro, em transmissões de partidas de futebol. Sei lá. É só um palpite.

Cabe, ainda, observar que, enquanto praticamente toda postagem compatível com a categoria de mindcasting é fortemente apoiada sobre algum tipo de linguagem verbal, seja ela escrita ou não, já aquelas reconhecíveis como lifecasting se valem com frequência bem maior de recursos exclusivamente visuais. Como provam todas as postagens de selfies, foodporn e afins. Então, se for assim – e se os defensores do Parêntesis de Gutenberg tiverem razão – rumamos para uma era obscurantista na qual todo conhecimento só estaria ao alcance de uns poucos iniciados, porquanto letrados. Só nas piores distopias, como em Farenheit 451, se imaginou um porvir tão tenebroso.

Melhor não pensar nisso. Principalmente por que, até lá, dá para ter muitas conversas como essas que só as redes sociais ensejam. Curioso. Mesmo sem ter jamais encontrado Luiz Afonso pessoalmente, sei, graças às redes, que nutrimos as mesmas paixões pela escrita e pela cozinha. Mantidas as devidas nuances. Pois, enquanto me dou melhor com panelas, ele é um exímio assador. Alguém duvida ?

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Torta de pernil de cordeiro feita por Luiz Afonso.

 

 

Por que uma reforma política por atuais congressistas equivale ao casal Nardoni no Criança Esperança ou, ainda, à Claudia Leite no Rock in Rio

Tenho amigos que dizem, com alguma razão, que a flauta futebolística não me cai bem. Do mesmo modo, acho que o comentário político também me sai meio canhestro. Talvez por isto tenha resistido à crônica política por tanto tempo. Pois a maioria de meus textos sobre democracia líquida, obsolescência da representação e fim dos CCs foi sepultada com meu blog anterior. E também, é claro, por que há bastante gente bem mais apta à tarefa do que eu. Como, por exemplo, tantos só aqui no Sul21 (não tenho tempo de ler muitas fontes). Só que, por razões que desconheço, podemos perfeitamente viver sem paixão desportiva. Sem paixão política, não.

Não consigo, por exemplo, entender por que eu deva passar, a cada quatro anos, procurações a quem sequer conheço para deliberar sobre leis a que estou sujeito quando posso, eu mesmo, votar sempre que quiser sobre tudo o que entenda que diga respeito a minha vida e a dos outros. Pois, como é sabido, hoje só juízes e políticos fazem isto ao deliberar sobre os próprios salários. Por estas e outras, ainda temos muito a percorrer em direção ao aprimoramento democrático. E talvez por isto me desespere tanto ver desperdiçarmos tamanha oportunidade de mudança com a reforma hora urdida pelas gangues de Brasília.

Foi neste contexto que, por acaso (deixo a TV ligada enquanto uso o notebook) repercutiu de modo distinto para mim uma notícia, ouvida ontem, de que uma reforma política não só já estaria em andamento no congresso nacional, como já teria até um relator. Por que fiquei tão chocado ? Ora, por me parecer perfeitamente óbvio que qualquer reforma constitucional (tal como, neste caso, a política) deva emanar obrigatoriamente de uma assembleia constituinte exclusiva, especialmente eleita para a tarefa, a qual, por sua vez, não deveria jamais ser confiada a quaisquer representantes eleitos para mandatos legislativos. Como os atuais deputados e senadores.

Como a política não obedece a nenhuma lógica exceto a sua própria, seus próprios desígnios que parecem, por vezes, tão absurdos – de sorte que fui assombrado por evidências inegáveis de que a tal reforma política que provavelmente teremos que engolir é, a julgar pelo que é visto nos noticiários, esta mesma cujo foco principal parece ser o financiamento público de campanhas. Ou seja, o que os comparsas de Cunha e Calheiros pretendem com o atual projeto é não mais do que engordar ainda mais seus já polpudos ganhos. Pois, afinal, por que deveriam continuar pagando por campanhas eleitorais cujas contas podem sem, sem mais nem menos, cobradas dos contribuintes ?

Temos que concluir, então, que o clamor de passeatas e panelaços pelo impeachment só serviu de cortina de fumaça para que a quadrilha promovesse, diante da patuleia e sem o menor esboço de reação, mais este assalto ao cofres públicos.

A parte mais ultrajante da retórica em favor do financiamento público de campanhas é a ideia de que com isto, se estaria vedando a corrupção. Ora, com o financiamento público políticos simplesmente se apropriariam diretamente tudo o que viesse do propinoduto, sem ter que desembolsar com marketeiros e outras rubricas dispendiosas.

Mas não. Enquanto debatem se empresas ou cidadãos comuns devem pagar pelas campanhas que resultam em suas eleições, são deliberadamente excluídos de qualquer debate legislativo ou midiático questões de suma importância tais como o tamanho e o custo

de todas as máquinas legislativas, incluídos salários, mordomias e custos de gabinete;

de toda a pirâmide de CCs e

de toda a rede de serviços públicos em educação, saúde, segurança, cultura, ciência & tecnologia e afins.

Duvido que qualquer eleitor, diante destes valores, preferisse continuar tento a mesma quantidade de políticos, professores, médicos e policiais.

Vivemos na era do infográfico. Há infográficos para auxiliar a vender qualquer ideia. Então, simplesmente não consigo entender como não vemos, tanto em redes sociais como nas de broadcasting, infográficos plotando comparativamente dados como os acima. Pois suponho que uma visão superficial dos mesmos seja suficiente para despertar em quem quer que seja não só indignação mas, oxalá, revolta. Mas não é nada difícil entender por que tais informações não fazem parte do discurso político de qualquer partido.Também não vejo muito propósito em esperar que tais questões sejam tematizadas na mídia hegemônica.

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O Destino Manifesto e a opinião de José Agustoni sobre a exploração espacial

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Nem sabia da existência do tal manifesto até ler a mui ilustrativa coluna de José Monserrat Filho sobre o mesmo no Sul 21. Assim que a li, compartilhei no facebook, com a seguinte chamada:

A arrogância nacional e imperialista trocada em miúdos. Antes de ler isto, achava que a coisa não era tão explícita, mas apenas algo tacitamente aceito pelo ideário norte-americano. Ótima leitura. O que achas, José Agustoni (nosso astrônomo de plantão) ?

Meu primo e consultor para assuntos astronômicos atendeu, então, por sua vez, de pronto a minha convocação, postando, lá em meu perfil, o seguinte comentário, cuja relevância me levou a lhe conferir permanência como post autônomo neste blog. Então, com vocês, José Agustoni sobre a exploração espacial. Enjoy.

