Para que servem orquestras ? Por que sua existência deve ser garantida pelo estado ?

batutas-14Já ouvi de uma amiga, eminente economista de inclinação liberal, que é papel do estado assumir direitos dos cidadãos desprezados pelo capital privado. Orquestras, como um dos mais conhecidos e onerosos equipamentos culturais, pertencem a esta categoria. Tanto que as poucas mantidas predominantemente por recursos públicos são constante alvo de projetos de enxugamento por parte de partidos que almejam um estado mínimo. Nessas horas é que mais pessoas se perguntam para que servem, afinal, orquestras sinfônicas. Pergunta difícil, que tentaremos responder abaixo, por partes.

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A primeira e talvez principal razão para a existência de orquestras sinfônicas tem a ver com a execução de um repertório, altamente redundante, predominantemente composto durante um período de uns 200 anos por europeus em sua maioria.

Poucos compositores compõem (cada vez menos) ou compuseram sinfonias. Os bons, pelo menos umas 4; os melhores, raramente mais do que 9 (depois de Haydn ou Mozart (cuja produção juvenil deve ser, para efeito de execução pública, descartada), só aqueles dois russos). De sorte que, se ouço falar de algum sinfonista vivo, fico imediatamente curioso, tratando logo de verificar se o mesmo efetivamente se ergue acima dos ombros de um Mahler, Nielsen ou Shostakovich. Costumo me decepcionar.

Neste contexto, não são poucos os que taxam a música sinfônica de ser, além de francamente elitista (refutaremos esta falácia noutra ocasião), limitada a um repertório fechado e redundante. Têm razão no que toca ao reperrtório. Mas isto não quer dizer que orquestras sejam de modo algum obsoletas.

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Uma segunda razão para a manutenção desses conjuntos musicais, dedicados à execução repetida de um repertório composto quase totalmente no passado, até tidos por uns como dinossauros (não falarei, neste post, de extinção, prevista por alguns, de orquestras como hoje as conhecemos (i.e., fixas) em até 30 anos), é que não se pode conceber a plenitude da audição de um bom concerto sinfônico em um bom auditório a não ser pela própria experiência.

Deste modo, ninguém pode conhecer, de fato, uma sinfonia meramente pela reprodução de gravações da mesma. Isto por que, enquanto na plateia de um concerto ouvimos sons produzidos por fontes dispersas em um espaço contínuo que chegam até nós refletidos por múltiplas superfícies, quando escutamos música gravada ouvimos, na maioria das vezes, sons vindos de apenas duas fontes (quando em estéreo) ou, mais raramente, em até 5 canais (como em algumas salas de cinema). Não é a mesma coisa.

É difícil explicar a quem nunca foi a um bom teatro ouvir boa música tocada por uma boa orquestra por que a experiência é bem diferente de ouvir uma gravação da mesma música nos melhores home theaters. Ainda mais hoje, que chegamos instantaneamente à melhor música sinfônica (as melhores obras pelas melhores orquestras com os melhores solistas e maestros) já está há muito disponível online, em plataformas como o youtube. Só que nenhuma gravação de som ou imagem obtida por meio de qualquer tecnologia conhecida substitui a experiência única de ouvir esta mesma música ao vivo em um concerto. Muito se pode falar da degradação histórica da qualidade de experiência auditiva em espetáculos musicais. Da amplificação eletrônica, do fim do silêncio, do encurtamento das formas. Mais tarde, talvez.

Por hora, apenas deixemos sublinhado que há muitos outros aspectos a serem observados na participação como ouvinte em concertos sinfônicos, principalmente se levarmos em conta a evolução dos espetáculos musicais desde seu surgimento até os dias atuais. Mas, como disse ainda há pouco, so much for one post (mais tarde, quem sabe…) Que fique apenas registrada, por enquanto, a enorme importância, em qualquer época, dos ritos de escuta coletiva, sincronicamente compartilhada.

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O que está escrito acima é uma revisão severa da parte aproveitável de algo editado pela última vez mais de um ano atrás (joguei a maior parte fora). O rascunho foi desencadeado pelo fato de eu ter sido incumbido, ainda antes, numa assembleia de músicos da OSPA, de redigir algo que, de algum modo, esclarecesse à opinião pública para que serve, afinal, uma orquestra hoje. Se demorei, no entanto, para retornar à tarefa – mesmo com sua questão norteadora reverberando incessantemente desde então em minha mente (com efeito, é para mim praticamente uma questão de vida), foi por jamais julgar ter elencado motivos suficientes ou suficientemente bons.

Até uns dias atrás. Por meio do seguinte comentário que deixei sob uma postagem no facebook, respondendo a alguém que acreditava que orquestras devem subsistir exclusivamente do que arrecadam na bilheteria de seus concertos:

Orquestras não pertencem, como muitos devem acreditar, à indústria do entretenimento e, portanto, não podem depender de arrecadações de bilheteria. São, sim, sofisticadíssimos equipamentos educativo-culturais, cuja função é ampliar horizontes estéticos. Se tiverem, no entanto, que depender do gosto do público e da mesmice que o mesmo estaria disposto a pagar para ouvir (para isto existem as mídias comerciais), já não servem mais para nada.

Foi, ao que me recordo, a partir deste instante que me ficou absolutamente claro (como não me dei conta disto antes !…) que orquestras não podem nem devem ser populares nem tampouco (portanto) gerar lucros. Para explicar o por que disto, preciso de um outro post, que já prometi acima, sobre a evolução das plateias de espetáculos musicais. Por enquanto, é suficiente dizer que, por sua pouca afinidade natural ao lucro, orquestras devem ter sua existência, como disse minha amiga liberal, garantida pelo estado. Caso contrário, têm suas atividades corrompidas (como pode ser visto em tantos casos próximos e distantes) ao serem utilizadas, em muitas ocasiões, muito aquém de todo seu potencial artístico.

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Atualização em 25/1/2017: Este texto dialoga diretamente com outro, de André Egg, publicado ontem: A importância de orquestras e sua manutenção. Ele vê alguma contradição entre o que eu disse aqui e quase três anos antes em Políticos demais (iii): anotações para uma reforma política. Obrigado, André, por tocar em frente uma discussão tão importante ! Terei que me puxar para oferecer uma réplica à altura.

Um último post em 2016: a tentativa de extinção da Fundação Piratini num contexto distópico maior

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Sei que agora, quando todos devem se unir para salvar a Fundação Pirtatini, talvez não seja o melhor momento para refletir com um pouco mais de profundidade sobre o contexto que, se não levou a ela, ao menos favoreceu a extinção pretendida das emissoras estatais gaúchas.

A extinção é socialmente nociva e, como tal, deve ser combatida por todos com todos os meios possíveis. Ainda assim, vejo com alguma desconfiança o valor para a causa de uma enquete promovida pela Rádio Guaíba sobre a aprovação popular do pacote de maldades do governo Sartori. Quando votei, o placar estava em 60% contra X 40% a favor. Me disseram que já esteve pior, com 56% contra e 44% a favor. Mesmo assim, 40% é mais dos que os votos obtidos em primeiro turno por alguns vencedores das últimas eleições.

Ora, é impossível entender estes resultados, ainda que preliminares, com tanta gente a favor da extinção das fundações, sem levarmos em conta por quem a enquete foi promovida. Pois a Rádio Guaíba pertence à Igreja Universal desde 2007, quando foi comprada, juntamente com o Correio do Povo e a TV Guaíba, pela Rede Record. Então, não é possível se confiar na representatividade demográfica do recorte social que respondeu à enquete. Ou, se quiserem, considerem a amostra viciada.

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Minha reflexão, talvez para depois que a Fundação Piratini tenha retomado suas atividades e não esteja mais sob ameaça, tem a ver com a política de concessões dos meios eletrônicos de broadcasting (i.e., rádio e TV). Reza o mantra liberal que a concorrência aprimora a qualidade e que, portanto, estações públicas estariam fadadas, pela própria ausência de concorrência, no máximo à mediocridade. Não é, entretanto, o que se tem visto. Exemplos estrangeiros de broadcasting público de qualidade exponencial são a BBC inglesa, a PBS norte-americana, e os múltiplos canais públicos franceses e italianos. No Brasil, a TV Cultura é uma referência imbatível em muitos quesitos. Aqui, tínhamos, nos mesmos patamares, a TVE e a FM Cultura. Infelizmente, só até poucos dias atrás.

Ora, não consigo ver a tentativa de extinção da Fundação Piratini e seus veículos simplesmente como um fenômeno isolado, independente do avanço das emissoras evangélicas. O desmonte faz parte de um plano maior, com o silenciamento de vozes independentes, submetidas ao controle social, em favor das vozes de grupos religiosos dedicadas ao enriquecimento de seus líderes. Grupos que já tomaram o poder legislativo e agora tentam aniquilar todo espírito crítico (vide reforma do ensino, escola sem partido ou até o delírio calheiriano de vir a criminalizar a web) por meio da supressão dos únicos veículos cuja programação e linha editorial não eram deixados ao sabor do mercado.

Então, sem mais delongas, se fosse para resumir este post a um slogan, este seria:

Mais emissoras públicas

e

Fim da concessão de prefixos de rádio e canais de TV a grupos religiosos !

(estas bandeiras deveriam ser imediatamente agregadas à luta pelo fim da isenção tributária das organizações religiosas)

Enquanto isto, precisamos, como sociedade, nos aprofundar na discussão de quem deve e quem não deve controlar meios de rádio e tele difusão. Pois a extinção da Fundação Piratini, conquanto revoltante, é só a ponta de um iceberg. O pior ainda está por vir. Que sejamos vitoriosos em 2017 !

