Esquerdopatas, petralhas e bolsominions; ou De como não inviabilizar um debate antes mesmo de começá-lo

Sempre que me deparo com expressões como “esquerdopata” ou “petralha” tenho imediatamente a vontade de me retirar do embate (pois este tipo de confronto não é digno do nome debate), deixando o(s) interlocutor(es) falando sozinho(s). Não preciso explicar outra vez por que considero ataques ad hominem – ou, como também são conhecidos, falácias de envenenamento do poço – um dos recursos mais mais pobres, rasantes, a serem utilizados numa contenda verbal, e por isto mesmo só empregado pelos piores argumentadores.

Não que este tipo de desqualificação sumária do(s) adversário(s) seja um expediente de uso exclusivo dos que se situam no campo ideológico da direita, como os exemplos por mim inicialmente citados podem dar a entender. A expressão “bolsominion”, porquanto divertida, talvez pela alusão aos simpáticos vilõezinhos à procura de um líder, é tão repulsiva quanto aquela que dá nome a este post. O recurso a umas ou outras mina, pelo escárnio que encerram, qualquer possibilidade de êxito num debate político – que é, a saber, a conversão à própria causa, pelo esclarecimento, de alguém anteriormente situado num campo adversário.

Devo confessar que eu mesmo já me vali, em mais de uma ocasião, movido pelo calor da discussão e seduzido por seu potencial cômico, de termos plenissignificantes como “bolsominion” – fato pelo qual me arrependo enormemente e doravante me policio para não repetir.

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Numa primeira análise, todos estes neologismos amplamente usados em pseudo campanhas políticas na internet visam a desqualificação prévia de adversários antes mesmo que seus argumentos sejam levados em consideração. É o que define a falácia do envenenamento do poço. Digo pseudo campanhas por que, sempre nestes casos, um lado trola o outro, sem sequer confrontar as bases de cada ideologia em questão – tudo se reduzindo, ao fim e ao cabo, a uma extravasão de ódio ao diferente. Em sua especificidade, tais termos assumem, no entanto, nuances bem distintas, as quais devemos examinar.

É difícil estabelecer a etimologia exata de uma expressão que viralizou como “esquerdopata”. Se o termo se originou num contexto raso, podemos inferir que denota um psicopata ou sociopata de esquerda. Numa versão repaginada, digamos, do clássico comunista comedor de criancinhas. Alegações recentes de apologia à pedofilia em exposições artísticas corroboram esta hipótese. Outra, mais insidiosa, sugere que o termo qualifique a priori o pensamento de esquerda como uma patologia, i.e., uma doença a ser combatida e/ou curada. Particularmente, acho a segunda hipótese muito pior do que a primeira, já que desmentir a alegação de que todo esquerdista é um assassino em potencial é muito mais fácil do que demonstrar que ele não é portador de nenhuma doença infecto-contagiosa, disseminada através de suas palavras, e que deve ser, portanto, evitado.

Já o termo “petralha” é mais francamente jocoso, por tentar mascarar o fato de existirem ladrões e oportunistas em qualquer partido político com a associação gratuita e leviana de que todo petista é ladrão. “Bolsominion” vai mais ou menos nessa mesma linha, identificando simpatizantes de Bolsonaro com um bando de malvadinhos acéfalos.

Inventariadas estas reduções pejorativas, temos que, enquanto a direita tenta desqualificar a esquerda mais com imputações de desvios de caráter, esta rebate com alegações de que militantes de direita não passam de inocentes úteis, desprovidos de inteligência e pobres de espírito. Se considerássemos apenas estes qualificativos, todo o conflito entre esquerda e direita não passaria, então, de uma disputa entre burros e malvados.

Com acusações assim de um lado e de outro, que variam do escárnio ao ódio, não é difícil entender por que o debate sobre o progresso da nação parece não evoluir nas redes sociais, mesmo quando nos dispomos a incluir entre nossos “amigos”, em prol do rompimento das bolhas discursivas, representantes fervorosos de ideais que abominamos.

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Jamais me esquecerei de um amigo dizendo, ao contemplar a passagem de um ônibus repleto de jovens ruidosos gritando bobagens pelas janelas, que “o ser humano em grupo é sempre mais idiota”. Isto já faz muitos anos. Mas lembrei ao pensar em por que nos regozijamos em trolar, por meio de memes ou tiradas engraçadinhas, adversários ideológicos no conforto da bolha dos que simpatizam com nossas ideias e atitudes.

Até que, hoje, em meio a uma daquelas longas discussões que não quis causar, depois de acusações de toda sorte e ácidas ironias, me assustei quando um dos contendores proferiu, ao se despedir, algo como “esperem para ver o que pensa o Brasil em 2018”.

Senti um calafrio. Pois, por mais que eu acredite estar do lado da razão e da justiça, tenho medo do próximo resultado das urnas. Principalmente por que, enquanto a esquerda se esfacela em busca de uma liderança que melhor a represente (qualquer escolar percebe isto), a direita tem se revelado enormemente pragmática e, o que é muito mais grave, proselitista.

Então, simplesmente não acho seguro ficar sentado sobre minhas convicções, à espera de que, no próximo pleito, a maioria ouça a voz da razão e varra de uma vez por todas os males que afligem a nação, hoje melhor traduzidos no programa da direita – do qual não tratarei aqui por fugir demasiado ao foco deste texto.

Outrossim, conclamo os que me acompanharam até aqui nesta linha de raciocínio a, ao invés de, nas próximas oportunidades em que se virem diante de adversários políticos, odiarem os mesmos ou deles escarnecerem – argumentarem, isto sim, de modo a convertê-los, ainda que parcialmente, a posições mais razoáveis e socialmente justas. Não deve ser tão difícil, dada a fragilidade intelectual da agenda da direita. Despersonalizem a discussão, os incentivando a, em vez de dar tanta atenção a palavras de quem identificam como adversários (às quais, automaticamente, pensarão em refutar), procurar se informar em fontes independentes (devidamente curadas, já que ninguém é bobo). Pois que prazer intelectual maior há do que o de seduzir, pela qualidade dos argumentos, um adversário ?

Anotem aí. A revolução não vai se dar pelar armas, muito menos pelo bate-boca pré-eleitoral. Quando vier (espero que já em 2018), será, antes de tudo, uma revolução cognitiva.

A maior parte da riqueza não resulta de trabalho árduo. Foi acumulada como resultado do ócio e da improdutividade.

É hora de chamar a crise imobiliária do que ela realmente é: a maior transferência de riqueza jamais vista.

 Por Laurie Macfarlane

traduzido de Evonomics, originalmente publicado em Open Democracy.

13 de novembro de 2017

Uma das maiores afirmações do capitalismo é que as pessoas são recompensadas de acordo com seu esforço e produtividade. Outra é que a economia não é um jogo de soma zero. A beleza de uma economia capitalista, somos ensinados, é que pessoas que trabalham duro podem enriquecer sem tornar outros mais pobres.

Mas como isto se traduz na moderna Grã-Bretanha, berço do capitalismo e de muitos de seus primeiros teóricos ? Semana passada, o Office for National Statistics (ONS) divulgou novos dados rastreando como a riqueza evoluiu no tempo. No papel, o Reino Unido de fato se tornou muito mais rico em décadas recentes. A riqueza líquida mais do que triplicou desde 1995, aumentando ca. 7 trilhões de libras. Isto é equivalente a um aumento médio de quase 100.000 libras por pessoa. Dados impressionantes. Mas de onde veio toda essa riqueza, e quem dela se beneficiou ?

