Textos sombrios (iii): projeções nefastas a propósito da pandemia

Os primeiros casos, na longínqua China, pareceram eventos distantes cuja existência apenas admitimos 1) por ter tido, em algum momento, alguma instrução em geografia; 2) pela rápida circulação de notícias remotas típica de nossos dias ou 3) por topar vez que outra com algum chinês expatriado circulando entre nós. Até aí, os mais pobres de imaginação e/ou informação – i.e., a maioria – não deu muita importância.

A peste só se tornou parte da realidade palpável com o início, entre nós, da transmissão comunitária, a qual desencadeia, junto com medidas urgentes por parte de autoridades sanitárias, uma consciência coletiva da ameaça – tanto mais perigosa porquanto invisível. Súbito, todos passaram a enxergar os outros como possíveis vetores de contaminação.

Estamos neste momento da pandemia, no qual ainda é cedo demais para estimarmos o tamanho do impacto do medo do contágio no comportamento social, muito mais intenso do que no improvável caso de um apocalipse zumbi – no qual é sempre possível identificar imediatamente, por sinais externos visíveis e inequívocos, facilmente reconhecíveis, o perigo iminente representado pela aproximação de um indivíduo infectado, infectante e incurável.

Já se pode, no entanto, tendo como premissa a marcha dos acontecimentos numa mesma direção (hesitação na tomada de medidas contra a expansão da peste e consequente incerteza quanto a um ponto, futuro e ainda hipotético, de inversão da já famosa curva), bem como a ausência, até o momento, de uma vacina e protocolo de tratamento testados e eficazes, imaginar até onde poderia chegar a exacerbação de reações anti-sociais desencadeadas pelo supracitado medo. Dois sintomas deste ambiente falam por si só: a corrida às armas nos EUA e os quase linchamentos em toda parte (Tornaremos a isto adiante).

Aqui, se faz necessário esclarecer que de modo algum nos referimos à quarentena como uma medida anti-social.  Muito antes pelo contrário. Por que a quarentena, dada a invisibilidade da presença do vírus em seu período de incubação (a qual não permite, por sua vez, que contaminados se saibam contaminados por cerca de duas semanas, durante as quais poderiam contaminar muita gente), serve muito mais para prevenir a contaminação dos outros por parte de quem se isola do que, propriamente, destes últimos por parte de quem circula. Isto é facilmente demonstrável, já que a circulação de alguém testado positivamente para o coronavírus é potencialmente muito mais nociva a sociedade (i.e., pode contaminar muitos) de que a circulação de alguém que teste negativamente para o mesmo (a qual pode acarretar, no máximo, a contaminação do indivíduo saudável que circula). Assim, a quarentena pode ser definida muito mais como uma medida de proteção aos outros do que a si mesmo – o que, portanto, a qualifica mais como uma medida altruísta do que, propriamente, anti-social.

Os linchamentos. Mesmo que ainda não haja relatos sobre nenhum incidente fatal, já é possível se observar, em ambiente públicos, olhares incômodos, antes casuais mas agora sistemáticos, em direção aos que tossem ou espirram sem proteger o próprio rosto. Soube, por um comentário em rede social (este manancial de enunciações falsas, redundantes ou francamente desnecessárias a diluir o que realmente importa), que, dia desses na Ceasa, um carregador que espirrou sem tapar o nariz quase foi agredido, não fosse a intervenção rápida de agentes de segurança. Os nervos andam à flor da pele.

Também é perfeitamente compreensível, em tempos de peste como agora, o desaparecimento de produtos tidos como essenciais das prateleiras dos supermercados. Quem não riu, por exemplo, da corrida ao papel higiênico vista nos primeiros dias ? Eventos assim sugerem um comportamento de manada, em que todos correm na mesma direção sem saber ao certo por que estão correndo. Neste caso, quando todos viram um número de pessoas maior do que o habitual adquirindo papel higiênico, se pusessem, desesperadamente, a esvaziar as prateleiras do produto. Bastou, porém, que comerciantes, reconhecendo o fenômeno, repusessem imediatamente o mesmo, sinalizando, com isto, sua não escassez, para que a demanda voltasse à normalidade.