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Por que deixei de ser escoteiro

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Sempre amei as atividades das tardes de sábado e noites de quarta do Grupo Escoteiro George Black. Mais ainda os acampamentos e acantonamentos. Se hoje consigo me virar bem na maioria das coisas práticas, devo isto, indubitavelmente, a minha vida escoteira. De modo que eu estaria disposto a recomendar o movimento para qualquer jovem em idade escolar, não fossem dois senões, esmiuçados a seguir.

Eu havia me saído bem em todas as provas para me tornar de escoteiro noviço e de segunda classe, colecionando as respectivas insígnias, quando, prestes encarar os últimos ritos para me tornar um escoteiro de primeira classe, meus chefes abandonaram repentinamente sua disposição, demonstrada em ocasiões anteriores (i.e., nas provas de noviço e segunda classe), de fazer, na prova de religião, vista grossa a minhas convicções ateias. E, posto que a prova deveria ser “assinada” pelo líder religioso que eu seguisse (no caso, o pároco da igreja onde eu fora batizado, o qual sequer me conhecia), jamais logrei passar naquela prova. Aí começou meu desinteresse pelo movimento.

Paralelamente, a curiosidade me levou, alertado por boatos, a pesquisar (naquele tempo não havia a wikipedia nem a web !) em outras fontes a polêmica biografia de Lord Baden-Powell, o grande mentor do movimento. Nessas leituras, fiquei sabendo que o fundador, reverenciado por milhares, talvez milhões, de escoteiros, escotistas (chefes de escoteiros) e simpatizantes ao redor do planeta como um educador visionário foi também o principal responsável pela dizimação de tribos inteiras em campanhas militares colonialistas britânicas no continente africano. Para não entrar em muitos detalhes, basta pesquisar sobre a Guerra dos Boers.

Aquilo foi demais para mim.

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Update: copio abaixo, pela relevância, uma contribuição deixada por André Serrano sob a divulgação deste post no facebook (por natureza, muito mais interativo do que este blog). Se tiverem tempo, não deixem de abrir o link ao fim do comentário.

” chamei a atenção de alguns chefes sobre as verdades que estão vindo à tona… parecem fazer pouco caso dos fatos… acho que preferem a negação a terem de dar o braço a torcer de que continuam a ajudar a glorificar um homem que não tem nenhum merecimento.
a falta destas informações era total, na nossa época.
por isso os chefes estão, por mim pelo menos, perdoados.
mas não perdoo os chefes de hoje, pela recusa de pesquisar sobre as verdades… chega a ser contra o próprio movimento essa negação, esse pacto com a mentira, esse faltar com a palavra pra sí próprio.
“sempre alerta”?!!! sei……
aqui vai UM dos vários links:
http://www.theatlantic.com/…/christopher…/272683/ 

A polêmica do ano: o Nobel de Literatura para Bob Dylan

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Uma das melhores coisas das festas natalinas é encontrar familiares, parentes e amigos de cuja presença raramente desfrutamos, apesar de estarmos, hoje, muito mais conectados. No meu caso, a grande alegria desses festejos se traduz em encontrar os primos com quem passei todas as férias de verão de minha infância e juventude em Capão da Canoa.

De sorte que foi numa dessas festas que meu primo André me explicou por que toda música popular depende da repetição e que meu primo Robson proferiu a frase que não para de reverberar, desde então, em minha mente (ah, a vaidade…): ” – Então, Guto (são os únicos que me chamam assim), foste o polemista do ano ? “

É claro que tomei aquilo por um grande elogio. Voltei para casa encafifado. Abri o administrador do blog e percorri os títulos de tudo o que escrevi em 2016 em busca de tudo o que pudesse ser classificado como polêmico, tendo encontrando, no entanto, entre os posts mais recentes, além da diatribe contra Carmina Burana (que gerou, além de um ilustradíssimo thread de comentários, até um contraditório mais extenso que deu origem a um blog (!)), pouca coisa que pudesse rotular de ostensivamente polêmica – como, por exemplo, a diatribe contra o crossover (de 5 de setembro de 2015) e um post sobre a permanência das músicas tonal e atonal (de 21 de maio de 2014), sendo que o último foi o quarto texto a ser publicado aqui – sugerindo, com isto, que a busca por grandes polêmicas vem sendo uma tônica no impromptu desde a sua criação.

Não tendo achado, assim, no blog, evidência suficiente, a meu ver, para que eu pudesse ser tido por amigos queridos como polemizador contumaz, pensei em minha atividade em redes sociais (restrita, em meu caso, ao facebook) e aí sim, devo admitir: busco, antes de tudo, o contraditório veemente e qualificado. Tanto que já me acostumei a ser rebatido por interlocutores dos mais respeitáveis.

Feliz, então, com o elogio natalino, me dei conta de que, na urgência da interação cotidiana em rede, deixara de transportar, em 2016, para a permanência mais reflexiva do blog aquela que talvez tenha sido a principal polêmica do ano, a saber, o Prêmio Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan. Logo que anunciada, a láurea causou tanto a indignação de bibliófilos quanto o regozijo dos especialistas em canção popular. Mais do que qualquer mérito literário de Dylan estava em jogo, antes de tudo, a própria noção da letra de canção como campo literário.

Enquanto muitos especulavam sobre se ele aceitaria ou não o prêmio, Dylan permaneceu em silêncio. Até fazer lerem, na cerimônia de entrega do prêmio, uma carta cuja principal tese é a de que ele, como Shakespeare (sic !), jamais aspirara ao status de literatura para aquilo que fazia. Peças teatrais e canções, num e noutro caso. Penso que a analogia não seja válida, por uma razão muito simples: embora tenhamos hoje uma noção relativamente clara, ainda que empiricamente deduzida, sobre no que consiste, afinal a literatura, não tenho tanta certeza assim de que houvesse, nos tempos de Shakespeare, o mesmo entendimento. O que era literatura para o inglês comum daquela época ? Por certo algo bem diferente (se é que, nos primórdios da autoria individual, significasse alguma coisa) do que significa para alguém do nosso tempo.

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Conheço pouco as canções de Dylan para lhes aferir o valor. Se levou o prêmio, é por que fez alguma coisa antes de qualquer outro (poderiam, por gentileza, me dizer o que ? Esta não é uma pergunta retórica). Pois reconheço mais sua voz do que seus versos. O que não ocorre com, pelo menos, letristas que também sejam poetas maiores. Então, em minha ignorância quanto a seus textos, o trato, doravante, mais como dono de uma voz (intérprete) do que como um autor (songwriter). Sei que esta simplificação é grosseira e que devo, portanto, estar enganado.

Consoante a isto, me espanto com a concessão da icônica láurea literária ao autor de, antes de qualquer outra coisa, uma vasta coleção de canções. Não, o álbum (primeiro o LP; depois o CD) não é, salvo um ou outro tíitulo conceitual mais experimental, uma unidade discursiva. No máximo, uma unidade de distribuição comercial. Um pacote, se quiserem. Ainda que integrado por um punhado de canções, conquanto autônomas, que tenham sido compostas em um mesmo contexto criativo ou executadas pelos mesmos músicos. Como poemas em um livro, dirão – com o que terei que concordar. Só que dificilmente, suponho, alguém lê um livro de poemas linearmente, como se todos os seus versos fizessem parte de um encadeamento obrigatório. Então, podemos dizer que, num volume de poemas, a extensão monológica (definida no próximo parágrafo) se limita, na maioria das vezes, a cada página.

Não pensem vocês que minha decepção com a nobelização de Dylan tenha a ver, de algum modo, com a abolição da impressão encadernada como província exclusiva da expressão literária. Tal argumento é purista e raso. Minha estranheza em relação à nobelização de Dylan se deve, antes, a um parâmetro que poderia ser descrito como extensão monológica. A expressão é autoexplicativa. Tem a ver como o tamanho da narrativa autoral. Autores criam romances, novelas, contos ou poemas. E, mais recentemente, posts e tweets. Então, da mesma forma que não consigo equiparar movimentos de 10 ou 15 minutos com singles de 3 ou 4, ainda me causa bastante estranheza a atribuição de excepcionalidade a qualquer coisa menor do que grandes blocos monológicos. Pois, até o desconcertante Nobel de Dylan, estávamos (eu, pelo menos) acostumados a reconhecer algum gênio apenas em obras monumentais de gigantes como Mann, Proust, Dostoievski ou mesmo dramaturgos como Shaw ou Shakespeare, que dominaram as grandes formas (o grande romance, o drama em vários atos). Reconheço até a dimensão literária das obras de poetas maiores como um Pessoa, um Whitman ou um Drummond. Só que, do poema autônomo para a letra de uma canção (embora muitas vezes o primeiro tenha sido apropriado como o segundo), há uma enorme distância. De tal modo que acho bem mais difícil pensar em autores de letras de canções populares no mesmo patamar criativo de donos das melhores narrativas e da melhor lírica de seus tempos. Mas não devo reclamar, no entanto, se as definições das categorias são tão variáveis. Ao contrário. Nem me surpreender se, num futuro não muito distante, o nobel de literatura for concedido a alguém cuja produção verbal esteja restrita só à internet ou (por que não ?) a meios não escritos. Quem sabe até textos colaborativos.

Ainda assim, se for para reconhecer, como fez a Academia Sueca, a canção como literatura, sou mais Chico Buarque. De ignorante que sou. Já vocês, que conhecem música popular bem melhor o que eu, devem ter outros favoritos cujos discos levariam para uma ilha deserta muito antes dos de Dylan (que, é claro, também tem grandes méritos !).