Mais de 5 trilhões de libras, ou três quartos de todo o crescimento, é contabilizado como aumento no valor das moradias – outro nome para o estoque imobiliário do Reino Unido. O Office for National Statistics explica que “isto se deve em grande parte mais ao aumento do preço dos imóveis do que a uma mudança no volume de moradias”. Isoladamente isto não é surpreendente. Sempre nos falam da importância de “colocar um pé na escada da propriedade”. O mercado imobiliário é há muito visto como uma fonte perene de riqueza.

Mas o preço de uma propriedade é feito de dois componentes distintos: o preço do prédio em si, e o preço do terreno onde a estrutura foi construída. Neste ano o ONS separou estes dois componentes pela primeira vez, e os resultados são surpreendentes.

Em apenas duas décadas o valor de mercado da terra quadruplicou, aumentando a riqueza registrada em mais de quarto trilhões de libras. A força motriz por trás dos preços crescentes dos imóveis – e da riqueza crescente do Reino Unido – rapidamente elevou o preço da terra.

Para os que possuem propriedades, isto proporcionou enormes benefícios. De acordo com a Resolution Foundation, proprietários de moradias nascidos nos anos 40 e 50 do século passado ganharam sem trabalhar uma fortuna de 80.000 libras somente entre 1993 e 2014. No início dos anos 2000, o crescimento do valor dos imóveis foi tão grande que 17% dos adultos em idade de trabalho ganharam mais com suas casas do  que com seu trabalho.

Semana passada The Times reportou que somente durante os últimos três meses, “baby boomers” converteram 850 milhões de libras de riqueza imobiliária em dinheiro usando produtos de “equity release” (*) – o índice mais elevado desde que começou a ser monitorado. Um terço utilizou o dinheiro para comprar carros, ao passo que mais de um quarto o usou para custear férias. Outros estão escolhendo comprar mais propriedades: o Chartered Institute of Housing descreveu como o mercado de comprar para alugar está sendo alimentado por imóveis antigos usando sua riqueza imobiliária para comprar mais propriedade e a alugando para aqueles que não conseguem colocar um pé da escada da propriedade. É aqui que encontramos o lado negro do boom imobiliário.

À medida que os preços dos imóveis continuaram a subir e a lacuna entre preços de imóveis e rendimentos de trabalho cresceram, o custo da propriedade imobiliária se tornou progressivamente proibitivo. Enquanto em meados dos anos 90 famílias de baixa e média renda podiam oferecer uma entrada como novos compradores depois de economizarem por cerca de 3 anos, hoje as mesmas famílias levam 20 anos para economizar para uma entrada. Muitos se viram progressivamente sem outra escolha a não ser alugar. Para aqueles aprisionados no mercado de aluguel, a proporção de vencimentos gastos com custos de moradia subiu de em torno de 10% em 1980 para 36% hoje. Ao contrário do que acontece com proprietários de imóveis, a maioria não possui riqueza em ativos resgatáveis para custear carros novos e férias.

Na Grã-Bretanha, temos que encarar a verdade sobre os trilhões de libras de riqueza acumulada por meio do mercado imobiliário em décadas recentes: esta riqueza veio direto dos bolsos daqueles que não possuem propriedades.

Quando o valor de um imóvel sobe, a capacidade produtiva total da economia não se altera por que nada foi produzido: a elevação se constitui meramente no aumento do valor do terreno em que o imóvel foi erguido. Sabemos desde os dias de Adam Smith e David Ricardo que a terra não é uma fonte de riqueza mas de aluguel – um meio de extrair riqueza dos outros. Ou, como diz Joseph Stiglitz, “obter uma fatia maior da torta ao invés de aumentar o tamanho da torta”. A verdade é que muito da riqueza acumulada em décadas recentes foi ganha às expensas daqueles que verão mais de seus rendimentos devorados por aluguéis mais altos e maiores pagamentos de hipotecas. Esta riqueza não foi “criada” – ela foi roubada de gerações futuras.

Preços de imóveis são agora em média quase oito vezes os salários anuais, i.e., mais do que o dobro do valor de 20 anos atrás. É improvável que preços de imóveis ultrapassem rendimentos de trabalho na mesma proporção pelos próximos 20 anos. As últimas décadas geraram uma transferência de riqueza única que não deve se repetir. Enquanto os principais beneficiários disto foram as gerações mais velhas, eventualmente isto será passado às próximas via herança ou transferência. O “Banco de Mamãe e Papai” já se tornou o nono maior credor hipotecário. O resultado não é apenas uma crescente fratura entre gerações, mas uma divisão de classes entrincheirada entre aqueles que possuem propriedade (ou alegam possuí-la) e aqueles que não as possuem.

Contabilidade confusa e economia irresponsável ensejaram este roubo. As contas nacionais governamentais registram a elevação do valor imobiliário como novas riquezas, ignorando os custos impostos sobre outros na sociedade – particularmente os jovens e aqueles por nascer. Ainda assim economistas saúdam a inflação do preço imobiliário como um sinal de força econômica.

O resultado é um mundo bem diferente daquele descrito em livros-texto econômicos. A maior parte da “riqueza” de hoje não é o resultado do empreendedorismo e do trabalho árduo – mas foi acumulada por meio do ócio e da improdutividade. Longe do jogo de soma positiva que o capitalismo pretende ser, temos um sistema no qual a maior parte da riqueza é ganha às expensas dos outros. Como John Stuart Mill escreveu já em 1848:

“Se alguns de nós enriquecemos durante o sono, de onde acreditamos que essa riqueza vem ? Ela não se materializa a partir do ar. Ela não vem sem custar a alguém, outro ser humano. Ela vem dos frutos do trabalho de outros, os quais eles não recebem.”

A crise imobiliária britânica é uma bagunça complicada. Consertá-la requer um plano de longo prazo e uma abordagem totalmente nova das políticas. Enquanto, todavia, isto não acontece, vamos chamá-la daquilo que realmente é: a maior transferência de riqueza jamais vista.

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Laurie Macfarlane é Editor de Economia em Open Democracy e Associate Fellow no Institute for Innovation and Public Purpose do University College de Londres. Antes disto, foi Economista Senior na New Economics Foundation. É co-autor do livro Rethinking the Economics of Land and Housing, aclamado pela crítica.

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(*) Equity release é um meio de se reter o uso de um imóvel ou outro objeto que tenha algum valor como capital, obtendo ao mesmo tempo uma soma ou um fluxo regular de rendimento utilizando o valor da casa.

A “pegadinha” é que o provedor do rendimento deve ser ressarcido num estágio futuro, usualmente quando o proprietário do imóvel morre. Portanto, equity release é particularmente útil para pessoas de idade que não pretendem ou não podem deixar um grande espólio a herdeiros ao morrerem.

A maldição da abertura da Força do Destino, de Verdi

No creo en brujas, pelo que las hay, las hay

Provérbio espanhol

Recentemente, mal acabáramos de tocar, com a OSPA, num concerto ao ar livre no Jardim Botânico de Porto Alegre, a abertura da ópera A Força do Destino, de Giuseppe Verdi, quando uma violenta tempestade se abateu sobre a cidade, literalmente varrendo tanto o palco como as tendas de apoio à orquestra e à equipe técnica, felizmente sem feridos graves e apenas com danos materiais. O incidente repercutiu com força na mídia e foi amplamente comentado.