Bem mais fácil de entender, no entanto, é a escassez daqueles produtos recomendados para a prevenção do contágio, como álcool e água mineral (cujo abastecimento já foi normalizado com o estabelecimento de cotas máximas por consumidor), álcool gel (só encontrado a valores exorbitantes) e luvas e máscaras cirúrgicas, que sumiram do mercado.

Assim, mais do que a escassez ou a falta dos produtos supracitados, me causou um calafrio constatar, há algumas semanas do início da crise, um inusitado vazio nas outrora repletas prateleiras destinadas a pães industriais. Aqueles, brancos ou escuros, vendidos em sacos plásticos e conserváveis sob refrigeração por um tempo mais prolongado. Isto quer dizer que as pessoas estão se preparando para sobreviver à base de sanduíches numa eventual escassez de gás de cozinha, que certamente virá. Na mesma projeção, não é de todo inverossímil estarmos nos encaminhando para crises de abastecimento de eletricidade e água potável.  Que dirão de serviços de provimento de telefonia, internet, streamming e broadcasting (rádio e TV).

Que fique claro, no entanto, estarmos nos referindo aqui a crises de abastecimento de bens e serviços exclusivamente acessíveis à minoria da população – crises as quais se configuram, portanto, como legítimos white people problems (mais sobre white people problems adiante). Mas deixemos, por hora, de lado este exercício de pior cenário para nos concentrar sobre um sintoma, já documentado, potencialmente muito bem mais insidioso, conquanto aparentemente enigmático, a saber, a supracitada corrida às armas.

Por que, num contexto de contágio inexorável e potencialmente letal, alguns (sintomaticamente primeiro na competitiva sociedade norte-americana) se preocuparam em estocar armas e munições ? Um surto repentino de serial killers, veteranos desequilibrados de guerra, talvez representantes da supremacia branca, dando vazão a sentimentos homicidas ? Pouco provável. Antes, porém, de nos dedicarmos à hipótese mais verossímil, conquanto macabra, para esta tendência, olhemos um pouco mais de perto para um conflito social que mal começa a se delinear.

Devemos admitir que o capitalismo agonizante, em meio a todas as suas limitações, sempre logrou um certo equilíbrio entre oprimidos e opressores, nos quais os primeiros, pressionados pelas circunstâncias, toleravam sua própria expropriação pelos últimos. Foi este arranjo tácito que sempre manteve seguramente afastada a hipótese do grande levante – pesadelo maior de todo grande proprietário, já que pobres são, via de regra, em número muito maior do que ricos. Difícil, portanto, imaginar um cenário de confronto em que os últimos não fossem aniquilados pelos primeiros. Um equilíbrio altamente instável, se preferirem, eufemisticamente chamado de ordem estabelecida.

Surge a covid-19, a peste seletiva. Bem disse um indiano que as medidas de prevenção estão apenas ao alcance de uma minoria incluída, enquanto que, abaixo da linha de exclusão, a maioria da população se expõe impotente ao contágio e à morte. Ilustrativo disto é um meme, que circulou dias atrás mas de cuja origem não lembro, no qual um indiano (acho) afirmava que as medidas conhecidas de prevenção contra a expansão do coronavirus são, tipicamente um white peope problem, já que a maioria da população mundial vive ao relento ou em sub-habitações super povoadas e sequer tem água tratada corrente, o que dirá sabão, para lavar as mãos. (um doce para quem me ajudar a recuperar a citação, primorosa).

Neste contexto, já são comuns relatos de membros da extrema-direita que abraçam a nova peste como bem-vinda enquanto potencialmente capaz de promover uma limpeza social que já julgavam impossível.

