Por que se derrubam estátuas

Yuval Noah Harari muito apropriadamente afirma, em Homo Deus, que estudamos história não para prever o futuro – algo que considera impossível – mas para não repetir erros cometidos no passado. Esta questão assumiu súbita relevância nos últimos dias por ocasião dos acontecimentos de Charlottesville (Virginia, EUA), protagonizados por supremacistas brancos de extrema direita e seus opositores e desencadeados pelo propósito anunciado de remoção de uma estátua em homenagem a um herói confederado e, portanto, escravagista.

Profilaticamente, outras cidades norte-americanas trataram, então, de remover seus monumentos a heróis confederados,  em alguns casos (como em Baltimore) na calada da noite, em antecipação a novos possíveis protestos violentos.

Por aqui, a revisão histórica por meio de intervenções na paisagem e na nomenclatura urbana não são nenhuma novidade. A antiga Avenida Castelo Branco, por exemplo, foi recentemente renomeada como Avenida da Legalidade. Como este caso, deve haver muitos outros. Críticos alegam a confusão sentida em decorrência de expedientes assim pela população em geral e categorias profissionais como as de taxistas e carteiros.

Já cidades como Nova Iorque, talvez cientes dos riscos de nomear espaços públicos em homenagem a figuras eminentes diante da volatilidade histórica, preferem designar suas ruas e avenidas numericamente. Ou até por meio de termos politicamente mais neutros – como, por exemplo, o Central Park, cuja denominação é bem mais imune à flutuação de humores ideológicos e, portanto, mais perene do que, digamos, a de um Parque Farroupilha. Este tipo de coisa deveria preocupar muito mais as câmaras de vereadores ao nomear logradouros.

Mas tornemos ao caso da derrubada de estátuas, situação revestida de alto valor simbólico desde, pelo menos, as icônicas fotos da derrubada de monumentos à Lênin e outros próceres comunistas. Conseguem imaginar a paisagem urbana de cidades gaúchas sem os monumentos equestres erigidos a Bento Gonçalves, David Canabarro, Giuseppe Garibaldi e tantos outros ?

Desconheço o que levou Lutero a banir dos templos toda a estatuária erigida em honra de santos. Talvez pressentisse, conscientemente ou não, que toda biografia pode sofrer revisões à luz de novos fatos descobertos. Tomem, por exemplo, o caso de Madre Tereza de Calcutá, recentemente canonizada. Os serviços de comunicação do Vaticano devem se ocupar bastante com contramedidas em relação às abundantes matérias jornalísticas que dão conta do lado B da piedosa freira.

Tornemos, novamente e pela última vez neste post, aos heróis farroupilhas. Não, porém, sem antes sublinhar que não raro golpes e tomadas de poder por parte de elites se travestem de movimentos de índole popular simplesmente pela justaposição do termo “revolução”. Como eu disse dias atrás, palavras são importantes. De sorte que “revolução” implica, quase sempre, para o leitor mais desavisado, uma ideia de progresso, seja lá qual for. Foi assim em 1964 e, bem antes, na Guerra dos Farrapos. Em ambos os casos, o destino dos habitantes de amplas áreas geográficas foi tomado pelas mãos de oligarcas, sem qualquer consulta ou consentimento democráticos, em nome de supostas melhoras para a maioria. Por sorte, temas como a índole escravagista dos latifundiários responsáveis pela assim chamada Revolução Farroupilha vem sendo examinada com alguma profundidade por historiadores mais recentes.

Sobre a Revolução Farroupilha, vale registrar que, como bem disse um amigo, se trata de uma guerra que notoriamente perdemos mas até hoje insistimos ter resultou num empate. O que de pronto me remete àquela cena memorável do Monty Python, em Em busca do cálice sagrado, na qual um cavaleiro medieval esquartejado propõe a seu adversário um termo favorável a ambas as partes.

Comer sozinho (i): penne Don Giovanni

Muita vezes já desabafei a amigos mais chegados, em tom jocoso, após contemplar as estatísticas mensais de visitação dos blogs do Sul 21 enviadas pelo Milton Ribeiro a seus escritores como provocação para que escrevam mais, que deixaria de elaborar textos cabeça para, doravante, me dedicar exclusivamente a posts culinários. Pois o blog gastronômico do portal supera de longe em acessos todos os outros. Exceto, é claro, os do Milton.

Hoje, pus finalmente mãos à obra. Antes, porém, da receita recém criada propriamente dita, se faz necessário um preâmbulo. Breve, prometo.

Faz quase dez anos que, em dias de semana, almoço invariavelmente sozinho. O que pode parecer àqueles mais acostumados ao aconchego doméstico uma atividade essencialmente lúdica é, na verdade, bem trabalhoso, entediante e, por vezes, frustrante. De início, tendemos a mapear na área geográfica em que vivemos aquele punhado de restaurantes com preços convidativos nos quais podemos comer ser correr riscos. Só que, com o tempo, os cardápios se tornam repetitivos. A tal ponto de, mesmo nos lugares (mais caros) onde se possa desfrutar de um menu confiance, as coisas tenderem a se repetir – no pior dos casos nos mesmos dias da semana. Então, almoçar fora ou em casa pode, muitas vezes, se traduzir na diferença entre comida e alimentação. Além disso, já ouvi que preparar a própria comida tem um inestimável valor terapêutico para os insanos. Não sei se isto se aplica a meu caso.

De sorte que, hoje, ao sair do segundo ensaio para a ópera Don Giovanni, decidi me dirigir à minha casa para improvisar rapidamente com o que tivesse na geladeira. No caminho, me diverti imaginando opções que poderia preparar com sobras e ingredientes que tivesse à mão (sobras básicas, não finalizadas, são essenciais à culinária relâmpago). Cheguei em casa com certo gozo antecipatório, saboreando mentalmente uma massa carbonara com o penne que sobrou do domingo. Parêntesis: não vale a pena cozinhar menos do que o meio quilo de massa que geralmente vem no pacote; uma massa já cozida, à espera de um molho interessante, é uma dádiva.

Para minha surpresa, não havia ovos. Mas não esmoreci. Processei uma peça de bacon magro (uma auspiciosa novidade nos supermercados), que torrei em manteiga derretida – reservando, é claro, o restante para invenções futuras (já falei, acima, da importância dos ingredientes “coringa”, prontos para o uso). Olhando, então, para a geladeira e para o rack de temperos, juntei ao bacon frito (que os americanos chamam de bacon bits) uma mistura de alho e cebola flocados (secos) com algo defumado de soja que Astrid havia comprado e alecrim fresco colhido da horta. Depois de desligar o fogo, juntei pedaços de tomates cereja que já estavam lavados e com os nós dos talos removidos (Astrid é preciosista em assuntos culinários).