Mesmo sem ser supersticioso, me lembrei de pronto de um espetáculo que reuniu Luciano Pavarotti e Roberto Carlos no estádio Beira-Rio em 1998, para o qual estava programada a célebre abertura. Acontece que no ensaio geral, já no estádio, precisamente durante a execução da obra fatídica, uma gigantesca coluna cenográfica, construída em madeira compensada, desabou sobre a orquestra perplexa. Felizmente também desta vez, todos correram do jeito que puderam, se desviando da trajetória do objeto que despencava, que terminou partido sobre o encosto de uma cadeira onde, segundos atrás, estava sentado um músico. Lembro que, na ocasião, tentamos documentar em fotos o incidente, no que fomos imediatamente reprimidos por membros da equipe de segurança do tenor.

Foi então que Pavarotti, saindo fleumaticamente de sua tenda/camarim e tomando ciência do ocorrido, imediatamente cancelou, numa decisão denotando ao mesmo tempo grande experiência e sabedoria, a execução da abertura no concerto da noite vindoura.

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De outra feita, um ovni foi documentado durante uma apresentação da OSPA em Tapera, RS, instantes depois que o maestro em exercício convocara o público, como já vinha fazendo em tom jocoso há algum tempo, para observar no céu a passagem do E.T. andando de bicicleta enquanto a orquestra executava a música tema do filme. Moral da história: mesmo que você não acredite em fantasmas, bruxas e outras entidades sobrenaturais, é prudente se abster de mexer com eles.

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Update: aqui, o relato de Walter Schinke, contrabaixista que também testemunhou a queda da coluna no ensaio de Pavarotti e Roberto Carlos com a OSPA no Beira-Rio em 1998.

Rieufobia

Dia desses me deparei, na algaravia do facebook, com o seguinte comentário, sob uma postagem de divulgação de um texto sobre o estupendo ensemble parisiense sans baton Les Dissonances:

Sempre que músicos conversam surge a rieufobia. Por que?

Em ambientes musicais, tal pergunta soa francamente retórica e revestida de fina ironia. Só que a maioria dos leitores deste blog, que chegam até ele principalmente por meio de anúncios do Sul21 em redes sociais, não é constituída de músicos. Até mesmo entre meus amigos no facebook há muitos que não são músicos. Por isto, decidi responder à interessante pergunta (juro que pensei bastante nela) usufruindo da atemporalidade, da permanência e da introspecção inerentes ao blog.

Não estaria muito longe da verdade se simplesmente dissesse que o que André Rieu oferece a seus apreciadores não passa de uma embalagem vazia. Pois a importância absolutamente secundária da música em todo o complexo cênico vendido em suas apresentações seria suficiente para corroborar esta resposta.

Se fosse apenas para brigar com campos adversários, haveria evidência suficiente para chamá-lo, assim como tantos outros que se apropriam de elementos musicais a fim de produzir um encanto irresistível em audiências mal formadas e/ou informadas, de charlatão. Tal qualificação não suscitaria reações adversas em quem quer que tenha algum conhecimento musical e nutra um certo apreço pela música. Tal querela, no entanto, não valeria a pena.

Sigo, então, perseguindo o propósito de explicar em termos objetivos por que o que Rieu optou por fazer, conquanto lucrativo, não passa de… charlatanice (me desculpem se não encontro palavra melhor que o descreva).

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Inicialmente, examinemos o público que se encanta com seus espetáculos comparativamente às audiências que efetivamente buscam, em concertos presenciais ou gravações, a fruição musical e a ampliação do repertório que conhecem.

Tomemos, inicialmente, o típico melômano com vasto conhecimento musical. Seu repertório conhecido, conquanto abrangendo vários séculos, algumas dúzias de compositores e centenas de obras, é por definição incompleto. Nosso amigo melômano tem profunda consciência disto e faz da exploração de territórios desconhecidos e inexauríveis uma missão de vida.

Num nível intermediário, temos os apreciadores de música que “comem o mingau pelas bordas”. Pertencem a esta categoria aqueles capazes de identificar, após ouvidos uns poucos acordes, trechos da quinta e da nona sinfonias de Beethoven, do primeiro concerto de piano de Tchaikovsky, do segundo de Rachmaninoff, de Carmina Burana, da Pequena Serenata Noturna de Mozart, das Czardas de Monti, das Estações de Vivaldi, da Ária na Corda Sol ou do coral Jesus Alegria dos Homens de Bach, do Bolero de Ravel, de algumas valsas vienenses e de umas poucas árias de óperas. A ópera é um nicho bem especializado, mas é pouco provável que a maioria de seus apreciadores já tenha ouvido obras inteiras, de onde suas árias favoritas foram desmembradas.

Representantes das duas categorias acima, conquanto frequentem salas de concerto (os da primeira muito mais do que os da segunda), sabem que não podem restringir a descoberta de novas obras ao repertório habitual de conjuntos a cujas apresentações tenham acesso. Por isto, costumam investir pesado na formação de discotecas ou, mais recentemente, em serviços de streamming. Bem, estou sendo otimista. Na verdade, acho que só os membros da primeira categoria fazem da audição de gravações de repertório novo um hábito regular.

Um terceiro modo de relação com a música dita “clássica” é o praticado por pessoas que nunca ou muito raramente (só em casos circunstanciais, como, por exemplo, quando não tem como recusar um convite) frequentam concertos de qualquer espécie. É o público, por excelência, dos concertos populares (que prefiro chamar de demagógicos), o qual, mesmo sem empreender qualquer esforço ou iniciativa para ouvir orquestras ou conjuntos de câmera aos quais tenha acesso, acredita, talvez por ter ouvido falar, que a música faça bem para a alma, que é uma maneira de manter jovens no bom caminho, que concertos ao ar livre são ótimos para popularizar uma manifestação cultural de outro modo “elitista” e até que a música tenha alguma influência na aprendizagem (o célebre efeito Mozart). De quebra, a música clássica confere a quem professa algum apreço pela mesma um certo verniz cultural.

Concertos demagógicos em geral e os de André Rieu em particular contemplam exclusivamente os integrantes desta terceira categoria. Todos os restantes padecem, como bem disse meu comentarista, de rieufobia.

 

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Um dos maiores problemas dos concertos demagógicos é a ideia de que a música pode ser levada às audiências por amostragem, com trechos selecionados de muitas obras concebidas para serem ouvidas na íntegra. Como num desfile variadíssimo de épocas, lugares, gêneros e estilos, somos contemplados com um mosaico aleatório de recortes cujo único objetivo é angariar o aplauso fácil. Nestes eventos, a imersão mais prolongada no universo de uma obra ou autor, como em concertos sinfônicos, está fora de qualquer questão.

Notem que concertos sinfônicos com mais de uma hora de duração costumam ter no máximo três ou quatro obras, não sendo raros aqueles com apenas duas ou até mesmo uma só. Suponho que a enorme profusão de “números” curtos, entrecortados por aplausos, em concertos populares tente emular, de algum modo, uma dinâmica de espetáculo específica da música popular, limitada, ao mesmo tempo, historicamente pela duração do que cabia num lado dum disco de 78 rpm e também pelo próprio exaurimento de suas formas depois de 3 ou 4 minutos.