Posto isto, não é difícil imaginar por que tantos norte-americanos estão comprando, como artigos para sobrevivência, armas e munições. Tornemos, por um instante, à hipótese do apocalipse zumbi. Se você estivesse armado e fosse ameaçado por um zumbi (dos velozes – pois, segundo a tradição do gênero, há os lerdos e os velozes, dos quais é impossível fugir correndo): você atiraria no mesmo ? Provavelmente sim, até por que, segundo a moral do apocalipse zumbi, é, mais do que lícito, praticamente obrigatório abatê-lo. Substituamos, agora, o zumbi por um sujeito infectado pelo corona. Não do tipo cordato, altruísta, que, ciente do possível auto sacrifício, busca o tratamento e o isolamento como sua contribuição para um bem social maior; mas, ao contrário, desesperado, consciente de seu pertencimento à classe dos excluídos “insalváveis” a que nos referimos acima, que foi deixado à própria sorte para morrer e na hipótese cada vez menos remota de um grande levante, insiste em invadir, senão sua casa, ao menos seu perímetro seguro de distanciamento social recomendável. Você não sabe (nem ele) se ele está infectado. Você atiraria nele ? Prefiro pensar que não. Mas não ponho a mão no fogo pela turma de arminha em punho.

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Mas basta, por hoje, de ideias sombrias. Relutei bastante em postar ou não estas projeções distópicas. Pensei inicialmente em reuni-las numa obra curta de ficção. Em vão, pois não consegui deitar sucintamente seus elementos constituintes (das crises de abastecimento aos linchamentos e armamento da população) na estrutura para a escrita de um conto. É que padeço do “mal do blogueiro”, i.e., saio detalhando e lapidando cada parágrafo, um depois do outro, no afã de tudo explicitar e sem deixar espaço algum para a imaginação do leitor. Me resignei, então, a meu gênero habitual.

Além disso, fui advertido por alguém muito querido, habituado a minhas ruminações pessimistas, a pensar, antes de publicar, se estaria prestando um serviço ou, ao invés, um desserviço. Mais hesitação. Por fim, concluí que exercícios de pior cenário possível não induzem desesperança mas, outrossim, são necessários para a emergência, inicialmente de hipóteses e, depois, de linhas de ação mais otimistas. O que quero dizer com isto é que, concomitantemente à espera de que a ciência nos ofereça, além de uma vacina, uma melhor compreensão de como inibir a rápida expansão do coronavírus, ainda muito novo, atenuar sua letalidade e mitigar seus sintomas, precisamos também acelerar a substituição, nas relações humanas, do paradigma competitivo, tão caro ao neoliberalismo, pelo cooperativo – impasse fundamental ao qual me refiro aqui.

 

 

Impressões do isolamento: ruminações em tempos de COVID-19

Resisti o que deu. Sou, no entanto, compelido a reunir impressões que me tomaram no início do isolamento nestes tempos estranhos de COVID-19. Decidi me isolar ao máximo possível ao perceber que pertenço simultaneamente a dois grupos de risco: o dos diabéticos e o daqueles com mais de 60 anos. Ademais, padeço há anos de uma tosse crônica, funcional, que, no clima paranoico (não sem razão) atual, é capaz de atrair, em ambientes públicos, olhares incômodos por parte de quem não me conhece.

Me conecto, por conseguinte, ao mundo quase exclusivamente por meio de redes sociais. Nestas, a primeira constatação óbvia é que jamais houve um trending topic, dominante em todas as conversações, tão hegemônico como o Corona Virus.

A irresistível mania de categorizar. Dentre a avalanche de enunciados sobre a pandemia, encontramos, nitidamente, dois tipos: 1) aqueles preocupados em 1.1) informar sobre o surto e sua prevenção e 1.2) outros, chistosos, que visam (ao menos assim suponho) aliviar a angústia da ameaça de contaminação por meio de tiradas engraçadinhas, mais ou menos na linha da outrora popular coluna de Seleções do Reader’s Digest chamada “rir é o melhor remédio”. Só que, na presente situação, rir de nada adianta. O contágio silencioso ameaça indiscriminadamente tanto os mais preocupados como os mais bem humorados. Em tal contexto, muito me tocou a seguinte postagem, publicada por um amigo cuja identidade, por uma questão de netiqueta, preservo (assim como em todas as citações subsequentes):

” Vai chegar a hora que tu não vai ter mais culhão de enviar meme de covid19. Então melhor reavaliar desde já… pelo menos não banaliza aquilo que é sério e que não vai te poupar. “

A mais pura verdade.

Outra postagem digna de nota foi compartilhada por um amigo médico que disse:

” Prá quem tá perguntando sobre como é ser da área da saúde durante o Corona Vírus: Sabe quando o Titanic tava afundando e a banda continuava tocando? Então, nós somos a banda. “

Auto-explicativa. Irretocável.