Também não deve ter passado despercebido a nenhum bibliófilo que o único livro já escrito por Dylan não passe, como li nalgum lugar, de “prosa lisérgica”. Sem qualquer curiosidade por conhecer o original, preferi, no entanto, entender a descrição, conquanto preconceituosa, antes como referência a alguma liberdade linguística, como em Joyce ou em Guimarães Rosa. Só que, ainda que por puro preconceito, escolheria mil vezes, dentre aqueles livros dignos de serem levados para a ilha deserta, Ulysses e O Grande Sertão: Veredas a Tarântula.

Então, como dizia o Manolo: ” – Que venga el toro ! ” (quiçá esta virtuosa polêmica não fique restrita apenas a este post !)

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(prometi a mim mesmo, ao iniciar este post e em nome da paciência de meus leitores, não me referir outra vez ao fascinante Parêntesis de Gutenberg)

(pensando melhor, há um germe de polêmica em praticamente tudo o que escrevo por aqui. Desde a escassez ou a abundância do talento para a regência orquestral até a volatilidade das profissões ou a obsolescência da publicidade e da representação política. Pois polemizar é, acima de tudo, atiçar os espíritos críticos)

Sobre o que supostamente move a atenção de quem lê blogs; ou In praise of colaborative writing

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Num mundo perfeito, todos teriam blogs. Pouco importa se música, fotos, vídeos, desenhos, receitas, impressões sobre filmes vistos, comidas saboreadas, embates esportivos e, é claro, política, todos tem algo a dizer ou mostrar. Mais interessante do que aquilo que se vê, ouve ou lê na mídia na maioria das vezes. Lamentavelmente, ainda são bem poucos os que percebem (pois só a isto consigo imputar a letargia de escolas, mesmo as de alunos mais abastados, em sua implementação curricular) os enormes benefícios da utilização de blogs para o ensino de redação ou ainda, num sentido mais amplo, configurações mais conectadas e descentralizadas de autoria..

Tal contexto utópico é o oposto perfeito do modelo experimentado na cultura de broadcasting em que estamos imersos – na qual, por definição, as vozes de poucos se fazem ouvir em prejuízo das vozes silenciadas da maioria. Em quaisquer meios, reverberam apenas as vozes de uns poucos políticos, religiosos, autores (ocultos por trás de atores e personagens) e anunciantes (invariavelmente grandes empresas, pois o limiar inferior de anúncio em toda grande mídia exclui, por definição, todo pequeno anunciante. Tal desequilíbrio (determinado, por assim dizer, por… investimento publicitário, na propagação de vozes de diferentes grupos) ocorre igualmente na política, na religião, na mídia e em toda a parte onde interesses colidam.

Então, só para, de vez em quando, fazer algo útil (já que, ultimamente, venho sendo, como pode ver quem acompanha o que é postado neste blog, taxado de inútil, improdutivo ou ocioso (como se o último fosse um defeito !)), deixo, neste post e noutros vindouros, à guisa de sugestão, anotações sobre hábitos que conspiram para a manutenção de um blog, senão bom, ao menos legível.

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Tenho por bem, ao publicar, me ater a recomendações de outros mais experientes do que eu. Consoante a isto, ao longo dos anos aprendi que

posts com figurinhas são mais visitados do que aqueles em texto puro; por isto, sempre que termino de escrever algo novo (invariavelmente um texto puro), procuro na web as imagens que melhor o possam ilustrar;

leitores evitam títulos em língua estrangeira. Tão somente por isto, parei de insistir em iniciar títulos de postagens com expressões em inglês como, por exemplo, on conducting ou on writing. Assim, sem desistir por completo das categorias em inglês (que acho bem úteis para fins de catalogação), passei, no entanto, a lhes posicionar, a conselho de meu editor, não mais no início mas no final dos títulos de cada post;

textos com vocativos claros (isto é, que falam inequivocamente de uma pessoa (tais como as cartas abertas a um secretário de estado, a um gestor de uma fundação estatal ou, ainda, mais recentemente, em defesa da diretora de uma unidade de uma universidade federal) despertam nos leitores muito mais interesse do que aqueles aludindo exclusivamente a questões abstratas, teóricas, hipotéticas ou, simplesmente, impessoais. Ou, como bem disse um amigo, “as pessoas querem é ver sangue”. Tanto reconheci tal evidência que declarei, há tempos, chistosamente, que, doravante, só escreveria cartas abertas.

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Ainda há muito a aprender. Talvez não devesse, ao escolher um título ou um tema, dar tanta importância aos preceitos acima. Pois, mais do que quaisquer índices de visitação absoluta, me parece muito mais importante, para qualquer coisa postada na web, a quantidade e a relevância dos comentários por ela ensejados. Tanto que, de uns tempos para cá, venho cada vez mais trazendo para a permanência do blog threads de comentários deixados no facebook sob postagens de divulgação de novidades por aqui. Até por que, muitas vezes, suplantam em precisão e profundidade tudo o que foi dito no caput. Tenho para mim esta como sendo uma das principais virtudes de todo discurso produzido na web – que é, por natureza, colaborativo.

Direito de resposta concedido pelo que foi publicado neste blog dois dias atrás

O texto abaixo, uma réplica ao que foi postado neste blog em 20 de dezembro último, foi encaminhado ao Sul21 juntamente com uma solicitação de direito de resposta.

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Falta amor, interpretação de texto e humildade no mundo acadêmico

Sou leitora assídua do Sul21 e admiro as discussões propostas pelo veículo, especialmente pertinentes nesses tempos tão conturbados que temos testemunhado. No entanto, fui surpreendida com uma postagem do músico Augusto Maurer, meu colega no Departamento de Música do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), publicada dia 20/12 sob o título: “Por que irei, logo mais, numa assembléia no Instituto de Artes ocupado da UFRGS”. Ele se diz motivado por uma suposta “peça difamatória” anônima que recebeu, que na realidade se trata da “Carta de Repúdio e Esclarecimento” do movimento OcupaTudoIA[1], publicada na página do coletivo no Facebook e encaminhada por mim ao grupo de professores(as) do Instituto de Artes a pedido de uma colega. Esse encaminhamento apenas aconteceu por nossas mãos porque aquele grupo de e-mails também havia sido o canal elencado para difundir relatos depreciativos sobre os quais os estudantes gostariam de responder, no que, aparentemente, não foram atendidos. Augusto ataca o texto dos estudantes, porém sequer indica o link onde o documento original poderia ser lido, apesar de divulgar sua posição não só no blog, mas em seu perfil na rede social. Também divulgou seu artigo a todo corpo docente do Instituto de Artes, contudo retirou o nome da professora que ele dá a entender estar por trás do texto do movimento estudantil e da influência manipuladora a que ele se refere: a mesma que encaminhou a mensagem, ou seja, eu. Por este motivo, esta resposta por mim concebida representa somente a minha opinião.

O autor nos choca já na abertura, dizendo que não frequenta reuniões departamentais “há uns 20 anos”, registro público de atitude displicente em relação ao seu comprometimento profissional, e ainda justifica-se com o argumento de que julga como “obsoleto protocolo” a maneira em que se dão os diálogos nos referidos encontros. Somado ao fato do colega ter um a dois alunos de clarinete por ano, é possível supor quão significativo é seu envolvimento na Universidade onde é servidor docente concursado.

Na sequência, o autor desencadeia seu raciocínio baseado na incompetência em interpretar corretamente o texto dos estudantes, atribuindo a eles falas que, na verdade, teriam sido ditas pela diretora da nossa unidade, afirmando que estariam pedindo a cabeça da professora “numa bandeja”, e que ela seria uma aliada do governo golpista. No entanto, a Carta evoca episódio de reunião do Conselho Universitário da UFRGS, na qual a diretora teria finalizado o seu discurso com “[…] parece que o governo golpista de Michel Temer encontrou aliados dentro da Universidade” – numa tentativa de associar as Ocupações a ações danosas à Universidade.

Seu artigo está repleto de inverdades, mas o que mais estarrece é a maneira arrogante como despreza a capacidade cognitiva do corpo discente e duvida da autoria colaborativa do documento publicado por eles. Embora critique a habilidade verbal dos estudantes, é ele quem subverte radicalmente o sentido do conteúdo lido, vindo a assumir em sua página pessoal que: “De fato, atribuí equivocadamente palavras da profª Lucia aos ocupantes (as letras do email difamatório eram incrivelmente miúdas…)”. Portanto, num segundo momento, atribui seu equívoco às letras miúdas do e-mail, cujo teor segue classificando como difamatório e de autoria duvidosa.

Completo desconhecedor da essência da Ocupação dos estudantes da sua própria unidade de trabalho, aliás, com a qual parece ter pouca familiaridade, expressa, de forma sarcástica, profundo desrespeito e preconceito pela genuína mobilização estudantil. Confunde a característica colaborativa e coletiva dos posicionamentos dos Ocupantes com a covardia do anonimato; faz uso de artifício sórdido ao citar uma letra faltante em palavra rabiscada numa lousa qualquer para depreciar a habilidade de comunicação verbal do coletivo, afirmando que a Carta dos Ocupantes possui uma “redação impecável”, correspondente às “melhores bancas jurídicas ou agências publicitárias” e que, portanto, fica difícil “acreditar que tenha vindo lá de dentro”.  Sabendo agora que ele pensava em mim quando se referia a um ghost-writer, registro aqui que dispenso veementemente os elogios. E os repasso, por direito natural, aos estudantes Ocupantes responsáveis pela redação do documento. Pensando bem… deixo esses predicados junto à verborragia de seu autor, visto que elogios vindos de um professor universitário que se refere dessa maneira debochada e preconceituosa àqueles que dão sentido de existência a uma instituição de ensino, não merecem qualquer crédito. Pudera eu ter sido mais presente nas mobilizações estudantis, mas meu apoio se limitou à divulgação dos eventos coletivos, idas a protestos e manifestações, bem como realização de uma oficina sobre cultura de paz e contribuições de Paulo Freire. Por estar envolvida com a defesa de minha tese de doutorado realizada na etapa final das Ocupações, acabei apenas levando frutas e doces (por mais paradoxal que seja esta combinação, mas, afinal, a luta não tem que ser amarga!) aos jovens Ocupantes.

