Impressões do isolamento: ruminações em tempos de COVID-19

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Resisti o que deu. Sou, no entanto, compelido a reunir impressões que me tomaram no início do isolamento nestes tempos estranhos de COVID-19. Decidi me isolar ao máximo possível ao perceber que pertenço simultaneamente a dois grupos de risco: o dos diabéticos e o daqueles com mais de 60 anos. Ademais, padeço há anos de uma tosse crônica, funcional, que, no clima paranoico (não sem razão) atual, é capaz de atrair, em ambientes públicos, olhares incômodos por parte de quem não me conhece.

Me conecto, por conseguinte, ao mundo quase exclusivamente por meio de redes sociais. Nestas, a primeira constatação óbvia é que jamais houve um trending topic, dominante em todas as conversações, tão hegemônico como o Corona Virus.

A irresistível mania de categorizar. Dentre a avalanche de enunciados sobre a pandemia, encontramos, nitidamente, dois tipos: 1) aqueles preocupados em 1.1) informar sobre o surto e sua prevenção e 1.2) outros, chistosos, que visam (ao menos assim suponho) aliviar a angústia da ameaça de contaminação por meio de tiradas engraçadinhas, mais ou menos na linha da outrora popular coluna de Seleções do Reader’s Digest chamada “rir é o melhor remédio”. Só que, na presente situação, rir de nada adianta. O contágio silencioso ameaça indiscriminadamente tanto os mais preocupados como os mais bem humorados. Em tal contexto, muito me tocou a seguinte postagem, publicada por um amigo cuja identidade, por uma questão de netiqueta, preservo (assim como em todas as citações subsequentes):

” Vai chegar a hora que tu não vai ter mais culhão de enviar meme de covid19. Então melhor reavaliar desde já… pelo menos não banaliza aquilo que é sério e que não vai te poupar. “

A mais pura verdade.

Outra postagem digna de nota foi compartilhada por um amigo médico que disse:

” Prá quem tá perguntando sobre como é ser da área da saúde durante o Corona Vírus: Sabe quando o Titanic tava afundando e a banda continuava tocando? Então, nós somos a banda. “

Auto-explicativa. Irretocável.

* * *

No último domingo, minha esposa presenciou verdadeiras batalhas campais no supermercado por, pasmem, água e papel higiênico. Na fila do caixa, ouviu de uma velhinha algo de causar vergonha aos contendores pelos produtos escassos:

” Eu passei pela guerra. Nessas horas, este é um tipo de atitude que não ajuda em nada. “

Ainda no supermercado, testemunhei algo que diz muito do comportamento corporativo em crises como esta. Sabemos todos do impacto simbólico de prateleiras vazias. É um daqueles signos indiscutíveis, favorito de reportagens televisivas, de que a coisa anda mal. Pois numa ida estratégica ao Zaffari, constatei que a prateleira de álcool (que uso, inclusive, em compressas para injeções de insulina) estava vazia . Próximo dela, alguns clientes insatisfeitos e um funcionário da loja falando num walkie-talkie. Fui atrás de outros insumos dos quais precisava. Voltando ao sítio do álcool, constatei que, para minha surpresa, as prateleiras há meses ocupadas pelos frascos do popular desinfetante estavam plenamente ocupadas por, pasmem, pacotões de papel higiênico – como se, com isto, conseguissem disfarçar a falta de um produto em alta demanda com outro, passando a impressão de mais perfeita normalidade.

* * *

Não imaginava, ao escrever, dias atrás, sobre o binômio colaboração X competição no comportamento humano, estar me debruçando sobre um tema de tamanha atualidade. Pois o COVID-19 é, dadas suas peculiaridades, o maior teste já imposto à humanidade em relação a sua vocação solidária ou, ao invés, egoísta. Dada a forma invisível com a qual circula entre nós, aliada à facilidade de contágio (pelo ar que respiramos), o Corona é uma ameaça cuja prevenção depende, muito mais do que de isolarmos os casos conhecidos de indivíduos infectados, de, outrossim, evitarmos contaminar os que nos cercam, sejam eles ou não caros a nós, antes de sabermos se estamos infectados. In short, protegermos os outros antes de a nós mesmos. Que a espécie humana passe no teste !

 

 

Uma resposta para “Impressões do isolamento: ruminações em tempos de COVID-19”

  1. Excelente texto! Eu tinha salvado – E SÓ LI AGORA – porque não tô nem conseguindo ler literatura, o que pra mim é péssimo, tudo porque tenho que ler um monte de artigos todo dia sobre este flagelo! Se alguém quiser acompanhar a coisa em tempo real é avassalador o dispêndio de tempo! Mas, seguimos… Concordei inteiramente com a tua reflexão. Thanks again!

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