Carl Sagan é o guru de todo astrônomo amador, mas eu já ousei discordar dele em um ponto, numa frase em que diz que “o destino da humanidade é as estrelas”. Sagan era um sujeito muito sensato (há o famoso discurso dele sobre o “pálido ponto azul” que eu considero um dos mais importantes jamais proferidos.

Nele, não creio que estivesse falando de “conquistar o espaço” como nesse “Destino Manifesto”, mas que algum dia teríamos que abandonar o nosso planeta de origem por alguma razão de força maior.

Até certo ponto, discordo. O ser humano avançou muito em conhecimento, ciência e tecnologia mas, infelizmente, não avançou tanto em moral e ética. Ou melhor, a tecnologia está acessível a todos, mas princípios morais e éticos, embora acessíveis, não são “comprados” por todos. Eu comparo o ser humano atual com um chimpanzé com uma arma carregada na mão. Temos tecnologia para fazer desse planeta um paraíso ou um inferno, mas ainda estamos engatinhando em termos de saber usar com sensatez essa tecnologia. Poluímos, destruímos, matamos com muita facilidade (e com “justificativas racionalizadas”).

Então, de repente temos a tecnologia para ir para outros planetas. Vamos para lá com que intenção? Ir para simplesmente “conquistar territórios” não faz sentido para mim. Ir para explorar recursos? Também não vejo muito sentido. A primeira pergunta que devemos fazer é “por que?” Por que precisaríamos de novos territórios? Por que precisaríamos de recursos? Se a resposta for: porque esgotamos os recursos que temos aqui na Terra, porque precisamos espaço para mais gente – neste caso eu digo que aquele “alien” que vemos em filmes de ficção científica que invade a Terra em busca de recursos somos nós mesmos no espelho. Nós é que nos tornaremos os “aliens-gafanhotos” que, como uma praga, vamos nos espalhar pela galáxia predando um planeta atrás do outro e deixando cinzas no nosso rastro.

Fala-se em terraformar Marte para que fique parecido com a Terra e seja habitável. Mas se chegarmos ao ponto de termos uma tecnologia para terraformar Marte, por que não aplicamos aqui mesmo para manter essa Terra que já é tão agradável? Se chegarmos ao ponto de ter tanta tecnologia, por que também não temos a sensatez de não nos reproduzirmos com coelhos a ponto de superpovoar essa Terra tornando-a insuficiente?

Não, eu acho que é muito mais simples, barato e, afinal de contas, mais sensato cuidarmos da Terra com toda essa tecnologia que temos e que ainda vamos desenvolver. Aqui tem todos os recursos necessários se não os desperdiçarmos. Não existe, como no filme Avatar, um elemento raro e essencial que valha a pena os altíssimos custos de uma “mineração espacial”. A Terra já está pronta, basta não destruí-la.

Concordo que viajar para outros planetas e até outros sistemas seja um sonho, um impulso natural do ser humano desde que saiu do berço africano, mas que seja apenas para conhecer, para estabelecer bases de pesquisa científica e não um assentamento de sem Terra.

 

Indelicadezas sobre arranjos e orquestrações

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Um dos aspectos mais interessantes do modo como configuramos redes sociais tem a ver com a diversidade de opiniões que admitimos em nossos perfis. Segundo esta variável, as redes sociais se dividem em duas categorias, a saber, a das redes em que predominam pessoas com as quais concordamos sobre temas polêmicos, também conhecidas como bolhas discursivas, e a das redes que abrangem alguma diversidade ideológica. Sempre preferi configurar as minhas mais como as do segundo tipo, até por acreditar que as interações com pessoas de opiniões divergentes tenham um potencial bem maior para mudanças. Já as bolhas discursivas se prestam muito mais a massagear o ego. O tema até foi objeto de uma pesquisa acadêmica (ah, o enorme talento da academia para idealizar as mais tautológicas e, portanto, supérfluas pesquisas…) resenhada em El País e traduzida no excelente Observatório da Imprensa.

Numa das tantas escaramuças que busco ao interagir no facebook, colhi, após destilar meu habitual mau humor contra arranjos orquestrais de música popular, o seguinte comentário de um amigo que reputo como grande autoridade no assunto. Depois de eu dizer que

[…] músicos populares, mesmo os bons, deveriam por bem deixar as orquestrações de lado – assim como orquestras tb deveriam abandonar os repertórios populares – pois música popular orquestrada é tão ruim ou pior do que clássicos na guitarra (como aquelas estações de Vivaldi que há no youtube, sabem); tenho, por exemplo, um disco de Charlie Parker com orquestra, que algum gênio resolveu produzir, que jamais consegui ouvir muito além do início […] um dos argumentos mais corriqueiros em prol da música popular em concertos orquestrais é a aproximação com o público; penso que, ao contrário, tais espetáculos prestam um desserviço à música, tanto à “popular” quanto à “clássica”. Então, na maioria das vezes quem ouve provavelmente terá boas razões para não gostar […]

Arthur de Faria prontamente aceitou minha provocação, retrucando

[…] eu poderia entrar longamente nesse questão, […] mas, com todo o respeito que eu tenho por ti, acho uma certa indelicadeza tu entrar no post de alguém – no caso, eu – pra dizer que acha que a profissão (e esta é uma parte importante da minha profissão, a de arranjador) deveria ser extinta.

Seja dito, inicialmente, em favor do fair play de Arthur, que ele não apenas não me excluiu de seu perfil como também dedicou a mim um de seus posts seguintes, no qual arrolava três arranjos maravilhosos, a saber, de Aquarela do Brasil por Radamés, de Eleanor Rigby e de uma canção de Björk.

Regozijei, admito, pois estou no facebook para tudo menos para ser delicado. Noutras palavras, repudio as bolhas discursivas e busco sempre, na maioria das vezes em vão, o que venho chamando já há algum tempo de contraditórios qualificados. Então, fiquei feliz por que Arthur compreendeu perfeitamente o espírito da coisa – sua resposta inaugurando, por sua vez, uma pensata sobre arranjos orquestrais que dificilmente caberia em caixas de comentários.

Primeiro, tenho que deixar claro que, mesmo nutrindo o maior respeito pela maioria das pessoas, não tenho a menor consideração por quaisquer profissões, que é como chamamos toda ocupação exercida por um conjunto relativamente grande de indivíduos em determinados momentos históricos em razão da tecnologia, da economia e da cultura específicas de cada época. Assim, não entendo que exista, na atual economia da música, algo como uma profissão de arranjador.