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No último domingo, minha esposa presenciou verdadeiras batalhas campais no supermercado por, pasmem, água e papel higiênico. Na fila do caixa, ouviu de uma velhinha algo de causar vergonha aos contendores pelos produtos escassos:

” Eu passei pela guerra. Nessas horas, este é um tipo de atitude que não ajuda em nada. “

Ainda no supermercado, testemunhei algo que diz muito do comportamento corporativo em crises como esta. Sabemos todos do impacto simbólico de prateleiras vazias. É um daqueles signos indiscutíveis, favorito de reportagens televisivas, de que a coisa anda mal. Pois numa ida estratégica ao Zaffari, constatei que a prateleira de álcool (que uso, inclusive, em compressas para injeções de insulina) estava vazia . Próximo dela, alguns clientes insatisfeitos e um funcionário da loja falando num walkie-talkie. Fui atrás de outros insumos dos quais precisava. Voltando ao sítio do álcool, constatei que, para minha surpresa, as prateleiras há meses ocupadas pelos frascos do popular desinfetante estavam plenamente ocupadas por, pasmem, pacotões de papel higiênico – como se, com isto, conseguissem disfarçar a falta de um produto em alta demanda com outro, passando a impressão de mais perfeita normalidade.

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Não imaginava, ao escrever, dias atrás, sobre o binômio colaboração X competição no comportamento humano, estar me debruçando sobre um tema de tamanha atualidade. Pois o COVID-19 é, dadas suas peculiaridades, o maior teste já imposto à humanidade em relação a sua vocação solidária ou, ao invés, egoísta. Dada a forma invisível com a qual circula entre nós, aliada à facilidade de contágio (pelo ar que respiramos), o Corona é uma ameaça cuja prevenção depende, muito mais do que de isolarmos os casos conhecidos de indivíduos infectados, de, outrossim, evitarmos contaminar os que nos cercam, sejam eles ou não caros a nós, antes de sabermos se estamos infectados. In short, protegermos os outros antes de a nós mesmos. Que a espécie humana passe no teste !

 

 

Textos sombrios (ii): o futuro do trabalho

Advertência: devo aqui ruminar mais um pouco na linha pessimista de meu texto anterior, desta vez sobre o que esperar, num futuro não muito distante, de uma civilização cujos indivíduos, principalmente nos últimos 500 anos, passaram cada vez mais a definir sua existência pelo trabalho.

Um ser humano típico, exercendo uma ocupação formal (i.e., com garantias e vínculos reconhecidos), passa, via de regra, durante sua vida, por três idades distintas, a saber, a formativa, na qual se prepara para ingressar no mundo do trabalho; a da produção, quando exerce a ocupação para a qual foi treinado; e a terceira, eufemisticamente chamada de “melhor idade” e geralmente associada à aposentadoria, na qual já não tem a oferecer à sociedade a mesma energia vital de outrora, sendo, portanto, dispensado dos esforços (mas não dos tributos !) exigidos dos mais jovens.

Se a ociosidade é melhor tolerada e aceita em idosos do que em gente mais jovem, tal se deve principalmente a razões econômicas como menor produtividade e custos mais elevados advindos de adoecimento. Tais imperativos são via de regra esquecidos ou ignorados com o uso de expressões como “terceira” ou “melhor” idade, que possuem uma carga semântica, respectivamente, neutra ou francamente mais positiva do que, simplesmente, velhice. Uma espécie de recompensa por uma vida dedicada a não se sabe muito bem o quê. Alguma dúvida, até aqui, sobre o fato de que a linguagem é, sim, ideológica ?

