O Futuro do Trabalho, Robotização e a Capacidade do Capitalismo para gerar Empregos Inúteis

O valor de seu trabalho não deveria ser medido pelo seu salário

Publicado em Evonomics por Rutger Bregman, em 17 de maio de 2017

Originalmente publicado em World Economic Forum

 

Muito já foi escrito em anos recentes sobre os perigos da automação. Com previsões de desemprego em massa, redução de salários e desigualdade crescente, obviamente devemos todos nos preocupar.

Hoje, não são mais apenas os observadores de tendências e tecnoprofetas do Vale do Silício que estão apreensivos. Em um estudo que já acumula mais de uma centena de citações, pesquisadores da Universidade de Oxford estimaram que não menos do que 47% de todos os empregos norte-americanos e 54% dos europeus correm alto risco de serem substituídos por máquinas – não em torno de cem anos, mas nos próximos vinte. “A única diferença real entre céticos e entusiastas é uma questão de tempo”, diz um professor da New York University. “Mas daqui a um século, ninguém vai mais se preocupar sobre quanto tempo levou, mas com o que aconteceu depois”.

Admito que já ouvimos isto antes. Empregados já vem se preocupando com a maré ascendente de automação por 200 anos, e por 200 anos empregadores vem dizendo que novos empregos se materializarão para substituí-los. Afinal, por volta de 1800, cerca de 74% dos norte-americanos eram fazendeiros, enquanto que em 1900 este número caiu para 31% e, em 2000, para meros 3%. Ainda assim, isto não resultou em desemprego em massa. Em 1930, o famoso economista John Maynard Keynes previa que estaríamos todos trabalhando apenas 15 horas por semana em 2030. Todavia, desde os anos 80 o trabalho vem consumindo cada vez mais nosso tempo, trazendo consigo ondas de stress e esgotamento.

Enquanto isto, o cerne da questão sequer vem sendo discutido. A grande pergunta que deveríamos fazer é: o que constitui realmente “trabalho” nos dias de hoje ?

O que é, afinal, “trabalho” ?

Em um levantamento de 2013 com 12.000 profissionais pela Harvard Business Review, a metade dos entrevistados declarou que seu trabalho não tinha “sentido e significado” e um número equivalente não se via inserido nas missões de suas empresas; enquanto outra pesquisa com 230.000 empregados em 142 países mostrou que apenas 13% dos trabalhadores realmente gostavam de seu trabalho. Uma pesquisa recente entre britânicos revelou que 37% deles tinham trabalhos que consideravam inúteis.

Eles possuem aquilo a que o antropólogo David Graeber se refere como “bullshit jobs”. No papel, tais trabalhos parecem fantásticos. Há mesmo hordas de profissionais de sucesso, com perfis de Linkedin vistosos e salários impressionantes, que no entanto voltam para casa todos os dias resmungando que seu trabalho não serve a propósito algum.

Deixemos outra coisa clara: não estou falando aqui de lixeiros, professores ou enfermeiros espalhados pelo mundo. Se estas pessoas entrassem em greve, teríamos em mãos um estado de emergência instantâneo. Não. Falo nos crescentes exércitos de consultores, banqueiros, conselheiros de impostos, gerentes e outros que ganham seu dinheiro em encontros estratégicos inter-setoriais entre pares para especular sobre valor agregado e co-criação na sociedade conectada. Ou algo no gênero.

Então, ainda haverá empregos suficientes para todos daqui a algumas décadas ? Qualquer um que tema desemprego em massa subestima a extraordinária capacidade do capitalismo de gerar bullshit jobs. Se realmente quisermos colher as recompensas pelos tremendos avanços tecnológicos das últimas décadas (incluindo a ascensão da robótica), precisamos redefinir radicalmente nossa definição de “trabalho”.

O paradoxo do progresso

Partimos de uma questão antiga: qual o sentido da vida ? Muitos dirão que o sentido da vida é tornar o mundo um pouco mais belo, mais aprazível ou mais interessante. Mas como ? Hoje, nossa principal resposta a isto é: através do trabalho.

Nossa definição de trabalho é, entretanto, incrivelmente estreita. Somente trabalho que gere dinheiro pode ser computado no PIB. Não é prá menos, então, que organizamos a educação em torno de fornecer o maior número possível de pessoas, em parcelas flexíveis, ao mercado de trabalho. Ainda assim, o que acontece quando uma proporção crescente de pessoas consideradas bem sucedidas segundo a régua de nossa economia do conhecimento diz que seu trabalho é inútil ?

Este é um dos grandes tabus de nossos tempos. Todo nosso sistema de atribuir sentido poderia de dissolver como fumaça.

A ironia é que o progresso tecnológico exacerba esta crise. Historicamente, a sociedade foi capaz de absorver mais bullshit jobs precisamente por que robôs vem se tornando melhores. À medida em que fazendas e fábricas se tornaram mais eficientes, contribuíram para o encolhimento da economia. Quanto mais produtivas a agricultura e a manufatura de tornaram, menos pessoas empregaram. Chamem a isto o paradoxo do progresso: quanto mais ricos nos tornamos, mais tempo temos para desperdiçar. Como diz Brad Pitt no Clube da Luta: “Frequentemente, trabalhamos em empregos que detestamos só para comprar aquilo de que não precisamos”.

Chegou a hora de pararmos de dar as costas ao debate e focar no problema real: como seria nossa economia se radicalmente redefiníssemos o sentido de “trabalho” ? Acredito firmemente que uma renda mínima universal seja a resposta mais eficiente ao dilema da robotização crescente. Não por que robôs assumirão todo o trabalho útil, mas por que uma renda mínima daria a cada um a oportunidade de realizar algum trabalho que tenha sentido.

Acredito num futuro em que o valor de seu trabalho não seja determidado pelo tamanho de seu salário, mas pela quantidade de felicidade que você espalhe e de sentido que você dê. Acredito num futuro em que o objetivo da educação não seja prepará-lo para mais um trabalho inútil, mas para uma vida bem vivida. Acredito num futuro em que “trabalho seja  para robôs e vida para pessoas”.

E se a renda mínima lhe soa utópica, então eu gostaria de lhe lembrar que todo marco civilizatório – do fim da escravidão à democracia e aos direitos iguais para homens e mulheres – foi um dia uma fantasia utópica. Ou, como escreveu Oscar Wilde há muito tempo: “O Progresso é a realização de Utopias”.

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Rutger Bregman é historiador e escritor, publicando na plataforma holandesa de jornalismo online The Correspondent. É autor de Utopia for Realists: How We Can Build the Ideal World, publicado por Bloomsbury na Reino Unido e por Little, Brown nos EUA. Twitter: @rcbregman

 

O Elogio da Loucura (1508), de Erasmo de Roterdã (1469 (?) – 1536)

Cáspite ! Outra vez a estranha mania de resenhar (quase) tudo do pouco que leio. Sendo assim, bem melhor do que hesitar por semanas antes de fixar em palavras impressões sobre o que li, em apenas dois dias e em meio a leituras mais demoradas, é botar logo as mãos à obra (estou me superando na arte do disclaimer, que consiste em afugentar uns parcos possíveis leitores para o que segue).

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O Elogio da Loucura (1508), de Erasmo de Rotterdam (1469 (?) – 1536), é um texto curto do célebre teólogo, egresso da Sorbonne e opositor de Lutero, escrito em 7 dias na casa do amigo Thomas Morus, autor da Utopia.

Na obra, a Loucura, tida como antônimo da Sabedoria, fala na primeira pessoa em defesa própria – não como uma doença, como é usualmente reputada, mas como uma virtude comum a todos os homens a lhes tornar suportável a vida, viabilizando relações que vão da amizade e do casamento aos governos e ao clero. Em tom satírico, disseca como a Loucura, enquanto Ignorância, se faz presente e até obrigatória na vida de médicos, homens da lei, alquimistas, jogadores, caçadores, padroeiros, atores, músicos, oradores, poetas, gramáticos, mercadores, juristas, filósofos, teólogos, monges, papas, cardeais, bispos, reis, príncipes, cortesãos… enfim, praticamente todas as categorias humanas então conhecidas.

Erasmo começa traçando a descendência da Loucura com amplo recurso à mitologia grega, a declarando filha de Pluto (personificação da riqueza), amamentada pelas ninfas Mete (a Embriaguez, filha de Baco) e Apédia (a Ignorância, filha de Pã). Entre suas seguidoras, arrola as deusas do Amor-próprio, da Adulação, do Esquecimento, da Preguiça, da Volúpia e da Demência, além dos deuses Como (que preside os prazeres da mesa) e Morfeu (do sono e do sonho). Mas as referências mitológicas não param por aí, e somente as fartas notas de rodapé do editor e do tradutor (na edição de bolso da L&PM) tornam a leitura possível aos menos versados na cultura clássica.

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Da sucessão de aforismos que constituem o livro, compilo algumas citações:

“[…] é necessário que cada um se afague a si mesmo e obtenha, por assim dizer, o próprio sufrágio, antes de pleitear o dos outros.” (falando do Amor-próprio)

“segundo os estoicos, ser sábio é tomar a razão como guia; ser louco é deixar-se levar ao sabor das paixões.” (da filosofia)

“[…] para ser homem, é preciso renunciar absolutamente à sabedoria.”