Não me decepcionei. A massa, que batizei de Don Giovanni em homenagem ao ensaio que atiçara minha fome, superou em muito qualquer carbonara que já comi. Sei. É extremamente anti ético descrever receitas sem postar fotos das ditas cujas. Juro que até pensei em compor um prato fotografável, dispor sobre uma toalha, cuidar da luz e regular a câmera – mas, entre fazer tudo isso e comer a criação efêmera antes que esfriasse, preferi a segunda opção. Comi olhando, pela janela, a primeira orquídea a florescer neste ano (as estações andam malucas) e, o que é melhor, sem ouvir a conversa dos almoços de negócio em outras mesas que ocorrem em qualquer restaurante neste horário. Isto não tem preço.

Salut !

 

Por que se evita tanto falar em democracia direta ?

Quem mais ouviu ontem, na Band News FM, o Ricardo Boechat defender a democracia direta, ainda que sem se referir a ela pelo nome ? Pois, ao pleitear que, a exemplo do que já é feito em alguns países, as cédulas eleitorais permitam aos cidadãos, além de escolher representantes, deliberar sobre decisões a serem tomadas em relação a matérias importantes, se referiu inequivocamente àquilo em que se constitui, em essência e em última análise, uma democracia direta – a saber, a voz do eleitor se fazendo valer em todas as matérias de interesse público. Isto é o contrário do que temos hoje, com representantes eleitos a quem outorgamos o direito e o poder de decidir em nosso nome.

No mesmo editorial, o âncora da Band caçoou da única e improvável possibilidade que a população tem hoje de fazer sua vontade adquirir força de lei. Pois, mesmo que alguma causa consiga angariar os milhões de assinaturas requeridas para o encaminhamento de uma emenda popular à constituição, a mesma ainda dependerá, para sua implementação, do endosso de casas legislativas numericamente muito inferiores aos signatários de cada emenda proposta – a vontade de milhões ficando, portanto, sujeita à aprovação de umas poucas centenas.

Esta questão deveria estar, portanto,  juntamente com outras tais como o fim do foro privilegiado e das aposentadorias especiais, rituais mais sumários para cassação de mandatos e criminalização de políticos corruptos ou flagrados em estelionato eleitoral (o não cumprimento do que foi prometido), redução dos salários de políticos, enxugamento de custos legislativos e tantas outras, no âmago de qualquer reforma política. Mas não. Em vez disto, políticos eleitos tentam incutir em eleitores perplexos a impressão de que estão de fato fazendo alguma coisa simplesmente tergiversando sobre a composição de distritos eleitorais. Sob esta cortina de fumaça, tratam de amealhar para suas próximas campanhas eleitorais mais um bocado colossal do orçamento nacional. Tenho, então, que concordar com Boechat quando diz que a reforma política, tal como vem sendo encaminhada, será totalmente inócua, a não ser pela concessão de mais vantagens aos políticos e aos partidos.

* * *

Nomes importam. Muitos ainda se incomodam com a designação de “golpe” à articulação que afastou Dilma do poder por delitos bem menores do que malfeitorias perpetradas pela quadrilha hoje instalada. Pois o que são, afinal, pedaladas fiscais perto da abolição de direitos e flexibilização dos contratos trabalhistas ? Sem falar em propinas milionárias e na compra de votos de parlamentares.  Querem nos fazer acreditar, no entanto, que nos livraremos de tudo isto simplesmente com a “reforma política” que aí está. Ao mesmo tempo, se evita a qualquer custo a popularização da noção de “democracia direta” tão somente por que ela rende óbvia a obsolescência dos representantes eleitos tais como hoje os conhecemos. Esta é uma verdade inconveniente (para os políticos profissionais) protegida a sete chaves.

Daí a necessidade de uma assembleia constituinte soberana e exclusiva (i.e., sem a participação dos atuais congressistas) para a redação, após ampla discussão (que tarefa para os tribunais eleitorais !), de uma nova carta magna da qual sejam expurgadas as mazelas da representação.

Não sou tão ingênuo a ponto de acreditar que isto venha a acontecer num futuro próximo nem tampouco sem alguma comoção popular, pois a blindagem contra esta ideia é fortemente sustentada pelo congresso e pela mídia, ambos controlados pelo poder econômico. Mas sonhos só possuem alguma chance de se tornar realidade se falarmos sobre eles.

Mensagens demais

Um amigo disse no facebook dias atrás que tinha mais de 12.000 emails não lidos. Para sua (e minha !) surpresa, muitos contestaram em comentários que tinham muito mais. Não sou tão radical. Tomo ciência de cada email que recebo. É claro que não leio a grande maioria. Mas arquivo cada um deles em pastas segundo seus emitentes, para rápida referência futura, se necessária. Dentre as principais categorias de emails irrelevantes, se destacam os publicitários, as solicitações de adesão a petições, os de corretores imobiliários e, é claro, a maior parte das “circulares” institucionais. As últimas são uma verdadeira praga. Por alguma razão, burocratas distribuem todo e qualquer documento que lhes cai em mãos (e que poderia simplesmente estar disponível em portais) para uma legião de (em seu entender) possíveis interessados – geralmente alguma classe de servidores como, por exemplo, professores de um instituto ou departamento acadêmico.

Antes da internet, a triagem do lixo postal era bem mais fácil. Podíamos identificar comunicações de interesse pessoal por meio de critérios simples tais como, por exemplo, ler tudo o que fosse manuscrito ou datilografado e descartar tudo o que fosse impresso, sendo a mala direta, antes da revolução digital, o legítimo precursor do spam.

Se a tecnologia agilizou tremendamente as coisas ao viabilizar mensagens instantâneas e representou um inegável ganho ambiental por praticamente sepultar a comunicação impressa; trouxe, por outro lado, um vasto excedente de comunicações desnecessárias decorrentes da própria facilidade (alta praticidade e baixo custo) dos novos meios. Há hoje uma intensa pressão social para que estejamos cada vez mais conectados. Se não nos abstivermos ativamente do bombardeio de mensagens, poucas delas imprescindíveis ou importantes, teremos a atenção desviada para seu fluxo incessante durante todo o tempo em que estivermos acordados.