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Muito da apologia que se faz dos espetáculos capitaneados por Rieu está fundada na soberania absoluta do gosto popular. Só que, neste caso, não faz sentido algum se falar numa opção por um tipo de espetáculo por parte de ouvintes que não têm a menor ideia da vastidão daquilo que ignoram. A imensa popularidade, portanto, de Rieu e congêneres é, no fundo, reflexo de um problema maior de educação.

Conquanto Rieu tenha alcançado, ainda que por méritos próprios, uma evidência que o coloca como símbolo internacional desta espécie de degeneração da música de concerto, está longe de ser seu representante exclusivo. Sua versão nacional mais conhecida é o pianista e maestro João Carlos Martins, que já virou até filme e enredo de escola de samba. Os agravantes, no caso de JCM, são a exploração do próprio “coitadismo” e o pretenso trabalho social que desenvolve.

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O surgimento de personagens como Rieu,  que personificam para uma parcela numerosa do público o que se poderia chamar de “a cara da música clássica” (do mesmo modo que, até pouco tempo atrás, os “3 tenores” encerravam para muitos o significado do canto lírico), é um fenômeno típico da época em que vivemos – na qual a celebração da autoria deu lugar à primazia absoluta da figura do intérprete. Pois se antes os grandes festivais serviam principalmente como plataforma de lançamento para compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Milton Nascimento (ainda que os mesmos fossem, incidentalmente, intérpretes de suas próprias obras), o que temos hoje, em reality shows como Fama ou The Voice, é a busca incessante por novos invólucros descartáveis para antigos sucessos. Esta tendência reflete perfeitamente uma opção exercida pela indústria do entretenimento que, não sem razão, talvez por perceber que a autoria sofre períodos recessivos nos quais bons autores não conseguem suprir a demanda permanente por novidades, se volta para a fabricação de celebridades fugazes capazes de dar ares novos a velhas canções repaginadas.

A música erudita desfruta atualmente de um status de anacronismo e elitismo em parte por resistir a se alinhar a esta tendência, i.e., nela a autoria ainda prevalece sobre a interpretação. Explico. Por mais notórios que sejam os regentes ou solistas, a parte mais assídua e expressiva do público que aflui a concertos sinfônicos ainda sai de casa primordialmente para ouvir obras de fulano ou beltrano do que, propriamente, “versões” das mesmas por este ou aquele maestro ou solista. Prova disto é que obras conhecidas por intérpretes desconhecidos ainda atraem muito mais público do que obras desconhecidas por intérpretes célebres. Neste contexto, figuras como Rieu, que logram uma popularidade análoga à de muitos artistas pop, constituem uma grande exceção, só possível devido às concessões cometidas em detrimento da qualidade da experiência musical.

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A exuberância visual de um espetáculo de Rieu também merece uma análise mais demorada, com dois pontos a serem destacados. Primeiro, temos os trajes de gala, com flagrante sugestão de indumentárias de época, como a reforçar uma ideia de deslocamento mágico entre o que se passa no palco e o cotidiano de quem assiste a esses shows.  Como se, através do espetáculo oferecido, o público pudesse se transportar, ainda que por breves instantes, a  mundos distantes e/ou inexistentes de luxuosas cortes de outrora. Algo como um complexo de Sissi. Ou a suposta magia de um desfile na Sapucaí.

Segundo, salta à nossa percepção o fato de que, enquanto concertos são idealizados primordialmente para serem ouvidos, o circo de Rieu é concebido essencialmente para ser visto. Não tenho como afirmar que existam à venda muito mais DVDs do que CDs do músico – o que constituiria uma tremenda inversão dos números do mercado da música clássica. Posso, no entanto, sustentar que seus DVDs possuem muito mais apelo aos ouvintes do que seus CDs. Já que, enquanto os primeiros não conhecem nenhum produto concorrente, já os últimos competem em franca desvantagem com inúmeras outras gravações das mesmas obras.

Até que ponto esta maior resistência de assimilação aos formatos visuais oferecida pela música de concerto em relação à popular está por trás da baixa popularidade da primeira quando comparada à do universo pop, no qual André Rieu deve ser incluído, é uma pergunta que não sei responder.

A arte da discórdia

As redes sociais vem se tornando cada vez mais o lugar por excelência para o ódio. Fraturas maniqueístas entre bons e maus, mocinhos e bandidos e tantas outras que podem ser resumidas como os que concordam comigo e os outros que de mim discordam cada vez mais determinam a adição e a exclusão de amigos e seguidores – resultando, na maioria das vezes, em bolhas nas quais likeminded people chovem no molhado reforçando convicções próprias e troçando ou trolando membros de campos ideológicos opostos. Como ação persuasiva e/ou transformadora, tal sorte de interação não passa, portanto, de uma colossal perda de tempo.

Justamente no duplo intuito de refinar minhas posições e, ao mesmo tempo, tentar influenciar aqueles que pensam de modo diferente, mantenho, entre meus interlocutores virtuais, muitos que assumem posições diversas ou mesmo diametralmente opostas às minhas, por vezes até se comportando como trolls, em questões tanto políticas como estéticas. Mas só isto não é suficiente. Pois, para se lograr estabelecer um diálogo minimamente proveitoso com campos adversários, é preciso aderir a um conjunto bem específico de práticas e princípios, do qual tratarei neste texto.

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Nativos digitais começam a bater boca (devo dizer bater teclas ?) na web muito antes de terem experimentado a dinâmica de uma discussão presencial. Entendemos, no entanto, que debates cara-a-cara possuem uma inegável função formativa no que tange a duas regras pétreas que deveriam nortear qualquer embate verbal, a saber,

jamais falar mais alto do que o outro; e

jamais interromper uma fala do outro antes que ele lhe tenha passado a palavra.

Os dois expedientes acima, que podem ser agrupados sob o pobre expediente de tentar ganhar uma  discussão “no grito”, são, lamentavelmente, bastante comuns. Examinemos, pois, um pouco melhor cada um deles.

O erguimento de uma das vozes num debate é uma clara tentativa de fazer prevalecer um argumento por meio do silenciamento, relativo ou absoluto, da outra. Em ambientes virtuais ou editoriais, equivale à utilização, por uma das partes, de canais aos quais tenha acesso privativo ou preferencial, tais como blogs, colunas de opinião ou páginas editoriais. Até mesmo no contexto mais horizontal de perfis em redes sociais, a exclusão de comentários indesejáveis ou o bloqueio de interlocutores configura o mesmo tipo de silenciamento de adversários, por permitir que a voz do dono de cada perfil reine absoluta.

Felizmente, há um antídoto contra estas práticas supressoras, conhecido como direito de resposta, segundo o qual deve ser assegurado a quem quer que se sinta atingido ou ofendido por algo que tenha sido publicado em qualquer canal com alguma audiência a oportunidade de se manifestar livremente no mesmo espaço em sua própria defesa. Grande parte do prestígio e credibilidade de um meio advém de sua política de franquear o próprio espaço à difusão de contraditórios.

Já os nodos de alternância de vozes em um discurso são essenciais para a compreensão do mesmo, independentemente da extensão de cada fala. Isto por que, tipicamente, argumentos defendidos por bons debatedores são compostos por vários silogismos encadeados. Logo, interromper uma fala sob qualquer pretexto é, portanto, um violento atentado à ética do bom debate.