Mais deprimente ainda é o fato de o músico ter presenciado a assembleia sobre o balanço da Ocupação, e mesmo depois de ter testemunhado mais de duas horas o encontro de vozes em sua diversidade de pensamentos, num ambiente de solidariedade, de congregação de diferentes segmentos do meio acadêmico, de respeito ao outro e de reflexões ricamente fundamentadas, em nada mudou sua postura pedante. Reunião esta, a propósito, que não contou com qualquer contribuição crítica de sua parte, pois permaneceu calado durante todo o tempo, indo embora antes do final. Parafraseando o jornalista Leonardo Sakamoto, falta amor, interpretação de texto e humildade no mundo acadêmico. Já entre Ocupantes e participantes ativos da assembleia, os sentimentos de empatia e de esperança inundaram a todas e todos.

Por fim, resta-me dizer que foi uma honra e uma satisfação ter participado das Ocupações como docente mobilizada, num verdadeiro turbilhão de acontecimentos, tendo presenciado e vivenciado convergências e divergências naturais a um movimento inédito, pulsante e apaixonado em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade, mas, acima de tudo, em defesa de um Brasil mais justo. Nossos coletivos seguirão mobilizados, envolvendo todos os segmentos da comunidade acadêmica – estudantes, servidores(as) docentes e técnico-administrativos e terceirizados(as), pois como foi dito no balanço final da assembleia da Ocupação do IA, somos todxs sementes.

Luciane Cuervo

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[1] Disponível em: https://www.facebook.com/ocupatudo.ia.1/posts/161660160977767

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Foto tirada no início da ocupação, em 3 de novembro, por Caroline Lütckmeier.

 


Por que irei, logo mais, numa assembléia no Instituto de Artes ocupado da UFRGS

Não gosto de reuniões, nem tampouco de assembleias. Principalmente por causa do obsoleto protocolo de uso da palavra nas mesmas, absurdamente serial para o tempo em que vivemos. Tanto que não vou às plenárias departamentais há uns 20 anos. Até por que a universidade pública brasileira é um paraíso autogestionário onde, felizmente, estou cercado de pares bem mais aptos do que eu.

Hoje, no entanto, irei numa no Instituto de Artes da UFRGS. Entre seus professores, servidores e alunos. Os últimos ocupam o prédio do IA há várias semanas. Durante a ocupação, atividades essenciais para graduandos, como bancas e recitais, foram mantidas por algum tempo e, num dado momento, suspensas por completo. Obrigando, inclusive, alguns alunos a obterem, para o cumprimento de exigências para suas formaturas, salas de concerto fora do IA.

A última, soube agora, é que ocupantes pedem a renúncia à direção do IA da Profª Lucia Becker Carpena, sob alegações, entre outras, de que

Lucia seria golpista, favorável ao governo Temer. O que só pode ser coisa de gente desconectada, que não vê o intenso engajamento de Lucia com as grandes causas, em especial as que tenham a ver com educação; ou, ainda, de que se posicionaria como

defensora da lei da mordaça.

Ou seja: praticamente o diabo em pessoa.

Chama a atenção, também, que Lucia seja a pessoa mais citada na peça difamatória que recebi: seu nome aparece em vários parágrafos. Ou seja: ela (ou se preferirem, sua cabeça numa bandeja) é inegavelmente a pauta do encontro.

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Também não gosto de quem tente se esconder por trás de coletivos anônimos. Assim, preciso descobrir quem de fato redigiu o email (não conto nem sob tortura de quem o recebi – mas aposto que foi enviado à maioria pela mesma pessoa). Enfim, instruído por seja qual for ghost writer, custo a acreditar que o email que me foi “repassado” tenha sido redigido por qualquer dos ocupantes do IA. Que, nos primeiros dias da ocupação, escreveram “tercerização” (ou “tercerizados”, não lembro ao certo) numa lousa – assim mesmo, sem o i depois do segundo e. Já o longo email onde um coletivo anônimo pede a cabeça de Lucia, ao contrário, é de uma redação impecável. Digna, no mínimo, das melhores bancas jurídicas ou agências publicitárias. Difícil, portanto, acreditar que tenha vindo de lá de dentro.

Não entrarei, por hora, no mérito do constrangimento a que outros professores foram (ou não, como dizem os ocupantes anônimos) submetidos.

Só acho que, ao pedir a cabeça de Lucia como diretora do IA, seus ocupantes, conquanto cobertos de razão em sua pauta mais genérica de reivindicações, estão mirando no alvo errado. O golpe está francamente em curso em várias frentes e, enquanto muitos protestam no Congresso Nacional ou na Praça da Matriz, os ocupantes do IA, encastelados no prédio da Senhor dos Passos, serão logo esquecidos e, portanto, mais facilmente subjugados. A menos que, antes disto, ajustem a mira para alvos mais realistas.

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Conheço Lucia há uns 30 anos, desde que fomos colegas também como alunos do IA. É inegável que, naquele tempo, universitários tivessem muito mais perspectiva de um futuro auspicioso do que agora. De modo que não é nenhum exagero se afirmar que se vive hoje no Brasil um cenário educacional distópico, tanto ou mais sombrio do que conforme imaginado em The Wall, do Pink Floyd, ou, ainda, em O Inimigo da Classe, de Peter Stein (Klassenfeind, Alemanha, 1983).

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Cena de Klasenfeind, de Petet Stein (Alemanha, 1983)

De qualquer modo, penso que o IA tenha sorte de ter à frente, como diretora, alguém como Lucia. Pois, mesmo na utópica autonomia da universidade, conheço poucos tão capazes, idôneos e dedicados. Ela ainda quer ser diretora do IA ? (pois não tem a menor obrigação disto) Então, agradeçam aos deuses do saber por terem mais sorte do que juízo e a deixem trabalhar em paz !

E, é claro, me poupem de mais emails difamatórios.

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Foto: Guilherme Santos (Sul21)

(ontem, enquanto ouvíamos, numa prova, a brilhante classe de alunos de Lucia junto a um cravo (pois o do IA está… indisponível) que há na excelente sala de música existente no complexo do multipalco do Theatro São Pedro, ouvíamos, de vez em quando, as detonações dos rojões de gás do choque da BM  na praça em frente. Nunca imaginei que veria a BM dispersar com gás manifestantes da Susepe. Que tempos !)

Réplica de Fernando Rauber Gonçalves à minha diatribe contra Carmina Burana

orff-1Entendo que um blog cumpra melhor sua função tanto mais quanto seja capaz de provocar ressonâncias longas e lentas. Por longas, me refiro à extensão e à profundidade das réplicas provocadas, enquanto que por lentas, falo do maior intervalo de tempo transcorrido entre o enunciado gerador e a(s) réplica(s).

Assim, só posso me regozijar de que minha casual e improvisada diatribe contra Carmina Burana tenha suscitado não apenas os comentários já citados em post anterior, mas, recém o soube, a inauguração de um blog por um dos melhores músicos que conheço. Concertista e improvisador (vide seu ótimo repositório Breviários Lunáticos !), Fernando Rauber Gonçalves é, além de músico e professor, também programador de videojogos (só para terem uma ideia do grau de nerdice do sujeito) e um pensador arguto sobre tudo o que se refira à musica.

Obrigado, então, por me honrar com a réplica transcrita abaixo – e vida longa ao Caleidosinóptico !

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 Brahms e Carmina: sobre modelos comparativos na crítica musical

“Conversa na qual todos concordam só pode ser de bêbados” já dizia um certo professor. Tivesse eu lido além da orelha de “Raízes do Brasil” (aos imberbes: antes da wikipedia a gente lia orelhas de livros para ganhar erudição instantânea) teria uma citação mais erudita sobre a cordialidade brasileira e nossa dificuldade em discordar. Além disso, citações são bom recursos para estabelecer pretensa autoridade discursiva, tanto mais se combinarem autores hors concours das ciências humanas com outros mais obscuros, sugerindo vasto conhecimento (estrangeirismos em línguas diversas também reforçam a ideia de que fazemos parte do universo dos sabidos).

Após essa pequeno desvio cínico (tldr; desconfie de tudo), sigamos para o motivo da discórdia, um texto publicado pelo amigo Augusto Maurer na ocasião da última apresentação de Carmina Burana pela OSPA. Um pouco de contexto: há tempos acompanho certas discussões no Facebook sobre crítica musical, nas quais é notória uma tensão entre universos distintos: músicos profissionais, diletantes com significativa vivência auditiva e, por vezes, um bom conhecimento musical e ouvintes leigos (geralmente centrados em comunicar suas experiências afetivas com a obra/compositor em questão). Há espaço para todos na conversa de bar feicibuquiana, porém é evidente que existe um vácuo de crítica especializada, que exige um conhecimento mais especializado. Em um cenário de crescente desvalorização das artes no país, o engajamento e a educação do público se torna cada vez mais necessário, antes que nos tornemos uma espécie em extinção (teatros não são erguidos, concursos não são respeitados, fundações culturais são desmanteladas, the writing is on the wall …). Por isso, valorizo a iniciativa de discutir uma obra popular, porém tenho necessidade de fazer uns apontamentos em outras direções.