Nem sempre foi assim. Houve um tempo em que ninguém podia ser acessado nos intervalos em que não estivesse ao alcance de um telefone fixo. Com os celulares, este privilégio acabou. Ainda assim, a verborragia era limitada pelo custo elevado tanto de chamadas de voz como de mensagens de texto. Com a internet, este custo foi abolido e, pior do que isto, os famigerados grupos de mensagens difusas não endereçadas a destinatários específicos se tornaram uma realidade onipresente. Ao ponto, até, de a mera recusa pessoal de utilizar plataformas como o whatsup ser considerada francamente anti social. Já experimentei isto mais de uma vez. Também não é raro eu ter que explicar por que jamais habilitei meu smartphone para acessar a internet.

* * *

Sei que o desabafo acima mais parece ranço saudosista. Que o futuro é conectado, dirão. E que a internet móvel é o novo normal. Mas não consigo parar de pensar que, no novo regime de conexão quase universal, algo de muito especial acabou se perdendo na economia da atenção. Algo que pode ser mais ou menos formulado como a impossibilidade de pensamento profundo num regime de interrupções frequentes.

Na única e memorável vez em que estive com Howard Rheingold, que reputo como um dos pais da internet, ele confessou que até um entusiasta como ele dos novos meios precisava de momentos offline, nem que fosse só passeando com seus cães, tão somente para preservar a capacidade de pensar. É, também, amplamente conhecida a noção, formulada por Domenico de Masi, de que pouco ou nada de importante acontece a cada dia, sendo o frenético fluxo de notícias veiculado pela mídia altamente redundante. Somos, no entanto, induzidos pela indústria de notícias e, mais recentemente, pelas redes sociais a acreditar que perderemos algo imprescindível ao nos desconectarmos temporariamente.

Ainda hoje, relutava em escrever ou não este post quando, providencialmente, surgiu em meu feed este interessante artigo em prol do ócio criativo. Por essas e outras, sigo tentando, ao custo de muita disciplina e por vezes sem êxito algum, deliberadamente ignorar, durante intervalos de tempo, o que a mídia e as redes queiram insistentemente me mostrar. Chamem a isto como quiserem. Eu chamo de higiene mental.

 

Sapiens – Uma breve história da humanidade, de Yuval Noah Harari

Talvez a principal diferença imposta pela transição de um mundo, anterior à internet, de autores e não autores para outro onde todo e qualquer indivíduo é um autor (não importa de que, de uma mensagem eletrônica a um grande romance) seja que agora, ao contrário de como era antes, a leitura de toda obra caudalosa implique numa profusão de reações publicadas ao que foi lido. Pois já não basta ao leitor comum se deixar impactar por seu objeto de atenção; é preciso, mais do que isto, que cada reação pessoal a um determinado livro seja alardeada na esfera de atenção a cada leitor\autor.

De tal modo que a bela concepção do discurso de Mikhail Baktin tal qual uma malha de conexões entre nodos discretos correspondentes, cada um deles, a enunciados individuais (monológicos, na terminologia baktiniana, cujo melhor exemplo é o grande romance) dialogando entre si; é hoje melhor representada por uma nuvem na qual cada obra popular (best-sellers, se quiserem) está envolvida por uma massa indistinta de discursos que lhe fazem referência.

(não é de hoje que digo que, tivesse Baktin vivido por estes dias, teria sido sem dúvida o grande filósofo da internet. Pois ninguém vislumbrou melhor do que ele um modelo para a comunicação humana que tão bem acomodasse os agenciamentos virtuais)

Então, se antes, para decidir ler ou não determinado livro, dispúnhamos não mais do que de um punhado de textos críticos publicados em fontes confiáveis; há hoje, para cada obra de maior fôlego publicada, uma infinidade de apreciações residentes em sites e blogs de toda espécie, por autores que variam dos críticos mais profundos aos mais aventureiros franco-atiradores. Neste panorama, de pouca ou nenhuma ajuda são os engenhos de busca em se tratando de mapeá-los, não obstante o quão práticos sejam na hora de simplesmente levantá-los.

Neste universo de autoria quase universal (não canso de citar este artigo), todo leitor/autor possui, ao empreender a leitura disto ou daquilo, o por vezes inconfesso desejo de lavrar uma resenha capaz de atrair outros leitores para seu novo objeto de apreço. Pois, numa época em que um dos valores mais altos no capital social de cada um seja talvez existir perante outros como um formador de opinião,  a fantasia de descobrir algo bom até então incógnito a seus pares efetivamente move teclados e servidores.

Foi neste contexto que, ao visualizar, numa gôndola estrategicamente disposta à entrada de uma revistaria (vejam bem: não foi numa livraria !), a capa do primeiro e mais popular livro de Yuval Noah Harari em cujo topo havia uma tarja vermelha com a isncrição “best-seller internacional”, caí na real. Como assim, Brutus ? A tradução para o português da principal obra do autor tão instigante com o qual eu tomara contato por meio de um provocativo artigo publicado recentemente pelo The Guardian já estava em sua 22ª edição e ninguém me dissera nada. Foi como perder o melhor da festa. Ou desembarcar num planeta desconhecido. Naquele instante, tive a exata noção de que o livro não precisava de mais uma recomendação. Muito menos de uma resenha – até por que lemos, estampada em sua contracapa, uma daquelas frases pinçadas (do Financial Times, no caso) que diz “Este livro fascinante não pode ser resumido; você simplesmente terá de lê-lo.”

Resignado, iniciei de pronto a leitura de suas 400+ páginas – talvez o livro mais longo que li de cabo a rabo nos últimos dez anos. Isto não é pouca coisa, numa época em que apenas “degustamos” discos, livros e filmes para, só depois de uma experiência sensorial em primeira mão, decidir empreender ou não o tempo necessário à fruição da obra em sua totalidade. A nova economia da atenção é um tema fascinante, incluindo a subseção relativa à não tão recente mania das séries. Já falei disto e devo tornar ao assunto noutro momento.

* * *

Os muitos e impressionantes méritos de Sapiens – uma breve história da humanidade são bem conhecidos. Por isto, optamos por nos concentrar num aspecto que lhe é singular. Desde as primeiras páginas, constatamos se tratar indiscutivelmente de um livro de história, daí decorrendo nossa perplexidade inicial. Pois não era, afinal, a condição de best-seller exclusiva, até então, de obras de ficção ou de auto ajuda ? Nesse sentido, um best-seller de história é um evento tão improvável como, digamos, um disco de música clássica (ou mesmo de jazz – daí a singularidade do Kind of Blue) no topo das listas dos mais vendidos.

Salvo se eu estiver enganado, grandes volumes dedicados à história tem geralmente um interesse restrito a círculos acadêmicos e/ou especializados. Por uma razão, em nosso entender, bastante simples – a saber, a de que as narrativas históricas são tremendamente previsíveis. Não há finais deceptivos. Quase sempre, sabemos como vai terminar antes mesmo de começar a ler. Não, no entanto, em Sapiens.

