Mais sobre a Tower Records e a Modern Sound; Minding audiences (iii) ou Para ouvir Eric Dolphy (iv)

Modern Sound 6

Na pressa da escrita diária, esqueci de contar uma coisa ou outra sobre as míticas lojas de discos de que falei ontem. Um dado de extrema importância sobre a Modern Sound é que, além de ser um dos poucos lugares onde se podia encontrar discos de pequenos selos, então conhecidos como independentes, também abrigava um bistrô que tinha um dos mais movimentados palcos de jazz e música instrumental no Rio de Janeiro – dispondo, portanto, desta facilidade para, frequentemente, lançar álbuns de músicos importantes. Se pode dizer, então, que com o fechamento da Modern Sound de Copacabana, se extinguiu, também, um dos poucos clubes de jazz do Rio de Janeiro.

Como tantas metrópoles culturais, o Rio também tem uma cena jazzística bastante relevante (a de Buenos Aires, por exemplo, é excelente !). Só que o jazz é, provavelmente, a última coisa que alguém que vai ao Rio pensa em ouvir. Quem vai lá quer ouvir um samba na Lapa ou a bateria de uma escola de samba. Quando muito, uma roda de choro. Mas jazz ? No Rio ? Talvez seja por isso que, no Rio, a melhor música instrumental é oferecida, por vezes, até de graça. Como, por exemplo, em quiosques à beira da Lagoa Rodrigues de Freitas. Mas devo dedicar, num futuro próximo, um post exclusivamente a isto.

Por hora, é importante apenas se frisar que,

tendo sido o pequeno palco do bistrô da Modern Sound de Copacabana, por muito tempo, uma das poucas opções para apresentações de jazz – ou, mais inclusivamente (pois Hermeto e Egberto, por exemplo, fazem, por excelência, jazz !), música popular instrumental improvisada;

com seu fechamento se encerrou, muito mais do uma forma de comércio, de produtos tidos talvez pela maioria como obsoletos, também uma parte bem significativa da música da cidade musicalmente mais emblemática da América Latina.

Parece pouco ? Acho que não. Controvérsias à parte, confiram, n’O Globo, uma análise da crise que acabou com a Modern Sound, a Tower e, provavelmente, a maioria de suas congêneres.

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Um detalhe curioso que não mencionei  ontem sobre o sale annex da Tower é que todos os ítens fora de catálogo lá oferecidos eram inutilizados (marcados), para prevenção contra venda a intermediários, por meio de procedimentos que incluíam serrar ou furar cantos das embalagens sem danificar as mídias gravadas. Com isto, todas as minhas caixas de LPs do Quarteto de Budapeste e CDs do quinteto de Dolphy no Five Spot tiveram suas lombadas impiedosamente mutiladas por brocas e serras. Imaginem o gozo do cara cujo trabalho era fazer isto !

Dolphy, de quem jamais canso de falar – e de quem prometi falar ontem e não cumpri. Desta vez, com seu quinteto no Five Spot de Nova Iorque, tendo como sideman o fabuloso trompetista, precocemente falecido, Booker Little, outro gigante desconhecido de quem já falei. A geração de Dolphy é uma de biografias curtas. Lamentavelmente.

Colecionar discos de Dolphy é uma tarefa que exige paciência e astúcia. Primeiro, por que suas realizações mais impressionantes se “escondem” sob títulos lançados sob o nome de músicos mais célebres, como Mingus ou Nelson, a quem o claronista serviu, brilhantemente, como sideman. Depois, por que os poucos títulos lançados sob seu nome, talvez por terem sido considerados por executivos como demasiado estranhos para a maioria dos ouvintes (“Nelson, Mingus e Monk, vá lá, mas Dolphy ? Just too weird to be digged“), sequer eram lançados aqui. Ou, quando muito (como no caso de Out to Lunch), nos discos duplos de acervos históricos, por vezes arrematados em liquidações, de que falei ontem.