(da mesma forma que me incomodam anúncios de bancos com pessoas sempre sorrindo (quem já viu coisa parecida, i.e., rostos sorridentes num atendimento bancário típico, no mundo real ?), também tenho uma aversão cética em relação à propaganda de planos e serviços de saúde e previdência para idosos no qual os mesmos são retratados invariavelmente felizes. Tal situação não corresponde de  modo algum ao que se vê em instituições, beneficientes ou de luxo, na qual velhos recebem cuidados enquanto lá são deixados para envelhecer e morrer)

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A distinção geralmente aceita entre trabalho (o que se faz para (sobre)viver) e lazer (o que se faz por prazer ou enriquecimento espiritual pessoal) é uma relativamente recente na história da humanidade quando observada numa escala de tempo mais ampla.  Com efeito, desde nossos ancestrais caçadores-coletores, passando pela idade agrícola e até a idade média (deixando, é claro, de lado o trabalho escravo), jornadas de trabalho eram mais curtas, o trabalho facultativo, e não havia uma distinção clara entre o que o ser humano fazia pela própria subsistência ou apenas por prazer. Entre caçadores-coletores, por exemplo, canto, dança e histórias ao redor da fogueira eram uma necessidade tão vital quanto alimentação ou abrigo e, se alguém eventualmente não quisesse participar da caçada, não havia problema algum, pois seria de bom grado alimentado pelo bando (vide Economistas estão obcecados pela “criação de empregos”. E se trabalhássemos menos ?, no final do oitavo parágrafo).

É razoável, portanto, supor que a noção de trabalho como a temos hoje tenha se originado com a divisão de classes nas revoluções comercial e industrial – já que, antes, não fazia qualquer sentido a ideia de exploração do trabalho humano por terceiros. Foi só com a maximização do lucro obtido, primeiro com a comercialização e depois com a fabricação, de bens que passou a ser importante o aproveitamento de toda a força de trabalho, só limitado pelas conquistas trabalhistas. A partir daí a história é conhecida, com reivindicações sindicais e, mais recentemente, proteção da infância e reconhecimento de direitos iguais para mulheres.

Quanto ao lazer, é tolerado indiscriminadamente em idosos (já que “socialmente inúteis”); um pouco menos em crianças (só depois da realização dos deveres escolares) e muito pouco entre adultos. Pelo menos entre adultos trabalhadores, não ricos (rentistas). Notem que tanto adultos como crianças devotam suas melhores horas (aquelas em que estão mais dispostos) ao estudo e ao trabalho, lhes sendo concedidas para o próprio lazer apenas aquelas em que estão, na maioria das vezes, exaustos, só esperando o sono, por sua vez restaurador para uma nova jornada de esforços nos quais, muitas vezes, não percebem qualquer sentido. Mas não vou me deter nos bullshit jobs, tão bem descritos e estudados por David Graeber na obra que resenhei aqui. Graeber dedica seu livro “aos desempregados, que são quem efetivamente cuida dos outros”.

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Estudiosos de Oxford estimaram, já em 2013, a probabilidade de extinção, nos 20 anos seguintes, das principais profissões que conhecemos hoje. A lista (compilada por Harari em Homo Deus e citada aqui), encabeçada por operadores de telemarketing e corretores de seguros, é impressionante.

Face a esta realidade onipresente, não surpreende que agremiações de classes ocupacionais, reeditando o movimento ludista (trabalhadores que, no início da revolução industrial, quebraram máquinas num gesto desesperado para tentar manter seus empregos), tentem garantir a manutenção de suas profissões, as quais vão se tornando obsoletas face a avanços tecnológicos irreversíveis. Como, por exemplo, carteiros numa era de comunicações digitais; taxistas em meio a aplicativos de transporte; vendedores de lojas concorrendo com o comércio eletrônico; caminhoneiros (que já tiveram sindicatos poderosos, como mostrou recentemente Martin Scorcese em O Irlandês) em estradas cada vez mais povoadas por veículos autônomos; caixas em bancos e postos de cobrança de estacionamento em shopping centers e operadores em qualquer atividade outrora existente que, em tempos recentes, foi contemplada com o auto atendimento.

Quando o declínio progressivo da quantidade de postos de trabalhos em razão da automação crescente e da proliferação do do it yourself e do self service, não tardará o dia em que, em razão da necessidade minguante de trabalhadores, a divisão de classes, ainda hegemônica, entre patrões (proprietários) e trabalhadores (empregados), será rendida totalmente obsoleta. Harari estima que, numa futura sociedade voltada para o lazer, uma das únicas profissões ainda em demanda será a de programador de jogos. Tal contexto já foi bastante explorado em obras de ficção – como no filme de animação Wall-e (2008), rara distopia para o público infantil, onde uma humanidade ociosa e obesa migra para outro planeta, deixando para trás uma Terra suja e esgotada, povoada por robôs faxineiros.