Tal não era, é claro, a situação em 1939, quando foi registrado o arranjo antológico de Radamés Gnattali para Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, citado por Arthur. Naquele tempo, programas de rádio eram realizados ao vivo e emissoras importantes (como as rádios Nacional ou Farroupilha) mantinham em seus quadros grandes orquestras (que, no entanto, não eram sinfônicas nem tampouco de câmera, mas trataremos disto mais tarde). Mais: nos bailes de maior prestígio, a música também era executada por orquestras. Tal contexto provia um sentido para a existência de arranjadores, que eram músicos especializados em adaptar partituras originais para outros instrumentos ou formações instrumentais às orquestras populares de então.

É preciso que se faça uma distinção entre o que são orquestras populares, também conhecidas como big bands, nas quais predominam os instrumentos de sopro, e suas congêneres (ainda que só no nome) sinfônicas e de câmera (de instrumentos de cordas, na maioria das vezes). Até hoje quando se fala em orquestra no campo da música popular, o que se tem em mente é, quase sempre, a formação tradicional de uma big band ou, quando muito, de uma banda sinfônica (de instrumentos de sopro). Ora, big bands e bandas sinfônicas possuem, em relação às formações orquestrais com naipes de instrumentos de cordas, além de uma amplitude dinâmica (o contraste entre os sons mais fracos e os mais fortes) muito maior (podem, por exemplo, tocar facilmente ao ar livre sem amplificação) – também muito mais precisão de articulação (a definição, para o ouvinte, do momento exato do início (“ataque”) de cada som), tão necessária a projeção efetiva dos ritmos proeminentes inerentes a quase toda música popular. Pois é sabido por todo músico ou ouvinte melhor informado que o detalhamento rítmico (ou, em terminologia musical, a articulação) tende a se diluir quando sua execução é confiada predominantemente a naipes de instrumentos de cordas, típicos das formações orquestrais sinfônicas e de câmera.

Não quero, com isto, dizer que naipes de cordas não tenham lugar na orquestração de música popular. Os ótimos arranjos de Claus Ogerman (como no álbum Amoroso, de João Gilberto) estão aí para provar o contrário. Só que, nestes casos, a condução rítmica é invariavelmente confiada a instrumentos de percussão ou cordas dedilhadas. A elegante textura imortalizada por Ogerman a que me refiro é comumente reconhecida por músicos e ouvintes experientes como “cama de cordas”.

Esse tipo de imponderabilidade do momento de ataque das cordas orquestrais tem muito a ver com as técnicas de produção e de reprodução dos sons empregadas em gravações e execuções ao vivo de arranjos de música popular. Neste sentido, gosto de pensar que, enquanto corpos orquestrais são sincronizados via de regra por dois expedientes – a saber, o gestual de um regente e o feedback auditivo de músicos dispostos de modo não equidistante de todas as fontes sonoras – enquanto bandas populares tocam juntas graças a redes complexas de sinais amplificados de retorno, seja por meio de fones (em algumas situações de palco e obrigatoriamente em todas as gravações de estúdio com uso de playback) ou de caixas acústicas (na maioria das situações de palco). Complicado ? Um pouco, talvez, para os não músicos dentre os que ainda não abandonaram esta leitura.

Chegamos, assim, ao mitológico, porquanto único (tanto na discografia dos Beatles como na carreira de seu produtor George Martin), arranjo de Eleanor Rigby que, para todos os efeitos, não se trata de uma orquestração e sim de uma partitura original para quarteto de cordas – o qual, como formação camerística, não está sujeito à supracitada imponderabilidade de ataque típica dos naipes orquestrais.

Em textos anteriores, defendi que não existem bons maestros que não sejam ou não tenham sido, anteriormente, pelo menos ótimos músicos. Do mesmo modo, sustento que não há bons arranjadores/orquestradores que não sejam, antes, bons compositores ou, ao menos, ótimos músicos. Talvez por isto eu goste de pensar na complexa atividade do arranjador/orquestrador muito mais como uma especialização do que, propriamente, profissão. Por exemplo. Ravel, Korsakov e Groffé são amplamente reconhecidos como dentre os melhores orquestradores que a música sinfônica já produziu. Me parece, no entanto, evidente que não teriam logrado tamanho êxito na orquestração de obras de terceiros se não fossem, também, excelentes compositores (ao menos os dois primeiros, pois nada sei sobre a obra de Groffé além de suas orquestrações de originais para piano de Gershwin). É claro que Beethoven, Brahms, Mahler, Stravinsky, Bartók, Shostakovich e afins também foram excelentes orquestradores, ainda que não tenham se dedicado, ao longo de suas vidas, a partituras de terceiros.

Há orquestrações célebres (como as de Stokovski para música de Bach) que, no entanto, não chegam perto da estatura dos originais que… “remixam” (prá usar um termo bem bem moderno)). Conclui-se, com isto, que a boa orquestração é um talento exclusivo de bons compositores.

Reitero, então, a recomendação (de um outsider) a quem quer que se aventure a dar a qualquer música uma nova feição, diferente de sua versão original, que procure se ater exclusiva ou predominantemente a um dos seguintes contextos:

instrumentos exclusivamente não amplificados, cujo equilíbrio e sincronização devem ser obtidos pelos músicos cameristicamente (i.e., “de ouvido”) ou por meio do recurso a um regente; ou

instrumentos exclusivamente amplificados, cuja sincronização é obtida com o auxílio de fones de ouvido ou caixas acústicas “de retorno” e cujo equilíbrio (balanço ou mixagem) é controlado por um técnico de som.

Também é altamente recomendável que, na orquestração de qualquer música, seja obedecida certa proporção entre o número de vozes independentes envolvidas e a duração da forma da obra em questão. Noutras palavras, músicas de 3 ou 4 minutos (como a maioria dos fonogramas populares) tendem a soar de certo modo presunçosas, quando não franco desperdício de recursos, se executadas por conjuntos polifônicos muito grandes.

O que quero dizer é que, na execução de arranjos de música popular, maestros e naipes numerosos devem ser, na medida do possível, evitados. Ou, dito de ainda outro modo, quanto mais gente tocando, menos suingue.

Na contramão do bom senso fica, é claro, a lógica do espetáculo – segundo a qual a música popular adquire mais glamour e se reveste de maior importância quando envolve recursos orquestrais. Complicado, né ? Haja música de câmera e combos de jazz para tentar promover tamanha mudança cultural.

Peço, pois, por fim, a Arthur de Faria que me perdoe a indelicadeza, aceitando, à guisa de desculpas, como uma dessas coisas que só o coração pode entender, este arranjo de Insensatez pelo genial Proveta para sua Banda Mantiqueira, um dos conjuntos mais compactos que já ouvi.