Dolphy at the Five Spot I 1

A julgar pela lombada serrada, foi na Tower que encontrei (lembro até hoje o êxtase !) dois CDs japoneses (com um rico encarte misteriosamente impresso com ideogramas), originalmente lançados pela Prestige, com os sets registrados por Dolphy e seus parceiros no lendário clube em 16 de julho de 1961. Não quero me alongar, ao menos hoje, sobre as razões da estranheza de sua música. Até por que tudo que eu dissesse seria bem redutivo. Sobre estes discos, verdadeiras joias deliciosamente garimpadas, faço, apenas, duas observações:

primeiro, que a duração descomunal de cada música (influência da experiência com Mingus ?) – a saber, 13:44, 12:30, 21:22, 17:16 e 19:57 ! – não é, definitivamente, para ouvidos comuns (por que sempre espero achar mais e melhor conteúdo nas grandes formas ?…);

depois,a notável interrupção no “fluxo” improvisatório de Dolphy (em seu original The Prophet) tomado de pasmo logo após ter ouvido uma infelicíssima manifestação vinda da audiência na hora mais imprópria – um grito de entusiasmo a rasgar o reverente silêncio. Algo impensável, suponho, na Europa. Mas aceito como natural mesmo nos melhores templos do jazz novaiorquino.

A indiferença pública ao mais sublime que lhe é contemporâneo é um tema fascinante do qual já me ocupei aqui. Tornando a olhar esta foto, dos alegres frequentadores do mesmo Five Spot onde Dolphy e seu quinteto se apresentaram naquela noite (como se fossem eles próprios, com seus ares inteligentes, e não os músicos, os protagonistas daquilo tudo), não consigo concordar com Woody Allen quando acusa os californianos de terem inventado o conceito de estilo de vida.

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A Modern Sound, a Tower Records e o Parêntesis da Indústria Fonográfica; ou Para ouvir Eric Dolphy (iii)

tower records 4O fim dos anos 80 não foram apenas particularmente bons para se estudar em Nova Iorque, com acesso facilitado a tudo o que se quisesse ler, ver ou ouvir em suas excelentes bibliotecas públicas (sem falar nas coleções das próprias escolas) – mas, também, para se adquirir uma coleção digna de ser lida e ouvida repetidamente ao longo da vida. Falo, claro, de pechinchas como os review books garimpados na Strand, dos quais falei dias atrás, e, last but not least, discos (CDs e LPs !) fora de catálogo no sale annex da Tower Records. No mesmo Greenwich Village, a poucas quadras da Strand). Lá, encontrei coisas como, por exemplo, caixas de LPs com coleções de quartetos de Beethoven executados em Stradivari da Biblioteca do Congresso pelo lendário Quarteto de Budapeste, ciclos de lieder de Schubert ou Wolf com Dieskau ou, ainda, integrais das sinfonias de Nielsen com Bloostedt. Coisas de gigantes como a DG a nem tão nanicos como a Bis, a Naxos ou a Nonesuch.

(noutra hora, tomaremos à instigante questão da importância das celebridades para os gigantes e o papel dos nanicos para a promoção da diversidade)

Ia lá quase todas as semanas, raramente saindo de mãos abanando. Sempre havia tanto novidades como prateleiras jamais inexploradas a serem peneiradas. Talvez por isto tenha ficado tão triste (ainda que nem um pouco surpreso) ao saber do fechamento definitivo da loja em 2006. E, agora, bem curioso por assistir o novo documentário All things must pass, dirigido pelo filho do Tom Hanks, sobre a mítica loja. Espero ardentemente conseguir vê-lo, senão em salas de cinema, ao menos nalgum canal de TV a cabo.

Record Store Day at Amoeba in Los Angeles. This is the world largest independent Record Store. Sunset Boulevard, Los Angeles.

O fim da mais importante, senão a maior, rede de lojas de discos era uma morte anunciada desde a chegada da internet. Mais do que um caso isolado, pertence a uma tendência global (que por hora designaremos – sem ainda, no entanto, dela nos ocupar – Parêntesis da Indústria Fonográfica) cujo caso brasileiro mais emblemático foi a Modern Sound de Copacabana. Curiosamente, a Tower Records (1960-2006) e a Modern Sound (1966-2010) tiveram ciclos de existência com praticamente a mesma duração.