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Alguém já observou, com muita propriedade, que atividades como a caça ou a pesca, que nos primórdios da história humana eram consideradas uma espécie de trabalho (ainda que, como dissemos acima, não havia uma distinção clara entre trabalho e lazer como a que temos hoje) são atualmente exercidas por muitos francamente como lazer. Ao mesmo tempo, sem entrarmos no mérito da questão sobre se cada uma das atividades abaixo arroladas se constitui ou não, no entender de Graeber, num bullshit job, é difícil imaginar algum prazer (exceto, é claro, o da gratificação econômica) experimentado pelo operador de uma máquina numa linha de produção industrial; por vendedores no comércio varejista ou e por burocratas dedicados ao tráfego de informações, seja em papel ou por meios digitais, em bancos, tribunais, cartórios ou repartições de toda sorte. Notem que uma parte considerável da população economicamente ativa exerce, em nome da própria subsistência, alguma destas atividades.

Reconhecer tal estado de coisas implica, necessariamente, num impasse em se tratando de educar indivíduos para o assim chamado mundo da produção. Como educar filhos para viver num mundo em que a sobrevivência (mais: a própria identidade individual) ainda depende fundamentalmente do trabalho quando não temos razões para acreditar que, num futuro não muito distante, o trabalho ainda existirá como fator hegemônico de definição da existência humana ?

Neste cenário, ainda tido pela maioria como pessimista mas cada vez mais aceito por muitos como realista, há quem se atreva a propor utopias capazes de lidar com o problema do desemprego generalizado. Uma destas vertentes é a da renda mínima universal (UBI, para universal basic income), que prevê o aporte pelo estado de uma quantia substancial a cada cidadão, suficiente para lhe garantir uma existência digna, independentemente do mesmo pertencer ou não à força de trabalho. O holandês Rutger Bregman é um dos principais representantes atuais desta corrente, esmiuçada em detalhe em sua obra Utopia para Realistas, de 2016.

Também digna de nota é a candidatura à presidência dos EUA, ainda neste ano, de Andrew Yang, que defende a concessão pelo governo de mil dólares mensais a cada cidadão. Antes, no entanto, de saudarmos a renda mínima como um projeto de esquerda e nos entusiasmarmos com a plataforma de Yang, é preciso que se diga que ele a vê, antes de tudo, como um modo ideal de estimular – pasmem ! – o empreendedorismo. Vem, meteoro.

Texto sombrios (i): sobre competição X colaboração

” Esta guerra só terminará quando restar apenas um homem. “

(livre adaptação de uma frase proferida pela personagem vivida por Bennedict Cumberbatch no filme 1917)

Tenho andado meio prá baixo. Tanto que o nome deste texto bem poderia ser “vem, meteoro”. Mas não quero incomodar eventuais leitores com queixumes da vida ou cansaço e apatia típicos da idade que avança. Antes, prefiro examinar o contexto profundo, bem abaixo do manto de reveses casuais, efêmeros, que por vezes oculta condições muito mais pervasivas e permanentes capazes de abalar nossa confiança na civilização em que estamos imersos. Falo, é claro, do paradigma entre competição e colaboração no qual pode ser enquadrada qualquer dinâmica comportamental coletiva.

Sempre que alguém, indivíduo ou instituição, deseja enaltecer o caráter benigno de um grupo, se refere à natureza colaborativa do mesmo. A batidíssima metáfora de engrenagens trabalhando em prol de um bem maior, utilizada indiscriminadamente para descrever o funcionamento de empresas, universidades, clubes, órgãos públicos e agremiações de toda sorte. Exploradores do trabalho alheio se referem eufemisticamente a seus subordinados como “colaboradores”. Coaches gostam de comparar o funcionamento de empresas saudáveis ao de uma orquestra. O próprio Harari afirma que a espécie humana se distingue de outros hominídeos pela capacidade de colaborar em larga escala.