* * *

Depois que escrevi e deixei encostado para revisão, dias atrás, a diatribe acima, comentei a ideia com um dos músicos, também compositor e arranjador, a quem mais respeito – o qual, como eu esperava, entendeu de pronto o tipo de polêmica apaixonada que eu pretendia causar com este post. Em oposição à tese nele defendida, citou, então, rapidamente, arranjos de Gismonti executados por uma orquestra japonesa e passagens sinfônicas em Atom Heart Mother, do Pink Floyd. Além de peças de Rick Wakeman para orquestra já ouvidas em Porto Alegre em duas ocasiões, com a OSPA e com a Orquestra da UNISINOS. É precisamente o que chamo de contraditórios qualificados. Fica, então, minha disposição a postar e enaltecer uma antologia de videos, curados por caras como o Arthur de Faria ou o Adolfo Almeida Jr., que desmentem cabalmente meu preconceito de que arranjos de música popular para orquestras sinfônicas ou de câmera são, na maioria das vezes, inglórios.

On conducting (ix): comentários qualificados: agulhas em palheiros ou pontas de icebergs ?

agulha no palheiro 1

Tudo o que posto é visto, ainda que por alto, por algumas centenas de pessoas, curtido por dezenas e comentado por uns poucos, quase sempre no facebook e, mais raramente, no blog. Por isto, ainda que prefira a permanência do blog, aprecio sobremaneira a reatividade das redes sociais.

Gosto de conferir a permanência de posts – mais reflexivos por natureza (i.e., com uma velocidade média de scroll bem mais baixa do que em redes sociais) – a comentários super qualificados de interlocutores eminentes que só consigo ter no ciberespaço. Sempre digo, em tom de jocosa provocação, a esses doutos debatedores que perdem por ainda não terem seus próprios blogs – ao que invariavelmente me retrucam não terem o tempo necessário. Sou forçado da concordar – pois, como certa vez me confidenciou Howard Rheingold, a blog is a hungry beast. Great wisdom.

Comentários em redes sociais – tanto nas abertas (onde se pode seguir qualquer um, como no tweeter) como nas fechadas (em que todo vínculo é recíproco, como no facebook) são curtos, de forte solidariedade ou, mais raramente, veemente discórdia. Uns poucos, sempre provenientes de autoridades absolutas em seus campos, são mais extensos e agregam nuance ao que foi dito, contextualizam melhor e ampliam o debate – propiciando, portanto, mais public awareness acerca das questões tematizadas. Então, não é por falta de assunto que promovo estes super comentários não apenas a comentários no blog (outra hora explico por que é tão mais interessante comentar no facebook do que em blogs) mas, enquanto seus autores não tenham seus próprios blogs (bem mais faceis de linkar), a posts autônomos. Os quais, muito convenientemente, costumo chamar de “colaborativos”. Tratando-se, portanto, muito mais de um estelionato.

Então, sem mais delongas, vamos ao que disseram, em resposta a provocações minhas em razão de meu último post, Emmanuele Baldini, violinista, spalla da OSESP e Fabio Zanon, violonista, coordenador do Festival de Campos do Jordão e professor da Royal Academy of Music de Londres. Notem que ambos, além de serem requisitadíssimos solistas em seus instrumentos, também se dedicam, concomitantemente e com notáveis resultados, à regência orquestral.

(Adoro aquecer – mesmo que, como aqui, só as requentando – polêmicas assim ! Por mais que tente reprimir, parece ser mais forte do que eu)

Sobre minha resposta a Daniel Barenboim, na última sexta-feira, Fabio Zanon assim se pronunciou:

Não é uma questão muito simples. É muito fácil subestimar o métier do maestro. Que tem o grande músico a seu favor? Acho que, antes de mais nada, ele tem uma noção mais concreta do que é excelência. Isso é uma coisa que quem só toca seu pianinho básico nunca vai alcançar. Ele também pode estimar qual é o esforço pessoal que tem de ser empregado para se alcançar um certo resultado. Mas nada como o mundo real para fazê-lo descer do pedestal. Como transmitir um ponto de vista interpretativo para um grupo em três ensaios, quando o andamento oscila, quanto tem problemas de conjunto, quando não há a sonoridade que se imagina, quando o equilíbrio entre as partes inexiste e a pessoa que balança os braços ali na frente só faz piorar as coisas quanto mais fala e se agita? São problemas que o instrumentista ou cantor, na sua sala de estudo, resolve com prática, com tempo, com toda sorte de estratégias de longo prazo para corrigir o que não está bem. Num ensaio orquestral, o maestro tem de apresentar uma solução, e muitas vezes essa solução depende mais de um gesto apropriado ou de vivência dentro da orquestra que de um insight musical profundo. Excelência musical é uma coisa que se espera tanto do maestro quanto do solista quanto da maioria dos músicos que tocam numa orquestra de primeiro time, mas são especialidades correlacionadas, mas diferentes. Muitas vezes o maestro sobe ao pódio para reger pela primeira vez uma música que os músicos já tocaram dezenas de vezes. Como gerar uma situação em que esses músicos vão procurar dar um passo aa frente daquilo que já se cristalizou? Então eu acho que essa noção concreta de excelência pode ser alcançada de mais de uma maneira. muitas vezes um pianista de pouca técnica pode ter uma formação musical esmerada, uma capacidade incomum de absorver detalhes finos de interpretacão, etc. Veja que maestros como Kleiber ou Rattle sequer tiveram muito tempo para se estabelecerem como instrumentistas, porque embarcaram numa carreira de regência muito cedo (Rattle é percussionista de formação). Então, por mais que eu fique tentado a defender a minha sardinha, acho que um grande músico sem vivência de orquestra pode se esborrachar, se não tiver uma sólida técnica de regência. Acho que o Barenboim mirou justamente em músicos que fazem uma espécie de branding do tipo “se eu toco bem pra caramba, certamente posso reger, então vou usar minha fama e contatos para reger as melhores orquestras”, mas que não têm realmente condição técnica pra fazer isso. Tenho visto vários desses – posso te passar uma lista, se quiser. Por outro lado, quando o cara tem a autoridade do seu lado e também sabe reger… O Michael Collins solou/regeu a OSUSP há algumas semanas.Poucas vezes vi essa orquestra tocar tão bem, e consta que ele quase não falou nada nos ensaios, foi tudo na ponta dos dedos (ele não usa batuta).