Sem dúvida alguma o principal talento de Harari é desafiar, a cada página, noções adquiridas pelo senso comum. Para tanto, trata primeiro de colocar para o leitor a história de nossa espécie na devida perspectiva. Quando chegamos, finalmente, à história dos dias que correm, temos a mais firme convicção (e isto é novo !) de que quase tudo aquilo em que acreditamos e que defendemos é fundado sobre o pouco que sabemos de um período de civilização extremamente curto, de poucos milhares de anos, se comparado aos bilhões de anos de história de nosso planeta e aos milhões de anos de nossa espécie. Com efeito, sabemos mais sobre os últimos 500 anos do que sobre tudo o que aconteceu antes.

Para se ter uma ideia do deslocamento que tal enfoque significa, basta verificar que, até há poucas décadas atrás, gastávamos mais tempo escolar estudando as chamadas revoluções comercial e industrial (ocorridas, respectivamente, há ca. 500 e 150 anos atrás). Já Harari narra a história da humanidade a partir das mudanças ocorridas pelas revoluções cognitiva (ca. 70 mil anos atrás), agrícola (há 12 mil anos), e científica (há 500 anos). É inegável que esta substituição de uma régua por outra, muito maior, possibilita uma compreensão bem melhor de como chegamos até aqui.

Harari parte da premissa, esmiuçada por muitos estudiosos, de que nenhum humano é capaz de conhecer suficientemente bem mais do que uns 150 de seus pares a ponto de ter confiança nos mesmos. Não por acaso, este é o número máximo de indivíduos num bando de grandes primatas que conseguem colaborar entre si. Para poder colaborar com um número maior de indivíduos, os sapiens desenvolveram, ainda no tempo dos caçadores-coletores anteriores à revolução agrícola, realidades imaginadas compartilhadas por milhões de pessoas, tais como religiões, estados, ideologias, dinheiro e afins. Tal é, segundo Harari, o que distingue os sapiens de outras espécies, humanas ou não – a saber, a capacidade de contar histórias, a qual possibilita a criação de realidades imaginadas. A certa altura, chega a desconstruir a fronteira entre as definições de religião e ideologia.

Ao se debruçar sobre a aceleração científica, tecnológica e econômica exponencial verificada ao longo de toda a história humana, Harari desafia a noção banalizada de que qualquer progresso nestas áreas tenha significado, necessariamente, um aumento de felicidade. Questiona, por exemplo, se o agricultor pré-histórico era mais feliz do que seus antepassados caçadores-coletores, ou se o homem contemporâneo, com todo seu acesso ao conforto material e tecnológico, é mais feliz do que o homem medieval. Os argumentos apresentados são contundentes. Mas não quero, aqui, fornecer nenhum spoiler.

É, no entanto, ao especular sobre possíveis cenários futuros resultantes da aceleração cognitiva e tecnológica em que estamos imersos que Harari bate mais forte. Ao declarar que a fome (hoje apenas política) e a guerra (hoje apenas localizada) são coisas do passado, chega a provocar a irritação de alguns leitores, que até mesmo abandonam a leitura sob a alegação de um total descolamento da realidade objetiva por parte do autor. ” E a África ? E Donald Trump ?”, dizem.

Em certo ponto, chega a propor que ninguém mereceria mais o Prêmio Nobel da Paz do que Robert Oppenheimer, diretor do Projeto Manhattan que culminou com o desenvolvimento da bomba atômica – já que a ameaça permanente de um holocausto nuclear é a melhor garantia possível para a manutenção de uma paz duradoura. Argumenta que há mais pessoas que se suicidam anualmente do que vítimas de terrorismo, e que acidentes de carro matam mais do que guerras. Logo, o mundo nunca foi tão pacífico como agora – e se prestamos mais atenção às mortes violentas do que antes, tal se deve exclusivamente à combinação de sua escassez com seu realce midiático. A meu ver, é justamente este tipo de independência lógica que torna o pensamento de Harari tão fascinante.

Anotações religiosas (i): o dia (ou melhor, a noite) em que me tornei ateu

Devia ter por volta de uns quatorze anos, não lembro bem ao certo. Muito provavelmente devido à minha educação católica (toda ela em um colégio de padres – pois, por sorte, jamais tivemos qualquer cobrança religiosa em nossa família), costumava rezar todas as noites, antes de dormir.

Cabe aqui um breve desvio narrativo para acrescentar que meu pai, um comerciante estabelecido e convicto, se considerava quites com deus depois de assistir missas diárias (e cantar nas mesmas !) durante seus vários anos de internato e, com isto, não fez nenhuma questão de que tivéssemos qualquer tipo de vida religiosa.

Dizem que, em educação, o exemplo arrasta. Comigo, então, não poderia ter sido diferente. Tendo há muito abandonado a mera recitação de preces como Pai Nosso, Ave Maria e afins, minhas orações, tão fervorosas quanto burocráticas, consistiam, invariavelmente, no agradecimento por um rol de graças alcançadas, materiais e emocionais, seguido por uma sucessão de pedidos pela manutenção do bem-estar de todos os que me eram mais queridos, i.e., amigos, parentes e familiares. A coisa tinha, portanto, mais ou menos o formato de um balanço contábil, com palavras de gratidão numa coluna e demandas na outra.  Por alguma razão, sempre achei de bom tom agradecer antes de pedir.

Até o dia em que ouvi de um dos padres mais ortodoxos da escola onde estudava que de modo algum deveríamos praticar a religião segundo nossos modos particulares, individuais de entendê-la – mas, exclusivamente, segundo os preceitos da santa igreja católica, que incluíam ir à missa frequentemente e receber os demais sacramentos nos momentos apropriados. Uma espécie de tudo ou nada na qual só poderíamos adquirir o pacote completo. Aquilo calou fundo em minha mente de modo que, com a autoexaltação das faculdades racionais e do livre arbítrio peculiar à juventude, decidi naquela mesma noite que não precisava mais daquilo e, consoante a isto, doravante não mais rezaria antes de dormir.

Devo confessar que tive medo. Muito medo. De que, ao acordar, o mundo tivesse acabado ou, mais provavelmente, algum tipo de desgraça houvesse se abatido sobre todos os que me eram mais queridos (até por que, até então, minhas preces jamais foram tão altruístas a ponto de incluir o bem de toda a humanidade). Nesse estado de profunda dúvida filosófica que jamais houvera experimentado antes, peguei no sono. Infelizmente, não me lembro do que sonhei naquela noite.