“[…] nunca houve príncipes mais funestos aos Estados que os que encontraram prazer em estudar a filosofia ou as belas-letras.”

“Todos os que se dedicam à filosofia e que geralmente têm tanto azar nas questões da vida, fracassam sobretudo na formação de seus semelhantes.”

“É mediante tais insignificâncias que se pode mover esse enorme e poderoso animal chamado povo.” (sobre a Adulação)

“[…] há duas coisas, sobretudo, que impedem o homem de chegar a conhecer bem as coisas: a vergonha, que ofusca sua alma, e o temor, que lhe mostra o perigo e o desvia de empreender grandes ações. Ora, a loucura nos livra maravilhosamente dessas duas coisas.” (da Prudência, associada à Sabedoria)

“A desonra é um desses males que eles [os loucos] não sentem. […] a vergonha, a infâmia, a desonra, as injúrias só prejudicam os que as admitem. Um mal não é um mal para quem não o sente.”

“[…] a medicina, como é praticada hoje pela maior parte dos médicos, não é senão uma espécie de Adulação […]

“[…] as ciência que mais se aproximam da loucura nos tornam mais felizes que as que dela se afastaram […]” (sobre médicos e “homens da lei”)

“[…] o homem é feito de maneira que as ficções lhe causam muito mais impressão que a verdade.” (sobre os prazeres da opinião)

“[…] nada é mais admirável do que o que custa muito esforço e trabalho.” (dos juristas)

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Digna de nota é também a passagem em que cada etnia europeia (do mundo conhecido à época) é vista com olhar sarcástico:

“Não é somente a cada indivíduo que a natureza distribuiu os dons felizes do amor-próprio; cada povo, cada nação, cada cidade, mesmo, recebeu uma dose bastante grande deles. Os ingleses jactam-se de ser homens belos, bons músicos e magníficos em seus banquetes. Os escoceses tem orgulho de sua nobreza, de seus títulos, de suas alianças com a casa dos reis, e de sua maravilhosa sutileza nas disputas escolásticas. Os franceses orgulham-se de sua polidez; os parisienses, em particular, glorificam-se de ter na Sorbonne a mais erudita escola de teologia. Os italianos, convencidos de que possuem exclusivamente as belas-letras e a eloquência, julgam-se o único povo da terra que não mergulhou nas trevas da barbárie. Entre eles, os romanos são os que mais se deliciam nesse doce erro; sonham com a grandeza dos antigos romanos e creem ingenuamente ainda possuir alguma. Os venezianos são felizes quando pensam em sua nobreza; os gregos, quando se imaginam os inventores das ciências e quando se arrogam os títulos de seus antigos heróis. Os turcos, e a multidão inumerável de bárbaros que cobrem três quartos da terra, jactam-se de possuir a verdadeira religião, e olham com piedade os cristãos, que eles chamam de supersticiosos. Os judeus, mais felizes ainda, vivem na doce espera de seu Messias e, enquanto esperam, mantém-se firmemente atados à lei de Moisés. Os espanhóis se consideram os maiores guerreiros do mundo; os alemães, orgulhosos de sua grande estatura, também se enaltecem de saber magia e de ser grandes feiticeiros.”

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É, no entanto, com a franca misoginia escancarada de algumas passagens que nos chocamos ao ler com olhos contemporâneos o texto renascentista. Longe, aqui, de pretender justificar o que é deplorável em qualquer época, lembramos que, até pouco tempo antes da sátira de Erasmo, ainda se imolavam bruxas em fogueiras. É neste contexto de riso crítico pelo distanciamento histórico que devem ser entendidas passagens tais como:

“[…] como o homem, destinado aos afazeres, não tivesse mais que um pingo de razão para se conduzir, Júpiter, não sabendo o que fazer, me chamou, como de costume, para me consultar. Dei-lhe então um conselho digno de mim. “Faça uma mulher”, eu disse, “e a dê ao homem como companheira. É verdade que a mulher é um animal extravagante e frívolo; mas é também divertida e agradável. Vivendo com o homem, ela saberá, com suas loucuras, temperar-lhe e suavizar-lhe o humor tristonho e rabugento.

Quando Platão parece duvidar se deve colocar a mulher na classe dos animais racionais ou na dos brutos, ele quer apenas nos indicar com isso a loucura desse sexo encantador. Com efeito, se acontece de uma mulher querer passar por sábia, ela não faz senão acrescentar uma loucura à que já possuía […] uma mulher é sempre mulher, isto é, sempre louca, ainda que se esforce por disfarçá-lo.

Não creio que as mulheres sejam tão loucas a ponto de se zangarem com o que digo aqui. Sou do sexo delas, sou a Loucura; provar que são loucas não é o maior elogio que se pode fazer delas ? De fato, considerando bem as coisas, não é a essa Loucura que elas devem agradecer por serem infinitamente mais felizes que os homens ? Não é dela que recebem aquelas graças, aqueles atrativos, que elas têm razão de preferir a tudo, e que lhes servem para acorrentar os mais orgulhosos tiranos ? […]”

“Não examinarei aqui se é possível fazer uma boa refeição sem mulheres.”

“A verdade, quando não ofende, tem algo de ingênuo que causa prazer; e somente aos loucos os deuses concederam o dom de dizê-las sem ofender. É mais ou menos pela mesma razão que as mulheres, naturalmente tão inclinadas aos prazeres e às ninharias, costumam divertir-se muito com os loucos; e outra vantagem que elas encontram é fazer passar por brincadeiras e infantilidades tudo o que fazem com eles, embora nisso haja com frequência muito de sério. Mas as mulheres são engenhosas, sobretudo quando se trata de colorir suas tolices.” (sobre a sinceridade)

“[…] as crianças, as mulheres e os imbecis encontram bem mais prazer que os outros nas cerimônias da religião […]”

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A parte final, em que fala dos teólogos e do clero, é compreensivelmente a mais extensa. Nas últimas páginas, além de discorrer sobre a caverna de Platão, Erasmo distingue o devoto do mundano e compila referências à Loucura nas escrituras sagradas para compor uma “justificativa teológica”, repleta de alusões à bem-aventurança (o que quer dizer isto ?), que é, de longe, a parte mais enfadonha de sua outrossim deliciosa sátira.

O Elogio da Loucura é um daqueles raros textos clássicos que se oferecem como leitura fácil a olhos acostumados a linguagens literárias mais recentes.

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O que acontece quando você acredita em Ayn Rand e na Teoria Econômica Moderna ?

A realidade do interesse próprio irrestrito

por Denise Cummins,

publicado em Evonomics em 17 de fevereiro de 2016,

e originalmente aqui

 

“Ayn Rand é minha heroína”, me diz mais um aluno. “Seus textos me libertaram. Me ensinaram a confiar em mim e em mais ninguém”.

Quando vejo as faces jovens do outro lado de minha mesa, me pergunto por que a popularidade de Ayn Rand entre os jovens continua a crescer. Trinta anos após sua morte, as vendas de seus livros chegam a centenas de milhares todos os anos – tendo triplicado desde a crise de 2008. Entre seus devotos há celebridades altamente influentes, tais como Brad Pitt and Eva Mendes, e políticos como o ex-presidente da Câmara dos Representantes Paul Ryan e o ex-candidato à presidência Ted Cruz.

O cerne da filosofia de Rand – que também constitui o tema abrangente de suas novelas – é que o interesse próprio irrestrito é bom e o altruísmo destrutivo. Ela acredita que isto é a expressão definitiva da natureza humana, o princípio norteador pelo qual se deve viver a vida. Em Capitalismo: O Ideal Desconhecido, Rand diz:

Coletivismo é a premissa tribal dos selvagens primitivos que, não aptos a conceber os direitos individuais, acreditam que a tribo é uma referência suprema e onipotente, à qual pertencem as vidas de seus membros, e que pode sacrificá-las quando bem quiser.

Segundo esta lógica, controles religiosos e políticos que dificultam a busca do interesse próprio individual devem ser removidos. (Talvez seja digno de nota que a cena de sexo inicial entre os protagonistas do livro de Rand “O Manancial” (The Fountainhead) seja um estupro no qual “ela lutou como um animal”).

O vício de origem da “objetividade” filosófica de Rand é o simples fato de que humanos tem uma tendência a cooperar e a cuidar dos outros, conforme observado por muitos antropólogos que estudam caçadores-coletores. Essas tendências pró sociais eram problemáticas para Rand por que tais comportamentos obviamente depunham contra o interesse próprio “natural” e portanto não deveriam existir. Ela resolveu esta contradição afirmando que humanos nasciam como uma tabula rasa, ou página em branco (como muitos de seu tempo supunham), e tendências pró sociais, particularmente o altruísmo, eram “doenças” que nos eram impostas pela sociedade, mentiras insidiosas que nos faziam trair a realidade biológica. Por exemplo, em sua matéria jornalística de 9 de maio de 1934, Rand argumentou:

Por exemplo, quando discutindo o instinto social – importa se ele existiu nos primeiros selvagens ? Supondo que os homens nascessem sociais (e até isto é uma dúvida) – significa que eles tivessem que permanecer assim ? Se o homem começou como um animal social – todo progresso e civilização não se destina a torná-lo um indivíduo ? Não é esse o único progresso possível ? Se OS homens são os mais elevados de todos os animais, não é O homem a próxima etapa ?