* * *

Horas depois (viva a comunicação assíncrona !), Emmanuele Baldini disse o seguinte:

Caro Augusto,
Muito obrigado por me incluir na seleta lista! Sobre a infeliz frase do Barenboim só posso pensar a uma justificativa: existe SIM um número considerável de instrumentistas que passa a reger só pela oportunidade de ter mais concertos, de g
anhar mais, e sem se preocupar minimamente em aprofundar esta que é uma atividade peculiar e que precisa de muito preparo. Se um excelente instrumentista tem já em seu DNA algumas características que são também importantes para o regente (saber “dialogar” com a música, ter liderança, ser claro e bem resolvido nas escolhas musicais…), lhe faltam ainda outras que precisam ser aprimoradas com um profundo estudo. Para fazer um exemplo, a leitura de uma partitura!!! Um instrumentista nunca lê ou estuda um Concerto para seu instrumento na partitura completa, e eu mesmo comecei fazê-lo DEPOIS de começar reger. Hoje meus alunos sabem que faço questão que eles estudem o Concerto de Beethoven (por exemplo) tendo sempre a grade do lado.


Existem muitos instrumentistas que pretendem se “improvisar” regentes, mas não por isso o grande Barenboim deveria fazer um julgamento tão generalizado e superficial.
Acredito mesmo que ele próprio não soube explicar da maneira certa seu pensamento, pois se ele fosse convencido mesmo de suas palavras sua própria história de vida condenaria seu discurso a uma clara incoerência.

* * *

Entendem, agora, por que gosto tanto de provocar discussões ? Benditos sejam todos os que compram as brigas boas ! Pode ser que alguns, como todo netskeptic, achem que conversas assim sejam atípicas, como agulhas em palheiros. Penso nelas, no entanto, mais como um netopian certamente pensaria – a saber, como pontas de icebergs a indicar, outrossim, grandes temas latentes. E vocês ?

iceberg 3

on conducting (viii): em resposta a Daniel Barenboim

O eminente pianista e maestro (ou maestro e pianista, são sei bem a ordem) Daniel Barenboim se posicionou, em recente entrevista, claramente contra a prática, já bem comum, de que virtuoses instrumentais, sejam eles solistas ou membros de destaque de orquestras importantes, também façam carreira como maestros. Sim, vocês entenderam direito: ele mesmo, Barenboim – que, como Ashkenazy, Rostropovich, Harnoncourt, Levine e tantos outros – teve, muito antes de subir ao pódio, uma importante carreira como solista.

A questão é bem mais relevante do que, inicialmente, parece. Pois a regência orquestral enquanto disciplina acadêmica é um fato tão novo quanto questionável. Até por que a própria regência é, em si, uma invenção bastante recente. Então, é preciso um olhar atento, até desconfiado, sobre quaisquer instâncias que reivindiquem saber ensinar um modo de aquisição de uma competência ainda pouco entendida.

Tomemos o caso da OSPA. Uma orquestra estatal de uma metrópole cultural secundária. Por insistência de seus músicos mais do que por qualquer outra coisa, vem tendo à frente, nos últimos anos e com excelentes resultados, músicos eminentes que passaram a se dedicar também à regência. Quase como uma segunda ocupação (ao menos no sentido cronológico). Notem que não falo, aqui, de qualquer músico – pois jamais me passou pela cabeça afirmar que todo músico daria um maestro minimamente satisfatório. Longe disto. Falo de gente da estatura de um Leon Spierer (ex-spalla da Filarmônica de Berlim), Per Brevig (ex-primeiro trombonista do Metropolitan Opera), Jacob Slagter (ex-primeiro trompista do Concertgebouw) ou Emmanuele Baldini (spalla da OSESP). Ou ainda de solistas como Maxim Fedotov, François Benda ou Lavard Larsen. Sei que Rauss e Ricci também foram, nalgum tempo, ótimos instrumentistas. E ouvi dizer que Teraoka já tocou contrabaixo. Aposto que tocava muito bem. A ponto de, ao menos, ter dado recitais ou liderado algum naipe antes de se deixar seduzir pelos encantos da batuta.

Walter Boeykens, já no fim de sua carreira como um dos mais importantes clarinetistas de sua época e se dedicando (acho que por esporte (Boeykens era cavaleiro da coroa belga; uma espécie de barão, dizia)), afirmou que cursos de regência não passavam de bullshit, já que nada se comparava a recebê-la, como uma dádiva, de mitos como um Bernstein ou Boulez enquanto solista ou, no mínimo, ocupando uma cadeira importante numa orquestra de ponta. Como Slagter sob Haitink no Concertgebouw. Ou Spierer sob Karajan ou Abbado em Berlim. Faz sentido, não ?

É claro que não desdenho bons regentes que tenham passado, mais por força dos tempos em que vivem do que por qualquer outra razão, por programas acadêmicos de regência. Pois Valentina Peleggi conduziu, afinal, um dos mais memoráveis concertos de que participei. O que sempre sustentarei é que, antes de qualquer instrução específica para atuar como regente, todo bom maestro deve ter tido, obrigatoriamente, suficiente experiência como instrumentista. Valentina é pianista e também toca clarineta e violino. Ora, nenhum maestro consegue apreender a tocar qualquer instrumento uma vez que já tenha adentrado a movimentadíssima ciranda dos pódios.

Chegamos, assim, a um aforismo, empiricamente dedutível, a ser observado por bons gestores culturais e ouvintes mais curiosos, que pode ser formulado como

jamais confiar em qualquer maestro que não seja, pelo menos, um bom pianista (pois pianistas sempre levam, afinal, alguma vantagem sobre os demais músicos quando se trata de ler partituras) – ou, se tocar outro instrumento que não o piano – um músico excepcional.

Falamos, portanto, de, pelo menos, um solista. Menos do que isto, deve ser considerado imperícia ou mesmo oportunismo.

Dito isto, voltemos à diatribe de Barenboim contra os músicos-regentes para lhe sondar a índole. Ora, tenho para mim que, ao desaconselhar o pódio a instrumentistas que considera (não sei segundo qual critério) não-regentes, o eminente pianista/maestro (ou maestro/pianista) deve ter em mente, senão exclusivamente ao menos principalmente, a reserva de mercado. Pois é sabido e comprovado que aprender a tocar uma música exige, na maioria das vezes, muito mais dedicação do que aprender a regê-la. Se duvidarem, é só observar, durante um mesmo concerto, o que faz o solista e o regente.

É também de amplo conhecimento que honorários (além de transporte aéreo, alimentação e hospedagem) de regentes costumam custar mais do que os de solistas de igual projeção. Então, mesmo discordando veementemente de Barenboim nesta questão, entendo perfeitamente suas palavras. Até por que talvez ele não tenha outra saída. A não ser, é claro, se abdicasse de sua condição de celebridade, da qual advém seus ganhos. Por isto mesmo, não deve estar disposto a deixá-la para abraçar uma nova economia.