É bem verdade que, diante de oradores mais prolixos, um oponente arguto tende a se impacientar a cada falsa premissa proferida. É nessas ocasiões que muitos irrompem intempestivamente em meio a falas não concluídas, deixando quem estava com a palavra perplexo, quando não ultrajado. Em sua versão jurídica, amplamente difundida pelo cinema, tais interrupções assumem invariavelmente a forma da interjeição “Eu protesto, meritíssimo !”

Para prevenir tais incidentes lógicos, recomendamos aos mais afoitos o uso sistemático de blocos de notas, onde todas as objeções podem ser cuidadosamente anotadas para utilização em falas futuras, bem mais estruturadas e, portanto, eficazes.

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Outra regra de ouro do bom debate é

jamais rebaixar um adversário diante de uma audiência, desviando a atenção da mesma de seus argumentos por meio de acusações pessoais conhecidas como ataques ad hominem.

É quando se tenta desqualificar as ideias de outrem por meio de afirmações tais como “fulano é um mentiroso” ou “beltrano só diz merda”. Ataques ad hominem também são conhecidos como a falácia do envenenamento do poço.

A falácia do envenenamento do poço é tão ineficaz quanto inócua. Inócua por que, mesmo que desacreditemos o enunciador de uma ideia, a mesma pode ser facilmente defendida por outrem logo em seguida – seu efeito, neste caso, tão fugaz como a tomada de um peão oferecido em sacrifício numa partida de xadrez.

Ineficaz por que bons adversários são essenciais à valorização de qualquer embate. Gregos antigos já sabiam disto ao manifestarem especial apreço pelo diálogo como instrumento de aquisição de conhecimento. Além disto, é principalmente pela oposição, seja de uma ideia, habilidade ou força, que percebemos alguma qualidade maior ou melhor. Afinal, o que seria de Senna sem Prost, de Ali sem Frazier, de Borg sem McEnroe, de Lula sem Bolsonaro ou do Grêmio sem o Inter ?

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Sobre brigas nas quais nos metemos na internet, passei a respeitar, desde que o ouvi de um amigo, o seguinte princípio:

jamais responder a qualquer provocação, por mais ultrajante que pareça, no ato.

Meu amigo pratica, como método, o hábito de, sempre que incomodado por qualquer coisa com a qual tenha tomado contato por meio de redes sociais, não reagir de imediato. Pois não há nada que uma boa noite de sono não resolva. Na maioria das vezes, nem se lembra, ao acordar pronto para outra, da suposta ofensa recebida no dia anterior – prova maior de que aquilo não era, de modo algum, importante. Se, no entanto, aquilo continua a lhe incomodar mesmo depois do sono restaurador, parte, aí sim, para a elaboração de uma resposta à altura, bem pensada e, como tal, fulminante na maioria das vezes.

Se fosse para dar um nome a esta prática, talvez o mais indicado seria regra da cabeça quente – segundo a qual nossas respostas tendem a ser melhores quanto maior for o tempo decorrido deste o fato ultrajante gerador.

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Finalmente, vale citar quatro regras, deitadas pelo filósofo Daniel Dennett (nascido em 1942) e compiladas por Maria Popova em seu brilhante site brainpickings, dando conta de uma ética e estratégia a ser adotada em debates com oponentes qualificados. Segundo Popova, Dennett faz uma pergunta muito apropriada que testa algumas das tendências e dinâmicas básicas da cultura atual onde todo mundo é um crítico, a saber,

Quão generoso você deve ser ao criticar visões de um oponente ?

Ao que responde:

Como compor um comentário crítico satisfatório:

Você deve tentar re-expressar a posição de seu alvo tão clara, vívida e justamente a ponto de ele dizer “Obrigado, eu gostaria de ter dito isto desta maneira.”

Você deve listar qualquer ponto de acordo (especialmente se não forem objeto de consenso geral ou amplo).

Você deve mencionar qualquer coisa que tenha apreendido com seu alvo.

Só então lhe será permitido dizer qualquer palavra de refutação ou crítica.

Para Popova, tal código de ética seria por si só suficiente para transformar o ambiente infernal dos comentários online. Dennett vai adiante, notando que esta estratégia psicológica logra transformar o oponente numa audiência mais receptiva à crítica ou dissenso, tendo como resultado o avanço da discussão.

Daniel Dennett foi descrito por Marvin Minsky, pioneiro da inteligência artificial, como o maior filósofo vivo e o próximo Bertrand Russell.

 

 

On (non) conducting (xvi): A propósito da impactante descoberta de Les Dissonances, duas piadas com um fundo de verdade

Como é bom poder tocar um instrumento

Caetano Veloso, em Tigresa

O repertório de piadas que circulam em ambientes musicais, desde conservatórios até orquestras, é imenso. Os violistas são os que mais sofrem com isto. Ou se divertem, não sei ao certo. Quem ainda não viu, por exemplo, este célebre fragmento de um ensaio do grande Celibidache ?

Mas não vim aqui para falar dos queridos amigos violistas. Soe que, dentre a penca de excelentes comentários desencadeada pelo post de ontem, sobre a execução da Sagração da Primavera, de Stravinsky, pelo ensemble Les Dissonances em Paris, alguns me trouxeram de pronto à memória duas populares piadas, tendo a orquestra como temática de fundo, que não poderiam ser mais verdadeiras. Ainda por cima, as duas compõem um par perfeito, correlato – por se tratar, num caso, de uma semelhança e, no outro, de uma diferença. Não resisti. A elas.

A primeira deve ser contada a inglês, para preservar o ótimo trocadilho entre condom (preservativo) e conductor (regente). É mais ou menos assim:

Question: What’s there in common between a condom and a conductor ?

Answer: In both cases, it’s safer with, but better without.

Já a segunda é assim:

Pergunta: Qual a principal diferença entre uma orquestra sinfônica e uma de jazz ?

Resposta: É que na segunda, todos parecem gostar do que fazem.

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É sabido que piadas explicadas tendem a perder a graça. Deixo, então, a vocês, se quiserem, a tarefa opcional de as relacionarem com comentários sob a primeira postagem de divulgação do texto de ontem no facebook. Dito isto, assumo o risco de me tornar demasiado sério e enfadonhamente didático ao trocar em miúdos o tal fundo de verdade ao qual aludo no título.

A primeira piada se refere claramente à relação custo/benefício envolvida no uso de preservativos e maestros. Numa primeira leitura, mais ligeira, depreendemos a correlação inversa entre segurança e prazer normalmente associada ao uso ou não de uns e de outros. Indo, no entanto, um pouco mais a fundo, verificamos que a música orquestral é executada com melhores resultados em concertos sem a intervenção de maestros – ainda que, para tanto, sejam necessários muito mais ensaios.

Temos, então, que, salvo nos raros casos que envolvem maestros excepcionais (i.e., em poucos ou pouquíssimos concertos, dependendo da orquestra), eles estão ali antes de tudo para poupar tempo de ensaio. Pois, afinal, ensaios são caros e agendas precisam ser cumpridas.