O herói de sua novela mais popular, A Revolta de Atlas (Atlas shrugged), personifica este “mais elevado de todos os animais”. John Galt é um cruel capitão da indústria que luta contra regulamentações governamentais sufocantes que ficam no caminho do comércio e do lucro. Numa revolta, ele e outros industriais interrompem a produção em suas fábricas, trazendo a economia mundial a seus pés. A mensagem é “Vocês precisam de nós mais do que nós de vocês”.

Para muitos leitores de Rand, a filosofia da suprema autoconfiança voltada para a busca do supremo interesse próprio parece ser uma versão idealizada de ideais norte-americanos centrais: liberdade da tirania, trabalho duro e individualismo. Promete um mundo melhor se simplesmente for permitido às pessoas buscarem seu interesse próprio sem considerar o impacto de suas ações nos outros. Afinal, os outros também estão simplesmente buscando seu interesse próprio.

A teoria econômica moderna é baseada exatamente nesses princípios. Um agente racional é definido como um um indivíduo com interesse próprio. Um mercado é uma coleção de tais agentes racionais, cada um dos quais perseguindo seu interesse próprio. Justiça não é levada em conta. Num recente episódio de  Planet Money, David Blanchflower, um professor de economia de Dartmouth e ex-membro do Banco Central da Inglaterra, riu quando um de seus anfitriões perguntou “isto é justo ?”

“Economia não tem nada a ver com justiça”, disse, “isto não me preocupa”.

Economistas acham alternadamente alarmante e divertido um grande corpo de resultados de estudos experimentais mostrando que as pessoas não agem de acordo com os princípios da teoria da escolha racional. Somos muito mais cooperativos e propensos à confiança do que é previsto na teoria, e retalhamos veementemente quando outros agem com egoísmo. De fato, estamos dispostos a pagar um preço elevado pela oportunidade de punir pessoas que pareçam estar quebrando regras implícitas de justiça em transações econômicas.

O que aconteceria, então, se as pessoas agissem de acordo com a filosofia de “objetividade” de Rand ? Se nos permitíssemos de fato ignorar a todos, exceto a nosso interesse próprio ?

Um exemplo da indústria

Em 2008, Eddie Lampert, CEO da Sears, decidiu reestruturar a empresa de acordo com os princípios de Rand.

Lampert dividiu a empresa em mais de 30 unidades individuais, cada uma com sua própria administração e avaliada separadamente quanto aos lucros e perdas. A ideia era promover competição entre as unidades, a qual produziria, segundo Lampert, lucros maiores. Ao invés disto, eis o que aconteceu, conforme descrito por Mina Kimes, repórter de Bloomberg Business:

Defensor declarado da economia de livre mercado e fã da novelista Ayn Rand, ele criou o modelo por que esperava que a “mão invisível do mercado” conduzisse a resultados melhores. Se os líderes da empresa fossem instruídos a agir com egoísmo, argumentou, administrariam suas divisões de uma maneira racional, alavancando o desempenho geral.

Ao invés disto, as divisões se voltaram umas contra as outras – e a Sears e a Kmart, as marcas abrangentes, sofreram. Entrevistas com mais de 40 ex-executivos, muitos dos quais instalados nos mais altos postos da companhia, desenharam um retrato de um negócio devastado por lutas internas à medida que suas divisões competiam por menos recursos.

Uma visão do fiasco foi oferecida por Lynn Stuart Parramore num artigo de 2013 em Salon:

A coisa endoidou. Executivos começaram a minar outras unidades por que sabiam que seus bonuses estavam vinculados à performance de cada unidade. Começaram a focar exclusivamente no desempenho econômico de suas unidades às expensas da marca Sears em geral. Uma unidade, Kenmore, começou a vender produtos de outras empresas e a posicioná-los com mais evidência do que os produtos da Sears. Unidades competiam por espaço em anúncios e circulares da Sears. […] Unidades não mais eram incentivadas a fazer sacrifícios, como oferecer descontos, para atrair consumidores à loja.

A Sears se tornou um lugar miserável para se trabalhar, com lutas internas abundantes e disputas escandalosas. Empregados, focados somente em fazer dinheiro em suas próprias unidades, deixaram de ter qualquer lealdade à companhia ou apostar em sua sobrevivência.

Todos conhecemos o fim da história: o preço das ações da Sears despencou e a companhia parece fadada à falência. A moral da história, nas palavras de Parramore:

O que Lampert não enxergou é que humanos tem uma inclinação natural a trabalhar pelo benefício mútuo de uma organização. Eles gostam de cooperar e colaborar, e frequentemente trabalham mais produtivamente quando possuem objetivos comuns. Tire tudo isto e você criará uma companhia de destrói a si mesma.

 

Um exemplo de Honduras

Em 2009, Honduras viveu um golpe de estado quando o exército hondurenho derrubou o presidente Manuel Zelaya a mando da suprema corte do país. O que se sucedeu foi sucintamente resumido pelo advogado hondurenho Oscar Cruz:

O golpe de 2009 liberou a voracidade dos grupos com real poder neste país. Lhes concedeu pleno poder de tomarem posse de tudo. Começaram a reformar a constituição e muitas leis – as ZEDE (zonas de empleo y desarollo económico) vem neste contexto – e tornaram a constituição uma ferramenta para torná-los mais ricos.

Como parte deste processo, o governo hondurenho promulgou em 2013 uma lei que criou zonas de livre comércio autônomas governadas por empresas em vez de pelos estados nos quais existiam. Qual, então, o resultado ? O escritor Edwin Lyngar descreveu férias em Honduras em 2015 como uma experiência que o transformou de apoiador de Ayn Rand em crítico feroz da mesma. Em suas palavras:

Os maiores exemplos de libertarianismo em ação são as centenas de homens, mulheres e crianças à beira das estradas em Honduras. O governo não conserta as estradas; então, estes empreendedores desesperados tapam os buracos com pás de resíduos e detritos. Depois,  ficam próximos aos buracos tapados pedindo gorjetas aos motoristas agradecidos. Este é a utopia furada da inovação do setor privado libertário.

Ele descreveu as condições de vida deste modo:

No continente, há dois tipos de vizinhança: favelas que parecem se estender infinitamente e bairros de classe média onde toda casa é sua própria cidadela. Em San Pedro Sula, a maioria das casas é rodeada por altos muros de pedra encimados por arame farpado [concertina wire, no original] ou cercas elétricas. Quando passei por estas fortificações parecidas com castelos, tudo no que pude pensar foi em quão conveniente aquela cidade seria durante um apocalipse zumbi.

Sem esforço coletivo, grandes projetos de infraestrutura como a construção e o reparo de rodovias definham. Um residente “mostrou o local para um novo aeroporto que poderia ser o maior da América Central se ao menos pudesse ser construído, mas o setor privado não tem andar de cima.”

Uma ida a uma pizzaria local foi assim descrita:

Atravessamos os portões da muralha e passamos por um homem em calças casuais com uma pistola num coldre pendendo a esmo em sua cintura. Bem-vindo a um paraíso libertário de Ayn Rand, onde sua pizza de pepperoni extra grande também tem que ter um guarda armado.

Este é o resultado inevitável do interesse próprio descontrolado à solta nos mercados desregulados.

Ainda assim entusiastas de Ayn Rand argumentam que interesse próprio não regulamentado é o “jeito americano” [American way], que a interferência do governo sufoca o individualismo e o livre comércio. Nos perguntamos se estas mesmas pessoas defenderiam a ideia de remover todos os árbitros de eventos esportivos. O que seria do MMA, do futebol, do rugby ou do hóquei sem estes juízes enfadonhos constantemente se atravessando no meio da competição e do interesse próprio ?

Talvez outro modo de encarar isto seja perguntar por que nossa espécie de hominídeo é a única ainda existente no planeta, apesar de terem havido muitas outras no curso de nossa evolução. Uma explicação é que fomos mais inteligentes, cruéis e competitivos do que os que foram extintos. No entanto, a arqueloologia antropológica conta uma história diferente. Nossa própria sobrevivência enquanto espécie dependeu da cooperação, e humanos são excelentes em esforços cooperativos. Mais do que acumulando conhecimento, habilidades e bens, os primeiros humanos os trocaram livremente entre grupos culturais.

Quando pessoas se comportam de maneiras que violam os axiomas da escolha racional, não estão agindo como idiotas. Estão oferecendo a pesquisadores um vislumbre das tendências pró sociais que permitiram a nossa espécie sobreviver e prosperar, tanto nos primórdios como hoje.