* * *

Ao acordar na manhã seguinte, sorrateiramente espreitei o quarto de meus pais, que ainda dormiam o sono dos justos. Minhas irmãs também estavam bem. Concluí, com isto, que ao menos minha família não tinha sido fulminada pela ira divina. Não me dando, ainda assim, por satisfeito, fui para a escola imerso num estado de apreensão, para só então verificar que meus amigos mais próximos gozavam da saúde e da alegria de sempre. Bingo ! O experimento funcionara. Dali em diante, jamais tornei a rezar antes de dormir.

Para a decepção de meus muitos amigos ateus, não descarto a hipótese de que, se chegar à velhice e pressentindo o fim de meus dias, torne a acreditar, por conforto e conveniência diante de uma condição mais frágil, em algum tipo de salvação e/ou vida pós morte. Pois o que são, afinal, as religiões senão realidades virtuais imaginadas compartilhadas por milhões de humanos com a finalidade de lograr a colaboração em grande escala por estranhos entre si em torno de objetivos comuns ?

A perversa retórica de que a salvação reside no empreendedorismo

Já disse noutro post que tenho o incurável hábito de assistir ao Jornal Nacional tão somente para auscultar a linha editorial da Rede Globo e, residualmente, para ficar a par do mais recente pacote de maldades do governo federal bem como das últimas peripécias do circo judiciário.

Ouvindo de longe, ontem, apenas o áudio do Jornal Nacional, fui tomado de curiosidade por uma matéria que, supostamente, fomentava o empreendedorismo. Algo sobre abraçar novas carreiras. De um modo tortuoso, a tônica do discurso me pareceu, de imediato, a banalização do desemprego. Achei aquilo muito sintomático,  pois justo quando o alto empresariado obtém o aval do estado, respaldado pelo poder legislativo, para se desonerar de responsabilidades trabalhistas, seu principal arauto (afinal, quem sustenta, por meio de anúncios, a grande mídia ?) toma a si a tarefa de persuadir a população de que sua emancipação e felicidade não dependem da segurança do recebimento de um salário mensal e outros benefícios tidos como supérfluos por defensores das virtudes do mercado – tais como férias remuneradas, décimo-terceiro salário e aposentadoria – mas, tão somente, de arriscadas e improváveis incursões de nanicos no mundo dos negócios. Pois, para o credo liberal, o mundo ideal é povoado não por assalariados mas por pequenos empreendedores. O governo federal estimula essa ideia por meio do Sebrae. Até orquestras, como a OSESP, já contratam músicos como empreendedores individuais.  Ainda assim, quase vomitei ao ver o JN incentivar a audiência a abraçar carreiras autônomas no mesmo dia em que o governo anunciou um novo plano de demissões voluntárias.

Na supra-citada matéria, mostraram um site que já tinha mais de 11 mil seguidores. Ora, curtidas em redes sociais não equivalem de modo algum a intenções de compra. Com efeito, se tivéssemos que pagar por cada coisa que curtimos, seríamos bem mais criteriosos ao pressionar o ícone da mãozinha com o polegar erguido. A dona do mesmo site nos informa sobre alguém que, pelo volume de fotos postadas, já pode ser considerado como o fotógrafo oficial do site. Se a TV fosse interativa, perguntaria de pronto quanto pagou por cada foto. O que mais me irrita nisto tudo é pensar que esta retórica emancipatória possa encontrar, entre a audiência, olhos e ouvidos crédulos. Se fosse na internet, seria automaticamente descartada como algum vírus ou spam. Na tela da TV adquire, no entanto, o benefício da validação.

Indo adiante, é preciso acrescentar que, conquanto muitas iniciativas comercias já tenham se apropriado com êxito de recursos virtuais, a esmagadora maioria dos sites ainda é exclusivamente voltada para a comunicação entre seus mantenedores e visitantes. A web ainda é, portanto, eminentemente um meio de informação. Se, no entanto, os responsáveis por cada site ou blog passassem a tentar vender alguma coisa, arrisco afirmar que, em sua grande maioria, perderiam um volume considerável de leitores.

Sei. Há sites como um prosaico “Viver de blog”, que “ensina” técnicas para potencialização da audiência e monetização do conteúdo. Insisto, ainda assim, que o maior potencial da rede, largamente subaproveitado, reside na comunicação, com especial importância para a educação e a política. Só que ambas precisam mudar radicalmente para desfrutar deste benefício e, ao menos no que se refere à política, tal não é do interesse da classe governante, indiscutivelmente devido à horizontalidade inerente aos protocolos virtuais.

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Como disse acima, o empreendedorismo nanico (na ausência de expressão melhor) já foi banalizado como parte do pensamento liberal, tanto no que tange ao estado mínimo quanto na crença na suprema legitimidade do mercado como mediador de todas as relações humanas.

Uma das coisas que apreendemos, no entanto, lendo Harari, é que nenhuma ideia é naturalizada sem uma poderosa combinação de interesses e esforços, ainda que escusos, a contribuir para sua aceitação. No caso do empreendedorismo individual, é possível identificar, além de campanhas como as da Globo, auto-justificadas com a eloquência de atos falhos, inúmeros interesses em ação.

Primeiro, há que se reconhecer que organizações colaboram para isto. Vejam, por exemplo, o caso da campanha publicitária In doers we trust, lançada pelo provedor de serviços free lance Fiverr, que chegou à minha atenção por meio de uma matéria publicada no New Yorker, crítica em relação à atual onda de empreendedorismo individual, que narra a história de uma mulher, em busca de alguns dólares a mais, que entrou em trabalho de parto enquanto dirigia uma espécie de Über. A esta matéria deve ser creditada a expressão gig economy, traduzível como “economia de bicos”, que bem define a situação à qual governos liberais e empresários mancomunados presentemente querem relegar a sociedade.

Outras organizações, mais antigas, que promovem a desregulamentação trabalhista e a supremacia do mercado, são mencionadas num interessantíssimo artigo publicado pelo The Guardian. Sintomaticamente, magnatas que dirigem estas organizações insistem em permanecer no anonimato, como se a mera publicização de sua relação com tais organizações fosse por si só suficiente para minar seu propósito de promoção da livre iniciativa.

Por aqui, se popularizou, anos atrás, a denominação jocosa de PDV (plano de demissão voluntária) para as acessíveis vans asiáticas adquiridas por ex-funcionários públicos para a venda de cachorros-quentes com os recursos oferecidos pelo governo estadual em troca da auto-exoneração precoce.