(um intermezzo: este post desemboca na análise musical – dimensão crítica mais técnica – especialmente por conta da natureza da publicação original do Augusto. Desta forma, boa parte da substância desse post é direcionada para músicos profissionais).

Enquanto peça educativa altamente especializada, considero a crítica do Augusto problemática, pois parte de uma premissa comparativa que julgo inadequada. Maurer questiona o mérito composicional da obra de Orff a partir da ideia das “variações em desenvolvimento” de Walter Fritsch, um importante texto de análise musical que demonstra a riqueza do jogo motívico na obra de Brahms, avançando um pouco as ideias de análise motívica de Rudolph Reti e do conceito Schoenberguiano da grundgestalt (motivo básico, de caráter unificador), em uma concepção musical de viés organicista e estruturalista (música enquanto entidade viva, absoluta e autônoma). Por acaso, gastei umas dezenas de horas da minha vida investigando a utilização desse princípio na obra de Camargo Guarnieri, compositor de domínio composicional – os mais chiques fazem biquinho e chamam de mètier – invejável e que, assim como outros compositores do período entreguerras do Século XX, precisou recorrer ao motivicismo como princípio unificador em substituição aos esquemas de organização tonal dos séculos XVII-XIX (leiam Remaking the Past do musicólogo Joseph Strauss).

Antes de discorrer sobre o porquê deste conceito ser inadequada para a obra de Orff, mais um desvio (adoro eles). Maurer considera Orff um compositor “irrelevante” e Carmina uma obra “pueril”. Pela negativa, aprendemos que existem no mínimo duas categorias de compositores: relevantes e irrelevantes (Greimas grita: quatro), o que explica de certa forma a escolha semântico do termo “mérito composicional”. Buscando entender o que seria o tal do mérito composicional, cheguei a duas possibilidades: 1) mérito composicional enquanto medida de artesanato composicional, ou seja, a capacidade de criar com os elementos musicais a sua disposição e 2) mérito composicional enquanto merecimento, qual seja, o de pertencer ao sagrado panteão de compositores dignos de constarem na programação musical de uma orquestra. O ponto 1 será discutido mais adiante e, sobre o ponto 2, Richard Taruskin, na minha história predileta da música (The Oxford History of Music), explica um pouco a origem da cultura conservadora (“museum culture“) ao redor das sociedades de concerto, e sua predileção pela música dos mestres vienenses já em meados do Século XIX:

But we are facing a potentially grim paradox; for “symphonic” music began growing toward its new plateau of popularity and prestige exactly as its production was falling off. What were all those excellent new professional orchestras playing in their immense new concert halls?

The answer is implied in the statement of aims with which Pasdeloup launched his Société des Jeunes Artistes du Conservatoire in 1852: “to present recognized masterpieces alongside music by young composers.” Pasdeloup’s repertoire consisted of the “Viennese classics”—Haydn, Mozart, and Beethoven—plus Mendelssohn and Schumann (shortly destined to join the rest in the ranks of dead composers), with the works of “young composers” admitted only insofar as they were composed in “classical” forms. The early symphonies of Saint-Saëns and Gounod, mentioned above as conservatory produce, were all that Pasdeloup was at first prepared to admit alongside the masterpieces of the Teutonic dead. These were (in the words of David Charlton, a historian of French music) “among the earliest works in ‘classical’ forms by Frenchmen.Audiences found them delightful, especially Gounod’s. ”  [Leia o capítulo inteiro aqui]

Voltando às variações em desenvolvimento e o problema do modelo comparativo. Ao contrário da música tonal da Brahms, a organização harmônica de Carmina Burana não demanda ou mesmo comporta tal forma de desenvolvimento motívico, e seu modalismo assume centro tonais estáticos, calcado nos modos litúrgicos. O termo modalismo em si é tão abrangente que é necessário algumas distinções em relação algumas possíveis referências dos modos litúrgicos na tradição européia:

a) o modalismo monofônico do cantochão (séculos IX-XI)

b) o modalismo medieval polifônico da Escola de Notre Dame e da Ars Nova

c) o modalismo renascentista, expandindo as forças cromáticas com modificações de sensíveis, bemolizações e transposições

Para os propósitos das considerações que se seguem, é importante ter em vista o sistema modal mais puro presente no cantochão, pois esta é a referência predominante em Carmina Burana (os modos litúrgicos porém com suporte harmônico triádico ou simplesmente por quintas). A base melódica do cantochão consiste em células e esquemas melódicos padronizados, que visam ressaltar a característica expressiva dos intervalos do modo (geralmente através de padrões melódicos cadenciais), exatamente a base melódica de Carmina. Partindo dessa premissa (seja por escolha ou por limitação criativa mesmo), Orff constrói bases harmônicas extremamente simples, por ostinati, quintas paralelas ou tríades. Orff também eventualmente utiliza mudanças de centros tonais e algumas tintas de tonalismo. De forma geral, em vez da direcionalidade modulatória da música tonal como eixo composicional central, o que temos é a possibilidade de variação variação rítmica/métrica, guiada de forma prosódica (aliás, é importante lembrar que o texto da obra tem pés poéticos bastante simétricos e regulares, mais um fator limitante para desenvolvimentos motívicos) ou variação das cores modais, pela alternância dos modos construídos a partir de um mesmo centro tonal (ou transposição dos centros).

Vou improvisar aqui, mas acredito que o próprio tematicismo é consequência direta das características do tonalismo: em um sistema de entidades harmônicas de funções altamente previsíveis e padronizadas, a variedade se dá por meio da modulação e da distância tonal, sendo que o tematicismo fornece um princípio unificador, especialmente em formas musicais mais extensas. A história da forma sonata é ilustrativa nesse aspecto, com seu molde inicialmente binário (geralmente com a repetição de material temático idêntico em outra tonalidade, aliás podemos escutar esse princípio monotemático até mesmo em compositores clássicos, tais como nas primeiras sonatas de Haydn). A medida em que mais hierarquias tonais são adicionadas (mais modulações, expandindo a duração das formas musicais), o tematicismo acaba se tornando ainda mais necessário como princípio unificador. Indo em direção aos limites, chegamos por exemplo no aspecto cíclico dos motivos da sonata de Liszt ou nas developing variations em Brahms (e Schoenberg, que criou um novo universo sonoro livre do tonalismo mas carregando a tradição do tematicismo).

Outra diferença: enquanto que Brahms trabalha com um ideal fechado de obra musical idealizada, intelectualizada e que só pode ser esculpida no papel, Orff trabalha com a simplicidade do modalismo – sistema musical predominante no mundo, especialmente nas músicas de tradição oral, ou seja, aquelas que são transmitidas sem o apoio de uma partitura. Portanto, estamos tratando de universos e ontologias musicais distintas, uma delas nos levando a maior complexidade musical, e a outra buscando engajamento e absorção imediata. Extrapolando um pouco, poderia até dizer que uma delas é centrada no indivíduo (subjetividade, criatividade, dinamismo) e a outra na comunidade (convenções, rituais, acordos, estase). Adorno chegou a pensar nas categorias de “música séria” e “música ligeira”, porém acredito que essas barreiras já caíram e o que precisamos discutir é a substância musical de uma obra de acordo com seus próprios critérios e/ou referências próximas (e por isso a análise musical, que foca na lógica interna da obra, ainda é relevante para elucidar essas questões, não como meio único mas como uma ferramente poderosa de crítica).

Situado o universo harmônico e as referências de Orff, quais seriam modelos comparativos melhores para julgar o artesanato composicional de Carmina em um análise comparativa? Difícil encontrar outras obras que trabalhem dentro desse universo modal tão restrito,mas me lembra do caso de Satie, que emprega ambientes (poli)modais similares com centro fixo, porém fugindo das fórmulas melódicas mais tradicionais empregadas por Orff.

Outro exemplo que muito me interessa é a Musica Ricercata de Ligeti, uma obra extremamente didática na qual ambientes modais são construídos de forma progressiva, através do acréscimo de uma nota por movimento. Aqui temos um excelente exemplo de domínio do artesanato composicional e criatividade que poderia melhor ilustrar o argumento do Augusto. Forçando um pouco a barra até poderíamos enxergar como variações em desenvolvimento alguns dos procedimentos adotados por Ligeti, porém eu não gosto de adaptar o contexto do termo, afinal transposições similares poderiam ser feitas para um número enorme de obra musicais (afinal a variação é o componente central da composição), mas é importante chamarmos atenção para os detalhes: o compositor não está trabalhando com os modos litúrgicos, e o resultado sonoro é repleto de “aliterações” que certamente não se encaixariam com a prosódia do texto de Carmina. Ou seja, novamente são ideias estéticos distintos.

Portanto, espero que com essas referências tenha conseguido explicar porque considero a crítica de amigo atrativa na forma mas problemática na substância. Usando um exemplo ad absurdum seria o mesmo que julgar a qualidade de um rap pelo seu (inexistente) contorno melódico (by the way: meu rap preferido). Ainda assim, o recurso da comparação é muito útil, mais por nos ajudar a evidenciar diferentes concepções do que para elencar winners and losers.

O texto de Maurer prossegue discorrendo sobre a repetição, e novamente acho que desliza na questão do modelo comparativo problemática ao comentar sobre o Bolero de Ravel. Curiosamente, é também uma obra de contornos modais – composta para um balé – cujo fator estruturante é de certa forma o timbre, aliás uma ideia que já havia sido tentada por outros meios em Farben(cores) de Schoenberg, da série de cinco peças orquestrais Op.16.