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Dr. Denise D. Cummins é psicóloga pesquisadora, autora e membro da Association for Psychological Science. Seu livro mais recente é Good Thinking: Seven Powerful Ideas That Influence the Way We Think

 

A Mula (2019), de e com Clint Eastwood, e uma reflexão sobre a moralidade dos tempos

A Mula (2019) é um daqueles filmes de resistência em que um Clint Eastwood em idade extremamente avançada (está com 88 anos) teima em mostrar um virtuosismo maior do que muitos atores e diretores bem mais jovens do que ele. A personagem até que ajuda: um idoso decadente que, ao longo dos 115 minutos de projeção, vai recuperando sua autoestima tão prejudicada por meio de uma atividade pouco ortodoxa, tão lucrativa quanto perigosa, a saber, a de mula no tráfico de drogas.

Antes de ver o filme, é quase impossível não se especular sobre como Eastwood, costumeiramente um herói com o qual todos gostamos de nos identificar, acaba enredado com uma organização criminosa execrada, ao menos abertamente, por qualquer persona pública nos dias que correm. Ficamos intrigados pelo tipo de malabarismo moral que seria capaz de levar um cara de princípios, veterano da Guerra da Coreia, a se envolver com aquela corja de frios psicopatas. A resposta vem logo nas primeiras cenas: Earl, o simpático plantador de lírios falido vivido por Eastwood, entra no negócio meio na inocência, sem se dar conta, inicialmente, daquilo com o que estava se envolvendo.

Dados os ostensivos indícios (como, por exemplo, a arma portada por um dos traficantes na garagem em que vai buscar a primeira encomenda), pode parecer meio forçado para o espectador que Earl não perceba prontamente a roubada em que estava prestes a se meter. Exatamente nisto reside um dos grandes méritos da interpretação de Eastwood que, tendo já vivido nas telas tantos heróis sagazes e oniscientes, faz magistralmente o papel do velho que, contra tudo o que as evidências sugerem, embarca naquilo com uma credulidade e boa fé que só um grande ator poderia aparentar. A inocência quase simplória da personagem é também responsável por momentos hilários nos quais Earl desafia para embates psicopatas que poderiam liquidá-lo num piscar de olhos, mas que só não o fazem por que parceiros mais frios, calculistas, que melhor percebem a vantagem do refinado disfarce daquela mula, os impedem.

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Outro aspecto, mais sutil, da trama de A Mula é o olhar, senão benevolente ao menos complacente, para com uma atividade específica da cadeia produtiva da indústria das drogas, a saber, o transporte de um lugar a outro de grandes quantidades de substâncias ilícitas, outrossim execrada como socialmente nociva na atual política hegemônica de war on drugs. O fora-da-lei retratado com simpatia não é nenhuma novidade na filmografia de Eastwood. Ao contrário, a figura do justiceiro implacável, que age às margens das regras do jogo, é a base de personagens como Dirty Harry, do herói da trilogia de Sérgio Leone ou de tantos outros com licença para matar, sempre em luta contra a corrupção policial (tema recorrente em filmes de ação), a lei dos mais fortes (praticamente um leitmotiv em westerns) ou ameaças comunistas e totalitárias ao “mundo livre”.

O fato novo, ao menos em filmes de Eastwood, é a relativização da maldade inerente a tudo o que diga respeito ao tráfico de drogas. Longe de mim, aqui, querer fazer apologia de práticas inquestionavelmente associadas a grande parte da violência social em que estamos imersos. Vale, no entanto, lembrar que

1) a supervalorização da habilidade de mulas competentes, capazes de transportar quantidades significativas de substâncias ilícitas de um lugar a outro sem maiores percalços, decorre da criminalização de seu consumo, comércio e distribuição; numa economia em que estas atividades fossem legalizadas e regulamentadas, não só o tratamento de danos colaterais ao uso abusivo seria facilitado mas também a atividade das mulas tenderia a patamares de risco (e, consequentemente, preço) equivalentes aos do transporte de drogas lícitas como, por exemplo, cigarros e medicamentos que, ainda que constituam cargas visadas pela alta relação entre valor e peso, representam riscos bem menores e, portanto, mais manejáveis; e

2) segundo David Graeber, em seu monumental Dívida: os primeiros 5000 anos, frequentemente citado por aqui (O quê ? Uma citação econômico-histórica de um antropólogo numa suposta resenha cinematográfica ? Altamente pertinente, em nossa opinião), ” […] o sistema de mercado mundial iniciado pelos impérios espanhol e português surgiu por causa da busca de especiarias. Logo ele se estabeleceu em três ramos mais amplos, que podem ser classificados como o comércio de armas, o comércio de escravos e o comércio de drogas. Este último se refere principalmente a drogas leves, é claro, como café, chá e açúcar para adoçar essas bebidas, além do tabaco, mas os destilados também surgiram nesse estágio da história humana, e, como sabemos, os europeus não tiveram escrúpulo nenhum em relação ao agressivo comércio de ópio na China como forma de eliminar a necessidade de exportar lingotes. O comércio de tecidos veio só mais tarde […] “

Dá o que pensar, não ? No entanto, em nome da concisão, ficamos por aqui, com a noção de Clint Eastwood não só como um velhinho dono de uma vitalidade invejável mas, também, plenamente ciente de que a moral de cada época é condicionada, acima de tudo, por imperativos econômicos.

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Ainda sobre a inimputabilidade pessoal nas sociedades de responsabilidade limitada

Ainda no intuito de entender a grande dificuldade em enquadrar criminalmente pessoas responsáveis por catástrofes ensejadas por atividades negligentes de corporações, exultei ao localizar mais esta citação extensa, desta vez do imprescindível Sapiens: uma breve história da humanidade, do historiador israelense Yuval Noah Harari.  Como a formulação da David Graeber compilada no post anterior, ajuda em muito a explicar a cara da paisagem ostentada em entrevistas por estes senhores:

Fabio Schvartsman, presidente da Vale
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo

” A Peugeot pertence a um gênero particular de ficção jurídica chamado “empresas de responsabilidade limitada”. A ideia por trás de tais empresas está entre as invenções mais engenhosas da humanidade. O Homo sapiens viveu sem elas por milênios. [..]

Se tivesse vivido [no século 13], você provavelmente pensaria duas vezes antes de abrir um negócio próprio. E, com efeito, [a] situação jurídica desencorajava o empreendedorismo. As pessoas tinham medo de começar novos negócios e assumir riscos econômicos. Dificilmente valeria a pena correr o risco de sua família ser totalmente destituída.

Foi por isso que as pessoas começaram a imaginar coletivamente a existência de empresas de responsabilidade limitada. Tais empresas eram legalmente independentes das pessoas que as fundavam, ou investiam dinheiro nelas, ou as gerenciavam. Ao longo dos últimos séculos, essas empresas se tornaram os principais agentes na esfera econômica, e estamos tão acostumados a elas que nos esquecemos de que existem apenas em nossa imaginação. Nos Estados Unidos, o termo técnico para uma empresa de responsabilidade limitada é “corporação”, o que é irônico, por que o termo deriva de “corpus” (“corpo” em latim) – exatamente aquilo de que as corporações carecem. Apesar de não ter um corpo real, o sistema jurídico norte-americano trata as corporações como pessoas jurídicas, como se fossem seres humanos de carne e osso.

Também foi isso o que fez o sistema jurídico francês  em 1896, quando Armand Peugeot, que herdara de seus pais uma oficina de fundição de metal que fabricava molas, serrotes e bicicletas, decidiu entrar no ramo de automóveis. Para isso, ele criou uma empresa de responsabilidade limitada. Batizou a empresa com seu nome, mas ela era independente dele. Se um dos carros quebrasse, o comprador poderia processar a Peugeot, e não Armand Peugeot. Se a empresa tomasse emprestados milhões de francos e então falisse, Armand Peugeot não deveria a seus credores um único franco. O empréstimo, afinal, fora concedido à Peugeot, a empresa, e não a Armand Peugeot, o Homo sapiens. Armand Peugeot morreu em 1915. A Peugeot, a empresa, continua firme e forte.

Como exatamente Armand Peugeot, o homem, criou a Peugeot, a empresa ? Praticamente da mesma forma como os padres e feiticeiros criaram deuses e demônios ao longo da história e como milhares de padres católicos franceses continuaram recriando o corpo de Cristo todo domingo nas igrejas da paróquia. Tudo se resumia a contar histórias e convencer as pessoas a acreditarem nelas. No caso dos padres franceses, a história crucial foi a da vida e morte de Cristo tal como contada pela Igreja Católica. […]

No caso da Peugeot SA, a história crucial foi o código jurídico francês, tal como redigido pelo parlamento francês. […]

Contar histórias eficazes não é fácil. A dificuldade está não em contar a história, mas em convencer todos os demais a acreditarem nela. Grande parte da nossa história gira em torno desta questão: como convencer milhões de pessoas a acreditarem em histórias específicas sobre deuses, ou nações, ou empresas de responsabilidade limitada ? Mas quando isso funciona, dá aos sapiens poder imenso, porque possibilita que milhões de estranhos cooperem para objetivos em comum. Tente imaginar o quão difícil teria sido criar Estados, ou igrejas, ou sistemas jurídicos se só fôssemos capazes de falar sobre coisas que realmente existem, como rios, árvores e leões. “

* * *

Yuval Noah Harari

O problema da imputabilidade nas sociedades anônimas, por cotas de responsabilidade limitada e outras agremiações

Fabio Schvartsman, presidente da Vale
Rodolfo Landim, presidente do Flamengo

Imagens como as acima, denotando consternação e surpresa, obtidas em  entrevistas concedidas logo após catástrofes anunciadas por presidentes de organizações diretamente responsáveis pelas mesmas, me trazem de pronto à memória uma das tantas formulações brilhantes, abaixo transcrita, de David Graeber em seu colossal livro Divida: os primeiros 5000 anos.