Além disso, há hoje um aquecido mercado para palestras de autoajuda, por coachs a afins (que, em sua maioria, jamais abriram um CNPJ), destinadas a indivíduos em busca de estímulo para se lançarem a empreendimentos individuais. Nestes rituais, se promove a ideia de que há um mercado ávido pela iniciativa a ser empreendida por cada um,  dependendo apenas de sua vontade, se vendendo a ideia de que abrir uma empresa é tão fácil quanto montar uma banda de garagem e deliberadamente omitindo o fato de que poucas dentre as empresas abertas efetivamente prosperam.

Goatbleat ou O problema do canto lírico

Cases are by no means uncommon of practised singers and speakers losing all confidence in their old methods in new and alarming conditions as to space. When that happens, they begin to bleat frantically […]. Actors and singers who have small voices should remember that the problem for them is to make themselves heard, and by no means to make themselves loud. Loudness is the worst defect of quality that any voice, large or small, can have. *

George Bernard Shaw, sob o pseudônimo de Corno di Bassetto, em London Music in 1889-1990

A crônica da cena musical londrina na era vitoriana por Bernard Shaw, escrita para um tablóide sob um pseudônimo bem antes do autor ganhar notoriedade como um dos maiores dramaturgos de seu tempo, é injustamente negligenciada em nossos dias. De leitura divertidíssima, é uma janela para o mundo do espetáculo de então. Cantores, músicos, maestros, empresários e o próprio público não escapam ao olhar agudo e à pena ácida do autor, que apontou más práticas que perduraram por mais de cem anos até os dias de hoje.

Shaw foi, como de costume, profético ao detectar, no parágrafo que serve de epígrafe a este post, um fenômeno novo que começava a ameaçar a atividade de alguns cantores e que atravessaria o próximo século, com reflexos até hoje. Tem a ver, principalmente, com a evolução da orquestra e os espaços onde as mesmas atuam. Para entender como, é preciso desmembrar o problema em três partes, a saber,

a evolução dos espaços onde a música (não amplificada) é executada;

a evolução da orquestra e dos instrumentos que a integram;

as características da voz humana, em especial no que se refere ao canto.

Até por volta do final da era barroca e o início da clássica, toda música ocidental era composta para ser executada por conjuntos que coubessem em salões palacianos, templos religiosos (por maiores que fossem as naves, os executantes deveriam ser acomodados num espaço exíguo correspondente ao que separa um altar dos bancos reservados às congregações) ou teatros de dimensões modestas, com menos de 1000 assentos. A partir do final do século 19, se iniciou uma verdadeira corrida por salas sinfônicas maiores, com 1500 ou mais lugares, envolvendo os melhores projetistas na solução de um problema representado pelo delicado compromisso entre a maximização da capacidade para o público ouvinte e a otimização das condições acústicas para a audição musical. O estado atual desta corrida é uma competição entre  grandes metrópoles pela construção, nem sempre bem sucedida, de espaços sinfônicos cada vez mais perfeitos. Assim, se juntam a cada ano a salas míticas como as de Berlim, Viena ou Amsterdã novos experimentos como os de São Paulo, Paris ou Hamburgo.

Paralelamente ao agigantamento histórico dos espaços para a execução e audição musicais, as tecnologias para a construção de instrumentos também propiciaram grandes avanços ao longo dos últimos século. Os instrumentos de cordas foram os primeiros a se tornar mais generosos em termos de radiação sonora, ainda na era barroca, sob as mãos dos mestres cremonenses. A substituição das cordas de tripa pelas metálicas foi outro passo importante a determinar que violinos e congêneres soassem mais. Depois, durante a revolução industrial, avanços na metalurgia e na tornearia possibilitaram o desenvolvimento de instrumentos de sopro cada vez mais sonoros.

Atingido um certo limite com a otimização do som de cada um dos instrumentos constituintes da palheta orquestral, compositores, passando por Berlioz e culminando em Mahler, trataram de demandar orquestras cada vez mais numerosas. Notem, no entanto, que mesmo a expansão orquestral pelo acúmulo de instrumentos teve seu limite empiricamente determinado pela necessidade musical de que cada instrumento pudesse ser ouvido em solos (i.e., sem duplicações ao uníssono) aqui ou ali sem ser esmagado pelo volume produzido em trechos adjacentes da música em que todos tocam ao mesmo tempo (tutti).

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Neste quadro evolutivo, a voz humana (e, com ela, o canto) permaneceu rigorosamente igual ao longo de toda a história da música. Não é preciso, no entanto, muita argúcia para intuir que, face à intensificação do som orquestral ao longo dos últimos 100 ou 200 anos, cantores determinados a participar da execução de certos repertórios tiveram que, igualmente, “vitaminar” seus dotes vocais. Aí começa, em nosso entender, o problema.

O quadro abaixo ajuda a entender por que a voz humana está em franca desvantagem de intensidade em relação a todos os instrumentos de uma orquestra sinfônica. Lembramos que a representação de intensidades sonoras em decibéis (dB) é uma escala logarítmica na qual uma diferença de 10 pontos corresponde a uma diferença de intensidade da ordem de 100 vezes. Assim, se observa que, enquanto o volume normalmente produzido por uma voz é equiparável ao de um piano, o mesmo é, no entanto, bem inferior (pelo menos 100 vezes) ao produzido por qualquer instrumento orquestral.

A voz articulada – e, como parte dela, o canto – é composta por dois tipos de sons, a saber, vogais e consoantes. O drama enfrentado por todo cantor é que, enquanto a intensidade das vogais pode, até certo ponto, ser aumentada por meio de recursos técnicos e exercício, pouco ou nada se pode fazer pela expansão das consoantes. Ao mesmo tempo, a boa dicção – principal responsável pela compreensão por ouvintes de qualquer texto falado ou cantado – depende do perfeito balanço entre vogais e consoantes.

Tomemos como exemplo o canto na música de câmera, através de seu caso mais emblemático – o lied com acompanhamento de piano, ou mesmo o de um solista vocal numa cantata com uma orquestra barroca. Nestas condições, um cantor suficientemente treinado não terá dificuldade alguma para projetar o texto de seu versos, na plenitude de suas vogais e consoantes, para uma plateia reunida num espaço adequado a tais gêneros musicais.

Deslocando-se, no entanto, este mesmo cantor para um contexto sinfônico, o mesmo precisará se valer de recursos para aumentar a intensidade de sua voz. Com sorte (e boa técnica), conseguirá projetar mais as vogais. Consoantes, no entanto, se perderão pelo caminho.

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Sobre a perda progressiva da relevância das consoantes na história do canto lírico, descrita acima, cabem duas ressalvas.