As meias verdades. Pois por trás de toda iniciativa elogiada como colaborativa existe, conquanto nem sempre aparente, uma hierarquia competitiva – bastando, geralmente, para vê-la, olhar um pouco mais de perto.

Embora a colaboração domine o discurso politicamente correto, é a competição que regula virtualmente tudo do que participamos. Se por vezes não a reconhecemos, é por estarmos demasiado acostumados a ela. A competição está perfeitamente naturalizada em nossa cultura. Mal apreendemos a falar e já somos deixados, por vários anos, à mercê de uma escolarização que preza, acima de tudo e por mais que alguns assim não o admitam, um sistema de notas e conceitos que premia os melhor adaptados e detecta qualquer desvio. Tal sistema se propaga pela educação superior, tornando-se mais complexo (currículos, head hunters e “bancos de talentos”), estreitando o funil e culminando nos concursos públicos (cada vez menos) e demais processos seletivos. Uma realidade global da qual é impossível fugir.

A competição é saudada pelos mais jovens como um poderoso fator de progresso individual. Por meio dela – e só por meio dela ! – se pode chegar a lugares melhores do que aqueles em que estão os outros. Ora, é claro que ninguém quer que os outros se danem, desejando para eles, ao menos, um estado de bem estar social. Saúde, segurança, educação, moradia e comida na mesa. Com todos acima da linha de miséria, não há problemas de consciência capazes de inibir quaisquer sonhos de grandeza por parte dos mais ambiciosos. A grande fantasia meritocrática capitalista que, todavia, num mundo de recursos finitos, simplesmente não existe. Ou seja, para que uns sejam mais ricos e poderosos, é preciso, necessariamente, que a maioria dos demais seja mais pobre e submissa. Simples assim.

Redistribuição pressupõe colaboração ao invés de competição. Só que, para tal troca de paradigma, não bastaria nascermos de novo. Seria necessário que, antes, a própria espécie se enxergasse diferente. O amor parental, por exemplo. Por mais “de esquerda” que um pai seja, inevitavelmente reconhecerá o mundo como um lugar cruel, desejando para seus filhos posições privilegiadas –  isentas, na medida do possível, do sofrimento impingido à maioria, não medindo esforços ou tendo o sono tranquilo até atingir tal objetivo. São compatíveis com esta visão formulações filosóficas ultra radicais como o antinatalismo e o Movimento pela Extinção Humana Voluntária (VHEMT), que preconizam o fim da humanidade por meio da renúncia à procriação, a partir da constatação histórica de que o mundo, apesar de todo progresso tecnológico, vem se tornando um lugar cada vez mais hostil à vida. Embora o VHEMT seja, originariamente, de índole ambientalista, seu discurso se aplica perfeitamente à constatação da falta generalizada de empatia entre os homens (salvo, é claro, no caso muito particular da empatia entre semelhantes).

A caridade, por exemplo. Na maioria das vezes, se gasta muito mais para ostentar publicamente uma atitude de compaixão pelos mais necessitados do que, propriamente, ajudando os últimos. É só comparar todos os custos (do salão de beleza às vestimentas, à alimentação, à segurança, aos equipamentos, à publicidade, à energia, às emissões de carbono…) envolvidos na realização de eventos tais como banquetes filantrópicos ou shows beneficientes com os valores efetivamente arrecadados nos mesmos para ajuda humanitária. Quanto mais poderia ser direcionado para as causas contempladas simplesmente não se realizando tais eventos ?

Por aqui termina a parte “vem, meteoro” deste texto. A seguir, observações e especulações sobre a naturalização da competição em nosso imaginário e o que torna uma espécie eminentemente competitiva ou, ao invés, colaborativa. A irresistível busca de um modelo matemático (esta mania tão cara aos economistas).

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Ao contrário do pensamento “de esquerda”, que brota espontaneamente e de forma independente de incontáveis autores, o ideário “de direita” sempre foi uma construção fomentada por think tanks tais como a Atlas Foundation ou a Mount Pèlerin Society, mantidas, por sua vez, o mais anonimamente possível por bilionários com a finalidade de influenciar governos e mercados e, em última instância, fazer a cabeça de gente como Kim Kataguiri ou Fernando Holiday.