O livro de Graeber é tão abrangente que se esquiva a uma resenha de proporções normais.  Sagaz, resiste à tão tentadora quanto impossível tarefa de oferecer uma definição completa e sucinta de capitalismo – preferindo, ao invés, conduzir seu leitor até um conceito aproximativo através de uma série de caracterizações profundamente verdadeiras, conquanto parciais. A citação abaixo é um ótimo exemplo disto.

[…] a relação entre, de um lado, o aventureiro ousado e o apostador disposto a correr todo tipo de risco e, de outro, o financiador criterioso, cujas operações eram planejadas para produzir um crescimento estável, matemático e inexorável de renda, encontra-se no cerne do que chamamos “capitalismo”.

Assim, nosso sistema econômico atual sempre foi marcado por um peculiar caráter dual. […] nos momentos fundamentais de decisão, […] quem decidia não sentia que estava no controle; e quem estava no controle não se importava particularmente em saber dos detalhes. […]

Criar acordos sociais que nos forcem a pensar dessa maneira é a característica peculiar do capitalismo moderno. A estrutura das corporações é um excelente exemplo […] Trata-se de uma estrutura para eliminar todos os imperativos morais, menos o lucro. Os executivos que tomam as decisões podem argumentar – e assim o fazem com frequência – que, se estivessem usando o próprio dinheiro, é claro que não demitiriam empregados de longa data uma semana antes de se aposentarem, nem despejariam detritos cancerígenos perto de escolas. Contudo, moralmente são levados a ignorar essas considerações, pois não passam de empregados cuja única responsabilidade é promover o máximo de retorno dos investimentos para os acionistas da companhia. (Os acionistas, é claro, não são obrigados a se pronunciar.) ”

David Graeber, autor de Dívida: os primeiros 5000 anos

O que há em comum entre o incêndio no Ninho do Urubu e a “tragédia” da Chapecoense ?

Ou, ainda, entre os dois fatos a que aludi no título e os rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho ? Ora, por que vivemos no país do laissez faire. Simples assim.

Senão, quem permitiria, em são consciência, que jogadores adultos embarcassem naquele vôo ou jovens atletas se alojassem nas instalações do centro de treinamento do Flamengo ?

Os crimes, eufemisticamente chamados de tragédias, da Chapecoense e do Ninho do Urubu são, portanto, variantes exatas daqueles ocorridos em barragens, respectivamente, da Samarco e da Vale. A única distinção, sutil, entre os primeiros e os últimos é que, enquanto a licenciosidade (ou “vista grossa”) se deu, nos casos envolvendo clubes esportivos, em nome de uma suposta “alegria do povo”, aquela envolvendo mineradoras foi justificada, além de pelo lucro, também pela geração de empregos.

Pareço exagerar, ou “forçar a barra” ? Consideremos, então, alguns contraexemplos.  Quais executivos bem remunerados, sejam eles do esporte ou de empresas de mineração, embarcariam, em férias, num voo fretado daquela empresa contratada, por minimizar custos, para transportar o time da Chapecoense para uma partida internacional ? Ou então quais deles morariam em casas construídas no caminho da lama das barragens rompidas ou, ainda, nos dormitórios improvisados em contêineres que pegaram fogo na última madrugada ?

Não sou o primeiro e oxalá não serei o último a dizer que tais óbitos desnecessários são fruto da ganância combinada com a falta de regulamentação e fiscalização, crescente nos dias que correm, típicas de nosso país.

* * *

Somos o país das tragédias anunciadas. Seja do prédio abandonado, transformado em depósito de lixo, que pega fogo, ou da creche que é incendiada por um ex-funcionário desequilibrado que entra lá sem ser barrado por qualquer agente de segurança. De tal modo que todo mês é marcado por uma nova tragédia cujo principal “mérito” é nos fazer esquecer, no ritmo frenético da mídia, de todas as anteriores – mesmo as mais recentes. Notícias sobre tragédias só não são mais frequentes

por causa da estranha hierarquia das redes de notícias que classifica a importância de cada fatalidade em razão de seu número de óbitos;

e, também, pelo fato de que muitos incidentes perfeitamente evitáveis só não resultam em óbitos ou ferimentos graves por pura intervenção da sorte.

Não é preciso procurar muito para enumerar o fluxo diário de vítimas do trânsito ou de armas de fogo. Também não é preciso ir longe para nos lembrarmos de quase tragédias das quais escapamos por muito pouco. Ainda não fui assaltado, mas já fugi de um tiroteio. E estive num palco da OSPA que desabou no Jardim Botânico durante um temporal, felizmente sem vítimas. Só que, num incidente análogo, o colapso de um palco durante uma rave em Esteio (RS) matou um DJ. Pode-se especular que a estrutura que colapsou na festa era maior do que aquela no concerto; ou, ainda, que o palco do último caiu em dois momentos distintos, permitindo uma evacuação rápida entre um e outro. O que não tira, no entanto, a sensação de estarmos vivos por detalhes.

* * *

A julgar pelo que temos visto, não se pode esperar muito dos atuais congressistas. Ainda assim, devemos cobrar de nossos representantes (enquanto existirem), contra todos os lobbies, uma inversão no espírito das leis de modo a considerar o risco à integridade da vida humana mais do que o investimento de empreendedores e patrocinadores. Tarefa difícil, porém necessária.

 

 

As novas confissões de um assassino econômico

As atividades humanas são determinadas pelo processo de alterar percepções da realidade.

por John Perkins

(traduzido de um texto originalmente publicado em Evonomics)

 

Meu sucesso como principal economista numa grande firma internacional de consultoria não se deve a lições que apreendi na faculdade. Tampouco se deve à competência de minha equipe de econometristas brilhantes e magos financeiros.

Estas coisa podem ter, por vezes, ajudado. Mas há algo mais que fez isto acontecer. Este algo mais é o mesmo que  alçou George Washington, Henry Ford, Mahatma Gandhi, Madre Teresa, Martin Luther King Jr., Steve Jobs e outros ao auge de seu sucesso.

Este algo mais é disponível para todos nós.

É a habilidade de alterar a realidade objetiva mudando a realidade percebida, o que podemos chamar de Ponte Perceptiva.

Realidade Percebida

/                                                       \

Realidade Objetiva 1            —>         Realidade Objetiva 2

Como descrevi em meu livro As Novas Confissões de um Assassino de Aluguel Econômico, meu trabalho era convencer chefes de estado de países com recursos que nossa empresa cobiçava (tal como petróleo) a aceitar enormes empréstimos do Banco Mundial e suas corporações irmãs. O combinado era que esses empréstimos fossem usados para contratar nossas empresas de engenharia e construção, tais como Bechtel, Halliburton e Stone & Webster, para construir plantas elétricas, portos, aeroportos, estradas e outros projetos de infra-estrutura que trariam grandes lucros para estas empresas e também beneficiariam algumas famílias ricas de cada país (aquelas que possuíam as indústrias e estabelecimentos comerciais). Todos os demais no países sofreriam por que fundos eram redirecionados da educação, saúde e outros serviços sociais para pagar os juros sobre os empréstimos. Ao final, quando o país não pudesse mais amortizar o principal, voltaríamos e, com a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI), “reestruturaríamos” os empréstimos. Isto incluía demandas para que cada país vendesse seus recursos a preços baratos para nossas empresas, com o mínimo de regulamentação ambiental e social, e que privatizasse suas empresas de serviços e outros benefícios sociais oferecendo-os a nossas empresas por preços reduzidos.

Era uma estratégia de usar a realidade percebida para alterar a realidade objetiva. Nestes casos, a Realidade Objetiva 1 era que os países tinham recursos. A Realidade Percebida era que o uso destes recursos como colaterais aos empréstimos para financiar a construção de projetos de infraestrutura traria crescimento econômico e prosperidade para todos os cidadãos. A Realidade Objetiva 2, entretanto, era que crescimento econômico ocorria apenas entre os muito ricos. Uma vez que estatísticas econômicas (GDP) nesses países se inclinam em favor dos ricos, o fato é que apenas nossas empresas e famílias ricas se beneficiavam. O resto da população sofria. Em muitos casos isto levou à instabilidade política, ressentimento e à ascensão de várias formas de radicalismo e terrorismo.

“A realidade é meramente uma ilusão.”

Albert Einstein

 

Sabemos da física quântica e da teoria do caos que consciência, observação e mudanças na percepção possuem um impacto na realidade física que pode crescer exponencialmente.  A psicologia moderna ensina que a realidade percebida governa muito do comportamento humano. Religião, cultura, sistemas legais e econômicos (como, de resto, a maior parte das atividades humanas) são determinados pela realidade percebida. Quando um número suficiente de pessoas aceita estas percepções ou quando elas são codificadas em leis, possuem um imenso impacto na realidade objetiva.