Modern Sound 4

Bem antes de conhecer a Tower, descobria, na primeira das quatro vezes em que estive no Rio, a Modern Sound, onde adquiri algo impensável em qualquer outro ponto do território nacional, a saber, o lendário disco de Eric Dolphy chamado Far Cry, inédito por aqui e reeditado pela Prestige como uma espécie de álbum duplo aleatório com as duas vezes em que Dolphy e Ron Carter colaboraram. Gravadoras fazem isto. Conheci Out to Lunch, também de Dolphy, num desses “duplos” da Blue Note, junto com Blue Train, de John Coltrane. No caso do par da Blue Note, ouvi os dois até gastar. Já no da Prestige, não lembro de ter conseguido ouvir o do baixista inteiro até o fim. Abaixo, as capas da edição original de Far Cry e de sua reedição como Magic, junto com o disco de Carter. Confesso que gosto mais da segunda, embora só consiga ouvir um dos dois discos nela embalados. Coisa que só acontece, mesmo, com LPs (imaginem alguém comprando CDs por causa de suas capas…)

Far Cry 2

Magic 2

 

 

 

 

Anotações sobre a crítica musical de Bernard Shaw (i): Prefácio: contra a escolarização

Corno di Bassetto, o jovem folhetinista

George Bernard Shaw (1856-1950) foi um herói de muitas causas. Socialista ardente, foi um dos primeiros a perceber a exploração das classes trabalhadoras e a exigir direitos iguais para homens e mulheres. Também foi vegetariano.

Num prefácio, escrito a bordo de um transatlântico e aposto à coletânea de sua crítica musical de 40 anos atrás, Shaw conta como se tornou crítico musical. É que o editor do jornal para o qual escrevia temia imprimir em suas páginas seu discurso político inflamado, julgando o colunismo de espetáculos musicais um setor mais inofensivo. Capaz, por si só, de neutralizar qualquer bias ideológico que o colunista pudesse ter. Estava enganado, como qualquer leitor atento facilmente percebe.

Todos sabem que uma das partes mais importantes do equipamento de qualquer crítico é um conhecimento profundo e amplo de quaisquer campos que almejem cobrir. É, assim, no intuito, talvez, de melhor apresentar suas credenciais para o que na juventude se propuha a fazer, que GBS esclarece, neste prefácio, circunstâncias bem singulares de sua educação que, de algum modo, deixam transparecer seu desapreço pela escolarização. Aqui:

[the meaning of the word “into”] was explained to me on my first day at school; and I solemnly declare that it was the only thing I ever learnt at school.

E também aqui:

… the Dublin National Gallery, one of the finest collections of its size in Europe, with the usual full set of casts from what was colled the antique, meaning ancient Greek sculpture. It was by prowling in this gallery that I learnt to recognize the work of the old masters at sight. I learnt French history from the novels of Dumas père, and English history from Shakespeare and Walter Scott. Good boys were meanwhile learning lessons out of schoolbooks and receiveing marks at examinations: a process which left them pious barbarians whilst I was acquiring an equipment which enabled me not only to pose as Corno di Bassetto when the chance arrived, but to add the criticism of pictures to the varios strings I had to my bow as a feuilletonist.

 

Sir Bernard Shaw, o dramaturgo consagrado

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PS significativo: Milton Ribeiro reclamou que meu post anterior terminou abruptamente. Tomo isto como elogio. Pois procurei explicitar ao máximo a forma fragmentada do texto, como num folhetim – sendo, portanto, o corte dramático algo essencial.

PS nada a ver: revisando o texto acima, me dei conta de que meu exemplar de London Music in 1888-1889 foi impresso no ano da morte do autor.

Sobre a invenção da crítica musical; ou Uma introdução ao Corno di Bassetto

Corno di Bassetto foi o pseudônimo adotado pelo grande dramaturgo irlandês George Bernard Shaw para, quando jovem, ainda desconhecido e dedicado ao colunismo diário, resenhar brilhantemente a cena musical vitoriana, não só em toda Londres metropolitana mas pela Europa de então. Pois são notáveis, por exemplo, seus registros sobre performances em Bayreuth e Amsterdã.

Nesta crônica exponencial e diária, que se estendeu por anos e abarca vários volumes, não poupou de seus comentários ácidos e, na maioria das vezes, hilários, desde músicos, cantores e maestros até professores, empresários, políticos, arquitetos, ouvintes e os próprios críticos.