Dentre os argumentos mais caros ao campo de pensamento acima está a ideia de que a suprema eficácia da mão invisível do mercado se baseia em processos competitivos presentes na natureza, da sobrevivência dos melhores espécimes ao aperfeiçoamento genético. Jogada sem dúvida astuta, já que a simples invocação do nome de Darwin em apoio a qualquer argumento é por si só capaz de intimidar os contraditórios mais ousados – os quais são, por sua vez, relegados, ante os menos atentos, a uma posição francamente anti acadêmica, quase terraplanista. E assim, muito embora economia nada tenha a ver com biologia, está feita a mistura de alhos com bugalhos, cuspida aos sete cantos pelos mais pobres de espírito.

Mas voltemos ao binômio competição X colaboração na natureza. Embora elementos da duas possam ser concomitantemente reconhecidos na vida de muitas espécies, a colaboração é mais comumente associada às colônias de insetos enquanto a competição, aos grandes predadores. Tanto entre espécies (a aniquilação das presas) como intra espécie (a primazia ou, em última instância, sobrevivência do mais apto (o melhor caçador, no caso)).

Temos, então, ao menos duas variáveis determinantes do caráter mais competitivo ou colaborativo de uma espécie – a saber, número e tamanho. Pois insetos que colaboram em colônias são pequenos e numerosos enquanto predadores, grandes e, via de regra, solitários. Salvo, é claro, os pequenos bandos. É só comparar a vasta área de domínio de felinos numa savana com a enorme densidade demográfica de minúsculos formigueiros ou colmeias.

Deste modo, se pode afirmar com bastante segurança que quanto maior o indivíduo de uma espécie, maior a probabilidade de se tratar de um predador; e que, inversamente, quanto menor, mais chance de pertencer a um coletivo colaborativo. A esta altura, não faltará quem se lembre de inofensivos elefantes, bovinos, girafas ou baleias – mas, ora bolas, o que seria de qualquer regra não fossem as exceções ? Tratemos, pois, de refinar a equação: talvez o pequeno tamanho de uma espécie seja mais determinante de seu caráter colaborativo do que o grande porte de um comportamento competitivo. Ou, noutras palavras, que, em se tratando de determinar um comportamento colaborativo, o tamanho do bando seja muito mais importante do que o do indivíduo.

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Sem chegar, assim, a nada muito conclusivo (pensando bem, é melhor deixar a modelagem matemática para os economistas), esqueçamos um pouco o binômio competição X colaboração no reino animal para nos debruçarmos sobre o aparente paradoxo da espécie humana, de comportamento colaborativo (pelo menos assim quer Harari, ao nos distinguir de outras espécies, inclusive humanoides, pela capacidade única de colaboração em larga escala), não obstante seu porte avantajado, de um grande macaco, típico de predadores.

Além disso, a relação do homem com as outras espécies, já que a mera criação e/ou exploração de outros animais, seja para abate, produção em vida de outros alimentos e commodities (leite, ovos, mel, lã, etc.) ou tração, se configura, ainda que nem sempre em predação, em inquestionável dominação.

Nos ocupemos, pois, apenas da relação do homem com outros homens. Conquanto a tradição humanista prefira pensar no homem como essencialmente colaborativo em relação a seus pares, toda sociedade humana é hierarquizada, premiando com posições de maior remuneração, liderança ou prestígio aqueles indivíduos reconhecidos, mediante sofisticados instrumentos antropométricos, como melhores ou mais aptos. Isto vale tanto para as democracias liberais, onde empreendedores mais ousados triunfam e políticos mais astutos são eleitos, como para as sociedades mais igualitárias, nas quais todavia persiste a  distinção entre líderes e classes trabalhadoras.

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Tornando à instigante frase que serve de epígrafe a este post, entendemos que a humanidade somente escapará da auto aniquilação quando conseguir abrir mão de sua índole competitiva. Antes disso, porém, é preciso que cada indivíduo se posicione em relação a reconhecer a competição como um fato biológico, inerente à condição humana, como querem os adeptos à economia de mercado; ou se, antes, se trata de uma construção exclusivamente ideológica, invocada para agregar naturalidade e ares de “respaldo científico” à ideia de exploração do homem pelo homem.