Atividades humanas – individuais, comunitárias ou globais – são comandadas por este processo de alterar percepções humanas da realidade como meio de  alterar realidades objetivas. Um par de casos de empresas norte-americanas ilustra isto.

Caso 1: Ford Motor Company

 

Em 1914 a Realidade Objetiva de Henry Ford era: A) sua empresa vendia carros Modelo T que eram produzidos através do processo de linha de montagem por trabalhadores que recebiam salários padronizados irrisórios; e B) por que a linha de montagem era monótona e operários estavam sob muita pressão para reduzir o tempo de fabricação de um carro de 12 horas e meia para menos de 100 minutos, havia uma enorme taxa de desperdício na força de trabalho da empresa.

Então Ford percebeu uma nova realidade. Aumentou o salário de 2,34 dólares para uma jornada de nove horas para 5 dólares para uma de oito – isto num tempo em que todos os outros fabricantes de carros tentavam reduzir os salários de seu trabalhadores. Além de manter os operários em sua linha de montagem, Ford foi motivado por uma segunda percepção. Ele entendeu que a empresa, seus trabalhadores e os compradores vinham todos de uma mesma população e concluiu que “a menos que uma indústria consiga manter salários altos e preços baixos, ela destrói a si mesma – já que, de outra forma, limita o número de seus clientes.” Ford percebeu que o aumento do poder aquisitivo de seus operários teria um efeito múltiplo, aumentando também o poder aquisitivo de muitos outros.

Caso 2: Adidas e outros varejistas

 

Realidade Objetiva 1: estas empresas criam calçados e vestimentas de luxo que são manufaturados por fábricas terceirizadas na China, no Vietnã e em outros países de sweatshops (*).

A Realidade Percebida por parte da administração destas empresas: A) terceirizar produção libera essas empresas de caras responsabilidades trabalhistas e minimiza salários; B) contratando atletas bem pagos para promover produtos equilibra a publicidade negativa gerada por ativistas que reivindicam melhor pagamento para trabalhadores em sweatshops; e C) estas políticas, que são diametralmente opostas às de Henry Ford, maximizam os lucros.

Realidade Objetiva 2: salários abaixo da linha de subsistência e condições de trabalho precárias em fábricas noutros continentes resultam em maior rotatividade de trabalhadores, doenças e publicidade negativa; B) Por impactar negativamente o crescimento econômico dos consumidores, estas políticas destroem oportunidades para novos mercados que resultariam se operários fossem pagos o suficiente para comprar os produtos que fazem, estimulando, ao mesmo tempo, o efeito multiplicador; e C) nem o lucro corporativo nem o crescimento econômico são maximizados em países em que estas fábricas estão localizadas.

Tive a oportunidade de sublinhar a diferença entre os dois casos acima quando uma rádio de Portland, Oregon (sede da Nike) me entrevistou. O âncora indagou “se você pudesse perguntar a Phil Knight, fundador da Nike, uma única questão, qual seria ?”

Não precisei pensar muito. “Olá Phil, por que você não segue o conselho de Henry Ford ?” Continuei, “Imagine se, como parte de uma campanha publicitária internacional, esses atletas dissessem coisas como “Em vez de X milhões, eu e um punhado de amigos (outras celebridades Nike) tivéssemos concordado que a Nike nos pagasse Y a menos. Executivos da Nike concordaram com cortes similares. O dinheiro extra iria para o pagamento de maiores salários aos trabalhadores que fabricassem produtos Nike ao redor do mundo. Acreditamos que, apenas fazendo isto, ajudaríamos a fazer um mundo melhor e mais pacífico.” Parei.

“Esta é uma ideia incrivel”, disse o âncora.

Tive que acrescentar, “Como você acha que isto repercutiria nas vendas da Nike ? E nas do restante da indústria ?”

“Tudo está na mente.”

George Harrison

 

Os dois exemplos acima ilustram como a Ponte da Percepção funciona. Há incontáveis outros. Que vão dos indivíduos às empresas e diretamente aos governos. Atividades humanas são determinadas pelos modos como percepções impactam a realidade física, tanto consciente como inconscientemente. Aqui está um exemplo dos impactos globais que uma realidade percebida nos anos 50 teve em cada geração subsequente em todo o mundo.

Caso 3: Políticas Governamentais dos EUA no Irã

 

Realidade Objetiva 1: A) Mohammed Mossadegh foi democraticamente eleito Primeiro Ministro do Irã em 1951; B) ele promoveu reformas progressistas incluindo seguridade social, controle dos aluguéis e reforma agrária; C) ele insistiu que empresas petrolíferas estrangeiras pagassem uma parte justa de seu lucro com o petróleo iraniano ao povo do Irã e quando uma delas, hoje conhecida como BP, resistiu, se dispôs a nacionalizar o petróleo.

Realidade Percebida: o governo dos EUA rotulou Mossadegh como comunista, marionete soviético e ameaça à democracia.

Realidade Objetiva 2: A) a CIA derrubou Mossadegh em 1953 e empossou o Xá, um ditador brutal pró-ocidente que “leiloou” o Irã para empresas estrangeiras, inclusive as petrolíferas; B) o descontentamento crescente levou à Revolução Iraniana de 1979; C) o Xá foi derrubado, o Aiatolá Khomeini assumiu o controle, 52 cidadãos e diplomatas dos EUA foram mantidos como reféns por 444 dias, e os EUA e países europeus romperam relações com o Irã e iniciaram sanções contra o mesmo; D) o militarismo islâmico se expandiu rapidamente pelo Oriente Médio nas décadas seguintes; e E) a região inteira foi devastada por guerras e instabilidade política; isto impactou relações entre países distantes do Oriente Médio, incluindo EUA, China, Rússia e grande parte da África e da Europa.

Imaginemos, por outro lado, o quão diferente a situação seria para o Irã, o Oriente Médio, os EUA e grande parte do mundo se a realidade percebida fosse diferente – algo como:

Realidade Percebida: o governo dos EUA apóia as políticas de Mossadegh e anuncia que somente comprará petróleo de empresas que paguem uma parte justa de seus lucros ao povo dos países de onde o extraiam.

A derrubada de Mossadegh pelos EUA resultou numa série de eventos trágicos que poderiam ser considerados danos colaterais. Em minha opinião, tais consequências ocorrem por que as pessoas que tomam decisões não entendem completamente a força da Ponte de Percepção.

Como consultor de empresas, governos, executivos e palestrante em programas de MBA e outros, descobri que dar uma boa, profunda olhada no impacto da realidade percebida na realidade objetiva é um dos mais eficientes processos que indivíduos, negócios e outras instituições podem empregar para atingir seus verdadeiros objetivos. Me espanto com o quanto das realidades percebidas nos negócios foram alteradas desde que eu estava na faculdade no fim dos anos 60.

Fui ensinado que um bom CEO ganha um retorno decente para seus investidores ao mesmo tempo em que garante que sua empresa seja um bom cidadão, i.e., que sirva ao interesse público. Apreendemos a cuidar de nossos empregados dando a eles seguro saúde e aposentadoria, a tratar nossos fornecedores e clientes com profundo respeito e a honrar a ideia de que bons negócios são um jogo de ganha-ganha para todas as partes interessadas. Em muitos casos, CEOs garantiam que suas empresas não apenas pagassem seus impostos justos mas que, além disso, contribuíssem com escolas locais, instalações recreativas e outros serviços.

Tudo isto mudou quando Milton Friedman ganhou, em 1976, o Prêmio Nobel de Economia e afirmou, entre outras coisas, que a única responsabilidade nos negócios era maximizar os lucros, independentemente de custos sociais e ambientais. Esta é uma realidade percebida que passou a definir os negócios. Ela convenceu os executivos corporativos de que eles teriam o direito – alguns diriam até a obrigação – de fazer tudo o que julgassem que maximizaria os lucros, incluindo comprar agentes públicos por meio do financiamento de campanhas políticas, destruir o meio ambiente e devastar todos os recursos dos quais seus negócios dependam.

Tal realidade percebida resultou num sistema econômico global falido, a um passo de consumir a si mesmo até a extinção – ao que alguns economistas chamam de Capitalismo Predatório.

É hora de inverter isto. Que tal:

Realidade Objetiva 1: as geleiras estão derretendo; os oceanos subindo; menos de 5% da população mundial vive nos EUA e consumimos cerca de 30% dos recursos enquanto metade da população mundial vive em pobreza; e a base de recursos que alimentam a economia está em rápido declínio.

Realidade Percebida: A) quando Milton Friedman formulou a maximização dos lucros em 1976, o capital financeiro era visto como escasso enquanto a natureza era considerada abundante, e a habilidade do planeta em absorver poluição e prover recursos naturais era considerada praticamente ilimitada. Desde então, isto mudou;  B) podemos construir uma economia que recompense negócios que limpem a poluição, regenere ambientes devastados e desenvolva novas tecnologias para energia, transporte,  comunicações, comércio e praticamente todo o resto – que recicle em vez de estragar o planeta; e C) a responsabilidade dos negócios é servir ao interesse público ao mesmo tempo em que ganha taxas decentes de retorno para investidores que desenvolvam uma economia como a definida em B) acima.