A revelação mais contundente de sua leitura é que, não obstante passados já mais de cem anos desde a época em que foram escritas, permanecem, quase todas, atuais, i.e., se aplicam a situações vigentes ainda hoje.

Espantosamente, tamanha coletânea de seus textos curtos, precisos e mordazes jamais foi traduzida para a língua portuguesa. O volume que ocupa na obra completa de Shaw, publicada pelos anos 30 e existente na Biblioteca Central da UFRGS, nunca havia saído de lá até que, anos atrás, o tomei emprestado. Pois meu próprio exemplar, adquirido usado num sebo que afirma ser o maior do mundo, esteve emprestado por mais de uma década.

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No fim dos anos 80, a Strand Book Store, que fica na Broaway no coração do Greenwih Village, próximo ao campus da New York University, tinha um perfil bem interessante. Pois, além de alegar ter mais de 8 milhões de livros a preços irrisórios, tinha grandes estoques de exemplares de revisão (review books), que era como chamavam a enorme quantidade de cópias promocionais, luxuosamente encadernadas, presenteado pelas editoras aos muitos críticos locais e vendidos pelos mesmos à Strand por frações ainda menores de seus preços em livrarias.

Meu exemplar de London Music in 1888-89 as heard by Corno di Bassetto, lá garimpado, não foi, no entanto, um review book. A julgar pelo papel envelhecido e encadernação surrada, minha cópia, impressa em 1950, foi mais provavelmente arrematada com parte de alguma coleção particular.

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Quem me conhece um pouco mais de perto sabe que li do início ao fim (abandonei muitos !), pouquíssimos livros. London Music foi um deles. Muitas vezes. Há marcações a lápis em praticamente cada página, além de muitos marcadores. O único artigo acadêmico que já redigi sozinho, postado em meu primeiro blog, foi sobre ele. Desisti de republicá-lo para, antes, o atualizar. De sorte que esperem, então, em posts vindouros, mais sobre a crítica musical segundo seu inventor.

A crítica musical em meios jornalísticos é um gênero literário tão interessante quanto negligenciado, desprezado (por vezes com justas razões…) ou mesmo ignorado por artistas, intelectuais, acadêmicos, políticos, jornalistas e formadores de opinião em geral. Praticamente inexistente antes dos tablóides diários das primeiras metrópoles industriais (daí minha atribuição de sua invenção ao Corno di Bassetto), sucumbiu sob o peso da própria obsolescência com a chegada da internet. Não que tenha deixado de existir. Só que, ao invés de ser exercida por um punhado de escritores bem treinados e musicalmente educados, instrumentados por fabricantes de discos e bancados por empresas jornalísticas, foi pulverizada entre uma multidão de opinantes qualificados, dispersos em blogs, perfis, grupos de discussão e fóruns de comparações ou avaliações por usuários. Hoje, toda inteligência é líquida. Queiram ou não certificadores e autoridades investidas.

A delicada questão da independência necessária ao bom exercício de toda crítica foi magistralmente levantada por Bassetto, nalgum de seus textos (acho profundamente irritante não localizar uma referência exata…), por meio de um espirituoso aforismo, a saber, o de que ” um crítico (ou seu jornal) deve sempre adquirir os ingressos para quaisquer espetáculos que venha a resenhar ” – cujo descumprimento, aliás, explica grande parte das más práticas hoje perpetradas em meios de broadcasting.

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Mais sobre notações metronômicas, or in praise of social networking or, still, on conducting (x)

metronome 1Após dias de imersão exclusiva em modo músico, culminando ontem com a execução da suíte orquestral de 1919 do balê O Pássaro de Fogo, de Igor Stravinsky, torno ao modo blogueiro até que um próximo desafio instrumental se apresente. Tenham, pois, paciência se gosto de textos colaborativos, nos quais tento enquadrar num contexto e dar mais permanência à melhores conversas que tenho.