O assunto da repetição me interessa muito, e está implícito no texto do amigo um certo demérito automático da repetição não-variada (e sua possível associação com a chatice). Pois bem, proporção, unidade e diversidade, recorrência e contraste, são parâmetros possíveis para escutas comparadas enquanto princípios estéticos universais. No aspecto da percepção, a teoria psicológica da gestalt ainda é bastante interessante para entendermos certas ideias estéticas (proximidade, separação, simetria).Em uma perspectiva assincrônica – a obra enquanto unidade abstrata fora da experiência auditiva-temporal – toda repetição é mera redundância que não acrescenta informação, mas sendo a música uma arte do tempo, não só do tempo presente mas também do tempo passado (na cumulatividade das experiências auditivas, seja dos ambientes harmônicos gerais ou de obras específicas e dos afetos atribuídos), a repetição também possui uma função importante no processo de moldar e conduzir as expectativas dos ouvintes e de estabelecer referências internas. E isso talvez explique porque Carmina (e o Bolero) é tão popular: é uma das raras obras do repertório sinfônico que podem ser desvendadas e desfrutadas na primeira audição por ouvintes leigos (e um ouvinte precisa começar por algum lugar, mesmo que nos greatest hits). Me esquivei de dar meu juízo subjetivo sobre Carmina, mas, de maneira geral, nada tenho contra a música fácil, como músico rofissional me sinto na obrigação de entender o maior número possível de possibilidades e estilos musicais, reconhecer suas lógicas e executá-las no melhor de minhas possibilidades. Portanto, apesar de sua simplicidade e monotonia (prefiro esse termo do que chatice), que Carmina continue sendo tocada pelas nossas orquestras, lembrando que também cabe aos músicos/maestros introduzir sutis variações nas repetições, dar contorno e forma ao discurso musical.

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Comentários a um texto sobre o mito da escassez do talento para reger orquestras (on conducting xiv)

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Dias atrás, ao divulgar um post sobre o mito da escassez do talento para reger orquestras, fui, como sempre, brindado com comentários que ampliavam muito minha visão sobre o tema – razão pela qual os compilo abaixo. Como na última vez, optei por deixar a penca de comentários intacta, sem edições.
Obrigado, ilustres interlocutores !
Tudo começou com uma provocação minha a alguns amigos maestros.
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Augusto Maurer O que acham, Emmanuele Baldini, Valentina Peleggi, Fabio Zanon, Lavard Skou Larsen, Tobias Volkmann, Nicolas Rauss, Ricardo Melo, Osvaldo Colarusso, Evandro Matté, Arthur Barbosa, Wilthon Matos, Lincoln Da Gama Lobo, Sasha Mäkilä … ?

Augusto Maurer … Leandro Schaefer, Ubiratã Rodrigues ?

Lavard Skou Larsen Quem? Aonde?

Sasha Mäkilä It is neither. The problem is the uneven distribution of talent – a lot of talented people don’t get enough chances to prove themselves in front of the orchestra, while a lot of untalented people are able to make a career because of political or financial support.

Augusto Maurer I strongly agree, Sasha !

Fabio Zanon Uma vez perguntaram isso ao Lorin Maazel. Ele respondeu: ¨existem três pessoas no mundo hoje que reúnem todas as qualidades para torná-los dignos de subir ao pódio: maestro Karajan, maestro Solti e eu”. Na época, como você deve lembrar, estavam vivos Bernstein, Celibidache, Giulini, Kleiber, para não falar dos mais novos. Para responder à sua pergunta, a gente tem de decidir onde que deve traçar a linha. Quem critica maestros by default deveria experimentar, por uma vez só na vida, subir ao pódio e tentar conduzir um começo de uma sinfonia de Mozart. Não sai nada; a preocupação em mexer os braços tapa os ouvidos, e tudo aquilo que se preparou previamente não resulta muito. Precisa ter uma confiança técnica muito grande ou uma cara de pau infinita. E, mesmo fazendo tudo errado, ainda tem mais chance de sair melhor com que sem maestro. Um maestro que realmente reúne as qualidades todas necessárias para fazer um grupo que já é de alto nível chegar a um nível excepcional é muito, MUITO rara e vale ouro; isso, combinado à necessidade de se colocar um nome e reputação na berlinda frente a um grupo e a autoridades, patrocinadores e público, faz com que os salários subam a níveis estratosféricos, é um pouco como jogador de tênias. As pessoas ainda acreditam que talento para reger é somente facilidade musical, mas, apesar de ser a condição sine qua non, é só o começo da história. Eu cursei regência como segundo estudo numa das melhores escolas que existem, que formou Simon Rattle entre outros, e garanto que, se o sujeito não dominar uma partitura como quem descasca uma banana, não consegue nem passar no exame de admissão. As vagas são muito poucas, as exigências são altas e eles preferem não preencher se não tiver ninguém à altura. Eu vi professor descascar aluno talentoso por não estar perfeitamente preparado e o cara sair chorando da aula; foi para casa, estudou como um escravo e hoje o cara é titular de uma boa orquestra, já regeu Concertgebouw em Amsterdam. Eu não acredito muito somente nessa coisa de contatos, apesar disso ser absolutamente necessário. Quem não é competente está fora do jogo. Se tem alguém genial que fica de fora? Sim.

Augusto Maurer Obrigado pela profundidade do comentário, Fabio Zanon, como sempre ! Já faz tempo que superei a ingenuidade de achar que qualquer um pode reger. Insisto, todavia, que o acesso às oportunidades de instrução em regência ainda estão muito longe de ser universal e isonômico. É claro que grandes maestros são raríssimos. Mas existem muitos suficientemente bons que permanecem desconhecidos mesmo sendo melhores do que a maioria dos que detém com exclusividade ou quase exclusividade as poucas posições existentes.

Fabio Zanon Eu acho que a vocação para regência deveria brotar de uma outra atividade musical. Uma pessoa que naturalmente lidera quando faz música de câmara ou canta, que tem facilidade para compor, que já está acostumada a liderar uma orquestra ou um naipe a partir da primeira estante, que é craque em acompanhar e treinar cantores, enfim, que se excede em mais de um ramo de atividade é aquela que deveria ser encaminhada para reger. O problema é que o que a gente vê com frequência é gente que toca um pouco de piano que acorda um dia e acha que seria bonito ser maestro; entra num curso de baixo nível de exigência e, ao final, bem…todo mundo tem de trabalhar, né?

Lavard Skou Larsen conductor = condom;  with condom = safe; without condom = you enjoy; (sometimes condom explodes….)

Lavard Skou Larsen Violaplayer and concertmaster meet in stomach of conductor!; Violaplayer to concertmaster: “Did he also swallow you???”; Concertmaster:”No, I came from behind…..!!”

Sasha Mäkilä This is a new one! 😀

Wilthon Matos José Milton Vieira

Arthur Barbosa Na minha opinião Augusto, são vários fatores a serem analisados…é uma temática complicada porque não pode ter uma só medida… depende de que tipo de orquestra se fala ( nem tanto pela sua qualidade mas pela sua função ) . Quanto mais orquestras no mundo melhor para a música, melhor para os músicos e melhor para a humanidade, mas assim como só existiu um Carajan, só existe uma Filarmônica de Berlim… lógico que os que fazem música com responsabilidade, tanto músicos, como orquestras e regentes, querem mirar lá no alto, na qualidade absoluta, porém são barrados por suas próprias limitações naturais… mas daí dizer que se eles não forem cópias de Carajan não servem como regentes seria ridículo. Um só exemplo: Na última vez que estive na Venezuela, movido por minha curiosidade, perguntei a um dos organizadores locais do El Sistema: ” com tantas orquestras (quase 500) no pais, como vocês fazem para ter uma formação de regentes de excelência?” …a Resposta foi surpresa pra mim (ou não) : “Desde pequenos já identificamos perfis que se enquadram em ser um regente, mas mais que regentes com “excelência” buscamos regentes eficazes”… ou seja , uma demanda alta fez com que não mirassem em ser perfeito, mas que funcionassem bem com tal papel…Realmente não é fácil, como muito músico acha, se posicionar na frente de uma orquestra , porém acho que todo bom músico deveria ter em sua formação esta experiência, ajudaria a ele como músico e ajudaria a entender um papel diferente do seu na orquestra… Por outro lado algumas castas da música de concerto tentam sim mitificar a função de tal modo que a gente pense que é “rarississíssimo” achar um regente competente, mas acho que parte dessa culpa é do próprio músico de orquestra que muitas vezes não sabe nem identificar e distinguir entre um regente bom, um ótimo, um razoável ou um ruim. Só para ilustrar, esta semana ouvi um grupo de músicos profissionais falando sobre um determinado concerto que tinham feito com um determinado regente recentemente e diziam mais ou menos o seguinte: ” – Foi legal o concerto né? o maestro é meio palhaço, rege fora do tempo, faz macaquices , mas tem seu carisma com o público… e no final a orquestra toca sempre bem …” Ora, nem eles mesmos se dão conta de que tocaram bem porque são excelentes músicos, e que pelo que percebi, o regente mais atrapalhou que ajudou, mas apenas ter carisma resolve, mesmo que o resto ( da parte do regente) seja horrível, e ainda por fim este regente em questão em nenhum momento os ajudou a tocarem melhor, mas atribuem a ele o sucesso do concerto…enfim, enquanto nós músicos de orquestra ( coisa que sou há muito mais tempo que regente ) não soubermos identificar e concluir que um regente que é carismático e palhaço ( ou qualquer outra atribuição “não-musical” ) mas é ruim como regente não nos serve de nada não sairemos desta linha antiga de pensamento que diz “sob a batuda de…” . Abraço

Augusto Maurer Muito obrigado, Arthur, por lançar tanta luz sobre o tema. Em especial com o relato primário de teu mergulho na Venezuela – e pela distinção, às vezes sequer percebida pelos próprios músicos, entre bons e maus maestros.