Realidade Objetiva 2) um sistema econômico que caminha para o desastre é convertido em um que é em si uma fonte renovável.

A história de sucesso dos humanos (como indivíduos e comunidades) gira em torno das relações entre realidade percebida e realidade objetiva. Neste momento crítico da história, é essencial que construamos Pontes de Percepção que nos levem a um mundo que gerações futuras queiram herdar. O entendimento de mudanças simples na percepção trazem alterações monumentais na realidade objetiva. Também achamos que criar um mundo melhor e não apenas possível, mas divertido e inspirador.

* * *

* (nota da tradução): a expressão intraduzível sweatshop (textualmente, oficina de suor) se refere a plantas industriais altamente insalubres existentes no sudeste asiático que produzem, a custos irrisórios (pois ignoram sistematicamente direitos trabalhistas e condições de trabalho), artigos comercializados a preços altos por grifes importantes em mercados afluentes. Um caso célebre ocorreu quando, anos atrás, a Nike ofereceu a seus clientes um calçado esportivo em cujo preço estaria incluído o bordado, junto à marca, de quaisquer palavras que os mesmos quisessem. Se aproveitando da brecha, dois compradores independentes pediram, então, que a empresa bordasse nos calçados, ao lado da marca Nike, a expressão sweatshop – ao que a empresa, é claro, se recusou, gerando, à época, importantes processos judiciais (bem ao gosto dos norte-americanos) nos quais consumidores lesados pela publicidade enganosa exigiam o cumprimento da promessa. Procurando um link que resumisse o caso, encontrei muitos, inclusive um texto de Elio Gaspari. Mas são tantos (inclusive do Guardian (aqui e aqui) e da wikipedia) que ficou difícil selecionar um só. Sugiro, então, aos mais curiosos, que digitem em qualquer buscador as palavras Nike, sweatshop e case. Vale a pena se inteirar da polêmica antes de comprar sua próxima peça de indumentária esportiva.

* * *

Como principal economista de uma grande firma de consultoria internacional, John Perkins assessorou o Banco Mundial, as Nações Unidas, o Fundo Monetário Internacional, o Departamento do Tesouro dos EUA, empresas das  500 maiores da revista Fortune e líderes de países da África, da Ásia, da América Latina e do Oriente Médio. Seu livro mais recente é The New Confessions of an Economic Hit Man (As Novas Confissões de um Assassino de Aluguel Econômico).

A intérprete de Libras, musa do governo Bolsonaro

Meses atrás, quando se gritava “fora Temer”, dificilmente se ouvia alguém defender o vampiro. Hoje, é bem diferente. Basta aludirmos a qualquer coisa percebida como negativa em relação a Bolsonaro, fato novo ou não,  para que as portas do inferno se abram e soltem no espaço virtual uma leal tropa de choque a chamar os críticos do governo recém empossado de petralhas, comunistas, derrotados, desesperados, ridículos, patéticos… enfim, a lista é imensa. Foi exatamente o que aconteceu dias atrás sob uma de minhas três postagens em sequência sobre a posse presidencial que dominou a mídia durante todo o dia.

Não pretendo, aqui, defender alguma deselegância ou comportamento politicamente incorreto de quem, como eu, pensa mais à esquerda do que aqueles que assumiram o poder. É que, diante de tanta asneira, é difícil permanecer impassível. Até eu, por vezes, tenho que morder a língua para não troçar de simpatizantes do idiota do ano (mais do mesmo aqui). Por isto, não condeno (ao contrário, até acho divertido) quem se utiliza das caixas de comentários sob minhas postagens para lascar um “otário” ou coisa que o valha diante da verborragia chapa branca.

Mas não vim aqui para falar disto. De início, fiquei intrigado sobre por que, de minhas três postagens, a que mais suscitou comentários de ambos os lados, numa verdadeira batalha campal, foi justamente a mais gratuita – a saber, aquela sobre a intérprete de Libras (língua brasileira de sinais) que, na aurora do novo governo, já ocupa a posição de sua musa absoluta. Mais, até, do que a primeira dama (não riam: já há quem ache que, com aquele carisma, será a próxima presidente. Uma espécie de Evita 2.0). Em meio ao bate-boca, poucas frases sobre as duas postagens que considerei mais reflexivas – a saber, que ironizavam, respectivamente, o clima de caça a dissidentes reeditado dos tempos da ditadura e a hábil manobra da prisão do candidato com maiores chances na corrida presidencial.

Dizem que piada explicada perde a graça. Ainda assim, sou forçado a recorrer ao expediente devido à reprimenda moral que recebi por, ao atentar para o lado cômico da já célebre intérprete, estar supostamente menosprezando uma ferramenta de comunicação tão importante para uma minoria (estranhamente, uma das poucas, senão a única, vista com bons olhos pelo novo governo).

Não devo ter sido o único a sublinhar a franca evidência dela em relação a qualquer autoridade ao lado da qual se apresente. Na presente situação, o fato mais relevante é que os monótonos discursos lidos por Bolsonaro em ocasiões importantes (mais sobre a autoria dos mesmos adiante) são inquestionavelmente valorizados pela atuação dramática e, sobretudo, cômica daquela intérprete – o que nos leva, de pronto, a indagar: por que os discursos do presidente precisam necessariamente sair de sua boca ? Ora, não seriam muito mais convincentes se proferidos originalmente pela intérprete, enquadrada no centro do campo visual, e traduzidos para os não fluentes em Libras por meio de legendas ou de uma voz em off ?

Indo mais fundo na leitura do fenômeno. Talvez o que torne a fala daquela intérprete tão cômica sejam os dois níveis em que o discurso é percebido. Num plano mais neutro, está a linguagem de sinais. Noutro, que a distingue tanto de outros colegas de profissão, está sua expressão facial ou, noutras palavras, as engraçadíssimas caras e bocas que faz concomitantemente à tradução.

* * *

Eu já havia escrito este post até aqui quando, tomado por intensa curiosidade, fui “pesquisar” (eufemismo para digitar no google ” quem é a intérprete de libras dos discursos de Bolsonaro ? “) quem seria, afinal, a carismática figura que, no imaginário popular, já está indissoluvelmente colada à imagem do presidente. Depois de ler o texto de apresentação de uma entrevista (que ainda não vi, pois sou, como sabem, avesso a videos) e  uma matéria arrolando comentários politicamente corretos de desaprovação em relação a tiradas engraçadas sobre a intérprete, fiquei sabendo se tratar de Elisângela Castelo Branco, professora da UFRJ, coordenadora do ministério Incluir da Igreja Batista Atitude (RJ) e, aparentemente, uma das maiores autoridades nacionais em Libras. Ao ler tudo aquilo, me senti meio culpado, constrangido até, por achar que zoar de sua atuação e, pior, tentar instigar o mesmo sentimento em terceiros se constituiria numa ofensa a toda a minoria que se beneficia daquela linguagem. Naquela matéria, também fiquei sabendo que justo a expressão facial de Elisângela, que eu achara tão engraçada, era parte indispensável da gramática de Libras (mais do mesmo).

Consoante a isto, estive a ponto de me desculpar publicamente pela suposta piada de mau gosto. Pensei mais, porém, e não encontrei qualquer explicação satisfatória para o fato da expressão facial de Elisângela ser, positivamente, MUITO mais engraçada do que, por exemplo (não é preciso ir longe), as de outros “falantes” de Libras que atuaram na cerimônia. A começar pela primeira dama. Continuo sem resposta mas, ao menos, aliviei minha culpa.

Pensando mais (este velho mau hábito), lembrei do poder destronante do riso que, segundo Bakhtin, serviria, desde tempos medievais, para que os comuns pudessem, por meio da ridicularização, desafiar todo poder absoluto – e, na presente situação, se não seria precisamente isto que está em jogo quando rimos da tradução em gestos dos discursos de Bolsonaro. Pois, neste caso, não estaríamos rindo das caras e bocas de Elisângela e sim dos discursos lidos pelo presidente com sua monotonia habitual. Monotonia, entenda-se, do presidente e não dos discursos – posto que os últimos são prá la de engraçados. Eloquentemente engraçados.

Forçado ? Talvez. Uma contraprova seria submeter os discursos de Bolsonaro a outros intérpretes para verificar se a componente cômica permanece ou não. Há que se considerar, todavia, que Elisângela deve ter sido escolhida justamente por traduzir aqueles discursos convincentemente, i.e., ela definitivamente ACREDITA (como uma Velhinha de Taubaté, lembram ?) no que o presidente diz. E a comicidade é, no caso, mera consequência daquelas asneiras devidamente interpretadas. Pois, convenhamos, Bolsonaro não serve para ler nem boletins meteorológicos,  o que dirá discursos políticos (não é preciso muita sensibilidade para perceber o quão dramaticamente lhe falta o dom da oratória típico dos grandes estadistas).