Primeiro, esta perda relativa da articulação vocal (que é como são chamadas, em música, as consoantes) é muito mais perceptível em audições ao vivo do que na de música gravada, em razão do posicionamento dos microfones – via de regra bem mais próximos dos cantores do que da orquestra – e da mistura dos sinais (mixagem) – que permite aos cantores atuarem bem mais próximos de sua zona de conforto do que em apresentações ao vivo.

Segundo, a perda relativa e progressiva da articulação vocal em razão do agigantamento orquestral não se deu de um dia para o outro. Com efeito, era bem possível que, antes da existência do som gravado, ninguém tivesse jamais ouvido um modo de cantar suficientemente diferente de seu contemporâneo para intuir que não se cantasse sempre assim. Com isto, é razoável supor que a lentidão da transformação e a falta de referências distantes contribuíram para promover a banalização da ininteligibilidade do texto – principal atributo, para ouvintes leigos, do canto lírico como é hoje conhecido.

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Gosto de pensar que a distinção entre o canto lírico e o popular é, assim como aquela entre entre música erudita e popular, uma ideia bem recente. É difícil pensar, por exemplo, em qualquer cantor medieval ou renascentista que não dependesse, para sua sobrevivência no ofício, da perfeita compreensão, por seus ouvintes, de cada palavra que cantasse. Hoje, achamos natural não entender lhufas do que ouvimos em salas de concerto sem recorrer a textos convenientemente impressos entre notas de programa.

Ao mesmo tempo, qualquer ouvinte contemporâneo não habituado ao canto lírico prontamente o desqualificaria devido à ostensiva e já banalizada, entre ouvintes experimentados, ininteligibilidade do que é cantado.

A questão é complexa. Sei que há fatores culturais envolvidos, dentre eles a noção de que há cantores de “voz grande” e de “voz pequena”, e que só os primeiros devem se aventurar à frente de orquestras – a intensidade da voz sendo, no caso, um inquestionável diferencial de qualidade, independentemente de qualquer prejuízo à dicção ou expressão e com o canto promovido, assim, à condição de uma modalidade olímpica. Cabe, então, perguntar por que cantores não podem se beneficiar, como todo grande violonista em concertos ao vivo, do uso de microfones para uma amplificação discreta.

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* Não é nem um pouco raro que cantores e oradores experientes perderem toda a confiança em seus velhos métodos diante de novas e alarmantes condições no que tange ao espaço. Quando isto acontece, começam a balir freneticamente […]. Atores e cantores com vozes pequenas devem lembrar que seu problema é se fazerem ouvir, e de modo algum se fazerem altos. Altura é o pior defeito de qualidade que qualquer voz, grande ou pequena, pode ter.

 

Por que é tão ridículo quanto inócuo criminalizar o funk

Nos últimos dias, ganhou justa notoriedade uma polêmica absurda deflagrada pela chegada ao senado de uma proposta ridícula para criminalizar o funk. Como piada, até que a ideia tem algum alcance, por denotar um consenso entre certos segmentos de que, como diz o nome do site do proponente, “funk é lixo”. Até aí, assino em cima, embaixo e por todos os lados. Mas só até aí. Não quero, neste post, esmiuçar as razões técnicas e objetivas pelas quais tenho o gênero (assim como alguns outros) em tão baixo apreço. Pois este não é um texto de crítica musical.

A proposta de criminalização do funk  é, primeiramente, inócua em razão da impossibilidade de definição, por parte de quem aplica a lei, de qualquer gênero musical. Sim, o senso comum estabelece que qualquer um sabe, afinal, o que é um funk.  Só que, em arte, toda categorização genérica é elusiva, sendo natural a qualquer mente criativa metamorfosear gêneros recebidos em derivações que facilmente escapem, num quesito ou noutro, às melhores definições do modelo original. Considero, então, a proposta natimorta pela própria impossibilidade de aplicação de qualquer lei neste sentido. Seria como a censura, sob a qual e apesar da qual os melhores artistas sempre lograram difundir suas mensagens. Por que não me espanto que o senado perca tempo e energia com isto ? Ora, por que é uma ótima cortina de fumaça para quem vem se dedicando a perpetrar malfeitorias de toda sorte.

Historicamente, outros gêneros musicais, como o samba ou o maxixe, já foram proscritos. Inutilmente. Pois a proibição costuma funcionar como um atrativo adicional. Então, enquanto alguém reconhecer algum valor no funk, ele vai continuar existindo, apesar de qualquer esforço em contrário.

Mas nos atenhamos um pouco sobre a materialidade do funk (impressionante como o juridiquês é afeito a este termo: “a materialidade das provas…”). Para fins de análise, é conveniente, aqui, desmembrarmos o gênero em questão entre letra e música.

Sobre a música, conquanto absolutamente rasa segundo  qualquer critério musical utilizado (me poupem, aqui, de bater na desgastada tecla da “música do homem branco europeu da renascença ao romantismo”), nada pode ser imputado ao funk como socialmente nocivo ou degradante. Se fosse assim, também precisaríamos banir, num mesmo movimento, todo Paulo Coelho, sertanejo universitário y otras cositas más.

É em relação às letras de muito funk que se concentra a maior parte das objeções. Pois é bem comum ouvirmos textos francamente apologéticos à violência, ao sexismo ou ao consumo de drogas. Ora, para tudo isto existem as leis, a polícia e a justiça. A ideia de combater estes problemas proibindo a circulação de mensagens que os incitem é análoga à queima de livros tão cara às grandes distopias, nas quais estados fortes logram eliminar pragas sociais por meio da destituição dos indivíduos de livre arbítrio.

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Ouço, por opção, pouco ou nenhum funk. Achei o pouco que ouvi não repulsivo e desnecessário que fechei meus ouvidos para o gênero. Durante a recente e pertinente campanha contra sua criminalização, acabei tomando contato com algumas vertentes virtuosas do funk, que utilizam sua penetração em camadas sociais mais desfavorecidas para disseminar mensagens de conscientização e emancipação. Mesmo que, em termos amostrais, se trate de uma agulha num palheiro, tais casos são por si só suficientes para legitimar o gênero.