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A segunda piada tem a ver com o prazer que os músicos demonstram sentir, num caso e noutro (i.e., na orquestra sinfônica e na de jazz), ao tocar. Ora, é praticamente impossível a alguém habituado a frequentar concertos sinfônicos não perceber, em pelo menos alguns assentos orquestrais, músicos que mais parecem no desempenho de alguma função burocrática, apenas à espera do fim do expediente. Isto não acontece em conjuntos de jazz, onde o prazer de cada integrante é muito mais evidente. Por que, então, orquestras tendem a ser mais “broxantes” para alguns ? (não falo, aqui, é claro, dos muitos músicos sinfônicos que revelam a cada instante a imensa alegria que sentem por poderem fazer parte daquilo tudo)

Uma possível explicação para este fenômeno é a tremenda desigualdade existente na distribuição de atenção entre todos os atores envolvidos em uma performance musical. Comparem, por exemplo, um concerto sinfônico com um jogo de futebol. Se em campo todos os olhares e as câmeras estão voltados, na maior parte do tempo, para os jogadores que correm no gramado ao invés de para o técnico que grita e gesticula à margem do mesmo, já num concerto tanto o público quanto as lentes parecem se concentrar no gestual do maestro, como se dele, e não dos músicos, emanasse a música que se ouve.

Ora, assim como excluídos e remediados se ressentem da enorme desigualdade na distribuição de renda, é natural que músicos de um conjunto limitem, voluntária ou inconscientemente, seu desempenho ao perceberem desequilíbrio similar na distribuição da atenção de ouvintes presenciais ou remotos. Suprimido o grande imã de atenção no qual se constitui a figura do maestro, a mágica se processa: todos passam a dar seu máximo, tocando “na ponta da cadeira”, motivados pela percepção de estarem recebendo seu devido quinhão na economia da atenção. Então, não é que alguns músicos não pudessem tocar mais proativamente – mas, tão somente, por que, dada a baixa taxa de atenção recebida, simplesmente não viam motivo algum para tanto entusiasmo. Isto é perfeitamente evidente, por exemplo, na execução da Sagração da Primavera por Les Dissonances, da qual falei ontem.

Stravinsky – The Rite of Spring by Les Dissonances

We did it ! Great premiere of Stravinsky – The Rite of Spring performed without a conductor at Philharmonie de Paris ! Heureux de partager avec vous les premières images du Sacre du Printemps de Stravinski, 93 musiciens à l'unisson, un moment magique ! ✨✨✨

Posted by Les Dissonances on Friday, November 3, 2017

Outro aspecto inibidor do ímpeto orquestral é o confortável hábito de se ter uma referência visual única permanentemente disponível. A supressão da regência, além de obrigar cada músico a ouvir melhor o que os outros tocam, também engendra um complexo e ágil jogo de olhares entre as partes que compõem o todo. Isto pode ser ser muito bem observado nos close-ups de um outro vídeo de Les Dissonances tocando o movimento lento (a marcha fúnebre) da sétima sinfonia de Beethoven. Notem o contraste entre a delicadeza da música e o intenso jogo de olhares necessário para manter aquele tecido coeso.

Beethoven 7th Symphony – Les Dissonances

L'une des premières symphonies de Beethoven jouée par Les Dissonances, vous vous en souvenez ?Nous serons heureux de la rejouer à la rentrée avec le Sacre du Printemps de Stravinsky à la Philharmonie de Paris, à l'Opéra de Dijon – Page officielle et à Le Volcan – Scène nationale du Havre !Beethoven Video Playlist 👉 http://bit.ly/YoutubeLesDissonances

Posted by Les Dissonances on Friday, June 9, 2017

Ainda sobre o prazer de tocar se sentindo no comando: observem a felicidade da primeira flautista de Les Dissonances, depois de tocar, praticamente sozinha, aquela frase final da Sagração, logo depois daquela apoteose orgiástica. Ninguém me convence de que é possível tocar aquilo melhor em resposta a um comando externo.

Conquanto o problema seja de fácil diagnóstico, sua solução não é nada simples. Passa, antes, pela conquista de uma sociedade mais igualitária, horizontal, na qual a competência de poucos deixe de ser reconhecida como tão superior à de muitos. Até lá, o modelo orquestral vigente permanecerá como talvez a melhor metáfora disponível de ideais neoliberais.

 

On conducting (xv): Por que A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, é melhor executada sem a intervenção de um regente

Por mais piegas que possa parecer, tenho que confessar: chorei vendo isto:

Stravinsky – The Rite of Spring by Les Dissonances

We did it ! Great premiere of Stravinsky – The Rite of Spring performed without a conductor at Philharmonie de Paris ! Heureux de partager avec vous les premières images du Sacre du Printemps de Stravinski, 93 musiciens à l'unisson, un moment magique ! ✨✨✨

Posted by Les Dissonances on Friday, November 3, 2017

O vídeo me foi apresentado por um amigo – a quem sou imensamente grato – que, presumivelmente, prefere permanecer anônimo. Além de emocionado, também fiquei lisonjeado por ter sido, de certo modo, lembrado como alguém que comemoraria a boa nova. Faço, então, mais do que isto compartilhando a façanha.

Para quem ainda não se deu conta, se trata da estreia, há poucos dias em Paris, da icônica Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, executada sem a intervenção de um regente. Não é pouca coisa. Pois embora vários conjuntos internacionais (um dos primeiros foi o Orpheus, de Nova Iorque) já se dediquem há algum tempo à execução de repertório orquestral sem maestros, havia, antes desta façanha do Les Dissonances, um certo consenso de que aquele repertório no limite da complexidade rítmica sempre exigiria alguém à frente da orquestra a indicar o tempo. Com esta performance, foi deixado para trás mais este mito.

Antes disto, eu já havia visto uma execução de uma sinfonia de Mahler sem regente. Que, no entanto, deixou muito a desejar. Provavelmente por que, ao contrário do que costuma ocorrer na obra de Stravinsky, na qual o tempo é inflexível, já em Mahler o tempo é maleável – o que talvez ainda implique na direção de uma consciência individual para sua realização. Assim, embora aqueles músicos conseguissem tocar Mahler juntos sem o auxílio de um maestro (o que também não é pouco), faltava à música, a meu ver, digamos que um pouco de personalidade.

Tal não é o caso, entretanto, na execução de Stravinsky pelos membros de Les Dissonances – grupo que me apressei em conhecer e cuja performance do Concerto de Orquestra de Bartók, também no facebook, verei imediatamente após publicar este post.

Vendo e ouvindo este final da Sagração da Primavera, não pude deixar de reparar duas coisas. Primeiro, é visível o tremendo envolvimento de cada membro da orquestra, com uma linguagem corporal comum na música de câmera mas absolutamente rara em orquestras. Pois em Les Dissonances, todos tocam como se fossem spallas, i.e., proativamente. Tamanho empenho individual se reflete no corolário sonoro deste aspecto visual. Posso estar enganado, mas jamais ouvi uma orquestra que soasse tão articulada.

Quem frequenta concertos sinfônicos habitualmente já deve ter observado um certo “arrefecimento” (salvo raras exceções) do ímpeto dos que sentam nas primeiras estantes na medida em que nos aproximamos das últimas. Acho que isto pode até ter se normalizado como uma espécie de competência ideal na “ética” da performance orquestral – i.e., seguir o spalla sem em nenhum momento desafiá-lo. O resultado deste “abrandamento” de intenção expressiva em direção às últimas estantes passou, então, a ser percebido não como uma distorção mas, ao contrário uma qualidade orquestral – traduzida, talvez, como uma suavidade de ataque (na verdade um blend de ataques ligeiramente fora de sincronia) impensável em conjuntos de câmera.