Augusto Maurer Mais: tocaste num ponto crucial: para que se evidenciem talentos excepcionais, é preciso, antes, implementar e manter estruturas que permitam e fomentem a descoberta contínua e sistemática de talentos suficientemente bons. Pois não existiria nenhuma Fórmula 1 sem as divisões inferiores do esporte, desde o kart; ou, ainda, um Neymar sem centenas de bons jogadores disputando os mesmos campeonatos. De acordo com o que disseste (e como eu suspeitava !), a Venezuela tem feito isto em relação à regência como, suponho, ainda não é feito em qualquer outro lugar do mundo. Talvez por isto a regência ainda seja tida pela maioria como um território para iniciados, muitas vezes de formação nebulosa (felizmente isto já está mudando !), com o acesso ao pódio regulado por desígnios misteriosos para o leigo.

Fabio Zanon Augusto, isso já é feito na Alemanha, na Finlândia, na Áustria, na Inglaterra, na Suíça, até na Itália há décadas. Sim, precisa ser feito e é feito; só não é feito aqui (isso está mudando com os projetos sociais inspirados no El Sistema; o Neojibá estimulou desde cedo um jovem muito talentoso chamado Yuri Azevedo). Eu ouço falar do Daniel Harding desde que ele tinha 15 anos; com 18 ele já regia orquestras profissionais. E o fato é que não existe nenhuma escola que se proponha a formar Kleibers; isso acontece por força da excepcionalidade do talento da pessoa. TODA boa escola de regência tenta formar, antes de mais nada, regentes eficientes. Na Inglaterra, em particular, onde as orquestras são freelancers e tempo de ensaio vale ouro, ser capaz de reger sem ensaiar é uma condicão fundamental pra se começar uma carreira. Francamente, um bom curso de regência é uma estrutura muito cara e as escolas brasileiras não podem se dar ao luxo de manter isso com os números que temos. Por enquanto, vale mais a pena investir num bom preparo teórico precoce para quem é fera e mandar o sujeito estudar fora com 17 anos.

Fabio Zanon Sobre a mítica do maestro, bom… O fato é que existem maestros que mitam! Uma vez, conversando com um músico da Fil de Berlim, perguntei como era trabalhar com o Harnoncourt. Ele respondeu “ah, a orquestra tem um padrão próprio; quando tem um regente médio a gente toca mais ou menos do nosso jeito”. Harnoncourt, médio! Lidar com músicos de alto nível é uma coisa misteriosa, porque, de fato, eles não vão tocar abaixo de um certo padrão. O problema é como motivar ou induzir quem já toca com perfeição a ir além da perfeição. Eu ficava muito impressionado com os ensaios do Giulini, por exemplo, porque ele não falava quase nada; quando dava algum problema ele dava uma instrução em poucas palavras,e seguia o ensaio. Mas, por alguma razão, a Philharmonia soava com ele de um jeito que não soava com mais ninguém; parecia que tinham devoção pelo homem. Aqui na OSESP acontecia algo parecido com o Frank Shipway, um maestro que, aliás, sempre teve problemas de convivência com as orquestras e tinha uma carreira muito inferiro à sua capacidade. E assim o barco anda. Mas o fato é que isso tudo só interessa por mais uns 40 ou 50 anos; a estrutura está mudando completamente. Veja um cara chamado Teodor Currentzis, por exemplo; ele está fazendo um trabalho visionário de construção de grupo no interior da Rússia, com resultados extraordinários. Acho que esse tipo de coisa vai se tornar a norma, descentralizar a responsabilidade artística e enxugar estruturas.

Arthur Barbosa Sobre o El Sistema ser “único” o Fabio já respondeu o que eu ia responder basicamente…

Júlio César Apollo CRO é tão abundante ou tão escassa quanto a competência para tocar clarineta, se for com uma boquilha mansa é um pouco mais fácil. Assim como é um pouco mais fácil reger músicos amistosos. Certamente a CRO não reside no âmbito musical. É muito mais do que competência musical e os colegas aí em cima já disseram bem sobre isso. Eu penso que o que diferencia o solista e/ou o regente, aqueles que ficam em pé na frente, é, entre outras coisas e principalmente, o sangue frio. Ah, e há, também, uma habilidade quase mística de sentir, entender e conduzir a platéia nas costas.

Tobias Volkmann Augusto, todos os grandes regentes ou grandes mestres da regência com quem busquei aprender o ofício na universidade, em masterclasses ou ao menos em uma conversa no intervalo de ensaios (entre eles Kurt Masur, Jorma Panula, Mariss Jansons, Manfred Honeck, Andris Nelsons, Gustavo Dudamel, Herbert Blomstedt e meu mentor Ronald Zollman, entre outros não considerados grandes, mas com muito a ensinar) em algum momento destacaram o seguinte: é indispensável desenvolver a maturidade como músico/intérprete em algum instrumento para ser capaz de assumir a responsabilidade de conduzir o processo de construção de uma interpretação coletiva. Nisso concordamos todos. Porém, o que você define como CRO eu entendo como um conjunto de “Cs” que vem sempre em um pacote com níveis distintos em cada aspirante a regente. Eu, por exemplo, não tive a benção de ter tocado profissionalmente em uma orquestra – o que é uma enorme lacuna que estou até hoje buscando preencher com muita observação e ouvidos bem atentos aos bons músicos experientes – mas cresci cantando em coros, atuei como cantor profissional e estudei instrumentos de orquestra na infância e durante o estudo de regência. Não é o que poderíamos chamar de usual na trajetória de uma formação na área, mas não me impediu de atuar hoje como profissional. Porém, há muitas capacidades a desenvolver, entre elas a cultura geral, línguas, a gestão psicológica de coletividades, a auto-gestão psicológica, o controle do ego, a gestão do tempo de ensaio, o planejamento de trabalho em uma temporada, o conhecimento de repertório, as características específicas de gêneros como ballet, ópera e da música contemporânea e… ah!… ia me esquecendo… a técnica gestual! Tudo isto DEPOIS de uma sólida formação musical. Ainda assim, se um dedicado e esforçado talento consegue desenvolver com um mínimo equilíbrio estas habilidades, a “selva” do mercado musical, que de democrática não tem nada, se encarrega de não oferecer oportunidades suficientes para que um verdadeiro talento tenha mais do que uma ou duas chances. Assim, muitas vezes vale a máxima gaúcha: cavalo encilhado não passa duas vezes!!!

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Sobre o mito da escassez da competência para a regência orquestral (on conducting xiii)

batutas-11Há em todo concerto para escolas o clássico momento em que o maestro empresta a batuta a uma criança sorteada entre as presentes – momento, aliás, da igualmente clássica pegadinha em que fazem o desavisado inocente se mover indefeso diante de uma orquestra que começa a tocar – pasmem ! – uma daquelas danças húngaras repletas de mudanças de andamento. Numa destas, diante da inação do maestro em exercício em interromper alguém que, ouvindo a música, entendera rapidamente qual era a jogada, ouvi de um músico de outro naipe a hilária e emblemática exortação

Interrompe logo ele, maestro – ou vai acabar achando que é fácil !

Ao que, prontamente, corrigi;

Errado: vai acabar descobrindo como é fácil.

Não é preciso ir muito a fundo para perceber que o diálogo acima, conquanto passível de diversas interpretações, denota antes de tudo a proteção ao mito de que a competência para a regência (doravante CRO) seja uma aptidão escassa, i.e., que só uns poucos são aptos a exercê-la. A perpetuação do mesmo talvez se deva ao fato de que a didática da regência orquestral seja, enquanto área ou disciplina acadêmica, um fato ainda muito recente

Deve ser difícil a qualquer instituição de ensino pensar na regência como objeto de um programa acadêmico acessível a muitos. Possivelmente achem que, face ao máximo de tempo semanal que alunos de conservatórios de primeira linha toleram (antes de tudo por causa dos músicos que lhes regem !) tocar em orquestras formativas. Pois a maior parte dos que ingressam em conservatórios ainda quer ser solista. O que é muito bom – pois isto faz deles alunos estudiosos . Tão bom, ao menos, quanto que sejam obrigados, ainda que por imposição curricular, a integrar orquestras acadêmicas durante a maior parte de seus cursos.

Neste quadro demográfico é fácil notar que, nas poucas horas em que uma orquestra acadêmica ensaia (sempre menos, em todo caso, do que a carga semanal de ensaios de uma orquestra profissional !), será possível treinar poucos regentes. Além disto, há quem pergunte por que treinar uma legião de frustrados se as oportunidades de trabalho conhecidas são tão poucas. Não acreditamos que sejam poucas mas, tão somente, mal distribuídas. Só que, em nome da perversa lógica de toda proteção de mercado, já vi um curso universitário de bacharelado em regência orquestral ser extinto.

Em muitos conservatórios são ministradas disciplinas de regência. Só em alguns deles, todavia, há ensaios e aulas conduzidos por grandes maestros. Na falta de orquestras didáticas para todos, é comum que alunos de regência sejam primordialmente treinados “regendo” reduções de partituras orquestrais para um ou dois pianos. Tal problema, o da grande discrepância numérica entre aspirantes ao pódio ou às estantes orquestrais, foi magistralmente solucionado na Finlândia – berço de uma das mais reputadas escolas de regência, praticamente personificada na polêmica figura de Jorma Panula – que declarou, para pasmo e decepção de seus admiradores (alguns dos quais ainda insistem que podia estar bêbado ou, ainda, que suas palavras foram severamente descontextualizadas) que mulheres seriam menos aptas do que homens a dirigir uma orquestra (sic !)