Observando mais atentamente, notamos que, se quisermos isolar o funk virtuoso do funk nocivo (me desculpem os rótulos, tão úteis à presente discussão), devemos desconsiderar o gênero para nos concentrar em seus  autores.  Pois, ainda que o funk seja extremamente diverso quanto à benignidade/malignidade de suas letras, encontramos uma consistência bem maior ao nos debruçarmos sobre os textos de um mesmo autor. Ou seja, é bastante improvável que um mesmo artista exorte a violência numa canção e apele aos bons sentimentos em outra. Deste modo, não se pode dizer que o funk seja, por definição, bom ou ruim. Há, no entanto, inequivocamente bons e maus funkeiros (falo, aqui, tão somente do aspecto poético-literário – pois se a música hegemônica evidentemente empobreceu ao longo das  últimas décadas, tal se deve a um conjunto de fatores que fogem ao âmbito deste texto).

Tendo uma vez discriminado cada instância do funk em relação à sua nocividade social, não cabe, ainda assim, criminalizar sua banda podre. Cabe, isto sim, promover entre a população afetada pelo gênero este tipo de discernimento. Para tanto, é preciso, antes de ignorar, ouvir. E em vez de criminalizar, criticar.

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PS: ao procurar na web imagens para ilustrar este post, me deparei com cenas das mais degradantes que já vi, das quais quem não vai a bailes funk só ouve falar, mas que bem retratam a realidade que faz prosperar uma ideia como a da iniciativa de criminalizar o funk. Optei por poupar leitores do blog de sua visualização. Se quiserem, no entanto, vê-las, digitem no navegador a expressão “baile funk images”. Por que falo isto ? Por que se, por algum canetaço, o funk simplesmente deixasse de existir,  o mesmo tipo de diversão perversa continuaria acontecendo nestes bailes sob outro tipo de música qualquer. O fenômeno do baile funk é, sim, um problema de saúde pública – só que de erradicação bem mais complexa. A música que os embala, no entanto, não mais do que um aditivo intercambiável.

Por que a linha sucessória da presidência da república é ilegítima

Qualquer um percebe que há algo profundamente errado na linha sucessória para a presidência da república do Brasil, ainda que amparada no texto constitucional. Ao longo deste post, tentaremos deixar claro, em termos quase didáticos, o por que. Se já souberem, abandonem a leitura por aqui.

As eleições diretas para a presidência da república foram um inegável avanço democrático, arduamente conquistado depois dos anos de chumbo. Só que, na prática, o problema começa na composição de uma chapa presidencial. Queiramos ou não, elegemos um mandatário para a nação apesar do candidato à sua vice-presidência – via de regra um boneco alçado à candidatura muito mais em razão de composições partidárias destinadas a garantir a governabilidade do que por qualquer outra coisa. No caso do impedimento temporário ou permanente de um mandatário legitimamente eleito, se fica à mercê de um Temer ou de um Itamar.

(não votei em Dilma principalmente devido à sua aliança eleitoral com raposas do PMDB; logo que vi Temer como papagaio de pirata durante seu discurso triunfal por ocasião da última eleição presidencial, pensei: “vai dar merda”. Não deu outra.)

Mas o problema não termina aí. A legitimidade de qualquer chapa presidencial ungida pelo voto (ainda que com o indesejável contrapeso de um vice plantado ali por conveniência partidária) termina na segunda instância caso o vice eventualmente empossado também seja deposto – como estamos prestes a assistir, pasmos e impotentes face à carta constitucional (esta mãe de todos os males).

Pois tanto a terceira quanto a quarta instância da linha sucessória, respectivamente os presidentes da câmara de deputados e do senado, jamais foram eleitos pela nação para o exercício da presidência da república. Nem tampouco o presidente do STF – neste caso alguém indicado pelo próprio presidente ou um de seus antecessores:  querem vício político maior do que este ? (oportunamente, tornarei à questão do vício inerente aos cargos de confiança).

Presidentes de casas legislativas não desfrutam da confiança majoritária do eleitorado, sua ascensão ao cargo se devendo exclusivamente à capacidade pessoal de administrar alianças e acordos escusos com os demais parlamentares. Pensem que, até pouco tempo atrás, estávamos sujeitos, na hipótese de queda dos primeiros mandatários da linha sucessória, a ser governados por criminosos notórios, ainda que políticos hábeis, como Cunha ou Renan. Ambos, no entanto, seriam demais até para a complacência bovina da população brasileira. O jeito, então, encontrado pela quadrilha para prevenir um improvável levante popular foi sacrificar Cunha em prol do golpe (aguardem sua vingança em forma de delação) e simplesmente deixar que Renan passasse da validade; elegendo para suas posições de vantagem novas caras, com biografias demasiado curtas para o acúmulo de sujeira e coroadas por exuberante cabeleiras (a propósito, Rodrigo e Eunício usam perucas ?) – a denotar, emblematicamente, a renovação de carecas prá lá de comprometidas.

O problema acima descrito persistirá até que a carta magna seja remendada a fim de garantir que todas (e não apenas a primeira e a segunda) posições da linha sucessória sejam ocupadas por sujeitos escolhidos por voto direto. Idealmente, sem a composição de chapas, para contemplar, por exemplo, os que votariam em Dilma mas jamais em Temer. Como ? Em turnos sucessivos, tantos quantas forem as posições da linha sucessória. Trabalhoso ? Para os tribunais eleitorais, talvez. Jamais, no entanto, para os eleitores assim empoderados.

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Não é de hoje que venho dizendo que a restauração da dignidade nacional (se é que já houve alguma) passa, obrigatoriamente, por uma reforma política e uma constituinte exclusiva que garantam, entre outros avanços,

a instalação de uma democracia direta;

o fim de toda representação;

o fim de todos os cargos de confiança (em qualquer esfera administrativa, a gestão deve ser conduzida por agentes escolhidos ascendentemente pela maioria administrada e jamais descendentemente nomeados por qualquer mandatário eleito majoritariamente (sempre defendi isto; esmiuçei a ideia no blog anterior e devo tornar a bater na mesma tecla)).

Sei. Nunca foi tão alardeado, como hoje, o bordão “não há política sem políticos”. Convenientemente, há quem queira naturalizá-lo como verdade. Duvido muito. Penso que a política só começará com a extinção dos políticos.  Ou, ao menos, da política como profissão. Pois, pelo andar da carruagem, não falta muito para que algum ego exacerbado com vocação ditatorial decida fechar o congresso com amplo apoio da população. Então, é imensamente preferível que a população declare, por algum meio plebiscitário, a obsolescência do congresso antes que algum oportunista o faça.

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PS: Procurando fotos de Eunício na web para ilustrar esta postagem, me ficou evidente que ele pinta o cabelo. Alguém também há de publicar um ensaio semiótico sobre o por que de candidatos serem fotografados invariavelmente em mangas de camisa e, uma vez eleitos, sempre de terno e gravata. Não deve ser só por causa do regimento parlamentar.