Orquestras não tocam assim, no entanto, por que seus músicos sejam incompetentes. Ao contrário. O problema decorre, em parte, do fato de que músicos devam obedecer, permanentemente, a uma espécie de duplo comando, a saber, do regente e do respectivo spalla. Só que é bem difícil e contraditório – com efeito não mais do que uma aproximação – tocar ao mesmo tempo junto com outros instrumentistas (a concepção camerística) e com alguém que apenas gesticula sem tocar instrumento algum.

Em Les Dissonances, no entanto, não existe este duplo comando e a impressão que se tem é de uma orquestra em que todos tocam como se fossem spallas.

É claro que qualquer orquestra não tocaria melhor sem um regente. A disciplina da submissão a uma batuta é arraigada à cultura orquestral e assimilada desde o início da formação de cada instrumentista. A ruptura proposta por conjuntos de ponta como Les Dissonances só é possível com muito muito treino e certamente tem também seu embasamento teórico. Então, não esperem ver, daqui prá frente, muitas orquestras seguindo os passos destes bravos franceses. Até por que há bastante poder em jogo, fundado sobre tradições tão antigas quanto a realização de concertos sinfônicos.

Deixo instaurada a polêmica. Comentem à vontade !

A quem interessa o saldo positivo da balança comercial ou o crescimento da produção industrial ?

Uma das principais diferenças entre governos de esquerda e de direita talvez seja a ênfase publicitária que dão aos índices econômicos e de desenvolvimento. Isto é compreensível e esperado, já que a empatia dos primeiros é primordialmente pelo povo enquanto a dos últimos, pelo capital empreendedor.

Assim, enquanto antes do impeachment de Dilma as joias da coroa da propaganda oficial eram as taxas de desemprego, fome e analfabetismo, hoje o que o Planalto mais apregoa são dados revestidos de otimismo em relação à balança comercial, à produção industrial e às bolsas de valores. Aqueles hoje no poder só não falam mais de inflação e taxas de juros e câmbio por que a evolução de tais índices econômicos derivativos já vinham bem desde antes da deposição de Dilma – não podendo, portanto, ser utilizados como propaganda do governo atual em detrimento do anterior.

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De uns tempos para cá, já se tornou um lugar comum vermos nos noticiários escândalos de corrupção contrabalanceados por notícias auspiciosas em relação à balança comercial, à produção industrial e às bolsas de valores, como se tais índices fossem automaticamente bons para o país. Será ? Quando o país vende mais do que compra; quando a indústria produz mais ou quando sobem os preços especulativos das ações, isto é bom para quem ? Como a parte da população que não aufere ganhos de capital (i.e., a maioria) se beneficia com isto ? Ora, tais supostos avanços não fazem a menor diferença na vida das hordas de famintos, analfabetos e desempregados abaixo da linha de pobreza. Então, é preciso pensar antes de comemorar.

A euforia do crescimento econômico serve, principalmente, para mascarar o desempenho sofrível de índices de desenvolvimento humano em razão do desmonte de direitos trabalhistas e da rede previdenciária, bem como da desoneração progressiva, por parte do estado, de serviços anteriormente prestados.

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Um pouco desta ciranda de índices é revelada num interessante artigo, ainda que proselitista (pró-PT), publicado no jornal Nexo. Nele, tomamos conhecimento, entre outras coisas, de um obscuro coeficiente desenvolvido pelo estatístico italiano Corrado Gini para quantificar a desigualdade na distribuição de renda. Observando seu desempenho, notamos que, ainda que o mesmo tenha recuado consistentemente sob os governos de Lula e Dilma, o Brasil ainda está entre os lugares mais desiguais do mundo. E tudo indica que, a persistir a orientação econômica de nossos governos, a desigualdade tende a se acirrar.

Ainda é muito cedo para avaliarmos o impacto da breve Era Temer no conjunto destes índices. Só que, depois das eleições de 2018, talvez seja tarde demais – pois se leva, geralmente, muitos anos, ou vários mandatos presidenciais, para se estabelecer ou reverter qualquer tendência na evolução destes números. Os meses que nos separam do pleito são, então, decisivos para que a nação opte pela primazia do trabalho sobre o capital ou vice-e-versa. Ou, ainda, se legaremos a nossos filhos um país mais igualitário ou, como parece estar se delineando, de escravos e milionários.

Quais as implicações da concessão de cidadania a robôs

Dentre as muitas notícias pela quais passei os olhos recentemente, talvez a que tenho causado o impacto mais duradouro seja uma que veio da Arábia Saudita, dando conta da concessão de cidadania daquele país a um robô. Não resisti ao título. Na matéria, do ótimo site Big Think, fiquei sabendo se tratar de um androide de feições femininas, modelado a partir de Audrey Hepburn (sic !), turbinado com inteligência artificial (AI), capaz de auto aprendizagem e produzido por uma empresa de Hong Kong (Hanson Robotics).

Impressionado, vi na íntegra o vídeo que ilustrava a matéria, no qual o robô Sofia foi entrevistado no Future Investment Initiative, evento dedicado a inovações tecnológicas realizado em Riyadh, a capital saudita. A argúcia e o humor revelados em diferentes falas do androide me levaram de pronto a julgar se tratar de uma fraude, com a máquina devidamente programada para reagir a determinadas “jogadas ensaiadas”. Infelizmente, uma rápida pesquisa demonstrou se tratar da mais crua realidade.

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No conforto da contemporaneidade, estamos acostumados a considerar a premissa da inteligência artificial capaz de competir com vantagem ou, pelo menos, em igualdade de condições com a humana como uma possibilidade ameaçadora apenas num futuro vagamente distante. Se a eloquente demonstração de Sofia para investidores sauditas não escondeu nenhuma armação (tal como, por exemplo, um script previamente definido para a realização da entrevista), tal futuro, imaginado por Asimov e, mais recentemente, por Harari, já chegou.

A existência de robôs capazes de apreenderem sozinhos não constitui, por si só, uma ameaça mas, antes, um prodigioso avanço tecnológico em prol da raça humana. Assusta, no entanto, que humanos estejam dispostos a conceder a tais máquinas poderes e direitos até então exclusivos de humanos. Neste cenário, não há como não sentir um calafrio ante as imensas e insondáveis possibilidades inauguradas com uma concessão de cidadania a um robô. Pois, se não for apenas uma jogada de marketing, com restrições em letras miúdas que não chegam aos noticiários, tal concessão implica, por exemplo, que robôs podem, a partir de agora, votar e, pior, concorrer em eleições.

Ora, dados os elevados custos atuais destas máquinas, ainda não passa de uma fantasia supor que androides unidos consigam, de algum modo, interferir, como votantes, em resultados de eleições. Mas e quando robôs forem mais baratos e numericamente tão importantes quanto humanos ? Certamente um problema futuro a ser resolvido. Mais preocupante, no entanto, é a possibilidade de robôs como candidatos políticos. Pois, a julgar pela desenvoltura e pelo atrevimento demonstrados por Sofia diante da plateia saudita encantada, é fácil supor que uma máquina provida de inteligência artificial já seria plenamente capaz de “derrotar” nossos rasos políticos em debates eleitorais.

Isto não é, por si só, um problema, na medida em que os atuais atores políticos (presidentes, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores) já atendem invariavelmente antes a interesses escusos que financiam suas campanhas do que aos de quem os elegeu. Só que robôs políticos não cometeriam erros humanos – atendendo, com isto, ainda mais eficientemente os interesses de seus proprietários. Oligointeresses, neste caso, já que é bem difícil imaginar robôs que não pertençam a elites.