Kiyotaka Teraoka, que estudou na Finlândia, conta que, lá, todo aluno de regência deve obrigatoriamente participar também, como músico, executando um instrumento no qual seja totalmente proficiente, da orquestra integrada e regida por seus colegas. Como única exceção a esta exigência, também são admitidos às classes de regência os pianistas excelentes. Concertistas, no mínimo. É por estas e outras que esses finlandeses estão anos-luz à frente de quem quer que seja na pedagogia da batuta.

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A economia da batuta deve ser intuitivamente vista por muitos mais ou menos como o problema dos técnicos de futebol. Ora, todos sabem que qualquer um que se dispuser a assistir em estádios ou mesmo pela TV disputas travadas entre grandes times se tornará, depois de algum tempo, apto a gritar da porta do vestiário com um plantel a se degladiar. Qual diretoria se atreveria, no entanto, pressionada por uma torcida furiosa, a confiar jogadores caros a alguém sem algum êxito prévio à frente de grandes equipes ? com isto, apenas poucos, de um universo abundante de capacitados (compreensivelmente, em muitos casos, ex-jogadores de expressão) chegam a ocupar os raros postos de trabalho existentes.

(nunca entendi muito bem a função de um técnico de futebol (do mesmo modo, acho, que custei a perceber a de um maestro).

Custo a entender por que raios duas equipes de 11 pessoas que se enfrentam numa arena durante noventa minutos devem ficar, cada uma delas, de algum modo

subordinadas ao comando único de alguém a lhes gritar coisas da boca do vestiário, inaudíveis na maior parte do tempo;

ao invés de, ao contrário,

cada equipe funcionar como uma entidade única e autônoma, orientada por decisões instantâneas tomadas de modo descentralizado (não sei por que suspeito que, na prática, a coisa seja mais ou menos assim) – como, sei lá, por meio da interação entre nodos de uma rede neural.

Falo da diferença entre processos seriais e paralelos. Acho um técnico a gritar e gesticular à beira do campo um troço tão… serial. Mas devo estar, afinal, esperando demais de um esporte organizado.

Na regência orquestral, tampouco é diferente. Na proporção de, ao menos, um pódio para algumas dezenas de estantes, muitas delas para dois músicos)

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O mito da regência orquestral como competência escassa tem, além de, como vimos, a relativa novidade de sua didática como disciplina autônoma, também como razões de sua perpetuação até hoje o protetorado e a proximidade. Já ouviram aquela história de ser a pessoa certa na hora e no lugar certos ? É disto que falo.

O protetorado pode ser mais ou menos descrito como o acesso aos meios (i.e., às orquestras) mediante imposição ou forte recomendação de alguém eminente. Fatores como proximidade pessoal e confiança são sempre determinantes. Dentre os casos conhecidos, podemos citar os de Koussevitzky e Eleazar, Bernstein e Chamis ou, mais recentemente, Masur e Minczuk, só para ficar entre alguns dos que envolvem brasileiros.

A proximidade frequentemente tem a ver com a exposição precoce, pré-escolar e, em muitos casos, familiar, à atividade. Kleiber cresceu vendo o pai reger. Pelo menos até certa idade. Os Wagner são bem conhecidos e, mais recentemente, os Järvi também. E notem que, em famílias de músicos, dentre os mais novos aqueles que tomam para si a ocupação dos pais tendem a superá-los. A propósito, me refresquem a memória: o pai de Bernstein também não foi músico ? De qualquer modo, Bernstein foi o cara certo no lugar certo e na hora certa que, quando faltou um maestro, intrepidamente stepped in. Não desmereço (ao contrário !) nenhuma faceta de sua genialidade (inclusive o talento televisivo que tanto o popularizou !) – mas, fossem os meios de acesso mais… democráticos, por assim dizer, não teríamos conhecido, de sua época, tantos mais Bernsteins ?

Outro exemplo, já esquecido, de um cara que teve o atrevimento de saltar à frente quando, na última hora, precisaram de um regente foi o de um trombonista baixo que assumiu um concerto na Alemanha. É certo que não deve ser nenhum gênio. Mas, de tanto ouvir a música, a conhecia bem. O mais provável, então, é que, dada a escassez de partes compostas para seu seu instrumento (os trombones só comparecem em Beethoven a partir do último movimento de sua quinta sinfonia !…), estivesse ocioso quando o dever o chamou. Então, despretensiosamente, isento de qualquer vaidade, encarou a bronca em nome de um show que tinha que continuar. Colegas devem ter brindado a ele depois. Com razão. Mais entusiasmados podem até achar que, na ocasião, se revelou um grande talento dormente. Prefiro pensar que o episódio tenha muito mais a ensinar. A saber, que a CRO é uma competência enormemente mais abundante do que comumente se pensa. Esta é, no entanto, uma verdade bem inconveniente para alguns.

Nenhuma indústria – em especial a do entretenimento – jamais soube nem teve qualquer interesse em aceitar premissas de que certas competências gerenciais (como muitos ainda entendem a regência orquestral) sejam disponíveis abundantemente. Isto se dá por que a preservação de mitos de competência escassa tenham, na maior parte das vezes, a ver com a maior concentração de lucros.

Outra anedota bem popular (como aquela, factual, com que iniciamos este post) que, olhada a fundo, também remete diretamente ao mito da CRO como uma competência escassa é a de que” ninguém deveria reger a nona sinfonia de Beethoven pela primeira vez. ”

Os mitos de escassez são vitais ao ideário capitalista e, portanto, onipresentes na maior parte dos ambientes corporativos. Pois há, em toda grande organização, muitíssimos postos mais monótonos e menos especializados e, ao mesmo tampo, cada vez menos postos gerenciais à medida que se sobe na pirâmide administrativa. Desgraçadamente, a formulação encontra fáceis analogias na natureza (um filé e tanto para os crédulos !), como nos casos de abelhas-rainha e tais, de modo que tudo conspira para reforçar a crença que seja normal ou natural, para líderes ou gestores de toda espécie, saber mais que seus subordinados.

Mais. Toda indústria de entretenimento anterior à web (brodcasting, media oriented) sempre endossou, explícita ou implicitamente, em qualquer de suas ações, o culto à celebridade – categoria à qual pertencem, além de muitos políticos, executivos, cantores, atores, jogadores e até técnicos de futebol, também, “naturalmente”, os maestros. Eram conhecidíssimos, por exemplo, o apreço e os favores de executivos japoneses a Karajan. E não há guru ou coach corporativo que não ame a metáfora da orquestra como modelo organizacional perfeito.

(difícil, neste cenário, se livrar do estigma de que orquestras funcionem, essencialmente, subordinadas a um protocolo de comando altamente centralizado)

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Praticamente todo bom regente é ou foi, antes de empunhar a batuta, um músico, senão de grande expressão, ao menos completamente proficiente. Os casos são inúmeros, desde Rostropovich, Levine, Ashkenazy, Barenboim (que, para a decepção e desespero de alguns fãs, surpreendentemente se declarou contrário a que músicos orquestrais se sentissem empoderados em relação a assumir o pódio) até brasileiros como Zanon ou Minczuk ou, ainda, membros de destaque de orquestras prestigiosas como Baldini (spalla da OSESP) ou, até (não é piada !), o spalla de violas (!) da Filarmônica de Berlim (Lebrecht disse, tempos atrás, que Sir Rattle o deixou dirigir um concerto antes de se aposentar !…). Até de Karajan ao piano há filmes.

Todavia, como bom cético que sou, sigo no aguardo de vir a conhecer ao menos um caso de um bom regente que não é ou tenha sido, antes, um ótimo musico. Se alguém ainda duvidar disto, é só perguntar para qualquer virtuose que, por razões de saúde, idade, vaidade, finanças ou outras quaisquer, tenha optado, a partir de certo momento de sua carreira, por também atuar como regente, o que levou mais tempo para aprender: se

a tocar seu instrumento ou

a reger uma orquestra ?

Ou, ainda,

a tocar um concerto como solista ou

a reger uma sinfonia ?

* * *

Apesar de importantes progressos na aceitação de que a CRO é muito mais abundante do que até há pouco tempo se supunha, a indústria ainda trabalha primordialmente com a hipótese de que tal habilidade seja bem escassa, a ser prospectada apenas entre uns poucos. Accordingly, posições de destaque ainda são ocupadas por uns poucos.

O que, no entanto, a maioria não percebe é que, conquanto um Dudamel ainda seja tratado pela indústria como um caso isolado de talento excepcional, não é difícil perceber que ele só emergiu por força da existência, num dado contexto (a saber, o célebre El Sistema, da Venezuela), de uma necessidade muito acima da habitual de sujeitos aptos a reger orquestras sinfônicas, no qual ele foi prospectado e prosperou. Só que, como ele, há, muito provavelmente, muitos. Como Payarez, Allondra e outros ainda por serem descobertos.

O ponto onde quero chegar é que pódios mais numerosos e rotativos revelariam, por definição, mais maestros suficientemente bons do que todos os que atualmente conhecemos. Se no, entanto, o acesso aos pódios orquestrais ainda é tão restrito, tal se deve exclusivamente à manutenção de privilégios indevidamente adquiridos.

Não canso de dizer, neste blog e no facebook, que devemos nos engajar, entre outras coisas, numa cruzada pela substituição do mito de que a CRO seja uma competência escassa pela ideia de que a mesma é abundante. Nesta índole, todo programa de treinamento com livre acesso é extremamente bem-vindo. Como, por exemplo a academia de regência da OSESP, dirigida por Valentina Peleggi, onde o acesso universal e isonômico às disputadíssimas vagas é garantido por um rigoroso processo seletivo regulamentado por edital público.

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