Comentava hoje, ao acordar, que estava gostando de deixar o computador ligado para receber notificações de novas falas em conversas interessantes em curso na rede. Nos intervalos necessários ao estudo, discutia os andamentos mais adequados para a música a ser tocada nas próximas horas com parceiros importantes que teria no concerto. Embora ainda não tenha ouvido a gravação, quero acreditar que o teor da conversa afetou positivamente a performance, pois tocamos a passagem mais crítica num andamento muito mais próximo (?) a um consenso acordado entre protagonistas por meio de conversas em redes sociais do que, nitidamente, naquele proposto insistentemente pelo regente desde o primeiro ensaio. Estou errado ? Se estiver, me desculparei adiante.

metronome plastic 2Enquanto isto, vejam, abaixo, alguns dos melhores trechos da conversa. Tudo começou quando, depois do primeiro ensaio, na semana passada, para o concerto de ontem, postei no facebook o seguinte desabafo:

Até entendo, embora não aceite, que alguém queira – e para tanto talvez encontre mesmo alguma desculpa esfarrapada (como, por exemplo, um metrônomo defeituoso ou algo do gênero) – se desviar dos andamentos prescritos por um Beethoven ou, vá lá, Mendelssohn. Foge, no entanto, totalmente à minha compreensão por que alguém decide (decide ?) desprezar ostensivamente as indicações metronômicas de um Stravinsky (sic !). #aindaimpactado

metronome plastic small redMinha perplexidade inicial era com a lentidão do andante final (solo de fagote), em franca oposição à indicação metronômica impressa na partitura. Fui, no entanto, traído pela linguagem demasiado compacta, pois entenderam que eu me referia, sobretudo, à veloz Variação do Pássaro de Fogo. Mas tanto as ideias discutidas, a pesquisa ampla e metódica e os melhores vídeos encontrados (ainda não vi, mas aposto que qualquer coisa curada pelo Artur Elias é nada menos que gloriosa), fazem desta conversa a melhor que tive enquanto me preparava para o concerto vindouro. A qual começara, despretensiosamente, como comentário à recomendação de um video no youtube (de uma versão para piano da Dança Infernal de Katschei, ao que lembro), mais ou menos assim:

AE: En passant, Augusto Maurer, Leonardo Winter, . Vinicius Prates, Gustavo Fontana e a quem mais interessar possa :

uma pesquisa exaustiva no youtube não conseguiu localizar nem uma ÚNICA gravação na qual Variação do Pássaro seja tocada no
andamento impresso (76).

A Filarmônica de Moscou nesta excelente versão com Yuri Simonov (vídeo abaixo) faz 20 pontos de metrônomo abaixo: 56 (e soa lindo!).

O próprio Stravinsky regendo: ca 66.

Duas produções de ballet, uma russa e uma inglesa, também.

O que reforça minha opinião :

1 é praticamente impossível tocar limpo no andamento impresso

2 soa melhor e mais virtuosístico num andamento que permita tocar limpo

Além disso, parece que nenhuma bailarina gosta (ou consegue) fazer tão rápido, idem!

AM: Concordo. A variação fica melhor num tempo mais seguro; quando falei de lentidão excessiva, me referi ao Andante final. Como resolvemos isto ? Acordamos um tempo previamente com o maestro ou deixamos ao sabor do momento ?

AE: Pois é. Eu creio que a argumentação acima é praticamente irrefutável. Por outro lado, é não apenas um direito dele construir sua própria interpretação; mas também é fundamental que ele se sinta livre para exercer a espontaneidade musical, que faz a música ter vida. E isso não é uma questão de argumentação. Eu gostaria de ter a CHANCE de poder tocar todas as notas, mas não gostaria que ele se sentisse constrangido e isso viesse a prejudicar a intensidade do momento.

Versão curta: não sei.

metronome electronic 1Já no palco, pronto para executar a obra, ouvi de Leonardo Winter (flautim), acerca da acalorada disputa entre os melhores tempos para Stravinsky, que a vida continuava depois daquele concerto. Pura verdade. Bem como a conversa. Chegando em casa, Artur Elias (primeira flauta) e Vinicius Prates (segunda flauta) escreveram, ainda mobilizados pela experiência, o seguinte:

VP: Nossa! Que gravação!!! Fiquei tonto só de pensar que tantas notas simultâneas podem ser tocadas por apenas uma pessoa. Deve ser música pra quem tem 7 ou 8 dedos em cada mão. Obrigado por compartilhar! Com relação aos tempos comentados acima, gostaria de expressar minha humilde opinião em meio aos comentários (até agora) de dois jedis. Recentemente durante meu mestrado, em uma aula eu e o Leonardo Winter discutíamos a respeito de andamento X execução de Notas Soltas para flauta solo de Bruno Kiefer, obra objeto de minha pesquisa. A partitura pede semínima acima de 100, se não me engano (não tenho a peça em mãos enquanto escrevo). Não é tão rápido quanto o Passaro nem tão difícil, mas, devido ao tempo justo, traz consigo algumas dificuldades. Lembro que naquela ocasião meu professor relatou uma conversa que teve com outro compositor (não lembro quem) em que este o disse que muitos compositores indicam andamentos rápidos na partitura não preocupados com a precisão matemática do pulso mas sim com a intensão de não fazer com que o interprete atrase no tempo. Em outras palavras, fazer com que o músico leve a música sempre pra frente. Em minhas palavras e interpretação da lição, o compositor está mais preocupado com o caráter justo do que com o tempo justo. Sabemos que muitas vezes caráter e tempo caminham lado a lado (se não sempre). Mas penso que uma subdivisão em figuras minúsculas e articuladas também pode contribuir para o caráter justo, vivo, independente da marcação metronômica. Talvez isso explique os andamentos mais lentos na maioria das gravações disponíveis. Acredito que o caráter saltitante esteja presente em todas as versões, independente do tempo mais largo. Por outro lado, o tempo preciso me parece trazer outro tipo de expressividade, apesar de talvez prejudicar tecnicamente um ou outro ponto. Aquilo que o maestro disse muito bom: é como desarmar uma bomba! Ou seja,é uma certa aflição pela qual o músico talvez tenha que passar como parte integrante e colaborativa da execução de uma peça tão complexa. Quem sabe se isso não intencional na escrita poética do compositor? Ou quem sabe, e provavelmente, eu viajei de mais? Fato é que meus colegas e o maestro estão fazendo um trabalho brilhante. Parabéns! Bravi Tutti!!!

AM: Gostei da tese de que composer’s metronomic markings are bullshit. E da parte dos jedis. Lembrarei disto na próxima discussão sobre indumentária.

VP: Prefiro composer’s metronomic markings can be bullshit. Acho que assim me comprometo menos, kkkkkkkk

AM: Exatamente ! Cada caso é um caso.

AE: Exemplo interessante, Vinicius Prates. Eu toquei as “Notas Soltas” algumas vezes, numa vida passada – nunca no andamento impresso (não conseguia!) mas sempre com rigor – e intensidade – se não me falha a memória, o público parecia curtir muito essa composição aparentemente árida!

Observações soltas

– é MUITO comum, na música dos gigantes sinfônicos russos, indicações metronômicas que beiram a crueldade, por assim dizer… Vide Prokofiev e Schostakovitch, além de Stravinsky.

– A percepção de andamento “dentro da cabeça”, apenas ouvindo a música internamente, é bem diferente da percepção do tempo quando a música está sendo realmente tocada – e mais ainda se for uma formação grande

– Nenhum debate sobre andamentos pode ser completo sem mencionar Celibidache, o alquimista da regência! Para ele, andamento, músicos, a SALA e o momento são interdependentes.

A propósito, eu ouvi um Romeu e Julieta sob a sua direção – foi uma experiência inesquecível e irrepetível.

Ao que não me furtei de deixar escapar:

AM: Notações metronômicas são para humanos mortais. Não se aplicam, portanto, a Celibidache, que pode tudo.

metronome korg blueAinda depois do concerto, Vinicius postou em seu facebook o seguinte:

Tem certas coisas que quando a gente toca, na hora que termina pensamos que nem criança: “de novo, de novo, de novo!” Foi assim comigo hoje com o Pássaro de Fogo. Emocionado com o concerto.

Espero que esta conversa se prolongue para além dos limites deste post.

metronome yamaha* * *

PS: Procurando figurinhas de metrônomos para ilustrar o post, me deparei com este artigo (do Smithsonian) sobre a bizarra tese do metrônomo defeituoso de Beethoven, à qual me refiro aqui e já em meu primeiro blog. Marquei prá ler. Pois deve ser, no mínimo, divertido.

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