Muito ainda se há de falar, enfim, nas mudanças paradigmáticas entre os contextos de Barenboim e Lisitsa. Pano para muita manga. Para bem mais do que um post.

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Não gosto de terminar textos com uma frase. Pois jamais parecem ter a importância que uma última frase deveria ter. Então, nada melhor do que terminar este – que é, antes de tudo, uma pergunta – com imagens de alguns músicos-regentes que tivemos o prazer e a honra de ter à frente recentemente. Por que jamais vejo tamanha intensidade emocional em qualquer maestro não-músico (os quais, acreditem, não são poucos…) ?

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minding audiences (ii) ou da indiferença contemporânea ao sublime ou para ouvir Bill Evans (i)

Gosto de garimpar fotos tiradas em clubes de jazz de Nova Iorque nos anos 50 e 60. Em muitas, há membros da audiência desatentos ou indiferentes à excelência da música que ouviam. Notem que não falo de nenhum piano bar, nos quais a música apensas serve de pano de fundo à conversação, mas de casas de espetáculos icônicas, como o Birdland, o Five Spot, o Minton’s ou o Village Vanguard, cujos minúsculos palcos eram frequentados pelos maiores improvisadores de seus tempos. Falamos, portanto, de música sublime, ricamente documentada por fabulosos registros sonoros.

Face à atitude quase devocional com que ouvimos, hoje, tais registros, sempre me espantei com essa desatenção tão franca, não sei se por arrogância (vale examinar fatores como tensão racial entre músicos e platéias) ou mera ignorância, ostentada por tantos ouvintes daquela música única (i.e., que jamais poderia ser repetida daquele modo) e de qualidade exponencial.

Daí minha insistência no bordão de que audiências contemporâneas são, na maioria das vezes, indiferentes ou mesmo insensíveis ao que de mais sublime há em cada época. Como se pode ver nas fotos abaixo. Minhas favoritas são as duas primeiras. Pois não há como entender o ostensivo dar de costas do jovem loiro e da Marilyn sem rosto (imortalizada assim, só como penteado, pelo fotógrafo) à música tocada, respectivamente, por Charlie Parker na primeira foto ou Clifford Brown na segunda. Entre outros.

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Nas seguintes, a maioria dos ouvintes parece estar interessada em qualquer coisa a não ser a música.

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Na primeira, toca Miles Davis. As quatro últimas foram tiradas no Five Spot; as três últimas com Thelonius Monk as duas últimas com, além dele, Charles Mingus e John Coltrane. Como podem ver, gente pouco relevante no jazz.

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É claro que as imagens acima, que arrolo como testemunho do desinteresse de uma cultura para com a melhor arte de se seu tempo, podem ser descartadas como um recorte muito específico e, portanto, casual. Ou seja, coexistentes com uma quantidade igual ou maior de fotos que retratam ouvintes aparentemente atentos. Felizmente para o historiador, registros sonoros evidenciando nossa hipótese inicial são fartos. E especialmente contundentes, se considerarmos, comparativamente, o ruído produzido pela audiência em integrais dos sets gravados por Bill Evans com seu lendário trio no Village Vanguard em 1961 e 1980. Na coleção de 1961, de um artista ainda a ser descoberto por seus contemporâneos, impressiona o som de conversação e de utensílios como copos, louça ou talheres se fazendo, por vezes, quase mais audíveis do que a música. Já nas sessões de gravação testamentais de 1980, no mesmo lugar, o silêncio absoluto da audiência denota a reverencia pelo gênio consagrado.

Ouçam, então, no primeiro audio abaixo (impressionante como o youtube se tornou uma espécie de plataforma ideal para a postagem de fonogramas !), um take do trio de Evans com Paul Motian (bateria) e Scott LaFaro (contrabaixo) no Village Vanguard em 61 e, no segundo e no terceiro, dois takes da última residência do derradeiro trio, com Marc Johnson e Joe LaBarbera, por lá quase vinte anos depois.

Quero ver alguém dizer, depois de ouvir isto, que o público que foi ao Vanguard ouvir o trio de Evans em 1961 era mais atento do que o de 1980. Se, no entanto, toda evidência acima não for suficiente para corroborar a tese da indiferença contemporânea ao sublime, vejam, então, na foto abaixo, o local de descanso de Evans e seus parceiros na célebre casa de espetáculos em 1961. Duvido que seu camarim por lá, em 1980, fosse minimamente parecido com isto.

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A propósito do Homem Formiga

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Dentre as melhores coisas das férias escolares está certamente cada nova safra de filmes voltados aos pequenos. Tem para todos os gostos. De sagas como as de Harry Potter ou do Senhor dos Anéis a clássicos de animação da Pixar ou da Dream Works. Conforme crescem, começam a desenvolver (os pequenos) preferências bem específicas. Arthur se encontra nesta fase. De sorte que sou entusiasticamente convidado para estreias de cada distopia (um de seus sub-gêneros favoritos, que inclui blockbusters como Maze Runner e a série Jogos Vorazes) ou novo filme da Marvel ou da DC comics.

Neste contexto, fui conhecer, anteontem, o novo herói da Marvel. Novo ? Isto mesmo – pois, como me informou Arthur, o Homem Formiga, ao contrário de predecessores como o Homem Aranha, os Vingadores ou o Quarteto Fantástico, só foi lançado pela marca de Stan Lee há poucos anos atrás. O que faz dele, senão o primeiro, ao menos o mais proeminente protagonista criado pelo mago dos comic books depois do advento da internet. Poderia ficar só nisso. Mas não. O homem que veste a fabulosa armadura miniaturizante (notem que a ideia, longe de ser original, já costurava a narrativa em seriados como Viagem Fantástica ou Terra de Gigantes) não é, como Peter Parker, Tony Stark ou o Homem Elástico (isto é novo!), um “homem de bem”, seja ele estudante ou cientista brilhante ou, simplesmente, um milionário.

O escolhido pelo criador do poderoso traje (a personagem vivida por Michael Douglas) é, ao contrário de todo herói da Marvel anterior a ele, um fora da lei. Um hacker que, assim como seus simpáticos ex-colegas presidiários, jamais infligiu maus tratos a qualquer ser humano, tendo sido recluso exclusivamente por roubar dos mais ricos (o grande capital corporativo, neste caso) para distribuir aos mais pobres. Relativizando e banalizando, portanto, um ataque, até então condenável, à propriedade, numa perfeita reedição do mito de Robin Hood – que, respeitadas as nuances de cada época, fazia rigorosamente o mesmo.