Mas o problema não termina aí. Pesquisando sobre Sofia, logo descobrimos que o clone cibernético da bonequinha de luxo apreende através daquilo que ouve. Ou, noutras palavras, do que lhe é ensinado. Isto quer dizer que sua conduta será sempre ideologicamente compatível com a moral e a ética implícitas no discurso orientador de sua “formação”. Prestem atenção, por exemplo, em sua fala jocosa, conclamando os empresários a expressarem sua simpatia pelo projeto por meio de cheques encaminhados após sua palestra. Tal exortação denota claramente a ideologia segundo a qual pesquisas científico-tecnológicas são de responsabilidade da iniciativa privada.

Notem, ainda, a rapidez da pergunta “devolvida” ao entrevistador, antes até que o mesmo concluísse sua fala (um robô impaciente ?…), procurando claramente plantar dúvidas sobre atributos que definem humanos como tais.

Não sei de vocês, mas eu tenho medo de robôs filósofos, que venham um dia a escrever os livros que lemos.

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Update 1: a escritora de ficção científica Nikelen Witter recomendou, em comentário sob uma postagem de divulgação deste texto, o filme Ex-Machina (2015), sobre a mesma temática instigante dos robôs empoderados. Verei o quanto antes. Só não incluo o link para o verbete do mesmo na wikipedia por que a sinopse é um tremendo spoiler.

Update 2: Zeca Azevedo, ao compartilhar este post: “Um robô que diz estar feliz quando se vê cercado de gente “esperta, rica e poderosa” é mais uma ameaça (porque é certamente um instrumento de manutenção do status quo) do que um avanço.” Na mosca !

 

Por que a farinata de Doria é tão ultrajante

De todas as iniciativas filantrópicas aventadas nos últimos tempos, não me lembro de nenhuma que tenha ensejado tantas reações de repúdio e indignação quanto a farinata – composto reciclado de resíduos alimentares destinado à distribuição, pelo prefeito João Doria de São Paulo, a seus habitantes em condição de miséria.

A um primeiro olhar, o gesto se afigura como uma afronta principalmente pela institucionalização da prática de dar aos mais pobres, como caridade, o que sobra aos mais ricos. Mas será que a repulsa à iniciativa é só de índole política, a saber, pelo reconhecimento e perpetuação da ideia, por meio de seu endosso pelo estado, de um modelo de sociedade composta, em suas extremidades, por vencedores (os que compram em supermercados e frequentam restaurantes) e perdedores (os que catam restos de alimentos jogados no lixo) ?

Ora, a caridade burguesa sempre foi exercida como redistribuição daquilo que já não serve mais às classes dominantes. Desde roupas que saíram de moda até equipamentos tecnológicos que se tornaram obsoletos, tudo que já não serve aos incluídos é repassado, tanto por indivíduos como por governos (por meio de campanhas de agasalho ou recolhimento de sucata informática), a quem não se encontra em posição de comprar aquilo de que precisa. O próprio lixo reciclável de vidros, papéis e garrafas pet entra nessa conta, que oportunamente traveste a responsabilidade pelo meio ambiente em projetos de geração de renda.

Por que, então, o reaproveitamento de resíduos alimentares proposto pelo prefeito de São Paulo desencadeou tanta contrariedade ? Claro está que o buraco deve ser um pouco mais embaixo. O clamor generalizado contra a farinata serve, entre outras coisas, para nos darmos conta de que o ser humano, independentemente de sua situação econômica, preza enormemente sua capacidade de sempre saber (ou pretender saber) o que ingere como alimento.

Se ninguém informasse que a farinata é composta de resíduos, a mesma seria consumida sem maiores restrições. Pois a coisa tem o aspecto de flocos de cereais – pelos quais os mais abastados pagam, aliás, um valor super inflacionado, supostamente por sua praticidade e alto valor nutricional, com a inestimável ajuda da publicidade. Só que, ao contrário dos produtos comercializados a peso de ouro por Kellog’s, Nestlé e afins, a farinata não vem numa embalagem com sua composição de nutrientes, rigorosamente padronizada,  estampada na embalagem. O que, por si só, gera desconfiança. Ou seja: quem a consumir jamais terá meios de saber o que está ingerindo, já que sua composição é variável, de acordo com a oferta de resíduos aportados a seu processo de fabricação.

Em situações extremas, pessoas com restrições alimentares a glúten, lactose, glicose ou coisa que o valha estariam impedidas de consumir a gororoba de Doria. Tampouco é possível vislumbrar vegetarianos aderindo à farinata. Mas estou só tergiversando. Afinal, vegetarianismo e dietas controladas são para quem pode; não para quem quer. Assim pensam políticos demagogos.

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Sei que este ponto de vista – i.e., o de que é inerente à dignidade humana poder discriminar todo alimento ingerido – é um tanto controverso. Em sua defesa, vale citar que são raros os casos em que indivíduos abrem mão da prerrogativa de selecionar, ainda que minimamente, aquilo que comem. Isto acontece, por exemplo, em presídios ou na luta pela sobrevivência após naufrágios e outros desastres com resgate demorado – nas quais há relatos, inclusive, de canibalismo.

Então, proponho, ainda em favor da premissa da necessária discriminação alimentar, uma hipótese alternativa, a título de demonstração por redução ao absurdo. Suponham que, ao invés da farinata reciclada de resíduos indiscerníveis, a prefeitura de São Paulo montasse uma rede para distribuir a seus habitantes mais pobres marmitas com alimentos que restaram em buffets, preparados por cheffs sob a supervisão de nutricionistas, com a identidade e o sabor de seus ingredientes preservados. Quero acreditar que tais quentinhas passariam longe de sofrer a mesma rejeição que a famigerada farinata. É fácil, também, supor que os custos (inclusive de energia) de uma rede assim de reencaminhamento de excedentes alimentares (descentralizada, envolvendo praticamente só embalagens) ficariam muito aquém daqueles de recolhimento, processamento e distribuição de resíduos em forma de farinata.

Não sou ingênuo, no entanto, ao ponto de supor que qualquer de nossos governantes idealizasse ou promovesse uma política social assim. Até por que jamais conseguiriam explicar a seus patrões do andar de cima por que raios os inúteis e incompetentes do de baixo deveriam comer a mesma comida pela qual pagam valores tão altos. As quentinhas gourmet minariam, assim, um dos maiores pressupostos neoliberais, que é a presunção à meritocracia, mãe de toda desigualdade.

Então, a farinata, mais do que uma solução infeliz e canhestra para um problema que aflige as metrópoles, traz em sua concepção, também e principalmente, a missão de lembrar, sempre que for servida, a noção doentia de que, em última instância, cada um faz por merecer aquilo que lhe é servido à mesa.

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As primeiras notícias que surgiram, semanas atrás, sobre a ração humana de Doria me trouxeram de pronto à memória o filme de ficção científica Soylent Green (no Brasil, No mundo de 2020), de 1973. Nele, uma superpopulação urbana disputava furiosamente uma ração, tal como a farinata, de distribuição governamental e composição obscura. Chamada soylent green, a coisa tinha o aspecto de um biscoito cracker verde. Ao fim da distopia, se descobre que soylent green era, na verdade, feito com restos mortais humanos reprocessados. 2020 é logo ali.

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Para saber mais sobre a farinata, seus idealizadores e promotores, leia isto e veja isto.