O que desemboca diretamente na questão acima aludida sobre a autoria de seus discursos.  É claro que, nem em seu caso nem tampouco em qualquer outro, é possível comprovar cabalmente a redação de própria lavra ou de outrem de um pronunciamento político. Fica tudo, então, no campo da conjectura. Ghost writers não deixam vestígios. São segredos guardados a sete chaves e suponho que a revelação dos mesmos seja passível de punição, em alguns regimes, até com execução. Ainda assim, grandes discrepâncias entre a linguagem oral de alguns dignitários e seus discursos escritos engendram dúvidas sobre a autoria dos últimos. Ninguém duvidaria, por exemplo, da autoria do bilhete de suicídio de Getúlio. Ou da de um discurso lido por Churchill ou Fidel. No caso de Bolsonaro, no entanto, a coisa é bem diferente. Basta comparar a coerência (não falo, é claro, do conteúdo ridículo, mas da forma bem trabalhada) dos discursos que lê com a de suas (poucas) falas improvisadas, sejam elas intempestivas ou mais controladas, em entrevistas.  E, a partir disto, também é fácil entender por que não lhe deixaram comparecer a qualquer debate.

O discurso artístico e o discurso sobre a arte

É razoável se supor que, para cada quantum de discurso artístico criado, seja em forma de livro, música, filme, quadro ou escultura, haverá uma quantidade bem maior de discurso sobre a obra, tanto maior quanto mais antiga e/ou consagrada ela for.  Isto por que a resenha sobre objetos artísticos, antes confinada a um seleto círculo de especialistas, acabou por se tornar o café da manhã, o almoço e o jantar de toda uma comunidade acadêmica voltada para a produção de textos analíticos sobre obras de arte em teses de pós-graduação e artigos para periódicos.

Não que todo discurso sobre a arte seja totalmente irrelevante ou supérfluo. Longe disto. Afinal, há textos secundários excelentes, geralmente de fôlego e em linguagem atraente, que iluminam a compreensão sobre um autor, grupo de autores ou mesmo todo um contexto ou uma época. Tais são os tratados de teoria literária de Mikhail Bakhtin (1895-1975) sobre Dostoiévski e Rabelais, ou ainda os livros de Charles Rosen (1927-2012) sobre o estilo clássico e a forma sonata. São também respeitáveis as contribuições de schollars como Alan Tyson ou Robert Winter para periódicos como Beethoven Studies ou ainda as obras de Walter Frisch sobre a música de Brahms. Assim como estes, há muitos outros. Quase sempre, nestes casos, os textos analíticos secundários sobre a obra de epígonos artísticos são de interesse tão universal que acabam fatalmente publicados como livros.

Fora deste círculo de brilhantismo, no entanto, o que há – e em muito maior quantidade – é uma miríade de papers, de diferentes extensões (artigos, os mais curtos; teses, os mais longos), produzidos primordialmente para a promoção de seus autores na carreira acadêmica, que serão lidos não mais do que por aspirantes a posições mais ambiciosas no intuito de melhor rechearem seus próprios textos com citações.

Aqui se faz necessário um disclaimer (antes que comecem as inevitáveis pedradas): é claro que há teses e artigos interessantes e necessários; estes se constituem, no entanto, muito mais em exceções do que na regra.

É sobre tais textos secundários, bem escritos no máximo, ainda que de pouca relevância para a apreciação das obras examinadas, que trato nesta diatribe.

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Não conheço a origem das teses e artigos científicos, nem tampouco tenho paciência para buscar tal erudição. Quer me parecer, no entanto, que a disseminação  generalizada do texto acadêmico que temos hoje seja como uma praga que fugiu ao controle.  Escrever (e publicar) já foi um privilégio exclusivo de quem (1) soubesse escrever bem e/ou  (2) tivesse algo original ou, ao menos, interessante a dizer. Só que, nalgum momento, pareceu às elites universitárias que talvez fosse uma boa ideia exigir de aspirantes a melhores posições acadêmicas que escrevessem intensamente, quase compulsivamente.

Aqui nos deparamos com um desequilíbrio fundamental, a saber, o de que existem muito mais pesquisadores (assim são chamados) do que, propriamente, objetos de estudo carentes de textos elucidativos. Isto foi suficiente para instaurar uma corrida, entre orientandos e orientadores, pela identificação de temas passíveis de uma boa tese ou de um bom artigo. E nesta busca, um lugar óbvio para o qual olharam (especialmente pesquisadores em arte) foi o imenso manancial de discurso artístico produzido em todas as épocas.

Só que tal expediente não se afigurou, na prática, tão simples, posto que campos de estudo sobre epígonos como Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Brahms ou Schoenberg (para citar uns poucos) já estavam saturados com textos consagrados do eminente círculo de schollars supracitado. A solução foi se voltar, então, para obras de artistas novos ou novíssimos menos conhecidos. E se garantiu, com isto, a perpetuação do exercício acadêmico da escrita. Para desespero dos bibliotecários – que são, em última instância, aqueles que devem lidar com o excesso textual.

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Sei. A visão acima será certamente descartada como o delírio de um outsider pela academia, a qual se perpetua sem a necessária autocrítica, ignorando por vezes mesmo contribuições valiosas de insiders argutos – como, por exemplo,  Maggie Berg e Barbara Seeber no sensacional The Slow Professor – challenging the culture of speed in the academy.

Vejamos, então, a coisa sob outro prisma: o do artista que tem a obra dissecada em textos secundários sobre a mesma. Antes, porém, algumas palavras sobre os limites da análise.

Torno a dizer que, é claro, não falo aqui dos impressionantes insights de um Rosen, Tyson ou Frisch (que, é preciso dizer, não caberiam na extensão de um artigo ou mesmo de uma tese de dimensões normais – sendo, na maioria das vezes, a investigação de uma vida inteira). Falo, sim, do tipo de achado normalmente resultante da aplicação de alguma técnica consolidada de análise musical. Pois há muitas: Schenker, Meyer, Reti, semiótica e por aí afora.

Ministrando, décadas atrás, disciplinas de análise musical a alunos de graduação, passei pelo constrangimento de ter que lhes revelar, ao fim do curso, que nenhuma técnica conhecida de análise pode nos dizer sobre uma música qualquer coisa que já não saibamos depois de ouvi-la.

Os mais céticos hão de dizer que há um certo exagero nisto, visando o efeito fácil – com o que, admito, tenho que concordar. Tomemos, então, um caso extremo: o da análise semiótica, formulada por Jean-Jacques Nattiez. Na década de 90 do século passado, Nattiez falou num congresso da Associação de Pesquisa e Pós-Graduação em Música na UFRGS. Sua concorrida conferência foi sobre uma análise em andamento da Catedral Submersa, de Claude Debussy. Disse que tinha submetido seus dados a uma especialista em computação para o processamento numérico. Desconfiado, achei aquilo tudo muito estranho. Como se quisessem descobrir algo novo sobre a célebre música através de um equipamento, sei lá, como um espectógrafo de massa (utilizado para identificar átomos de elementos constituintes da matéria). Ao final, a cereja do bolo: Nattiez informou à reverente plateia que a especialista ainda não havia lhe retornado os resultados. O que não o impediu, no entanto (pensei com meus botões), de cruzar o Atlântico, provavelmente não de graça, para nos falar daquilo. Curiosamente, não nutro hoje, mais de 20 anos depois, a menor curiosidade para saber o que descobriu sobre a maravilhosa peça de Debussy.

Fecho parênteses, voltando à questão de especular sobre a preferência de um autor entre ter sua obra minuciosamente analisada por e para um reduzido número de especialistas ou, ao contrário, ter a mesma amplamente vista, lida ou escutada por um grande público atento, ainda que leigo.

A “licença para prescindir do público” foi talvez pela primeira vez formulada e concedida, ao menos em música, no manifesto Who cares if you listen ?, de Milton Babbit (1916-2011), compositor e professor da Universidade de Princeton, publicado em 1958 pela revista High Fidelity. No célebre ensaio, Babbitt defende a tese de que a universidade se constitui no lugar ideal para o compositor criativo, uma vez que somente nela fica o mesmo livre de qualquer compromisso com a aceitação pública de sua obra.

Lasco, no entanto, o palpite de que a grande maioria dos pintores, escultores, escritores, compositores e cineastas deva preferir, inquestionavelmente, a segunda opção.

Fazendo, ainda, as vezes de advogado do diabo, caberia perguntar se a profusão de textos secundários disponíveis em teses e periódicos sobre o discurso artístico não contribuiriam de forma decisiva para o entendimento e, quando fosse o caso, realização (como na música), do mesmo. Não tenho resposta. Por isto mesmo, quero conhecer o contraditório – a saber, o valor de textos analíticos secundários para uma melhor realização e/ou compreensão de discursos artísticos.

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P.S.: comecei a ler, meses atrás, o grande livro de Michael Benson sobre 2001: Uma Odisséia no Espaço. Ainda que nem todo filme mereça um livro a seu respeito, com certeza qualquer obra de Kubrick justificaria o volume. Por isto, será interessante rever mais uma vez o épico espacial do cineasta após concluída a leitura (que interrompi para ler outras coisas mas, oportunamente, devo retomar) para saber de que modo a obra secundária afetou minha apreciação da primária.