Isto importa ? Acho que sim. De que maneira ? Ainda não sei muito bem. Nem estou, aliás, preocupado com isto – já que a história do homem que encolhia ainda será muito comentada – a começar por prometer, na sequência (e não sei com que grau de ineditismo), um verdadeiro filé psicanalítico, a saber, a heroína convocada pelo próprio pai a assumir o lugar da mãe. Duvido que qualquer lacaniano que se preze resista a isto.

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In praise of vinyl

Republico, abaixo, texto que escrevi em meu blog antigo, a propósito da aparentemente bizarra moda inglesa de anos atrás de reunir pessoas para ouvir, em casa, LPs inteiros. Acho que, de algum modo, aquela iniciativa pode estar relacionada à nova tendência, relatada pela BBC, de jazzistas ingleses (sempre os bretões !) se apresentarem em suas próprias residências. Tirem suas próprias conclusões.

O texto foi repostado com atualizações da época de sua publicação original.

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Sem lembrar ao certo quando ouvi pela última vez um álbum de forma ininterrupta, posso, no entanto, afirmar, com certa margem de segurança, que foi algum LP, antes de ter adquirido meu primeiro tocador de CDs por volta do final dos anos 80. Não que, depois disto, não tenha desfrutado de audições prolongadas (e repetidas !) de movimentos sinfônicos e camerísticos favoritos ou faixas memoráveis de Bill Evans ou afins, tanto em áudio de alta fidelidade (mais raramente) como em mp3 (diariamente, enquanto caminho). É que, numa era de abundância digital, a audição lenta e concentrada acabou se tornando praticamente um luxo – para o qual precisamos abdicar de apenas classificar, por amostragem, um volume enorme e crescente de gravações facilmente acessíveis recomendadas por fontes confiáveis como capazes de atender às mais altas expectativas.

Por isso, já no início dos 90 eu admirava a obstinada diligência de alunos do Instituto de Artes da UFRGS (uns poucos, admito – não por acaso os melhores) que consagravam parte de seus finais de semana à fruição integral de óperas de Wagner em videocassete. Eu próprio, já então acostumado à repetição insistente, para desespero de alguns, dos primeiros movimentos da primeira sinfonia de Brahms e das terceiras de Beethoven e de Nielsen (bem como da música de câmara do primeiro !), não me furtava de achar aquilo tão elogiável quanto bizarro. Mahler e Bruckner sempre se situaram, confesso, além de meu limite de concentração, quer pelas limitações dinâmicas dos equipamentos reprodutores (até hoje !), quer por suas formas pouco concisas e, em decorrência, seu uso, digamos, pouco ecológico do tempo de audição.

Guardo, no entanto, desde que me tornei um colecionador de música em mp3 (quase toda ela anterior aos anos 80), ótimas recordações de quando ouvia sem pressa LPs que preservo até hoje, à espera da oportunidade de, tendo reinstalado caixas de som com alto-falantes de 12 polegadas de cones rígidos montados sobre carcaças de metal fundido e alimentados por amplificadores robustos (ainda sou do tempo que se escolhia equipamento de áudio de alta fidelidade pelo peso), proporcionar este tipo de experiência a meus filhos – e estremeço de medo só de pensar que eles não venham a perceber qualquer diferença em relação a como se acostumaram a ouvir música.

Neste quadro, exultei com uma possível mudança cultural, notada quase simultaneamente pelo Guardian, pelo The Telegraph, pela BBC e, logo depois, pelo sempre atento a novas tendências musicais Hypebot, indicada por uma iniciativa emergente na Inglaterra conhecida como Classic Album Sundays e reconhecida como parte de um movimento mais amplo muito apropriadamente designado por slow listening.

Seus idealizadores buscam, antes de tudo, resgatar o sentido do álbum. Para tanto, seus participantes mergulham, a cada encontro, na audição coletiva e concentrada de LPs antológicos. Offline, é claro: no texting allowed. Os álbuns são curados pelos próprios participantes e discutidos depois de ouvidos. Dentre os discos citados na matéria da BBC figuram The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd, e um de Milton Nascimento com o Clube da Esquina (!).

Então, que a ideia destes valentes bretões possa ao menos servir um dia, quem sabe, de inspiração a iniciativas análogas por aqui – as quais, se já existem, até o momento ignoro.
E enquanto isto não acontece, torno a uma questão complexa que há muito me intriga, a saber, se a tão incensada superioridade da experiência de escuta de discos de vinil em relação à de CDs se deve mais a vantagens tecnológicas de um meio sobre o outro ou, antes, à qualidade da música predominantemente gravada em cada um. Ou, dito de outro modo, o que piorou mais de lá para cá: a tecnologia ou a música ?

Tenho minhas suposições. Quero conhecer as suas.

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Update #1: reproduzo, a seguir, comentário postado no facebook por Marcos Abreu, amigo e eminente autoridade em matéria de áudio.

Meu caro Augusto, a superioridade entre os meios é relativa. Se pensarmos, em termos de informação, um vinil, para ter mais qualidade que um cd, teria que ser produzido integralmente em um sistema analógico de altissima qualidade. Difícil nos nossos dias. Quem sabe em um vinil antigo. Não podemos dizer que um vinil que tenha sido gravado em sistema digital seja superior a um cd. Até porque a informação já foi perdida pelo caminho. Escuto discos de vinil quase diariamente. Sem problemas. Afinal, o que interessa é a música, não o meio.

Update #2: meus amigos definitivamente elegeram o facebook para comentar este post; por isso, reproduzo também o que disse por lá Milton Ribeiro, talvez o mais dedicado ouvinte qualificado que eu conheça.

Ouvi hoje, ontem e anteontem álbuns inteiros…

 

eu sigo (ii): Fabio Zanon; ou de como algumas relações virtuais podem ser tão ou mais importantes do que grande parte das presenciais

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Não canso de dizer que redes sociais, quando bem utilizadas, viabilizam ótimas conversas, de um tipo que dificilmente teríamos na maioria dos círculos que frequentamos presencialmente. Tais laços virtuais possibilitam um contato imediato com quem melhor reputamos em cada campo de atividade ou conhecimento. Como, por exemplo, Fabio Zanon, violonista e regente, professor da Royal Academy of Music de Londres e coordenador do Festival de Campos do Jordão.

Alguém, portanto, bem ocupado – mas que, por força e graça de redes conhecidas como PLNs (personal learning networks), sempre encontra tempo para participar de discussões interessantes – agregando, com isto, inteligência e nuance a tudo o que comenta. Mas não pensem que, por isto, Fabio seja um tagarela em redes sociais. Ao contrário, é bem lacônico, limitando sua presença virtual a interessantíssimos rastros deixados, na maioria das vezes, em caixas de comentários sob postagens alheias, lidas por um punhado de curiosos.

Quando trato de temas, tais como a música orquestral, em que minha percepção é contaminada pela proximidade excessiva, tendo a assumir posições compreensivelmente partisanas, por vezes até bem radicais. Exatamente por isto, gosto de provocar Fabio em busca dos tão raros e almejados contraditórios qualificados. Seja em defesa da existência de uma didática da regência, ou então sobre a liberdade e a responsabilidade do executante em relação à intenção do compositor.

Pois foi dia desses, por conta de minha diatribe contra desvios drásticos de andamentos explicitamente indicados por compositores por meio de notações metronômicas para a execução de suas obras, que, no intuito de ampliar a discussão por meio dos tais contraditórios qualificados, acabei por invocar Fabio, que acudiu prontamente. Se transcrevo, abaixo, o que ele disse em caixas de comentários, é para que tenham uma ideia de como prezo conversas assim. Ao ponto de querer lhes conferir permanência sob a forma de posts autônomos. Colaborativos, se preferirem. Notem, ainda, antes de proceder à leitura da conversa, que a mesma foi iniciada por Marcos Abreu (de quem já falei, ainda que de passagem, aqui, e devo tornar a falar mais cedo ou mais tarde).

MA:Vejamos se isso convence. Bolero, Ravel. Existem gravações entre 15 e 21 minutos. O que tu acha da flexão?

AM: Primeiro, temos que ver se Ravel especificou ou não um andamento para só então descartar as versões mais discrepantes como caprichosas. Li que, dos mais modernos, só Mahler deixou andamentos a critério de maestros. Confere ou não, Fabio Zanon ?

AM: Conferi no IMSLP: Tempo di bolero. Moderato assai. “semínima” = 72. Ou seja, é fácil identificar versões fiéis ao compositor.

MA: Qual seria então a “melhor” duração Augusto Maurer ?

AM: Pode até ser. Mas é pouco provável que qualquer versão em andamento muito discrepante não traia muito da intenção composicional em tudo o que diga respeito a expressão, fraseado, caráter e afins. Considero o tempo de qualquer música tão preciso quanto o ponto de uma massa, i.e., é muito pequena a latitude que define o verdadeiramente “al dente” como distinto do muito duro e do irremediavelmente cozido demais.

AM: De resto, penso que, se compositores não considerassem andamentos importantes, não se dariam ao trabalho de os anotarem minuciosamente.

FZ: Não sei. Bartok só colocava o andamento metronômico. Eu acho indicação metronômica a coisa mais romântica e idealizada que pode existir. Tem gente que coloca variações de andamento de dois ou três pontos, o que, na prática, não significa nada; é uma maneira de se dizer que o andamento é o mesmo, mas a atitude diferente. Tem muitas indicações metronômicas que são de precaução. Algumas de Beethoven me parecem um pouco exageradas até para instrumentos de época, o que pode querer dizer que elas são um aviso para se tocar no talo o tempo todo. Colin Davies disse uma vez que, quando foi reger The Rake´s Progress, o Stravinsky corrigiu o andamento dele e ele respondeu ” maestro, mas estou rigorosamente no andamento indicado na partitura”, ao que Stravinsky, justo ele, respondeu ” mas isso só vale para o começo!”.

AM: Ou seja: cada caso é um caso ? Também li que Celibidache foi um dos mais eminentes defensores da prerrogativa do maestro de interpretar andamentos ao bel prazer. De acordo com a acústica de cada auditório, dizia. Mera desculpa, ou tinha alguma razão ?

FZ: Eu prefiro encarar o andamento como uma mala que a gente tem de escolher de acordo com o que vai levar. Não adianta uma mala linda e autêntica se ela é grande ou pequena demais para o que se vai por dentro. O conteúdo da mala depende do teatro, de variações pequenas de humor de uma hora para outra, da facilidade técnica de quem vai tocar, ou seja, um valor absoluto de metrônomo me parece uma coisa totalmente idealizada. Por exemplo, ouça o Duo Assad. Tudo soa orgânico, justo, vivo, rítmico e livre. Praticamente qualquer outro violonista que tocar naquele andamento vai soar um pouco estressado, porque quase ninguém tem uma técnica tão ágil e fluida quanto a deles. Se eles tentarem tocar mais devagar, a música perde o nervo.

FZ: Celibidache tinha uma capacidade de produzir um sostenuto com qualidade numa orquestra que seria triste ouvi-lo reger tudo mais rápido. Ele tinha substância para carregar, então sempre usava malas grandes.

FZ: Mas fazer o que dá na telha é irresponsabilidade. A gente tem de tentar o metrônomo original ao menos para ver de que se trata, para refletir. Muito raramente eu passo muito longe das indicações metronômicas do compositor. Faço isso nos estudos de Mignone.

AM: Eis minha questão inicial, i.e., qual o tamanho máximo da margem tolerável de flexão de andamento – que costuma ser, quase por convenção, um ponto metronômico a mais ou a menos (que resulta, na prática, numa variação de menos de 10% do andamento). Por exemplo, aceitamos um allegro de sonata clássica (o primeiro movimento de qualquer concerto de Mozart) entre 120 e 126 – mas não toleramos ouví-lo a 116 ou 132. Do mesmo modo, dificilmente alguém suportaria ouvir o último movimento (rondó em 6/8) do concerto de clarineta de Mozart fora da faixa de 72-76 por tempo. Então, considero abusiva uma execução de uma partitura que prescreva uma colcheia a 76 com a mesma a (pasmem !) 60 – o que equivale a 20% mais lento (!) do que o andamento original. Entendem, então, a ordem de grandezas de que falo ?

AM: Obrigado pela ótima conversa, tão instrutiva !

Meu trecho favorito desta conversa é, sem sombra de dúvida, a teoria das malas do Celibidache.

Se você conseguiu ler isto até aqui, espero ao menos lhe ter convencido de que, ao se configurar uma PLN, nem sempre o que mais importa é o que é postado sob um perfil, mas sim como o mesmo interage, principalmente por meio de comentários, com outros perfis componentes da rede na qual se insere. Pois há, obviamente, mais informação, senão relevante ao menos interessante, nos pontos de fricção entre enunciados do que, propriamente, em cada enunciação monológica. Daí a imensa superioridade dos textos colaborativos sobre os demais. Ainda que estejamos, neste campo, recém engatinhando.

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Não sei bem por que, acho que leitores não devem ser abandonados em meio a formulações muito abstratas. Por isto, deixo a todos que me contemplaram com sua atenção até aqui este filme, de Carlos Kleiber ensaiando a abertura O Morcego, que me foi enfaticamente recomendado por Fabio como “uma hipnose”.